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Em que acreditar se cada um prega uma coisa diferente?


     Primeiramente precisa entender que todos somos humanos e limitados. O que resta a nós, mortais, relativos, parciais, falhos, é comparar esses "pontos de vista" e com toda honestidade e coragem, confrontarmos nossos paradigmas e mudarmos, sem orgulho ou vergonha, sempre que necessário. Acredite, ninguém foge de interpretação e quem acha que defende o "evangelho puro e simples", sem nenhuma influência humana, é apenas mais um fundamentalista (e essa visão também é uma interpretação da vida, das coisas e de si mesmo), sendo que com esses não tem como haver diálogo (pois toda discordância nossa será tida como "heresia", "mentira" e "filosofia humana"). Então, deixe pra lá, pois não há como discutir (dedique tempo a quem está aberto para refletir).
     Devemos (para não enganarmos a nós mesmos) seguir o que sinceramente julgamos que seja mais coerente (sendo que o critério final sempre deve ser A REVELAÇÃO ABSOLUTA DE DEUS EM CRISTO). Para isso, não viveremos na ilusão de esperar que tudo caia do céu, que o Espírito Santo resolva cair em nossa "preguiça" de ler, de estudar, de meditar e resolver do nada revelar a nós cada detalhe da compreensão da fé cristã. Não! O Espírito nos revela Cristo, nos direciona para olharmos para Ele. Agora a compreensão e a espiritualidade que vai desenvolver em torno disso é por sua conta (mesmo que veja o termo "teologia" quase como um palavrão. Só não entende que toda compreensão acerca de Deus, da vida e da relação entre ambos é uma teologia, "oficial" ou não. No fundo, até o ateísmo é uma teologia).
     Reconheça sua limitação, sua incapacidade, sua parcialidade e assim (além de não ficar condenando quem não pensa como você) não terá opções a não ser render-se ao Espírito e por gratidão (e não, achando que agradará a Deus ou que irá conquistar algo da parte dEle) desejará aprender mais, entender mais, procurar sentido nas coisas, amar mais e viver mais em conformidade com Sua vontade.
     O que essa página apresenta é apenas uma dessas interpretações relativas acerca da revelação absoluta que ocorreu em Cristo. O absoluto, por definição, não pode ser contido em seres relativos (como nós, humanos). Nossa compreensão sempre será parcial, imperfeita, porém obviamente, se a defendo, é porque, após comparar com algumas outras (pelo menos as principais), foi a que considerei mais provável e mais coerente. Não defenderia algo que eu acreditasse que estivesse errado, porém não me coloco como referência absoluta para definir essa questão. Ou seja, acredito que eu esteja certo sim, porém sou consciente que, por ser imperfeito, eu erro (e muito), logo, sempre poderei estar errado (inclusive no que digo neste exato momento, Rrs).
     Então busque com sinceridade e inteligência avaliar tudo, comparar, criticar, pensar e ver se faz sentido. Não aceite tudo que lhe ensinam. Outras páginas podem lhe ensinar inverdades. Essa página também. Por isso leia, medite, estude, corra atrás, analise e julgue. Não seja um cego guiado por outros cegos. E sempre confronte o que você defende. Veja se é coerente mesmo e se essa sua compreensão subsiste após comparar com outras abordagens.
     Não tenha medo. Não fique preso a algo apenas por ser conveniente, por vergonha, por medo de ser rejeitado ou mal interpretado pelos amigos ou quem sabe por receio de perder os benefícios e o status que tem perante o seu "grupo". Seja honesto com sua consciência!
     É o que posso sugerir. Do contrário, estará enganando a você mesmo, defendendo algo que no fundo não vê sentido ou algo que tem medo de confrontar e de descobrir que está equivocado. Seja corajoso e não tenha medo de mudar.
     Adianto que no início é doloroso, a gente se sente culpado, indignado, frustrado, injustiçado. Queremos negar, rejeitar, mas toda mudança é assim. Vem uma momentânea insegurança, ficamos meio perdidos como alguém que está em um quarto diferente e escuro. Aos poucos vamos compreendendo as coisas, as coisas vão clareando, fazendo sentido. Não é fácil trocar um "chip" implantado na mente. Mas depois que se livra dele, surge paz, alegria, gratidão e desejo por aprender mais e mais algo que lhe traz consciência e liberdade.

Autor: Wesley de Sousa Câmara 

O Natal e os seus símbolos


Atualizado em 10/12/2014
     Ao contrário do que o título sugere, não farei uma descrição detalhada das origens dessa comemoração, nem de seus símbolos (embora cite algumas neste texto). E tenho três motivos para isto: primeiro, devido à existência de explicações contradizentes para um mesmo fato (muitas delas, frutos de pura especulação); segundo, pois já existem centenas de páginas na internet dedicadas ao assunto; terceiro, porque pretendo apenas colocar o meu ponto de vista e não, fazer um apanhado de informações históricas. Mas, afinal, devemos ou não comemorar essa data? O que o Natal realmente representa? Podemos trocar presentes e colocar uma árvore ou um presépio em nossa casa? E o que dizer sobre o Papai Noel?
     Antes de tudo, devemos entender o que é o Natal. Se perguntarmos a qualquer pessoa, a reposta quase sempre será: “é a comemoração do nascimento de Jesus Cristo”. Mas, na verdade, é (em teoria) muito mais do que isso. O Natal representa o nascimento não apenas de Jesus Cristo encarnado, mas também de uma nova vida, que surge em cada um de nós, a partir do momento em que O reconhecemos como nosso Senhor. Porém, sabemos que na prática o que quase todas as pessoas celebram é um Natal apenas de exterioridades, ou seja, mais uma data de festa, mais um feriado.
   Para ser mais didático, analisarei alguns argumentos contrários a celebração do Natal, que ao meu ver são muito superficiais e inconsistentes. Em seguida, concluirei com minha opinião e farei algumas considerações importantes sobre o assunto.

1 - Jesus não nasceu em 25 de dezembro = Que diferença isso faz? Segundo estudiosos, uma data mais provável seria o mês de setembro, outros ainda apontam abril. De qualquer forma, a gratidão pelo “nascimento” de nosso Salvador precisa estar dentro de nós em todos os dias do ano. A data escolhida para uma comemoração não importa. É como adiar a comemoração de nosso aniversário para fazer uma festa conjunta com um amigo que nasceu depois. A escolha de uma data, independente de qual seja, é útil para representar historicamente o fato, e (teoricamente) serve para as pessoas se reunirem para celebrar o maior dos nascimentos. 

2 - A bíblia não manda celebrar Seu nascimento = É uma afirmação verdadeira. Realmente as Escrituras não possuem esse mandamento, assim como não ordenam as demais milhares de coisas que fazemos ou que comemoramos. Não há mandamento para o dia da bíblia, nem para festividades de grupos de jovens ou de senhoras nas igrejas, nem para celebrarmos dia das mães e sequer há mandamento para criarmos religiões e denominações religiosas. Quantas coisas você faz em seu dia que tem "ordem" bíblica? Quase nenhuma, com certeza. Enfim, celebramos o nascimento de tantos amigos e parentes, por que não podemos celebrar o nascimento de nosso Senhor? Muitos alegam que só devemos comemorar Sua morte, mas para alguém morrer, tem que nascer, certo? Jesus NASCEU, MORREU e RESSUSCITOU. São 3 momentos históricos na vida de Jesus Cristo homem e qual o problema em comemorar qualquer um desses acontecimentos? Alguns poderão ir ao outro extremo ao afirmarem que temos o dever de celebrar, pois os anjos celebraram o nascimento de Jesus (Lucas 2:13,14) e pelos magos/sábios do oriente terem ido até o menino Jesus com presentes, o que seria outro radicalismo. Devemos ter cuidado com esse “farisaísmo”, para não permitir o que Deus proibiu e para não proibir ou colocar como mandamento o que Deus considerou indiferente. O Evangelho não é uma lista de regras, de "pode e não pode". O Evangelho gera consciência e ação sempre em coerência com Jesus. Aí pergunto: comemorar ou deixar de comemorar essa data fere a forma de viver ensinada por Cristo?
     Como diria o irmão Hermes Fernandes: "Por que comemoro o Natal? Simples! Jesus nos ensinou a orar que a vontade de Deus fosse feita "assim na terra, como no céu". Logo, se o céu celebrou o natal com direito a coral de anjos e tudo, por que a terra não o comemoraria?"

3 - A festa centraliza a comida e a bebida, esquecendo o lado espiritual = Esse é um grande problema. O Natal tornou-se apenas um feriado, uma data em que se ganha presentes e uma ocasião para comer e beber à vontade. Poucos param para pensar no que deveria representar este momento. Porém, essa é uma questão pessoal e, se isso é um erro, está em cada um que pensa dessa forma e não, na celebração propriamente dita.

4 – Tornou-se uma oportunidade de comércio = Também é verdade e os comerciantes sabem muito bem disso. É um período de aumento estratosférico nas vendas, seja de utilidades para presentes, de roupas ou de alimentos. Devemos ter cuidado para não ficarmos reféns desse capitalismo cruel, que faz com que pessoas que mal tem o que comer deixem de pagar suas contas para comprar produtos típicos dessa ocasião. Se você tem boas condições financeiras e quer gastar com presentes e comidas, cada um faz o que bem entender com seus recursos. Se não tem, não se sinta pressionado a fazer o que os outros fazem. Mas sejamos sinceros: praticamente todos os trabalhadores se beneficiam financeiramente dessas épocas (seja em comércios, empresas no geral, fábricas, autônomos e até trabalhadores rurais). Será que você abre mão do aumento do lucro que tem nesse fim de ano? Dificilmente, né?

5 – O Natal está baseado em cultos a deuses pagãos = Não há um consenso sobre a origem do Natal, mas as evidências parecem apontar o início dessa comemoração no século IV, por instituição da Igreja Católica Romana. A data escolhida (25 de dezembro) talvez seja devido ao solstício de inverno, que marcava o início dessa estação no hemisfério norte. Os romanos usavam essa data para celebrar a Saturnália (homenagem ao deus Saturno) e adorar Mitra (deus da luz). Assim, embora as inúmeras evidências apontem para uma data distante de dezembro para o nascimento de Jesus, a Igreja  adotou esse período numa tentativa de “cristianizar” os pagãos.
     Aí alguns dirão: "Está vendo? É uma festa de origem pagã!" A esses eu respondo: muitas coisas que usamos ou fazemos atualmente tem origem pagã. Devemos lutar sempre pela imparcialidade. Se condenarmos tudo que tem essa origem, devemos abolir os templos religiosos (provável origem suméria), as alianças de casamento (origem hindu ou egípcia), as maquiagens (origem no Egito Antigo)... Sem falar nas celebrações de dia dos namorados, nas cerimônias de casamento, nos vestidos de noiva e no próprio cristianismo, que foi institucionalizado como religião romana no quarto século, de forma que o sincretismo com outras religiões da época é evidente. Ou quem sabe deveríamos abandonar o nosso calendário (que é solar e que foi usado inicialmente pelos egípcios, depois alterado muitas vezes, inclusive pelos romanos. Você sabe que o mês de maio refere-se à deusa Maia? E que o mês de fevereiro refere-se ao deus Februarius, a quem os romanos ofereciam sacrifício pela espiação de seus pecados?). Rejeitar o Natal e aceitar o calendário gregoriano não me parece coerente. Poderia ainda citar a celebração de ano novo (Reveillon), que foi adotada por muitos povos antigos, sendo estabelecida em 1º de janeiro pelos romanos. Mas o fato de terem essa origem nos impede de adotarmos tais "costumes"? Não é porque um gato preto é sinal de má sorte para os supersticiosos que eu não possa ter um de estimação.
     A Páscoa, por exemplo, tem um significado para os cristãos, outro para os judeus e diversos outros para os demais povos. Algumas civilizações celebravam o fim do inverno e início da primavera no mesmo período (março). Mas o significado de cada evento depende da cultura em questão e, mais do que isso, da consciência de cada indivíduo. O dia 12 de outubro é dia de "Nossa Senhora Aparecida" para os católicos, mas para os evangélicos é apenas "Dia das Crianças". Percebe que a data tem a ver não com a essência e sim, com o significado que atribuem a ela? Será que alguém comemora o Natal pensando no diabo? Pelo menos eu não conheço ninguém assim...
     E o mais triste é saber que nos dizemos cristãos, mas ao invés de seguirmos os ensinos de Cristo, vivemos como os fariseus de Seus dias, com uma ideia meramente religiosa. Aplico a esse contexto uma citação de Ed René Kivitz: "Na cultura religiosa o impuro contamina o puro. No ensino de Jesus o puro limpa o impuro."

6 - Os enfeites de Natal são verdadeiros altares de deuses da mitologia antiga = A origem desses adereços é extremamente controversa e podemos encontrar várias explicações para um mesmo objeto, ou seja, há muitas especulações que são tidas como verdades.
     A árvore de Natal pode ter se originado no século XVII, na França. Com relatos de que árvores floresceram no dia do nascimento de Jesus, muitos passaram a enfeitar pinheiros em referência a esse acontecimento. Outros povos adornavam árvores (em dias festivos), que tinham um significado de vida e de esperança. Uma fábula babilônica diz que o pinheiro simboliza Ninrode, um perverso homem que teria casado com sua mãe. Outras evidências apontam para uma origem na Alemanha, quando Martinho Lutero enfeitou árvores para ilustrar a crianças e a pessoas próximas a ele como seria o céu no dia do nascimento de Jesus Cristo ou ainda como teria sido uma paisagem que acabara de presenciar na floresta. Uma terceira explicação diz que ele pretendia mostrar com os enfeites da árvore, os frutos do Espírito que brotam naqueles que se entregam Cristo, sendo alimentados pela "seiva divina".
     Esses enfeites seriam de papéis coloridos e doces, sendo, com o tempo, substituídos por: bolas (representando os frutos e a fertilidade), estrelas (chegada de Jesus), anjos (anúncio do nascimento do Cristo), sinos (que anunciam grandes acontecimentos), velas (a “luz do mundo”), guirlanda (esperança de uma vida melhor), entre outros. 
     Adeptos de algumas seitas vêem nesses adereços um significado próprio, sendo que cada cor traria uma energia. A posição de cada objeto interferiria nas “forças” ocultas e até a sequência de montagem desses enfeites deveria ser de uma forma específica. Para mim, a árvore é apenas um belo adorno, da mesma forma que uma faca pra mim não é arma e sim, instrumento para cortar alimentos; do mesmo modo que um gato preto para mim é apenas um lindo animal; da mesma forma que uma vela pra mim é apenas um item útil em caso de falta de luz. 
     Outro ponto muito questionado é o Papai Noel. Provavelmente, tenha se originado em 280 d.C, data do nascimento do bispo Nicolau (posteriormente considerado "santo" pela Igreja Católica), na Turquia. Esse homem teria boas condições de vida e ajudaria pessoas carentes, dando-lhes presentes e dinheiro. Com o tempo, sua imagem foi associada ao Natal, sendo que a característica roupa vermelha (que até então era verde) surgiu apenas em 1886 e foi difundida por todo o mundo, principalmente a partir de 1931, quando a Coca-Cola utilizou a imagem do “bom velhinho” como propaganda. Hoje, em nossa cultura, é um dos principais símbolos do Natal, fazendo parte da imaginação das crianças e simbolizando a generosidade.

     Podemos adotar esses símbolos? O que podemos concluir a partir da bíblia?
     No livro de Daniel encontramos quatro judeus que foram levados pelos caldeus para servirem no Império Babilônico, sendo eles: Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Os eunucos do império trocaram esses nomes por termos babilônicos (Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abednego), que faziam referências às divindades daquele povo, e não observamos rejeição por parte desses judeus (e Deus não os abandonou por isso). Mas quando deveriam se prostrar diante de outros deuses, não o fizeram, por temor ao Senhor. É nítido que se o costume “pagão” não tem intuito de adoração e se não é "imoral", não faz diferença alguma. Deus nunca foi refém de culturas, de idiomas, de religiões ou de tradições.
     Na primeira epístola aos Coríntios, Paulo ensina sobre os alimentos sacrificados aos ídolos e o mesmo ensino pode ser aplicado ao Natal e à adoção de seus símbolos. O apóstolo ensina que se há um único Deus, não há sentido falar em coisas sacrificadas aos deuses, afinal são apenas ilusões e enganações. E, se cremos que existe apenas um Deus, por que nos preocupamos com entidades pagãs? Paulo dizia ainda que poderíamos comer de tudo, desde que não escandalizássemos os “fracos na fé”. Portanto, se tenho consciência disso, onde está o erro em ter uma árvore de natal em casa, por exemplo? Como não devemos causar escândalo para quem ainda está com uma “venda” nos olhos (não digo aqueles que já ouviram o Evangelho há anos e insistem em dar mais importância aos seus preconceitos e às suas visões religiosas do que à Palavra de Deus e sim, aqueles que estão começando agora a caminhada com Cristo), o que podemos fazer é ensinar o Evangelho a esses indivíduos e não colocá-los na sala de nossa casa enquanto esse enfeite estiver lá ou enquanto não entenderem a real mensagem de Jesus. Obviamente, então, na minha opinião, jamais deveríamos colocar uma árvore ou um presépio num local em que vários irmãos "imaturos na fé" e que ainda se alimentam de "leite espiritual" terão acesso (a menos que possamos explicar um a um o motivo da existência daquele enfeite ali). Embora não haja nenhum erro na adoção ou rejeição do enfeite, não podemos ser motivo de tropeço (já que, infelizmente, podem achar que estamos fazendo essas coisas como idolatria).

I Coríntios 8:6-9 = “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. Mas nem em todos há conhecimento; porque alguns até agora comem, no seu costume para com o ídolo, coisas sacrificadas ao ídolo; e a sua consciência, sendo fraca, fica contaminada. Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta. Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos.”

     Talvez você me pergunte: "mas o que está por trás do Natal, além de ser pagão, tinha a intenção original de adorar ídolos. Como vamos adotar algo que tinha claramente esse objetivo antes de ser modificado pelo cristianismo?"
     Então lhe respondo tentando seguir a  mesma lógica de Paulo: o que determina o sentido de um ato é a motivação de quem o pratica. Quando Paulo fala que "poderia-se comer qualquer alimento, mesmo os sacrificados aos ídolos, desde que a consciência não o acusasse e desde que não ferisse a consciência dos novos na fé", ele nos ensina pelo menos duas coisas:

1 - Paulo estava falando exatamente sobre alimentos que foram feitos COM O OBJETIVO DE ADORAR OUTROS DEUSES/ÍDOLOS. E parafraseando Paulo: "se você sabe que essas pessoas estão no engano e que os ídolos nada são, por que não comer? Se está convencido disso, se tiver vontade, coma. Mas se tem medo ou dúvidas, não coma, não porque os ídolos farão mal a você e sim, porque a sua consciência ainda fraca lhe acusará e será danoso."

2 - Mesmo se você crê que tudo é de Deus... que "todas as coisas são puras para os puros e que tudo é impuro apenas para os impuros"... que "o que contamina o homem é o que procede do coração e não algo exterior"... que em Cristo o puro é que purifica o impuro e o impuro jamais tem poder para contaminar o puro... Mesmo diante de tudo isso, cuidado para não escandalizar seu irmão, pois deve amá-lo como a ti mesmo. Então, por amor a ele, embora tudo lhe seja permitido, nem tudo lhe convém. Às vezes será prudente abrir mão de alguma coisa, até que seu irmão possa entender essa realidade que Cristo nos trouxe, que deixa toda essa questão religiosa praticamente sem valor algum. Então não imponha nada a seu irmãozinho, pois a consciência dele pode ainda não ser a sua. Não o escandalize. "A fé que tu tens, tenha para ti mesmo". É assim que eu resumiria todo o ensino de Cristo e de Paulo em relação a isso.

     E saiba: da mesma forma que algo que foi originalmente criado para ser positivo pode ser usado para o mal, algo criado com um objetivo não recomendável pode ser usado para o bem. Quem dá significado a cada coisa é o usuário. Por exemplo: o "Viagra" foi criado originalmente para tratamento de problemas cardíacos e depois passou a ser usado para impotência sexual; a faca foi criada para facilitar nossas atividades diárias, mas alguns a usam como arma branca para tirar a vida; medicamentos foram usados para aliviar/curar doenças, mas alguns usam para o suicídio... O objetivo da criação de cada evento ou objeto perde o significado quando quem a usa atribui a ele um outro objetivo. Da mesma forma que o cristianismo como religião surgiu como uma esperta manobra política de Constantino, alguns segmentos, mesmo estando sobre essa origem "pagã", mantém a sincera pregação da Palavra de Deus. Da mesma forma que galinha preta é, para alguns, item para um ritual de magia negra, para mim é uma ave como todas as demais galinhas. Da mesma forma que alguns batem palmas para chamar uma entidade espiritual, eu bato para reconhecer a bela apresentação de um artista. O significado de cada coisa quem dá somos nós. Se alguém faz a mesma coisa que eu com outros fins, essa pessoa é responsável por ela. Eu respondo pela minha motivação e significação.  
  
     Infelizmente o "Natal moderno" não representa com fidelidade o contexto histórico do nascimento de Jesus. Nessa celebração, o que fazemos são grandes festas, com grandes banquetes, vestimos as melhores roupas e criamos belíssimas decorações. A lembrança do real motivo do evento acontece apenas quando há um presépio e o nosso coração está quase sempre apenas envolvido com a troca de presentes. Ou seja, a simplicidade da manjedoura foi trocada pelo glamour de uma festa que valoriza apenas a exterioridade e, de forma inevitável, exclui os menos favorecidos economicamente, que nesse período do ano, precisam se contentar com as "esmolas", sobras ou presentinhos dados por aqueles que possuem mais dinheiro. Enquanto a criança rica não vê a hora de chegar o dia 25 de dezembro para ganhar um belo presente, a criança pobre chora porque o amiguinho a desprezou, já que seus pais não tem dinheiro para comprar o brinquedinho que ela sempre quis e a bela roupinha para usar nessa data. Percebe como nosso Natal não tem nada a ver com Jesus? Enquanto Cristo veio ao mundo pelos ricos e pelos pobres, a festa apenas valoriza os que possuem algum recurso financeiro; enquanto Jesus nasceu em uma manjedoura, em uma situação precária, o Natal nos traz uma aparência luxuosa...
     Uma vez que reconhecemos que essa festa está totalmente fora de contexto, podemos agora ter um posicionamento crítico. Seria fantasia imaginar que poderíamos mudar uma das celebrações mais tradicionais do mundo, pois já faz parte da cultura dos povos, porém podemos resgatar a essência do Natal, não por fora (na festa propriamente dita), mas no coração de cada um de nós.
     Como vimos anteriormente, os argumentos contrários à nossa participação nessa festa não parecem muito consistentes, portanto se nos reunimos com nossa família e amigos no Natal não significa que temos uma visão egoísta sobre essa data; o fato de trocarmos presentes não significa que não temos consciência do verdadeiro "presente" que recebemos (na história) há cerca de 2000 anos; ter um enfeite do Papai Noel em casa não significa que alguém o idolatra como um santo ou que o coloca como mais importante do que Jesus...
      Pactuando ou não com essa simbolização, o que determina se temos o verdadeiro Natal em nós é o nosso coração. Cada um tem a liberdade de comemorar esse Natal interior, que é o único que tem valor. O Natal do coração não requer nenhum dinheiro e não acontece apenas um dia no ano, e sim, todos os dias, através do Evangelho manifestado em nós. Dessa forma, não apenas comemoraremos, mas também viveremos esse Natal. Fazemos isso quando alimentamos o faminto e quando ajudamos o necessitado; quando damos um brinquedo àquela criancinha "de rua" que vemos todos os dias; quando ao invés de comprarmos um panetone, compramos dois e damos um para aquela família pobre ou para aquele mendigo que está jogado a 100 metros de nós... O Natal como festa, se for desacompanhado do "espírito natalino de amor e solidariedade" será hipócrita e gerará apenas maus frutos.
     Portanto, vamos aproveitar esse período de festas para fazer uma profunda reflexão sobre o amor incomparável de Deus, que encarnou (nasceu), viveu, morreu e ressuscitou por mim e por você. Vamos reconhecer isso com uma mudança nas nossas atitudes, na nossa forma de ser e de encarar o nosso próximo, procurando sempre viver como Ele nos ensinou. Pode montar sua árvore, construir um presépio, iluminar sua varanda, desejar "Feliz Natal", fazer uma ceia com a família, trocar presentes... Isso tudo é bom, pois estaremos reunidos em amor, em comunhão, com aquilo que é o foco do ensino de Cristo: o nosso próximo (sejam amigos, família ou desconhecidos). O que é contrário ao que Jesus ensinou é todo tipo de radicalismo legalista, fanatismo e "farisaísmo hipócrita", a ponto de satanizar tudo o que temos em nossa volta. Essa rejeição não tem poder contra a carne e não gera bons frutos, nem consciência. Porém, lembre-se que a única coisa que tem valor para Deus é o Natal que faz nascer em você uma nova criatura e que, todos os dias, o constrange em amor a viver como Jesus, ajudando sempre de alguma forma aqueles que mais necessitam de você. E se mesmo assim você desejar não comemorar esta data, fique à vontade. Da mesma forma que Deus nunca proibiu essa celebração, nunca a ensinou como indispensável a nenhum de nós. A festa não tem uma função espiritual, mas se bem aproveitada, pode ser uma ótima oportunidade de ensinar a todos o verdadeiro significado do nascimento de Cristo, além de estreitar amizades e de fazer nascer (ou recuperar) relacionamentos humanos. Não seria isso um ótimo Natal? Aja de acordo com sua consciência desenvolvida no Evangelho e não julgue seu irmão por aceitar ou por rejeitar o Natal, afinal, você e ele tem liberdade para assumirem responsabilidades e fazerem escolhas, sendo que no que diz respeito a esta data, não há nenhuma recomendação específica da parte de Deus. 

Romanos 14:14 = “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.”

Colossenses 2:16-17 = "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo."

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Tenho que dar dízimo na "igreja"?


     Dízimo nada mais é do que a forma judaica de aplicar um princípio divino que sempre foi (e sempre será) válido: a generosidade. Os que tem mais ajudam os que tem menos a fim de que ninguém da comunidade tenha falta de nada. Esse é o espírito do Reino de Deus. Por isso que quando estamos em Cristo temos uma vida em abundância, pois nos ajudamos em tudo, logo, ninguém tem falta de nada.
     Os judeus resolveram estipular que 10% da produção agrícola seria destinada ao sustento dos sacerdotes/levitas e das pessoas necessitadas (órfãos, viúvas e estrangeiros). De forma geral, extremamente resumida, isso é dízimo. Claro que a ideia do dízimo surgiu muito antes dessa época, mas aplicação firme mesmo, ocorreu nesse contexto.
     Hoje temos que dar "dízimo"? Claro que não. Basta um mínimo do mínimo de noção histórica do contexto judaico pra entender que isso tinha um objetivo definido. Era alimento pro sustento dos que não tinham renda. Não era pra luxo, pra construções, pra manter status... O dízimo era uma estratégia deles. Nós podemos ter as nossas. Não é questão de regra; é questão de manter o princípio divino: amar ao próximo e ser generoso. Não aceite descontextualização de textos, principalmente o de Malaquias 3. E lembre-se sempre: quando alguém citar um texto bíblico, pergunte "quem escreveu, por que escreveu, para quem escreveu, em contexto escreveu, com que objetivo escreveu". Isso dificultará que textos com um direcionamento específico a uma pessoa ou a um grupo seja usado fora de contexto, como por exemplo, para insinuar que Deus nos ameaça ou que faz barganha conosco. Mas e se o irmão quer dizimar de todo jeito? Deixe ele! Cada um dá o quanto quer, como quer, onde quer e chama sua contribuição do nome que quer. Não cabe a você ficar implicando. Historicamente o termo "dízimo" não faz muito sentido (até porque sempre foi comida, mesmo já existindo moeda na época), mas se a pessoa quer usar esse nome, não é isso que a fará menos cristã que você. Cada um siga sua consciência...
     No novo testamento o que vemos? Uma instrução dos apóstolos (principalmente de Paulo) para sermos generosos. Oferecermos parte de nossos recursos (sem porcentagem definida, dando de acordo com a posse e principalmente: com o desejo do coração) para ajudar as pessoas necessitadas. É o mesmo ensino de Jesus. Sempre essas "ofertas voluntárias" visaram o benefício dos carentes. Não há outra indicação. Agora se hoje inventam mordomias e monstruosos palácios/catedrais pra manter, aí é por conta desses. Tipo: "Quem inventa aguenta", afinal, nunca o objetivo foi esse... 
     Então tenho que contribuir financeiramente com o grupo a que pertenço? Aí é questão de bom senso. Em Cristo, nada é por obrigação. Tudo é por amor, consciência, gratidão e adoração. Se você se reúne com algumas pessoas, obviamente algum gasto terão (mesmo que seja na casa de um amigo), então, desde que não seja pra manter mordomias, claro que você deverá contribuir (se tiver condições, é claro. Se não tiver eles é que devem contribuir para lhe ajudar). Juntando um pouquinho de cada um, vocês podem se reunir sem que fique custoso pra ninguém. 
     Outro aspecto, e ainda mais importante é: Jesus nos ensina a fazer o bem ao necessitado. Então o que você pode fazer? Por exemplo dar comida a alguns moradores de rua. Ok. Mas digamos que você tenha um projeto de ajudar ainda mais, como construir um abrigo para eles. Você poderá fazer isso sozinho? Dificilmente. Mas se o seu pouquinho se unir com o pouquinho de várias pessoas, vocês, juntos, podem somar forças e ajudá-los de forma mais eficiente. Então claro que isso é válido!
     É questão de foco. Desde que seus recursos visem gerar o bem de quem precisa, sempre serão válidos. Não fique preocupado com a forma (é dízimo? é oferta?...) e preocupe-se com o significado e como objetivo. Mas faça sempre por amor, do contrário, terá pouco ou nenhum valor.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Deus usou as eleições para aplicar juízo sobre o Brasil?


     De ontem para cá já vi pelo menos 5 publicações (entre perfis e páginas) de pessoas "de direita" na minha linha do tempo, dizendo que o fato do PT ter vencido foi porque Deus está usando a Dilma para aplicar Seu juízo sobre o Brasil, da mesma forma que vemos em outros relatos nas escrituras...
     Desculpe-me quem acredita nisso, mas considero essa interpretação absurda. Está igual aquela ideia de um "deus" que usa uma criancinha, fazendo ela ser estuprada, espancada e assassinada para aplicar justiça aos pais e assim, manifestar a "Sua Glória". Por favor, né? Se Cristo é a revelação plena de Deus ao homem, o que não se parece com Ele não é Deus (a menos que Deus mude de humor e de personalidade a todo o momento, como o homem. Mas aí Ele não seria Deus e tampouco teríamos um parâmetro para diferenciar Deus do diabo).
     Não voto na Dilma (nunca votei), não escondo (e também não sou "tucano"), mas por favor, gente. Acabou! Chega! O PT venceu, querendo ou não. Vamos nos unir agora para que o Brasil seja melhor conduzido do que foi até agora, pois se isso não acontecer, quem sofrerá somos todos nós. Usar desculpas, tirando nossa responsabilidade e jogando nas mãos de Deus é fácil. Assim, tudo que der errado, diremos: "Não temos culpa; foi Deus agindo".
     Engraçado é que se o Aécio Neves tivesse vencido, provavelmente os eleitores do PT diriam agora a mesma coisa: "é Deus usando o PSDB pra aplicar sua justiça". É muita parcialidade... Assumir a culpa e a responsabilidade nunca foi o forte do ser humano mesmo. Já começou em Adão, lembra? (É culpa da Eva... E o Senhor que criou a Eva, então é culpa Sua, Deus...).
     O homem é uma criaturinha complicada. Sempre tem suas desculpas e justificativas...

Autor: Wesley de Sousa Câmara
(28/10/2014)

Um "deus" pseudocristão que nunca existiu


     Sem querer parecer arrogante ou prepotente (afinal sou um "zé roela" como todos os demais):
      Fico triste quando vejo tantos "cristãos" crendo em um "deus" que nada tem a ver com o que foi revelado em Jesus Cristo, ou seja, quando observo pessoas com uma noção de um "deus" mau, barganhador, aproveitador, escravizador, melindroso, revoltado, implicante, sistemático, "patrão", vingativo...
     Mais triste ainda fico quando olho para as nossas crianças e vejo que elas desde pequenas são "adestradas" a crerem nesse "deus" criado à imagem e semelhança de alguns homens ou de alguns grupos. É... Não temos boas perspectivas a longo prazo...
     E ainda mais doloroso é quando olho para velhinhos, já no fim de seus dias, que passaram a vida toda angustiados, temerosos, culpados e com receio de "não terem sido bons o suficiente" para escaparem do "chicote divino" ou, pelo menos para mostrarem (nem que seja para eles mesmos) pelas suas obras e frutos que foram "fatalisticamente" selecionados entre trilhões de seres humanos já existentes para não queimarem eternamente no "mármore do inferno".
     Que espiritualidade é essa, meu Deus? Uma espiritualidade que não tira o foco do homem para colocar na Cruz? Uma espiritualidade que ao invés de gerar paz, liberdade, amor, gratidão, alegria, esperança e segurança... gera medo, culpa, ansiedade, prepotência e arrogância? Uma espiritualidade que nos faz olhar para nós mesmos a fim de encontrarmos evidências da nossa salvação? Não... Não creio nisso e não consigo me calar diante de uma crença tão incoerente e cruel.
     A que ponto chegamos...

Autor: Wesley de Sousa Câmara

O "Reteté" tem explicação


     Na verdade quando se fala nesse tipo de "mistério" (como os adeptos costumam apelidar) o que em 99% das vezes está ocorrendo (no meu entendimento) é apenas um extravasamento de emoções. Alguns batem palmas sem parar, outros rolam no chão, outros pulam, outros se contorcem, outros se derramam em lágrimas... Até aí, nada de espiritual, de divino ou de satânico. É apenas um extravasamento de emoções, assim como acontece na maioria das religiões. Já notou a semelhança entre algumas "manifestações" evangélicas e manifestações do candomblé? Significa que nos dois casos é Deus agindo? Não! Significa que nos dois casos são as "entidades africanas" em ação? Não! Cada uma tem suas motivações e, como em algum momento isso entra na subjetividade de cada um, interferindo nas emoções, acaba extravasando, sendo que cada um reflete de uma forma (de acordo com seus costumes, suas preferências, seu condicionamento, sua personalidade...).
     Ainda tem dúvidas que isso tudo é apenas manifestação de emoções? Repare que até em eventos não religiosos, como em partidas de futebol, quando uma pessoa passa no vestibular, quando ganha na loteria, por exemplo, isso acontece. Elas gritam, pulam, giram, dançam, choram. Essa euforia é natural da nossa humanidade, sendo que algumas pessoas são mais comedidas do que outras.
     Se não está satisfeito, vai mais uma evidência: Já percebeu que 95% das vezes que isso ocorre é em um momento específico, em que uma pessoa fica falando em alta intensidade no microfone, enquanto uma música agitada ao fundo (em alto volume e com ritmos mais intensos) é tocada? Já viu uma manifestação assim ao som de uma música bem calminha, serena e relaxante? Não, né? Nem eu. Repare ainda que outros momentos que isso acontece é quando o pregador fala rápido e forte, dizendo algo progressivamente mais "emocionante", sendo que vai subindo a entonação de voz, a velocidade da fala até que chega ao clímax e os ouvintes "vão ao delírio". Já viu essa manifestação em uma calma aula sobre as escrituras, por exemplo? Eu não... O padrão é sempre o mesmo e isso tem explicação. Nosso cérebro é influenciado por esses estímulos auditivos, então quando se concilia um ritmo adequado de fala ou de música, nossa emoção é tocada. Não é a toa que existe terapia por musica (musicoterapia). E mais: lembra que o Espírito Santo HABITA em nós? (I Coríntios 6:19) Se ele está 24 horas por dia em nosso ser, será que é Ele realmente se manifestando em alguns momentos, como esses, ou são nossas emoções sendo tocadas? Não estou ainda dizendo se isso é bom ou ruim. Apenas estou constatando algo real e facilmente explicável.
     O problema não é a euforia em si. O problema surge quando ela é colocada como medidor da ação de Deus. Quem não age dessa forma "compulsiva" acaba sendo taxado de "frio" e de "carnal". Uma espiritualidade baseada em emoções é algo não apenas superficial, mas absurdo e perigoso. Hoje podemos estar nos sentindo bem, amanhã não. Quer dizer que no dia em que não "sinto" algo sobrenatural é porque estou mais longe de Deus? Desde quando eu sou o "termômetro" para avaliar se sou, como dizem, frio ou quente? Quem disse que eu sou o foco ou o parâmetro para avaliar a ação divina? Não, meu amigo! Se você pensa assim, está equivocado.
     Devemos viver pela fé e não, pela emoção. É ótimo sentir-se feliz e extravasar de alguma forma? Claro! Porém isso é questão humana e não divina. E se é uma questão meramente nossa, temos que ter prudência para não causar escândalos. Se estamos em nosso quarto, com a porta e janela fechadas, ótimo. Podemos soltar nossas emoções como desejamos. Porém se estamos em um ajuntamento público, devemos ter em mente que ali há pessoas de todos os tipos. Quantas vezes vemos vídeos e fotos desses momentos na internet, como alvo de piadas. Será que a Palavra de Deus nos ensina a agir dessa forma? Como desejaremos "evangelizar" alguém se estamos espantando as pessoas? Quem desejará estar em um meio em que a todo o momento as pessoas agem de forma irracional, como "loucas"? (Paulo alerta sobre isso em I Coríntios 14). Como diremos que "equilíbrio e domínio próprio" são frutos do Espírito se não os produzimos?
     Calma, irmãozinho e irmãzinha. Não estou denegrindo ninguém, nem menosprezando, apenas estou opinando com base em algo que é bem óbvio. Não tenho aversão ao movimento pentecostal, mas você tem que entender que ele é um movimento recente. Então não queira condicionar a ação de Deus a esse tipo de manifestação. Quer dizer que em todos os séculos anteriores, antes do pentecostalismo, o Espírito Santo não agia? Por favor,né? Sejamos coerentes...
     O Espírito Santo trabalha na alma da pessoa, sem que isso necessariamente tenha uma repercussão no corpo (não é o seu "sentir" que define se o Espírito Santo está agindo, afinal, como dizia o profeta: "enganoso é o nosso coração" - Jeremias 17:9). Nem toda ação do Espírito é acompanhada de sentimentos ou emoções, bem como nem toda emoção é sinal de ação do Espírito Santo. Entende? Pior é que a todo o momento recebo relatos de pessoas angustiadas por acharem que Deus está descontente com elas, já que elas "não sentem a presença de Deus" quando oram, quando se reúnem com os irmãos... Não entendem que sentindo ou não, Deus está conosco. Essa é a nossa fé. Nossas emoções variam como o clima, mas quando paramos de olhar para nós e olhamos apenas para Cristo (como sempre deveria ser) essa nossa ingênua prepotência de achar que somos o a referência, para. Se eu sinto Deus, significa que estou com minhas emoções mais afloradas e Deus realmente está comigo; se não sinto Deus, significa que minhas emoções estão por algum motivo, mais "camufladas", mas Deus continua comigo. Se não houver essa consciência, é sinal que vivo uma espiritualidade rasa e sem nenhuma relação com a fé.
     Agora uma coisa séria e que muitos ficarão revoltados (mas direi, pois não tenho dúvidas de que seja real) é a seguinte: já percebeu que quanto mais "legalista" e repressor (principalmente na questão dos "usos e costumes") é o grupo, mais esses eventos acontecem? Há vários fatores envolvidos (desde a questão social, educacional e cultural), porém uma chama mais a atenção, que é o extravasamento como "válvula de escape".
     Imagine uma panela de pressão. Conforme a pressão aumenta na panela, ela precisa ser liberada pelas válvulas de segurança, caso contrário estouram. Agora imagine que cada pessoa seja uma dessas panelas. Quando alguém está em um ambiente não repressivo, em que tem liberdade para viver (claro que com responsabilidade), é como uma panela em bom funcionamento, que tem como extravasar suas emoções (a pressão da panela). Agora quando alguém vive em um grupo desses em que há um controle total da vida da pessoa (desde quanto recebe de salário até as atividades que pode e que não pode realizar), é como se obstruísse essas válvulas. A pessoa não pode sair com os amigos, não pode ir a uma praia, não pode usar a roupa que deseja, não pode ir ao cinema, não pode entrar em uma academia, não pode dançar, não pode ouvir as músicas que gosta, não pode jogar futebol, não pode escolher um time para torcer... Vá adicionando toda essa "pressão" à panela (afinal todos somos humanos e limitados), que está obstruída. Os desejos e emoções não saem, só se acumulam... O que acontece? Chega a um momento em que estoura (aí é sujeira para todo lado). As pessoas não entendem que quanto maior é o controle e a repressão, maior é o risco. Não é a toa que muitos "bandidos" tiveram uma educação religiosa extremamente rígida. Adiantou? Não preciso nem responder.
     Mas voltando um pouco: uma pessoa que vive nessa censura quase total só tem uma forma de não explodir, que é liberando suas emoções em coisas que são religiosamente aceitáveis. Toda aquela angústia causada pela repressão encontra nesses "cultos" a liberdade para aflorarem. É como se chegasse no pino da panela e o levantasse. Sai ar sob alta pressão. Ali então ela pode canalizar seus desejos e liberar de uma forma "espiritual". Assim, se em casa não pode dançar, ali ela pode dançar, rodar, rolar no chão, pular... Se ela não pode fazer a atividade física que tanto deseja, ali pode correr até à porta, pular... E assim vai. Portanto, se ela não agir assim, o dano será provavelmente maior, pois não é uma espiritualidade sadia. Portanto, apenas reprimir o "reteté" é algo ainda mais equivocado. O que precisa acontecer é voltar às bases. Rever toda essa noção de fé e de espiritualidade cristã que está sendo ensinada ao povo. Só assim poderemos ser espontâneos e ao mesmo tempo, moderados. É equilíbrio sempre!
     A forma de expressão é questão pessoal de cada um (e quando exagerado é fruto de uma falta de auto-controle, de respeito e de bom senso) e as manifestações externas, em si, não tem a ver com o Espírito Santo. A motivação que leva a uma manifestação externa (controlada ou não) é que pode ou não ser o Espírito. Porém, como essa manifestação exagerada não me faz lembrar Jesus (a revelação plena da Palavra de Deus a mim), não adoto e não me sinto nem um pouco confortável nesses ambientes. Respeito todos meus queridos irmãozinhos que acham isso compatível com a fé cristã, mas discordo deles, com muito amor e carinho e é por isso que estou expondo algo que para mim é nítido. Obviamente não sou favorável ao outro extremo, em que as pessoas fazem das reuniões entre irmãos um uma liturgia engessada, mecânica, sem espontaneidade. Não foi para isso que fomos chamados. Devemos sim manter uma ordem, mas sem tirar a naturalidade e a liberdade. Devemos ser nós mesmos, apenas com equilíbrio e bom senso.
     Não vamos tirar Atos 2 do contexto, por favor, queridos. Quando é dito que os cristãos lá pareciam "bêbados" era claramente uma forma pejorativa que os incrédulos usavam para denegrir a imagem deles, diante daquele acontecimento (estavam falando em línguas estrangeiras) que ninguém conseguia explicar. Não significa que estavam agindo de forma descontrolada como vemos atualmente em alguns momentos. E mesmo que tivessem, nosso parâmetro continua sendo Cristo e não, esses nossos irmãos queridos. Jesus também era chamado pelos fariseus de "beberrão e amigo de pecadores" e nem por isso ele era um bêbado realmente. Então cuidado ao tirar texto do contexto.
     Conclusão:
     O que penso, de forma direta, é o seguinte: O Espírito HABITA em nós (24 h por dia). Somos batizados nEle e com Ele. Somos cheios do Espírito, somos ungidos em Cristo. Em alguns momentos a ação do Espírito Santo em nós pode gerar um "afloramento de emoções"? Claro que sim. Porém, veja bem: a ação do Espírito independe de nossas emoções. Sentindo ou não, o Espírito pode agir (e age). Porém quando há uma manifestação intensa, um frenesi, uma euforia grande (e o "reteté" é um exemplo) SEMPRE será uma manifestação da emoção humana, que PODE OU NÃO ser fruto de uma ação divina, entende? Essa motivação é que não cabe a mim julgar.
     O que analisei no texto foi a FORMA de manifestação, que em 100% das vezes (isso mesmo) é derivada de nossas emoções, que claro, podem ter uma motivação espiritual genuína. O problema é apenas isso: quando há exagero nessa forma de expressão (não importa se a motivação é genuinamente do Espírito ou se é "carnal"), traz transtornos e escândalos. Não é a toa que Paulo instruía tanto quanto à ordem e decência. Se fosse impossível controlar as emoções mesmo quando é uma manifestação divina ("o espírito é sujeito ao profeta", como dizia o apóstolo, certo?), ele não ensinaria a manter a ordem, a decência, a postura... Ou ele estava completamente errado? Aí é escolha de cada um como vai compreender esse conflito.
     Alguns alegam: "você diz isso pois nunca foi tocado pelo Espírito Santo, pois se tivesse sido, não aguentaria". Irmão (ã), não seria mais honesto, mais humilde, menos arrogante, menos prepotente e mais respeitoso assumir: "Pode até ser então uma fraqueza minha, pois eu não aguento e começo a agir de forma incontrolável"? Não é porque alguém não se controla, que esse alguém tem base para julgar que todos os que se controlam não receberam esse "poder todo". Por favor, amados. Desde quando nós somos o parâmetro para julgarmos o nosso próximo? Sem contar aqueles que afirmam: "As coisas espirituais só se discerne espiritualmente", colocando assim quem discorda deles como "carnais". Esse argumento é tão ilógico, afinal eu poderia usar essa mesma argumentação, só que para afirmar que eu é que estou discernindo o Espírito e quem discorda de mim é que está agindo pela carne". E aí? Vai ficar opinião minha contra opinião sua! Por isso nosso critério para avaliar isso tudo não pode ser assim, raso. E foi por esse motivo que decidi fazer essa reflexão.

Autor: Wesley de Sousa Câmara
21/10/2014

Relativizo tudo a partir de Cristo. E não sou "relativista"!


     Da mesma forma que Cristo não é sinônimo de cristianismo (movimento religioso baseado, teoricamente, na fé cristã), dizer que algo é "relativo" não significa que essa pessoa defende o "relativismo".
     O relativismo (no geral) é consequente à consideração de que NÃO HÁ VERDADE ABSOLUTA ou pelo menos que não há um parâmetro para se chegar a essa verdade absoluta! Sendo assim, o que cada pessoa defende é igualmente relativo. E porque não me considero relativista? Simples:
     Eu relativizo TUDO (isso mesmo) a partir de Cristo. E porque? Pois creio que o Criador (Deus) é absoluto, porém toda a criação, por não estar no mesmo nível de Deus, por não possuir "deuses", obrigatoriamente não pode ser absoluta, ou seja, é relativa. Sendo assim, somente Deus é absoluto.
     Creio ainda que Deus decidiu revelar-se à Sua criação. E como se dá essa revelação? De várias formas, sendo que a única revelação plena e perfeita, deu-se em Jesus Cristo. Por isso sou cristão. O único parâmetro absoluto que tenho, no tempo, no espaço, na história é Jesus. Então se quero julgar todas as coisas, tenho que sempre estabelecer Jesus como referência. Isso mesmo: creio que Cristo é absoluto, pois é a revelação PLENA E PERFEITA de Deus.
     E como fico sabendo de Jesus? Historicamente falando, fico sabendo pelas escrituras, que são os registros escritos de sua vida e de seus feitos, bem como da aplicação em diversos contextos dos ensinos divinos. Ou seja, se creio que Deus decidiu se revelar ao homem, creio que Ele inspirou algum instrumento para que todas as gerações posteriores tivessem acesso a essa revelação absoluta. Por isso creio na inspiração das escrituras. Creio que o que ela me apresenta acerca de Cristo é real, do contrário, não teria um parâmetro absoluto para julgar nada. Aí sim eu seria relativista. Sequer poderia dizer que matar uma criança é absolutamente errado, pois não teria Cristo me ensinando a amar, perdoar, fazer o bem como parâmetro. Eu poderia olhar para a história hebraica ou para Davi e dizer: poxa, se eles fizeram e incentivaram, também posso e isso só é errado pra quem acha que é. Mas não! Creio que é errado independentemente da cultura e do que cada um pense a respeito. O parâmetro é Ele e não, eu.
     O que gera muita confusão na mente de alguns é que sempre digo: "Quando leio sobre Cristo, ou olho para Cristo, estou olhando e lendo A RESPEITO da verdade absoluta (Jesus mesmo disse que Ele é a Verdade, o Caminho e a Vida), porém o que assimilo (por depender de minha capacidade de compreensão) sobre Cristo não é absoluto. Se fosse eu seria Deus também. Tanto é que os diferentes grupos religiosos e teológicos usam a mesma bíblia e formam diferentes interpretações."
     Então Deus não sabia que isso aconteceria? Deus causa confusão? Não! Claro que Ele sabia (sabe) e quem causa confusão é o homem. Deus não tem culpa alguma. Algumas coisas são óbvias não importando quem esteja lendo. Jesus morreu na Cruz pelo homem, para a salvação do homem, certo? (Ou seja, a essência do Evangelho está aí pra todos). Jesus ensinou que devemos viver em amor a Deus e ao próximo, certo? (pois bem,a essência da vontade de Deus está clara para todos). O que gera confusão não é essa essência dita pelos apóstolos de forma inspirada por Deus e sim, os "detalhezinhos teológicos" que são consequências disso. Simples assim.
     A questão é definir bem os parâmetros que adota. Se Deus revelado em Cristo é absoluto para você, pronto! Não é relativista, mesmo que relativize tudo e todos a partir de Cristo, que por sinal é o que defendo. Agora se acha que o absoluto cabe dentro de você, logo, tudo o que você diz é também infalível e absoluto, aí não tem como dialogar. Você é quase um "vice-Deus" e quem discordar de você será um herege ou um falso profeta (perdoem-me quem não gosta de ironia). rsrs
     Essa minha interpretação é absoluta? De forma alguma. Eu teria que ser fundamentalista para dizer que é. Mas é nisso que creio; é nisso que se baseia minha fé. Não é certeza, é fé (até porque Deus não deseja que vivamos por certezas e sim, pela fé); posso estar errado? Claro, mas estou convencido de que foi essa, em Cristo, a revelação absoluta de Deus a mim. Portanto, TUDO e TODOS (inclusive eu) serão sempre avaliados tendo Jesus (quem Ele era, o que fez, o que ensinou e como viveu) como parâmetro comparativo. Posso errar durante essa comparação? Posso, pois sou limitado e falho, mas creio que seja esse o parâmetro a ser adotado.
     Então, meu querido, com todo respeito, mas sendo direto: pode espernear, gritar e xingar, mas não absolutizo nada, nem ninguém além de Deus revelado em Cristo. Nada/ninguém mesmo. Nem você, nem eu, nem minha ou sua tradição interpretativa.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

A essência da minha fé


     Deus é infinitamente superior a uma teologia ou a uma religião. Como cristão, creio que Deus se revelou de forma plena (em termos humanos) em Jesus Cristo, o que não significa que o que Jesus "encarnou" seja a totalidade de Deus (embora a totalidade de Jesus seja 100% coerente com Deus). O que Jesus encarnou foi o que nos é possível compreender sobre Deus. Jamais Deus será encapsulado dentro de uma fé, de uma teologia ou de uma mente humana (Jesus mesmo afirmava isso, dizendo que muita coisa somente o Pai sabia e faria). O que fazemos neste mundo é tentar entender uma fagulha do que Deus decidiu revelar.
     Creio em um Deus "pessoal" que quer se comunicar e se relacionar com Sua Criação, embora jamais essa criação vá compreendê-lo por completo.
     Creio que fomos criados para uma vida plena, de comunhão perfeita com Deus (é exatamente essa a mensagem/vida de Jesus), de forma que essa comunhão perfeita é expressa em íntima relação e harmonia com a natureza (Jesus tinha influência nas tempestades), com a matéria (Jesus transformava, multiplicava), com nosso organismo (Jesus curava)... Estamos longe disso (por isso creio no que chamo de "salvação", que é a restauração do homem à imagem de Deus, imagem essa que era o objetivo original para a criação), porém é esse o ideal divino (que sejamos plenamente como Jesus).
     Claro que acredito e almejo uma comunicação direta com Deus a todo o momento. Aliás, muitas vezes desejamos algo que chamamos de "sobrenatural" (e sobrenatural normalmente é tudo o que não conseguimos explicar, de forma que vivendo alguns séculos atrás acharia que um raio seria uma comunicação sobrenatural irada da divindade) e não percebemos Deus se comunicando conosco nos mínimos detalhes. Seja pela natureza, pela brisa que bate em nosso rosto a cada manhã, pela velhinha que dá um bom dia toda alegre, pela criança que dá um sorriso, pelo animalzinho que abana o rabinho e pula em nós, pela bela música, pela linda poesia, pelo canto dos pássaros, pelas manifestações de arte, por cada gesto de amor e também por um trecho bíblico que revela essa grandeza de Deus, como o Salmo 19 (que Paulo repetiu depois): "Até a natureza/criação anuncia a glória e as obras de Deus". Se não percebe Deus nem no "natural" que vê a todo o momento, como o encontrará em um evento "sobrenatural"?
     Nós muitas vezes criamos caricaturas de Deus ("um deus à nossa imagem e semelhança"), mas a essência de Deus (que é amor, conforme manifestou em Cristo) todos contemplam a todo o momento, reconhecendo ou não. Ninguém parte desse mundo podendo dizer: "Deus nunca se revelou a mim". Revelou-se sim. Essa pessoa é que não o identificou.
     Como cristão creio que sou um privilegiado por ter a informação histórica explícita da revelação de Deus em Jesus Cristo, o que não me torna "melhor" perante Deus do que o indígena de uma tribo afastada da civilização. Sou, assim como ele, pecador e carente da Graça divina. O problema é a espiritualidade rasa que a maioria de nós adota. "Relacionamento com Deus" vira uma agenda religiosa, uma citação de versículos bíblicos, de clichês e de mensagens de autoajuda, um moralismo hipócrita, uma tentativa de "barganha com Deus"... Não há mente sadia que resista e por isso temos um número tão grande do que alguns apelidam de "traumaDEUStizados", que torcem o nariz quando ouvem a palavra "Deus", afinal, se "Deus" é essa coisa superficial que o povo prega, esse indivíduo quer distância ou então, o nega. Porém por melhor que caracterizemos Deus, Ele é sempre mais! Está sempre além!
     O que fazemos em nossa vida e em nossa fé é tentar entender e explicar Deus, em uma linguagem humana, mas "DEUS É" e ponto. Está além de toda compreensão. O que Ele fez (como creio) foi entrar em nossa realidade, em nosso mundinho, através de Jesus Cristo, para comunicar em nossa dimensão algo eterno (daí vem a expressão do "Cordeiro Eterno de Deus imolado antes de haver mundo") e que jamais caberia em nossa mente. Significa que Ele não se comunica com pessoas em todo o mundo, de diversas formas? Claro que se comunica, mas sempre que isso acontece, é com "a cara" de Jesus (a revelação plena na história), afinal Ele não é "bipolar", nem esquizofrênico para causar confusão, se mostrando, por exemplo, como amor aqui e como justiceiro lá.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

3º passo: A relação entre Lei X Evangelho/Graça (Estudo completo)


     Esse tema é bem mais complexo do que a maioria imagina. A todo o momento vejo essa relação sendo encarada de forma rasa, superficial e, no meu modo de entender, errônea (como eu mesmo fazia até um tempo atrás), o que me motivou a refletir com você, de forma clara e aprofundada o assunto.
     Quem nunca ouviu as expressões “Tempo da lei" e "Tempo da graça”? Ou então a afirmação: “Lei é o Velho Testamento e Graça é o Novo Testamento da bíblia”? Ou ainda: “Lei é o que vem de Moisés e Graça é o que vem a partir de Jesus, 2000 anos atrás”? Ou quem sabe: “Evangelho é tudo o que se parece com Jesus e Lei é tudo o que se parece com Moisés”? Enfim, discorrerei de forma detalhada sobre esses pontos, explicando porque não concordo com nada disso.
     Não tem como responder questões como: “A Lei ainda está em vigor?”, “Devo seguir a Lei?” ou “Devo obedecer os 10 mandamentos?” sem entender esses três conceitos: Lei, Evangelho e Graça. E uma dica que lhe dou é que sempre faça isso: antes de falar sobre um assunto, deixe claro o seu conceito, pois são tantas visões teológicas diferentes que a maioria usa os mesmos termos, mas muitas vezes um mesmo termo significa algo completamente diferente em cada uma dessas interpretações. Aqui deixarei claro os conceitos que adoto e, a partir deles, tentarei expor o assunto.

     Quando falamos nesse tema, muitos criam essa diferenciação “Lei x Graça” (que é uma distinção muito usada no meio reformado/calvinista, sendo que respeito meus irmãos que seguem essa tradição teológica, mas particularmente discordo desse ponto, por não ver coerência nessa dicotomia, afinal, sem a Graça não há revelação da Lei e sem a Lei, não há necessidade de Graça para salvação). E de forma mais geral, a Lei está dentro do conceito da Graça. Tudo o que existe e que se manifesta só ocorre por Graça. Atualmente prefiro a dualidade “Lei x Evangelho” (adotada, por exemplo, por outro reformador, Martinho Lutero). Minha preferência por essa última é derivada justamente dos conceitos de cada um desses termos (veremos no decorrer deste estudo).
     Outra questão que surge é a ideia negativa que as pessoas possuem da Lei. Acham que ela é má, que é ultrapassada, que é antagônica à Graça, que depende de Moisés e que Jesus veio para exterminá-la na Cruz. Eu também pensava assim até que um tempo atrás fui “desafiado” por um grande amigo teólogo a rever meus paradigmas. Hoje não vejo muita coerência nisso e quando percebi esse problema não tive dificuldades em reconhecer o meu equívoco e em passar a reinterpretar toda a escritura, de acordo com o que agora considero mais coerente.
     Veja bem: A Lei é perfeita e maravilhosa. Nós é que somos maus, pecadores, imperfeitos, então ela nos condena por sermos contra a sua perfeição. Mas a culpa não é dela; é nossa! Aí é que entra o Evangelho. Mas vamos por partes.

1 – Afinal, o que é a “Lei”?
     Para responder essa questão devemos, antes de tudo, adotar um critério: quem é a autoridade suprema para definir um conceito? Alguém responderá: “É a bíblia”. Então eu digo, já discordando de você: “A bíblia nunca fecha algo sobre um tema, quem faz isso é a nossa interpretação dela”. Por exemplo, não posso dizer que a bíblia diz algo; quem diz é minha interpretação acerca dela, tanto é que diferentes visões teológicas são baseadas na mesma bíblia. O que muda é a interpretação de cada um e quem sou eu para dizer que a minha interpretação é a perfeita e absoluta? Não sou fundamentalista para pensar assim. Porém considero que a forma mais coerente de se chegar a uma definição precisa é olhar para Jesus Cristo! Pelas escrituras busco informações sobre Ele, sobre Seus ensinos, sobre Sua forma de lidar com cada situação na vida e então posso conceituar tudo. E por que olhar para Jesus e não para Paulo, para João, para Davi, para Abraão, para Moisés ou para qualquer outro personagem ou texto da escritura? Porque Cristo é o Verbo/Palavra de Deus encarnado (João 1); Palavra essa que já estava no coração de Abraão, por exemplo, muito antes de haver qualquer escritura; nEle estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2:3); Ele é a revelação plena de Deus aos homens (João 12:45); Jesus disse que as escrituras testificam dEle (João 5:39), ou seja, Ele é o alvo, enquanto a escritura é a "sinalização" (como uma placa de trânsito) que aponta para esse alvo; Ele é nosso fundamento, nossa pedra angular (Efésios 2:20)... Resta alguma dúvida de que, se queremos um parâmetro segundo a vontade de Deus para julgar todas as coisas, essa referência deve ser obrigatoriamente Cristo (e no nosso caso, o que a escritura nos apresenta sobre Ele)? Jesus é, portanto, quem atribui significado a tudo!

     Não creio que qualquer outra pessoa seja absoluta para definir isso (nem mesmo um apóstolo, pois caso Jesus diga algo e suponhamos que um apóstolo dê a entender algo diferente, obviamente ficaremos com...? Jesus, é claro!); não creio também que um magistério humano seja infalível, pois todos somos humanos e imperfeitos. Até mesmo quando Deus age através de nós, continuamos sendo instrumentos falhos e relativos nas mãos de um Deus perfeito e absoluto. Portanto, homens (ou religiões, ou instituições, ou tradições) não tem poder para definir o que é Lei (ou qualquer outra questão); não creio ainda que quando desejo entender um conceito bíblico deva buscar em um dicionário, afinal, desde quando um “autor moderno qualquer” tem autoridade para ser meu ponto de referência? Portanto, “Lei” é o que Jesus Cristo interpretou como sendo Lei, independentemente do que qualquer outra pessoa ou grupo diga. Então vejamos:
     Dois textos bíblicos que não podem deixar de serem analisados são Mateus 5 e Mateus 22. Poderíamos aqui ficar falando dos 10 mandamentos, dos mais de 600 preceitos da lei de Moisés, mas seria perda de tempo, pois a resposta a essa questão está em Cristo:
"Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra.” (Mateus 5:17-18)
      Nesse trecho vemos que o próprio Jesus afirmou que Ele cumpria a Lei de forma perfeita. Além disso, os apóstolos deixaram claro que nEle não há pecado e portanto, não há transgressão dessa Lei de Deus por parte de Jesus (I João 3:5; II Coríntios 5:21). Mas o que seria então a Lei? Seria um código moral? Uma lista de 10 mandamentos? Uma interpretação específica judaica dos mandamentos? Seria os mais de 600 preceitos judaicos? Não! Repare que Jesus relativiza a Lei e a tira do campo moral e objetivo (como enxergavam os judeus), levando-a para a subjetividade. Para os que a colocam como algo fixo e restrito (como uma cartilha de regras), reparem que Ele relativiza o mandamento do sábado, ao afirmar que o sábado foi criado para o homem e não, o homem para o sábado. Os judeus viam a Lei dessa forma exterior apenas, tanto que havia discussões entre eles sobre o que seria permitido realizar no “dia do Senhor” e o que não seria. Uns diziam que poderia caminhar com sacolas; outros, que só poderia caminhar sem sacolas; e ainda havia os que diziam que nem se poderia caminhar nesse dia. Era uma discussão totalmente supérflua, rasa, que não levava em conta a subjetividade, o significado e o objetivo da Lei. Eles estavam nitidamente colocando o homem a serviço do sábado e não, o sábado a serviço do homem. Jesus, ao contrário de todos, curou no sábado, fez o bem no sábado, permitiu que seus discípulos colhessem espigas no sábado para se alimentarem (algo não aceito pela maioria dos judeus).
      Quer outros exemplos de aparentes “quebras da Lei” e de tradições praticadas por Jesus? Ele não ensinava Seus discípulos a lavarem as mãos (Marcos 7); uma mulher com sangramento vaginal tocou nas vestes de Jesus (Lucas 8) e Ele não Se considerou impuro por isso, como criam os judeus (Levítico 15); tocou em um leproso (algo inadmissível naqueles dias) e o curou (Mateus 8); impediu o apedrejamento de uma mulher pega em adultério (João 8), como ordenava aquilo que os judeus consideravam que seria a lei...
     Mas e aí? Se acharmos que “Lei de Deus” é essa cartilha de mandamentos ou de centenas de preceitos, teremos problemas para explicar essas questões (embora eu saiba que existam várias interpretações que as pessoas dão a isso), afinal, Deus não muda (um Deus mutável não é absoluto e, portanto, não é Deus). Como Ele ensinaria algo e depois se revelaria plenamente em Cristo de forma diferente? Não considero nada coerente essa ideia, pois Deus não é Deus de confusão e nem é “bipolar”. Ele é e sempre foi Amor. O que muda é a percepção dos homens em relação a Ele.
     Jesus, o Filho de Deus, foi homem perfeito e obviamente, sem pecado, logo, não transgrediu em momento algum a Lei. Nenhum detalhe da Lei foi transgredido por Ele (não importa se é o que você chama de “lei moral” ou de “lei cerimonial”, pois Jesus ainda estava vivendo para cumprir a Lei em sua totalidade, já que a "Nova Aliança" só começa após a morte de Jesus, certo?), afinal, transgredir um só ponto, segundo Tiago, é tão fatal quanto transgredi-la toda:

“Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente.” (Tiago 2:10)

     Se Jesus tivesse transgredido a Lei, seria um atestado de que Ele era mais um pecador, mais um condenado por ela e portanto, não faria sentido algum o Seu sacrifício da Cruz. Um pecador se oferecer por outros pecadores? Não tem como! Impossível!

“Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.” (I João 3:4)

     Como explicar então? Simples! Jesus mostra em Sua vida a essência da Lei, o que ela realmente é. Ele deixa claro que seguir a Lei não é seguir uma cartilha, um código moral, uma lista de mandamentos, algo apenas exterior e sim, viver toda a subjetividade dela, compreendendo e assimilando sua essência. E qual é essa essência? A resposta Ele dá em Mateus 22:36-40:

"‘Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?’ Respondeu Jesus:  ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas’".

     Pronto! Jesus mostrou que a Lei não é meramente dez mandamentos dados a Moisés (eles são um resumo e aplicativo objetivo, moral, exterior, contextual da verdadeira Lei de Deus) e tampouco a Lei divina é determinada por centenas de preceitos judaicos. Ela é muito mais profunda. A Lei é o amor pleno e perfeito a Deus e ao próximo; é o ideal divino para a vida humana. Todos os mandamentos estão sobre essa estrutura: o Amor. Não é ao acaso que Paulo diz:

"Toda a lei se resume num só mandamento: 'Ame o seu próximo como a si mesmo' ". (Gálatas 5:14)

E ainda:

“O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei.” (Romanos 13:10).



     Quer mais uma evidência da “relativização” e “ressignificação” dos mandamentos feita por Jesus?

"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.” (Mateus 5:27-28)

     Jesus deixa claro aí que aqueles que se julgam perfeitos e não pecadores por cumprirem os mandamentos, estão enganados, pois quando cumprem na objetividade (exterioridade), descumprem na subjetividade (interioridade). O que Ele está fazendo aí não é substituir os dez mandamentos por dois. Não! Ele está dizendo que os 10 mandamentos são na verdade uma forma didática de colocar na mentalidade de um homem mau, pecador a noção mínima do ideal divino, da vontade de Deus para Sua Criação. Os dez mandamentos fazem parte dessa revelação progressiva de Deus aos homens, que alcançou sua plenitude em Cristo. Não é a toa que Ele diz que não veio abolir essa revelação divina, mas cumprir, aprofundar o entendimento dela e mostrar o quão transgressores dela somos. Deus é amor (I João 4), logo, deseja que Sua criação viva como? Obviamente em amor! E como Deus é perfeito, para termos comunhão com Ele, devemos amar perfeitamente (a Deus e ao próximo). Não é um amorzinho mais ou menos; não é amar um dia e no outro, não mais. É amar sempre e em plenitude!
     Então, de forma clara: O que é a Lei? A Lei é a santa e perfeita vontade de Deus para Sua criação; é o ideal divino para vivermos, que é o que? Amor total e perfeito a Deus e ao próximo. E como vimos, se quisermos saber o que é a Lei devemos olhar não para os 10 mandamentos, nem para a “lei cerimonial” de Moisés e sim, para Cristo, que encarnou, que viveu e que ensinou a profundidade e a perfeição da Lei de Deus. O que precede Jesus era apenas “sombra” dessa revelação plena de Deus a nós, realizada em Cristo. Então em casa situação da sua vida, se quiser saber o que a Lei (vontade de Deus) diz para fazer, pense: "como Jesus lidaria com essa situação"?

2 – É possível cumprir a Lei? Qual o objetivo da Lei?

     Vamos com calma. Vimos que a Lei é o que Cristo encarnou e disse que era, ou seja, Lei é amor total e perfeito a Deus e ao próximo. Também concluímos que a Lei representa a perfeita vontade de Deus para Sua criação (ou seja, o ideal divino para nós é que amemos a Deus acima de tudo e que amemos nosso próximo como a nós mesmos). Sendo assim, com esse conceito de Lei em mente (e não mais o conceito raso de que lei é “antigo testamento”, “10 mandamentos” ou “normas dadas a/por Moisés”), não faz sentido achar que a Lei é ruim, ultrapassada e muito menos “torcer o nariz” quando se fala nela. A Lei é perfeita, nós é que somos imperfeitos (pecadores e maus).
     Acredito que muitos estão se perguntando: “então devo cumprir a Lei?” Pare um pouco e pense, leitor, como essa pergunta não faz sentido. Se sabemos agora que a Lei é a vontade de Deus na Terra, pergunto: “você deve cumpri-la ou não?” A resposta depende de você, se quer andar a favor do fluxo da vida (afinal a Lei, a vontade de Deus visa sempre gerar vida) ou não. Se deseja, essa pergunta nem será feita, pois obviamente você almejará (“deverá”, não por obrigação, mas por adoração) cumpri-la. Você não se diz cristão ou discípulo de Jesus? Então, um discípulo deseja ser como seu mestre. Sabendo que Jesus viveu a Lei de forma perfeita, o que você deseja fazer? Entendeu agora? Não estou dizendo que um cristão desejará cumprir a Lei para ser salvo (em outro estudo falaremos sobre salvação) e sim, que é natural que, por seguir a Cristo, haja na pessoa o desejo de ser como Cristo, que cumpriu a vontade de Deus (Lei). É questão de desejar por amor, por consciência, por compreender que a Lei é maravilhosa e que só gera o bem. Se eu sei que ela é perfeita, desejarei não cumpri-la? É questão de bom senso, antes de tudo. Claro que desejarei viver essa Lei. Mas repito: Lei não é cartilha de mandamentos dados a Moisés!
     Não confunda a “Lei” com a “revelação e aplicação da Lei”. A Lei é o ideal de Deus para o homem viver, sendo que essa vontade foi revelada ao longo do tempo, de forma progressiva e contextualizada. Na história de Israel isso ficou bem claro com a chamada “lei de Moisés”. Deus revelou a Moisés Sua Lei, não de forma plena (pois isso só aconteceu em Cristo), mas de forma parcial, relativa, nos 10 mandamentos. Portanto, quando lemos boa parte de textos bíblicos sobre “lei”, como várias citações de Paulo, o autor claramente se refere a essa revelação de Deus aos judeus, por meio dos mandamentos, os quais os judeus procuravam seguir (a famosa “Torah”). Porém o significado profundo e completo da Lei foi dado por Cristo, como já vimos.
     Desejar viver a Lei não é ficar pensando em cumprir esse ou aquele mandamento e sim, desejar fazer a vontade do Pai, que é Amor e assim, automaticamente os mandamentos serão, ou melhor, seriam cumpridos. Se eu não mato apenas por me lembrar que um mandamento manda não matar, significa que ainda não entendi nada. Se penso nos mandamentos para viver, sou um mero religioso hipócrita que está seguindo uma cartilha de regras (mandamentos), que só mudam meu exterior, mas que não tem poder algum contra minha carne e que não mudam minha mente (não geram arrependimento, expansão de consciência). O que eu faço (meus atos) não é o real problema (por isso tentar seguir a Lei como sendo apenas mandamentos é tolice); o problema é o que eu sou, é a minha interioridade, é a minha essência (que é pecaminosa). O que eu faço é apenas consequência de um desejo que brota no meu interior. Meus atos são reflexos do que eu sou. Seguir mandamentos apenas é como tratar uma tuberculose tomando xarope pra suprimir a tosse. Não adianta! Tem que tratar a causa do problema e não, os sintomas.
     Uma vez entendido isso, podemos dizer então que é fácil cumprir a Lei, afinal, é só amar, certo? Errado! Jesus não facilitou as coisas. Pelo contrário, Ele, além de cumprir, aprofundou a Lei e mostrou o seu real significado. Ele deixou claro que não importa se uma pessoa segue à risca a lei revelada a Moisés, esse indivíduo não cumpre a Lei, pois a subjetividade é tão importante quando a exterioridade. Não basta vivê-la exteriormente; tem que ter um sincero desejo de vivê-la interiormente, a todo o momento. O fato de uma pessoa não se relacionar sexualmente com ninguém além de seu cônjuge não significa que não adultera, pois basta um olhar impuro para alguém e pronto! Já adulterou. Moisés era bem menos exigente que Jesus, pois o foco sempre era o exterior: “faça isso ou não faça aquilo e cumprirá a Lei de Deus”. Nem assim as pessoas conseguiam e ainda chega Jesus acabando com qualquer ideia ingênua de alguém que porventura se achasse digno e perfeito perante a lei. Se você tolamente se acha (com todo o respeito) um “cumpridor pleno da Lei”, terá que admitir que precisa, para começo de conversa, se esforçar muito para isso. Ou seja, algo dentro de você pende muitas vezes para fazer o que não deveria. Paulo fala sobre isso, dizendo: “O bem que desejo, não faço; o mal que não desejo, faço” (Romanos 7). Esse conflito afeta a todos os homens. Às vezes sabemos que devemos agir de tal forma, mas não agimos ou então agimos da forma como deveríamos, mas dentro de nós sentimos que havia um desejo de não fazer essa escolha correta. Todos nós temos essa natureza pecaminosa e vivemos nesse conflito “Carne VS Espírito”. Essa é uma prova que não somos perfeitos. Somos pecadores (e em outro texto falaremos sobre o Pecado). Mas afinal, é possível cumprir ou não totalmente a Lei (amar a Deus e ao próximo de forma perfeita), já que cumprir parcialmente e nada é a mesma coisa?
     Há algumas pessoas, ainda hoje, que são adeptas do mais que refutado “Pelagianismo”. O que é isso? É uma visão teológica que surgiu no quarto século e que, de forma mais que resumida, afirma que o ser humano nasce puro, imaculado, sem nenhuma consequência do famoso “pecado original”. Ou seja: o famoso pecado de Adão não interfere em nossa natureza. Diz que o homem não é pecador, nasce com uma natureza boa, sem pecado e, portanto, ele é capaz de escolher entre ser puro ou pecar. Sendo assim, os que seguem essa visão (que é contrária a praticamente todas as demais visões teológicas, sejam protestantes, católica ou qualquer outra), dirão que é sim possível cumprir plenamente a Lei se a pessoa assim desejar. Não irei aqui aprofundar nessa refutação, mas Paulo em Romanos 3:9-12 deixa claro que não há sequer um homem que não seja pecador ou que por si mesmo faça o bem. Em Romanos 5 Paulo novamente deixa claro que em Adão todos pecaram. Dessa forma, ninguém de nós, por sermos pecadores e imperfeitos, é capaz de cumprir a Lei, que é perfeita, eterna e absoluta.
     Nós não amamos o próximo como deveríamos (ou alguém de nós sacrificaria sua vida para salvar a vida de qualquer um dos seus vizinhos, parentes ou colegas de trabalho? É leitor, no máximo daríamos a vida por aqueles de casa - Pai, cônjuge, mãe e filhos - e olha lá! Sejamos sinceros!). Além disso, você vendeu tudo o que tem para alimentar os famintos (distribuir aos pobres)? Claro que não, uma prova é que está usando neste momento um computador/smartphone/tablet para ler este site, enquanto há milhões de pessoas sem um pão pra comer. Ninguém de nós ama a Deus sobre todas as coisas (quantas vezes diversos desejos, eventos ou pessoas tornam-se o foco de nossa vida? Quantas vezes pecamos, erramos e depois corremos para pedir perdão? Se amássemos a Deus sobre todas as coisas, jamais faríamos nada que não fosse a vontade de Deus).  Nem aqueles que dedicam a vida em prol de outros conseguem ser perfeitos. A mínima falha, erro, equívoco, é imperfeição e a Lei é clara: "qualquer um que tropeça em um ponto dela, é culpado dela toda" (Tiago 2). Justamente porque fazer a vontade de Deus significa ser perfeito. Por isso a única forma de agradar a Deus é descansar em Cristo; é desistir de nossos méritos (que não temos) e mergulhar de cabeça no Evangelho, na perfeição de Cristo. A justiça dEle é contada em nosso favor. Entende por que nossa salvação é somente por Cristo? Pois somente Ele conseguiu ser perfeito. Crer nEle é descansar que Ele fez por nós o que jamais poderíamos fazer.
     Leia Mateus 5 e verá o quão distante o homem está do cumprimento da Lei: Não adianta não matar e irar-se, pois já será assassino; não adianta não fazer sexo e desejar a mulher do próximo, pois será adúltero; não deve jamais jurar, ao contrário, sua palavra deve ser sempre verdadeira (se falou, deve acontecer); não deve jamais revidar uma afronta; jamais deve “pagar com a mesma moeda”; se alguém lhe maltrata, faça o bem a ele; se uma pessoa lhe obriga a fazer algo que não está disposto, faça o dobro do que ele exige; ame incondicionalmente seus inimigos. E no último versículo desse capítulo, Jesus mostra quem realmente somos e “joga em nossa cara”:

“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês".

     Aqui é que as pessoas se complicam. Muitos acham que, por Jesus ter dito para sermos perfeitos, significa que conseguiremos, pois se não fosse possível Ele não ensinaria. Não, leitor! É o contrário! Ele nos manda sermos perfeitos (como Deus é perfeito) justamente para “cair nossa ficha”, para entendermos que, para ter comunhão com o Pai Eterno, para cumprir a Lei (afinal Ele é a revelação plena da Lei, lembra?) é preciso ser perfeito como Ele é. Mas homem nenhum é perfeito. Somos meras criaturas dependentes do Deus perfeito. É isso que Ele está nos mostrando com esses ensinos: “Vocês são incapazes de serem perfeitos como exige a Lei de Deus. Vocês não podem agradar a Deus por vocês mesmos.” Jesus pretendia causar um “choque” de realidade no ouvinte. Não é a toa que diz: “se sua mão lhe faz pecar, arranque-a!” É para entendermos a gravidade da nossa situação, do nosso pecado, e não para arrancar a mão realmente. É uma ironia!
     A função da Lei de Deus (vontade de Deus) que foi revelada ao homem é resumida por teólogos em um tripé: Freio, espelho e norma. Explico: A revelação dessa Lei de Deus ao homem tem a função de frear o instinto perverso humano. Quando se diz, por exemplo: “Não matarás”, é uma forma de frear as consequências de nossa maldade, ou seja, o assassinato; tem a função também de espelho, ou seja, de fazer o homem enxergar que ele é mau, pecador e carente da Graça divina (quando ele percebe sua incapacidade de ser perfeito como exige a Lei). Veja que Paulo confirma isso:

“A lei foi introduzida para que a transgressão fosse ressaltada. Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça.” (Romanos 5:20)

 “Que diremos então? A lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: 'Não cobiçarás' ". (Romanos 7:7)

     A Lei tem ainda a função de normatizar a vontade divina, ou seja, ela mostra ao homem que o Pai deseja que vivamos em amor, como já vimos.
     Mas uma vez que a Lei nos mostra o quão afastados estamos de Deus pelo Pecado, ela é condenação a nós, afinal, ninguém consegue se justificar por ela. Ninguém consegue viver da forma como Deus nos criou para que vivêssemos. Quando isso entra em nossa mente, percebemos: “sou um nada, minhas obras são trapos de imundície perante Deus, não posso fazer nada para me salvar. Mereço a condenação”. Perfeito! Quando entendemos isso e declaramos essa nossa incapacidade e nossa falência total perante a perfeição divina, estamos prontos para experimentar o Evangelho. Isso mesmo! Diante dessa condenação pela Lei é que entra o Evangelho. E aí a coisa muda totalmente de figura. Como assim?

     Até aqui vimos que é bem mais coerente fazer um dualismo entre “Lei e Evangelho” do que entre “Lei e Graça”, afinal, Graça é o favor imerecido de Deus pela Criação. A própria criação é um ato de suprema Graça; a relação dEle conosco é e sempre foi Graça; a salvação é Graça; a manutenção da existência, apesar do pecado, é Graça; o amor de Deus por nós é Graça. Tudo o que há é fruto da Graça de Deus. Aprendemos que a Lei é a Vontade de Deus, o ideal divino para Sua Criação, certo? Portanto, a Lei também é Graça! Ambas caminham sempre juntas.
     Vimos ainda que a Lei de Deus foi revelada aos homens de forma progressiva (desde a instrução divina lá no Éden para o homem não comer o fruto, passando pela revelação na lei de Moisés e chegando ao seu ápice em Jesus Cristo homem, há cerca de dois mil anos). Logo, se deseja olhar para a Lei perfeita, olhe para Jesus e não, para Moisés!
     Em seguida concluímos que, como a Lei é perfeita e exige de nós que sejamos perfeitos (assim como é Deus), ela nos condena, pois não conseguimos alcançar esse status por causa do nosso Pecado. A Lei nos mostra quem somos (é um espelho). Porém, para resolver o problema dessa inevitável condenação, chega o Evangelho, o ápice da Graça divina!

3 - Mas afinal, o que é o Evangelho?

     Evangelho significa “boa nova” ou “boa notícia”. Há inúmeros evangelhos (por exemplo, quando Roma dominava um território, ela levava o seu evangelho, a sua “boa” notícia), sendo que o que proclamo é o que creio que seja Evangelho de Jesus Cristo. O apóstolo Paulo o chamava de “o meu Evangelho” e ainda de “O Evangelho de Deus”, que significam o mesmo. Evangelho é, portanto, o anúncio em Cristo (a boa notícia) de que, apesar de estarmos condenados pela Lei, Ele se entrega em nosso favor, para a nossa salvação. Evangelho é a boa notícia que Cristo assumiu o nosso lugar, cumprindo a Lei (não apenas no sentido de vivê-la integralmente, mas também encarando as consequências da transgressão dela praticada por nós). Jesus foi o representante do homem perante Deus. Como assim? Lembra que todos transgredimos a Lei e que, portanto, somos pecadores (I João 3:4)? Então, e Jesus, mesmo sem ter pecado, morreu em nosso lugar. Mas por que isso? Pois "o salário do pecado é a morte" (Romanos 6:23). Ele morreu para que nós, por esse ato de Graça, tivéssemos vida (eterna e em abundância) e fôssemos religados a Deus (pois tínhamos sido separados dEle pelo Pecado).

“Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não lançando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.” (II Coríntios 5:19)

     Mas veja bem: a morte é consequência do pecado e como Jesus não tinha pecado, a morte não poderia retê-lo e então, ao terceiro dia, ressuscitou.
     Em outras Palavras, Jesus é a revelação perfeita da Lei (como o homem deve ser, como deve se relacionar com Deus e com o seu próximo) e ao mesmo tempo é a revelação perfeita do Evangelho (o anúncio de que, embora o homem não seja como deveria, Deus, por Graça, o reconcilia conSigo). Entendeu agora? A Lei sem Evangelho é condenação! O Evangelho sem a Lei não tem sentido, pois anunciaria a salvação de que? Só sei que sou pecador e carente da Graça de Deus quando sou confrontado pela Lei, pelo modelo que não consigo seguir perfeitamente. Esse conjunto Lei + Evangelho é o que chamo de “Palavra de Deus”. Não é a toa que em João 1 lemos que o Verbo/a razão da criação/a Palavra de Deus se fez carne (ou seja, a Palavra de Deus entrou na história, no tempo e no espaço) em Cristo. Portanto, Jesus é a Palavra perfeita de Deus revelada ao homem, Palavra esta que é Lei + Evangelho. Lei para nos mostrar quem somos e para nos deixar o modelo, o ideal, o alvo; Evangelho para nos mostrar que Deus nos salvou apesar de nossa imperfeição.

     Cito aqui um comentário do amigo teólogo/filósofo Joel Costa:

“A Lei fica como mira, mas jamais nessa vida será concretizada. E este é justamente o escândalo do Evangelho: Você não irá, nem por um só dia, adequar-se às demandas da Lei. Você não será outra coisa senão pecador/rebelde por um só minuto de sua vida (nem antes e nem depois de crente). Agora pare de olhar para si e olhe para Jesus, de quem vem o perdão, a reconciliação e a promessa de transformação eterna."

     Não sei se ficou claro, mas o Evangelho não é (segundo essa interpretação que estou apresentando) o anúncio que você agora é capaz de cumprir a Lei e que, a partir disso, pode conquistar a sua salvação (assim seria uma salvação consequente ao seu esforço e ao seu mérito, mesmo que essa capacidade lhe tenha sido dada por Graça). Não! Evangelho é o anúncio que, apesar de você ser pecador e incapaz de cumprir a Lei, Cristo veio e cumpriu a Lei divina por você. Foi um sacrifício vicário (em seu lugar). Se ficar preocupado se está fazendo por merecer a sua salvação (se está cumprindo a Lei ou a vontade de Deus), estará agindo como os judeus dos dias de Paulo, que estavam “caindo da Graça”.
     Você não tem débitos com Deus, pois Cristo pagou tudo por você; também não tem crédito algum, pois tudo o que recebe é sem merecer (por Graça). Você não tem que viver a Lei para ser religado a Deus; você foi religado a Deus e o chamado de Cristo é para crer nisso, arrepender-se (expandir sua consciência para essa nova realidade) e assim, olhar para Jesus como um discípulo olha para seu mestre, desejando imitá-lo, ou seja, almejando viver, dentro da sua limitação, a Lei (vontade) de Deus. Ou seja: Você não deve fazer a vontade de Deus PARA... (ser reconciliado, ser salvo, ser justificado...). Você deve fazer a vontade de Deus PORQUE... (foi reconciliado, foi salvo, foi justificado). Enquanto não tirar o foco de você (assumindo sua incapacidade) e não olhar exclusivamente para Cristo, será uma mera criatura ingênua e prepotente, que se acha o foco de tudo. Não! O foco é a Cruz. Você é apenas vítima dela.
     Quem é “quebrado pela Lei” (entendendo que é pecador) e entende o abraço de Deus no Evangelho (nos tornando justos perante Ele), fica liberto de toda culpa por “pecar”, de todo medo de perder a salvação (como se fosse algo que dependesse do indivíduo) e do interesse por qualquer coisa neste mundo. Deus nos deu a vida eterna, o perdão, a reconciliação. Você continua sendo humano, limitado e pecador. Porém agora é um humano justificado em Cristo; é um humano que crê em Sua obra redentora. É justo e é pecador ao mesmo tempo (a famosa expressão teológica “simul justus et peccator”). Se você se considera meramente pecador, está vivendo na condenação, sem entender a salvação; caso se considere apenas justo, estará olhando sempre para você (afinal um justo jamais “peca”), para suas obras e não, para a Obra de Cristo na Cruz por você. O foco está errado!

      Resumindo: a Lei, por ser perfeita, quando exposta a nós (imperfeitos), evidencia nossa transgressão, nosso distanciamento dela e de Deus (o Pecado). Sendo assim, como não somos o que deveríamos, ela é condenação a nós. Porém, na Cruz, esse problema foi definitivamente resolvido. Como? Fazendo-nos capazes de cumprir a Lei (veja que essa noção coloca o foco em nós)? De forma alguma! Quem assim pensa, deve ainda ser confrontado muito mais pela Lei, para ver o quão distante continua dela, por mais que se julgue convertido e transformado pelo Espírito Santo. A Cruz resolve o problema reconciliando-nos com Deus sem que isso dependa de nosso sucesso no cumprimento da Lei. Como diz Paulo em Romanos 5:8 e 10:

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.”

“Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.”

     Nossa reconciliação com o Pai vem do sacrifício de Cristo. Isso acontece quando deixamos de ser pecadores? Não! A reconciliação não depende do homem; depende de Deus. Por isso é Graça! Não é uma notícia maravilhosa? Por isso é Evangelho! E pensar que essa mensagem soa como escandalosa e "liberal" para muitos que se dizem cristãos. É só tirar o foco do homem e colocar totalmente em Cristo que começa o incômodo (alguns até chamam de "Graça barata"), afinal, se não temos participação, como manter as pessoas sob controle, no "cabresto"? O pensamento da maioria é: “Ah, se assumirmos que é assim, que não temos papel algum em nossa salvação e pregarmos isso, o povo descamba”...
     A Lei não pode lhe salvar, sabe por quê? Porque você não pode cumpri-la! Ela não foi revelada para que alguém a cumprisse e por consequência fosse salvo. Ela foi revelada para mostrar ao homem sua incapacidade de ser “imagem e semelhança de Deus” como deveria, e portanto, colocar na consciência desse homem que ele depende totalmente de Cristo. A Lei é a “placa” que aponta para a Cruz.
     A Lei de Deus não diz: "Seja uma boa pessoa"; Ela diz: "Seja perfeito!" Porém o Evangelho diz: "Você sequer consegue ser sempre uma boa pessoa, então claro que não conseguirá ser perfeito. Mas mesmo na sua sincera imperfeição Deus ama, reconcilia, salva e justifica você. Agora viva nessa consciência, como deve viver quem participa do Reino de Deus, onde só usufrui da vida eterna e em abundância quem se arrepende (quem muda de mentalidade e expande a consciência), quem entrega-se a essa realidade."

     Quer cumprir a Lei? Só tem um jeito: descansando nos méritos de Cristo. Crendo que Cristo a cumpriu por você. E só isso? Não! Creia também no significado da ressurreição. Temos a promessa de que um dia seremos transformados plenamente à imagem de Cristo (Romanos 8) e a Lei será vivida por nós de forma natural, pois ela estará gravada em nosso coração. Enquanto isso, descanse no que foi feito por Graça. Por amor e por gratidão procure viver o mais perto que pode do ideal de Deus, revelado em Jesus, sem medo ou culpa, e sempre pacificado e com fé que um dia será completamente transformado, a ponto de Jesus ser chamado de "o primogênito entre muitos irmãos", tamanha nossa semelhança com Ele. 
     Você não deve viver pecaminosamente (deliberadamente na imoralidade) e sim, procurar viver a vontade, o ideal, a Lei de Deus (lembrando que não falo meramente da lei revelada a Moisés...), mas por quê? Não é pelo fato da reconciliação de Deus com você depender de seus méritos, mas porque aquele que toma consciência de que foi reconciliado em Cristo, por uma ação do Espírito Santo dentro de si, não consegue viver de forma oposta ao ideal de Deus (Lei divina). O amor de Deus nos constrange a todo o momento. É como o filho pródigo, que após ser acolhido depois de tantos erros, constrangido diante do amor imerecido do pai, jamais terá disposição para viver novamente de forma que o desagrade.
     Esqueça de uma vez essa ideia de que a Lei de Deus é uma cartilha de regras morais ou uma lista de mandamentos. A Lei de Deus é santa, pura, é a vontade de Deus para nós, é um caminho “ético” que gera vida. E esse caminho de vida foi sendo revelado ao homem na história de diversas formas, sendo que temos informações claras (nas escrituras) do contexto de Israel, que foi o povo que concentrou essa consciência explícita da revelação de Deus ao homem (embora a revelação de Deus se dê a todos, como Paulo deixa claro em Romanos 2). Dessa forma, vemos a Lei de Deus sendo revelada ao longo do tempo pelos mandamentos dados a Moisés, pelos ensinos dos profetas... Até que um dia essa revelação se tornou plena e perfeita na história, quando foi encarnada em Cristo. Ou seja, uma pessoa que deseja colocar a Lei de Deus como alvo de vida deve olhar para onde? Para Moisés? Para os profetas? Para os 10 mandamentos? Ou deve olhar para Cristo, que viveu, ensinou e aprofundou toda essa consciência da Lei? Obviamente deve olhar para Jesus. Em cada situação de sua vida, coloque Jesus. Imagine como Ele lidaria com cada situação (de pensamentos a ações). Isso lhe mostrará qual é o aplicativo da Lei de Deus em cada momento de sua vida. Em outras palavras: a Lei de Deus não é uma regra fixa em todos os contextos. A Lei de Deus é amor perfeito a Deus e ao próximo, de forma que pode ter um aplicativo em uma dada situação e outro aplicativo em outra situação. Cada escolha e cada atitude deve ter como meta o amor. Ou você acha que devemos aplicar os mais de 600 preceitos da lei de Moisés em nossa vida? Claro que não! Inclusive alguns são para nós absurdos, porém faziam parte do que na mentalidade judaica era demonstração de amor a Deus. Não quer dizer que Deus aprovava o apedrejamento, por exemplo, e sim, que na compreensão daquele povo, exterminar o pecador iria ter algum efeito contra o pecado, logo, seria uma forma de viver “em amor a Deus”. Em Cristo é que recebemos um parâmetro humano concreto do que realmente é demonstração de amor (inclusive vendo que esse apedrejamento é absurdo) tanto a Deus, quanto ao próximo. E pelo fato de a Lei de Deus ser uma essência (amor) e não uma cartilha é que aprendemos com os apóstolos a não questionar se algo “é pecado ou não” e sim, se convém, se edifica, se gera amor ou não...
     E agora segue uma dica: sempre que estiver lendo as escrituras, faça um exercício. Identifique em cada trecho (não importa onde esteja escrito, se é em um livro do Antigo ou do Novo Testamento) o que ali é Lei e o que ali é Evangelho. Como fazer isso? Simples: sempre que tiver uma instrução para que o homem faça algo, é Lei; sempre que houver o relato de algo que Cristo fez por nós, é Evangelho. Exemplo:

"Portanto recebei-vos uns aos outros (é uma instrução para o homem fazer, logo, é Lei), como também Cristo nos recebeu para glória de Deus (Cristo fez por nós, logo, é Evangelho)". (Romanos 15:7)
Viu como em uma mesma frase podemos encontrar tanto Lei, quanto Evangelho? Ficou claro?

     Como sei que algumas pessoas citam alguns textos bíblicos e alguns argumentos na tentativa de alegar que essa abordagem que apresentei não é coerente, vou adiantar a análise de vários deles. Vamos lá:

- “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10:4)
     A palavra “fim” aí não significa "término" e sim, “finalidade”, "objetivo". Ou seja: A função/finalidade da Lei é levar-nos a Cristo, para que nEle sejamos justificados.

- “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.” (Mateus 24:12).
     O que é argumentado é que “iniquidade” significa “negação da Lei”, sendo assim, deveríamos adotar a lei de Moisés (pelo menos a chamada “lei moral”, que seriam os 10 mandamentos). Mas leitor, você se lembra da nossa definição de Lei? É a vontade/ideal de Deus para vivermos, é amor pleno a Deus e ao próximo (que gera automaticamente coerência com os 10 mandamentos). Então é óbvio que negar a Lei, que em essência é amor, gera esfriamento desse amor, como diz o versículo bíblico.

- “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.” (João 15:10)
     Claro que Jesus guardava os mandamentos de Deus (que é amar em plenitude e agir apenas de forma coerente com o amor – por isso Ele permanecia no Amor do Pai, já que os mandamentos são 100% amor) e mesmo assim religiosos judeus o acusavam de não guardar plenamente a lei de Moisés, seja em preceitos diversos ou na guarda do sábado (quando curou, quando permitiu que seus discípulos colhessem espigas...). Ou seja: claramente os mandamentos de Deus vão muito além da interpretação judaica de mandamentos ou simplesmente da exterioridade dos 10 mandamentos revelados em Moisés. E cuidado para não interpretar esse trecho como se aí estivesse colocando uma condição (obedecer aos mandamentos) para que a pessoa seja amada por Cristo e por Deus. 

- “E, voltando elas, prepararam especiarias e unguentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento.” (Lucas 23:56)
     Texto usado para dizer que a lei de Moisés (guarda do sábado) continuou sendo seguida após a morte de Jesus, logo, a lei (mosaica) continua válida. Gente, novamente tenho que dizer o conceito que adotamos de Lei? Não é meramente 10 mandamentos; Lei é a vontade de Deus, que é amor perfeito. Eles eram judeus e obviamente continuaram seguindo os 10 mandamentos como sendo exterioridade, embora Jesus tenha dito que viver os mandamentos não significasse meramente seguir essa cartilha. Não adiantaria não matar, se o coração fosse irado, por exemplo. 
     Da mesma forma, Ele deixou claro que o sábado foi criado para o homem (fazer o bem, demonstrar amor) e não para que o homem se tornasse escravo de um dia da semana. Não há problema nenhum em tentar seguir a exterioridade da lei, desde que tenhamos essa consciência (que não conseguiremos de forma perfeita, isso que nem falo da interioridade dela, e que ela não é capaz de nos justificar). Seguir essa exterioridade da lei apenas porque é sadio e gera vida, sem problemas. Mas se há qualquer tentativa de autojustificação e de autossantificação nisso, é lamentável.

- “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei.” (Romanos 3:31) e  “... assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom.” (Romanos 7. 12)
     Claro que nada anula a Lei, pois a Lei é a vontade de Deus, logo é santa, boa, eterna e imutável. O que Paulo está dizendo no contexto (do primeiro versículo) é que não somos justificados pelas obras da Lei, ou seja, a Lei nos manda sermos perfeitos, certo? Mas não seremos justificados pela nossa tentativa de sermos perfeitos e sim, por Cristo. Aí ele conclui: então porque temos fé em Cristo a Lei deixa de valer? Não! Ela continua sendo o alvo, porém nós não seremos justificados por ela (até porque nem conseguimos cumpri-la na íntegra).

- “Se queres, porém, entrar na vida eterna, guarda os mandamentos de Deus.” (Mateus 19:17)
     Primeiramente devemos ler todo o contexto deste trecho (pelo menos do versículo 16 ao 26). O jovem rico pergunta a Jesus o que deve fazer para herdar a vida eterna. Então Jesus lhe dá essa resposta, sendo que ainda a completa, citando vários mandamentos do decálogo (“10 mandamentos”).      O jovem, ouvindo Jesus citando mandamentos, responde: “Eu já guardo esses mandamentos todos” (na ingênua prepotência de achar que os mandamentos são meramente regras de exterioridades. Ou seja, o jovem provavelmente não os guardava, mas assim como muitos dos fariseus, achava ou dizia que guardava). Jesus então aperta o rapaz, acabando com toda essa arrogância: “Então já que faz isso tudo, já que é tão bom como diz, venda toda sua riqueza e dê aos pobres. Assim será perfeito e para que você conquiste a vida eterna - pois você perguntou o que precisa fazer de bom para isso - tem que ser perfeito!”. Pronto, o rapaz então viu que nem mesmo um suposto cumprimento da exterioridade dos mandamentos o tornava digno de ter vida eterna. E no versículo 26 Jesus explica: “É impossível o homem conquistar sua salvação, a vida eterna e entrar no Reino de Deus. Essa é uma prerrogativa divina. Deus é quem salva e quem concede a vida eterna. Não é por mérito humano, pois até mesmo aqueles que se acham perfeitos, são falhos e limitados!”.       Viu como não é tentando guardar mandamentos que você é salvo?

- “Porque Abraão me obedeceu e guardou meus preceitos, meus mandamentos, meus decretos e minhas leis”. (Gênesis 26:5 ).
     Isso só comprova o que tenho dito: a Lei de Deus está muito acima das leis de Moisés. Abraão viveu antes dessa revelação histórica da lei em Moisés e mesmo assim vivia para obedecer a Lei (vontade de Deus).

- “Se não há mais lei, não há pecado, pois Pecado é a transgressão da lei”, como diz I João 3:4.
     Realmente, mas qual lei? A Lei de Deus (eterna) e não meramente a lei mosaica! Tanto é que o pecado existe muito antes da lei ser dada a Moisés, o que evidencia que a Lei divina não é simplesmente a revelação dos 10 mandamentos. A Lei é a Vontade perfeita de Deus, certo? O pecado é esse afastamento do homem em relação de Deus, ou seja, a distância entre o que somos e o que deveríamos ser (perfeitos). A revelação da Lei de Deus na história não fez SURGIR o pecado; ela apenas o EVIDENCIOU o pecado (mostrou ao homem que ele é pecador).

- “Ninguém é salvo por guardar a lei, mas quem é salvo guarda a lei, ou seja, tem prazer na lei de Deus”.
     Não concordo, no que diz respeito ao tema deste estudo, pelo seguinte: ninguém guarda a Lei e foi exatamente isso que Jesus deixou claro a nós (quando achamos que cumprimos na exterioridade, a interioridade nos denuncia). No máximo nós procuramos viver a Lei (Vontade de Deus). Isso sim é que deve ser nosso objetivo, mas sabendo que neste mundo jamais teremos êxito, pois cumpri-la significaria SER PERFEITO. Ela é o alvo ao qual nunca alcançaremos, mas do qual nunca desistiremos.

- “Se Jesus tivesse mudado ou abolido a lei, não haveria necessidade dEle morrer, pois ela não nos condenaria.”
     Jesus não mudou nem aboliu a Lei, pois a Lei é eterna (lembra qual é a definição de “lei” que desenvolvemos até aqui?). A Lei é o ideal de Deus para nós. A lei de Moisés é que é o aplicativo contextualizado, histórico, dessa lei divina na consciência de Israel. A Lei de Deus, que exige perfeição, é imutável e por isso ela nos condena. E é nesse contexto que entra o Evangelho: Jesus sendo nosso representante perante Deus, cumprindo a Lei, sendo perfeito, nos livrando da consequência da condenação da Lei.

- “A lei de Moisés é apenas arquétipo, simbolização, sombra de Cristo, mas a Lei de Deus é eterna. Sendo assim os 10 mandamentos valem para todos os povos em todas as épocas.”
     Volto a repetir: Lei de Deus não é o conjunto dos 10 mandamentos. Os mandamentos refletem a essência da Lei de Deus, que é amor PERFEITO a Deus e ao próximo. Obviamente que, se não matar e não roubar refletem a Lei de Deus (amor), não devo desejar matar e roubar. Porém isso não é meramente pelo fato de estar nos 10 mandamentos e sim, pelo fato de estar incluído no "Ame a Deus e ao próximo" (a essência da lei) ensinado por Jesus.

- “A lei reflete o caráter de Deus, logo se ela muda, significa que Deus muda?”
     O que reflete o caráter de Deus é a Lei de Deus, que é amor perfeito a Deus e ao próximo, sendo esta a vontade de Deus para nossa vida. Ela não muda. É eterna. O que muda é a compreensão e a forma de aplicação de cada povo acerca dessa Lei, sendo que a compreensão perfeita nos foi revelada em Cristo. Quer conhecer o caráter de Deus? Olhe para Cristo, pois Ele é a encarnação perfeita da Lei divina.

- "Jesus não ensinou a não guardar o sábado e sim, a guardá-lo corretamente".
     Já comentei um pouco sobre o sábado em vários locais deste estudo até aqui. Mas continuando: Jesus guardava os mandamentos de Deus (que é amar em plenitude e agir apenas de forma coerente com o amor) e mesmo assim religiosos judeus o acusavam de não guardar plenamente a lei de Moisés, seja em preceitos diversos ou na guarda do sábado (pois curou nesse dia e permitiu que seus discípulos colhessem espigas, por exemplo). Mas poderia Jesus, sendo perfeito, transgredir a Lei de Deus? Jamais! Ou seja: claramente os mandamentos de Deus vão muito além da interpretação judaica de mandamentos ou simplesmente da exterioridade dos 10 mandamentos revelados em Moisés. Jesus deixou claro que o sábado foi criado para o homem (fazer o bem, demonstrar amor) e não para que o homem se tornasse escravo de um dia da semana. Não há problema nenhum em tentar seguir a exterioridade da lei (por exemplo, elegendo o sábado na semana como um dia específico para uma reflexão, para uma dedicação maior de tempo em meditação na Palavra de Deus, já que nos outros dias trabalhamos, estudamos...), desde que tenhamos essa consciência (que não conseguiremos de forma perfeita cumprir essa lei - isso que nem falo da interioridade dela - e desde que tenhamos na mente que ela não é capaz de nos justificar). Seguir essa exterioridade da lei apenas porque é sadio e porque gera vida, sem problemas. Mas se há qualquer tentativa de autojustificação, de autossantificação nisso ou se acha que sua salvação está condicionada à Lei, é lamentável.
     Alguns atualmente são sabatistas mas usam isso mais como uma "disciplina espiritual". Para quem acha isso útil (é individual), acho válido. Pra mim, por exemplo, não é. A questão que vejo é a mesma do jejum de alimentos ou de intermináveis períodos de oração. Para alguns serve como uma disciplina espiritual e a pessoa passa a deixar de olhar para si para mergulhar nessa consciência de fé. Para outros, o efeito é o contrário: fica arrogante, prepotente, se julga mais santo ou com mais unção do que aquele que não age da mesma forma... Ou seja: infla o Ego e ao invés de deixar de olhar para si e passar a olhar apenas para a Cruz, aí é que olha para si mesmo. Acaba prejudicando. Enfim, essa "consagração" do sábado, segundo muitos estudiosos, precede a cultura judaica. Achar que fazer algo de diferente no sábado nos torna mais apresentáveis perante Deus, pra mim, é incoerente com o todo da Palavra revelada em Cristo. Se vamos separar um dia da semana para fazer algo a mais do que nos outros dias, é prova que estamos sendo negligentes nos 6 dias restantes, pois deveríamos dar tudo de nós em todo o tempo. O sábado da lei dada a Moisés tem muito mais a ver, na minha compreensão, com a consciência de que tudo vem de Deus, sendo que o foco de nossa vida deve ser Ele. É como uma exterioridade do que Jesus revelou: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça...” (Mateus 6:33).
    Mas enfim, guardo ou não o sábado? Claro que sim! Da mesma forma que deve guardar todos os demais dias. Achou que Jesus facilitou? De forma alguma! Ele aprofunda todos os 10 mandamentos. Se em Moisés é visto para guardar um dia, em Jesus aprendemos a guardar todos os dias, afinal, aquilo que você deseja no sábado, aquela entrega e comunhão que tem no sábado, deve ser a sua essência, o seu desejo interior. Logo, é impossível ter uma essência de desejo por Deus no sábado e uma essência bem mais “light” nos demais dias. Devemos guardar o dia todo, todo dia. Não de forma hipócrita e improdutiva como faziam muitos fariseus (com supressão de atividades rotineiras), mas como Jesus ensinou: fazendo sempre o bem, priorizando o próximo e derramando sobre ele o amor. Agora se vai ou não realizar algo em especial no sábado, é escolha de cada um...

- "Todo aquele que pecar sem a lei, sem a lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a lei, pela lei será julgado." (Romanos 2:12).
     Se pecado é a transgressão da Lei e Paulo aí está falando sobre pecado de quem não está sob a lei, significa que a Lei genuína não é meramente a lei mosaica. Além disso, em Romanos 5:13-15 observamos Paulo dizendo que o pecado vem antes da lei de Moisés, ou seja, não é ela quem define o pecado; ela apenas mostra ao homem que ele é pecador. O que define o pecado é a não adequação à Lei de Deus, que é amor. Somos pecadores pois não amamos com perfeição.

- “Porque não são os que ouvem a lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à lei, estes serão declarados justos.” (Romanos 2:13)
     O que Paulo está ensinando neste contexto? Que não são os que tiveram a revelação histórica explícita da lei (ou seja, os judeus) que são justos e sim, os que colocam a lei como alvo de vida. Não é questão de conhecer e sim, de viver! Tanto é que no próximo versículo ele fala daqueles (não judeus) que não tinham essa informação histórica da lei de Moisés, mas que viviam no sentido de aplicar a Lei de Deus em suas vidas.
     Então basta eu viver a Lei e serei justificado? Sim e não. "Sim", porque você seria justificado caso fosse capaz de cumprir a Lei (lembrando que significa “ser perfeito”); "Não", porque como ninguém cumpre a Lei (que exige perfeição), ninguém é justificado por ela. A nossa impossibilidade de cumpri-la denuncia nosso estado de pecado e só podemos ser justificados mediante a perfeição e sacrifício de Cristo. Por isso concordo com Martinho Lutero quando diz que somos justos e pecadores ao mesmo tempo (“simul justus et peccator”). Nossa essência é pecadora, mas em Cristo somos feitos justos. O sacrifício dEle conta em nosso favor.

- “Se diz que por mais que tentemos, neste mundo nunca seremos perfeitos, quem desejará tentar? É como querer que um funcionário se dedique, sabendo que nunca será promovido."
     Esse argumento reflete a motivação de um indivíduo que diz servir a Cristo. Não é por gratidão e por adoração que essa pessoa é “cristã” e sim, por interesse. É a mesma mentalidade judaica: “faço algo para Deus e EM TROCA Deus me dá benefícios”. Neste caso, mesmo não sendo necessariamente um benefício “palpável”, é um interesse (prepotente e ao mesmo tempo, ingênuo) de alcançar a perfeição neste mundo, por esforço próprio. Seremos perfeitos um dia, quando em um corpo transformado, estivermos gozando a eternidade nos braços do Pai. Neste mundo, não. Acertamos, erramos, caímos, levantamos, pecamos, confessamos, nos arrependemos, tomamos posse do perdão e prosseguimos no caminho. Essa é a vida cristã.

- "Jesus aboliu a lei de Moisés, mas aboliu apenas as centenas de preceitos da lei cerimonial e não a lei moral (10 mandamentos)"
     Não é que Jesus aboliu parte da lei de Moisés. Ele não aboliu. Ele cumpriu a Lei de Deus e consequentemente tudo o que na lei de Moisés era coerente com a Lei de Deus. A lei de Moisés nada mais é do que a aplicação contextualizada/circunstancial da Lei de Deus, que é Amor pleno a Deus e ao próximo. Para entendermos os 10 mandamentos e os mais de 600 preceitos da lei mosaica, devemos entender o que os judeus consideravam, naquela época, "amar a Deus e ao próximo". Para eles era o que? Era defender o monoteísmo e defender seus critérios de justiça a todo custo, mesmo que fosse necessário derramar sangue. Jesus evidenciou a essência da Lei (amor) e aprofundou esse aplicativo judaico. Jesus não facilitou; Jesus dificultou, pois mostrou que a Lei não é apenas exterior, mas também interior. (Tão "pecado" quanto ir pra cama com a mulher do vizinho é desejá-la sexualmente... Tão "pecado" quanto não guardar o sábado é não guardar todos os outros dias, ou seja, deixar de fazer o bem a todo o momento, a todas as pessoas, como na parábola do bom samaritano... e assim por diante)...
     O que era amar ao próximo para um judeu? Era respeitar o direito dele, não matando, não roubando, não tomando a mulher dele, respeitar pai e mãe... E o que era demonstração de amor a Deus na mente de um judeu? Era lutar pelo monoteísmo (não ter outros deuses), não adorar imagens de esculturas (deveriam ser diferentes do paganismo), separar um dia exclusivo para dedicar-se integralmente a Deus... Por isso quando a Lei de Deus (que é amor), foi revelada aos judeus, foi aplicada dessa forma nos mandamentos. Ou seja, os 10 mandamentos não são a Lei de Deus em si; são a aplicação da Lei de Deus no contexto judaico. Deus deu esses 10 mandamentos a Moisés, pois era isso que traria a eles essa consciência. Se Deus fosse dar 10 mandamentos ao Brasil hoje, como seria? Talvez fosse: "não darás mais atenção a aparatos tecnológicos do que à sua família; não se envolva em corrupção; preserve o meio ambiente; não aceite um evangelho de barganhas; não fure fila; sirva a Deus através da vida do seu próximo; ajude os mendigos..." Tudo tem um contexto. A Lei de Deus é imutável (e ela é amor a Deus e ao próximo), mas a revelação dela é contextualizada. Da mesma forma são os mais de 600 preceitos da lei mosaica. Todos tinham um significado claro para eles.
     Outro exemplo: Se eu sei que sou diabético e sei que não resisto a um bolo recheado e acabo comendo e parando no hospital, qual é a Lei de Deus pra mim? "Mantenha-se longe de docerias", afinal, se isso vai me prejudicar e prejudicar as pessoas que me cercam, não é coerente com a Vontade de Deus (amor), logo, é contra a Lei de Deus. Se eu sei que redes sociais me prendem o dia todo e atrapalham meu relacionamento, qual é a lei de Deus pra mim? "Afaste-se delas e preserve seu relacionamento..."
     A Lei divina sempre visa gerar amor. Na lei de Moisés observamos muita coisa que para nós não tem sentido (como cuidados com a barba e com modelos de roupas), mas que para eles, naquele momento, fazia sentido e demonstrava de alguma forma que Eles adoravam a Deus. Agora obviamente algumas coisas (apedrejar um pecador, por exemplo) ferem esse amor revelado em Cristo, de forma que mesmo que fosse, na mente de um hebreu, coerente com o "ame a Deus", não é (e nunca foi) coerente com Cristo, que é a revelação perfeita da Lei de Deus ao homem.
     O que concluímos? Que embora os hebreus tivessem considerado isso (apedrejamento, queimar cidades idólatras...) como uma demonstração de zelo e de amor a Deus, foi um ato absurdo. Não se justifica matar alguém que tem um pecado que consideramos mais grave que o nosso. Não tem coerência com Jesus e como Deus (revelado em Cristo) não muda, obviamente isso nunca foi correto, mesmo que fosse válido na mentalidade judaica. Lembre-se que Jesus deixou claro que muita coisa que os judeus pensavam não era coerente com Deus e essa questão é só mais uma delas. Várias outras coisas eram coerentes com Deus, pois eram como "vultos"que apontavam para uma realidade, surgida em Jesus. Somos discípulos de Jesus e não, de Moisés. O que estiver na lei mosaica que for coerente com Jesus, faremos e não é pelo fato de estar na "lista de regras" e sim, por gerar e demonstrar amor. Da mesma forma abrirei mão de muita coisa que não está na lei e em nenhum outro texto da escritura, pois entendi a mensagem de Cristo e desenvolvi essa consciência (mente de Cristo) de que Deus é amor e é em amor que Ele deseja que eu viva. 

Autor: Wesley de Sousa Câmara
(Escrito em 14/10/2014)