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11 de fev de 2016

Herege é todo aquele que discorda de mim


     O que os cristãos precisam é perder a ingênua ideia de que existe uma "teologia bíblica" ou a ilusão de que é possível criar/seguir uma teologia bíblica. "Base bíblica" é uma expressão tola, pois é impossível olhar para a bíblia e tirar dali uma visão teológica. Por quê? Pois a bíblia não é um livro e sim, uma coletânea de livros, com vários autores, com várias tradições judaico-cristãs, com muitos objetivos e com uma infinidade de compreensões (algumas até opostas entre si).
     Entenda uma coisa: a bíblia não é uniforme, nem harmônica. É questão de bom senso. Ela não caiu pronta do céu, tampouco foi escrita por Deus (apesar dos fundamentalistas insistirem em negar as evidências e a realidade, apegando-se em pontos irracionais, infantis, que chamam equivocadamente de "fé"). Ela é um aglomerado de cartas e livros (como uma mini-biblioteca) que foram selecionados por aqueles que num dado momento histórico possuíam o poder religioso. Os livros que deveriam entrar ou não na compilação chamada bíblia nunca foram um consenso. Mas é aquela história: manda quem pode e obedece quem tem juízo.
     E mesmo considerando os livros que lá estão, nunca foi unânime a interpretação dada a eles. Algumas interpretações, com o tempo, foram se fortalecendo (não necessariamente por serem melhores) e outras, perdendo espaço. As que se fortaleceram foram as dos que tinham mais influência e poder no cristianismo nascente e foram consideradas ortodoxas ("doutrina correta"); as que foram rejeitadas por esses ortodoxos, foram consideradas heterodoxas ou o termo mais conhecido por nós: heresias.
     Portanto, heresia não é, necessariamente algo absurdo, mas é algo que é considerado pelo cristianismo "ortodoxo" como interpretação errada. Alguém pode afirmar que sua interpretação é absoluta, perfeita ou correta, para que possa classificar outras como heresias? Não! Mas é isso que é feito. O que o cristianismo oficial define como padrão (há séculos foram realizados vários concílios para definir vários pontos básicos) é usado como referência pra condenar tudo o que diverge disso. Então, maninho, quando você julga algo como heresia está apenas querendo dizer que a visão criticada é diferente da que você assume como "ortodoxa". Não quer dizer que ela seja errada e a sua certa; quer dizer que ela é uma visão que está "às margens" das interpretações mais influentes. E outra coisa: na história vemos que uma interpretação considerada ortodoxa (correta) pelos cristãos "mais poderosos" em uma época, décadas depois já poderia ser considerada heresia. Muita coisa que hoje é considerada heresia, nos primórdios da Igreja era a visão "oficial". Então abaixe essa bola aí, pois a história mostra que nosso telhado é de vidro. Hoje você joga pedras no telhado do outro; amanhã, o seu provavelmente será estilhaçado. 
     Mas voltando ao ponto inicial, você precisa entender que até mesmo na própria bíblia há várias teologias. Os autores nem sempre concordam entre si. Nós é que, cerca de dois milênios depois, tentamos harmonizar tudo. Veja o que fazemos: nós criamos uma teologia diferente da de TODOS os autores bíblicos (ou seja seguimos uma teologia que não aparece em lugar nenhum da bíblia - e nos gabamos por ser "crentes bíblicos" ou por criticar o outro por defender coisas "que não estão na bíblia" - faz-me rir) a fim de que ela encaixe as inúmeras teologias bíblicas entre si, como se fossem complementares. Percebe? Nós negamos as teologias objetivas que estão na bíblia, pois se assumirmos uma delas, teremos que relativizar ou discordar de outras que lá estão, mas como inventamos o pressuposto que a bíblia é harmônica, perfeita, infalível e sem contradições, temos que criar uma teologia moderna, nova, extra-bíblica, a fim de uniformizar o que é heterogêneo (teologias diversas antigas). E o mais engraçado: chamamos esse nosso "malabarismo teológico moderno" de "visão bíblica" ou de "a bíblia diz". Será que é tão difícil enxergar isso?
     Por exemplo: os quatro evangelhos sinóticos, canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) não são uniformes. Apresentam visões diferentes sobre quem Jesus era, em que sentido era Filho de Deus e até mesmo em acontecimentos de Sua vida. O que fazemos (coloco sempre no plural, me incluindo, pois estou aqui retratando a visão conservadora, que é a dominante no cristianismo brasileiro, embora eu tenha muitas restrições a essa orientação)? Como partimos da ideia de que o autor da bíblia é Deus e Deus é só um, esse registro histórico é a Palavra de Deus, logo, é perfeito e qualquer divergência encontrada assumiremos como sendo limitação nossa na interpretação. Aí criamos a ideia de que os quatro "evangelistas" pensavam a mesma coisa, de que escreveram tudo o que foi "ditado por Deus", não tendo influência de crença ou teologia humana dos autores...
     Qual a "base bíblica" (já que o povo gosta dessa expressão) para essa abordagem? Nenhuma, até porque a bíblia foi compilada 300 anos do último livro dela ter sido escrito, ou seja, a bíblia em momento algum fala dela mesma, por questão de lógica. Mas as pessoas tomam essa visão conservadora como "ortodoxa" e classificam como "heresia" toda abordagem menos conservadora que essa. Percebe que a história se repete (desde o primeiro século é assim), como disse anteriormente? O tempo passa, o contexto muda, mas essa classificação, aceitação e rejeição teológica continua a mesma. Basta não fechar os olhos para a realidade, para a história e veremos o quão parciais e relativos somos.
     Eu assumo abertamente uma visão teológica, uso a bíblia para sustentá-la, mas deixo claro que minha teologia (assim como qualquer outra) não é a "visão bíblica", ou a "visão correta", ou a "revelação divina". Assumo que é uma abordagem que tenta aproveitar o que recebemos (bíblia) da melhor forma possível, tentando harmonizar o que é possível, dentro de uma compreensão que seja consistente com um Deus de amor revelado em Jesus e que seja o mais frutífera possível. Claro que alguns textos bíblicos parecerão não ser muito compatíveis com minha teologia (que na verdade não é em nada criação minha), porém há textos bíblicos que também não são compatíveis com a sua teologia (embora você possivelmente não assuma isso e force todo texto e contexto, a fim de parecer que ali o autor está dizendo o que você deseja que ele diga). Enfim. o mínimo que deveríamos ter é humildade para reconhecer que somos relativos e tendenciosos. Mas queremos sempre colocar a nossa compreensão como referência para julgar os demais. E assim continuamos no processo interminável de segmentação (divisão) do cristianismo.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
Atualizado em 11/02/2016

7 de fev de 2016

Carnaval faz mal ou é amoral?


     O Carnaval é uma festa que tem muito destaque no Brasil, mas que gera um incômodo muito grande para a maioria dos cristãos. Como muitos questionam se um cristão poderia aproveitar essa celebração de alguma forma, quero aqui tecer um breve comentário, não no intuito de convencer ninguém de nada, mas de refletir principalmente nos argumentos que ouço em relação a isso nessa época.
     Primeiramente vale contextualizar: o Carnaval parece ter origem grega, como uma festa de celebração à fertilidade e produção agrícola, tendo também relação com o deus grego Dionísio (deus do vinho), muito associado às festas, diversão e prazeres materiais. No final do século VI da nossa era a Igreja Católica adota a celebração, tornando-a uma festa de liberdade à diversão e à alegria. No século XVI é oficializado como uma festa popular, sendo posteriormente sua data relacionada à Páscoa. Devido ao processo de colonização europeia, claro que o Brasil também absorveu essa festa e ao que parece, no século XIX começaram as grandes celebrações de Carnaval em nosso país.
     É bom dizer que o Carnaval não é uma festa uniforme. Cada região, cada época, tem suas peculiaridades e formas de celebração. Há décadas, o que mais ocorriam eram festas de ruas, familiares, em que as pessoas se reuniam em blocos, desde crianças até idosos. Em alguns lugares, com o tempo, essa festa foi adquirindo outras características. Ultimamente, quando se fala em Carnaval, a maioria das pessoas pensa imediatamente em bebidas, mulheres seminuas e sexo fácil, embora nem sempre isso seja um retrato fiel da festa. Por exemplo: compare o Carnaval de Olinda, de Salvador, de Ouro Preto, do Rio de Janeiro e de uma cidade do interior. São completamente diferentes. Em alguns o que se vê é desfile de escolas de samba, com mulheres seminuas em destaque, retratando momentos ou personagens históricos do país; em outros, trios elétricos guiam multidões ao som de axé; há ainda os bailes de máscaras em salões, os blocos de rua com fantasias, os desfiles com marchinhas e bonecos...
     Com tanta diversidade fica difícil falar sobre o Carnaval como um todo. Há festas aparentemente inofensivas, saudáveis, com clima familiar; há outras em que só vemos imoralidades, pessoas embriagadas ou fora de si por consumo de outras drogas, desrespeitando as mulheres e promovendo violência. Então, penso que em vez de colocar o Carnaval em um mesmo pacote e julgar (e aqui uso no sentido equivocado popular de “condenar”) todo tipo de festa nessa época, use a racionalidade que Deus lhe deu. O problema é a velha e tola questão: “Isso é pecado”? Para quem não sabe ainda discernir o que é pecado e como isso interfere em sua vida,recomendo que leia este estudo completo: PECADO - estudo completo. A questão não é se é pecado ou não e sim, se convém ou não. E isso cabe somente a você responder, pois a consciência é algo individual. “Cada um analise a si mesmo”. Em vez de aceitar ou rejeitar o Carnaval como um todo, sugiro que sempre questione: “Que tipo de Carnaval? Essa festa envolve o que? Como é celebrada?” Afinal, como posso colocar no mesmo pacote, por exemplo, as duas festas abaixo:


1 - uma festa familiar, com as pessoas da família e amigos próximos fazendo um churrasco, usando máscaras ou algumas fantasias e adereços, conversando, rindo, brincando e se divertindo ao som de boas músicas.



2 – Uma festa aberta a todo tipo de droga, violência, abusos sexuais inclusive de menores, ao som de músicas que fazem apologia a crimes.


     Percebe a diferença? Ambas podem ser chamadas de festa de carnaval, mas não possuem nada em comum, além da data de realização. É aquilo que sempre digo: julgue o perfume e não, o frasco. Da mesma forma que deve avaliar uma mensagem, ao invés do mensageiro; a letra da música, ao invés de seu compositor; o conteúdo do livro, ao invés da capa e do autor...
     Se alguém me convidar para uma festa como a primeira citada, se eu estiver sem compromisso, irei com todo prazer; se alguém me convidar para a segunda, rejeitarei prontamente, pois não vejo nada lá que acrescente algo em minha vida, além dos nítidos riscos; se eu for convidado para alguma festa que ficaria entre esses dois polos, avaliaria se seria positivo ou não eu ir. Não tem a ver com fé, com religião, com pecado (repito, se tem dúvidas quanto a isso, leia o texto do link que sugeri acima), com salvação... Tem a ver com bom senso, com responsabilidade e com juízo. Infelizmente a maioria das pessoas segue uma lista de regras (de proibições) e rejeitam qualquer coisa que lembre ou que se relacione com o carnaval, por ser uma suposta “festa da carne”. Elas abre mão do uso da razão. Não entendem que um discípulo de Jesus deveria ser guiado não por regras exteriores, mas por consciência, por amor, por equilíbrio, por mansidão. É uma imaturidade mental que as impede de soltar as rédeas religiosas e a viverem por si mesmas, tendo um parâmetro, uma referência para seguir. Sentem-se inseguras, ficam sem chão quando deixam de seguir uma cartilha pronta, as ordens de um líder, que diz em detalhes tudo o que ela deve fazer ou rejeitar. É como uma criança que nunca larga a mamadeira e as fraldas. Ao invés de discernir em tudo na vida o que é bom e mau, o que traz vida e o que gera danos, o que convém ou não, ela quer uma garantia de que algo é “de Deus”ou “do diabo”. E assim faz julgamentos rasos, tolos. Tudo o que tem a ver com carnaval, para essa pessoa é demoníaco e tudo o que tem a ver com “igreja”, é obra de Deus, mesmo que o evento religioso seja recheado de absurdos, emocionalismos, manipulações e estelionatos.
     Eu poderia aqui ficar citando versículos bíblicos sem parar, mas luto contra essa mentalidade, pois citar um trecho da bíblia após cada afirmação não valida o que estou dizendo. No relato da tentação de Jesus no deserto, lembra que Satanás não parava de citar as escrituras? E nem por isso ele estava com a razão. O que quero é que você tenha maturidade e consciência para avaliar o que é dito e pensar, sem precisar de versículos para aceitar ou rejeitar algo.
     Voltando ao assunto, muitas pessoas, enquanto rejeitam o carnaval, tem a mente e o coração conduzidos pela “carne”. São avarentos, caloteiros, briguentos, mal educados, não dão carinho e amor à família, não estendem as mãos ao necessitado, condenam todos os que são diferentes deles... Mas os tais acham que são santos por estarem, durante o Carnaval, em um “retiro espiritual”. Veja o nível da incapacidade de uso da razão. Dão evidências a todo momento dos frutos da carne em suas relações cotidianas, mas “carne” para eles é qualquer celebração na época do carnaval.
     E já que falei em “retiros”, considero tolices como tudo o que criam na versão gospel. Explico: criam festas juninas gospel, Halloween gospel, shows gospel, carnaval gospel... Na verdade, querem a festa original, diversão com os amigos que chamam de “do mundo”, mas como são proibidos pela “igreja” ou como ficam com medo e culpados (“é pecado”, “Deus me castiga”, “perco a salvação”, “o pastor me pune”, “o pessoal da igreja me julga”...), criam os seus próprios eventos, na versão “santa”, só para cristãos. Outra vezes esses retiros são meras estratégias para tirar os jovens da exposição ao carnaval, como se isso resolvesse. Lembra de João 17? “Pai, não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal”. Essa é a ideia. Precisamos, em vez de afastar as pessoas de algo ruim, ensiná-las a viver diante de tudo isso. O mundo atual é repleto de coisas boas e coisas degradantes. Todos precisam de maturidade para saber lidar com cada situação e não é tirando a pessoa da realidade que ela aprenderá a se portar adequadamente. Você faz um retiro com os jovens, mas e quando ele retornar? Será que o mundo será uma mil maravilhas? Será que ele não será exposto em algum momento a ofertas libertinas? Isso é tampar o sol com uma peneira e alimentar uma imaturidade mental nas moças e rapazes. Ao invés de usar a consciência, o juízo, assumir responsabilidades, essas pessoas aprendem a se isolar do mundo, a não avaliar o que é bom, o que edifica. Elas recebem tudo pronto, de acordo com o que o seu líder julga conveniente. E assim elas permanecem, querendo um aval bíblico, religioso pra tudo. Não querem usar a razão, a mente, o bom senso e o discernimento. A alienação é tamanha que quando alguém diz coisas óbvias como essas, os tais se revoltam, acham absurdo não seguir a cartilha, as tradições, os clichês. Convidar a pessoa a usar a razão, para ela é uma afronta, uma blasfêmia, uma falta de fé, uma carnalidade. É a situação crítica e infantil do nosso cristianismo.
     Quem pensa assim não deve ter entendido a mensagem de Jesus, que frequentava festas, que comia de tudo e que andava com os pecadores. Ele não vivia em uma “bolha”, como os fundamentalistas cristãos querem que vivamos. Afinal, se fosse assim, como Jesus nos ensinaria a ser sal e luz? Se for pra viver e se alegrar apenas entre os meus “irmãos”, seremos sal no saleiro e um sal insípido. Pra que isso serviria? Essa alienação cristã só mostra que estamos sendo luzes embaixo da cama. Luz é para iluminar o mundo! Jesus nunca proibiu ninguém de participar de nenhuma festa. Também nunca criou nenhuma festa (nem pense em citar “Santa Ceia/Eucaristia”, pois o contexto não é esse – falamos aqui de lazer, diversão) restrita aos seus seguidores. Pelo contrário, Ele levava seus discípulos para as celebrações existentes. Deixe de criar segregação e de dividir as pessoas em "guetos".
     Há os que berram: “O carnaval é uma festa pagã, por isso deve ser rejeitada”. A esses eu respondo: muitas coisas que usamos ou fazemos atualmente tem origem pagã. Onde fica a imparcialidade? Se condenarmos tudo que tem essa origem, devemos abolir os templos religiosos (provável origem suméria), as alianças de casamento (origem hindu ou egípcia), as maquiagens (origem no Egito Antigo)... Sem falar nas celebrações de dia dos namorados, nas cerimônias de casamento, nos vestidos de noiva e no próprio cristianismo, que foi institucionalizado como religião romana apenas no quarto século, de forma que o sincretismo com outras religiões da época é evidente. Ou quem sabe deveríamos abandonar o nosso calendário (que é solar e que foi usado inicialmente pelos egípcios, depois alterado muitas vezes, inclusive pelos romanos. Você sabe que o mês de maio refere-se à deusa Maia? E que o mês de fevereiro refere-se ao deus Februarius, a quem os romanos ofereciam sacrifício pela expiação de seus pecados?). Rejeitar o Natal e aceitar o calendário gregoriano não me parece coerente. Poderia ainda citar a celebração de ano novo (Réveillon), que foi adotada por muitos povos antigos, sendo estabelecida em 1º de janeiro pelos romanos. Mas o fato de terem essa origem nos impede de adotarmos tais tradições? Não é porque um gato preto é sinal de má sorte para os supersticiosos que eu não possa ter um de estimação.
     A Páscoa, por exemplo, tem um significado para os cristãos, outro para os judeus e diversos outros para os demais povos. Algumas civilizações celebravam o fim do inverno e início da primavera no mesmo período (março). Mas o significado de cada evento depende da cultura em questão e, mais do que isso, da consciência de cada indivíduo. O dia 12 de outubro é dia de "Nossa Senhora Aparecida" para os católicos, mas para os evangélicos é apenas "Dia das Crianças". Percebe que a data tem a ver não com a origem e sim, com o significado que atribuem a ela em dado momento? Acho válido aqui deslocar de contexto uma frase do pastor batista Ed René Kivitz: "Na cultura religiosa o impuro contamina o puro. No ensino de Jesus o puro limpa o impuro." Realmente, os cristãos atuais tem uma espiritualidade ascética, baseada no “não toques, não pegues, não manuseies”, que é criticado na carta aos Colossenses.
     Há ainda quem diga: “No carnaval só vemos violência, drogas, gravidez indesejada e acidentes de trânsito, então a festa tem sim que ser condenada.” Se isso acontece (e algumas dessas coisas realmente ocorre bastante), será que a culpa é da festa em si ou das pessoas envolvidas? Veja: em todo aglomerado de pessoas, todo evento de grande porte, aumenta-se muito a o risco de violência, por fatores externos e psicológicos. Primeiramente, todo ajuntamento de gente que tem drogas (lícitas e ilícitas) sendo consumidas abundantemente, tem alto risco de terminar mal. O álcool, o êxtasy, a cocaína e outras drogas alteram a consciência e a capacidade de julgamento do indivíduo e isso é um facilitador para brigas e outros tipos de violência (física ou não). Também vale destacar os transtornos psicológicos, mentais (como transtornos de personalidade) que não são tão raros assim e que são evidenciados em ajuntamentos. Quem nunca viu pessoas que aparentemente são controladas, mas que quando estão no meio de uma “torcida organizada”, em um estádio de futebol, adoram se envolver em violências? É como um “instinto” primitivo, animal, que é aflorado quando está dentro de um “bando”. Por isso que vemos violência em quase todo aglomerado de pessoas.
     E os acidentes de trânsito? Em todo feriado prolongado temos um aumento significativo deles, não importando a época. Porque isso acontece? Pelo aumento do fluxo de veículos (quanto mais carros circulando, estatisticamente é óbvio que aumentarão os acidentes), pelos imprudentes que querem mostrar habilidades em alta velocidade, pelos irresponsáveis que dirigem embriagados, pelos menores que pegam no volante... É culpa da festa propriamente dita? O mesmo raciocínio aplica-se ao consumo de drogas, que aumenta quando pessoas se reúnem em dias de folga dos estudos ou do trabalho. Mas vale citar um possível mito, que é a velha história de que no carnaval há aumento das relações sexuais descompromissadas e desprotegidas, aumentando a incidência de doenças e de gravidez. Porém, um estudo brasileiro, realizado no Rio de Janeiro (uma dissertação de doutorado na Universidade Federal Fluminense - a qual conheço de perto, ou melhor, de dentro, e por isso confio), analisou se essa afirmação é verdadeira e aparentemente, é falsa. A pesquisa foi realizada de 1993 a 2005 no setor de doenças sexualmente transmissíveis (DST) da universidade, considerado uma referência nacional na área, analisando 3 doenças cujo desenvolvimento tem períodos bem definidos, em mais de 11 mil pacientes. A conclusão foi que o Carnaval não influencia no aumento das DST. Aliado a isso, foram analisados se os partos e abortamentos também aumentariam nesse período, o que não se confirmou. Aparentemente o mês em que mais mulheres engravidam é Agosto. O que estou dizendo aqui não é que no período de carnaval as pessoas fazem menos sexo e sim, que, mesmo que porventura façam mais, as campanhas de conscientização do sexo seguro podem estar sendo efetivas (apesar do esforço da maioria dos segmentos cristãos para combater essas ações).
     Pessoalmente não me sindo atraído pelo carnaval (confesso que o que mais me agrada nessa época são os feriados), mas não procuro argumentos “espirituais” ou descontextualizações bíblicas para condenar a festa. Não fico tentando convencer ninguém das minhas preferências. Claro que reconheço e repudio a imagem que muitas vezes é criada do Brasil no exterior, em relação a turismo sexual, que talvez seja ainda mais intenso nessa época; repudio os milhões de reais gastos (inclusive com financiamento público) nessas festas, enquanto pessoas morrem de fome e de sede; repudio os excessos cometidos em relação às drogas e ao sexo irresponsável... Porém não faço disso um pacote fechado para julgar superficialmente e tolamente, jogando tudo o que é relacionado a isso no lixo. Ao contrário, desejo que todos desenvolvam um senso crítico e usem a razão, a inteligência para separar o que é louvável do que é reprovável.
      O que cada pessoa (inclusive cristãos) deveria fazer, na minha opinião? Aproveitar o feriado, a data festiva. Passar agradáveis momentos com as pessoas amadas. Onde e como? Isso depende de cada um, da consciência e da preferência que possui. Como aprendemos com uma fé cristã sadia, as pessoas devem ter equilíbrio em tudo. Evitar festas repletas de excessos é prudente e se onde estiver ocorrer algo nada sadio, mantenha a moderação. Como em toda festa e época, encontrará coisas boas, diversão e expressão de criatividade e arte, mas também encontrará coisas ruins. Saiba avaliar tudo e só acatar o que é bom. Fuja do que é mau, não por medo de inferno ou por ser “pecado”, mas porque sua consciência é outra, seus desejos priorizam aquilo que traz vida, o que edifica, o que traz paz e alegria. Não coloque sua vida, família ou relacionamento em risco por causa de algumas horas de diversão irresponsável. Não é porque porventura ficará rodeado por pessoas sem escrúpulos que irá cometer excessos ou imoralidades. Seja adulto e maduro. Mas também acho válido dizer: não seja tolo de criar essas bobagens missionárias carnavalescas, dizendo que irá pra folia a fim de evangelizar. Ninguém está lá disposto a ouvir isso. Há momentos mais apropriados. As pessoas estão nos blocos ou qualquer tipo de festa para se divertirem e você ir lá “evangelizar” será visto como inconveniente, no máximo. O que vejo é que muitos usam essa desculpa para poderem participar indiretamente, mas com uma suposta “missão ou cobertura divina”. Não precisa disso, gente. Se a festa é “inofensiva” e deseja ir, assuma a responsabilidade e vá. Se é algo que faz mal à “alma” de qualquer pessoa, não vá. De qualquer forma, tenha uma consciência sólida e esteja sempre pronto para ajudar, ao invés de julgar, aqueles que por qualquer motivo precisem do seu auxílio nessa época. Seja sal; seja luz.

I Coríntios 6:12 = "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine."

Romanos 14:14 = “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.”

Autor: Wésley de Sousa Câmara

Referência:
http://www.noticias.uff.br/noticias/2008/01/dst-carnaval.php
07/02/2016

3 de fev de 2016

O Deus que lhe dá um carro é o mesmo que mata criancinhas de fome


     Fico louco da vida quando alguém conta vantagem, dizendo que Deus lhe deu isso ou aquilo (de bens materiais - quem nunca viu um carro com um adesivo "foi Deus quem me deu" ou "propriedade de Jesus" ou alguém declarar que dará uma oferta grande a uma igreja por Deus ter lhe proporcionado uma promoção no emprego ou por ter conquistado uma empresa?). Lembro-me na hora de que milhões de pessoas morrem todos os meses pelo mundo DE FOME!!! Milhares de pessoas (centenas de crianças) por dia são vencidas pela carência de água e de comida. Não possuem sequer um pão embolorado pra comer e quem dera tivessem o resto de comida do seu prato que todo dia vai pro lixo... E milhares de pessoas diariamente morrendo de doenças por falta de água tratada... E vítimas de doenças infecciosas, como malária, que morrem também aos milhares todos os dias pelo mundo... Mas claro, Deus é tão caprichoso e bairrista que fica aqui no Brasil, dando carros, casas, pagando contas e resolvendo problemas particulares daquele que se gaba por "ter a crença correta, no Deus correto...".
     Talvez você diga: "Deus honra minha fé". Ah, claro... E quando essa fé parece falhar, você dá um jeito de contornar a situação, soltando um "Deus está no controle e sabe o que faz". É fácil dizer isso quando pelo menos suas necessidades básicas estão supridas. É fácil dizer isso quando, mesmo que não tenha como comprar comida, alguém próximo a você o ajudará, impedindo que morra de fome. Mas duvido manter essa ideia quando se está em um país de miséria absoluta, esquecido por todos, em que os únicos que estão próximos a você e que poderiam lhe ajudar estão com o estômago ainda mais vazio que o seu.
     Mas um Deus que supostamente fica distribuindo presentinhos e beneficiando os que tiveram a sorte de ter nascido em um país cristão e com uma qualidade de vida razoável diante de tanta miséria no mundo? É um sádico! Um Deus sem nenhuma ética, logo, só por isso já seria bem suspeito e motivo suficiente para você questionar se esse conceito maldoso que tem de Deus é válido ou, pelo menos, se é amoroso e frutífero.
     Quer casa, carro, bom emprego? Ótimo. Lute, se qualifique, trabalhe. Mas sem essa de "Deus me deu", pois ao assumir que Deus é responsável pela "fartura" que recebe, está atestando que Ele também é o responsável pelas mazelas que torturam milhões pelo mundo. Assuma suas responsabilidades que geram o bem ou o mal e pare de terceirizá-las a Deus. Seja honesto e tenha um mínimo de coerência.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
03/02/2016

30 de jan de 2016

Ritmos musicais que nos fazem "sentir Deus"


     Quem nunca ouviu alguém defender a ideia de que uma mesma música pode agradar a Deus (ou servir para adorá-lo) ou desagradá-lo, dependendo do ritmo que é cantada ou tocada? O argumento é que alguns ritmos "de Deus" (calmos) nos fazem chorar, atraem a presença de Deus e sobem aos céus como aroma suave, enquanto um ritmo associado ao "mundanismo" (leia-se rock, funk, mpb, bossa nova, hip hop...) é ignorado ou condenado por Deus e a evidência é que as pessoas no máximo mexem o corpo, mas a alma continua a mesma. Talvez uma olhada superficial nesse tipo de argumento, para o público leigo, possa parecer coerente, mas é algo totalmente equivocado. Repare que essa explicação compara diferentes ritmos, apelando para a emoção sentida pela plateia (membros da "igreja"). Já tive a oportunidade de realizar um trabalho sobre musicoterapia no primeiro período da faculdade de Medicina, quando estava em Ouro Preto, que foi motivado por eu ser músico desde os 8 anos de idade. O que concluí (e que não é nenhuma novidade - sabemos disso há séculos) e que depois pude comprovar na prática: a música tem efeitos no nosso organismo e esses efeitos variam de acordo com o nosso contexto e, principalmente, com o ritmo da música. A melodia e harmonia são importantes? Claro que sim, mas o ritmo (claro que associado aos anteriores) é quem tem o papel principal.
     A música mexe com nossas emoções e esse resultado está condicionado ao perfil de cada um, aos gostos musicais, mas via de regra, se você está estressado, cansado, basta ouvir músicas consideradas relaxantes. Essas músicas serão lentas, com uso de instrumentos de sons mais suaves (flauta, violino, Cello...). Você ficará calmo, relaxado e até pegará no sono depois de um tempo; se você deseja uma música que traga uma sensação de romantismo para um jantar coma pessoa amada, um saxofone tocando uma música mais calma, com um timbre mais "leve", terá esse efeito; se está desanimado e quer uma força extra para realizar as atividades do dia a dia, não colocará essas músicas relaxantes e sim, algo com um ritmo mais acelerado, com batidas mais acentuadas. E aí não faltarão opções musicais, dependendo de seu gosto; se vai estudar ou se deseja melhorar a concentração enquanto lê um livro, pode colocar, em volume baixo, algumas músicas clássicas, instrumentais...
     Mas fico até constrangido ao ver esses argumentos infundados que citei lá no início, como se aquelas músicas que lhe deixa "sensível", que toca suas emoções, diminuindo seu limiar de choro, deixando-o mais emotivo, fosse sinônimo de "ligação do homem com Deus". O problema todo é essa espiritualidade cristã rasa (e predominante atualmente), em que as pessoas confundem "emoção" com "agir de Deus" ou com "o Espírito de Deus falando". As pessoas vão a um culto ao domingo, por exemplo, e lá, durante uma música calma, um começa a chorar aqui, outro ali e pelo ambiente estar propício (um sugestionamento mental facilmente explicável psicologicamente, mas que para a maioria que desconhece é sinal de "sobrenaturalidade" - lembrando que há alguns séculos até um raio que caía era interpretado como a fúria divina), logo o culto é interrompido diante de uma emoção (quando não vira "histeria") coletiva. E o que dizem? "Deus está aqui passeando entre nós". Mas continuando: Então o pastor começa a pregar ou uma pessoa resolve dar um testemunho de um milagre que recebeu. Em pouco tempo todos estão emocionados, chorando e talvez pulando/gritando. A emoção coletiva aflorada é vista como "Deus recebeu o testemunho/pregação e agiu na igreja toda".
     Quando a emoção é usada para validar essa suposta ação divina, geramos todo tipo de confusão. As pessoas deveriam ser menos antropocêntricas, diferenciando a "emoção" da "razão". Sem essa de "sentir Deus", pois seu sentir tem a ver com seu estado psicológico e não, com Deus. Sua fé deveria ser assim: "Se Deus está comigo, se o Espírito dEle habita em mim, eu sentindo ou não, estou pacificado pois Ele está comigo". Do contrário, quando se sentir triste, sozinho, achará que está abandonado por Ele, vai facilitar o surgimento de uma depressão e sua "fé" terá sido um gatilho para uma doença. Poxa, não é a bíblia que você lê nos cultos? Então deveria entender que o "sentir" (as emoções humanas) não deveria ser o que valida a presença ou ausência divina, pois o profeta (que você tanto cita) disse: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas" (Jeremias 17).
     Mas voltando ao assunto inicial:
     Uma mesma música pode ser recebida de forma diferente pelo público, de acordo com a forma que é executada. Isso não tem a ver com Deus; tem a ver com o homem, com a capacidade daquela música naquele "estilo" gerar determinado efeito no cérebro humano. Quando você liga em algum lugar em que terá que ficar longo tempo na espera, ouvirá propagandas ou uma música calma, relaxante. Nenhuma empresa colocará um rock pesado, pois esse ritmo não é relaxante e o deixará mais estressado para falar com o atendente. O mesmo vale para a espera em um consultório médico. Lá você ouvirá uma orquestra sinfônica, Beethoven, Mozart, Kenny G e não, algum Mc (cantor de funk) ou um rock de Black Sabbath.
     Fico pensando: se a questão é ficar emotivo, relaxado, tendo predisposição para fechar os olhos e imaginar com calma sua conexão com Deus durante a música, como ficam as músicas tradicionais de igrejas pentecostais, que são muito baseadas em marchas (quem nunca ouviu uma banda tocando o tradicional "Os guerreiros se preparam para a grande luta"?). Então também não são músicas de "adoração" (nome que você usa para "emoção"), nesse seu raciocínio, certo? E quem nunca viu a famosa música Adagio in C minor, de Yanni, como fundo de alguma mensagem em um culto? A música nem cristã é, mas ela é um exemplo típico de arranjo que toca as emoções do ouvinte, tornando-o mais receptivo e sugestionado ao que será falado. A mensagem do "pregador" pode ser até ruim, mas se tiver o Yanni de fundo, difícil é não chorar e depois interpretar o choro como ação do Espírito. Não é a toa que tantos animadores de púlpitos a usam. E os forrós usados para começar um "reteté"? Ah, mas aí você diz que pode...
     Enquanto essa espiritualidade baseada em emoção existir e enquanto as pessoas acharem que adoração é cantar musiquinhas com as mãos pro alto aos domingos (em vez de ser uma vida de gratidão e de busca incessante de ser como Jesus), teremos essas visões deturpadas e infantis.

Autor: Wésley de Sousa Câmara 
30/01/2016

28 de jan de 2016

5º passo: Pecado (estudo completo)


     Um dos pilares da fé cristã é o conceito de “Pecado”. Quando ele fica bem compreendido, bem como outros temas já discutidos aqui (como Lei, Evangelho e Salvação), qualquer assunto do dia a dia pode ser compreendido com maior profundidade e assim, pode-se concluir se é conveniente aceitá-lo ou rejeitá-lo. 
     A primeira coisa que precisamos é relembrar o que já discutimos anteriormente, dentro  da abordagem que propus: “Lei de Deus” não é sinônimo de 10 mandamentos, nem de pouco mais de seiscentos preceitos judaicos; não é sinônimo de “lei de Moisés”. Lei de Deus é o que Jesus revelou como sendo Lei, ou seja, é amor perfeito a Deus e ao próximo. Como ninguém de nós ama perfeitamente, todos transgredimos a Lei (por isso somos pecadores, ou seja, essa transgressão evidencia nosso pecado e como o salário do pecado é a morte, é essa condenação que todos teríamos de enfrentar). É nesse contexto que chega o “Evangelho”, que é o anúncio (a boa notícia) de salvação. É a revelação que Deus estava em Cristo nos reconciliando com a divindade. Essa é a conclusão que chegamos em um estudo anterior – se não entendeu, clique aqui para lê-lo.
     Em seguida detalhei o conceito de “salvação”, que não é sinônimo de “ir para o céu” ou de “escapar do inferno”. Salvação seria um termo complexo para falar de um evento passado (nossa reconciliação com Deus em Jesus), um evento presente (nossa transformação contínua à imagem de Jesus, ou seja, nossa constante “metanoia”/arrependimento, expansão de consciência e mudança de mentalidade) e um evento futuro, quando um dia seremos plenamente transformados, consumando esse processo de salvação, que seria algo divino dado ao ser humano por Graça (favor imerecido). Jesus é o representante de toda a humanidade, tendo reconciliado toda ela com Deus (e esse aspecto passado chamamos de “polo objetivo da salvação”), independentemente de nossa fé, crença, arrependimento ou ideia. Crendo ou não, vivendo ou não em conformidade com os ensinos de Jesus, estamos todos objetivamente salvos. E rejeito o rótulo raso de “universalista” pelo segundo aspecto da salvação (o “polo subjetivo”), que depende de nossa fé e de nosso arrependimento, que gerarão uma transformação em nosso ser. Logo, embora todos sejam objetivamente salvos, nem todos são subjetivamente salvos e esses últimos são os chamados “condenados ao inferno”, conceito que lá também foi bem discutido. Logo, não importa o que eu faça ou pense, minha salvação de fato já foi decretada em Jesus. Não mudo o que foi feito, pois está consumado. Sendo eu um cristão, um muçulmano, um ateu ou um satanista, estou objetivamente salvo (embora eu possa não estar vivendo de forma alinhada a essa reconciliação que recebi por Graça – ou seja, eu posso estar vivendo uma condenação subjetiva). Se não entendeu o assunto, clique aqui para ler o estudo completo, pois parto já do ponto que o pecado não é algo que interfere na nossa salvação propriamente dita (no máximo, interfere em nossa percepção dela - polo subjetivo da salvação).
     Então continuando desse ponto...

     Segundo a orientação teológica que aqui defendo (se não está lembrado, clique aqui e leia o estudo completo) e conforme o parâmetro ético/interpretativo que proponho dentro desta orientação (se não se lembra, clique aqui e leia o estudo), como chegaremos a uma conclusão sobre o tema “pecado”? Obviamente olhando para o único parâmetro que absolutizamos, a saber, Jesus Cristo. Porém primeiramente, precisamos entender que “pecado” é, assim como a “salvação”, um conceito complexo, subjetivo. Não é algo simples, mas tentarei ser didático:
     “Pecado” é um termo derivado de palavras com diferentes significados, no latim, no hebraico e no grego, que é o mais conhecido e adotado, sendo referência à palavra “Hamartia” (“errar o alvo”). Então, pecado é errar o alvo e para sabermos que alvo é esse temos que olhar para Jesus. Não é uma tarefa simples, pois devemos olhar para toda a vida de Jesus, para Seus ensinos e atitudes, a fim de encontrar o que Ele tinha como alvo e o que Ele considerava “errar essa vontade divina para o homem”. Como vimos em outro estudo, a Lei divina é a Vontade divina para o ser humano, ou seja, o que Deus deseja que o homem seja, viva e faça.  

“Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” (Mateus 22:36-40)

     Em outras palavras, a vontade de Deus (o alvo) é, em essência, amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo (a Lei divina). E não foi exatamente que Jesus fez? Amou tanto a Deus, que encarnou Seu ideal, tendo plena gratidão, reverência, comunhão e adoração a Deus, a ponto de viver em função do próximo. E isso fez com que dedicasse Sua vida ao serviço e cuidado dos seres humanos. Ele enfrentou os opressores para defender os oprimidos, defendeu o respeito e a empatia até o fim. Para Ele, a vida era o centro de tudo. Isso é amor: não apenas um sentimento, mas uma atitude que influencie positivamente a vida do outro. 
     Com isso em mente, o que é então o tal “pecado”, ou seja, o que significa “errar o alvo”? É simplesmente não amar perfeitamente, não amar como deveríamos (a Deus e ao próximo). E é aqui que muitos fazem confusão, pois pensam no amor como uma mera ação, como sendo apenas fazer o bem. Mas o problema é muito mais profundo, pois o amor é objetivo (refletido em ações), mas também é subjetivo (nosso desejo e disposição em praticar essas ações). Portanto, amar inclui fazer o bem, mas também desejar fazer o bem e é aqui que ninguém de nós escapa, mesmo que um utópico ser humano eventualmente só pratique ações de amor. 

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.” (Mateus 5:21,22)

"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.” (Mateus 5:27,28)

     O que percebemos nesses dois textos? Que cometer um ato imoral não é o "Pecado" em si. O Pecado é a capacidade que o ser humano tem de cometer um "ato imoral". Jesus não parece focar na PRÁTICA para definir o Pecado e sim, em algo que precede a motivação do coração; para Ele, Pecado é a essência do ser humano. No relato de Mateus observamos que o que faz uma pessoa adúltera não é o fato dela PRATICAR o ato de ter um relacionamento ilícito e sim, que o desejo no coração dela já é uma evidência de que ela é adúltera. Perceba que Pecado precede até mesmo o desejo da pessoa, pois esse desejo já é consequência/reflexo do Pecado que está na pessoa. O mesmo vale para o assassinato, pois para Jesus, o que faz alguém assassino não é o ato de tirar concretamente a vida de alguém e sim, algo que precede isso, pois até a ofensa e o desprezo já são assassinatos. Em I João 3 vemos algo semelhante, quando é dito que não precisa matar para ser assassino, pois quem odeia JÁ É (e não, "se torna") assassino. 
     Isso deixa mais do que claro que o Pecado não é algo que se pratica e sim, que é a ESSÊNCIA de TODO ser humano. Como diz a velha e ótima expressão: "Pecado não é o que faço; pecado é o que sou". O que faço é apenas consequência do que sou. E ainda: "Não sou pecador porque eu peco; eu peco por ser pecador". O Pecado é como uma doença que me afeta, e o que pratico (e que acabamos chamando de “pecados”) é apenas sintoma dessa doença. Pense comigo: Uma figueira produz laranjas? Não! Ela produz figos, que são frutos conforme a sua espécie. A mesma coisa é o homem. Se ele comete “pecados" (imoralidades) é pelo fato dele ser já um pecador (e não, que ele se torna um pecador AO PECAR).
     Então, para padronizar e para ficar mais didático o restante do texto, quando eu estiver me referindo a essa essência humana, falarei em Pecado (primeira letra maiúscula, sem aspas); quando eu estiver falando de imoralidades que acabamos também chamando no dia a dia de pecados, direi “pecado (s)” (minúsculo e entre aspas). 
     Precisamos entender bem isso tudo, então repito, com outras palavras: quando falamos em Pecado, estamos nos referindo a um termo complexo, que tem duas dimensões ou aspectos. Primeiramente ele se refere a essa orientação interior do homem. É aquela tendência de “afastamento natural do ideal divino” que todos temos em nossa natureza. Esse é o verdadeiro Pecado e não, a prática de certos atos imorais. O Pecado precede o ato e até mesmo o desejo de praticar o ato. O Pecado é a nossa inclinação, a nossa incapacidade de sempre agir perfeitamente em conformidade ao amor pleno ensinado por Jesus. A segunda dimensão do pecado é o que é considerado prática imoral e/ou anti-ética. Ou seja, apesar de todos sermos pecadores, de todos estarmos sujeitos ao Pecado, podemos sim praticar ações louváveis ou deploráveis, ou seja, atos bons ou atos imorais,sendo que estes chamamos de “pecados”. Mas vamos com calma, pois podemos aprofundar mais. 
     Essa compreensão (de que Pecado é a essência de todo ser humano) leva a muitas conclusões, das quais destaco e explico algumas delas:

A – Não existe nenhum ser humano que não seja pecador, não importando se falamos de um ser humano perverso e incrédulo ou de um ser que é convertido ao cristianismo e que preza pela moral.
     Em Romanos 3 Paulo defende que não há um justo sequer no mundo, que todos são pecadores, que não há ninguém que faça o bem ou que busque a Deus (com perfeição, na essência). Como já dito, se temos a capacidade de cometer um ato imoral se assim decidirmos, é evidência de que somos pecadores. Um limoeiro, “mesmo se quisesse”, não poderia produzir uma melancia, pois não é de sua natureza, de sua essência produzir esse tipo de fruto. Já eu, tenho a capacidade de matar, de roubar, de praticar qualquer imoralidade, pois meu interior tem essa inclinação, essa capacidade. Obviamente não me entrego a essa minha capacidade, ao contrário, reconheço que não é louvável e “luto contra ela”. Mas minha essência pecaminosa continua lá. 
     Aqui entra a famosa expressão latina “Simul justus et peccator” (que traduzida é “ao mesmo tempo, justo e pecador”), que tornou-se muito conhecida no meio teológico devido a Martinho Lutero e claramente tem uma inspiração na “omnis homo Adam, omnis homo Christus”, de Santo Agostinho, em que há uma série de interpretações, sendo que uma delas é que “todo homem é imagem de Adão (com uma natureza identificada com ele, com uma tendência à rejeição divina, com sua inclinação pecaminosa) e todo homem é imagem de Cristo (pois na Cruz recebemos essa condição de sermos identificados com Ele), sendo a salvação esse processo de transformação do homem, tirando-o do estado de ‘imagem de Adão’ e colocando-o no estado de ‘imagem de Cristo’.” Ou seja, na conversão passamos a ser cada vez menos identificados com Adão e cada vez mais identificados com Cristo, sendo que essa transformação um dia será plena (II Coríntios 3:18; Romanos 8).
     Essa frase resume a justificação na teologia luterana e a considero esplêndida para resumir a nossa condição perante Deus e perante o mundo. Porém ela não é tão simples, já que o sentido dela depende muito do contexto em que é aplicada. Lutero a usou com diferentes significados e atualmente se interpreta essa questão também de forma diversa. Tentando ser simples, mas não, simplista:
     Primeiramente precisamos diferenciar “justificação” de “santificação”. Cada uma delas aparece em um sentido. A justificação é mais ampla e tem dois aspectos: um chamado “forense” (total) e um chamado “efetivo” (parcial). Essa segunda também pode ser entendida como “santificação” ou “regeneração”, que são termos que cada linha teológica interpreta de uma forma, mas que aqui podemos usar como sinônimos. Como assim? Em termos de justificação (quando não for usado um complemento a essa palavra, entenda como sendo essa justificação forense/ total) em Cristo há duas possibilidades: ou somos totalmente justos ou somos totalmente pecadores. Uma coisa exclui a outra, afinal defendo que o sacrifício de Cristo é eficaz e que justifica completamente o ser.
     Sendo assim, se eu sou justificado em Cristo, quando Deus olha pra mim, não verá um pecador; verá alguém 100 % justo, pois a justiça de Jesus é contada em meu favor. Ou seja: estou coberto pela Graça de Deus. Caso, ao invés da Graça, sobre mim estivesse derramada a Ira divina, eu seria contado com um “pecador”. Repare que eu não disse que sou completamente justo e nada pecador; eu disse que Deus me considera justo (e não, pecador) por causa de Cristo. Ele imputa a justiça de Jesus sobre mim, sem que eu mereça. Ou seja, Ele lida comigo não com base no que sou e sim, com base no que Cristo foi, visto que a vida toda (e morte) de Jesus foi em meu lugar (de forma vicária) – Romanos 5.
     A santificação (que pode ser entendida como um outro tipo de justificação – uma “justificação efetiva”), ao contrário da justificação forense, ou simplesmente da justificação (que é algo relacionado a como Deus me vê), está relacionada a como eu realmente sou. Como já disse, também pode ser entendida como “regeneração” (não discutirei as diferentes interpretações disso), ou pelo menos como algo intimamente ligada a ela. Então quando usamos a expressão “Simul justus et peccator” no contexto da santificação, dizemos que tem um sentido “efetivo” (parcial). Explico: somos parcialmente justos (justiça efetiva) e parcialmente pecadores. Aqui uma coisa não anula a outra, ao contrário, por mais santo que alguém seja, continua sendo um pecador. A santificação é um processo contínuo em nossa vida, em que passamos a sair da semelhança de Adão e passamos a nos aproximar da semelhança de Cristo; isso nunca será pleno neste mundo, pois ser imagem perfeita de Jesus é não errar, não pecar, ser perfeito como Ele foi homem perfeito. Essa transformação é permanente, o que não significa que seja “linearmente ascendente” (em nossa caminhada cristã temos altos e baixos, caímos e levantamos, mas vamos prosseguindo, pacificados, sem culpa ou medo, crendo nas promessas de Deus e sabendo que Ele nos ama como somos, pois Ele nos aceita com base no que Cristo é).
     A santificação pode ser entendida como a “remoção do pecado de mim”, algo que começa nesse mundo, mas que só será consumado quando eu for transformado em um corpo imortal e incorruptível. Por isso somos instruídos a “lutar contra o pecado”. Ele habita em nós, está enraizado em nossa carne, mas essa luta é a justiça presente (ainda parcialmente, como um vulto) em nós. E por isso vivemos em uma constante tensão entre carne x espírito (entre pecado x justiça; entre velho x novo homem; entre natureza de Adão x natureza de Cristo...), como Paulo deixou claro falando aos romanos (explico mais sobre isso no item “D”).
     Resumindo (e se você achou complicado essa questão de justificação e de santificação, não se preocupe, basta que entenda o que direi agora): é pelo fato de Deus imputar sobre mim a justiça de Cristo que, pela ação do Espírito Santo que habita em meu ser, serei transformado e frutos dEle (Gálatas 5) surgirão naturalmente em minha vida. Não tenho méritos em nenhum desses dois aspectos da justificação e não é pelo meu esforço que aparecerão frutos. Fruto genuíno só nasce quando abro mão de mim mesmo e descanso na Cruz, alimentando-me exclusivamente dessa “seiva divina”. Não há auto-justificação ou auto-santificação. Isso seria apenas religiosidade com aparência de piedade, mas que não tem poder algum contra a carne (Colossenses 2). Tudo de bom em nós é dádiva de Deus; é Graça!

“Uma coisa é a remissão de todos os pecados e outra é sua completa eliminação.” (Martinho Lutero)


B – Não existe “pecadinho e pecadão”, ou seja, não há diferenciação de “pecados”.
     Quando entendemos que Pecado é a essência de todo homem e o que cada um pratica é apenas reflexo ou sintoma dessa “doença” interior, perde o sentido querer fazer diferenciação de pecados perante Deus. Seria como você avaliar a gravidade da tuberculose de uma pessoa a partir da manifestação de sua tosse. Não! A tose é apenas um sinal visível da doença que está lá dentro, no caso, no pulmão. Ela é que é o verdadeiro problema. O fato de alguém tossir menos que outra pessoa não significa que seu pulmão está menos acometido ou que a tuberculose dele é “fraquinha”. Da mesma forma, não posso achar que alguém por roubar, mas não matar é menos pecador do que o que pratica latrocínio (roubo seguido de morte). Todos tem a mesma doença (Pecado), embora nem todos manifestem essa doença com os mesmos sintomas. Entende?
     Se diante da perfeição divina todos somos pecadores, não faz diferença para Ele o “pecado” que eu pratico. Em I Timóteo 1:15 lemos: "Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou (e não, “eu era”) o pior". Ora, quer dizer que o autor aí se coloca como pior que grandes tiranos, assassinos, bandidos da pior espécie? De certa forma, sim,  pois ele entendeu que pecado não é algo baseado nos méritos humanos, nos delitos cometidos e sim, em algo que está no profundo do nosso ser. Não é algo que fazermos, é algo que somos. Para Deus todos somos pecadores (e o salário do pecado, esse problema ontológico, de nossa natureza, é a morte).
      Ninguém chega diante de Deus e ouve dEle: "Meu filho, você pecou pouco e seus pecados foram leves, então está perdoado"... ou: "Meu filho, você cometeu um pecadão, foram pecados graves, então está condenado"... Jesus nos justificou perante Deus, apesar do nosso pecado (do que somos), que nos condena. 
     Alguns gostam de citar que há sim diferenciação de pecados, pois Jesus teria dito, conforme registrado em João 19:11

“Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem.”

     Quando se fala em "maior pecado tem", como nesse exemplo de Jesus dizendo que maior pecado era daquele que o entregou para julgamento, é no sentido experiencial, existencial (pois ontológico, de natureza pecaminosa, o Pecado é o que somos e não, o que praticamos ou o que “temos”/ ”adquirimos” e, portanto, somos todos iguais). Quem O entregou era alguém que, na visão do autor, conhecia a revelação na escritura, sabia que Jesus era o Filho de Deus e mesmo assim, por tremenda "maldade" e vários outros interesses, o entregou à morte. É como comparar um famoso líder religioso que comete aberrações em "nome de Deus" e ensina os fiéis a agirem assim (como exemplo, tentando barganhar bênçãos com Deus). Quem está "errando o alvo" da Palavra de Deus (pecando)? Todos eles. Mas quem está "errando mais" (cometendo pior “pecado” ou “imoralidade”)? O líder, pois ele é enganador e os outros talvez sejam meros enganados, ignorantes... 
     Vale ainda destacar um ponto pouco conhecido dos cristãos e ignorado (para não dizer rejeitado) pela ala excessivamente conservadora, que é a ordem de escrita dos quatro evangelhos canônicos: Marcos, Mateus, Lucas e, por último, João. Sabemos pela história que entre os cristãos primitivos era progressivamente maior o antissemitismo, ou seja, conforme o tempo passava, a partir das primeiras décadas após a crucificação, mais forte era a ideia de que os judeus foram os responsáveis pela morte de Jesus e essa “intolerância”/”raiva” foi aumentando progressivamente com o tempo. Isso é nítido quando lemos os quatro Evangelhos com atenção e Barth D. Ehrman (um dos maiores, senão o maior, especialistas mundiais em Novo Testamento) explica essa questão (no livro “Quem escreveu a Bíblia”):

“O mais antigo evangelho, de Marcos, parece sugerir que a decisão de matar Jesus é partilhada pelos líderes judeus e pelo governador romano Pilatos (embora mesmo nele a ação de Pilatos pareça forçada). Quando chegamos ao Evangelho de Lucas, escrito depois, Pilatos, de fato, declara Jesus inocente três vezes — de modo que a culpa por sua morte recai sobre os líderes judeus que a exigem. O Evangelho de Mateus, escrito quase ao mesmo tempo que o de Lucas, coloca Pilatos lavando as mãos para declarar ser inocente de derramar o sangue de Jesus. De forma um tanto infame, o povo judeu (isso acontece apenas em Mateus) grita: ‘Que caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos.’ (27,25) Em outras palavras, para Mateus, o povo judeu está disposto a aceitar a responsabilidade e as consequências da morte de Jesus e repassá-la a seus descendentes. Esse versículo, claro, foi usado para atos horrendos de antissemitismo cristão durante a Idade Média e ainda hoje. O Evangelho de João, último dos evangelhos canônicos, dá um passo além. Nele nos é dito que o povo judeu rejeitou Jesus como seu rei e declarou ‘Não temos outro rei senão César!’ (embora o próprio Deus fosse o rei de seu povo). E então João diz que Pilatos ‘entregou-o para que fosse crucificado’ (19,16). Nessa distorção da realidade histórica, são os próprios judeus que, na verdade, matam Jesus. E assim, com o passar do tempo, na tradição cristã, Pilatos se torna cada vez mais inocente da morte de Jesus, e o povo judeu e seus líderes, cada vez mais culpados.” 

     Porque fiz essa citação? Pois considero mais um ponto a ser considerado para entender essa questão. João é o evangelho mais recente dos quatro que estão na bíblia e nele temos a visão mais anti-judaica deles, ou seja, é compreensível que seu autor tenha colocado essa observação, destacando a culpa dos judeus, afirmando que esse “pecado” de exigirem a morte de Jesus é um ainda mais grave. 
     Porém o assunto não termina aí, pois alguns citam I João 5:16, alegando que há um “pecado” que é “para a morte”, ou seja, é diferente e pior que os demais: 

“Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus lhe dará vida. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há um pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este.” 

     E este famoso “pecado de/para morte” (“pecado mortal”) gera muita discordância no meio cristão, já que cada um interpreta de uma forma o que seria esse “pecado”. Há quem diga tolamente que se refere ao adultério (alegação sem nenhum fundamento, absurda ao extremo e que não merece nem comentário); alguns dizem que é uma referência à famosa “blasfêmia contra o Espírito Santo”, sendo que discordo, mas falo sobre esse tema em outro texto (clique aqui para lê-lo). Há quem defenda que é a apostasia; outros dizem que os “pecados” são todos diferentes, sendo que alguns são para a morte e outros, não. Porém isso não tem base no texto citado, pois o autor dessa carta (que a maioria dos mais respeitados especialistas do mundo em manuscritos concordam que não é o apóstolo João, mas não vem ao caso agora) não parece se referir a alguns “pecados” e sim, a um “pecado” em especial. Não temos como saber o que ele queria dizer, mas ele e seu possível público certamente sabiam exatamente a que se referia. 
     O que penso ser mais adequado pensar sobre isso, após todas essa observações? Que “pecado de/para morte” é tudo (não importa que “pecado” seja) que gera morte de consciência no indivíduo. É aquele ato imoral que é cometido com tanta naturalidade que passa a fazer parte da vida, do cotidiano da pessoa. Ela faz com tanta naturalidade que nem se dá conta que aquilo é errado. Por exemplo, aquela pessoa que se acostumou tanto a mentir, que quase tudo o que diz é mentira ou pelo menos um exagero/distorção dos fatos. Quem não conhece ninguém assim? Então "pecado de morte" pode ser qualquer "pecado", não sendo algo específico e sim,algo que gera essa morte de consciência.


C – Pecado não pode ser o parâmetro usado para definir salvação ou condenação de alguém.
     Pegando um “gancho”no que discuti no item “B”, claro que ninguém se justifica perante Deus por ter "menor pecado". Todos nós só podemos ser justificados pelo que Jesus fez em nosso lugar. Ou seja: o "tamanho do pecado" tem sentido apenas quando falamos nessa questão de experiência, de existência, mas nosso “destino eterno” não é definido essencialmente por ela e sim, pelo que Cristo fez. Do contrário, seria salvação por obras, por méritos... Seria negação da Graça e a defesa de uma auto-justificação. O juízo de Deus, a iluminação de consciência a que seremos submetidos leva em consideração essa nossa existência, mas achar que é ela quem decide nossa salvação/condenação futura me soa como uma teologia praticamente não cristã. Totalmente baseada nos méritos humanos.
     Porém alguns devem estar pensando em Romanos 6:23, em que Paulo diz: "O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna por intermédio de Cristo Jesus, nosso Senhor!". Quem leu com atenção o estudo anterior, sobre Salvação, provavelmente se lembrará do que lá disse e que aqui repito: “O salário do pecado é a morte” não porque é Deus quem aplica essa pena e sim, porque é uma consequência natural do Pecado, desse afastamento do homem em relação a Deus. Se Deus é a fonte da vida, o afastamento dele (Pecado) só pode levar à morte. Então é o homem que “se mata”. Deus faz tudo convergir em Cristo (Efésios 1:10), inclusive a consequência do Pecado. Por isso, contra quem está nEle (e todos estamos, nos restando apenas tomar posse existencialmente dessa realidade pela fé) não há nenhuma condenação (Romanos 8:1). Se todos somos igualmente pecadores, todos mereceríamos a morte, certo? Sim, e essa é a Lei. Mas é nesse contexto que chega a boa nova, o evangelho, dizendo que Deus nos dá a vida eterna, apesar do que somos, por um ato de Graça.

D – Tudo o que fazemos, de bom ou de ruim, continua sendo fruto do Pecado ou, em outras palavras, podemos dizer que todo ser humano está, o tempo todo, “em Pecado”. 
     Essa afirmação soa herética e escandalosa para muitos cristãos, pois embora seja óbvia quando entendemos o conceito de Pecado, no meio cristão esse tema raramente é tratado com profundidade. É simples entender: o que não é Pecado? É acertar o alvo, certo? E qual é o alvo? É uma relação de amor perfeito com Deus e com o próximo. Algum ser humano alcança esse estágio de perfeição? Não! Nem antes, nem depois de “convertido”. Se temos a capacidade de fazer o mal ou se, em algum momento, temos que realizar algum esforço para fazer o bem, é uma evidência de que até o último dia de nossas vidas permanecemos lutando contra algo que está dentro de nós. É exatamente essa luta constante que Paulo cita em Romanos 7 (repare que ele está falando de seu presente e não, de como era sua vida antes de se converter ao cristianismo): 

“Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. E, se faço o que não desejo, admito que a lei é boa. Neste caso, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros.” (Romanos 7:15-23)

     Como somos todos pecadores, podemos extrapolar Isaías 64 para nosso contexto e afirmarmos: “Até nossas boas obras são trapos de imundície”. Estamos falando da imperfeição humana diante da perfeição divina e essa distância é justamente o que chamamos de Pecado. Sendo assim, quando matamos, estamos em pecado, mas estamos igualmente em pecado quando alimentamos o faminto, quando vamos ao “culto” no domingo a noite para participar da eucaristia/Santa Ceia. Exatamente! E não precisa se escandalizar. É óbvio!
     Mas não confunda: não disse que tanto faz você alimentar um faminto ou matar alguém. Nada disso! Para Deus, ambas as coisas são obras de um ser imperfeito, limitado, pecador. Mas a primeira ação é um ideal divino (já que tomamos como premissa a revelação divina em Jesus), é amor ao próximo; já a segunda é falta de amor, é entrega à maldade, é falta de empatia. Claro que fazendo o bem você continua longe do ideal divino para a vida humana, mas fará parte da luta diária para ser o melhor que pode e essa também é a vontade divina. Você deve buscar o bem não na ilusão de que receberá o perdão divino ou a salvação em troca, mas por consciência, por gratidão por ter sido perdoado. Se você se entregar à maldade, a uma vida de mentira, de traição, não estará perdendo sua salvação, mas estará perdendo sua vida, desperdiçando sua existência com algo ruim, que degrada seu corpo e sua mente. 
    Infelizmente boa parte dos cristãos brasileiros tem afeição pela teologia “semi-pelagiana”, que, de forma grosseira, afirma que nossas ações determinam nossa salvação, sendo que nosso último ato acaba determinando nosso destino eterno (céu ou inferno). Uma pessoa que crê nisso vive em uma gangorra de salvação: “sou um pecador condenado – aceitei a Jesus – ganhei a salvação – pequei – perdi a salvação – me arrependi e pedi perdão – recuperei minha salvação – pequei novamente – perdi a salvação – morri – fui condenado ao inferno, já que no fim da vida eu pequei”. Percebe como é doentia essa mentalidade? Mas muitos a seguem e vivem ansiosos, preocupados, com medo, culpados, pois podem morrer a qualquer momento (ou Jesus retornar) e ela deve estar nesse instante com uma vida reta diante de Deus. Quem nunca ouviu: "Fulano era uma pessoa má, incrédulo, mas segundos antes de morrer ouviu a Palavra e deu um sinal de que aceitaria Jesus, então deve ter sido salvo". É uma ansiedade que essa teologia provoca, um medo, uma necessidade de encontrar um sinal no último minuto de vida que dê paz aos familiares de que aquela pessoa foi perdoada e acolhida por Deus...

     Não sei se reparou, mas deixei propositalmente de citar um texto bíblico que quase todos usam como ponto de partida quando falam sobre Pecado, que é I João 3:4:

“Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.”

     Ora, se você fez o que recomendei no início, que é ler o estudo completo que disponibilizei sobre “Lei e Evangelho”, se lembrará que a Lei de Deus é sinônimo de “Ideal ou Vontade de Deus” para o homem, sendo que Jesus sintetizou a essência dessa Lei, que é “amor perfeito a Deus e ao próximo”. Ou seja, nenhum homem cumpre a Lei e se a transgredimos, se não somos o que deveríamos ser, somos todos pecadores. Entende porque é dito que a Lei avulta (evidencia) o Pecado? (Romanos 5:20). Ao não conseguirmos cumpri-la, vemos que estamos aquém da vontade divina e essa distância entre o que somos e o que deveríamos ser é o que é chamado de Pecado. Viu como tendo entendido tudo isso, esse versículo fica óbvio? 
     Quando um cristão compreende toda essa questão, entende que todos são igualmente pecadores carentes da graça divina. O assassino, o estuprador, o pedófilo, a criança pura, o pastor, o papa, o monge, o indivíduo que ganhou o prêmio Nobel da Paz, o homem bomba, o muçulmano, o ateu, o cristão, o hétero e o homossexual... Todos são igualmente pecadores. Entre Deus e cada uma dessas pessoas, a distância é a mesma. A diferença entre cada pessoa é apenas que algumas se entregam existencialmente ao bem e outras, ao mal. Algumas lutam contra essa tendência interior e outros se entregam a ela. Porém nem o mais "santo" e puro dos homens é menos pecador que o mais perverso ser humano. Então porque julga o seu próximo por ter “pecados” diferentes dos seus, se diante de Deus todos somos exatamente iguais?


E – Antes de pecarmos, Deus já tinha nos perdoado. 
     Sei que estou sendo repetitivo, até prolixo, mas preciso enfatizar esse tema, mostrando de várias formas a mesma coisa. Claro que Deus nos perdoou antes de pecarmos, pois Pecado é o que somos e não, o que praticamos (que são meros reflexos, frutos do que somos). Na verdade Deus nos perdoou em Cristo. Nem tínhamos nascido e já estávamos perdoados, acolhidos, abraçados, salvos. Deus perdoou nosso Pecado e não, meramente nossos “pecados”. Ficou claro? É como na parábola do Filho Pródigo (Lucas 15), em que o pai (Deus) já tinha perdoado o filho (homem) muito antes dele cair em si (arrependimento) e regressar para casa. O pai nunca deixou de amar e de ter o perdão no coração para o filho. O rapaz é que estava alienado, afastado do pai pelo Pecado, mas isso era um problema apenas de percepção do filho. O perdão sempre foi dele, mas o moço só usufruiu conscientemente desse perdão quando mudou sua mentalidade e retornou. Então entenda: não é quando você toma consciência (crê) ou quando se arrepende que Deus o perdoa (por isso neste ponto discordo da teologia Arminiana clássica). Deus já o perdoou em Cristo. Está consumado. Acabou! A sua fé e seu arrependimento “apenas” alinham sua consciência a isso; “apenas” faz você tomar posse na sua subjetividade de algo que objetivamente você já tem. Quando você crê e se arrepende, você reconhece esse perdão divino e se sente perdoado. Nós somos humanos e nossa vida é composta de aspectos objetivos e subjetivos. Precisamos desses dois polos alinhados. Por isso é dito em Mateus 6 que “se perdoar, será perdoado”. Não é que Deus está de braços abertos esperando você crer, se arrepender e começar a perdoar seu próximo para que Ele perdoe você. Deus já o perdoou desde sempre, mas para você (pela ótica humana) é como se Deus estivesse lhe dando o perdão quando tomou consciência (arrependimento) de quem é (pecador), quando pediu perdão... É quando você toma posse na sua subjetividade do perdão objetivo que sempre foi seu. E quando isso acontece você começa a usufruir dos frutos dessa “mente de Cristo”, dessa transformação de consciência.
     Isso é importante e até mencionei a teologia Arminiana pelo fato de que essa sutil diferença pode determinar uma compreensão oposta sobre algumas coisas. Exemplo: morre uma pessoa de uma tribo afastada da civilização, que nunca ouve falar de Jesus. O que um arminiano diz? Que ela infelizmente foi condenada, foi para o “inferno” (não irei aqui discutir o que poderia ser o inferno, pois já comentei no estudo anterior sobre “Salvação”), já que o perdão de Deus é declarado objetivamente quando a pessoa crê e se arrepende. Essa visão que apresento, mais luterana, considera que o perdão foi declarado em Cristo, ou seja, a pessoa já estava perdoada, mesmo que não soubesse disso. Então podemos dizer que ela não usufruir em vida desse perdão, dessa reconciliação, dos frutos que essa consciência poderia gerar, mas não podemos de forma alguma dizer que ela foi “condenada” e que passará a eternidade no inferno. Percebe como gera uma conclusão quase oposta?
     Não, não estou inventando nada disso. Essa visão tem muitos séculos. Repare nesses discursos de cerca de 500 anos atrás:

- Em “Catecismo Maior” de Martinho Lutero (livro de Concórdia) está registrado: "Há grande necessidade de recorrer a Deus e orar: 'Querido Pai, perdoe as nossas dívidas.' Não que Ele não perdoa pecados sem ou antes de nossa oração; pois antes de orar ou pensar em fazer isso Ele nos deu o evangelho, em que não há nada além de perdão. Mas o ponto aqui é para reconhecermos e aceitarmos esse perdão."

- Em Obras de Lutero, Vol. 40, encontramos: “Mesmo aquele que não acredita que seus pecados são perdoados gratuitamente também deve aprender como seguramente seus pecados foram perdoados, independentemente de acreditar. São Paulo diz em Romanos 3:3:’Sua falta de fé não anulará a fidelidade de Deus.’ (...) Muitos não creem no evangelho, mas isso não significa que o evangelho não é verdadeiro ou eficaz. Um rei dá a você um castelo. Se você não aceitá-lo, então não é culpa do rei. A culpa é sua. O rei certamente deu.”


F - Então vamos cair na gandaia, pois não importa o que fazemos, tanto faz?
     Estou dizendo que, já que somos todos pecadores, vamos “cair na gandaia”, pois, por melhor que tentemos ser, não mudaremos isso? Não! Estou dizendo que como somos contados como justos por Deus, faremos o mal por opção? Nada disso! O que foi dito é uma constatação de uma “realidade” (pela ótica cristã) e não, um estímulo para deixar de buscar o que é bom, o que edifica, o que convém (isso é claro nas epístolas paulinas – I Coríntios 6; cap 10; Filipenses 4). Se eu tenho a capacidade de pecar é pelo óbvio fato de que sou pecador (uma árvore não produz frutos diferentes de sua natureza). Porém se tenho a capacidade de muitas vezes fazer o bem, é sinal que algo de justiça (de frutos do Espírito) também já está dentro de mim (Filipenses 1). Mas a questão é que o que faço (como não me entregar de forma deliberada ao Pecado) não é causa de nada; é consequência! É fruto de fé e de arrependimento (mudança de mentalidade e expansão de consciência). A minha santificação (justificação efetiva) é apenas fruto da minha justificação forense (de Deus me considerar justo, apesar do que eu sou). Por isso a nossa conversão, regeneração, santificação e “luta contra o pecado” é diária. O tempo todo olhamos para o ideal de Deus revelado em Cristo e algo dentro de nós impulsiona nosso ser a desejá-lo (embora algo lá dentro também se oponha a esse desejo). O segredo nessa batalha é que o Evangelho nos pacifica para buscarmos viver como Cristo, sabendo que é o Espírito quem nos guia para o bem e que mesmo quando tropeçamos e falhamos, não somos condenados por isso, visto que somos justos diante dos olhos de Deus. Estamos livres para tentar, sabendo que iremos acertar e errar. Quando olhamos para Cristo vemos a revelação plena da Lei (vontade, ideal) divina, mas também vemos a Boa Nova (Evangelho), que nos garante que somos aceitos e abraçados por Ele na Cruz, incondicionalmente. Essa é a base da espiritualidade cristã. 
     Uma frase famosa de Santo Agostinho é a seguinte: “Ame a Deus e faça o que quiser”. Parece escandalosa quando descontextualizada, mas o que ele estava dizendo? Que quem ama a Deus começará a desejar o bem. Não que a essência da pessoa será plenamente pura, mas ela não desejará se entregar ao Pecado, pois ele é “anti-vida”, é morte, só gera o mal. Martinho Lutero também fez declarações que muitos repudiam por não entenderem a teologia Luterana. Uma dessas falas é a seguinte: “Seja um pecador, e deixe os que vossos pecados sejam fortes, mas deixe que vossa confiança em Cristo seja maior ainda, e nos glorificamos em Cristo que é a vitória sobre a morte, o pecado e o mundo. Nós cometemos pecados enquanto estamos aqui, pois esta vida não é um lugar onde resida a justiça … Nenhum pecado pode nos separar d’Ele, mesmo se estivéssemos a matar ou cometer adultério milhares de vezes por dia.”. Lutero está usando uma linguagem extrema para nos mostrar a profundidade do amor, do perdão e da Graça divina; está nos mostrando a grandeza do “ao mesmo tempo justo e pecador”; está enfatizando que o homem não tem nenhum mérito em sua salvação e que Deus salva até mesmo o pior dos pecadores. Certa vez perguntaram ao mesmo Lutero se, já que estamos em Cristo (logo, nenhuma condenação há), podemos fazer o que quisermos e ele respondeu: “Sim...”. Porém a resposta continuou: “...mas o que você quer fazer?”. Essa resposta é como um “tapa na cara”, pois o problema muito mais profundo que essa questão exterior, de práticas de atos imorais. A questão não é se posso fazer e sim, se devo fazer (lembra do “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”? [I Coríntios 6] – os mesmos que criticam Lutero por essa abordagem são os que não entendem o apóstolo Paulo). O Pecado, como vimos, e que Lutero queria mostrar, é algo não definido pelos atos e sim, pela nossa essência que já se revela em nossos desejos. 
     Porém a maioria dos cristãos não entende isso e não incomum ver alguém dizendo: “já que não tenho que seguir a lei (como se a Lei propriamente dita fosse uma mera cartilha de regrinhas), então vou matar, roubar...”, está atestando que é um péssimo indivíduo, um ser depravado, um bicho adestrado por uma tradição religiosa. Uma pessoa com um mínimo de humanidade em si, que tem consciência, amor, respeito tentará ser uma boa pessoa não por causa de sua fé ou de sua religião, mas porque ela tem empatia, porque ela se coloca no lugar do outro e repudia o sofrimento. Basta ver quantos “ateus” são generosos e levam uma vida exemplar. E esses merecem elogios, pois não estão fazendo por medo do inferno, nem por interesse pelo céu; fazem por terem um coração que se sensibiliza com a dor do outro. Mas quando vejo esses religiosos levantando essas hipóteses de praticar o mal por opção, já que a salvação não está em jogo, vejo que muitas vezes a religião, por pior que seja, é indispensável para alguns, pois mesmo que seja baseada na superstição e na ignorância, pelo menos serve como uma coleira, como uma “cerca elétrica” para essa pessoa que sequer tomou consciência do que é viver. Já pensou esse ser totalmente mal, sem amor no coração, solto por aí? Será um maníaco, uma desgraça para a sociedade. Então é menos mal que continue com seu medo do inferno e achando que tentando ser bonzinho conquistará sua salvação.


G - Então pra que pregar sobre o Pecado?
     Entenda: o pecado é a doença; o evangelho é o anúncio da cura. Então pense: se você irá anunciar a cura, terá que dar a resposta para: “cura de que?” Do pecado, da condenação que vem pela Lei. Logo, não tem como fugir do pecado. 
     Então “pregar sobre Pecado” é apenas no sentido de mostrar que todos transgredimos a Lei e não, para iludir as pessoas, fazendo-as pensar que elas lutando contra seus atos imorais (“pecados”) conquistarão algum favor divino ou serão mais merecedoras do perdão de Deus. Se fizer isso, piorará a situação, não resolverá o problema e gerará mais culpa nessas pessoas. E quanto mais culpa, mais desejo inconsciente começa a brotar para que as imoralidades sejam praticadas (é o famoso “proibido é mais gostoso” ou “tudo o que é proibido atrai a curiosidade”). A pregação precisa mostrar às pessoas que elas praticando ou não o mal, estão perdoadas, mas que nenhum filho que fica constrangido diante de tanto amor (perdão) do pai consegue viver de forma oposta ao que ele deseja. Quando a pessoa fica em paz, livre dessa opressão, desse peso, dessa culpa, ela tem muito mais força e mais motivação para deixar o que é mal e buscar o que é bom. É por isso que toda pregação sobre Pecado deve vir acompanhada do Evangelho, que é o anúncio de que, apesar de sermos todos pecadores, Deus nos reconciliou, perdoou e salvou por Graça. 
     Outra coisa: podemos sim afirmar que “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Alguns (principalmente os calvinistas conservadores) afirmam que essa frase é falsa, pois se Deus amasse os pecadores, não derramaria sobre eles a sua ira. Mas como já discuti nos estudos anteriores a "ira" foi derramada justamente contra o Pecado e não, contra os pecadores. Somos todos pecadores e sempre seremos nesta vida, mesmo depois da conversão. Logo, se Deus não ama o pecador, não ama o ser humano. O Pecado não tem poder de limitar o amor divino. Se limita, Deus não é amor (em essência) e no máximo tem um amorzinho limitado quando Ele resolve ter. 


H - Se isso é verdade, porque praticamente nenhuma igreja prega isso?
     É simples responder. Primeiramente por essa abordagem estar relacionada em parte à teologia luterana, que é uma tradição pouco conhecida (e adotada por raros grupos) no Brasil; em segundo lugar pelo fato de nosso país ser tradicionalmente excessivamente conservador (na maioria das vezes fundamentalista), logo, a maioria de nós tem uma mentalidade legalista, que acha que seguindo regras nos tornamos melhores diante de Deus, inclusive conquistando Seu favor (perdão, salvação...) e aqui apresentei uma visão mais moderada, nem excessivamente conservadora e nem perto de ser liberal; e um terceiro motivo é a óbvia constatação que, uma igreja que adota esses paradigmas de salvação e de pecado estará desprotegida, sem os escudos que a religião fornece. Uma igreja que reconhece seu papel na sociedade, que afirma que é somente um ajuntamento de pessoas de mesma fé, que não é essencial à salvação (embora possa ser saudável e importante na jornada da vida cristã), que não é a representante de Deus na Terra, que não é um portal de acesso ao divino, ficará mais vulnerável. Ela tem medo de assumir esses pontos óbvios e as pessoas questionarem: "Então pra que tenho que frequentar todas suas atividades? Por que tenho que deixar de ir a um casamento ou aniversário de um amigo para vir ao culto? Por que o padre/pastor dita regras para minha vida? Por que ter que seguir suas normas para conquistar o perdão divino se eu só preciso crer que já o possuo? Por que não posso faltar em seus eventos? Por que tenho que fazer sacrifícios financeiros (dízimos, ofertas, contribuições variadas) para ser salvo se a salvação já é minha e basta eu me apropriar subjetivamente dela pela fé?" 
     Percebe que muito mais eficaz para manter as pessoas sob controle, frequentando todos os eventos e dando dinheiro é pregar um "evangelho" (mas que de "boa nova" não tem nada) que as mantém culpadas e com medo? Assim, elas farão tudo o que podem para lá estar implorando por perdão, por salvação e estarão dispostas a seguir as instruções lá dadas. O império religioso que carece de status, dinheiro e poder precisa disso. Basta ver que quanto mais uma igreja relaciona a fidelidade do fiel à denominação, mais ela é cheia? Repare nas Igrejas que fazem sucesso na TV ou que são mais conhecidas no dia a dia. São legalistas ou fazem de seu líder um ícone, um oráculo divino. Dizem que quando a pessoa dá o dízimo o diabo é repreendido, as finanças são melhores; que quando a pessoa oferta, Deus recompensa com bênçãos materiais e com saúde; que quando a pessoa é fiel nas campanhas da igreja tudo na vida dela dá certo... E assim as pessoas se submetem a um fardo pesado por medo (do inferno, caso não sejam fiéis), por culpa (pelos pecados que comentem) ou por ganância (para conquistar uma vaga no paraíso ou para prosperidade financeira neste mundo). Então é compreensível a revolta que esse tipo de mensagem que aqui apresento gera nos círculos religiosos.      Digo isso já preparado para pedradas, pois esse tipo de mensagem cristocêntrica é uma ameaça para muitos. Mas não estou dizendo a ninguém para deixar de seguir sua religião. Apenas estou dizendo que não é isso que lhe garante o favor divino. São raríssimos, mas há grupos cristãos religiosos sérios no Brasil que reconhecem esses pontos e mesmo assim lá há pessoas sinceras, que vão lá por gratidão, por amor, por desejo de meditarem juntos na Palavra e elas contribuem financeiramente, pois reconhecem que esse grupo faz bem a elas. Porém a maioria dos líderes preferem a segurança de pregar uma ilusão ameaçadora, já que no nosso país o nível de criticidade é crítico (perdoem-me o trocadilho) e qualquer coisa que se pregue atrairá muitos seguidores, muitas vezes até dispostos a dar a vida pelos enganos que aprendem. 


Conclusão:
     Jesus mostrou claramente que "pecado" não é o mero ato e sim, aquilo que está lá em nossas "entranhas". Ele disse (parafraseando): "Não adianta não ir pra cama com aquela mulher que você acha maravilhosa, pois só o seu desejo já denuncia que você é um adúltero"; "Não adianta não tirar a vida de alguém, pois se você se irar contra uma pessoa você já mostra que é um assassino"; "O que contamina o homem não é o que entra pela boca e sim, o que sai dela, pois o que sai é o que procede de sua essência, de seu interior e essa é a fonte de contaminação". Ou seja: Jesus explicitou que nosso pecado é algo que está dentro de nós. Ele "jogou em nossa cara" que ninguém de nós escapa. Mesmo não praticando o ato, continuamos condenados pela nossa capacidade de praticar o que é mau. Se temos que lutar contra o que é mau, é porque algo dento de nós nos empurra para longe de Deus. Por isso Ele nos ensina que devemos crer (ter fé) e passar por arrependimento (que não é remorso e sim, renovação do entendimento, expansão da consciência). Só assim alinharemos nossa vida a essa realidade que a Cruz de Cristo trouxe. Portanto, não foque no sintoma (atos imorais = pecados). Não adianta achar que lutando contra ele irá vencê-lo, pois pecado não é essencialmente o que você pratica e sim, o que você é! E a boa nova do Evangelho é justamente essa: você está perdoado pelo que você é e um dia o que você será plenamente transformado no que Cristo é. Mas não caia na ilusão de que “já que odiar ou ofender é assassinato, então vou matar de vez”. Entenda: Claro que não ira fazer isso, pois esses “pecados” não tem poder de afetar nossa relação com Deus, mas afetam a nós mesmos e o nosso próximo. Nós pagamos (digo nesta vida e não, no sentido de “eternidade”) pelo que praticamos. Se resolvemos bater em alguém, seremos processados, presos, destruiremos a vida daqueles que nos amam e também da pessoa que foi nossa vítima. Isso não tem coerência nenhuma com Jesus. Se você só odeia uma pessoa, apenas você sofre; se a ofende, você e ela sofrem; se a espanca, você, ela, as pessoas próximas a você e as pessoas próximas a ela sofrem. Entende que quanto mais grave o ato, pior a consequência? É isso que você deseja a você e às pessoas? É isso que você vê como ideal divino? Se você pensa assim é porque não entendeu a profundidade do Pecado, a seriedade da Lei de Deus e a grandeza do Evangelho de Cristo. Você está alienado pelo Pecado, precisando de uma mudança radical de mentalidade (que é o chamado “Arrependimento”). Só quero que entenda que nesta vida "lutamos" contra o pecado apenas no sentido de fugir do mal por ser algo que degrada nossa vida, nossa alma, que trás más consequências e no sentido de que entendemos que o ideal de Deus para nossa vida é amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Nosso modelo perfeito é Jesus. Mas fazemos tudo sem culpa ou medo. Tudo por gratidão, consciência e adoração. O que passa disso é mera capa religiosa.
     Contra o Pecado não podemos fazer nada (Cristo já fez por nós), mas os pecados (atos imorais) muitas vezes conseguimos evitar e isso não fazemos para Deus ou para nossa salvação; fazemos por nós mesmos, pois o chamado de Jesus para nós é que busquemos o que gera vida.
     Para encerrar, segue uma reflexão do amigo teólogo/filósofo Joel Costa Jr: 

     "O que recebo quando confesso o meu pecado é um lembrete de que sou perdoado em Cristo - mais uma garantia de que Deus me redime em Jesus. Jesus não assumiu os meus pecados até a conversão - assumiu tudo, para sempre; o que fiz e o que deixei de fazer, durante toda a vida, peça eu perdão ou não. Quer cair na gandaia? Ok, caia na gandaia. Vai colher os frutos disso. Nada a ver com Pecado e salvação - esse jogo acabou. Já foi condenado, o preço já foi pago e terminou. O problema não é mais entre nós e Deus, pois esse foi resolvido. Vá, cometa o seu adultério, se é isso mesmo que você quer fazer. Colherá os frutos, se sentirá péssimo, criará complexos, ferirá pessoas, trairá confianças, arriscará tudo que tem de mais importante... Não é céu e inferno. É vida, aqui e agora. A questão não é: ‘isso aqui é pecado?’ A questão é: ‘isso aqui faz bem, de acordo com o amor demonstrado em Cristo? Isso aqui promove vida, paz, bondade, caridade, etc? Ou é uma compulsão egoísta, um surto odioso, um mau caratismo da minha parte...?’ O problema é prático, não é ‘espiritual’ - é ético e pragmático. 
     Ser livre no evangelho não é ficar sem chão, é andar com as próprias pernas e consciência perante Deus, tendo um alvo e a segurança de que já estamos cobertos pelo sangue de Cristo. E o alvo não tem a ver com os caprichos denominacionais que hoje passam por 'pecado' - beber, fumar, etc. Isso é tudo besteira. O alvo tem a ver com saúde integral, com amor para com Deus e para com o próximo, com domínio próprio, com paz, com paciência, com bondade, com pureza, com ternura, com coragem, com honestidade, com generosidade, etc. Nenhuma condenação há - nenhuma. O que tem aqui nessa vida são frutos de escolhas nossas e consequências. Então, prudência e sabedoria. A questão do pecado está resolvida. 
     Jesus falou para a mulher, em João 8: ‘vá e não peques mais’ - em relação ao pecado dela, o adultério, é claro. ‘Não fique semeando para a morte. Pra que fazer isso? Só continuará se dando mal...’ E se ela cometesse o mesmo pecado de novo? Jesus diria: ‘Viu como é ruim? Eu também não te condeno, vá e não peques mais...’ Ou seja, não acaba. Toda vez que eu volto para Cristo é isso: ‘Viu como é ruim quando você se entrega ao pior dentro de você? Mas eu não te condeno - vá e não peques mais.’ " 

Autor: Wésley de Sousa Câmara
28/01/2016

26 de jan de 2016

O desespero conservador para explicar contradições bíblicas


     Tem gente que reclama quando critico o conservadorismo teológico cristão, mas tem coisa mais tola do que essa vertente (com todo respeito às pessoas que ela seguem, mas sem respeito nenhum a essa ideia)? Primeiro os conservadores vem com a premissa (infundada, infantil, insustentável para qualquer pessoa que tem a mínima noção de formação do Canon bíblico e que é sincera, sem deturpação em prol da manutenção de uma "confissão de fé" denominacional) de que a bíblia é a Palavra de Deus e portanto, inerrante em todos os sentidos. Aí, diante de uma divergência nítida entre dois, três ou quatro autores bíblicos, fazem um malabarismo exegético/hermenêutico (uma manobra desonesta, sem compromisso histórico nenhum) a fim de conciliar o inconciliável. Não é incomum encontrarmos sites, artigos, apostilas e até livros de fundamentalistas tentando harmonizar textos que qualquer pessoa de bom senso sabe que são diferentes entre si por razões óbvias. Não tem como entender a bíblia, saber o que ela é, como se formou e honestamente e de forma racional defender a conciliação do inconciliável.
     Exemplos não faltam. Poderia falar de diferenças de relatos na bíblia hebraica (Antigo Testamento), mas que tal a nítida divergência entre os evangelhos quanto a morte de Judas? No evangelho de Mateus é dito que Judas jogou no templo as moedas que recebeu para denunciar Jesus e depois enforcou-se. Em Atos (cujo autor deve ser o mesmo escritor do Evangelho de Lucas) lemos que Judas comprou um terreno com o dinheiro arrecadado iniquamente e lá teve uma queda violenta, sendo seu corpo aberto. Não é mais simples reconhecer o óbvio? Que os dois autores divergiam quanto à morte de Judas, sendo que um achava que ele morreu enforcado e outro, que morreu em uma queda? Mas o que os conservadores fazem? Como partem do pressuposto de que a bíblia é uniforme (como se ela tivesse caído pronta do céu, sem contexto, sem processo complexo de formação e compilação, sem presença de elementos e divergências humanas nela...) e de que nela não pode haver nenhum conflito, dizem que Judas se enforcou no alto de um precipício e após morrer, seu corpo caiu e lá embaixo foi despedaçado. Tenho que reconhecer a criatividade...
     Outro conflito: quem estaria no túmulo de Jesus? Segundo o escritor do evangelho de Mateus, era um anjo; segundo o de Marcos, um homem. Segundo o de Lucas, dois homens; segundo o de João, dois anjos. Nitidamente pensavam diferente sobre o mesmo evento. O que muitos fazem? Tentam uma forma de conciliar tudo. Dizem que então João descreveu a essência, pois eram realmente dois anjos. Explicam que alguns, como Lucas, diziam que eram homens, pois estavam em forma humana e quando Marcos diz que tinha um homem, não quer dizer que não poderiam ter dois ali (ele só estaria focando em um). Realmente uma suposição que acaba com o conflito...
     E o relato da cura do cego Bartimeu? Marcos, o evangelho mais antigo, cita que Jesus curou um cego, cujo nome era Bartimeu; Mateus, o segundo evangelho a ser escrito, que aparentemente se baseou em Marcos em boa parte do livro, menciona dois cegos (anônimos); Lucas, que também tomou Marcos como base para boa parte do livro, diz que foi um cego apenas (anônimo). E para demonstrar ainda mais a diferença entre os relatos, Mateus e Marcos dizem que a cura foi feita por Jesus ao sair de Jericó, enquanto Lucas a descreve quando se aproximava de Jericó. Qualquer pessoa, usando a razão, dirá que Mateus (na questão do número de cegos) ou Lucas (na questão do local) discordava dos demais evangelistas, mas como os que adotam essas premissas conservadoras não podem assumir esse conflito, criam uma genial saída: Em relação ao número de cegos, eram dois, mas Marcos e Lucas citam só um porque ao dizer que curou um cego não quer dizer que não tenha curado dois. E em relação ao local da cura dizem que havia naqueles dias duas cidades de Jericó e Jesus pode ter curado os cegos enquanto saía de uma, e isso significava também que se aproximava da outra. Uma explicação que demonstra uma mente fértil, mas convenhamos, não muito provável... Pensei em falar ainda sobre a questão de ver ou não Deus face a face; da ida (ou não) dos discípulos para a Galileia após a morte de Jesus; das diferentes interpretações de autores bíblicos em relação ao sofrimento, mas este comentário ficaria muito extenso. Em outro texto aprofundamos na questão das contradições bíblicas e discutimos pontos como a "inerrância".
     O que o conservadorismo teológico faz? Sem nenhum escrúpulo e com nenhum compromisso com o fato histórico, cria um terceiro relato (sem base alguma) a fim de que dois relatos divergentes possam ser harmonizados. Ou seja: não aceita que algo ali na bíblia possa estar equivocado, mas não tem problema nenhum em inventar um relato extra (sem apoio em nenhum dos evangelhos) a fim de dizer que isso é o que a "bíblia diz" (sendo que ela nem insinua isso). Inventam um evangelho próprio, que é criação de uma história fictícia de conciliação entre os quatro evangelhos canônicos (somados a outros livros que possam ter relação com o assunto) para que esse "evangelho virtual" seja o retrato histórico dos eventos. Esse tipo de abordagem ilógica também não tem dificuldades em dar uma interpretação pouco provável para algo, a fim de parecer que todos os relatos são uniformes. Ignoram a probabilidade maior (por exemplo: dos escritores pensarem diferente por serem pessoas de diferentes regiões, que escreveram os evangelhos com diferentes motivações e em diferentes épocas, tomando como base diferentes tradições e escritos...) e adotam algo bem menos provável. O que fazem é semelhante a um marido que deixa seus óculos sobre a mesa da cozinha e quando vai pegá-lo repara que ele não está mais lá. O que é mais provável? Como só mora ele e a esposa na casa, a esposa deve ter guardado em outro local. Mas ele prefere achar que um anjo desceu do céu para esconder seus óculos a fim de que ele não leia algo que lhe fará mal. Pode ser essa última explicação a representação do ocorrido? Até pode. Quem sou eu pra dizer que algo é impossível. Mas é provável? Não! Alguma pessoa que usa a razão vai apostar nessa explicação? Não! Então por que quando se fala em um ou outro relato bíblico escolhemos deixar a razão e as evidências de lado e adotamos explicações como essas, bem menos prováveis que outras? Entende?
     Esses conservadores criam algumas premissas e depois precisam abrir mão da razão e do bom senso para sustentá-las. Tem certeza que acha isso válido? Eu acho, na melhor das hipóteses, ingênuo; na pior (ou na real), desonesto e manipulador. Mas você escolhe como irá pensar.

     Obs: se você tem dúvidas quanto ás orientações teológicas (fundamentalismo, conservadorismo, liberalismo), recomendo que leia este estudo:
1º passo: Orientações teológicas e teologias

Por: Wésley de Sousa Câmara
26/01/2016