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23 de jul de 2016


     Quem nunca ouviu ou leu a famosa citação abaixo?

"Bíblias não são mais lidas nas escolas, mas sua leitura é incentivada nos presídios. Se as crianças pudessem lê-las nas escolas, talvez não viessem a lê-las nos presídios!"      

     E o que dizer dela? Acho extremamente tola e explico os motivos:
     Na escola é para serem lidos livros didáticos, de acordo com as disciplinas curriculares nas áreas sociais, biológicas, exatas... Afinal, o objetivo da escola é a educação. Religião/fé não é papel da educação escolar. Não dá pra ser anti-ético ao extremo e querer ler a bíblia nas escolas, pois diversas outras religiões exigirão, com toda razão, que seus livros também sejam lidos. Duvido mantermos essa opinião religiosa quando chegar um pai dizendo: "ok, mas vamos também ler na escola o Alcorão". E ainda outro pai: "ok, mas vamos também fazê-los ler a bíblia satânica". Ah, aí você não vai gostar, né? Pimenta no "olho" dos outros é refresco...
     E as atrocidades cometidas durante a história por pessoas que usavam determinadas interpretações da bíblia como justificativa? Há os que usam até hoje as histórias de Moisés e Josué para se acharem mais amados por Deus ou detentores de determinados benefícios; há quem use outras histórias hebraicas para defender um Deus sádico, caprichoso e vingativo (bem diferente do que Cristo nos revela); há quem cite salmos para defender a soberba, o orgulho e a vingança; há quem use o livro do Apocalipse para defender um leque quase infinito de interpretações, de sóbrias a extremamente infantis. Enfim...
     Toda leitura (inclusive bíblica) requer interpretação e quem garante qual interpretação seria dada às crianças nas escolas? Para começar, em pouco tempo, você que defende a leitura/ensino da bíblia nas escolas provavelmente seria mais um contrário a tal medida, visto que o que seu filho aprenderia lá algo que dificilmente coincidiria com a interpretação que você tem da bíblia. Ou seja, lá ensinariam um interpretação da bíblia e na sua casa e na sua igreja, outra bem diferente.
     Então seja coerente, honesto, respeitoso e ético. Vamos defender um estado laico, com cada estrutura da sociedade fazendo apenas o seu papel.
     E se a simples leitura bíblica inibisse o crime, não seriam a maior parte dos criminosos filhos de cristãos, ex-frequentadores de escolas bíblicas dominicais ou com história de catecismo realizado. Não existiriam pastores corruptos, nem padres pedófilos. Na cadeia não haveria sequer um "desviado". Então reveja seus argumentos, pois na prática sua teoria já mostrou que não funciona. E se um discurso não parece ser aplicável à realidade, é apenas falácia.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

18 de jul de 2016

Não ofereço nada a Deus


     Não temos nada pra oferecer ao Deus soberano e Criador que, por definição, já não seja dele.

"Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam." (Isaías 64:6)

     Se tivéssemos algo a oferecer não precisaríamos da Graça, que por definição é "favor IMERECIDO". Não temos nada que Deus precise e mesmo assim ele nos ama, abraça, perdoa, acolhe, salva...
     Quem precisa de algo de nós não é Deus, é nosso próximo. Por isso Jesus fica o tempo todo ensinando a amar, a perdoar, a acolher, a ajudar, a compartilhar, a dar água, a alimentar, a cuidar...

Autor: Wésley de Sousa Câmara

6 de jul de 2016

Deus não é brasileiro


     Limites geográficos podem existir em nossos mapas, mas não devem estar presentes em nosso coração. Somos todos amados por Deus, sejamos brasileiros ou estrangeiros, israelenses ou palestinos, cristãos ou "pagãos".
     Deus não é brasileiro, estadunidense ou israelense. Deus é amor e (como defende a fé cristã tradicional), Ele se fez, acima de judeu, ser humano. Ensinou cada pessoa a olhar para todo homem, sem distinção de cor, etnia, religião ou classe social, como sendo o seu próximo, uma extensão de si mesmo.
     Não viva correndo atrás de sonhos proféticos ou visões sobrenaturais enquanto não consegue enxergar nem o necessitado ao seu lado. Quando vemos Deus no nosso semelhante, seja cristão, judeu ou ateu, já podemos dizer que Deus se revelou a nós.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
06/07/2016

5 de jul de 2016

Debates teológicos com foco distorcido


     A discussão Arminiana VS Calvinista VS Semi-pelagiana em relação a salvação (pré-ciência de Deus sobre quem perseveraria até o fim? Deus predestinando/elegendo aqueles que seriam salvos e que, como causa ou consequência, fossem fieis?) é completamente sem sentido.
     A Salvação é uma dádiva, é Graça (favor imerecido). Ela não vem pelo fato de você ser fiel, obediente ou cumpridor da Lei. A sua fidelidade e obediência, por mais perfeita que pareça aos seus olhos, sempre estará a uma distância infinita do que exige a Lei divina. Logo, o argumento "sou salvo porque sou fiel e perseverante na vontade divina" é tão sem sentido quanto o "sou salvo porque fui eleito e minha fidelidade e perseverança evidenciam isso".
     Amigo, nossas melhores virtudes não passam de "trapos de imundície". Elas não nos salvam e tampouco podem ser evidências inegáveis de algo divino (sem contar que muitos "frutos", "obras" e virtudes a gente pode forçar, quando nos convém, e enganar uma multidão). Percebe porque o foco desses debates sempre estão distorcidos?
     Deus nos salva porque Ele é amor e deseja que ninguém se perca. Ponto. O resto é prepotência nossa.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

2 de jul de 2016

A Lei precede a Graça?


"Não dá pra perguntar o que vem primeiro a Lei ou a Graça (Evangelho) porque os dois são sempre simultâneos. É justamente porque o Verbo pré-existe que a Lei é eterna. A Lei é amor absoluto - o amor entre Pai, Filho, Espírito e Criação. Essa é a Lei, desde sempre. Nunca não houve a Lei - a Vontade de Deus, o Amor de Deus. Mas a Lei para nós, a demanda, nunca é divorciada do Evangelho - da redenção, do perdão, da reconciliação."
[Joel Costa Jr]

     Não vejo sentido algum na diferenciação da maioria em nosso meio entre "Lei e Graça". "Tempo da Lei... Tempo da Graça... Isso é Lei... Isso é Graça". Na minha compreensão, nada mais equivocado e sem sentido. O comentário acima, não meu, que tomo liberdade de transcrever aqui ilustra bem o assunto e explica com maestria o que também compreendo.
     Em outras palavras: Lei é a vontade, o ideal de Deus para o homem; Evangelho é a garantia de que, mesmo estando sempre distantes de cumprir a Lei, somos amados, aceitos e acolhidos por Deus em Cristo.
     Mais resumidamente ainda:
Lei = "É assim que você deve ser".
Evangelho = "Você não é como deveria ser, mas Deus te ama, te aceita, te perdoa e te acolhe como você é, a fim de te transformar um dia no que você sempre deveria ter sido".
     E a Graça? É o favor imerecido de Deus que nos concede a Lei e o Evangelho.
   Esqueça essa ideia superficial e distorcida de que Lei é Antigo Testamento, é Moisés ou relacionada a mandamentos judaicos. Ou que Graça é Novo Testamento, Jesus, apóstolos... Jesus é pura Graça, é a encarnação perfeita da Lei e do Evangelho, simultaneamente. Não é a toa que a Graça vem por Ele, que o Evangelho é anunciado e incorporado nEle e que Ele deixa claro: vim cumprir a Lei. Claro, a vida de Jesus é o pleno cumprimento da Lei (ideal) de Deus.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

19 de abr de 2016

Breves e "bombásticas" curiosidades sobre os evangelhos canônicos:



     Primeiramente, o que é "canônico"? É algo que pertence à coleção de livros reconhecidos como pertencentes à bíblia, ou seja, evangelhos que os cristãos, no geral, reconhecem como autênticos.

- Na bíblia, os evangelhos são os livros (os quatro primeiros do Novo Testamento) que nos trazem relatos sobre a vida (incluindo a morte/ressurreição) de Jesus.

- Temos 4 evangelhos "canônicos", sendo Mateus, Marcos e Lucas chamados "evangelhos sinópticos" (que contam geralmente as mesmas histórias, usando muitas vezes os mesmos termos) e João, um evangelho bem diferente, com suas histórias e estilo particulares.

- Todos eles são formas de levar o Evangelho (a "boa notícia") às pessoas, cada um segundo a crença e perspectiva de seu autor, ressaltando alguns aspectos que esse autor julgava condizentes com Jesus. Não no sentido de "todos acharem que Jesus era tudo o que os 4 evangelhos dizem, mas cada um falando só de um 'aspecto'" e sim, de que "cada um realmente achava que Jesus era exatamente aquele aspecto que resolveu registrar por escrito." Ou seja, para "Marcos", Jesus era homem (pelo menos até o seu batismo). Para "João", Jesus sempre (mesmo antes de nascer) foi Deus.

     Por que coloquei o nome de Marcos e de João entre aspas? Pois os três evangelhos sinópticos são anônimos. Os autores nunca se identificaram e podemos dizer com praticamente plena certeza que não foram escritos por testemunhas oculares da morte de Jesus, ou seja, não foram escritos pelo "Mateus, Marcos, Lucas e João" que foram próximos a Jesus. A tradição da Igreja é que, posteriormente, resolveu atribuir a cada um deles essa autoria, porém, ao que tudo indica, o evangelho mais antigo (o de Marcos) foi escrito cerca de 40 anos após a morte de Jesus e o mais recente desses evangelhos (o de João) foi escrito cerca de 60 anos após a crucificação.
     E mais: nenhum dos evangelhos foi escrito de forma a representar uma "biografia fiel", tal como estamos habituados hoje em nossa literatura, com trabalhos de historiadores. Era outra época, outra cultura, outro contexto, outros tipos de linguagens e objetivos... Mas aqui foi quis colocar uma "pulga atrás da orelha" a fim de incentivar a pesquisa de quem interessar pelo tema. Os detalhes e explicações sobre cada uma dessas informações são objetivos de outros textos.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
19/04/2016

13 de abr de 2016

Constantino, Cristianismo e Concílio de Niceia: mitos e verdades


     Nos últimos anos, com o acesso crescente à informação (muito em função da expansão da internet), é cada vez mais comum ouvirmos ou lermos afirmações a respeito do processo histórico que levou ao cristianismo tal como conhecemos hoje. E um dos assuntos preferidos é a questão da influência do imperador romano Constantino, que teria sido o responsável pela escolha dos livros que estão na bíblia, pela institucionalização do cristianismo e pela sua proclamação como religião oficial do Império. Porém, infelizmente muitos se gabam de possuírem essas informações “privilegiadas”, mas as fontes que usam são meros vídeos e textos encontrados na internet (e sabemos que o mundo virtual aceita qualquer coisa, inclusive qualquer conteúdo que eu venha colocar neste artigo), em vez de pesquisadores sérios, de especialistas na área, reconhecidos internacionalmente.
     Mas vamos direto ao que interessa. O que de fato sabemos sobre Constantino e sua influência no cristianismo?

A RELIGIÃO NO IMPÉRIO ROMANO
     Os cristãos, desde a morte de Jesus até o quarto século (época do Imperador Constantino), eram a massacrante minoria dentro do império romano e em algumas épocas sofreram pesadas perseguições (seja por judeus, por grupos locais “pagãos” – refiro-me com este termo a qualquer não cristão, nem judeu – ou por incentivo/decreto governamental). Jesus já foi uma vítima de execução; alguns de seus discípulos possivelmente também foram. E por que essa perseguição acontecia? Os judeus acusavam o ainda pequeno grupo de cristãos de “blasfêmia” por considerarem Jesus como o Messias; a gerada por grupos locais era geralmente motivada pela questão teológica prática: os romanos adoravam vários deuses, como Júpiter, Vênus e Marte, além de deuses menores, que seriam os responsáveis pela fertilidade da terra, pela saúde e pela riqueza. Para os deuses beneficiarem as pessoas, teriam que estar felizes e para isso, tinham que ser adorados. Se isso não acontecesse, ficariam irados e poderiam gerar um caos na vida das pessoas. Então, quando ocorriam catástrofes naturais, fome ou epidemias o que pensavam? Que era culpa dos cristãos, pois eles não reconheciam os deuses com sacrifícios e oferendas, gerando fúria divina. Assim, passavam a ser alvos de violência (os judeus nem tanto, já que era uma religião bem antiga que convivia em relativa harmonia com os romanos), chegando ao ponto de algumas vezes, lideranças de Roma pressionarem cristãos (com tortura e morte) a negarem sua fé, a fim de acalmar os ânimos dos seus deuses. Essa perseguição atingiu seu ápice nos dias dos imperadores Diocleciano e Maximiano, quando (principalmente por iniciativa do primeiro) determinaram uma perseguição implacável contra os cerca de 7% de cristãos que havia nessa época (ano de 303 dC) no império, com a queima de livros, com a destruição das igrejas cristãs existentes e com a prisão de lideranças. No próximo ano houve um decreto que determinou sacrifícios gerais dos habitantes do império aos deuses romanos. Como os cristãos quase sempre não os realizavam, eram violentados e mortos, nessa “Grande Perseguição” que durou cerca de 9 anos.
     Constantino assume o poder no império e converte-se ao cristianismo no ano de 312 dC (e um ano depois determina o fim nessas perseguições). Mas será que essa conversão foi genuína ou teria sido uma mera manobra política de Constantino, como afirmam muitos atualmente?

CONSTANTINO TORNA-SE CRISTÃO
     De acordo com o autor cristão Eusébio (o “Pai da História da Igreja”, como é conhecido), na biografia que produziu de Constantino, o imperador teria lhe confessado como ocorreu sua conversão: Quando Dioclesiano abriu mão do poder em 305 dC, Constantino assumiu e teve que guerrear (e venceu) contra o outro imperador (Maximiano), que queria o poder do império para si. Porém, com a derrota de Maximiano, seu filho Maxêncio assumiu o poder que era do pai. Como Constantino desejava governar sozinho, partiu com seu exército para guerrear também contra o novo imperador. Quando essa batalha estava prestes a ocorrer, Constantino teria tido uma visão no céu de uma cruz com uma frase: “Com este símbolo vencerás” (segundo sua suposta declaração a Eusébio, que registrou na biografia). Em seguida teria sonhado que Jesus dizia a ele para usar o símbolo da visão, que fazendo assim venceria a batalha. Após realizar um grande objeto de ouro e pedras preciosas e ser aconselhado pelos seus conselheiros religiosos que deveria promover o culto ao Deus dos cristãos, entrou na batalha. E o que aconteceu? Venceu o duelo e tornou-se o imperador da parte ocidental do Império.
     Vale destacar que os romanos, na época de Constantino, tinham a ideia de que havia um Deus ainda maior que os grandes deuses e esse imperador adorava o deus “Sol Invictus” (“sol invisível”), antes e depois da conversão (moedas cunhadas após ter se tornado cristão evidencia que o “deus sol” ainda era desenhado nelas), quando parece ter acreditado que esse deus seria o mesmo Deus dos cristãos. É provável que ele tenha tido uma fé que promovia um sincretismo entre sua crença pagã e a nova crença cristã, tanto que esse pode ser um motivo para que determinasse que o culto cristão fosse realizado no domingo (“dia do sol”) e também que o “Natal” (nascimento de Jesus) fosse comemorado no período do solstício de inverno.
     Em 313 dC (um ano após sua conversão) Constantino entra em acordo com o General Licínio (que na época controlava a porção oriental do império) para que os cristãos deixassem de ser perseguidos. Foi então que surgiu o famoso “Édito de Milão” (Édito de Tolerância), que estabeleceu uma liberdade de escolha de religião e culto para todos os habitantes. E assim, praticamente cessou a violência promovida por pagãos contra os cristãos.
     Pode-se discutir as razões que motivaram a conversão de Constantino ao cristianismo (ou seu tardio batismo, prestes a morrer, no ano de 337 dC) e até mesmo pode-se afirmar que ele manteve por alguns anos uma posição sincrética de paganismo com fé cristã. Porém não vejo motivos para duvidar de que ele realmente cria no Deus cristão e a partir da década de 320 dC parece que ele assumiu mais explicitamente uma crença “genuinamente cristã”. Alguns insistem na hipótese de que sua conversão tenha ocorrido por pura conveniência, já que seria uma arma forte lutar pela união romana em torno de apenas um imperador, se o império tivesse apenas uma fé, com um só Deus. De qualquer forma, a conversão de Constantino fez com que o cristianismo deixasse de ser uma religião perseguida e passasse a ser uma religião beneficiada. E por ser a religião do imperador, começaram a ocorrer conversões em massa e a fé cristã passou de minoritária para majoritária já no fim do quarto século. E após Constantino, praticamente todos os imperadores foram cristãos, o que estimulava cada vez mais a ascensão da religião cristã.

O CONCÍLIO DE NICEIA
     É inegável que Constantino, embora pareça ter tido uma conversão verdadeira ao cristianismo, tinha também um interesse em unificar o império romano com a adoção dessa “nova” religião. Porém como poderia ocorrer um união se dentro do próprio cristianismo havia uma grande divergência e várias disputas em relação a pontos cruciais da fé? As teologias cristãs na época eram muitas, algumas tão diferentes entre si que no máximo tinham em comum a adoção de alguns termos. Como unificar o império em um pilar religioso desunido? Foi nesse contexto que Constantino convocou um conselho de mais de 200 bispos cristãos, a fim de resolver esses conflitos. Devido ao nome da cidade em que ocorreu, no ano de 325 dC, ficou conhecido como o “Concílio de Niceia”.
     Como dito, havia muitas discordâncias entre os cristãos, desde a morte de Jesus, em relação a muitos pontos da fé e alguns desses conflitos foram discutidos nesse concílio. O ponto chave debatido foi: “Em que sentido Jesus era divino”?
     O que os cristãos entendiam sobre esse assunto variou muito com o tempo. Quanto mais nos afastamos, temporalmente, da morte de Jesus, mais observamos uma tendência de ver Jesus como “mais divino” (observe que isso também se reflete nos quatro evangelhos que temos na bíblia, sendo que o mais antigo deles – Marcos – nos mostra um Jesus menos “divinizado” do que o último evangelho – o de João -, embora todos eles nos mostrem um Jesus tanto divino, quanto humano), de forma que nessa época (quarto século), praticamente todos os cristãos viam Jesus como divino (variando na intensidade dessa divindade). Então os conflitos agora eram apenas em relação a como conciliar isso com a humanidade de Jesus, ou seja, como Jesus poderia ser divino e humano ao mesmo tempo?

     Diferentes grupos de cristãos entendiam de diferentes formas esse ponto ao longo dos séculos:
- - Havia quem defendesse que Jesus era tão humano que não poderia ser divino (essa ideia era mais prevalente nas primeiras décadas após a morte de Jesus – antes mesmo de serem escritos os evangelhos ou, pelo menos, de serem reconhecidos como escrituras “inspiradas”). Alguns defensores dessa posição são os chamados “adocionistas”, que diziam que Jesus era um ser humano como todo os outros (inclusive sem a ideia de nascimento de uma virgem), sendo apenas mais santo, justo e puro que os demais. Por causa disso, Deus o adotou como “Filho amado” em seu batismo e a partir de então entrou na missão de morrer pelos pecados do mundo. E como recompensa por esse sacrifício, Deus o ressuscitou e o colocou à Sua direita, aguardando o dia em que retornará à Terra para estabelecer o juízo e Seu reino.

- - Havia quem dissesse que Jesus era tão divino que nEle não havia espaço para ser humano (essa visão é mais tardia, encontrada no segundo e terceiro séculos) e um exemplo de grupo cristão que se enquadra nessa perspectiva é o dos “docetistas”. Para eles, Jesus parecia ser um humano, mas não o era. Jesus era 100% Deus, com uma imagem que transparecia características e sentimentos humanos, mas que não eram reais.

- - A maioria dos cristãos, porém, negava as duas teologias acima e sustentavam que Jesus era humano e divino, ao mesmo tempo. Tanto, que ambas as abordagens citadas já no segundo século começaram a ser encaradas como “heresia” (ensino falso) pelo cristianismo. Lembrando que algo pode ser considerado um ensino correto (ortodoxo) em determinada época e tempos depois ser condenado como heresia. Quem decide isso são os segmentos dominantes e/ou majoritários. Ou seja, as duas posições acima foram perdendo o debate, diminuindo sua força e influência, embora não tenham desaparecido.

     Se observar bem, o problema é ainda mais profundo, pois em cada teologia há várias questões pendentes: Se Jesus é Deus e o “Deus Pai” também o é, então há dois deuses? Se o Deus Pai desceu do céu e se tornou Jesus (humano), quem ficou sendo Deus nesse tempo? Se Deus Pai continuou sendo Deus em Jesus, então Deus sofreu e morreu? Se Deus Pai era Jesus, então Jesus orava a si mesmo? Percebe que toda teologia que surgia a fim de responder uma questão era questionada e com o tempo passava de “ortodoxa” para “heresia”?
     Mas voltando ao ponto inicial, o que o Concílio de Niceia tem a ver com isso? É que no início do quarto século surgiu uma teologia chamada “arianismo”, que, em linhas gerias, dizia que no início havia apenas “Deus Pai”, que fez surgir depois Seu Filho (Cristo), que deu origem à criação e que tornou-se homem, nascendo de uma virgem, morrendo pelos pecados dos homens, ressuscitando e voltando para a destra de Deus. Após um “sucesso” inicial, levantaram cristãos (como Atanásio) com objeções a essa teologia, já que supunha que Cristo era submisso a Deus Pai e não estava em igualdade com Ele. Para esses opositores, Cristo era tão divino quanto o Pai e não teve nenhum instante em que não existisse. Era o desenvolvimento da “doutrina da trindade”. Então, no Concílio de Niceia a disputa era mais no sentido de como Jesus era divino? Era divino por ter surgido de Deus Pai ou por ser Deus desde sempre, tendo a mesma substância (e ausência de origem) que o Pai? E no concílio a doutrina de Ário foi derrotada pela massacrante maioria dos “votos” dos bispos.

     Conclusão: O Concílio de Niceia “oficializou” uma posição como ortodoxa (que por sinal se manteve, a grosso modo, ao logo do tempo após muitos debates) em relação à divindade de Cristo. Constantino não era um bom teólogo e não teve influência nessa decisão, a não ser na questão de ter organizado o concílio. O que ele desejava era que os cristãos decidissem ficar de um lado ou de outro e parassem com as disputas. Ele, nem esse concílio, decidiu nada em relação a quais livros entrariam no Novo Testamento (isso só foi consolidado mais tarde) e tampouco foram responsáveis pela institucionalização do cristianismo como religião oficial do império (isso só ocorreu em 385 dC, com o imperador Teodósio). Isso mesmo, o cristianismo não nasce em Constantino e tampouco ele a oficializa em Roma. Constantino converte-se à fé cristã (isso influencia muita gente a fazer o mesmo), cessa as perseguições e convoca esse concílio. Porém a escolha dos livros do Novo Testamento foi fruto de longo processo, que só foi “oficializado” décadas depois.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
13/04/2016

8 de abr de 2016

Mateus 24: Fim do mundo ou destruição de Jerusalém?


     Sobre Mateus 24:

     A maioria dos cristãos, em nosso contexto brasileiro, diz que é uma profecia de Jesus em relação ao fim do mundo, que ocorrerá um dia, no futuro. Outros dizem que era uma profecia sobre destruição de Jerusalém, ocorrida no ano 70 dC.
     O que acho? Que não era nem uma, nem outra. Se colocarmos Jesus dentro de seu contexto, chegaremos à conclusão que quase certamente Ele era um profeta apocalíptico (tal como era João Batista - mas em outro texto falarei em detalhes). Dessa forma, Jesus pregava que um evento cataclísmico daria início ao Reinado de Deus NA TERRA (repare que não era no céu. Era na Terra, com pessoas comendo, bebendo, vivendo e inclusive com seus 12 discípulos governando nesse Reino terreno - Mateus 19:28). Ele não profetizava uma simples queda de Jerusalém, com o mundo permanecendo da mesma forma. Tampouco, falava de algo que ocorreria milhares de anos depois. Um profeta apocalíptico pregava que Deus viria destruir as forças do mal que dominavam o mundo. Quando? Em breve! Era iminente. Não é a toa que a mensagem era: "Fiquem atentos! Não passará essa geração sem que tudo isso seja cumprido" (Mateus 24:34).
     Diante dessa última frase alguns (como eu também já fiz) calculam: "se uma geração tem 40 anos e Jesus disse isso por volta do ano 30, a destruição de Jerusalém no ano 70 dC estaria ainda dentro do limite de tempo dessa previsão, logo, como Jesus não pode errar, Ele falava da queda de Jerusalém e não, do fim do mundo que até hoje não aconteceu". Porém essa ideia desmorona quando verificamos que quase certamente o Evangelho de Mateus (que é anônimo) foi escrito entre os anos de 80 e 85 dC . Ou seja, esse evangelho foi escrito após o acontecimento, logo, como podemos garantir que foi uma profecia de Jesus por volta do ano 30 em vez de ser uma criação de pessoas que viram a queda de Jerusalém e "criaram" profecias que teriam sido ditas por Jesus? Percebe que a coisa complica? Então, se o evangelho de Mateus foi escrito 10 ou 15 anos após a queda de Jerusalém, no máximo seria um registro de um autor que escreveu após conhecer o desfecho, o que tiraria, em termos históricos, a confiabilidade em relação ao que realmente teria sido dito por Jesus em relação a essa destruição (pode ter sido exatamente assim? Pode, mas é tão confiável como os relatos de pessoas que, após presenciarem um acontecimento, dizem: "eu tinha sonhado, há alguns dias, que isso aconteceria". Oras. Então porque só disse depois que o fato ocorreu?
     Conclusão: Se tentarmos ser historicamente precisos e deixarmos nossas preferências teológicas de lado momentaneamente, em Mateus 24 aceitaremos que Jesus não estava prevendo meramente a queda de Jerusalém. Também não estava falando de uma volta de Jesus para mais de 2 mil anos depois. Ele falava dentro do contexto apocalíptico judaico, que previa um evento universal, cataclísmico, visível a todos, em que o "Filho do Homem" viria para estabelecer o Reino de Deus na Terra. Isso seria em breve, era iminente. Poderia ser em alguns dias, semanas ou meses. Era impensável para um judeu apocalíptico que ocorreria apenas no próximo século, quanto mais, depois de milênios (todo apocalíptico estava convencido que aqueles dias em que vivia eram os últimos. Repare que o apóstolo Paulo seguia a mesma linha. Quando eles diziam que seria "em breve", não era no "sentido figurado"). Aquela geração era considerada perversa demais e Deus colocaria ali um limite. Então as pessoas deveriam se arrepender, crer na mensagem do Reino e escapar da condenação.
     Por isso Jesus não se preocupava com bens materiais, casa e riqueza... Ao contrário, na visão apocalíptica quem "se dá bem na vida" é porque provavelmente está aliado com as forças do mal, que governam este mundo. Por isso "é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (Mateus 19). Os que são oprimidos neste mundo (pobres, injustiçados, marginalizados, perseguidos...) pelos que representam as forças das trevas são aqueles que Deus recompensará em Seu Reino e por isso são os "bem aventurados" (Mateus 5).
     Quando dizemos isso, muitos fundamentalistas protestam: "Que heresia! Que blasfêmia! Jesus não erraria em Sua previsão". Ora, simples. Não é questão de acertar ou de errar. Ele mesmo assumia que não sabia (Marcos 13:32) o dia e a hora em que isso ocorreria (porém que Ele acreditava que seria muito em breve, é óbvio). Então se Ele não sabia, qual o problema em assumir que Ele achava que seria em breve? Jesus também não sabia que comer sem lavar as mãos poderia sim contaminar o homem, transmitindo doenças (Mateus 15:11), já que os micróbios foram descobertos muito tempo depois, e nem por isso Ele merece menos crédito. É uma questão de contexto cultural, social, religioso e científico. Ah, e claro: de bom senso.

Autor: Wésley de Sousa Câmara  
08/04/2016

5 de abr de 2016

Ninguém sabe o que é "Evangelho puro e simples"


     Engana-se quem acha que, por nascer a cada dia várias outras denominações cristãs, a cada dia que passa o cristianismo se torna mais divergente. Muitos acreditam que os cristãos estão cada vez mais com interpretações diferentes em relação à fé. Porém, pode somar todas as divergências entre cada vertente cristã do século XXI, de católicos a testemunhas de Jeová, de presbiterianos a pentecostais, de mórmons a luteranos... Essa divergência toda de pensamento ainda não é nada perto da divergência de fé que tinham os cristãos nos primeiros três ou quatro séculos da nossa era. 
     O que é a discordância em relação a "dons espirituais" diante da discussão se Jesus era somente homem, somente Deus ou tanto Deus quanto homem que os cristãos primitivos debatiam? O que é a questão de guardar ou não o sábado diante da disputa que havia no cristianismo se havia só um Deus, dois deuses, dezenas ou centenas de deuses? O que é a briga atual em relação a venerar ou não Maria, diante da "guerra" dos primeiros cristãos para saber se Jesus morreu para salvar o homem ou nem mesmo teria morrido? O que é nossa disputa sobre a interpretação do Apocalipse de João diante dos diálogos antigos se esse livro deveria ser levado a sério ou simplesmente jogado no lixo junto com vários outros apocalipses existentes? O que é nossa divergência em relação a frequentar ou não uma "igreja" diante da briga cristã que havia para decidir se todo o universo teria sido criado pelo Deus soberano, por um deus inferior ou mesmo por um espírito das trevas? 
     Ter essa mínima noção histórica já é suficiente para perder a ilusão de que estamos cada vez menos unidos ou de que devemos voltar ao "evangelho puro e simples". Entenda: ninguém, nem os escritores dos evangelhos entravam em um consenso em relação ao que seria essa pureza e simplicidade do evangelho, então deixe de ingenuidade de usar essa expressão, na ilusão de que você (que vive em outra época, em outro contexto, em outra cultura, dois mil anos depois...) pode se gabar de pregar o "Evangelho puro e simples". Isso não cola pra ninguém que para um minutinho pra refletir.  Pense um pouquinho: se há um evangelho puro e simples terá que ser aquele que saiu da boca e dos atos de Jesus (por definição da fé cristã). E quem nos provará o que foi exatamente isso? Sua interpretação? Por favor, né? Abaixe sua bola. Menos, bem menos...

Autor: Wésley de Sousa Câmara
05/04/2016

2 de abr de 2016

Está na bíblia, logo, está provado?


     Muitos tem uma visão extremamente superficial das coisas quando o assunto é história cristã. Sabemos que a história (não apenas a cristã) é algo não baseado em provas (ao contrário da física ou da química, por exemplo, em que uma afirmação pode ser testada através de experimentação). A história analisa eventos que, uma vez ocorridos, não voltam atrás. Apenas falamos dela de forma retrospectiva, tentando reconstruir os acontecimentos através de evidências. E o que são evidências? Podem ser relatos, testemunhos, registros escritos, documentos, fotografias, filmagens...
     Por exemplo: alguém me diz que ontem tomou suco de maracujá no almoço. Tenho como provar? Não, pois não posso realizar um estudo científico comprovando tal afirmação. Mas posso decidir acreditar ou não de acordo com as evidências que tenho. E cada tipo de evidência oferece um “peso diferente”. Se essa pessoa chega com um laudo médico emitido após uma realização de análise bioquímica do conteúdo digestivo, bem como de substâncias no seu sangue, isso terá um peso muito grande; se ela me traz vídeos de câmeras independentes, que especialistas atestam sua autenticidade, mostrando que essa pessoa estava ingerindo suco aparentemente de maracujá, terá um peso enorme; se essa pessoa traz dez testemunhas que presenciaram o fato, terá um peso, porém menor do que os anteriores (afinal, elas podem ter um interesse por trás dessa confirmação ou quem sabe podem ter se confundido); se a pessoa traz apenas uma testemunha, o peso é ainda menos significativo. Se não há testemunhas e apenas a própria pessoa estava lá no momento em que supostamente ingeria o suco de maracujá, a evidência terá ainda menor peso (afinal, ela pode ter inventado essa história, pode ter tido um delírio, pode ter se confundido...). Percebe que não é tão simples reconstruir o passado? Não existem provas sequer de que Lula foi presidente do Brasil, mas temos tantas evidências, documentos, imagens e testemunhas que isso é considerado um “fato inegável” por qualquer pessoa informada e mentalmente sem deficiência. Porém conforme vamos nos afastando na linha do tempo, nos aprofundando no passado ou conforme mudamos o foco para acontecimentos menos relevantes, as evidências se tornam cada vez mais limitadas. Por exemplo, quando Jesus nasceu? Não sabemos, mas podemos saber com relativa certeza a data de nascimento de nossos pais. Temos documentos, testemunhas oculares vivas que nos dão relativa certeza dessas informações.
     Por que eu disse isso tudo? Pois muitos cristãos (a maioria) abre mão dessa visão crítica das coisas quando o assunto é fé ou bíblia. Elas partem de um pressuposto raso e acrítico: “se algo está na bíblia é verdadeiro e ponto final”. Ou seja, a “prova” para elas é estar na bíblia”. Porém, se questionamos sobre o processo que cada teto passou até chegar em nossa bíblia, raras pessoas, entre essas, responderão corretamente. Em outras palavras: fazem alegações sem ter uma fundamentação sólida. Elas não entendem sequer que, para alimentar essa premissa (de que “é verdade por estar na bíblia”), precisam distorcer as evidências, negando que na própria bíblia há informações divergentes sobre um mesmo evento. Pense comigo: se algo é verdadeiro simplesmente por estar na bíblia, quando ela nos dá duas possibilidades de enxergar um acontecimento, como entenderemos tal situação?
     Se prezarmos pela realidade e pelas evidências, diremos o seguinte: “Penso que algo aconteceu de tal forma por ter evidências que julgo suficiente de que foi assim, sendo tal trecho bíblico uma dessas evidências e sendo essa evidência confiável ou relevante por tais motivos”. Percebe a diferença? Por exemplo: Jesus existiu. Isso é inegável para qualquer pessoa que preze por evidências (não importando se ela tem fé ou não – e é um fato negado apenas por adeptos de teorias conspiratórias e pseudocríticos, como os chamados “miticistas”), já que as temos dentro e fora da bíblia. E quanto a dizer que “Judas era um discípulo traidor de Jesus que se suicidou por enforcamento”. Ora, essa é uma informação muito menos suportada por evidências (embora seja possível), tendo divergências de relatos até mesmo dentro da própria bíblia.
     Quando tentamos uniformizar tudo o que temos na bíblia, cometemos um erro infantil: ignoramos todo seu processo de formação (incluindo seu processo de escrita, de edição, de transcrição, de tradução e de compilação). Tornaremos absoluto o que está ali diante de nós, como se tudo tivesse caído pronto do céu. Um exemplo nos ajuda a evidenciar essa questão: quando a bíblia foi finalmente compilada, ou seja, quando os grupos dominantes da Igreja (ortodoxos) oficializaram quais livros entrariam no “Cânon Sagrado” e quais ficariam de fora, gerou descontentamentos. Alguns grupos de cristãos consideravam sagrados e divinamente inspirados outros livros que hoje chamamos de “apócrifos”. Outros consideravam apócrifos livros que estão em nossa bíblia. O Apocalipse de João era rejeitado por algumas igrejas; o Apocalipse de Pedro era aceito por outros cristãos. E aí, como fica? Se algo é tido como certamente verdadeiro por estar na bíblia, o que valida um relato não é se de fato ocorreu como descrito e sim, se foi aceito em determinado momento pelos segmentos dominantes da Igreja? O Apocalipse de João está na bíblia, então diremos que é verdadeiro. Mas ele entrou no cânon “por um triz”. E se tivesse ficado de fora? De 100% verdadeiro se tornaria 100% falso? O mesmo raciocínio vale para o Apocalipse de Pedro, que quase entrou na bíblia, mas o que define se ele é confiável ou não é baseado unicamente nessa escolha pelos cristãos dos primeiros séculos? Quer dizer que o rejeitamos hoje como “tolice”, mas se ele tivesse entrado na bíblia, o mesmo conteúdo seria magicamente considerado como “divinamente inspirado? E quem garante que a escolha feita pela Igreja, nos primeiros séculos de nossa era, foi perfeita e absoluta, se os próprios cristãos na época discordavam entre si? Alguns dizem: “Deus não é Deus de confusão, então ele também inspirou a escolha dos livros que fariam ou não parte da bíblia”. Interessante, mas incoerente. Então por que não inspirou uma unanimidade na escolha? Por que desde os primeiros anos após a morte de Jesus havia cristãos com pensamentos bem diferentes? Por que católicos, protestantes, coptas e ortodoxos adotam bíblias diferentes? Qual delas é o cânon divinamente inspirado? E sabemos que nossa bíblia atual não corresponde exatamente aos textos originais (que por sinal não mais existem), nem mesmo aos antigos, que circulavam nas primeiras décadas e séculos após a morte de Jesus (afinal era transcrita por copistas, sem nosso moderno sistema de cópias e impressão). Há trechos que foram nitidamente acrescentados, outros omitidos, outros alterados. Se há realmente essa preocupação divina com todos esses detalhes, por que foi permitida essa “confusão” ao longo dos séculos? Essas premissas são nitidamente fruto de um suposição, de uma hipótese infundada, do desejo de um grupo (mas pode ser verdade? Até pode, mas é provável ou há evidências de que seja?) 
     Conclusão: Eu disse isso tudo para tentar fazer você, leitor, entender que as coisas não são tão simples quanto parecem. Precisamos ter pelo menos um mínimo de criticidade. Vejo pessoas sem nenhuma noção desse complexo processo histórico querendo condenar os que interpretam de forma diferente deles. Vejo-os destilando tanta arrogância como se dominassem o assunto e como se Deus tivesse dito a eles que a interpretação que possuem é a perfeita, a exata. E realmente os fundamentalistas cravam com uma ingênua convicção: “O que defendo não é interpretação minha; é revelação do Espírito Santo, então é a verdade sim, que só discerne quem é Espiritual”. Verdade? E pensar que milhares de grupos fundamentalistas, que discordam radicalmente entre si, dizem o mesmo. Como explica? Como saber quais das milhares de interpretações diferentes que se dizem frutos de revelação divina é a verdadeira? Temos muitos “Espíritos Santos” revelando coisas diferentes a cada um ou essas pessoas é que estão fazendo confusão com seus imensos níveis de ingenuidade e ignorância histórica? Entendeu agora que “o buraco é bem mais embaixo”?

Autor: Wésley de Sousa Câmara
02/04/2016

29 de mar de 2016

Todos relativizamos a bíblia. Quais são os seus critérios?


     Inicio este texto afirmando categoricamente: “Toda pessoa relativiza a bíblia; o que varia é o conjunto de critérios adotado por cada um”. E quando digo algo óbvio assim, imediatamente os cristãos fundamentalistas dão um pulo da cadeira me xingando de “mentiroso” e de “herege”, afinal, eles tem a ingênua ilusão de que seguem a genuína Palavra de Deus (ou o “evangelho puro e simples”), revelada diretamente a eles pelo Espírito Santo. Pois bem, vejamos então porque isso faz sentido e o que me leva à convicção de que é impossível não relativizar a bíblia:

1 – A própria origem da bíblia já é fruto da relativização de textos antigos, inclusive todos aqueles tidos como “escrituras”. Entenda  seguinte: a bíblia surgiu no quarto século da nossa era (cerca de 300 anos após a morte de Jesus e uns 200 anos após o último livro que nela encontramos ter sido escrito). Os segmentos dominantes (ortodoxos) da época eram os que representavam a posição oficial da Igreja e graças a eles (por questão de preferência, conveniência e interesses diversos), após muita briga foram escolhidos quais livros fariam parte da bíblia e quais ficariam de fora. Essa decisão nunca foi unânime (livros como o Apocalipse de João entrou “por um triz” na bíblia e o Apocalipse de Pedro por pouco não entrou) e até reformadores como João Calvino e Martinho Lutero, 1200 anos depois, ainda discordavam de alguns livros considerados parte do “Canon Sagrado” (por exemplo, Lutero chamava a epístola de Tiago de “carta de palha”). Então a seleção do que era “inspirado” ou merecedor de fazer parte da bíblia foi uma escolha contextual e se outros grupos cristãos tivessem vencido o debate (ou se a compilação dos livros na bíblia tivesse ocorrido um século antes ou depois), certamente hoje nossa bíblia não teria alguns livros que conhecemos e teria outros que consideramos “não canônicos”. Percebe então que o próprio processo de formação bíblica já é fruto de relativizar muitos textos que grupos cristãos antigos consideravam sagrados? Relativizaram uns e absolutizaram outros. E nem entrarei na questão das diferentes tradições envolvidas na escrita de alguns livros e que posteriormente foram compiladas, mescladas e selecionadas por alguns autores, dando o aspecto final, semelhante ao que conhecemos. Mas é assunto mais complexo, para outro momento.

2 – Ninguém aceita a bíblia de forma 100% absoluta ou totalmente literal. E isso evidencia que todos a relativizamos em maior ou menor grau e de diferentes formas. E para evidenciar, darei alguns óbvios exemplos:

- Mateus 18:08 = “E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno". Você já viu alguém amputando ou extraindo uma parte do corpo por esse membro o “fazer pecar”? Eu também não.
- Marcos 10:21 = "Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me". Não vejo praticamente nenhum cristão fazendo isso, quanto mais seus líderes. “Ah, não era literal...” “Não significa que devemos também seguir esse ensino dado ao jovem rico...” – são as relativizações que os que criticam os que assumem que relativizam, promovem.
- Poderia ainda citar os cristãos relatados no livro dos Atos (que nós adoramos idolatrar como sendo “exemplares”), que colocavam tudo o que tinham “aos pés dos apóstolos” (Atos 4). Ou quem sabe a recomendação de tomar vinho diante de problemas estomacais (o mesmo vinho que era recomendado não consumir em excesso, a fim de não gerar embriaguez, ou seja, alcoólico) – I Timóteo 5.
     Ou seja, quando convém a nós, determinado texto passa a ter sentido figurado, enquanto outros tem que ser literais. Bem cômodo e desonesto de nossa parte.

3 – O que nos faz achar que o Velho Testamento está repleto de arquétipos, alegorias, simbolizações, referências e profecias apontando para Jesus, senão uma releitura dele feita pela ótica cristã/neotestamentária? Isso mesmo. Quando olhamos para o Antigo Testamento (por exemplo: para uma palavra de um profeta) e vemos ali referência a Jesus estamos fazendo uma relativização do texto, da intenção do autor, afirmando que ali ele queria dizer o que nós pensamos ou desejamos que seja. Não estou entrando nos méritos se isso é historicamente correto ou não, mas que é uma relativização, isso é.

4 – Se você ignora totalmente a linguagem apocalíptica e acha que o livro descreve de forma literal (inclusive com os monstros assustadores) acontecimentos futuros, está relativizando uma tradição judaica antiga a fim de tirar o significado original dessa linguagem para atribuir um que você entende hoje como correto. Se você entende o livro como uma referência a acontecimentos passados (como a abordagem preterista), está relativizando o livro, encaixando-o exclusivamente nessa abordagem. Se você o enxerga de forma futurista, como essa abordagem teológica recente, mas que se tornou predominante no meio protestante, achando que ele descreve os eventos que ocorrerão nos últimos dias, está relativizando  igualmente com sua abordagem. Não tem como fugir.

5 – Se você tenta conciliar pontos até opostos nas escrituras, dizendo que são complementares, ou fazendo um malabarismo exegético/hermenêutico (interpretativo) para que não soe contraditória, estará relativizando a ideia original do autor e da tradição envolvida. Se tentar conciliar os ensinos de Moisés com os de Jesus, estará fazendo uma enorme relativização. O mesmo ocorrerá se rejeitar qualquer preceito da lei judaica (como pena de morte aos filhos desobedientes, aos adúlteros e aos homossexuais; ou ainda rejeitar se aproximar da sua “impura esposa” nos dias de sua menstruação). Quando convém damos um jeitinho de relativizar hipocritamente alguns trechos, não é verdade?

6 – Quando você tenta fazer com que divergências de relatos (de compreensões de diferentes autores bíblicos) não existam, você estará relativizando o que lá está sendo dito com base em uma suposição sua. Por exemplo, quando os quatro evangelhos descrevem diferentes seres (em número ou em essência) no túmulo de Jesus (seriam anjos? Homens? Quantos?), para você tentar fazer com que os quatro relatos sejam harmônicos, terá que criar uma quinta possibilidade/hipótese (que nem está na bíblia) a fim de não haver nenhuma contradição. Pura relativização dos evangelhos...

     Entenda: Qualquer parâmetro adotado para interpretar a bíblia é relativizá-la. Dizer que o Espírito Santo revela a correta interpretação da bíblia é relativizá-la com base nessa suposição humana. Aplicá-la a um contexto nosso é relativizá-la. Dizer que algo dela não se aplica a nós é relativizá-la. Interpretar tudo dela literalmente é relativizar a exposição dos autores, restringindo qualquer possibilidade de intenção alegórica, figuras de linguagem ou linguagens típicas desses povos (como a linguagem mítica ou apocalíptica).
     A própria adoção da bíblia é uma relativização, pois estará restringindo o “Cânon Sagrado” ao que a Igreja determinou a alguns séculos. Ou seja, você está absolutizando a escolha da Igreja, assumindo que ela foi perfeita na relativização dos textos antigos, determinando o que era “escritura inspirada” e o que não era. E aceitando as descrições da forma como a bíblia nos traz estará relativizando os fatos pela descrição do autor (que muitas vezes nem estava presente).
     Se não reparou o óbvio, resumo a você: não importa sua abordagem, não tem como escapar de relativizar a bíblia.
     Uma parte do preconceito quanto ao termo “relativo” ou “relativizar” é que as pessoas confundem com “relativismo”, que à grosso modo, pode ser dito que é a ideia de que não há uma realidade ou verdade objetiva. Uma ideia que nos lembra muito a abordagem pós-modernista de que “não há fatos; há apenas interpretação de fatos”, ou seja, a ideia de que algo pode ser verdade se a pessoa em questão o tem como verdade. Eu, ao contrário, defendo que a realidade está lá e é imutável, independentemente do que pensamos. A verdade existe e é objetiva e, embora nunca cheguemos à compreensão total dessa realidade objetiva, podemos chegar na verdade em muitos aspectos ou questões pontuais. E no que diz respeito à teologia, defendo no dia a dia uma abordagem “moderada” que coloca como parâmetro o que nos é apresentado, em linhas gerais, sobre a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, tomo ele como modelo, como referência de “verdade” (assumo a fala dEle: “Eu sou o caminho, a VERDADE e a vida...”). Assim, procuro relativizar toda a escritura e a teologia nos princípios gerais que vejo nEle. Portanto, não venha me rotular de “relativista”.
     Se você afirma que “a bíblia é a Palavra de Deus,absoluta  inspirada, infalível, harmônica, inerrante e suficiente” está promovendo uma relativização dela com base nesses princípios teológicos “recentes”. Ou seja, cria algumas premissas e faz a bíblia se encaixar neles (relativizando inclusive todo o complexo processo histórico de produção e formação da bíblia). Relativiza toda influência humana, as particularidades de várias tradições e autores, a fim de que tudo ela seja o que você gostaria que fosse (embora nela mesma nunca haja sequer uma afirmação de que ela tem essas características ou essa função). Entende agora que até mesmo o mais fundamentalista cristão relativiza a bíblia? A única diferença entre cada um de nós é que cada um segue critérios diferentes para promover essa relativização. Então pare de criticar alguém apenas por ele relativizar a bíblia de forma diferente que você. Tire a trave do seu olho antes de falar do cisco no olho do seu próximo.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
29/03/2016

20 de mar de 2016

SOBRE O GOVERNO DO PT: na verdade somos todos corruptos!


     Antes de mais nada, não sou petista (e menos ainda "tucano") e não sou militante de esquerda ou de direita (aliás, tenho aversão ao extremismo dos dois polos políticos). 
     Sou favorável a toda apuração de responsabilidades e punição devida, imparcial, justa, fruto de julgamento por parâmetros estritamente profissionais/técnicos. Seja envolvendo Dilma, Lula, Aécio, Cunha, ministros ou os demais do alto escalão político. Todos devem ser valorizados pelo bem que realizam e cobrados pelos deslizes que cometem.
     Porém, o que vejo nos últimos dias é uma luta desesperada dos oposicionistas e da maior parte da sociedade de forma irracional. Os oposicionistas estão todos como urubus, gorando o "animal" antes ainda de morrer, a fim de ver quem fica com o maior pedaço de carne. A sociedade, levada pela mídia totalmente parcial, não tem capacidade crítica e é conduzida por velhos jargões e clichês. 
     Claro que toda manifestação e luta sem violência é legítima e defendo essas condutas, porém ver tanta hipocrisia nos discursos, seja em palanques ou em redes sociais, na boca do povo, chega a dar náuseas. 
     Penso que quase todos nós somos aquilo que condenamos nos outros. A diferença entre a maioria dos que manifestam por um Brasil melhor e o político corrupto é apenas a oportunidade que este teve de roubar mais do que a maioria de nós. "Ah, o PT é o partido mais corrupto da história". Claro que não. Se a maioria dos escândalos hoje envolvem o PT (repito, nem sou simpatizante do partido) não é porque ele é intrinsecamente corrupto e sim, porque está no poder há 14 anos e quem está por cima tem mais cargos, é quem realiza transações milionárias, é o que está no foco e sendo investigado por todos... Qualquer outro partido que estivesse nessa situação seria visto como o "mais corrupto". "Ah, não, defendo um partido cristão que não se envolve em escândalos". Colega, pense, todo partido cristão no Brasil, atualmente é quase insignificante, tendo pouquíssima representatividade em cargos importantes. Então claro que, estatisticamente, terá menos corruptos conhecidos. Mas é só ver a liderança religiosa no Brasil envolvida em escândalos e em estelionatos (que não são investigados e combatidos por terem uma proteção lamentável de um estado que se diz laico - basta ver os charlatões pedindo ofertas de mil reais na TV, pedindo senha de cartão, trazendo picaretas da fé norte-americanos para enganar nós, bobinhos...). 
     Nenhum partido, a princípio, é corrupto, pois partido político não é uma entidade viva, é uma forma de agrupar pessoas de mesma ideologia. Corrupto não é o PT e sim, muitos petistas; não é o PSDB e sim, muitos "tucanos"... E isso vale para todos os partidos. E exigir o fim de um partido por causa da corrupção de muitos lá é como exigir o fim de sua igreja caso os líderes dela se envolvam em imoralidades; é como exigir o fim do protestantismo por atrocidades cometidas ou incentivadas por Reformadores; é como exigir o fim do cristianismo pelo apoio dado à escravidão por muito tempo; é como pedir o fim da bíblia pelos conhecidos processos de alterações e conveniências usadas durante a compilação de seus livros lá no início da nossa era. Mas ver tantos clichês na boca de pessoas sem um mínimo conhecimento histórico e político, é triste. 
     Quer fazer um teste? Diga em uma manifestação da avenida Paulista (pode ser contrária ou de defesa do governo - fique à vontade para escolher qualquer uma): 

"Fiquem aqui apenas as pessoas honestas!"

     Todos ficarão, pois nesses momentos só temos olhos para o nosso próximo. "O pecado do outro é sempre pior que o nosso". 

     Mas comece a especificar: "Saiam daqui os que sonegam informações, por menores que sejam, no imposto de renda; saiam os que colam na prova; saiam os que não devolvem na padaria quando recebem troco a mais; saiam os que usam bilhete falsificado para pagar mais barato na catraca dos transportes coletivos; saiam os que furam fila; saiam os que usam assentos ou vagas de carro reservadas a deficientes e idosos; saiam os estelionatários da fé (líderes religiosos que defendem que se der dinheiro na igreja será recompensado por Deus de alguma forma); saiam os que compram celular sem nota; saiam os que usam Windows e programas piratas no computador e smartphone; saiam os que repassam provas antigas' para os alunos, escondido dos professores; saiam os que assinam o nome do amigo na lista de presença da faculdade; saiam os que dão cobertura para o amigo quando o patrão chega repentinamente; saiam os que ajudam a mentir para o marido da amiga, enquanto ela faz algo escondido..."

     Seja sincero: Os milhões de manifestantes do Brasil, depois dessa, poderiam ser contatos nos dedos. E de uma mão!
     Nós, generalizando, somos corruptos tanto quanto os políticos que queremos presos. A diferença é apenas que não tivemos a oportunidade que eles tiveram. Exatamente: a corrupção envolvida em desviar milhões da saúde é a mesma da que está presente em nosso download do programa pirata. Só muda o contexto. O que fazemos e que dizemos que "isso não se compara aos milhões do PT" só tem proporção diferente, pois o espírito de desonestidade é o mesmo. Portanto, antes de sair para protestar, olhe no espelho, passe um bom óleo de peroba e só então pegue a sua bandeira e vista sua camisa verde-amarela.
     E uma coisa que me assusta é que é perigosa essa euforia instalada nos brasileiros (vale dizer que durará não mais do que um mês, assim como foi nos protestos pelos "25 centavos" de anos atrás - é "fogo de palha", pois não somos um povo com consciência, somos manipulados e vamos pra onde o "vento" nos leva). Quando isso acontece, a tendência geral é de buscar uma solução do lado oposto. Ou seja, sendo o PT um governo de esquerda (embora esteja muito longe de ser uma extrema esquerda), as pessoas tenderão a querer um governo de direita (basta ver o apelo popular). Mas o problema não é esse. É que elas querem uma extrema direita. E aí vemos um clamor por pessoas com uma mentalidade retrógrada, autoritária e intolerante como alguns que vivem na mídia e adorados como "mito" pelo povo. Podemos perder algumas conquistas inegáveis (mesmo quem odeia o PT tem que assumir que algumas ocorreram) e retornar ao século XIX em termos de avanços sociais. Então pense antes de desejar um novo governante. Se há necessidade de mudança, procure alguém mais "moderado". Fuja dos extremismos, dos radicalismos, de um lado ou de outro. Lembre-se que entre direita e esquerda, melhor é ser como Jesus e ficar na cruz do meio. Rsrs
     E por falar em Jesus... e pensar que há 2 mil anos Ele falava de pessoas que reparavam no cisco do olho do outro, enquanto possuem uma tábua nos seus próprios olhos. Milênios passam, mas a realidade é a mesma. É... a história se repete em ciclos.

P.S: O que não significa que acho que devam prender quem não devolve 10 centavos de troco ao cobrador do ônibus... Claro que quem desvia 10 bilhões da saúde deve ser preso, pois embora o "espírito" de corrupção seja o mesmo, a pessoa está sendo presa não pela ética ou moralidade dela e sim, pela consequência (dano) que gerou a terceiros. Desviando milhões, ela mata pessoas sem leitos e medicamentos nos hospitais.
     Da mesma forma, não acho que uma senhora que rouba um pacote de macarrão para não deixar seus filhos morrerem de fome deva ir para a cadeia. A conduta (roubo) nunca é louvável, mas a motivação dela deve ser avaliada pelo bom senso, bem como a consequência (quase insignificante) que gerou a terceiros.

Autor: Wésley de Sousa Câmara 
20/03/2016

Ninguém escapa de interpretação. Repito: Ninguém!


     "A Palavra de Deus (que é Cristo) é absoluta, então não tem que relativizar nada e não pode ter divergências de compreensão" - brada de forma revoltada o fundamentalista (se bem que os fundamentalistas dificilmente consideram Jesus a Palavra; dizem que a bíblia é a Palavra eterna de Deus e Jesus é "só" faz parte do conteúdo dessa Palavra...)
     Porém ele não entende que, mesmo a Palavra sendo absoluta, a nossa percepção dela sempre será relativa. Lembrando que ninguém foge de uma interpretação, nem o apóstolo, nem você, nem eu, nem o papa, nem o ateu...
     Para compreender um texto qualquer (inclusive da bíblia) precisamos: conhecer a língua do texto que está diante de nós, juntar sílabas, formar palavras e frases, criar na mente um sentido daquilo que lemos e isso tudo forma a nossa interpretação. E ela está sujeita a nossa parcialidade, a nossas tendências, a nossas preferências, à nossa predisposição, à nossa educação, à nossa cultura, à nossa tradição teológica... Ninguém escapa de interpretação. Todos somos meros humanos. O que nos resta é ter humildade e respeito com quem pensa diferente de nós, sempre!
     Mas há quem confunda "o que entende daquilo que lê" com "revelação" ou com "a verdade é exatamente assim"... Mas se pensa dessa forma, então tá. Você é "o cara". Só posso ficar em pé aplaudir você, que é no mínimo um "vice-deus". Haja ignorância acompanhada de arrogância...

Autor: Wésley de Sousa Câmara
(20/03/2016)

19 de mar de 2016

A confusão entre "Pedro e o galo"


     A resposta é quase unânime ("três!") quando perguntamos aos cristãos: "Quantas vezes Pedro negou que conhecia Jesus antes que o galo cantasse?" Porém essa resposta é, no mínimo, incompleta.
     A história é a seguinte: nos quatro evangelhos canônicos (bíblicos) encontramos relatos de que Pedro teria negado a Jesus e que, em seguida, um galo cantou. Porém os quatro evangelhos apresentam muitas divergências (discordâncias) em relação aos detalhes do acontecimento. Os evangelhos de Mateus (26) e de Lucas (22) descrevem a situação de forma bem semelhante: Pedro nega conhecer Jesus por três vezes e em seguida, um galo canta, comprovando a profecia de Jesus feita a Pedro. Já no evangelho de Marcos (14) vemos uma versão diferente, pois Pedro nega três vezes e então um galo canta pela segunda vez. Em João (13) é dito que Pedro negaria Jesus três vezes, sem que o galo chegasse a cantar. Já no capítulo 18, do mesmo evangelho, é dito que Pedro nega duas vezes e então, um galo canta.
     Talvez alguém esteja se perguntando: "Que importância ou interferência isso tem na essência da narrativas?" Nenhuma. Realmente são divergências que, no fim, não mudam em nada. Porém faço essa citação como um dos infindáveis exemplos de divergências entre autores bíblicos. E para quê? Para ajudar as pessoas a serem críticas e a entenderem o óbvio, que a bíblia não é um único livro, harmônico e uniforme. De forma alguma! Ela tem um processo longo e complexo de produção e compilação, sendo que o que chegou até nós é fruto de todo esse processo. Tem como resgatarmos, diante disso, o que realmente teria ocorrido com Pedro? Não! No máximo, em alguns casos, podemos estabelecer probabilidades maiores ou menores de algo ter ocorrido de determinada forma.
     Essas claras divergências em relação à negação de Pedro incomodam os fundamentalistas e conservadores, já que eles criaram algumas premissas "modernas" de que a bíblia tal qual a temos é fruto de pura ação divina, não sendo humana, mas uma revelação, palavra por palavra, de Deus. Não há humanidade influenciando em seu conteúdo, de forma que ela, por ser divina, não pode ter nenhum tipo de contradição, erro ou divergência de pensamento. Quando algum desses problemas torna-se inegável, atribuem a uma incapacidade nossa de compreensão (uma alegação sem evidências) ou, no máximo, que alguns copistas posteriores cometeram equívocos involuntários, falhando em um ou outro detalhe, embora "no original" certamente estava tudo perfeito (mais uma suposição sem fundamento, visto que não temos acesso a nenhum escrito bíblico original. Só temos cópias de cópias de cópias... que divergem muitas vezes entre si). Porém, para os não conservadores (não biblicistas, não idólatras do livro, que o tem apenas como uma testemunha de Jesus, por conter as chamadas "escrituras", como o próprio Jesus teria afirmado) esse problema é facilmente entendido (não precisando fazer malabarismos e "forçações de barra" para tentar conciliar o inconciliável) e, portanto, nada disso incomoda:
     Sabemos que há uma variedade enorme de tradições judaicas/cristãs que participaram da composição da bíblia, ao longo de séculos. No que diz respeito aos Evangelhos, o mais antigo é o de Marcos e mesmo assim foi escrito cerca de 35 a 40 anos após a morte de Jesus, por um autor desconhecido. Isso mesmo, esse evangelho, tal como é o de Mateus e de Lucas são anônimos, sendo posteriormente atribuídos, por lideranças da Igreja, a esses três personagens conhecidos (em outro texto explico com mais detalhes). Já o evangelho de João foi escrito quase certamente de 60 a 65 anos após a morte de Jesus. Ou seja, todos os evangelhos foram escritos muito tempo depois dos acontecimentos que relatavam. Pergunte a um idoso se ele consegue relatar os acontecimentos da vida de um amigo, lembrando de todos os detalhes, ocorridos 60 anos antes. Impossível! 
     Soma-se a isso a questão quase óbvia de que foram escritos não por testemunhas oculares dos fatos, mas por cristãos de várias épocas e regiões, que conheciam diferentes tradições orais que circulavam na época. Eles então registraram as versões que conheciam e claro, nenhuma história que é recontada por décadas continua fiel ao evento que descreve. Portanto, resgatar a origem é  praticamente impossível.
     O que podemos fazer, sem aprofundar muito? No máximo podemos dar um peso grande ao relato de Marcos, por ser mais antigo (portanto, mais próximo ao acontecimento, o que, historicamente, já recebe maior credibilidade). Então seguir a tradição de Marcos com esse argumento, é válido. Porém um peso também mais elevado acaba sendo dado aos relatos de Mateus e de Lucas, pois, uma vez que são independentes um do outro, descrevem um mesmo acontecimento de forma semelhante. E duas versões não colaborativas que contam a mesma história, também tem mais credibilidade. É uma forma de argumentar para preferir esses dois relatos. Porém pode simplesmente essa "coincidência" ter ocorrido pelo fato ambos seguirem uma mesma tradição oral, que, por sua vez, pode ou não ser mais próxima do acontecimento (comparada com a de Marcos). E, se assim for, não seriam duas atestações independentes e sim, dois autores que usaram uma mesma fonte (tradição).
     No meu entendimento, colocaria as duas descrições de João, por serem bem mais tardias) como improváveis e preferiria a versão de um dos outros três evangelhos (chamados "sinóticos"). De qualquer forma, as diferentes fontes parecem retratar que Pedro negou que conhecia Jesus, durante os momentos que precederam a morte de seu Mestre. E essa negação (quantas vezes não temos como saber) parece ter sido associada a um cantar de galo (também não temos como saber quantas vezes), talvez para demonstrar que o negou em pouco tempo (o que era óbvio, já que o julgamento de Jesus não deve ter durado mais do que algumas horas).
     Portanto, diante disso, saiba que quando ler algo divergente na bíblia, tem uma explicação simples, óbvia, pelo processo de formação das escrituras. Não tem necessidade (nem considero intelectualmente honesto ou consistente) querer idolatrar a bíblia, como fazem (sem assumir) os conservadores, atribuindo a ela ideias que lhes convém (como as premissas fundamentalistas de abordagem bíblica) e depois distorcer os textos, ignorando seu processo de formação, a fim de negar o óbvio, afirmando que ali não pode haver nenhum tipo de divergência. Claro que pode. E há. E o que importa? Pra quem não coloca a fé no livro, nada. Para quem coloca, é uma inevitável crise de fé. Não é a toa que os líderes que seguem essas orientações ultra-conservadoras fazem uma censura, denigrem a imagem dos autores menos conservadores (chamando-os tolamente de "liberais" - o que, além do fato de poucas vezes ser verdade, é uma palavra usada como se fosse algo "do demônio"). Se os seus fiéis começassem a questionar, a aprofundar, a criticar, a base desse sistema interpretativo frágil se abalaria e a queda seria inevitável. Então, por auto-defesa, mantém a famosa: "tem que ter o Espírito Santo para entender a bíblia" (e claro, ter o Espírito significa abordar a bíblia como eles fazem. Os demais, são "carnais"). E assim, a maioria interpreta a bíblia à sua maneira e todos dizem entender por "revelação do Espírito de Deus". Só não enxerga quem não quer.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
19/03/2016

18 de mar de 2016

Está ou não na bíblia?


     "Isso não está na bíblia!". 
     Oras, bolas. Então me mostre onde está na bíblia que tudo o que defendemos ou realizamos tem que estar na bíblia. Você cria uma ideia que não está na bíblia para defender que tudo tem que estar nela? Chega a ser cômico o nível de incoerência.
     E mais: liste todas as suas falas, atividades e pensamentos diários que estão na bíblia. Quase nenhum, né?
     Entenda: nem o que está na bíblia você faz e está preocupado com o que não está nela? Ah, discorda do que estou dizendo? É seu direito, mas pense: se você tivesse seguido o "vende tudo o que tem e dê aos pobres" (isso sim está na bíblia), não teria sequer um aparelho eletrônico para ler este comentário a fim de discordar. Mas claro, você só seleciona na bíblia o que gosta (sem um critério coerente e claro), relativiza e absolutiza o que lhe convém e critica todos os que fazem uma relativização diferente da sua...
     Sério que não enxerga isso tudo?

Autor: Wésley de Sousa Câmara

17 de mar de 2016

Jesus ou pena de morte: escolha um. Os dois, não dá.


     "Matou tem que morrer": uma das expressões mais contraditórias que já ouvi (assim como a famosa "Bandido bom é bandido morto" e a “Está com dó? Leva pra casa”). Qualquer pessoa que tenha “mais de dois neurônios em funcionamento” ou que não está se expressando após presenciar (ou ficar sabendo de) um crime bárbaro, percebe o quão tola é essa ideia. Mas tentarei explicar em detalhes, quase “desenhando”, para quem tem dificuldades de compreensão. Desafio você a se abrir intelectualmente, a tomar disposição para mudar de ideia caso os argumentos apresentados sejam mais sólidos que os seus e só então prosseguir a leitura com calma e honestidade.

1 - Quem mata é assassino, correto? E pela lógica da pena de morte, quem mata tem que morrer (já que é um crime hediondo, grave).

2 - Porém quem executa o assassino também cometeu homicídio (e premeditado! E “pena capital” é apenas um nome politicamente correto para o “assassinato de alguém que algum grupo julgou merecedor de morte”). Sendo assim, também tem que morrer. Dessa forma, para seguir a linha de raciocínio desse clichê adorado pela extrema direita política, teríamos que matar uns aos outros (pois cada um que mata terá que ser morto por outro e assim sucessivamente) e o último que sobrasse deveria, por honestidade e fidelidade à proposta, tirar sua própria vida. Isso mesmo. Não sobraria ninguém.

3 - A única escapatória seria quebrar hipocritamente esse ciclo, punindo alguém por um crime que é o mesmo da pena a ser aplicada. Ou seja, punindo quem mata, matando. Não vê o paradoxo? Para sair dessa, usam a falácia (explícita ou de forma indireta, não assumida): “Bandido não é uma vida”, logo, temos pleno direito de tirá-la. Porém, com isso, cairemos em um problema ainda pior: teríamos que reformular o conceito de vida e absolutizar essa conclusão que alguns chegam (pois nunca teria consenso e essa posição teria que se sobressair perante outras). Teríamos ainda que parar com a hipocrisia de defender a pena de morte e, ao mesmo tempo, condenar o aborto, pois, com os argumentos tradicionais, defender as duas coisas é paradoxal, é incoerente. São posicionamentos mutuamente excludentes. Se defender um, terá que obrigatoriamente rejeitar o outro. Como assim? Qual o principal argumento usado para condenar o aborto? "O feto, o embrião e até mesmo uma meia dúzia de células que surgem após a fecundação já é uma vida, logo, não temos o direito de tirá-la, pois seria assassinato e só Deus tem autoridade para dar ou para tirar uma vida". Porém, quando essa mesma vida intra-uterina nasce, cresce e vira um bandido, absurdamente os mesmos que a defenderam agora querem ceifá-la com a pena de morte, ou seja, uma pessoa, ao cometer um crime hediondo, deixa magicamente de ser uma vida para esses ultraconservadores. Na visão desse grupo, podemos ceifar a existência de alguém com base em nossas leis e regras sociais. É uma tolice tão grande, que a maioria das pessoas se mete a discutir uma tema complexo como esse, sem antes sequer conceituar as coisas e analisar a coerência de seus fundamentos. Leem um artigo aqui, assistem outro vídeo ali, acompanham uma publicação de um blog ou página do Facebook acolá e se acham intelectualmente preparados pra argumentar profundamente. Quero aqui mostrar que o problema da violência não é de resolução simples e se pena de morte resolvesse, os países que adotam tal medida seriam um paraíso na Terra. Se pena de morte coibisse violência, ela só seria aplicada uma vez, pois ninguém que soubesse que ela existe cometeria algum crime. Mas quando você olha pra vida real, vê isso? Você realmente não está disposto a mudar de opinião mesmo diante de todas as evidências? Então não sei porque continua a leitura, se não é intelectualmente honesto para aceitar o que tem mais evidências de ser real. É perda de tempo. Mas continuando para quem quer refletir com sinceridade:
     Alguns alegam que a pena de morte não se compara ao aborto, pois um embrião ou um feto nunca matou ou estuprou, logo, não tem nada a ver com criminosos. Pois bem. Então, se adota essa postura, seja coerente e a mantenha em outras questões. Se pensa assim, então você assume que o seu conceito de “vida” não tem a ver com a biologia (“quando a vida começa”, se na fecundação/concepção, se na implantação uterina, se no surgimento de algumas estruturas ou órgãos...); sua noção de vida tem a ver exclusivamente com aspectos morais (e isso já o exclui de qualquer discussão/debate sobre origem da vida de cada ser). Ou seja, vida, pra você, é aquele ser que, no mínimo, ainda não promoveu imoralidades (como violência). Percebe que, se é assim, você teria que mudar seu argumento base em relação ao aborto? Pois se você alega que uma pessoa não pode tirar a vida de outra, não importando a situação, não pode criar situações em que o fato de alguém ser uma vida torna-se menos importante do que algo que ele pratica. Quer dizer que quando se fala em pena de morte você esquece o argumento de “defesa da vida” e usa tendenciosamente “outro peso e outra medida”, apelando pra moralidade do indivíduo para determinar se ele merece ou não viver? E quem disse que nosso ranking de crimes, nossa hierarquia de violência é perfeita? Quem disse que podemos traçar um limiar exato para dizer: “até esse crime, punimos com prisão; a partir desse, com a morte”? Se o que determina o merecimento de continuar existindo é a moralidade, mudemos o foco também da discussão do aborto. E para quem tem dificuldades interpretativas, não estou aqui defendendo ou condenando o aborto (que não é assunto deste artigo); apenas estou pedindo para sermos coerentes e usarmos o mesmo critério nos dois temas.

     Mas o que “a bíblia diz” sobre a pena de morte?
     Primeiramente, vamos esclarecer o equívoco inerente à pergunta. A bíblia não diz nada, nem se posiciona, nem dá uma solução para esse tema (e nem para nenhum outro). É óbvio para qualquer um que entende o que a bíblia é. Pense um pouquinho e ficará óbvio: a bíblia não é um livro mágico que caiu do céu, com capa e tudo, escrita por Deus, a fim de que qualquer conflito existencial nosso pudesse ter uma solução quando olhássemos em suas páginas. Temos alguma evidência de que é assim? Não, pelo contrário! E que evidências temos? As que sabemos pela história. A bíblia sequer é um livro. Ela é uma compilação de textos judaico-cristãos antigos, realizada no quarto século da nossa era pela visão religiosa então dominante, que decidiu, com base em alguns critérios, entre uma infinidade de textos existentes, quais deveriam fazer parte do “Cânon Sagrado”(“bíblia”) e quais ficariam de fora dessa compilação. E os livros e cartas usadas nessa compilação também tem uma história, uma origem, um processo longo de produção e edição. Nesses textos que encontramos na bíblia vemos uma enormidade de opiniões, de posicionamentos, de visões de mundo e até de compreensões diferentes em relação a Deus. São várias tradições que participaram da escrita desses textos, em várias épocas e contextos socioculturais/religiosos, com vários objetivos, de forma que se você escolher um tema qualquer e buscar na bíblia tudo o que pode ser encaixado no assunto, visando gerar uma “conclusão/visão bíblica”, só conseguirá fazer uma “salada” de ideias e posicionamentos. A bíblia, por esses motivos óbvios, não é harmônica ou uniforme, podendo inclusive apresentar diferentes respostas a uma mesma pergunta (por exemplo, veja as diferentes explicações para a existência do sofrimento, para a questão se Deus se arrepende ou não, para o momento de Sua vida em que Jesus passa a ser “divino”... Há mais de uma resposta para essas questões e todas podem ser encontradas na mesma bíblia! – mas não vem ao caso aqui). Quem tenta unificá-la e torná-la totalmente harmônica são nossas teologias, mas nenhuma teologia que adotamos será “a visão bíblica”, por questão conceitual e lógica. Quando dizemos “a bíblia diz” ou “base bíblica”, no máximo estamos ingenuamente querendo dizer: “minha interpretação e conclusão baseada na bíblia diz que...”. Entende? Agora que perdemos a ilusão de que a bíblia nos dará uma resposta definitiva sobre o tema, precisamos entender outro ponto básico:
     Não podemos confundir "Deus" com a "percepção de um homem em relação a Deus". Deus é, por definição, algo além da capacidade descritiva ou compreensiva humana, logo, toda descrição dEle será parcial, relativa. O máximo reflexo dEle é, dentro da fé cristã, Jesus (e não, as tradições diversas que participaram da composição da bíblia). Sendo assim, não acho correto ler um texto de Gênesis e afirmar: "Aqui Deus disse que" ou "Aqui Deus fez...". Deveríamos entender assim: "Aqui, esse autor/tradição compreendeu que Deus desejasse que..." ou "Aqui, esse autor entendeu que esse acontecimento foi uma ação divina que...". Por que digo isso? Pois tendo essa compreensão, quando lermos que “Deus matou” ou que “Deus mandou exterminar”, saberemos que o relato nos revela algo pela “lente” do escritor, ou seja, mostra não necessariamente a realidade (que é o fato, independentemente do observador) e sim, a percepção que aquela tradição antiga tinha de Deus (mas como vimos, nenhuma descrição humana de Deus pode encapsular Deus ou retratá-lo de forma perfeita). 
     Sabemos que os povos antigos (e até alguns em pleno século XXI) cometiam atrocidades a fim de conquistar terras, poder e recursos financeiros. Para justificar suas ações, usavam suas divindades (se diziam guiados por elas ou afirmavam que elas é que estavam exterminando os adversários para proteger e recompensar “seu povo”). Sejamos sinceros: será que os hebreus/judeus/israelitas seriam as exceções históricas dessa mentalidade? Será que essa ideia nunca esteve presente entre eles? Será que Deus (Aquele que em Jesus ensina a amar o inimigo, a perdoar, a oferecer a outra face diante de uma agressão, a não pagar mal com mal, a fazer ao outro o que desejamos a nós, a servir, a não fazer diferença de outras etnias...) realmente mandou exterminar tribos inteiras, inclusive mulheres e crianças, passando por cima de qualquer ética, moralidade e empatia? Você prefere não relativizar a relato judaico e crer em um deus que age assim, a aceitar a influência do contexto humano presente em todo texto já produzido pela humanidade (ou seja, a notar que essa é a concepção primitiva que tinham do divino)? Você prefere absolutizar o texto e relativizar Jesus, mesmo se dizendo cristão? Prefere distorcer o caráter divino a aceitar a relatividade de uma narrativa? Que idolatria inconsistente e que nega evidências é essa? Prefere seguir um deus nada confiável, sem caráter, sem ética, sem empatia, violento, vingativo, que passa por cima de tudo e todos para recompensar seus preferidos? (Depois eu é quem sou o herege?) Mas se aceitar essa noção, como pode dizer crer em um Deus absoluto e imutável e, ao mesmo tempo, aceitar que Jesus é a revelação de Deus ao homem? Pois Jesus nos mostra um Deus muito diferente (logo, Deus muda?), um Deus que é amor, um Deus que ao invés de matar uma criatura, se entrega por ela. Mas se você assume que Deus não muda e diz que os relatos sanguinários antigos representam realmente o que Deus é (já que o autor disse isso e você assume que tudo o que foi compilado no século IV, por convenção religiosa, é texto divino, perfeito, inerrante...), então você terá que assumir que Jesus é uma farsa! Viu como é incoerente essa compreensão? Pois como pode Jesus ensinar a perdoar sempre (70 x 7) até os inimigos, mas esse deus mata (e ainda queima eternamente nas chamas do inferno) todo aquele que não crê nele e não faz o que ele manda? Jesus nos ensina a oferecer a outra face diante de uma agressão, mas esse deus promove vingança contra quem não o teme? Jesus ensina a fazer aos outros o que desejamos que nos façam (pagar o mal com o bem), mas esse deus faz o oposto, castigando, torturando e derramando sua “ira e justiça” (na verdade é só vingança) contra quem age assim com ele? Que deus hipócrita e bipolar é esse? Como confiar num deus assim, se sequer dá pra diferenciá-lo (já que ele não tem critérios, princípios e ética) do tão criticado “satanás”? É um deus-diabo (ora age como Deus, ora como o diabo)? Se Jesus nos dá parâmetros para avaliarmos tudo na vida (se aprendemos a julgar tudo pelos frutos...), como podemos fazer isso se esse deus mostra que não há parâmetros? Afinal, algo que parece não ter nada a ver com o Deus revelado em Jesus, segundo essa ideia que critico, pode ser ação divina... Que confusão! 
     Todos somos parciais e relativos, por isso proponho, dentro da orientação teológica sugerida neste site, estabelecer Jesus (o que temos de relatos confiáveis dEle) como único parâmetro absoluto, já que partimos do ponto que Ele é a “PALAVRA (verbo) de Deus encarnada”, a “imagem do Deus invisível” (a ponto de “quem vê a Ele vê ao Pai”). Ele é o nosso modelo de humanidade perfeita, portanto tudo deve ser comparado a Ele (claro que considerando também seu contexto sociocultural). Se queremos saber como devemos lidar com outros homens, olhemos para Jesus. E sendo assim, não consigo imaginar Jesus apoiando NENHUM, repito, NENHUM tipo ou ocasião para a pena de morte. Não tenho como defender um Deus que é amor, um Deus que ensinou em Cristo a "perdoar e amar até os inimigos", a "não pagar o mal com o mal e sim, com o bem", a "fazer ao outro o que queria que nos fizessem", a “dar a outra face”... e depois aceitar que Deus instituiu ou apoiou a pena de morte. Incoerência total! Ou defendemos Jesus ou esse “deus”, pois são mutuamente excludentes. São opostos. E antes que alguém diga ingenuamente (ou na tentativa de ser distorcer maldosamente), não defendo o "marcionismo" (assunto para outra hora, mas que de forma extremamente simplista, alega que o Deus do Antigo Testamento não é o mesmo do Deus de Jesus). Só estou dizendo que relatos não nos mostram Deus propriamente dito e sim, uma percepção humana dEle. E a percepção predominante em relatos antigos era desse Deus vingativo e bairrista. Mas vamos aos textos:

A – "Deus instituiu a pena de morte no jardim do Éden" = Os defensores da pena de morte alegam, com base em Gênesis 2:16-17 (“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás), que foi o próprio Deus quem instituiu a pena de morte. Como quase sempre possuem um orientação teológica extremamente conservadora e até fundamentalista, é compreensível que interpretem dessa forma literal o Gênesis. Ignoram o tipo de linguagem do livro, as tradições que participaram de sua composição e se enquadram na crítica que fiz mais acima neste texto, confundindo uma percepção antiga humana (hebraica) de Deus com o próprio Deus. Rejeitam o fato que ali há presença de aspectos literários/linguísticos e reflexos de cosmovisões da época dos autores. Respeito o direito de uma pessoa abordar o livro dessa forma, mas não é preciso muita dedicação no estudo para ver o quão inconsistente e infantil é essa abordagem. É válido entender a linguagem do texto, compreendendo que o poema da criação nos traz uma realidade muito profunda (em linguagem mítica - assim como existem muitas linguagens na literatura judaica, como a apocalíptica) que é o surgimento no homem desse desejo de afastamento de Deus (Pecado), essa decisão do ser humano de viver de forma egoísta, de se considerar auto-suficiente e de dizer: "em mim mando eu, faço o que quiser e arco com as consequências". Dessa forma, os pormenores do relato tornam-se irrelevantes, assim como é irrelevante falar de detalhes de uma parábola, cujo intuito é trazer uma verdade através de uma linguagem que sempre será atual. Então uma coisa é a intenção de demonstrar as consequências danosas do homem escolher esse caminho, outra é achar que realmente Deus ameaçou e aplicou uma “pena de morte”, matando a humanidade por ter desobedecido e comido um fruto de uma árvore. Querer entender de forma totalmente literal é até contraditória, pois o texto é claro: NO DIA EM QUE DELA COMERES, certamente morrerão". Sabemos que o restante da história mostra que comeram, foram expulsos do jardim, tiveram filhos... “Ah, mas a morte era espiritual”... “Ah, a morte era algo pra anos depois e um destino final de todos seus descendentes”. Ok, não estou dizendo que é ou que não é, mas assuma que isso não está no texto e que é fruto de uma abordagem teológica sua, de uma compreensão posterior que atribui ao texto esse significado. Então nem você interpreta literalmente o livro, pois alegoriza sempre que lhe convém (é só um esclarecimento antes que critique a minha abordagem). 

B – "A Lei de Deus sanciona a pena de morte" = Já realizei aqui no site um estudo completo sobre “Lei e Evangelho/Graça” (clique aqui para lê-lo). Mas só para pontuar: não podemos confundir “Lei de Deus” com os 10 mandamentos de Moisés e nem com os mais de seiscentos preceitos judaicos da lei. Se a fé cristã ortodoxa parte do princípio que Jesus é a Palavra de Deus encarnada, a revelação plena de Deus ao homem, então Lei é o que Jesus ensinou e encarnou como sendo Lei, que é: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. A Lei de Deus nada mais é do que a vontade divina para a criação. Mas o que essas pessoas querem dizer é que entre as centenas de preceitos judaicos da lei encontramos apoio à pena de morte. Porém, os textos a que esses ultraconservadores se referem ordenam a pena de morte em caso de assassinatos premeditados (Êxodo 21 – já que um assassinato “acidental”, em legítima defesa ou por razões de momento era vista na época como “vontade divina que acontecesse”), sequestro (Deuteronômio 24), adultério (Deuteronômio 22), incesto e bestialidade (Levítico 20), desrespeito aos pais (Deuteronômio 17 e 21), amaldiçoar ou machucar os pais (Êxodo 22), profecias falsas (Deuteronômio 13), blasfêmia (Levítico 16 e 24), profanação do sábado (Êxodo 35; Números 15) e sacrifícios a outros deuses (Êxodo 22). Já que alguém quer usar a lei mosaica como argumento (querendo tornar absoluta a percepção hebraica de Deus), dizendo que ela não é uma percepção e sim, a pura e divina revelação), que adote não apenas o que convém. Querem pena de morte apenas para apenas algumas dessas condutas? Onde fica a coragem e o suposto “temor a Deus” para assumir todas perante a sociedade do século XXI? Por que não exige publicamente a morte dos gays, dos adúlteros, dos primos que casam entre si, dos filhos desobedientes, dos “falsos profetas” e de quem não guarda o sábado? Terá que corta na “própria carne”, certo? Mas não quer colocar também a Lei de Moisés como parâmetro? Seja honesto e corajoso! Mas fica nessa parcialidade que chega a ser cômica. Oras, se era a “Lei de Deus” e se Deus, bem como Sua Lei, é imutável, por que você vai pegar apenas parte dela (lembrando que em Tiago lemos que “aquele que transgredir apenas um ponto da lei é culpado dela toda”)? Deus não é imutável? Se sim, e se essa concepção (lei mosaica) era realmente a Lei (vontade) de Deus, então você a está transgredindo intencionalmente, conscientemente, hipocritamente. Logo, você também é réu tanto quanto os que você condena. Mas se disser que Deus muda, então Ele não é absoluto. É relativo como nós, e isso evidenciaria que esse deus é uma imagem e semelhança nossa, nitidamente criado por nós, de acordo com nossa concepção ou desejo. Percebe que essa posição se auto-refuta de tão contraditória? Não tem saída para ela, de um lado ou de outro. Então o que proponho? Claro que Deus não deixou de ser amor, a questão é o que sempre repito (e é óbvia): "a bíblia é a compilação de textos antigos, de vários autores e tradições, que refletem muitas visões diferentes da vida e de Deus. Não é uniforme (nós é que criamos teologias próprias extra-bíblicas para tentar harmonizar uma infinidade de teologias bíblicas diferentes, nem sempre conciliáveis). Não tem um só contexto. Não tem um só objetivo. É tão ampla quanto uma biblioteca. Por isso não podemos dizer que 'a bíblia diz algo sobre tal assunto', da mesma forma que não faz sentido dizer que 'a biblioteca diz tal coisa sobre tal tema'". Desculpem-me, sei que estou sendo até prolixo, pois já disse isso tudo com outras palavras, mas preciso repetir, já que quem me lê geralmente não tem isso claro na mente e sem essa compreensão as coisas não farão sentido. 
     Enfim, cremos que Deus é amor, porque somos cristãos e tomamos Jesus como parâmetro. Em uma das epístolas de “João” lemos também essa confirmação de que Deus é amor. Mas será que a concepção das tradições hebraicas antigas era também de um Deus amoroso ou era de um deus severo e vingativo? Certamente a segunda opção. A concepção do divino muda com o tempo. Eles até criam que Deus era amoroso, que amava (mas o amor era apenas um atributo, assim como tinha muitos outros). Nós cremos (teoricamente) que amor não é mero atributo e sim, a essência de Deus. Logo, tudo que fere esse amor, tudo que o amor não faz, não pode vir de Deus, por definição. Portanto, não tem "mas" pra Deus (como "Deus é amor MAS também é justiça”). Deus é amor e ponto. Justiça só é divina se for pautada nesse amor. 

C – "Os profetas também defendiam a pena de morte" = Um exemplo é Ezequiel 18:4. Mais uma vez, escolhendo vários parâmetros para seguir? Quer colocar os profetas como modelo? Então assuma toda a visão profética judaica (e quem sabe, se inspire em Eliseu, exigindo que animais ferozes devorem as pessoas que fazem piadas com sua aparência). Só deveria se lembrar de um ponto básico: os profetas representam o judaísmo (e estavam, ao contrário de nós, nesse contexto de seguir a lei mosaica). Se eram considerados por alguns também "fundamentos" da fé cristã é no sentido de representarem Israel, como berço histórico do cristianismo. Jesus, os evangelistas, apóstolos e outros escritores neotestamentários são os fundamentos da fé cristã. Não estou dizendo para rejeitar tudo que um profeta disse e sim, que eles não deveriam ser o parâmetro de alguém que se diz cristão. Os próprios profetas, no geral, tinham compreensões bem diferentes das vistas no Novo Testamento. Por exemplo, o sofrimento era entendido pelos profetas, a grosso modo, como uma consequência da infidelidade a Deus, uma explicação que não é predominante de Jesus em diante (mas também é outro longo assunto). 

D – "Mesmo que não seja Deus que tenha ordenado a pena de morte, o fato dela existir entre o povo governado por Ele é a prova que Ele não a rejeita e que a pena capital não é incompatível com o Deus que é amor (mas que também é justiça)" = Vejo vários problemas e contradições nessa afirmação. Pense: há sofrimento no mundo (e isso desde "sempre"), há estupros, assassinatos, torturas e muitas outras coisas horríveis. Logo, terá que supor (já que insinuou que se o Deus de amor fosse contra a pena de morte, Ele deveria ter proibido uma nação de aplicar essa pena) que Deus ama ou apoia o sofrimento, pois não acaba com ele e não proíbe que as pessoas cometam atrocidades. E mais: Deus foi supremo governante de uma nação (Israel)? Ou os povos que governavam uma nação atribuíam esse governo a Deus  (teocracia)? Se Deus era o supremo governante, como poderiam esses governantes humanos cometerem tantas falhas? Teocracia não é o governo de Deus e sim, em nome dEle. Até porque, se fosse governo divino, uma teocracia não cristã teria que ser também aceita como divina, logo, o politeísmo deveria ser reconhecido por todos. Mas se confundimos Deus com qualquer descrição ou revelação humana acerca dEle, realmente seguiremos um deus pequeno, relativo, com a nossa cara. Deus, por definição, tem que estar além de qualquer criatura. E se Deus deveria ter proibido a pena de morte por ser contra ela (segundo o raciocínio que critico), Ele deveria ter proibido também a poligamia, não? E vemos isso por toda a parte entre os hebreus/judeus. Salomão (o mesmo que construiu o primeiro tempo judaico “para Deus”) tinha muitas mulheres. Personagens bíblicos, que hoje “adoramos” contar suas histórias nos púlpitos, tinham condutas que hoje discordamos ou repudiamos e não vemos nos relatos bíblicos Deus os impedindo de realizar tais ações. Então será que por “Deus discordar”, Ele vai interferir diretamente, impedindo o que é errado? Se assim fosse, o mundo seria um paraíso. Então dizer que “Deus permite a pena de morte", só se for no sentido de "Ele não impede que o homem a pratique", assim como Ele não impede assassinatos, roubos, estupros e sofrimento. E será que, condenando abertamente a pena de morte, estou pretendendo criar um "padrão mais alto de bondade do que o de Deus"? Não, pois o padrão não é necessariamente meu (embora todo ser humano com empatia, ética e que respeita a dignidade humana tenderá a pensar não muito diferente disso). Mas estou, a princípio, colocando como padrão os relatos bíblicos que me apresentam Jesus, ou seja, Ele é esse "padrão divino". É com Ele que posso olhar para o mundo e identificar o que é de Deus e o que não é, o que é bom e o que é ruim, o que convém ou não, o que edifica e o que traz destruição. Não é Gênesis, Moisés, Abraão ou Davi o padrão. É Jesus. Essa é a radicalidade da fé cristã. Ele é o parâmetro que um cristão ortodoxo deveria acatar, sempre.  

E – "A pena de morte não existia só no tempo da Lei. Na dispensação da Graça ela também está presente, o que prova sua validade" = Recomendo a leitura do estudo completo (que já coloquei o link parágrafos acima) sobre Lei e Evangelho/Graça. Lá explico porque não vejo sentido nessa divisão dispensacionalista da história em “tempo da lei e tempo da graça”. De qualquer forma, realmente vemos referências à pena de morte no novo testamento, assim como vemos apoio à escravidão (mesmo que “branda”, “respeitosa”...), ao machismo e à total submissão feminina (mesmo que “em amor”) e até mesmo a visões diferentes da divindade de Cristo. Ou seja, não é porque está no novo testamento, que devamos seguir. Vejamos os contextos, motivações e objetivos de cada caso.

F – "Se um país estabelece a pena de morte, devemos aceitar, pois Paulo ensinou a não desrespeitar as autoridades" (Romanos 13) = Os que adotam esse argumento alegam que Paulo deixou claro que todas as autoridades vieram de Deus (a ponto de dizer que quem se revolta contra elas, se revolta contra Deus, atraindo condenação para si mesmo). Em seguida, o apóstolo diz que só devem temê-las os que praticam o mal e que os impostos devem ser pagos, pois os governos são “servidores de Deus”.  
     Há divergências interpretativas aqui. Alguns dizem que Paulo dizia não para obedecermos todas as autoridades em termos individuais ou todas as regras de forma específica. Se assume o poder um homem mau, que faz leis absurdas, não devemos obedecer e não significa que ele está ali porque Deus o colocou. Paulo estaria falando em termos gerais, que a autoridade, a estratégia de estabelecer um governo sobre cada nação é divino, embora um ou outro governante possa ser mau. Porém, caso essa interpretação esteja correta, então o texto não pode ser usado como argumento de apoio à pena de morte, pelo fato de alguns governos a instituírem. Quem garante que esse governo específico ou essa pena tem apoio divino? Vamos escolher o que nos convém em cada governo para dizer que “é de Deus”
     Outros, menos conservadores, alegam que pode ser que Paulo realmente pensasse assim, que devemos ser submissos (mesmo sendo contemporâneo a ao imperador romano Nero). Mas tentando não seguir uma mentalidade fundamentalista e bibliólatra (de idolatria à bíblia, sem analisar contextos e produção), reflita: Será que Paulo manteria essa opinião se tivesse escrito essa carta um pouco mais tarde, após Nero incentivar uma perseguição aos cristãos? Será que Paulo continuaria com esse discurso caso conhecesse Hitler e Saddam Hussein? Foram eles instituídos por Deus? E o que Paulo diria dos brasileiros protestando contra o ex-presidente Fernando Collor ou nas manifestações recentes contra o PT (Dilma)? Lembra que está escrito que “quem se revolta contra a autoridade, se opõe a Deus”? E mais: como os que defendem esse pseudoargumento de “pelo menos respeitar a pena de morte nos países que a adotam” são geralmente ultraconservadores, faço a eles uma pergunta bem desconfortável: caso esses mesmos países (ou o nosso) legalize a maconha, o aborto e o casamento homoafetivo, vocês continuarão com esse argumento de “não se rebelar contra as autoridades” ou mudarão drasticamente e hipocritamente de opinião? Governo legítimo para vocês é apenas aquele que defende seus pontos de vista e aquilo que lhes convém? Bem cômodo... E por que em países em que o islamismo é a religião oficial, com proibição a outras crenças, quando há um extermínio de cristãos (o que é lamentável) que insistem em fazer “missões” clandestinamente, vocês exaltam a coragem desses “mártires cristãos”? Não estão desobedecendo as autoridades? Quer dizer que esse ensino só vale quando a “teocracia” é cristã? Só quando convém a nós? Pense um pouquinho e note a parcialidade desse argumento. 
     Há ainda quem cite Atos 25, em que Paulo aceitaria passivamente uma eventual condenação à morte, como se essa ideia validasse esse tipo de pena. Só devo lembrar também a essas pessoas que o mesmo apóstolo não discordou em momento nenhum do machismo que imperava em sua época e tampouco condenou a escravidão (e hoje a abominamos). Ele apenas defendeu uma “escravidão menos maldosa” (como se existisse) e que os homens respeitassem de certa a forma as mulher. Diremos então que, como ele não condenou a escravidão propriamente dita, ela é válida? Usemos um mesmo critério, sempre, por questão de honestidade intelectual.
     Outro ponto que a maioria vai discordar (pelo fato de nosso país ser extremamente conservador), mas que é mais do que óbvio: Lemos que Jesus certa vez repreendeu Pedro (o mesmo que negou Jesus por 3 vezes), chamando-o de “satanás”; repreendeu Tiago e João, dizendo que eles nem sabiam de que “espírito” eram; Paulo discutiu e censurou Pedro... Diante disso, pergunto: os apóstolos são perfeitos? Ou, como cristãos, assumimos como único parâmetro perfeito, Jesus? Os apóstolos não erram? Se temos essas evidências de falhas humanas (da parte deles), que evidências temos de que todos os escritos deles são perfeitos? Será que as falas de Paulo em momento nenhum tinham influência de seus contexto sociocultural e não tinha nenhum componente que representava sua visão política? Seriam eles as exceções entre a humanidade, que escreveram sem expressar suas compreensões, sendo meros fantoches para escrever, palavra por palavra, o que Deus ditava? Não há nenhuma evidência para pensar que não havia componente humano em suas falas. Só há suposições teológicas conservadoras ingênuas “modernas”. Por que digo isso? Pois não pode aí ser uma mera opinião política de Paulo, que deve ser entendida dentro de seu contexto? Mas se quiser absolutizar também esse discurso de Paulo, como sendo divino, ok. Porém essa ideia não parece ser correspondente à realidade quando olhamos as inúmeras evidências à nossa volta. Aí você escolhe: se nada, nem as evidências explícitas que o cercam, pode lhe convencer que essa abordagem teológica não se sustenta, então seu compromisso não é com a realidade e sim, com uma opinião pré-concebida. Aí não tem porque dialogar. 

G – "Ananias e Safira sofreram pena de morte" = Em Atos 5 vemos um relato do casal Ananias e Safira, que caíram mortos aos pés de Pedro após venderem sua propriedade e mentirem à comunidade sobre o valor da venda, entregando só parte desse dinheiro aos apóstolos. É um texto polêmico, que merece uma discussão mais ampla em texto próprio. Aqui só quero adiantar que, se quiser ser bem conservador, o texto não garante que foi Deus quem matou o casal; ainda na mesma linha, poderia dizer que morreram por terem "blasfemado contra o Espírito Santo" (outra interpretação que considero equivocada, mas escrevi sobre a blasfêmia em outro texto - clique aqui para lê-lo). Mas se quiser ser mais realista, como eu, basta saber que esse trecho de Atos 5 é um acréscimo posterior, não sendo original, ou seja, não foi o autor do restante do livro (e do evangelho de Lucas) quem escreveu. Isso mesmo, alguém, posteriormente, encontrou um trecho perdido de algum texto antigo e encaixou nesse capítulo de Atos. Mas é longo assunto e tema para outro artigo. Enfim, penso que usar essa passagem bíblica como argumento de base para a pena de morte é pura ingenuidade.

H – "A Lei de Deus manda pagar com a mesma moeda" = Na lei mosaica (não confunda com “Lei de Deus”, como já expliquei) percebemos muitas vezes (nem sempre, como já vimos pena de morte para atos que hoje consideramos banais) a lei de talião sendo aplicada, ou seja, a ideia de punição retaliativa, proporcional ao crime. É o famoso “olho por olho e dente por dente” (Êxodo 21). Ou seja, se feriu, será ferido; será se matou, morrerá. É a mesma ideia defendida hoje em relação à pena de morte para crimes hediondos. Porém o próprio Jesus criticou essa ideia: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.” (Mateus 5:38-39). Sabemos que violência gera violência e vale aqui citar Mahatma Gandhi, que, neste ponto, discordava de Moisés e concordava com Jesus: “Olho por olho, e o mundo acabará cego”.

I – "O livro de Apocalipse ensina que quem mata deve ser morto" = O trecho em questão traz: "Quem tem ouvidos, ouça: Se alguém está destinado à prisão, irá para a prisão; se alguém deve morrer pela espada, pela espada terá que morrer. Nisto se firma a perseverança e a fé dos santos" (13:9-10). Sem contar que alguns chegam ao ponto de tornar absoluta e literal (pois é, ignorando totalmente a linguagem apocalíptica) uma interpretação do capítulo 14 (lembrando que há várias abordagens muito diferentes do livro, desde uma visão futurista, até uma visão preterista, que alega que o livro fala não do nosso futuro e sim, do futuro dos cristãos dos dias do escritor, ou seja, do nosso passado). Esses tais alegam que “Cristo virá pisar o lagar”, logo, muitos morrerão durante esse processo. Uma doutrina, no mínimo, com um fundamento bem fraco...
     Eu poderia aqui começar a discutir a canonicidade do livro do Apocalipse (para o escândalo dos irmãos fundamentalistas), dizendo que muitos dos ícones da história cristã (inclusive Martinho Lutero) não gostavam do livro. Poderia explicar que muitos desses homens defendiam que não deveria estar na bíblia, por não ter nada de inspiração divina. Poderia dizer que essa disputa foi árdua e por pouco, mas muito pouco, realmente não ficou de fora (entrou “por um triz”), só entrando por ter a sorte de os cristãos que possuíam maior influência terem “bancado” sua entrada. Poderia falar sobre a questão praticamente certa, de que o autor nada tem a ver com o apóstolo João e tampouco com o autor das epístolas ou evangelho de João.  
     Porém, mantendo os pés no chão do conservadorismo, para ser mais útil para a maioria dos leitores (que tem essa orientação): Esse trecho (capítulo 13) é muito polêmico e altamente discutível. Não tem uma interpretação simples, por dar margem a diferentes compreensões. Porém, ao que parece (e aí usei a tradução da Bíblia de Jerusalém, uma das melhores, senão a melhor, na minha opinião), significa que a igreja deve se manter firme diante dos perseguidores, aceitando a morte, se for o caso. E mesmo que esteja falando da morte dos perseguidores, a morte não seria gerada por uma guerra com os cristãos ou por penas dos nossos sistemas de governo. Então querer usar esse texto como base doutrinária e ainda de forma descontextualizada, é imprudente.

J - "Cristo não revogou a pena de morte do ladrão da cruz, embora o tenha salvado" = Que falácia infeliz. Claro que Jesus não o livrou da pena de morte, pois o próprio Cristo estava sendo vítima da pena de morte. Quem aplicou a pena foram os romanos e não, Jesus. Logo, concordando ou discordando, não seria Ele que, ali na cruz, libertaria o ladrão ou o conduziria a uma prisão. Lembre-se da parábola do filho pródigo, que após sair de casa, gastar toda sua herança com supérfluos, retorna miserável à casa do Pai, que o acolhe antes que ele peça perdão e confesse um arrependimento. Será que esse filho, diante de tanto amor e perdão, teria coragem de cair novamente na gandaia? Ou será que, constrangido diante de tanto amor, seria o mais fiel que pudesse a seu pai? Claro que ele jamais teria coragem de repetir o erro. E seguindo o mesmo raciocínio, pense no ladrão que se converteu na cruz, ao lado de Jesus. Será que, se a pena de morte fosse ali revogada, após essa consciência desenvolvida diante de Jesus, voltaria ao mundo do crime ou, como o filho pródigo, seria constrangido diante do amor e perdão, a viver de forma digna, seguindo a Jesus? 

K - "O salário do pecado é a morte..." (Romanos 6:23) = Certo, porém faltou citar o restante do trecho: “... mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna...”. Ou seja, descontextualiza de forma explícita, pinçando apenas o que é conveniente. O salário do pecado é a morte, mas não tem absolutamente nada a ver com o contexto de pena aplicada por um sistema de governo a algum crime. E mais: só o pecado do outro leva à morte? O meu, não? Eu, pecador, julgarei o outro pecador como digno de morte? Quanta hipocrisia. O famoso “ver o cisco no olho do outro quando tenho uma trave no meu”. Engraçado é que quando dizemos que Jesus veio trazer vida, esses ultraconservadores retruca: “Mas é vida eterna e não, vida terrena”. Porém na hora de pegarem a primeira parte do versículo que fala de vida eterna, tolamente (ou maldosamente) deixam esse argumento de lado, colocando a “morte” como terrena e como pena jurídica. Chega a ser cômico o nível intelectual do debate. 

L – Jesus e a mulher adúltera = Em João 8 encontramos o único relato mais direto sobre essa questão da pena de morte, envolvendo Jesus. Alguns negam-se a aceitar esse texto pelo motivo de ser, quase certamente, um acréscimo posterior (já que não consta em manuscritos mais antigos). Ou seja, esse relato belíssimo (um dos que mais gosto, por sinal) não teria sido escrito pelo escritor do Evangelho de João, tendo sido adicionado por algum escriba (mas é assunto para outro momento). Porém, mesmo não sendo um evento que podemos adotar com alta probabilidade de ter ocorrido, precisamos reconhecer que nos traz uma lição que é bem compatível com todo o contexto de vida que temos de Jesus. Ele pregava o amor, o perdão, a misericórdia, o socorro aos oprimidos e marginalizados, logo, diante de uma situação como essa não é de se estranhar que tenha tido a atitude de salvar a mulher do apedrejamento (e embora não fosse um crime hediondo, era digno de morte, segundo a Lei), deixando claro que todos ali eram pecadores (inclusive o homem que estaria com ela, que o relato não o menciona, “misteriosamente”, já que ambos deveriam ser apedrejados) e estavam agindo com parcialidade e hipocrisia. Temos aqui uma visão anti-morte, até porque o próprio Jesus disse que não veio para condenar, mas para salvar. 

M – “Não matarás” (Êxodo 20; Deuteronômio 5) = Esse texto é muito citado por pessoas que, como eu, são contrárias à pena de morte. Alegam que: como pode Deus ser favorável à pena de morte se Ele mesmo dá um mandamento para não matar. Porém devemos reconhecer um ponto: a palavra usada para “matar” aí, tem sentido mais de “assassinar”. Assim, alegam os defensores da pena capital, se aplica a assassinatos criminosos, à vingança pessoal e não, à formas de punição e de justiça. Entretanto vejo incoerência também aí, pois os mesmos que dizem que Deus mandou não assassinar, defendem que Deus matava pessoas a todo momento (como os garotos que caçoaram da careca de Eliseu), mandava os hebreus exterminarem povos rivais... Matar tribos inteiras, inclusive mulheres e crianças (“limpeza étnica”) não é assassinato? Que crime cometeram? O de terem o “azar” de não terem nascido hebreus e de não saberem que o Deus verdadeiro queria que eles saíssem do caminho do “povo de Deus”? Seja “não matarás” ou “não assassinarás”, continua sendo incoerente com uma série de relatos posteriores.  

N – Outros argumentos (bíblicos ou não) = Há outros argumentos usados pelos “justiceiros bíblicos”, mas são tão infantis que nem mereceriam citação. Porém farei isso de forma bem sucinta:

- Usam Mateus 5:25-26 para dizer que a pessoa deve “pagar até o último centavo”. Sinceramente não sei o que essa parábola tem a ver com pena de morte, se o próprio versículo diz que a pessoa não sairá da prisão ATÉ QUE pague tudo. Oras, se fosse para defender a prisão, ok, mas fico pensando como uma pessoa morta poderia sair da prisão com a dívida quitada.

- Um argumento ainda pior é quando Mateus 5:22 é usado: “Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito ao tribunal. Também qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’ [cretino, cabeça vazia], será levado ao Grande Sinédrio [de Jerusalém]. E qualquer que o chamar de renegado [insensato, idiota] estará sujeito ao fogo do inferno.” Aqui vemos Jesus justamente relativizando (aprofundando) a lei de Moisés (que apenas dizia “Não matarás”), pois ela defendia que apenas quem tirasse uma vida responderia no tribunal. Mas Jesus cita alguns tipos de ofensas (nenhuma de tirar a vida de alguém), mostrando que um coração com ódio e desejo de vingança já é muito pior do que um assassinato, como Moisés ensinava. E aqui temos mais uma evidência de que os 10 mandamentos não são “a lei eterna e imutável de Deus” (como eu expliquei em detalhes no texto “Lei e Evangelho”, cujo link já disponibilizei anteriormente neste texto), pois Jesus citou um mandamento e complementou com: “Isso é o que foi dito aos antigos, porém eu vos digo...” (e aprofundou a consciência dos ouvintes). Será que teria como aprofundar um mandamento divino, perfeito e imutável?

- Citam Marcos 9: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe prendessem ao pescoço a mó que os jumentos movem e o atirassem ao mar.” Novamente, não vejo nenhuma insinuação à pena de morte. O que está sendo dito é que escandalizar os pequeninos é algo que ninguém deve fazer, jamais. Nem como última opção na vida. Escandalizá-los é mais danoso e grave do que se a pessoa fosse atirada ao mar. Vemos aí uma comparação de gravidade de condutas e não, uma punição/pena (ser atirado ao mar) por ter escandalizado. Simples interpretação de texto. 

- “Deus apoia tirar a vida do criminoso, pois ele tirou de alguém a maior dádiva divina à criação: a vida” – citam alguns. Bem poético, mas desprovido de sentido. Primeiramente é contraditório com o restante dos argumentos dessas pessoas, pois defendem a lei mosaica, que previa pena de morte não apenas em casos de assassinatos (lembra dessa pena aplicada aos que amaldiçoam os pais ou que adulteram?). Logo, esse argumento não serve de base para dizer que Deus apoia a pena capital. Segundo que, se isso fosse verdade, seria como se Deus dissesse ao criminoso: “Você cometeu um assassinato, que é algo que eu abomino. Então vou punir você! E sabe como? Assassinando (ou autorizando alguém a assassinar em meu nome) você, ou seja, cometerei contra você o que eu mesmo abomino, a fim de que você aprenda a não fazer o que eu também vou fazer”. Uma ideia infantil (e que mostra um deus contraditório e hipócrita), que nem merece mais comentários. Só quero dizer que, caso pena de morte trouxesse a vítima de volta, eu poderia até pensar na possibilidade de apoiá-la. Porém ela não resolve problema algum. É apenas uma punição maldosa e definitiva contra um criminoso e que não permite uma correção de nosso julgamento, caso cometamos algum equívoco. Para impor a pena de morte, temos que estabelecer parâmetros, ou seja, escolher quais crimes são passíveis dessa punição e quais não são. Ou seja, com base em nossos critérios imperfeitos, relativos, parciais, vamos determinar quem merece ou não viver (justamente o que criticamos nos casos de aborto, certo?). O que vejo nesse clamor pela pena de morte é um desespero diante da violência que se alastra; é um atestado de incompetência nossa, que ao não conseguir (na verdade nem tentar) resolver o problema, queremos agir depois do crime já cometido, a fim de dar uma ilusão de justiça. Isso tudo na verdade é apenas um desejo de vingança, em que nossos “instintos” animais mais primitivos superam a razão e assim, exterminando quem nos ameaça, nos sentimos mais seguros (mesmo que as estatísticas nos mostrem que estamos equivocados).

- “Mataremos um bandido para ele não matar inocentes” = Esse argumento é mais do que “furado”. Se a justificativa para a pena de morte é que isso impediria o bandido de causar outra morte, porque a prisão não é suficiente? Estando preso, matará quem? Não adianta disfarçar: o desejo é de ver sangue derramado como vingança; é o prazer de ver a morte do nosso inimigo, daquele que nos prejudica. Isso nos faz sentir parcialmente realizados. Um sadismo com uma capa de justiça. Não é a toa que os que defendem esse tipo de coisa são os mais radicias em termos de crer em um deus vingativo, que está todo eufórico para punir eternamente (de preferência em tachos de fogo, com espetadas de garfo nas nádegas) quem não faz exatamente o que ele deseja. E pensar que Jesus ensinava justamente contra essa mentalidade. Nos mostrava o poder do perdão e do amor, inclusive aplicado a nossos inimigos... 

- “Pena de morte não reduz criminalidade, mas nenhum que teve essa pena matou mais alguém” = Essa é a típica fala bonita, que deixa excitada uma plateia ingênua, mas que novamente, é vazia e demonstra apenas ódio e ignorância. Novamente, se é para não matar mais ninguém, basta uma reclusão (prisão), que não apenas isola o presidiário, como também pode promover uma tentativa de ressocialização e o desenvolvimento de trabalhos por ele, não gerando custos ao Estado e ainda gerando um lucro para a família do criminoso ou para ele mesmo, quando eventualmente cumprir a pena e for tentar recomeçar a vida. Mas repito: essa frase só mostra que quem a defende até “saliva” de desejo de vingança. É uma mentalidade pré-histórica, de “brucutus”, de animais quase que totalmente irracionais, com todo respeito a quem a cita. 

- "Dizer que Deus é contra a pena de morte é dizer algo que não está na bíblia" = Oras, “Deus é a favor da pena de morte” também não está na bíblia. O que as pessoas fazem é supor, descontextualizando registros bíblicos, que Deus é a favor de tal pena. Mas basta bom senso: quase tudo o que fazemos ou pensamos não está na bíblia. E com base em que podemos afirmar que tudo o que pensamos ou defendemos tem que estar na bíblia? Ela própria nunca atribui a ela mesma esse papel. Isso é uma premissa cristã fundamentalista absurda. Quer dizer que antes do século IV, quando não havia ainda bíblia, ninguém tinha um parâmetro para viver? Abraão é chamado de "pai da fé" e viveu antes de qualquer escritura. E mais: que Deus não é favorável à pena de morte não está de forma explícita na bíblia (assim como não estão a maioria das alegações conservadoras cristãs que vejo atualmente), mas de forma indireta está muito clara em Jesus. Por exemplo, não está na bíblia uma condenação ao aborto, mas nesse caso os mesmos que me criticam aqui não tem dificuldades em condená-lo, usando a bíblia, com a alegação de defesa da vida, entre outras coisas. Porém quando essa mesma vida embrionária se torna adulta e criminosa, aí é permitida uma pena de morte a ela, pois esse bandido deixou de ser uma vida? Como assim?

- “É a lei da semeadura: plantou, tem que colher” = Outro argumento facilmente refutável. Usando a própria bíblia, de onde as pessoas tiram essa citação: no relato do Gênesis, Caim mata seu irmão e Deus o pune com a morte? Não! Ao contrário, diz que o protegeria dos que tentassem matá-lo (aplicando uma “pena de morte”). É uma enorme lição aos que gostam de colocar Gênesis como parâmetro de vida. Ou o livro só serve, neste assunto, para dizer que Deus instituiu a pena capital, que que isso lhe convém? Davi planeja a morte de um dos seus, a fim de ficar com sua mulher e Deus o mata? Não. Ainda é chamado de “homem segundo o coração de Deus”. Paulo (Saulo) persegue muitos cristãos e é morto por isso? Não! Vira o principal responsável pela disseminação do cristianismo e autor de vários livros de nossa bíblia. E você ainda quer usar a mesma bíblia para defender o contrário? E além desses exemplos, olhe para sua volta e seja sincero: todas as pessoas colhem o que plantam? Não conhece ninguém que sempre foi boa pessoa e hoje está sofrendo? Não conhece ninguém que sempre foi má pessoa e hoje está com uma vida boa? o que semeou uma criancinha que nasce com graves problemas físicos ou mentais? O que semeou aquela pessoa gente boa que dentro de casa é atingida por um raio? O que semeou aquele pai de família honesto e trabalhador que, dormindo, tem a sua casa invadida por um bandido que rouba, estupra o filho dele em sua frente, depois estrangula a criança e a esposa e ainda espanca esse pai?  A "lei da semeadura" explica muito, mas não explica tudo. E mesmo que todo mundo colhesse o que plantasse, não deveria ser você o responsável pela colheita, afinal, lembra-se do famoso texto bíblico em que Jesus diz que não devemos arrancar o joio que está entre o trigo? 

     Outro ponto que me incomoda nessa questão é que boa parte dos defensores da pena de morte são cristãos conservadores, sendo assim, pregam todo domingo que Deus cura, liberta e transforma vidas. Isso é bem contraditório, pois se há uma crença em transformação divina do ser e em milagres, por que os mesmos argumentam que para quem comete crimes hediondos não há solução? Que “fé” é essa? Se Deus pode transformar um bandido da pior espécie em um grande “homem de Deus”, por que tirar a vida de alguém que poderia ser um desses milagres? 

     Outras razões que me impedem de aceitar a pena de morte:
1 – Muitos inocentes são mortos. Nenhum sistema judiciário no mundo, por melhor que seja, é perfeito. Sendo assim, inocentes são mortos em todo lugar e na maioria desses casos, nunca ficaremos sabendo que eram inocentes. Vez ou outra, casos de condenações injustas são mostrados na mídia, mas as condenações indevidas que nunca serão provadas são certamente em número muito maior. E se a prisão de um inocente já é muito danosa, imagine uma pena de morte. A prisão, pelo menos, tem possibilidade de ser revista e a vítima indenizada. Mas e a pena de morte? Como voltar atrás?
     Triste é ver a maldade de alguns ao afirmar: “Inocentes são condenados em menor número do que morrem as vítimas dos verdadeiros criminosos, então no geral é benéfico à sociedade”. Uma pessoa que defende isso, pra mim, não é digna de respeito algum. É uma escória da sociedade. Perceba a incoerência: estamos falando DE INOCENTES que morreriam por causa da imperfeição do nosso aparato judiciário e os ultra-conservadores os comparam a BANDIDOS que matam inocentes. Como assim? O que estão dizendo é: "vale a pena alguns inocentes morrerem por engano, desde que muitos culpados sejam extintos, o que salvará muitos inocentes". Desculpem-me, mas minha consciência não me permite matar nenhum ser humano de forma premeditada. É, pra mim uma questão de caráter, de amor ao próximo, de empatia. Mas para os tais vale o risco, ou melhor, as mortes injustas que certamente ocorrerão? Quer dizer que pra você, defensor dessa pena, vidas humanas são apenas números? E se, com a pena de morte, morresse apenas um inocente e milhares de vidas fossem salvas, porém essa única morte envolvesse você ou sua mãe ou um de seus filhos? Seja honesto e sincero: continuaria com essa opinião? Aí certamente clamarão por justiça. É a hipocrisia humana... Lembre-se: uma coisa é um assassino matar alguém sem que você consiga evitar, outra é você assumir o risco de matar. Isso não é “pena capital”, é homicídio doloso (com intenção de matar; crime premeditado)!
     E um “detalhe”: já pensou que você está no Brasil? Um país em que a justiça (se é que existe) é mais do que falha e injusta? Raramente um rico e poderoso vai para a cadeia, não importanto o crime, mas uma mãe desempregada e desesperada, que rouba um pacote de macarrão pra alimentar os filhos, não escapa de ficar bom tempo atrás das grades. Já pensou que a pena de morte só seria aplicada a bandidos pobres? Os ricos, com seus maravilhosos advogados, adiariam por décadas seus julgamentos. Que direito de igualdade à vida seria esse? Vale lembrar que no Brasil há pena de morte prevista na Constituição, mas é algo muito específico e restrito a crimes militares durante eventuais guerras. Sem contar a “pena de morte indireta”, imposta a pessoas que dependem de saneamento básico deficiente e de um sistema de saúde que em muitos locais está falido, condenando-as à morte sem oportunidade de um tratamento médico adequado.
     "Realmente no Brasil pode não funcionar bem, mas duvido que na indonésia entre algum brasileiro novamente com drogas na mala, já que há um tempo um traficante brasileiro foi morto" – dirão alguns. Será? Se isso fosse verdade, a fila de criminosos para execução não existiria. Certamente quase todos os que cometem crimes em países que possuem pena de morte conhecem as leis do país. Seria ingenuidade nossa pensar assim, além de total ignorância da história e das evidências. Analise os índices de criminalidade dos países com pena de morte e veja se esse é o caminho que está apresentando os melhores resultados.

2 – Somos hipócritas e praticamos o que condenamos =  O nosso cristianismo já matou “hereges”, cientistas e “bruxas”. Lembra da famosa Inquisição? E das Cruzadas? E da Reforma protestante (quem nem sempre era pacífica como seria esperado de um “movimento inspirado por Deus”)? Da mesma forma, o judaísmo matou muitos “pagãos” (e muitas dessas mortes são testemunhadas pela bíblia). O islamismo fez e faz o mesmo. É um fenômeno humano (psicologicamente compreensível) a censura e a violência contra quem ameaça ou impede a expansão de nossos projetos de poder. E repare nas mortes provocadas pelas três grandes religiões monoteístas: tudo era (ou é) feito em nome da “defesa da fé”, “em nome de Deus”. Todos temos um “telhado de vidro”.
     Defendemos a pena de morte até que nós estejamos ameaçados por ela. Condenamos a pena de morte quando um grupo muçulmano mata um cristão. Achamo absurdo. Protestamos nas redes sociais, colocamos fotos (muitas delas falsificadas, referentes a casos que nada tem a ver com o fato), exigimos justiça... Porém eles tem as justificativas deles e usam interpretações do Alcorão para tal (assim como você usa sua interpretação bíblica para condenar à morte alguns tipos de criminosos). Mas, hipocritamente, nos damos ao direito de condenamos quem achamos que merece e criticamos os que fazem os mesmos com seus “livros sagrados”? Pense: se você tivesse nascido em um país islâmico, provavelmente faria o mesmo que eles estão fazendo. A mentalidade é a mesma, apenas muda o lado do debate. 

Conclusão
     Praticamente todas as nações desenvolvidas já aboliram essa pena, sendo que os melhores países para se viver (inclusive em termos de segurança) são os que focam seus esforços na educação e não, na punição. Oferecer condições, desde antes do nascimento, a uma pessoa de ter uma vida saudável, com acesso a todos os serviços essenciais, a uma família estruturada, a uma educação de qualidade, aprendendo desde pequena a desenvolver suas capacidades humanas mais nobres, deveria ser o que determina nossa direção. Porém essa luta é algo que só dá frutos a longo prazo, sendo que nossa geração dificilmente colherá esses frutos. E com uma mentalidade humana egoísta, em que as pessoas não pensam nos filhos, netos e futuras gerações, difícil é montar um governo com esse objetivo. Não é algo que aparece na mídia, a população não se surpreende, logo, não rede votos nas eleições. Melhor é, ao invés de dedicar esforço e recursos para essas questões, mostrar à população que algo que a beneficiará a curto prazo está sendo feito. Atacar a “doença”, a fonte do problema não é viável dentro dessa mentalidade. Melhor, para eles, é combater os “sintomas”, que nada resolvem, mas que dão uma ilusão de que o mal está sendo combatido e vencido; uma sensação de segurança e de justiça. Preferem ganhar batalhas (curto prazo), em vez de vencer a guerra. 
     Alguns dirão: “A maioria das pessoas que vivem às margens da sociedade não são criminosas". É verdade, mas não falo aqui de consequência certa; falo de aumento de probabilidade. Escrevi sobre isso nesta curta reflexão: "A vida é feita de escolhas. Será?" (clique para lê-la).
     Precisamos entender que esse nosso desejo de justiça não passa de uma manifestação de um “instinto” primitivo: desejo de vingança. Basta ver os linchamentos promovidos quando um criminoso é flagrado. Nosso lado “animal irracional” aflora nos momentos de ira e de trauma. Não é a toa que aprendemos o famoso ensino bíblico: “Irai-vos, mas não pequeis” (Efésios 4). Auto-controle, disciplina, equilíbrio não são coisas simples. Não é a toa que são destacados como “frutos do Espírito”. Por isso a importância de julgar com “a cabeça fria”, usando a razão ao invés da emoção. É quase certo que o mais pacifista ficará no mínimo confuso diante de um assassinato brutal de alguém de sua família, pois ali nossa emoção, sentimentos e instinto de sobrevivência ficarão abalados. Quem hesitaria em tirar a vida de um bandido se percebesse que em alguns segundos ele tiraria a vida de um filho nosso? Ninguém, certamente. Não serei hipócrita para dizer o oposto. Não condenaria um pai de família (ou um policial, durante o trabalho) que agisse em legítima defesa. Porém aqui me refiro a análise racional, imparcial, fria, a fim de estabelecer uma conduta geral para a humanidade. Premeditar algo (como pena de morte)? Jamais!
     Não estou dizendo que, seguindo o caminho que defendo (de educação e de acesso pleno de todo ser humano a tudo que uma vida digna requer), não teremos mais violência ou crimes hediondos. Teremos sim, mas em número drasticamente inferior, com uma redução muito superior a qualquer ação no tipo ou idade de aplicação de penas. Essas atrocidades não ocorreriam nos casos que são motivadas por questões econômicas/sociais. Não teríamos mais o garotinho escolhendo entrar pro crime por ter uma capacidade fraca de juízo (por ter uma péssima educação, quando tem) e vendo os pais passando fome e o traficante cheio de dinheiro, com muitos carros e mulheres. Os crimes hediondos seriam, a grosso modo, apenas oriundos daqueles doentes mentais, como os que tem transtornos de personalidade (ex: psicopatas). Porém, com uma educação de qualidade e amplo acesso ao sistema de saúde, esses transtornos já seriam diagnosticados na infância, permitindo medidas que reduziriam a probabilidade de cometerem um crime grave. Percebe que uma coisa leva à outra e quando atacamos o problema na origem é possível, teoricamente, controlá-lo? Não gosto de tornar a discussão rasa, dizendo que “sou contra a pena de morte porque defendo a vida”. Essa é uma alegação vaga, com pouco ou nenhum sentido. São várias questões que, somadas, me impedem de defender essa pena.     
     Mas, nessa minha proposta, como fica a situação da violência enquanto novas gerações de crianças não são formadas? Simples. Sempre deverá existir um sistema para remediar os crimes que ocorrem. Nunca chegaremos a zero de criminalidade. Porém defendo uma estrutura carcerária não meramente punitiva, mas que busca realizar, com eficiência, uma tentativa de ressocialização de cada presidiário. Não é prender para isolar e sim, para tentar recuperar. Todos conhecemos casos de pessoas que cometeram erros na vida, foram presos e depois continuaram com suas vidas de forma digna. Já imaginou quantos outros teríamos se nosso sistema fosse realmente eficaz? Claro que não tenho a ilusão de que 100% dos condenados seriam recuperados. Alguns são, como os psicopatas, a meu ver, sem recuperação. E a esses, devidamente julgados e diagnosticados, ficariam em reclusão, até mesmo de forma “perpétua”. Porém, todos os presidiários teriam atividades que ocupassem suas mentes e que desenvolvessem suas habilidades. Eles se sentiriam úteis para a sociedade, pois produziriam mercadorias diversas, que seriam consumidas por eles, vendidas e o lucro não apenas cobriria os gastos que geram, como também poderia ser enviada parte para a família ou até mesmo seria depositada para que, ao final da pena, quando saíssem tivessem um dinheiro para recomeçar a vida. Isso é estímulo e tentativa de recuperação e não, meramente isolá-los, fazendo dos presídios meras escolas de criminalidade.  
     E quanto ao aspecto religioso: não vejo um Deus que é amor, ensinando em Jesus a empatia (o se colocar no lugar do outro) e o perdão, defendendo pena de morte. E vale destacar que esses princípios éticos, bem como o respeito à vida e à dignidade humana, precedem qualquer tradição ou religião – tanto que,se assim não fosse, os “ateus" seriam uns “diabos” de gente, todos psicopatas. Respeito o direito de cada um querer tornar absoluto qualquer parâmetro humano ou religioso, mas enquanto os parâmetros ferirem esses princípios básicos, inerente a toda consciência que tem empatia, lutarei contra eles. E acha que eu não deveria lutar contra um governo que comete algo que considero anti-ético ou que desrespeita meus princípios? Então porque os que me criticam, geralmente cristãos conservadores, lutam contra o governo quando acham que ele está defendendo causas LGBT , pró-aborto e a favor de liberação de drogas ilícitas? Só vocês podem? Desculpem-me, mas nossos direitos são iguais.
     Então, digo aos da fé: se você é cristão, por definição seu parâmetro deve ser Cristo. E a única pena de morte que podemos ver em Jesus é a que Ele mesmo sofreu (pelo método tradicional dos romanos – a crucificação) e não, a que Ele causou ou defendeu. Quando se referia a outros, nos é apresentado um Jesus que dizia em alta voz: “Não vim para julgar/condenar o mundo e sim, para salvá-lo” (João 3:17; 12:47). Até no momento da morte, conta-nos o evangelista que ele repreendeu um dos seus, que pegou uma espada para defendê-lo (Mateus 26).
     Porém, se você deseja continuar defendendo a pena de morte mesmo diante de tantas evidências que nos levam a outros caminhos, está atestando que seu compromisso não é com a realidade e tampouco com a melhora do mundo em que vive. Se não está disposto a se abrir para ser convencido por argumentos mais consistentes, realmente não haverá possibilidade de acordo e nem de diálogo. Vote, nas eleições, em candidatos que defendem essa pena e torça para ninguém que você ama ser uma vítima do que você mesmo ajudou a provocar. Só não lamente depois que o leite, ou melhor, o sangue, for derramado. 

     “Apoiemos a pena de morte e seja o executor aquele que não possuir nenhum pecado” (paráfrase minha, a partir da história bíblica de João 8, envolvendo Jesus e a mulher adúltera). 

Autor: Wésley de Sousa Câmara
17/03/2016