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Amigos "do mundo"?


     Sobre amizades com "descrentes" (não digo "do mundo", pois do mundo todos somos, afinal estamos nele. Jesus até disse: "Pai, não peço que tire meus discípulos DO MUNDO, mas que os livre do mal" - João 17), o que podemos dizer? Olhemos para Jesus:
     O que Ele fez? Como Ele entendeu o "não se assente na roda dos escarnecedores"? (Salmo 1, muito citado por religiosos que censuram amizades entre pessoas de diferentes crenças). Ora, para Jesus, sentar-se nessa roda não significou ter amigos "pecadores", pois para Ele, "escarnecedor" não era a adúltera, o publicano, os coletores de impostos, o centurião romano, a samaritana... "Escarnecedores", para Jesus, eram aqueles que se diziam irmãos (fariseus, religiosos hipócritas), mas que só pensavam em si, que adoravam julgar os outros como "mais pecadores" e que adoravam mostrar que eram o que não eram (por isso foram chamados de "sepulcros caiados", belos apenas por fora). Repare que Jesus não tinha o mínimo prazer em ficar ao lado desses religiosos hipócritas.
     Jesus foi chamado de "comilão, beberrão e amigo de publicanos e pecadores" (Mateus 11), lembra? E por quê? Pois Ele se assentava à mesa com eles (Jesus não deixou de partir o pão - e isso significava íntima comunhão para um judeu - nem com Pedro, que o negaria várias vezes, nem com Judas, sabidamente ladrão e traidor). Jesus foi a festas de casamento e frequentou casas de todo tipo de gente. Estava cercado de pessoas da pior espécie, tanto que até na morte ficou entre dois ladrões. Jesus nunca se isolou de pecadores, apenas quis distância daqueles que se diziam "de Deus", mas que viviam de forma oposta à fé que professavam e ao que exigiam dos demais.
     Quando olho para Jesus, concluo que não há nenhum ditado mais errado do que este: "Diga-me com quem tu andas que direi quem tu és". Alguns dirão: "Ah, mas Paulo deixou claro que 'as más companhias corrompem os bons costumes'". Aí há duas questões: a primeira é que, digamos que houvesse uma divergência entre a interpretação de Paulo e a interpretação de Jesus, quem seguiríamos? (Sugiro seguir o Verbo/Palavra que se fez carne; Aquele que, segundo o próprio Paulo, é a imagem do Deus invisível, em quem estão todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria; Aquele que é a revelação plena de Deus aos homens...) Afinal vemos que Jesus andava justamente com os marginalizados pela sociedade e pelos religiosos. E diante desse amor incondicional que Ele demonstrava, essas pessoas se arrependiam, mudavam de vida (mas isso tudo DEPOIS dele amar, abraçar, acolher e aceitar como amigos).
     Mas eu disse que existem duas questões, certo? Qual a segunda? Que essa frase citada por Paulo não é de autoria dEle. O apóstolo aproveitou o contexto em que estava inserido para citar Menandro (um filósofo grego). Isso mesmo, Paulo estava em Corinto e aproveitou para citar um ditado popular entre eles. Como Menandro não é absoluto, não precisamos absolutizar essa frase dele, certo? E como curiosidade: Paulo fez outras citações de filósofos e poetas gregos, para colocar suas pregações no contexto dos ouvintes. Citou Arato, Epimênides... Na dúvida (ou melhor, sempre), siga Jesus, que não tem como errar!
     Mas voltando: Jesus não era cristão (embora a fé cristã seja fundamentada 100% nEle), não era "crente", não era católico e muito menos protestante ou evangélico. Então não faz sentido algum dividirmos as pessoas de acordo com a religião que possuem. Deus conhece o coração de cada um; nós, não. Cabe a nós apenas amar, amar e amar... Deixemos o papel de Deus, de justo juiz, para Deus.
     Se somos sal e luz, que diferença faremos sendo sal no saleiro e luz em meio a apenas outras luzes? Que sejamos diferença justamente entre aqueles que mais precisam de nós. Não tenho dúvidas de que, caso Jesus estivesse em pessoa neste mundo hoje, Ele escolheria andar entre os que nós elegemos como "piores pecadores". E pasmem alguns: Não tenho dúvidas de que entre um jantar com pregadores famosos da TV e uma roda informal na praia com prostitutas, roqueiros ou homossexuais, Ele estaria entre esses últimos.
     Se tem uma coisa que desejo é ter cada vez mais amigos considerados "incrédulos", pois assim poderei pedir a Deus: "Que em mim brilhe a Tua luz diante desses homens".
     Agora, que venham as pedradas, e peço que atirem as primeiras aqueles que são puros, santos e livres de pecado.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

A circuncisão do filho de Moisés


     A dramatização da história de Moisés, que vem ocorrendo em uma das novelas da TV brasileira, despertou algumas dúvidas em relação a um trecho, que foi a circuncisão do filho de Moisés (relatada em Êxodo 4:24-26).
     É um texto complicadíssimo e não sei dizer o que significa exatamente. Sabemos que pelo menos 4 tradições judaicas compõem o Pentateuco (5 primeiros livros da bíblia), então muitas vezes encontramos textos que não são harmônicos ou uniformes, pois podem estar "mesclados" com elementos dessas diferentes tradições. Esse trecho é um deles, pois, além de tudo, é um fragmento que aparece "do nada", sem contexto. Nesse trecho sequer aparece o nome de Moisés. E esse texto gera várias interpretações possíveis (até os rabinos judaicos antigos não concordavam entre si sobre isso).
     Alguns dizem que Deus irou-se com Moisés e quis matá-lo pelo fato dele não ter sido circuncidado quando criança (mas se Deus acabara de lhe fazer uma revelação e promessa, que livraria os hebreus da escravidão, como Deus agora resolve matá-lo?); alguns dizem que Deus irou-se com Moisés e quis matá-lo pelo fato do filho mais novo dele não ter sido circuncidado (além do problema já citado acima, por que Deus não deixou essa "ira" dEle clara quando falou com Moisés na sarça?); outros dizem que Deus irou-se com Moisés e quis matar o filho dele pelo fato do menino não ter sido circuncidado; outros, que Satanás quis matar Moisés (e muitos atribuiriam isso ao "Senhor" pelo fato de tudo quanto ocorria, de bom ou ruim, era colocado sob a soberania divina), a fim de impedir que Moisés libertasse os hebreus...
     A mesma dificuldade de interpretação vale para a fala de sua esposa Zípora (ou Séfora), que após cortar o prepúcio do filho, tocou (feriu) os "pés" (pênis) de Moisés e disse: "Você é pra mim um esposo de sangue". A palavra "esposo" traduzida aí não necessariamente tem esse sentido de "marido" e também não diz muita coisa, além de ser uma afirmação que se referia, de alguma forma, à circuncisão que ela realizou no menino. Alguns dizem que a circuncisão do garoto resolveu o problema, gerado pelo fato dele (filho) não ser circuncidado até então... Outros dizem que a circuncisão do menino, acompanhada desse "toque" na genitália de Moisés, foi como uma circuncisão "vicária", em que o rito no garoto simbolizou a circuncisão de Moisés, que talvez não fosse circuncidado.
     Enfim, é um trecho complexo e confuso. Não tenho condições no momento de dizer nada além disso. E qualquer conclusão definitiva seria especulação. Reflita, pesquise e tire suas conclusões.

Por Wesley de Sousa Câmara

A primeira coisa que todo cristão deveria aprender


     A primeira coisa que todo cristão deveria aprender (mas infelizmente isso raramente nos é ensinado, eu sei) é: "qual o critério absoluto que devemos adotar para saber o que devemos fazer ou como devemos ser?" Se perguntar isso aos que se dizem cristãos, acredito que nem 10% dará a resposta que considero correta. Muitos dirão: "tenho que seguir o que a bíblia diz" OU "tenho que seguir o que a doutrina da minha igreja diz" OU "tenho que seguir o que meu líder diz" OU "tenho que seguir o que minha consciência diz"... Mas não pode ser nada disso!
     O primeiro motivo é que o que eu chamo de "minha consciência" pode ser nada mais do que meu "coração" (meus desejos e preferências...) e o profeta Jeremias certa vez sabiamente disse: "enganoso é o nosso coração". Nosso coração não é perfeito, logo, não pode ser o parâmetro absoluto para nada.
     O segundo, é que meu líder é um homem como eu e como todos os demais, falho e pecador. Sendo assim, está sujeito a erros (não pode ser um parâmetro perfeito).
A doutrina da "igreja" nada mais é do que um conjunto de crenças e de princípios, feita por homens, baseada naquilo que acreditam que seja a melhor abordagem cristã, mas por ser uma visão humana, sempre será imperfeita e relativa.
     Sobrou a bíblia. Mas aí que entra algo óbvio quando entendemos o que é a bíblia: ela não é um livro e sim, uma coletânea de livros (é uma "biblioteca"), de diferentes autores, de diferentes épocas e contextos, com diferentes objetivos, englobando diferentes tradições judaicas. Por isso às vezes lemos algo em um livro e outra coisa que parece "meio diferente" em outro livro. Como é uma coletânea de escritos muito variados, não faz sentido usar a expressão "a bíblia diz", assim como não tem lógica dizer: "a biblioteca diz", afinal, pela abundância de contextos e objetivos, ela pode dizer coisas diferentes sobre um mesmo assunto. Isso é óbvio e natural. Estranho seria se ela dissesse sempre o mesmo (poderia ser um sinal de manipulação). Mas como a maioria tem uma orientação tão "cegamente conservadora" (espero que ninguém me julgue tolamente de "liberal", um termo incabível dentro do que creio), tenta fazer (forçando interpretações) com que tudo nela pareça uniforme, harmônico, sem contradições. Mas a bíblia nunca foi feita com esse fim. A bíblia é a junção em um só volume, feita no quarto século pela Igreja católica, de livros e escrituras antigas, após muita discussão, brigas e debates, que "canonizou" (oficializou) um conjunto de textos que seriam usados a partir daí pela comunidade cristã. Até então, diferentes grupos isolados usavam determinados livros, mas embora muitos deles fossem quase unânimes, outros eram aceitos só por alguns. A igreja de então determinou critérios para seleção e oficializou vários deles como "canônicos".
     A bíblia é maravilhosa e por conter escrituras divinamente inspiradas (como creio) é um INSTRUMENTO divino para nós. Repare que destaquei o termo "instrumento", pois é isso que ela é. A bíblia não é o fim em si mesma. Ela é um meio (registro histórico, escrito) que nos aponta um caminho, um objetivo (que é Cristo). Ela funciona como placas de trânsito que nos facilitam chegar a um destino. Não importam os detalhes da placa, pois ela não foi feita para ser o foco. Simples assim.
     Por que eu disse tudo isso? Pois é impossível dizer que vamos seguir o que "a bíblia diz", afinal, como ela tem vários objetivos e contextos, não tem como seguirmos ela toda. Se acha minha afirmação (que para mim é mais do que óbvia) absurda, tente seguir Levítico + Deuteronômio e, amo mesmo tempo, seguir os evangelhos e Paulo. IMPOSSÍVEL! Já tentou conciliar algumas instruções de Moisés com as de Jesus? Fica nítida a diferença de objetivos e de contextos. Moisés ensinava na base do "olho por olho, dente por dente" (esse era o conceito de justiça na época e mesmo sendo absurdo para nós hoje, já foi uma evolução nesse período da história humana) e Jesus ensinava perdão incondicional, fazer o bem a quem nos faz o mal...
     Como exemplo, uma mulher que era tomada para si por um homem: Se esse homem visse que ela não era mais virgem, ele a denunciaria e ela seria apedrejada (em Deuteronômio isso é descrito em detalhes). E em Jesus, o que vemos? Uma adúltera prestes a ser apedrejada sendo salva, perdoada. E Jesus iguala o pecado dela ao dos demais, dizendo: "quem nunca pecou (não importa o ato) atire a primeira pedra". Jesus denuncia a hipocrisia do julgamento do pecado alheio, pois estamos todos na mesma situação ("pecadores carentes da Graça divina", como Paulo cansou de ensinar). Ou seja: através da bíblia podemos olhar para Jesus, pois Ele (e apenas Ele) é nosso parâmetro absoluto para avaliar tudo e todos, inclusive qualquer relato bíblico. Ele é o Verbo (Palavra) que se fez carne (João 1) e não, papel e tinta; nEle estão os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2); Ele é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1). E como sabemos disso? Pelo instrumento maravilhoso que temos em mãos, chamado "bíblia". Portanto, se desejamos saber o que Deus deseja que façamos, olhemos para Jesus, que nos garantiu: "Quem vê a mim, vê ao Pai" (João 14). E com essa consciência podemos analisar a "Bíblia a fundo".

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Primeiro, o perdão; depois, o arrependimento


     Tem gente que tem tanta dificuldade para entender e para aceitar que o perdão PRECEDE o arrependimento. Acham que sem arrependimento não há perdão, quando na verdade é o oposto (o arrependimento não ocorre sem um perdão prévio). Não enxergam que o arrependimento não é causa e sim, consequência do amor divino derramado por Graça. Eu me arrependo pela ação do Espírito Santo em mim e isso por já ter sido perdoado (na Cruz).
     Jesus é a imagem do Deus invisível, o Verbo encarnado, a revelação plena de Deus ao homem, certo? Então olhemos para Ele para encontrarmos a resposta, caso haja dúvidas.
     Quando foi que a mulher adúltera, que seria apedrejada arrependeu-se para Jesus a salvar da morte por apedrejamento? Quando foi que Jesus condicionou o perdão ao arrependimento?
Quando Ele nos ensinou a perdoar, disse: "Perdoe 70x7". Não colocou como pré-requisito para que perdoássemos o nosso próximo o fato dele se arrepender do erro. Devemos perdoar incondicionalmente. O arrependimento dele virá por constrangimento diante de nosso amor e se não vier, perdoaremos da mesma forma. Se nosso próximo precisar se arrepender antes, irá merecer o perdão e perdoar quem merece nada mais é do que uma desculpa merecida. É fácil. Não estaríamos fazendo nada demais. Não precisaria de uma ênfase divina para isso. E se Jesus é imagem de Deus... Se Jesus nos ensina a perdoar até nossos inimigos, independentemente de arrependimento (até porque um inimigo arrependido deixaria de ser inimigo), será que Ele seria hipócrita a ponto de nos ensinar a fazer algo que Ele mesmo não faz? Não seria coerente...

Obs: Lembre-se que arrependimento não é culpa ou remorso e sim, MUDANÇA DE MENTALIDADE/ EXPANSÃO DE CONSCIÊNCIA.

     Jesus costumava dividir suas falas aos pecadores em duas etapas:

PRIMEIRA - "Seus pecados estão perdoados" ou "seja curado" ou "Eu também não te condeno". (PERDÃO)

EM SEGUIDA - "Vá e não peques mais" (ARREPENDIMENTO)

     Paulo concorda com Jesus, dizendo (Romanos 5:8):

"Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor..."

     Quando?

"...quando ainda éramos pecadores."

     O que vem primeiro? Percebe agora?
     Antes de você pecar... antes de você nascer... Deus em Cristo já estava de braços abertos lhe esperando para um imenso abraço de acolhimento, de amor, de perdão, de salvação e de Graça.
     O Evangelho é maravilhoso. A Deus toda a Glória!

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Jesus: o "pai" dos dicionários


     "Dicionário" (quem atribui significado a tudo) dos discípulos de Jesus é o próprio Mestre. Como Cristo encarnou (viveu, interpretou, demonstrou, ensinou...) a Palavra deve ser o nosso único parâmetro absoluto (sabendo que mesmo assim nossa percepção dessa significação é limitada e imperfeita). Afinal, Ele é a Palavra/Verbo que se fez carne (João 1); nEle estão todos os tesouros do conhecimento (Colossenses 2); Ele é a revelação plena de Deus ao homem (João 12); Ele é nosso fundamento, nossa pedra angular (Efésios 2); Ele é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1), a ponto dEle mesmo dizer que quem vê a Ele, vê ao Pai (João 14).
     Não faz sentido querer que um dicionário nosso traga um significado adequado de termos e expressões profundas que encontramos na bíblia (Ex: "salvação, perdão, fé, arrependimento, temor, graça, obra, fruto, amor, evangelho, lei, reconciliação, inferno, Reino, justiça, Cruz"...) ...
     Nossos dicionários são modernos, ocidentais, em língua e cultura totalmente diferentes das que geraram as escrituras, o que "de cara" já deixa claro que seria ingenuidade buscarmos uma compreensão bíblica consistente e coerente buscando esses termos em dicionários e enciclopédias atuais.
     Ou seja: podem existir 10 significados no dicionário para cada um desses termos; podem existir 10 significados em diferentes livros bíblicos (isso mesmo, dentro da própria bíblia) para cada uma dessas palavras... Mas a questão é: o que essas expressões significavam para Jesus? Como ele encarnou cada uma delas? E assim, olhando exclusivamente para Ele, aprenderemos o que é e como se dá o verdadeiro perdão, a justiça, o amor, a fé, a salvação... É olhando para Ele que entendemos o que é Graça, o que é Lei (isso mesmo, não é olhando para Moisés, pois o parâmetro absoluto e perfeito para avaliar tudo, inclusive os livros e personagens bíblicos é Cristo) e o que é evangelho...
     Muitas vezes tomaremos outros textos, personagens e relatos bíblicos como base (por exemplo, várias citações de Paulo), mas essas explicações só terão valor se forem 100% coerentes com Jesus, pois Ele é a Palavra de Deus revelada em plenitude. E se houver alguma divergência entre o que alguém (seja seu líder, um profeta, um salmista ou até mesmo um apóstolo genuíno) diz sobre uma expressão e o que Jesus encarnou desse termo? Obviamente ficamos com Jesus, a revelação perfeita de Deus ao homem. Tudo e todos são relativizados e avaliados diante dEle, que é o único perfeito e absoluto.
     Já tentou comparar o que era "justiça", por exemplo, para Moisés, para um salmista, para um profeta e para Jesus? Já notou a diferença? Enquanto para alguns é "pagar com a mesma moeda" ou "vingar-se" ou "dar um belo castigo", para Jesus é "perdoar, constranger diante de tanto amor e transformar mediante continuo arrependimento".
     Já notou o que significava "Lei de Deus" para os judeus e o que Jesus demonstrou como sendo Lei? Para os primeiros, era um conjunto de 10 mandamentos e de centenas de preceitos, mas veio Jesus e derrubou essa ideia superficial, voltada para o exterior, para o campo moral e objetivo ("Ouvistes o que foi dito... eu porém vos digo"). É como se Ele dissesse: o parâmetro absoluto para entender tudo sou Eu. Cristo deixou claro que a Lei de Deus é a Vontade de Deus, o ideal divino para o homem e sendo o homem pecador, é incapaz de cumpri-la. E justamente por causa dessa incapacidade (pecado), o homem precisa do favor divino (Graça) para não ser condenado (esse é o anúncio, a boa notícia chamada Evangelho). Isso mesmo, Jesus mostra que a Lei é muito mais profunda, entrando no campo subjetivo (lembra quando Ele disse que adúltero não é apenas o que toma para si a mulher do outro, mas também o que deseja a mulher do outro?). Jesus mostra que, diante da Lei, todos somos desmascarados e ela nos revela que somos todos pecadores, carentes da graça divina.
     Jesus "ressignifica" tudo, pois dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas (Romanos 11). E ainda disse que as escrituras testificam dEle (João 5:39), ou seja, Ele é o alvo, enquanto a escritura é a "sinalização" (como uma placa de trânsito) que aponta para esse alvo.
     Resumindo: quer entender um termo ou um assunto? Olhe para Jesus e veja como ele encarnou essa expressão ou como encarou essa situação. Nunca se esqueça disso. É o primeiro passo para toda reflexão séria.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

"Não importa a sua interpretação; importa o que a bíblia diz". Será?


     Primeiramente, precisa entender que a bíblia não é um livro e sim, uma coletânea (coleção) de livros, nos mais diversos contextos e objetivos, de diversas épocas, de diversos autores e tradições judaicas, com diferentes concepções da vida e a respeito de Deus... Portanto, em um dado assunto, nem sempre poderá dizer "o que a bíblia diz sobre aquilo", pois a bíblia, em si, como um ente harmônico e uniforme, não existe. O que existem são livros específicos que há alguns séculos foram compilados em um único volume, recebendo o nome de "bíblia". A bíblia, como compilação, pode apresentar pontos de vista diversos sobre vários assuntos, por isso precisa ter uma interpretação coerente, uma visão abrangente, em que o todo faça sentido e que continue sem óbvias contradições quando esmiuçar em partes menores. Não dá para escolher um assunto, anotar todos os versículos que parecem fazer referência a esse tema e tentar juntar tudo para que os textos se complementem. Geralmente isso vira uma bagunça, uma "salada" de visões diferentes e qualquer harmonização será pura "forçação de barra" do intérprete (no caso, você e eu). A expressão "a bíblia diz" é tão absurda quanto a afirmação "a biblioteca diz". Afinal, a bíblia é mais uma biblioteca do que um livro e quando vamos a uma biblioteca encontramos exatamente isso: muitos livros, de muitos autores, de muitas épocas, com muitos objetivos e com muitos pontos de vista.
      Outro ponto que os adeptos da expressão "a bíblia diz" precisam pensar: Quer dizer que quando lê a bíblia você está isento de interpretação? Os textos, contextos (social, linguístico, religioso...), objetivos dos autores, encaixe em uma compreensão geral da Palavra e das escrituras e todas essas coisas entram em você automaticamente, como se Deus tivesse escolhido você a dedo para que, no meio de milhões de cristãos e de milhares de compreensões, o seu entendimento fosse a "divina revelação do Espírito Santo"?
     Quando olhamos para o texto bíblico, por sermos seres relativos, estamos "contaminados" com nosso pré-conhecimento, com a teologia que seguimos, com nossos pré-conceitos e com nossas preferências. Ninguém é isento e tampouco absoluto a ponto de ler um texto e enxergá-lo como  ele realmente é, sem interpretações. O que precisamos é de humildade e bom senso pra reconhecer esse óbvio fato. Carecemos ainda de critérios para chegarmos a uma compreensão mais ampla (abrangente), mais provável, mais coerente e mais frutífera possível.
     O critério maior (a base de tudo) que adoto é: "sabendo que Jesus é a imagem do Deus invisível, a fonte dos tesouros do conhecimento, a Palavra encarnada... terei Ele - e apenas Ele, observando o que Ele ensinou e como lidou com cada situação - como único parâmetro absoluto. A partir dEle, julgo tudo e todos (inclusive a escritura, os profetas, os apóstolos, as tradições, os teólogos atuais e minhas ideias/interpretações...)." Mesmo assim, nunca será perfeita (absoluta) essa minha compreensão (pois quando olho pra Jesus não vejo exatamente o que Ele é e sim, o que meus olhos imperfeitos e "contaminados"  me permitem enxergar acerca dEle), mas é o que considero possível fazer para chegar o mais próximo disso. Absoluto é Deus (conforme revelado em Cristo, o Verbo, a Palavra), mas quando olhamos para o absoluto só cabe em nós um vulto, uma imagem imperfeita (relativa) desse absoluto. A "interpretação correta", portanto, é apenas a "interpretação divina" (um dia, na Glória, provavelmente ela estará em nós); as interpretações humanas podem ser melhores ou piores, mas nunca perfeitas. Entenda isso!
     É importante reconhecermos a importância de buscarmos estudar a história da Igreja, pois ela reflete o diálogo profundo que ocorreu entre dezenas de gerações discutindo um tema. Querermos começar do zero, desprezar todo esse diálogo, achando que vamos chegar mais próximo do ideal com uma suposta revelação do Espírito (outra ilusão, ainda mais quando vemos cristãos com teologias opostas "batendo o pé" que possuem uma compreensão dada pelo Espírito), com Deus escolhendo a dedo nossa pessoa pra receber o privilégio de conhecer os segredos divinos, é uma escolha tola (e reconheço que por um bom tempo achei que desprezar isso tudo, com o raso argumento que são  meros "ensinos de homens", seria uma opção sábia). E mais: mesmo quando ignora isso tudo, vive isolado de todos, buscando uma compreensão própria e mesmo se achar que está recebendo uma revelação de Deus, tenha certeza: muitos certamente já debateram essa sua compreensão há muito tempo, mesmo você não sabendo disso. E talvez ela até já tenha sido refutada por outra bem mais consistente, mas essa decisão de viver na alienação não nos permitirá descobrir esse fato.
     Concluindo, você crê não no que a bíblia diz e sim, no que a sua compreensão dela lhe diz. Seja humilde ou pelo menos realista. Ninguém de nós é absoluto pra dizer que segue o "Evangelho puro e simples". Seguimos o que acreditamos que isso seja, mas como somos relativos, parciais, imperfeitos, certamente a pureza e simplicidade da Palavra só entrará em nossa mente quando formos transformados em um corpo perfeito e incorruptível. Enquanto isso, temos apenas interpretações bíblicas (e da Palavra, da vida...) boas e ruins, mas todas parciais e imperfeitas. Que possamos seguir a melhor possível. Almejar mais do que isso nesta vida é ingenuidade ou tola prepotência.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

"Você só prega sobre o amor de Deus, mas e o resto?"


     Ainda bem que só prego amor, pois tudo além disso seria anunciar "um outro evangelho", como chamou Paulo, afinal, AMOR é o que Deus é. Qualquer coisa fora disso é defender um ídolo, um Deus criado por homens.
     Como João disse: "DEUS É AMOR". Amor é a essência divina, de forma que todas as características (atributos) a Ele dados são derivadas (consequências) dessa essência, desse amor. Quando falamos em justiça, ira... estamos falando em atributos que se manifestam em amor, como a Cruz foi a suprema manifestação de justiça divina feita em amor. Tudo em Deus é amor. Não foi a toa que Jesus, sendo o Verbo encarnado, a imagem do Deus invisível, resumiu a Lei divina em amor (a Deus e ao próximo). Deus é amor e amor conforme revelado em Jesus (que é a imagem do Deus invisível - "quem vê a mim vê ao Pai"), que acolheu inclusive aqueles que a sociedade e a religião da época apedrejavam e isolavam de seus encontros. Até um sabidamente traidor comia com Ele na mesa.
     Copie isto, cole na geladeira, na porta do quarto e leia todo dia até entrar em sua cabeça:

"O AMOR não é um atributo divino; o amor é a essência de Deus. É o que Deus é."

     É como se eu dissesse: Você, amigo (a), é humano e é alto, magro, branco, rico e bonito (só exemplos, suposições). Ou seja, o "humano" que citei não é um atributo seu (não está em igualdade ou em competição com as características citadas). O "humano" é a sua essência. É o que você é. As características é que são atributos seus. A mesma coisa é em relação a Deus. Amor é o que Ele é. E dentro desse amor notamos algumas características (atributos), que jamais são opostos ao amor.
     Imagine que você diga: "'Bonito' pra mim é ser dourado, liso e brilhante, então pra alguém ser bonito tem que ser assim". Mas não faz sentido, pois esse alguém é, por definição, "humano". Logo, um ser humano não pode ser dourado, liso e brilhante. Ele é bonito dentro do contexto da humanidade dele. A mesma coisa vale para Deus. Repare que, como João disse, Deus é amor.
     Então não queira dizer: "'Justiça' pra mim é dar o que alguém merece, logo, se Deus é justo, Ele vai abençoar quem é bonzinho e massacrar os maldosos". Isso não faz sentido, pois Jesus derrubou essa mentalidade e esse nosso conceito de justiça. Deus é justo? Claro! Mas o que é justiça pra Ele? É como a nossa, que na verdade não passa de vingança? Não! Para Deus, o inimigo não deve receber castigo e sim, perdão e amor; para Deus, justo não é pagar com a mesma moeda (o mal com mal) e sim, perdoar, dar a outra face e responder ao mal com o bem. Pra mim, confesso, isso não é justo, mas o meu conceito de justiça não é nada perante o conceito absoluto de justiça trazido por Jesus.
     Em outras palavras: "Justiça" pra Deus é amor. E a "ira"? Também, pois ao invés dEle esmagar todos nós, pecadores, com Sua ira, Ele derramou a Sua ira sobre o pecado e a morte, vencendo-os na Cruz. "Ah, mas a ira de Deus permanece sobre os injustos". Entenda: não é Deus irado com o homem no sentido de "você é mau, então vou castigar e judiar de você". É no sentido de: "revelei a você, em Cristo, qual é minha vontade e meu ideal para sua vida, mas se escolher um caminho oposto a esse, você estará se afastando de mim, se afastando do fluxo de vida que eu lhe dou, então vai experimentar, por culpa sua, a minha ira, ou seja, a consequência de não seguir o que estou lhe ensinando". É como o Filho pródigo, que quando se afastou de casa, experimentou a "ira" do Pai (mas repare que o Pai nunca deixou de amá-lo ou de lhe conceder perdão), mas quando ele se entregou à alienação do pecado, experimentou tudo o que podia de experiências ruins, como se fosse um castigo, embora não tenha sido provocado diretamente pelo Pai. Foi o filho buscando a sua própria "condenação", o que foi equivalente a uma situação em que o Pai tivesse se irado contra ele e dado um imenso castigo.
     Sei que estou sendo até prolixo, mas tenho que repetir por questão de didática (já ouviu o "água mole em pedra dura tanto bate até que fura"?):
     "Justiça", sim, é um atributo divino (assim como vários outros), mas todos os atributos estão condicionados à essência de Deus, que é amor. Justiça de Deus só se faz em amor. Não é que Deus é amor MAAASSSS também é justiça. Deus é 100% amor, sempre amor e apenas amor. Nada em Deus não é amor. E sendo amor, continua sendo justo, embora olhemos pra Ele equivocadamente com o nosso senso de justiça e não, com o conceito dEle de justiça. Se for pra dizer que Ele é justo com o nosso conceito, então vamos dizer que Ele é injusto, pois a Graça é totalmente injusta (segundo o nosso conceito). Ela salva justamente quem não merece. Pode isso? Veja a vida de Jesus, como Ele lidava com cada um... Parece justo Ele acolher um mentiroso, um traidor, um publicano, uma prostituta e censurar um sacerdote, um religioso que tentava (alguns de forma sincera e outros não) agradar a Deus com uma vida exemplar? Jesus adora quebrar os paradigmas humanos...
     Fico pensando: onde está a Justiça do Pai acolhendo o Filho pródigo? Amando-o inclusive antes dele voltar... Já tendo o perdoado mesmo antes dele apontar no horizonte... "Ah, mas o filho se arrependeu". Não foi bem assim. O Pai em momento algum deixou de amar e de perdoar e quando avistou o filho, antes mesmo do filho manifestar qualquer arrependimento o Pai o abraçou e o acolheu como filho novamente. O arrependimento do filho não determinou o perdão e amor do Pai; o arrependimento foi consequência do perdão e acolhimento (salvação) do filho e apenas mudou a sua percepção em relação ao amor e perdão que sempre teve, mas que, por estar alienado pelo Pecado, não percebeu.
     Jesus novamente quebrando nossos paradigmas... Mas infelizmente continuamos presos a uma lógica de "cumprir obrigações em troca de benefícios". Então quando alguém com um "espírito religioso" (mesmo não professando oficialmente nenhuma religião) me pergunta: "Você só prega amor?", respondo: "Sim, graças a Deus, que por sinal, é Amor".

Autor: Wesley de Sousa Câmara

A relação entre Pecado e Cruz de Cristo


     Nós, para Deus, somos todos iguais: pecadores. Não importa se "convertidos" ou não. E somos pecadores não porque pecamos; nós pecamos pelo fato de sermos pecadores. Afinal, "pecado" não é meramente o que pratico ("atos imorais"); pecado é, no fundo, o que sou. Pecado é a nossa essência; é a natureza humana, caída; é a tendência que temos de afastamento de Deus.
     O que praticamos de ruim (e que chamamos de "pecados") são apenas consequências de sermos pecadores (uma árvore só produz frutos conforme a sua espécie, logo, se sou uma árvore que produz frutos ruins, os pecados, é porque sou pecador, certo? Uma laranjeira não produz limões, logo, se eu não fosse pecador seria IMPOSSÍVEL eu pecar em qualquer contexto). Porém também brotam em mim frutos bons, os frutos do Espírito, o que mostra que estou enxertado na árvore da vida, na videira verdadeira, que é Cristo. Quando descansamos nessa "seiva divina", o Espírito Santo geram frutos de justiça e de amor em nós. Em outras palavras, "simul justus et peccator", que é uma famosa expressão teológica para dizer o que somos: "ao mesmo tempo, justo e pecador". Minha natureza é pecaminosa, mas em Cristo, sou contado como justo por Deus. Não há contradição alguma. Abraçamos esses dois polos, esse "paradoxo" sem problemas.
     Os "pecados" que praticamos são apenas sintomas de uma doença que nos atinge, chamada PECADO. Essa doença continua em nós, independentemente de conversão à Cristo. A Lei de Deus é justamente o espelho que nos mostra que somos pecadores (pois ela é santa e perfeita e, à medida em que não somos capazes de cumpri-la, fica evidenciada a distância que estamos de Deus, ou a distância entre o que somos e o que deveríamos ser). Essa Lei nos mostra que somos incapazes de nos salvarmos e que somos carentes da Graça (favor imerecido) de Deus. Elas nos coloca em desespero, em estado de renúncia de nossos méritos, pois não os temos. Tudo que fazemos, mesmo as coisas que julgamos boas, não passam de "trapos de imundície".
     Mas é aí que entra o Evangelho, ou seja, a boa notícia de que apesar de sermos pecadores, em Cristo fomos justificados. É o anúncio de nossa salvação e de nossa transformação contínua, que um dia será plena e gozaremos a vida eterna em plenitude nos braços do Pai.
     Por causa da Cruz de Cristo, Deus olha pra mim e pra você e não vê dois pecadores e sim, dois humanos limitados, porém cobertos pelo sangue de Cristo; dois humanos justificados, cuja perfeição e justiça de Jesus é contada em favor deles. Por causa disso, Deus não lida conosco com base em nosso pecado e sim, com base na pureza de Cristo, que não apenas morreu em nosso lugar (sacrifício vicário), mas também viveu em nosso lugar. Isso mesmo, Jesus nos representou não só em Sua morte, mas também em Sua vida. Ele foi o ser humano que não conseguimos ser. Assim sendo, podemos dizer que a encarnação do Verbo (a Palavra de Deus se fazendo carne/homem) teve 3 papeis principais:

1 - Nos deixou um modelo de humanidade perfeita, um ideal (inalcançável nesta vida, mas com a promessa de que um dia seremos plenamente transformados à imagem dEle).

2 - Jesus foi o ser humano que fomos criados pra ser e que não somos, ou seja, nos representou diante do Pai como essa humanidade perfeita.

3 - Revelou-nos na história, no tempo e no espaço, em nossa linguagem humana e material, uma obra divina eterna (Jesus é o Cordeiro de Deus imolado antes da fundação do mundo), que jamais seria bem compreendida por nós se há 2 mil anos a vida, a crucificação e a ressurreição de Jesus não tivesse ocorrido.

     Diante disso, o que nos resta? Crer no que foi feito, mudar nossa percepção (conhecido como "arrependimento") da Obra divina, abrir mão de nossos méritos ("negar-nos a nós mesmos") e descansar nos méritos de Cristo ("tomar a nossa cruz"), a fim de que o Espírito Santo atue em nós, transformando-nos e moldando-nos à imagem de Jesus.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Crucificando a homofobia - protesto na Parada Gay 2015


     Ontem na parada gay ocorreram uma série de protestos. Foi possível ver sábias faixas de cristãos conscientes (e não de cristãos que vivem como folha seca na onda do mar, levados pela correnteza de líderes políticos e líderes cristãos que promovem guerras ideológicas a fim de alimentarem o status e poder que possuem), como a irônica mensagem que dizia: "Deus cura a homofobia".
     Já esta foto registra um protesto feito pelos ativistas gays, em que uma pessoa teria sido amarrada a uma cruz, criando uma representação semelhante à da crucificação de Cristo. Em uma placa sobre a cabeça da "atriz", havia os dizeres: "Basta de homofobia com LGBT".
     Quem me conhece sabe que, por tentar ser crítico e por não ser cego, repudio o extremismo cristão (representado por lideranças políticas e/ou religiosas que vivem na TV em em palanques de "marchas"), "fundamentalista" e homofóbico (embora vistam essa intolerância com uma capa de suposta "piedade e zelo pela Palavra de Deus" - seria mais fácil acreditar em Papai Noel, mas enfim, milhões os seguem e quem os critica ainda é acusado de heresia... É o nível da espiritualidade cristã atual... É a "religião popular" dominando as massas...). Porém, quem me conhece, também sabe que, por motivo de coerência, repudio o outro extremo, o ativismo gay que usa de meios exagerados e ofensivos a fim de garantir alguns direitos e/ou benefícios.
     Nessa guerra, não há inocentes, pois é intolerância de ambos os lados. Os ativistas acabam perdendo a força para exigir respeito a cada atitude que tomam com excessiva agressividade (mesmo que não seja física); os cristãos já perderam a força a partir do momento em que lideranças homofóbicas passaram a se auto-afirmarem "representantes dos cristãos e da família" (não sei porque, pois sou cristão, tenho família e esses tais NÃO me/nos representam).
     Particularmente não me ofendi com essa representação feita ontem, embora como já disse, não a aprove. Mas o que define uma ofensa não é quem profere uma crítica ou acusação e sim, quem a recebe. Eu a acato como uma crítica válida, que tem fundamento, porém que é pesada, feita de forma infantil e equivocada. Isso pra mim passa batido. Ignoro. O que me assusta mesmo são declarações como a do cantor gospel mais famoso da atualidade (principalmente entre os jovens), que ontem postou essa foto com os dizeres:

"PARADA GAY? Isto ai é cuspir no NOME QUE ESTÁ ACIMA DE TODOS os nomes! Eles não sabem do que debocharam e do que fizeram! Que vocês recebam o JUÍZO pelo desrespeito! QUE VENHA O FOGO DO CÉU SOBRE SODOMA E GOMORRA!
Essa parada gay acaba aqui, ano que vem não tem mais! JUÍZO! Indecência do capeta! Povo cego!"

     Se isso não é ódio, intolerância e homofobia, o que é? Matar um homossexual? Veja que não é a opinião de um "simples cristão"; é a de um "pop star" gospel, que influencia milhões de mentes fracas, manipuladas pelos seus ídolos e lideranças. O cantor se diz cristão mas está propagando uma mensagem oposta à de Jesus. Está com um espírito de ódio, enquanto Jesus ensinou a amar até os inimigos; está com desejo de vingança, enquanto Jesus ensinou a perdoar sempre (70 x 7); está querendo que desça fogo do céu para consumir os inimigos (como fez João), enquanto Jesus censurou duramente João por não saber de que espírito era. Está clamando por juízo (nome politicamente correto para VINGANÇA), enquanto Jesus clamava por perdão aos que o mataram. "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem". Está condenando o outro por considerar mais pecador que ele, embora o apóstolo Paulo tenha afirmado: "Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior".
     Resta alguma dúvida de que a liderança cristã atual, pelo menos a desses segmentos populares (que domina 90% dos cristãos) não tem absolutamente nenhuma semelhança com Jesus? Como Ele mesmo disse: "Vocês me honram com os lábios, mas o coração de vocês está longe de mim". E estamos piores que eles, pois nem nossos lábios O honram. Apenas destilamos nosso veneno aos que tem pecados diferentes dos nossos. Nossa boca fala do que está cheio nosso coração. Então é motivo para cairmos de joelhos diante de Deus e clamarmos: "Pai, cure meu coração doente e podre... cure minha maldade e hipocrisia, antes que eu manifeste o desejo de que cure o estado ou o comportamento do meu próximo". Isso é tirar a trave do nosso olho antes de olhar o cisco no olho do nosso semelhante.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

A Festa Junina está ai. E agora?


     Podemos dizer que as festas juninas já estão arraigadas na cultura brasileira, pois são celebradas em todo o território nacional há muito, mas muito tempo. Porém, os evangélicos não veem com bons olhos essa celebração, já que, entre outros motivos, seria uma festa pagã, realizada por católicos em homenagem a santos. Diante disso surge a dúvida: posso ou não participar de festas juninas?
     Os leitores do blog e da página Bíblia a fundo sabem que sou totalmente contra listas de regras e contra essa questão de “pode ou não pode”, pois essa ideia é uma deturpação de toda a revelação que temos da Palavra de Deus. Dessa forma, não avaliarei se pode ou não, se é certo ou errado, mas direi a minha resposta a certa pergunta e logo em seguida explicarei os motivos que me levaram a ter essa opinião. E assim, cada um analise: "Convém ou não"? Vamos lá:

“Caso alguém o convidasse para participar de uma festa junina, você iria?” 
Resposta: Se não tivesse nenhum compromisso marcado para a data em questão e se estivesse animado, iria sim! (Sei que este foi um momento de desapontamento e indignação para alguns leitores, mas peço que continue lendo até o fim). 
     Não tenho motivos para condenar essa festa e muito menos para impedir, por exemplo, que meu filho dançasse quadrilha na escola. Particularmente nunca dancei nessas festas por duas razões: primeiro, porque cresci em uma denominação evangélica legalista, que pregava ainda que qualquer coisa que você fizesse ou usasse seria “se assemelhar ao mundo” e estaria colocando a salvação em risco. Portanto, quadrilha e as comidas típicas de festa junina, nem pensar! Isso era "coisa do diabo e não, de crente"! A segunda razão é que nunca gostei muito das músicas e das danças típicas dessa festa, com todo respeito. Digamos que rodar em volta de uma fogueira e “fugir da cobra” não faz meu tipo. Mas assumo que muitas das comidas típicas são maravilhosas. 
     Vou então dizer o que eu penso em relação aos principais argumentos que vão de encontro às festas juninas:

"É uma festa dedicada aos santos; é idolatria!"
     O nome “junina” tem duas explicações: uma diz que é derivado do mês em que ocorre, e outra considera que é devido ao fato de ser uma celebração dedicada a São João (inicialmente teria sido chamada de “Festa Joanina”). Qual é a verdadeira? Não importa e não escolherei uma ou outra simplesmente para reforçar a minha opinião. De qualquer forma, devemos considerar o seguinte: a igreja católica banca muitas dessas festas e o lucro com elas é usado para as atividades da própria "igreja". Logo, se eu gastar meu dinheiro nesses locais, eu estarei financiando o catolicismo, certo? De certa forma, sim! Mas da mesma maneira que os católicos financiam as igrejas evangélicas quando compram rifas, roupas, pizza, feijoadas ou doces para ajudar nas festividades de jovens, de crianças, de senhoras. Nesses momentos, em que o dinheiro da pessoa que professa outra religião é interessante, não vejo esse mesmo argumento sendo levantado. É muita parcialidade e desonestidade intelectual. Dois pesos e duas medidas... O argumento só vale quando convém...
     Porém, muitos evangélicos não levam algo em consideração: foi-se a época em que era a igreja católica a detentora dos “direitos” sobre esse evento. Atualmente (exceto em algumas regiões brasileiras, principalmente no interior) os principais realizadores dessas festas não são lideranças religiosas; são escolas, creches, empresas, famílias e grupo de amigos. Nesses casos, sequer é falado em São João. Particularmente, em toda minha vida escolar, nunca soube que os alunos eram incentivados a adorar, venerar ou rezar para algum santo nessas épocas. Eram festas comuns, em que iam pessoas de várias religiões ou ateus e todos comiam e se divertiam, como se fosse uma celebração de aniversário.
     Mas digamos que seja totalmente ligada à Igreja Católica, se os que criticam tem tanta convicção que "os ídolos nada são", como pregam, qual o motivo da preocupação? 

"As comidas são santificadas aos ídolos!"
     Será? Não descartar a possibilidade de íntima relação dos alimentos com os alguns "santos", quando a festa é organizada pela igreja católica, mas quando é feita por pessoas que, muitas vezes, nem religiosas são, como poderia isso ocorrer? Um colégio iria se preocupar com São João, São Pedro e Santo Antonio? Um grupo de amigos que mais condena as religiões do que se identifica com alguma delas, irá realizar algo que sequer acreditam? Claro que não! O que querem, obviamente, é diversão e/ou lucro. Isso mesmo, nesse mundo capitalista o que importa para a maioria (seja Natal, Páscoa ou festas juninas) não é o motivo original da celebração, e sim, o dinheiro! Só lamento o fato de que a maioria das pessoas se tornam presas fáceis desse sistema e caem no consumismo desenfreado. Mas digamos que o diretor da escola seja um católico devoto e que santifique todos os alimentos da festa aos santos. Em seguida eu chego à festa, compro e consumo (sabendo disso ou não). E agora? Errei? Vamos refletir em I Coríntios 8:6-9, texto em que Paulo ensina sobre os alimentos sacrificados aos ídolos. Ele diz que se há um único Deus, não há sentido falar em coisas sacrificadas aos deuses, afinal são apenas enganações. E, se cremos que existe apenas um Deus, por que nos preocupamos com entidades pagãs (e podemos estender aos santos, neste caso)? Paulo dizia ainda que poderíamos comer de tudo, desde que não escandalizássemos os “fracos na fé”. Portanto, se tenho consciência disso, onde está o erro em comer milho, pamonha ou canjica nessas festas? São João (e os demais “santos”) foi um grande homem, importante na propagação das Boas Novas, mas não passa de homem! Morreu e está/estará com Deus assim como nós um dia estaremos.
     Não há sentido em adorar ou homenagear mortos. O único que morreu e que deve receber adoração e louvor é Jesus, mas veja bem: Ele é o próprio Deus que esvaziou-Se e Se fez carne. E ressuscitou! (E isso tudo não é o caso de João ou de outros "santos"). Mas como não devemos causar escândalo para os nossos irmãos mais fracos, o que podemos fazer é ensinar essas pessoas e não convidá-las para ir com você (nem precisa falar que você vai ou que foi), até que entendam que Jesus não só ia nas festas populares, como participava das mesmas, comendo e tomando vinho. Só não devemos ser motivo de tropeço para nossos irmãos (já que, na ignorância, podem achar que estamos fazendo essas coisas como idolatria), pois os amamos, correto?

“Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem.” (Marcos 7:15)

"O cristão não pode participar de festas mundanas, em que o foco não é Deus."
     Quem alega isso não deve ter ouvido falar de Cristo, que frequentava festas, que comia de tudo e que andava com os pecadores. Ele não vivia em uma “bolha”, como os “fariseus atuais" querem que vivamos. Afinal, se fosse assim, como Jesus nos ensinaria a ser sal e luz? Se for pra viver e se alegrar apenas entre os meus “irmãos”, serei sal no saleiro e um sal insípido. Pra que isso serviria?
     O que não dá pra entender (e não concordo) é o que muitos cristãos fazem nessas ocasiões. Dizem que a festa junina é do diabo e então criam o “Arraiá com Jesus”. Quanta maluquice... No fundo eles querem participar da festa tradicional, pois não veem nenhum mal nisso, mas como são proibidos pela "igreja" de participarem, dizem que é pecado e resolvem criar o mesmo evento só para “crentes”. Assim, criam a festa junina gospel, o carnaval gospel, o futebol gospel, a moda gospel... e por ai vai. Essas coisas só mostram que estamos sendo luzes embaixo da cama. Luz é para iluminar o mundo! Jesus nunca proibiu ninguém de participar de nenhuma festa. Também nunca criou nenhuma somente para os seus seguidores. Pelo contrário, Ele levava seus discípulos para as celebrações existentes. Deixe de criar segregação e de dividir as pessoas em "guetos". 

“Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:14-16).

"A festa junina humilha o 'caipira'."
     Nunca percebi uma humilhação ao caipira nessa ocasião. Não é por ele ser representado como um homem com roupas rasgadas, sujo e sem dentes que há humilhação. Isso se chama caricatura! É uma representação que exagera as peculiaridades ou defeitos de pessoas ou coisas, visando provocar um efeito cômico.
     Nenhuma regra, costume ou tradição pode se comparar aos ensinos de Jesus. Ele é a revelação plena e perfeita de Deus aos homens, de forma que o que está nEle é o modelo perfeito de humanidade, o ideal de Deus para cada um de nós.

     Resumindo: se tiver vontade de se vestir de caipira para se divertir e se achar que deve ir, vá; se quiser encher a barriga de milho, bom apetite! Na Palavra de Deus não cabe listinha de "pode e não pode" e tampouco o fato de você ir ou não será (ou deixará de ser) mais um "pecado". A questão aí é apenas sua consciência. Julgue se convém ou não ir e esse julgamento é individual. O que convém a mim pode não convir a você e vice-versa. Analise a si mesmo e viva consciente de suas escolhas. Deixe de ser marionete, de ser manipulado para fazer ou deixar de fazer algo. Porém, se deseja prestar uma homenagem a São João ou fazer um pedido de casamento a Santo Antonio, também é questão sua e não deve achar que todos vão a esses eventos com o mesmo objetivo que você! Só lamentarei se seu foco for esse. É sinal que não entendeu nada da mensagem da Cruz. Mas nunca se coloque como parâmetro para julgar o seu próximo.
     Então, se a sua consciência o deixa tranquilo, aproveite; se ela o acusa ou se você ainda tem dúvidas, não participe, pois um momento de alegria pode se transformar em angústia na sua vida mais tarde, apenas por você ficar com medo e com culpa. Entenda e creia na Palavra. Mude sua mentalidade (arrependa-se) e será um discípulo de Jesus, consciente e responsável.

Romanos 14:14 = “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.”

I Coríntios 6:12 = "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine."


Autor: Wesley de Sousa Câmara
Atualizado em 07/06/2015.

Pode até espernear, mas você está perdoado!


     Você querendo ou não, crendo ou não, se arrependendo ou não, já está perdoado; foi perdoado na Cruz! A única coisa que pode fazer é tomar posse (na consciência) ou não desse perdão, o que não mudará o fato propriamente dito (de que é acolhido por Deus), mas que mudará totalmente a sua experiência. Em vez de medo, ira e culpa, viverá em paz, amor e gratidão.
     Entenda: a sua fé EM Cristo (que por sinal é pequenininha, insignificante, falha, parcial) tem o papel de determinar a sua PERCEPÇÃO em relação ao que Deus lhe dá por Graça. Só isso. Ponto. Ela lhe dá consciência de sua salvação, ou seja, ela é a responsável por sua salvação na sua subjetividade, mas sua salvação propriamente dita, objetiva, concreta, real é garantida pela fé DE Cristo. Graças a fé do Verbo encarnado, você e eu fomos representados por Ele diante do Pai. Não somos causa de nada! Somos vítimas do Deus amoroso revelado em Jesus, que certa vez disse:

"Quem ama será amado de meu Pai e eu me manifestarei a ele..." (João 14)

     Outro texto bíblico:  
"Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor..." (Atos 3)

     Um leitor menos atento, sem uma compreensão global e consistente da Palavra, irá supor que nós somos a causa do amor e do perdão divino. Achará que nosso arrependimento (mudança de mentalidade) é o que muda a disposição de Deus em nos amar, salvar e perdoar (o que seria totalmente incompatível com a Graça, com o Evangelho e com os ensinos de Jesus, principalmente com suas parábolas, como a do "Filho pródigo").
     Quando amamos, não é que Deus não nos amava antes e agora passa a amar; quando amamos, estamos demonstrando, extravasando uma experiência que temos com Deus. Quem ama se doa, se entrega. E Deus é amor. Se amamos, experimentamos na vida e na consciência o amor de Deus por nós. Quem ama não duvida e percebe o amor divino sendo derramado sobre ele (Jesus se manifestando a essa pessoa). Quem não ama, também é amado por Deus (pois amor é a essência divina), mas não entende isso, não crê, não expande a consciência pra aceitar essa realidade (não passa por arrependimento), logo, vive na alienação de achar que não é aceito.
     Quando cremos, nos arrependemos (expandimos nosso entendimento com mudança de mentalidade), nos convertemos... nossos pecados são apagados, mas não na dimensão divina sim, na humana. Na Cruz nossos pecados foram objetivamente apagados. Acabou! Está consumado! Eu sou um ser histórico, vivendo agora, mas o que faço ou deixo de fazer não anula o que foi consumado por Deus na Cruz de Cristo. Seria muita prepotência minha pensar assim... Mas quando me arrependo, entendo o que foi feito POR GRAÇA (sem merecimento) por mim. Assim, tomo posse na minha vida, na minha consciência, na minha subjetividade de uma realidade que já foi implantada por Deus. Se creio e me arrependo, alinho meu ser a esse fluxo de vida trazido por Jesus. Viverei sem culpa, sem medo, em paz e em amor. Por isso o final do trecho diz: "...VENHAM ASSIM OS TEMPO DE REFRIGÉRIO PELA PRESENÇA DO SENHOR". Quando assimilamos isso, percebemos Deus conosco e nossa alma fica refrigerada, gozando essa paz. Do contrário, mesmo sendo nós perdoados na Cruz, continuaremos vivendo na ilusão e alienação do pecado, presos à mentira. Seremos como escravos livres, mas que não entenderam que são livres e por isso continuam na escravidão. O problema não está entre eles e quem os libertou e sim, entre eles e a mente deles que não mudou.
     Porém, isso que é bem óbvio, soa como uma grande heresia para a maioria dos cristãos atuais no Brasil, infelizmente. As pessoas sempre querem fazer algo para garantir o favor divino; sempre querem fazer uma barganha com Deus. Ter fé para descansar nos méritos de Cristo é muito mais difícil do que ter fé para fazer algo na ingênua intenção de conquistar algo da parte de Deus ou de fazê-lo mudar de opinião e, assim, mover Suas mãos para nos resgatar e nos abençoar.
     Mas voltando e resumindo: se eu não crer e não me arrepender, não serei menos amado por Deus, mas experimentarei um "inferno existencial", uma vida de engano e esse não e o ideal de Deus para nós.

     "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância". (João 10)

Autor: Wesley de Sousa Câmara

No amor não há medo


     O medo é natural. Faz parte da nossa humanidade e, assim como a dor, nos alerta e nos protege. É um mecanismo de defesa, que ajuda em nossa sobrevivência. Porém o medo acentuado, indiscriminado, obsessivo e patológico além de não nos proteger, nos degrada. Corrói o nosso ser; torna-nos excessivamente limitados e covardes. Priva-nos de viver em paz, em alegria e em liberdade.
     Em Cristo estamos livres, inclusive desse medo, afinal, Ele nos revela um Deus que é amor e "no amor não há medo, pois o amor expulsa o medo" (I João 4). Nem mesmo a morte é capaz de nos amedrontar.

"Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó morte, a tua vitória?" (I Coríntios 15)

"...nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 8)

     Termino com uma citação de Amy Welborn:

"O amor pode lançar fora o medo, mas alguns de nós devem tomar o desafio de João na direção oposta primeiro. Temos de deixar de ter medo, a fim de dar espaço para o amor. É fácil falar a outra pessoa sobre o nosso amor. Mas quando nutrimos temores no fundo de nossas mentes — "Será que ele me ama mesmo? Como ele poderia me amar?" ou "Se eu amá-la, será que ela retribuirá de fato esse amor, ou acabará me traindo?" — estamos nos esquivando. Somos cautelosos, sim, e talvez isso seja sábio algumas vezes. Afinal de contas, quem quer ser magoado? Mas o amor pode florescer se confinado por dúvidas e temores? Não. Creio que é o mesmo com o nosso amor por Deus. A fé amorosa — entregar nossas vidas a Deus em completa confiança — não pode acontecer se sonegamos alguma coisa por medo, quer seja o medo de punição ou o medo de que a coisa toda seja uma enganação. 'Senhor Jesus, coloco hoje meus medos de lado e abro em confiança meu coração para ti.' "

Autor: Wesley de Sousa Câmara

A razão é fundamental para a fé


"A verdade só se entrega a quem a ela antes se entregou" [Joel Costa Jr.]

     Quando leio essa belíssima frase, tenho a impressão que ela está no contexto da inseparável relação entre "fé" e "razão". Para exercermos a fé, é imprescindível que usemos a razão. Os animais irracionais não têm fé; as pessoas com graves deficiências neurológicas ou mentais não têm fé; um recém nascido não tem fé (afinal, a auto-entrega que faz aos cuidados da mãe é mais instintivo e impulsivo do que fruto de vontade e de consciência). Ou talvez essa expressão "não têm fé" devesse ser substituída por "não exercem fé", pois alguns alegarão que a fé é dom de Deus, logo, Ele dá a quem Ele deseja. Enfim...
     Veja bem: Uma verdade será sempre verdade, de forma objetiva, independentemente da fé de alguém, porém essa pessoa só tomará posse dessa verdade (ou seja, a verdade objetiva só se tornará verdade na subjetividade dela) se ela tiver essa fé, essa entrega, que por sua vez passa pela razão.
     Não é a toa que lemos:

"Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á." (Mateus 7:7-8)

"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". (João 8:32)

"Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele". (João 14:21)

     Repare que não somos causa de nada, porém devemos nos inclinar para nos apropriarmos dessas realidades; Deus é amor, ama a todos, porém só experimentarei esse amor se eu me entregar a esse fato. Essa realidade não depende de mim, mas a minha experiência com ela, depende.

     Destaco: Quando falei sobre a "Verdade" não me referi à sua origem e sim, à nossa apropriação da verdade como realidade em nosso ser. O que adianta Jesus ser a Verdade ("Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" - João 14) se eu o rejeitar? Ele continuará sendo a verdade, mas para mim, de forma subjetiva, isso não influenciará minha vida, ou melhor, minha consciência. Não usufruirei dessa Verdade derramada em Graça sobre mim. Mas se eu me entregar a essa Verdade (Jesus), em fé, aí experimentarei os frutos que por amor Ele me dá.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

"Base bíblica"? Não! "Base em Jesus"!


     A pergunta do cristão não deveria ser a ingênua, rasa e sem sentido questão: "O que a bíblia ensina sobre isso?" A pergunta, muito mais lógica e profunda, deveria sempre ser: "Como isso pode ser enquadrado dentro do que Jesus ensinou?"
     E como saberemos essa resposta? De forma concreta e objetiva, olhando para o INSTRUMENTO chamado "bíblia". É questão de foco, de diferenciação entre "meio e objetivo". Imagine uma estrada. Nosso alvo é chegar a um destino (que é salvação plena, transformação total à imagem de Cristo) percorrendo um Caminho (que é Jesus); nessa jornada temos placas de trânsito (que são as escrituras), que nos dão segurança e que confirmam em nossa subjetividade (compreensão) que estamos nesse Caminho.
     As placas estão inseridas dentro do contexto do ambiente que as trazem. Às vezes estão parcialmente encobertas por capim, descascadas, faltando um pedaço, opacas, com furos de tiros... Podem ter sido produzidas com metal ou tinta diferente, por pessoas diferentes, com objetivos não necessariamente idênticos. Mas o conjunto delas facilita que continuemos caminhando com segurança, pacificados, sem medo. Só isso que importa.
     Então repare: as placas não são o objetivo, nem o fim em si mesmas. Elas são fundamentais sim, mas para nos trazerem consciência histórica de uma realidade que transcende isso tudo, pois é divina. Uma realidade eterna que um dia tornou-se homem e que morreu em uma Cruz, ressuscitando ao terceiro dia. E a informação dessa Obra divina nos chegou concretamente por meio dessas placas (escrituras, à grosso modo compiladas em um único volume chamado "Bíblia").
     Lembre-se: a vida eterna encontra-se em Jesus e as escrituras, como Ele mesmo disse, são testemunhas históricas dEle, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Não confunda o Caminho com a sinalização do Caminho. Não atribua a algo um papel que "esse algo" nunca pretendeu possuir. É como o provérbio que afirma que quando alguém aponta o dedo para a lua, o sábio olha para a lua (objetivo, destino); já o tolo foca no dedo.
     Expanda sua percepção para a realidade, que é o objetivo. E agradeça a Deus por nos dar meios que facilitam esse nosso encontro histórico (de compreensão) com essa realidade.
     Então, ao invés de pedir "base bíblica" pra tudo, peça "base em Jesus" pra tudo e para refletir sobre isso obviamente a bíblia será a referência base. Do contrário, você será um mero idólatra, escravo do livro, dos textos e estará demonstrando que sequer consegue entender o que é a bíblia, de que é feita, estará ignorando os autores, contextos, compilação e intenções, bem como estará tirando o foco de Jesus, a Palavra de Deus que se fez carne e que habitou entre nós, como a própria bíblia é testemunha. Cuidado! Pode ter aparência de piedade, mas é ingênua ou enganosa idolatria.

Por: Wesley de Sousa Câmara

Ninguém pode herdar o Reino de Deus


     Algo que me espanta é a mentalidade predominante no meio cristão de que "pecado" é um mero ato imoral e que "pecador" é quem pratica esse ato. Nada mais raso e até mesmo, equivocado.
     Dizemos que somos discípulos de Cristo, mas não entendemos praticamente nada do que Ele ensinou. Se tivéssemos entendido saberíamos que nossas ações não determinam nosso Pecado e sim, que nosso Pecado determina nossas ações. Portanto, não é pelo fato de eu não ir pra cama com a vizinha, que eu deixo de ser adúltero; não é porque não dei um tiro ou uma facada em alguém que deixo de ser assassino. Todos somos isso tudo, no fundo, na "essência", adúlteros, assassinos, ladrões, embora nem todos transformamos isso que somos em atos objetivos na vida (e claro que não deveríamos mesmo).
     Então entenda: Nós somos pecadores não por pecarmos; nós pecamos pelo fato de sermos pecadores. Os nossos atos imorais, que chamamos de pecados, nada mais são do que consequências de nossa essência. São apenas sintomas de nossa doença (chamada "Pecado"). Portanto, pecado não é o que pratico; pecado é o que sou. Se tenho a capacidade de "pecar" (mesmo que eu ingenuamente ache que não peque) é porque sou pecador, afinal, um limoeiro não produz maçãs e vice versa. Produzimos frutos conforme a nossa espécie.
     Portanto, quando se diz que o injusto, o ladrão, o idólatra e o adúltero, por exemplo, não herdarão o reino de Deus (I Coríntios 6:9-10), não é motivo para comemorarmos o fato de não tirarmos a vida do patrão ou de não irmos pra cama com a vizinha. Afinal, como já disse, Jesus "jogou em nossa cara" que TODOS somos pecadores (adúlteros, assassinos, idólatras...), mesmo quando na exterioridade achamos que somos santos e puros. Ele disse: "adúltero não é o que vai pra cama com a mulher do outro e sim, quem olha pra mulher com um desejo impuro; assassino não é o que violenta contra a vida do próximo e sim, quem simplesmente se ira em algum momento contra ele" (Mateus 5). E isso devemos fazer com "todo tipo de pecado". Quando não pecamos objetivamente, pecamos subjetivamente. E Jesus deixou claro que diante de Deus não há diferença e que ninguém de nós escapa, embora hipocritamente (ou ingenuamente) vivamos gritando que "aquele que vive na prática de um pecado não herda o Reino de Deus" (o que é verdade).
     Consequência: todos "vivemos em pecado" (e também, em última análise, na prática dele), pois como somos pecadores, tudo o que sai de nós é, no fundo, pecado. Estamos "em pecado" o tempo todo. E é justamente por isso que precisamos do sacrifício de Cristo, da Graça de Deus para nos livrar da condenação do pecado (e também das consequências e dele propriamente dito, o que ocorrerá um dia). Não foi a toa que Paulo disse: "Dos pecadores sou o pior" (e ele não falava de seu passado e sim, do presente, pois reconhecia quem ele realmente era, chegando a afirmar: "O bem que desejo não faço e o mal que não desejo, pratico").
     Após entender isso (que é a Lei divina - que diz que todos somos pecadores e que pecadores merecem condenação), estaremos preparados para mergulhar no Evangelho de Cristo, que é o anúncio do que Deus fez por nós, em Cristo, por um ato de Amor e de Graça.
     Então quando eu ler: "Os injustos e os adúlteros não herdarão o Reino de Deus" não devo pensar que eu herdarei o Reino por eu não ser objetivamente um ladrão, um homicida e um adúltero. Devo entender assim: "Sou homicida, injusto, adúltero e muitas outras coisas ruins, pois o meu ser é assim, caído e pecaminoso, mesmo que eu não pratique esses atos por consciência, por repressão, por escolha ou por uma contínua mudança de mente, pois o que me faz esse pecador não é o que pratico; as coisas que pratico apenas são evidências concretas de que sou isso tudo. Ou seja, então não herdarei o Reino dos céus".
     Perfeito! É assim mesmo! Não tenho como herdar o Reino de acordo com o que sou (independentemente do que pratico); não alcanço o Reino com meus méritos, com minhas escolhas de não praticar algo mau. Somente tenho uma chance: ser contado como justo diante de Deus e isso não depende de mim, do que faço ou do que deixo de fazer; depende exclusivamente do que Cristo fez em meu lugar. Deus olha pra mim, pecador, e ao invés de um assassino e adúltero, vê um ser descansando nos méritos de Jesus. Ele olha pra mim e "não me vê"; Ele vê a Cruz, vê a perfeição de Jesus que me representou diante do Pai. Esse é o anúncio do Evangelho.
     E qual meu papel? Apenas crer (entregar-me em fé), o que gerará em mim uma mudança de mentalidade (que é o arrependimento provocado pelo Espírito Santo) e uma expansão de consciência para essa realidade que, querendo nós ou não, está consumada. A consequência disso é que desejarei viver o mais próximo que posso de Jesus, não me conformando e não me entregando ao Pecado (pois o pecado degrada nossa vida, corrói nossa alma, não é saudável e nem coerente com Jesus). Mas repito: tudo isso é fruto da Graça e da Misericórdia de Deus que me alcançou muito antes até mesmo de minha fé e de qualquer arrependimento se manifestar em mim. Somos vítimas da Graça divina e não, agentes dela.
     Pecado não é avaliado pela aparência, que é enganosa e sim, pela essência. Não deixe de ler Lucas 18:9-14. Isso quebra paradigmas, né? Pois é...

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Tatuagens e piercings: uma análise sobre vários aspectos


     É possível ser um cristão genuíno e, ao mesmo tempo, colocar piercing e/ou fazer uso de tatuagem? Adotá-los fere a essência da fé cristã? É algo que convém ou não? São questões às vezes discutidas, porém quase sempre as discussões giram em torno de dogmas, de um fundamentalismo cego ou de apologias diversas. Então, convido você a analisar esse assunto, juntamente comigo, levando em consideração a bíblia, o bom senso e as diversas culturas, em diferentes épocas. Vamos fazer também uma análise e ilustração dos principais usos de cada um deles.    
     Quem me conhece sabe que não defendo (e nem suporto) essa espiritualidade baseada em cartilha de regras e em listinhas de "pode e não pode". Tampouco vejo com bons olhos as tradicionais perguntas: "é pecado isso?". A questão do cristão não é se algo é ou não pecado (pois Pecado é o que somos, é nossa tendência para o mal, nossa inclinação para longe de Deus, nossa alienação em relação ao divino e não meramente o que praticamos, afinal, tudo que vem de nós é consequência, sintoma, desse Pecado que está em nossas entranhas, apesar de sermos justificados em Cristo); a questão do cristão deveria ser: "Convém ou não fazer isso?" (lembra do "Tudo [inclusive piercing e tatuagem] ME é permitido, mas nem tudo ME convém"? - I Coríntios 6:12 - e repare que é dito "ME convém", sendo que esse pronome na primeira pessoa do singular mostra que essa análise deve ser individual, ou seja, não tenho o direito de impor ao outro o que convém ou não a mim). Então começaremos tecendo um breve histórico (tentando fazer o mínimo de juízo de valores e evitando ao máximo as distorções) sobre as tatuagens e, em seguida, sobre os piercings.

Tatuagens:
     Existem há milhares de anos, possuindo, dependendo da época e do povo em questão, diferentes significados. Muitas vezes foram cultuadas e admiradas, enquanto outras, mal vistas e banidas de certos povos ou grupos. Porém, como se sabe, nem sempre existiu tecnologia para a tatuagem elétrica. Inicialmente, era feita com ossos pontiagudos e martelos de madeira.
     Nos hieróglifos egípcios existem evidências da existência de tatuagens, que são confirmadas quando se observa múmias de mulheres egípcias, como a Amunet (datada de 2160 a.C a 1994 a.C), já que possuem traços e inscrições na região do abdome. Também foram encontradas múmias nas montanhas de Altais, na Sibéria (com mais de 2400 anos), que apresentam ombros tatuados com animais, reais e imaginários.
     Entre 509 e 27 a.C., os imperadores romanos determinaram que fossem tatuados os prisioneiros e  os escravos; no século VIII, o papa Adriano I proibiu o uso de tatuagens, alegando que eram demoníacas.
     Conforme se expandiram as viagens marítimas, a tatuagem voltou a se popularizar na Europa, já que vários povos tinham esse costume. Evidências disso são os registros de Charles Darwin (datados de 1831 a 1836), feitos durante a viagem a bordo do navio “Beagle”. O famoso naturalista observa que a maioria dos povos do planeta conhecia ou utilizava algum tipo de tatuagem. E o uso dessa técnica continuou... Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os nazistas tatuavam um número no corpo dos judeus para identificá-los nos campos de concentração.
     Em 1961, após um surto de hepatite B, a Secretaria da Saúde de Nova York tomou uma medida drástica: proibiu a realização de tatuagens na cidade.

Piercings:
     O Body Piercing é uma forma de perfurar o corpo que, embora pareça moderno, tem uma origem milenar, começando nas primeiras tribos e clãs da espécie humana.
     No Antigo Egito, as escravas mais bonitas tinham jóias não muito brilhantes no umbigo e as mulheres ricas colocavam jóias de ouro. Era uma forma de classificar a beleza e o nível social da mulher.
     Na antiguidade clássica, precisamente em Roma, os gladiadores sustentavam suas armaduras nos mamilos perfurados, para demonstrar força e respeito; na Índia, durante a noite de núpcias, o noivo perfurava o nariz da esposa, como símbolo de fidelidade; muitos indígenas utilizavam piercings como uma forma de diferenciar as tribos e de mostrar a hierarquia dentro de seu grupo. Posteriormente, o uso de piercings espalhou-se pela classe média e pela aristocracia dos séculos XVIII e XIX, mas foi quase inexistente na Europa do século XX. Apenas na década de 1970 é que começou a se destacar novamente, até que, na década de 1990, houve um “boom” mundial do "Body-piercing", tornando moderno o que era primitivo.
     O piercing mais comum em toda a história é aquele colocado no lóbulo da orelha. Inicialmente, servia para distinguir uma pessoa rica de uma pobre, mas, atualmente, é a forma mais popular de usar jóias (brincos).
     Marinheiros colocavam piercings, pois acreditavam que estes lhes davam uma visão melhor; os romanos associavam esse acessório na orelha à riqueza e à luxúria; tribos sul americanas e africanas alargavam os furos, pois quanto maior o tamanho deles, maior era o status social.
     O nostril (colocado na aba do nariz) originou-se no oriente médio (há 4000 anos) e se espalhou para Índia no século XVI, sendo adotado pelos nobres. Cada tipo de jóia distinguia a casta e a posição social. Esse piercing foi introduzido no ocidente pela cultura hippie, nos anos 1960 e 1970, sendo também adotado pelos "Punks" e outras tribos urbanas, nas décadas de 1970, 1980 e 1990.
     O uso desses objetos nos mamilos era considerado um símbolo de força e virilidade. Os nativos da América Central, por exemplo, usavam como uma marca de transição da masculinidade.
     As castas mais altas dos Maias e dos Astecas adornavam seus lábios com jóias de ouro, já que essa região é uma parte sensual e erógena do corpo; as mulheres da tribo Makolo (África) colocam pratos nos lábios superiores para atrair homens; tribos indígenas da América Central e do Sul fazem piercings nos lábios inferiores e alargam os furos para colocar pratos de madeira; nos templos Astecas e Maias, os sacerdotes faziam piercings em suas línguas como parte de um ritual de comunicação com os deuses.

Discussão Social:
     Após esse breve histórico, percebe-se que o uso de piercings e de tatuagens, embora possa parecer um costume moderno e um ato de rebeldia, existe há milhares de anos em muitos povos do mundo. Porém, algo mudou na maioria dos casos: os motivos para a adoção dessas práticas.
     Inicialmente, esse costume tinha um caráter religioso (usado em rituais ou como amuletos), era um indicador social (marcação de escravos ou diferenciação de classes sociais) ou, ainda, indicava poder. Atualmente, o uso dos piercings e tatuagens, exceto em casos excepcionais, não tem essas motivações. Na maior parte das vezes, o desejo das pessoas em aderirem a essas práticas é sustentado pelo modismo (questões estéticas) e pelo gosto por arte corporal. Pode, ainda, representar uma forma de autoafirmação ou de busca da identidade pessoal. Assim, a pele torna-se um painel de declarações de sexualidade, frustração, tristeza, alegria ou raiva.
     Não se pode ignorar o preconceito em torno dos piercings e, principalmente, das tatuagens. Embora, aos poucos, os rótulos de “coisa do demônio” e “coisa de bandido” estejam sendo desassociados dessas “manifestações”, a sociedade ocidental, inclusive a brasileira, não as aceita com total naturalidade. Muitas pessoas ainda fazem juízo de valores, baseando-se nas aparências. Exemplos típicos são muitas empresas, que se negam a contratar pessoas com tatuagens ou piercings visíveis. O mesmo vale para serviços militares, que tendem a preferir os não tatuados. 
     Pesquisas mostram que metade das pessoas que fazem uma tatuagem na adolescência ou na juventude arrependem-se após os 40 anos de idade. Nossa mente passa por inúmeras transformações ao longo dos anos e, aquilo que era considerado “maneiro”, “radical” ou “fofo” passa a ser um incômodo na vida adulta madura e na terceira idade. Há ainda, muitas vezes, um arrependimento futuro, provocado por frases românticas ou pelo nome do companheiro (a) inscrito no corpo. Pior ainda são os casos de pessoas que tatuam símbolos desconhecidos ou expressões em outros idiomas, sem saber o seu verdadeiro significado.
     Mas vejamos, a título de curiosidade, uma série de tipos (e motivações) de piercings e de tatuagens que observamos em nosso meio:

Tatuagem como arte corporal: Muitas pessoas gostam de fazer do corpo um painel para que nele seja feito uma bela obra de arte. Gosto (e coragem pra enfrentar tanta dor) não se discute, né?








Tatuagem pra chocar e chamar a atenção pro "bizarro": Algumas pessoas são adeptas disso e pra elas, quanto mais "chocante", melhor. É cada uma... Mas são bem feitas.













Tatuagem sexy: Muitos gostam de tatuagens sensuais, a fim de estimularem visualmente seus parceiros. São feitas na nuca, pescoço, abdome, costas, glúteos, coxas, virilha, pés...











Tatuagem de cunho sexual: Por incrível que pareça algumas tatuagens tem se tornado símbolos de determinados comportamentos sexuais. Abaixo, dois exemplos: A tatuagem chamada de "Dama de Espadas" (Símbolo de baralho com a letra Q) e a "Sexy Wife" (Uma mistura das letras S e W), que possuem a conotação de "esposa que assumidamente mantém relações sexuais extraconjugais". São feitas nos seios, virilha, pernas, pés, costas... Às vezes são tatuagens definitivas e às vezes temporárias (como aquelas tatuagens de Henna que fazem em muitas praias).














Tatuagem religiosa: Alguns que não gostam de tatuagem as aceitam apenas nessa condição; outros, ao contrário, consideram essa associação uma blasfêmia. Mas enfim, muita gente tatua imagens de Jesus, versículos bíblicos inteiros, uma Cruz... E há até quem tente colocar símbolos "anti-religiosos"...






















Tatuagem com nome da pessoa amada: Essa é uma das mais comuns e muitos são os que tatuam nome dos pais, filhos ou do cônjuge no corpo. Aqui o cuidado deve ser redobrado, pois muitos tatuam o nome da (o) esposa (o) e em um eventual divórcio o nome fica, já que a remoção não é perfeita, é cara e não é todo tipo de tatuagem que gera um resultado satisfatório.




Tatuagem para melhora da auto-estima em casos de deficiências ou doenças: Esse uso da tatuagem, na minha opinião é o mais belo e louvável de todos, pois visa dar alegria a uma pessoa que sofre com um trauma ou com uma baixa-estima. Seja para cobrir cicatrizes, para simular um mamilo retirado em cirurgias de tumores, para encarar com bom humor uma deficiência de um membro... Não importa. Merecem aplausos os que dedicam esforço a isso.
































     Como já foi dito, os piercings são utilizados há milênios e o significado do uso em cada parte do corpo varia muito de acordo com a cultura. Em nosso contexto são usados geralmente como meros adornos, embora usos com fins ritualísticos e de distinção social ainda existam. Portanto, quando falamos em significado de um piercing colocado em alguma parte do corpo, estamos falando de uma abordagem religiosa, ritualística, embora a maioria das pessoas que o colocam sequer tem essa noção ou intenção. O que ocorre é que muitos criam uma série de alegações espirituais a fim de propagar superstições. Dessa forma, dizem que o piercing colocado em cada lugar específico representa um tipo de domínio espiritual (aprisionamento da mente, canalização de demônios, prostituição, luxúria...). Porém o significado existe apenas para quem atribui ao piercing esse papel. Para quem não defende esses significados, não faz sentido. É como um gato preto, que pra mim é só um lindo animalzinho, mas que para alguns é sinal de má sorte; é como uma travessa de farofa, que para mim é um delicioso alimento, mas que para alguns é objeto de rituais em encruzilhadas. Repare que algo só ganha significado quando quem o possui crê que há esse significado.
     Em nossa cultura geralmente o piercing é usado como adorno, como modismo ou como sinal característico de uma "tribo urbana", por exemplo. Poucas vezes quem o usa atribui a ele um papel "mágico". E os usos mais comuns são na orelha, na sobrancelha, no nariz, nos lábios, na língua e no umbigo. Há ainda quem os use nos mamilos e na genitália (masculina ou feminina). Outros, ainda mais incomuns, são colocados na úvula ("garganta"), na gengiva e nos dentes. Vale ainda citar os casos mais atípicos, em que a pessoa por algum motivo (necessidade de auto-afirmação, de atrair atenção ou de rejeição à sua aparência original ou qualquer outro motivo que não cabe a mim julgar) enche o corpo, inclusive o rosto, de piercings (bem como de tatuagens).

Diferentes usos dos piercings:























 




























Discussão Médica:
     Há uma crença muito difundida de que a região ao redor de uma perfuração no corpo torna-se mais sensível. Sendo assim, a colocação de piercings em zonas erógenas (como na língua, nos mamilos e nos órgãos genitais) faria com que a pessoa sentisse mais prazer numa relação sexual. Porém, cientificamente falando, não faz o mínimo sentido. A sensibilidade (ou, mais corretamente, a percepção de sensações) depende dos receptores nervosos presentes em cada local do corpo e da integração desses receptores com o Sistema Nervoso Central. A região pode tornar-se mais “sensível” durante uma inflamação, mas em condições normais, o piercing não altera a capacidade sensorial. O que pode ocorrer é que quando o piercing é movimentado (deslocado pra lá e pra cá) isso gera um estímulo mais forte no local, mas não muda a sensibilidade da pessoa. O fator psicológico também pode influenciar nessa “sensibilidade”, mas isso é mais uma questão de fetiche.
     O piercing não traz conseqüências clínicas sérias, desde que feito por pessoas qualificadas e tomando todos os cuidados necessários (esterilização do material utilizado, higienização do local, e uso de acessórios feitos em aço cirúrgico). Porém, mesmo com essas medidas tomadas, podem ocorrer pequenas lesões, que são comuns em qualquer perfuração, tais como: formação de queloide em pessoas predispostas, risco de traumas na pele (como rasgamento, caso enrosque em algo) e uma inflamação mais acentuada.

     Em relação às tatuagens, também devem ser tomados alguns cuidados:
- O tatuador deve ser profissional, pois qualquer erro pode causar um dano irreparável (seja estético ou clínico).
- Os materiais utilizados devem ser cuidadosamente esterilizados, pois há o risco de transmissão de inúmeras doenças (assim como na colocação de piercings), entre elas, a hepatite C e a AIDS.
- As tintas usadas devem ser especiais. Muitos tatuadores amadores utilizam (às vezes, sem saber) tintas derivadas de materiais orgânicos queimados e até tinta de caneta, o que é muito perigoso à saúde.

     A tintura da tatuagem fica armazenada, após a aplicação, principalmente em algumas células da derme, os fibroblastos. Essas células, além de não sofrerem com a descamação da epiderme, possuem uma vida longa, podendo resistir até à morte do indivíduo (o que explica o fato de ser definitiva).
     Os casos de dermatites alérgicas não são comuns e raríssimos são os casos de reações sistêmicas, devido à tinta. Porém, quando ocorrem, as cores envolvidas geralmente são o vermelho (à base de mercúrio) e o amarelo (à base de cádmio). São essas cores também que costumam “desaparecer” espontaneamente de uma tatuagem.
     Uma coisa importantíssima é que geralmente as tatuagens são critérios de contra-indicação de ressonância magnética, principalmente alguns tipos de pigmentos, e quanto maior o tamanho da tatuagem, maior é o perigo. Portanto, pense bem: após colocar alguns tipos de tatuagem, é provável que nunca mais poderá realizar este exame, especialmente se estiver próximo à área que deve ser examinada.
     Segundo as premissas da acupuntura (medicina chinesa e não, um tratamento espiritual  como alegam alguns leigos), não há, realmente, problemas na colocação de um ou dois piercings no corpo. Porém, como a visão acupunturista trabalha com pontos de comunicação energética no organismo, a realização de várias perfurações pode provocar, a longo prazo, uma disfunção de energia, que poderá ocasionar alguns problemas físicos e até doenças, como dores e depressão. É complexo...


Discussão Bíblica:
     Vejamos algumas passagens bíblicas usadas por alguns no intuito de condenar ou de defender o uso de piercings e de tatuagens:

Levítico 19:28 = “Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o SENHOR.”
     Os ritos de luto (considerados marcas do "paganismo") eram comuns nessa época, embora fossem condenados, como vemos nesse versículo. Porém, como todos sabem, o Pentateuco (os 5 primeiros livros da bíblia) não é nosso parâmetro, nem nossa base de fé. Nosso fundamento é Cristo, seguimos a tradição apostólica e o critério absoluto para avaliar tudo e todos é Jesus Cristo (ou o que sabemos sobre Ele com base nos evangelhos).
     Se alguém desejar seguir as leis hebraicas, não pode esquecer-se dessas:
- Não danificar a ponta da barba e não cortar o cabelo arredondado (v. 28); pena de morte para quem cometer adultério ou se relacionar sexualmente com animais (Lev 20:10,16); usar um manto com franjas nas pontas (Deut 22:12); se tiver duas mulheres (isso mesmo!), seguir as regras de herança (Deut 21 15-17)...
     Viu como só tiramos do contexto os textos que nos convém? Além disso o texto está se referindo à fazer marcas na carne em referência a mortos apenas. Sejamos sinceros...

Gênesis 24:47 = “Então lhe perguntei, e disse: De quem és filha? E ela disse: Filha de Betuel, filho de Naor, que lhe deu Milca. Então eu pus o pendente no seu rosto, e as pulseiras sobre as suas mãos”
     Observa-se aqui que o servo de Abraão colocou um pendente no rosto (nariz) de Rebeca, como sinal que ela tinha sido escolhida para ser a mulher de Isaque. Esse fato é um exemplo do uso desses acessórios (piercings) por essa cultura, os quais tinham um determinado significado. Porém, não somos hebreus, portanto não há lógica em usar esta passagem bíblica para defendê-los. Apenas estamos diante de um retrato do costume desse povo, nessa época. 

Êxodo 21:6 = “Então seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre.”
Deuteronômio 15:17 = “Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva.”
     Segundo William Coleman, além dessa perfuração feita com sovela de carpinteiro, havia outras maneiras de marcação de escravos. “Faziam-se tatuagens nas mãos e outros tipos de marcas na testa (Ez 9:4). Quinhentos anos antes de Cristo, os escravos do povo de Israel eram marcados com o nome de seu senhor gravado no punho.”
     São exemplos do uso de pircings e de tatuagens por essas pessoas. Porém, como vimos, não somos israelitas. Nossa cultura é diferente (por exemplo, não temos mais escravos, felizmente ). Sendo assim, usar esse tipo de texto como argumento para defender biblicamente o uso desses itens chega a ser absurdo.

I Coríntios 3:17 = “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.”
     No versículo 16, lemos: “Não sabeis que sois o templo de Deus...” Paulo considera a comunidade cristã como "Corpo de Cristo" e o como "Templo de Deus". Portanto, aqui, sequer está sendo dito que cada indivíduo é um templo, então como alguém associa essa "destruição do templo" com algo feito para modificar a aparência? A destruição do corpo não se refere, portanto, a ferir ou prejudicar uma parte do corpo humano, mas a não cuidar corretamente da comunidade de cristãos.

I Coríntios 6:19, 20 = 
“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.”
     Aqui (ensino sobre a fornicação) o contexto é diferente do capítulo 3. No versículo 15 constatamos que somos membros do Corpo de Cristo (que é a cabeça). No versículo 19 há a afirmação que “o vosso corpo” (agora sim, o corpo humano de cada um de nós) “é o templo do Espírito Santo”, pois, se juntos somos o templo, individualmente somos parte (membros) desse mesmo templo. De qualquer forma, o ensino é contra um tipo de pecado sexual e não há menção sobre aparência. Porém, mesmo que houvesse relação com a aparência, o que representaria a colocação de um piercing ou de uma tatuagem? Pichação e colocação de badulaques no templo de Deus ou um enfeite na parede desse templo (semelhante ao caso de fazer um furo e pendurar um quadro)? A resposta depende da opinião de cada um, mas perceba que coisas opostas podem ser defendidas usando o mesmo texto. 

Gálatas 6:17 = “Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.”
     O apóstolo ensinava que não era a circuncisão ou a incircuncisão que importava. Paulo foi torturado (II Coríntios 11:23-28), assim como Jesus, e essa perseguição causou-lhe feridas e cicatrizes. Para ele, essas marcas que trazia no corpo (que representavam a luta para a disseminação do Evangelho) eram muito mais importantes do que o fato de ser ou não circuncidado. Paulo não se refere às tatuagens, nem aos piercings, muito menos afirma que as marcas que ele carrega são necessárias a todos os cristãos (embora sejam vistas como sinal de trabalho para Deus) ou que são os únicos sinais que podemos ter no corpo. Então, o que podemos extrair daí? Não importa as marcas referentes aos costumes de um povo (como o uso ou não de piercings e tatuagens), o importante são as marcas de uma vida de entrega a Deus.

Romanos 14:21 = “Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça.”
I Coríntios 8:13 = “Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize.”
     Paulo defende que devemos agir sempre de acordo com a nossa consciência, desde que esteja segura (Romanos 14:22). Porém, tão importante quanto isso é não escandalizar os fracos na fé (novos cristãos que ainda não tem muita convicção para agir com a consciência limpa), tendo caridade para com eles, abrindo mão de algumas coisas para que não venham a tropeçar.  Portanto, se usar piercing ou tatuagem fizer com que meus irmãos novinhos na fé se escandalizem, é bom evitar, pelo menos até que entendam que a Palavra de Deus é tão grande que essas coisas são insignificantes. Mas não sejamos hipócritas, pois será que abriríamos mão de usar a internet se um irmãozinho desses se escandalizasse?

I Coríntios 6:12 = “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.”
     Esse trecho é um resumo de todo o ensino de Paulo. Não se trata de ser ou não ser pecado, mas de analisar se favorece ou prejudica nossa espiritualidade. Essa é a análise a ser feita: o piercing e a tatuagem acrescentarão algo de bom, não terão nenhuma influência ou prejudicarão a sua vida cristã? Caso haja prejuízo, devem ser rejeitados, assim como qualquer outra coisa (televisão, computador, internet, skate, chiclete, camisa azul...). Mas repare que Paulo usa o pronome "ME" (1ª pessoa do singular), evidenciando que essa análise de consciência é individual. Portanto, cada um analise a si mesmo e não queira impor os limites de sua consciência a outros. Algo ruim pra mim pode ser normal para meu irmão ou algo inofensivo para mim pode ser um mal a ele. 

I João 3:20 = “Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas.”
     Novamente é preciso entender o contexto. Deve-se ler desde o versículo 18. O amor e a busca pela vivência da vontade de Deus são importantes, mas, se mesmo assim o nosso coração (consciência) vier a nos condenar, Deus é muito maior e mais perdoador que o nosso coração. Algumas pessoas interpretam o versículo de forma totalmente oposta. Entendem que se nossa consciência nos condena (por exemplo se ela fica culpada ou com medo pela colocação de uma tatuagem ou um piercing), Deus nos condenará ainda mais. Um absurdo!

     Além dos trechos bíblicos citados, muitos outros argumentos são usados para condenar o uso dos piercings e das tatuagens. Reafirmo que não tenho a intenção de defendê-los nem de condená-los e sim, de analisar o assunto da forma menos tendenciosa possível.
    Alguns alegam que não devem ser usados por haver riscos à saúde. Porém, se tudo o que for arriscado também for "pecado", teremos de incluir várias outras coisas que muitos de nós fazemos, tais como: jejum, frequentar uma igreja que faz muito barulho, dietas, uso de qualquer medicamento (pois praticamente todos tem efeitos colaterais), malhar excessivamente, praticar esportes radicais, viajar (risco de acidentes), comer doces, almoçar no Mac Donald's, tomar Coca-Cola... Concordo que não são todas essas coisas que um médico incentivaria, porém, dizer que tudo isso é "pecado" por fazer mal à saúde é totalmente ilógico.

Conclusão
     Embora eu não use piercings ou tatuagens e não tenha a intenção de usá-los, não posso condená-los com argumentos sociais, médicos ou bíblicos. Colocar um piercing é como colocar um brinco em um lugar diferente. Pode-se usar um enfeite no cabelo ou uma correntinha no pescoço, mas é errado usar um piercing? É permitido usar uma estampa na camisa, mas, se tiver no próprio corpo é uma ofensa?
     Não é pelo fato de algumas tribos usarem piercing ou tatuagens em alguns rituais, que todos que colocarem estarão fazendo o mesmo. Uma galinha, por exemplo, pode ser usada num almoço ou na magia negra; uma faca pra mim é um instrumento para preparar alimentos, mas para um assassino é uma arma. Esses objetos são amorais (nem bons, nem ruins). O que determina se serão úteis ou prejudiciais são as intenções de quem faz uso dos mesmos.
     Precisamos muito mais de bom senso e de boa conduta do que de regras. Paulo disse aos Colossenses (capítulo 2) que submeter-se a regras proibitivas, como "Não pegues, não toques e não manuseies" tem só aparência de sabedoria, mas não tem poder nenhum contra a carne. As tatuagens e os piercings em si não tem poder de interferir numa relação com Deus que é ditada pela Cruz de Cristo. Não tem nada a ver com a salvação de alguém (querer anular a Obra de Cristo, a Graça de Deus, por uma mera marca na pele é o cúmulo do absurdo). Tem a ver, no máximo, com o que você aparenta ser neste mundo. Se o motivo de alguém fazer uso delas é estético ou para homenagear alguém amado, por exemplo, não vejo problema algum. Contudo, vale o bom senso. A diferença entre remédio e veneno é a dose. Encher o corpo dessas coisas, convenhamos, não é legal. Mas um discreto “enfeite” desses, desde que não seja uma manifestação de rebeldia, não deveria ser motivo de escândalo. Discordo quando são adotados exageradamente ou quando são usados com intenções não coerentes com o espírito de Jesus (que não visa a paz, o amor, a comunhão...). Mas perdermos tempo com esse tipo de questionamento, com medo de ser ou não algo que afasta alguém de Deus, chega a ser risível, pois a Palavra de Deus é tão grande, tão profunda, que esses assuntos sequer deveriam ser assuntos. Porém infelizmente, como a maioria vive uma espiritualidade de aparências, de dogmas e de tradições acaba sendo necessário abordar esses temas para quem sabe esclarecer a alguns e ajudar aqueles que vivem angustiados por medo e por culpa. 

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Referências:
Bíblia de Jerusalém
COLEMAN, William L.. Manual dos tempos e costumes bíblicos. Editora Betânia. 1ª edição. 1991.
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI132738-17770,00-CONHECA+A+HISTORIA+DA+TATUAGEM.html
http://www.anjossonhadores.hpg.com.br/
http://www.blueanimal.com.br/historiapiercing.asp
http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/13072
http://www.jvanguarda.com.br/2006/06/23/historia-do-piercing/
Imagens encontradas livremente na internet