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Pior do que um "bom incrédulo" é um "mau cristão"


     Há 3 tipos de pessoas quando se fala em fé cristã: "incrédulo genuíno", "cristão consciente" e "mau cristão".
     O incrédulo, justamente por não crer, não se preocupa com nada. Vive sua vida como acha que deve viver, aproveita ao máximo e geralmente tenta ser uma boa pessoa pela razão da vida ser curta e por essa vida ser a única chance que tem de amar e fazer o bem a alguém. Porém, muitos incrédulos vivem angustiados, justamente pelo fato da vida ser curta e da morte ser o fim de tudo. Logo, o homem não passa de mera criatura que vem e vai, sem nenhum propósito maior.
     O cristão consciente, por sua vez, sabe que é um pecador e que merece a condenação, pois não é digno de ser aceito e acolhido na perfeição e na pureza de Deus. A Lei divina é pra essa pessoa, um espelho que a desmascara, que revela o quão imperfeita é e mostra que ela merece a morte. Porém, ela é consciente e mergulha no Evangelho da Graça, na boa notícia de que "mesmo merecendo a morte, Deus nos abraça em Cristo, nos ama, nos acolhe, nos perdoa e promete que um dia seremos plenamente restaurados à imagem perfeita de Jesus". Sendo assim, não é arrogante, nem prepotente (pois sabe que é pecador) e não tem nenhuma ingênua tentativa de agradar a Deus por seus méritos, pois sabe que Deus se relaciona conosco sem nenhum merecimento nosso (por Graça) e com base na perfeição de Jesus. Esse cristão consciente não pretende fazer nada por merecer. Vive o melhor que pode, olhando pra Lei não mais como algo que o condena e sim, como um alvo que não pode alcançar nesse mundo, mas que continua sendo o alvo e dele não desiste, pois esse alvo é tudo que gera amor e vida. E essa lei, assim como o Evangelho foi revelada plenamente em Jesus. Ou seja: somente olha pra Jesus, pois nEle está o modelo de perfeição, bem como a garantia do perdão por estarmos aquém disso. Em Cristo reconhece quem todo homem é (pecador) e em Cristo reconhece quem Deus é (um Deus que é amor e que o acolhe incondicionalmente, por Graça).
     Já o mau cristão não é aquele que peca a todo momento (pois isso todos fazemos, embora todo cristão genuíno lute contra isso, pois os "pecados" denunciam alienação e um fluxo anti-vida e anti-Jesus). O mau cristão é aquele que não descansa nos méritos de Cristo. É aquele que nutre uma ingênua prepotência de conquistar o favor divino (salvação, bênçãos...) através de seu próprio esforço ou de suas obras. Porém, como esse "pseudocristão" acha que tem créditos/débitos com Deus, vive uma espiritualidade antropocêntrica (em contraste com a cristocêntrica do genuíno cristão), cheia de barganhas, culpa e medo. Acha que é ele, em vez de Cristo, o foco e a causa de tudo. Sendo assim, vive olhando para si mesmo para saber se está sendo bom o suficiente, se está produzindo frutos o suficiente, se está tendo fé o suficiente e se está negando o pecado o suficiente para ser salvo. Coloca como objetivo não o andar o mais próximo de Jesus, por amor, gratidão e adoração e sim, o interesse pelo "céu". Porém, como tenta alienadamente ter méritos com Deus, vive fracassando e no dia a dia vai percebendo que é imperfeito e que não consegue ser bom o suficiente. Assim, como não descansa na Cruz e como acha que não é apenas vítima do amor de Deus e sim, um ser que participa ativamente da "conquista de sua salvação", é uma pessoa ansiosa, atormentada pelo medo do "inferno" e da condenação. Não tem a paz do genuíno cristão e vive mais atribulado que o incrédulo, pois este, no máximo é desiludido pelo fato da morte ser o fim, mas não vive com medo de uma condenação pós-morte, eterna. Já o mau cristão é alguém que vive traumatizado, com medo, culpado e nutrindo um narcisismo, um egocentrismo, olhando a todo momento para dentro de si, tentando encontrar uma segurança que naquele momento não está com pecado que o afaste de Deus. Ou seja, o falso cristão vive com medo do inferno, mas esse medo já é uma experiência em vida do inferno. Por isso há tantos cristãos vivendo mentalmente atribulados. Uma espiritualidade doentia dessa é pior do que a ignorância acerca de Deus.
     Que sejamos bons cristãos e que tenhamos uma espiritualidade sadia, baseada 100% em Cristo, sem culpa por nossos pecados ou medo de condenação, pois cremos no Cristo que nos promete vida. Estamos crucificados com Ele, de forma que não tememos a morte, pois quando Cristo ressuscitou, ela foi vencida. Ela não é o fim, porém mais do que isso: para o genuíno cristão ela não é algo que alimenta insegurança por um "juízo divino"; ela é apenas a passagem da vida terrena para a vida futura; é a mudança de um corpo mortal para um corpo incorruptível; é a consumação da transformação de um ser relativo e pecador em um ser à perfeita imagem e semelhança de Jesus. Essa é a esperança cristã. Espero que você esteja nesse grupo.

"Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte." (Romanos 8:1-2)

"Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 8:38-39)

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Sua teologia depende de uma série de fatores


     Recentemente ficou famoso na internet esse vestido que originalmente é azul e preto, mas muita gente olha para ele e "jura" que é branco e marrom. Como assim? Ora, na imagem original dele ocorre uma combinação rara e exata de luz que cria uma ilusão de ótica, ou seja, devido ao ângulo de incidência da luz, somado às cores e à luminosidade de todo o ambiente (fundo), nossos olhos fazem uma adaptação para enxergar o objeto da forma mais realista possível e isso pode gerar uma "ilusão" em nosso cérebro, a ponto de muitos de nós termos certeza que o vestido azul e preto na verdade é branco e marrom.
     O que quero dizer com isso? Que o que enxergamos depende de nossa "lente". Todos somos humanos parciais, relativos, sendo que aquilo que vemos e que temos tanta certeza que é a realidade, muita vezes não é. E isso vale para toda nossa vida. 
     Esse caso do vestido achei perfeito para ilustrar as constantes disputas entre visões teológicas (catolicismo, luteranismo, calvinismo, arminianismo...). Cada um está enxergando com sua lente e defende essa visão que tem como se fosse absoluta. Por isso essas discussões nunca tem fim. Ambos os lados estão convencidos que estão com a razão, apresentando evidências aos montes, embora desconsiderem que só estão enxergando aquilo que a lente deles lhe permite enxergar.
     Mas nisso tudo o ponto que queria chamar mais a tenção é justamente o fato de o determinante para cada pessoa ter essa percepção da cor do vestido ser a luminosidade e a cor do ambiente que está ao redor. 
   Portanto, entenda que independentemente de qual tradição teológica cristã você siga, provavelmente seu irmãozinho que discorda de você está falando do mesmo vestido, ou melhor, do mesmo Deus que você, porém a percepção de vocês é divergente por todo o contexto seus. Seja pela teologia que cresceu aprendendo, pela cultura, pela preferência, pela forma de criação, pelas experiências pessoais ou religiosas... Cada um está "olhando para o mesmo Deus" dentro do seu ambiente, do seu contexto, com sua lente e a conclusão que cada um chegará terá influência de tudo isso. 
     Então, acredite, meu irmão (ã). O que você crê não é algo sem motivo, não é "puro" e nem simples e tampouco poderá afirmar que é a verdade absoluta. Essa compreensão que tem é apenas a sua percepção da verdade, que é Deus revelado em Cristo. Sigamos com humildade na busca pela "imagem mais coerente possível" com a realidade, tendo sempre em mente que a nossa percepção não muda o que de fato é fato!

Autor: Wesley de Sousa Câmara 

Deus: não entendemos, mas discernimos


     Muitos dizem que pode ser Deus agindo até mesmo alguns absurdos, com a alegação que não O entendemos e que Ele tem Suas formas de agir. A alegação está correta, mas não podemos dizer o mesmo que Deus pode estar se manifestando nesses acontecimentos absurdos. Se Ele é Deus e nós não, certamente (como dizia Paulo) não o entenderemos além do que Ele decide revelar a nós. Porém Ele nos deu um parâmetro perfeito, absoluto, que é Cristo. Quando olhamos para Jesus vemos tanto o que Deus deseja que sejamos quanto vemos como Deus é ("Quem vê a mim vê o Pai", disse Jesus). Então Ele deve ser nossa referência para avaliar tudo e todos.
     Precisamos primeiramente ler os quatro evangelhos, pois eles nos revelam historicamente o Cristo. Conhecendo como Ele era, como Ele agia em cada situação, em cada contexto, saberemos julgar tudo "segundo a reta justiça".
     Não precisa entender tudo o que Deus faz, mas quando olhar qualquer coisa à sua volta poderá avaliar se é coerente ou não com o "espírito de Jesus". Se é coerente, pode dizer: "Isso é de Deus" ou, pelo menos, "é coerente com a vontade de Deus". Se algo é avesso ao espírito de Jesus (lembrando que Ele nos ensina: amor até pelo inimigo, perdão quantas vezes for preciso, fazer o bem a todos, não se promover, acolher, ajudar, ensinar, não desejar vingança...) tenha certeza que aquilo não provém de Deus, não importando quem afirme que seja divino, afinal, Deus é absoluto, perfeito, imutável, eterno... Ele não é Deus de confusão para revelar algo em Jesus e agir de forma oposta; Ele não é mentiroso ou "bipolar", o que o tornaria um ser nada confiável; Ele não é hipócrita para nos ensinar a viver de uma forma e Ele mesmo ser de outra, até porque o propósito da salvação é nos transformar à perfeita imagem e semelhança de Cristo. Deus é o que Jesus revelou que Deus é: Amor!
     Então não tenha medo de julgar as coisas tendo Jesus como parâmetro. Deus nos deu a razão para usarmos. E se não tivéssemos Jesus como referência absoluta para discernimento, sequer poderíamos diferenciar Deus do diabo, afinal, um "deus" que não tem um critério absoluto para agir pode fazer o que bem entende, mas o Deus que realmente pode fazer o que bem entende resolveu não fazer tudo o que Seu poder é capaz e sim, tudo o que Seu amor pode realizar. E esse amor decidiu que salvaria uma criaturinha maldosa como você (e eu) por pura Graça, em um ato que ficou conhecido como "Cruz". Somos apenas vítima desse Deus. Ele é soberano e decidiu que seria amor. Quem ousará questioná-lo? Apenas agradeçamos e vivamos o mais próximo que podemos (não por obrigação e sim, por gratidão e em adoração) de Sua vontade revelada plenamente em Jesus.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Dicionário cristão "fundamentalista"


SEITA: Toda religião ou segmento religioso que não seja o meu.

HERESIA: Toda crença ou visão teológica que diverge da minha.

BASE BÍBLICA: versículos da bíblia que, na minha interpretação, apoiam a minha afirmação.

PALAVRA DE DEUS: A minha interpretação das escrituras.

EVANGELHO PURO E SIMPLES: A minha compreensão bíblica.

LIBERAL: Todo aquele "menos conservador" do que eu, ou seja, que faz o que considero pecado.

CONSERVADOR: Todo aquele "menos liberal" que eu, ou seja, que deixa de fazer o que considero que "não tem nada a ver".

HOMEM DE DEUS: Todo aquele que pertence ao meu segmento religioso ou que defende a minha linha teológica (ou a minha compreensão da Palavra, já que não gosto de admitir que sigo uma linha teológica).

PECADO: Tudo aquilo que é errado e que não pratico.

PECADOR: todo aquele que comete atos imorais diferentes do que eu cometo.

SALVAÇÃO: ir para o céu como eu irei..

SALVO: todo aquele que é, em termos de fé, muito semelhante a mim.

JUSTO/JUSTIFICADO: Todo aquele que segue minhas crenças.

SANTO: todo aquele que abre mão de fazer aquilo que eu também abro.

INTERPRETAÇÃO DO APOCALIPSE CORRETA: a minha.

TEOLOGIA DA SALVAÇÃO QUE DEUS SEGUE: a minha.

HEREGE/FALSO PROFETA: Todo aquele que prega uma compreensão cristã diferente da minha.

PERFEITA IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS: Eu, é claro.

E não é que a maioria pensa assim? E mesmo sendo uma sátira, uma caricatura ainda assim acaba representando com exatidão o pensamento de muitos cristãos. Esse é o nível de espiritualidade de boa parte das pessoas, infelizmente...

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Confrontando o pecado... do outro, claro!


     Entendo que Evangelho é a "boa nova", a boa notícia de que "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo, não imputando ao homem seus pecados", mas entregando-se por ele, para que tivesse salvação.
     O "chamado do Evangelho" (se é que podemos dizer assim, afinal "Evangelho" é notícia e não, demanda) é para vivermos nessa consciência (de crer, de mudar de mentalidade/arrependimento, de descansar...), respondendo em amor à vontade de Deus, vontade essa que entendo ser a Lei de Deus.
     Portanto, Evangelho não tem a ver com o pecado que eu cometa ou que eu seja (afinal Pecado é um estado, é o que eu sou, muito mais do que coisas que pratico) e sim, com o perdão do meu pecado. "Confrontar o pecado" é Lei e não, Evangelho (dentro desse paradigma que adoto, que pode ser lido clicando aqui). O que quero dizer com isso? Para que o Evangelho (que é o anúncio de que estou salvo e reconciliado com Deus) faça sentido, tenho que mostrar a Lei (que é a perfeição de Deus, da qual todo homem está distante e que é o ideal de Deus para a vida humana), mas só o Evangelho é capaz de fazer com que pecadores como nós pudessem se tornar justos.
      "Evangelizar" é anunciar essa obra de Cristo, que para fazer sentido, obviamente tenho que mostrar porque isso se fez necessário (mostrar a Lei de Deus). Agora, "apontar os pecados da pessoa" é algo totalmente errado, a meu ver. Uma porque todos pecamos e é hipocrisia achar que o pecado do outro é mais grave que o meu. Jesus se entregou não meramente pelos pecados que praticamos, mas pelo pecado que somos, pelo pecado original (lá no início, quando o homem, em Adão, escolheu o afastamento de Deus), pois o que praticamos é apenas consequência, sintomas dessa doença que está enraizada no homem. É essa reconciliação que Deus faz.
     Se apontamos o pecado de alguém, estamos mostrando o cisco no olho do próximo quando temos uma trave no nosso. Quem convence o homem do pecado não somos nós, é o Espírito Santo (João 16:8). Cabe a nós mostrar que todo homem (desde o que achamos mais santo até o que julgamos pior pecador) é pecador, estava afastado de Deus e Cristo nos levou de volta a Ele, de forma que uma vez sido reconciliados, devemos entender a grandiosidade deste ato em Graça e assim, sermos constrangidos em amor e em gratidão a vivermos o mais próximo que podemos da vontade divina, pois isso tudo (inclusive essa nossa entrega já, aqui e agora) é salvação.
     Quem entende o Evangelho e tem o Espírito na vida não tem prazer em viver pecaminosamente. Ainda pecará? Claro! Mas os pecados serão "acidentes" na caminhada (ou melhor, consequências inevitáveis de nossa natureza pecaminosa) e não, um estilo de vida, uma escolha deliberada. Nosso modelo de vida é Jesus Cristo, de forma que tudo o que não se assemelha a Ele, não é a vontade de Deus para nós (se quiser chamar isso de "pecado", sem problemas). Portanto, quando apontamos o "pecado" de alguém, estamos agindo diferente de Jesus ou seja, poderia dizer que nós "estamos pecando ao apontar o pecado". Jesus, diante da mulher adúltera, não a acusou, não apontou. Fez com que ela se enxergasse, com que ela percebesse que estava em uma vida má. Perdoou-a e a instruiu: "vá, viva, seja livre e feliz, mas não peques mais (não continue nessa escolha deliberada de algo que não lhe traz vida)". Esse é nosso papel: mostrarmos Cristo, que é o nosso alvo e a partir disso, todos saberão o que é ou não correto. Não é questão de fazer listinha de pecados, de proibições e sim, de consciência moldada na Palavra. Isso é "ter a mente de Cristo".

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Desabafo "teológico"

     O povo briga por cada coisa... Se você é católico, calvinista, luterano, arminiano, universalista ou qualquer outro "...ano" ou "...ista", entenda:
     Só foi, é e/ou será salvo aquele que Deus deseja. O que eu e você pensamos muda a nossa crença, mas não muda Deus. Então se no "céu", seja o céu um lugar lá no alto ou aqui na Terra, tiver só uma pessoa, amém, Deus quis assim; se tiver todo mundo lá, amém, Deus quis assim.
     Se o inferno é um lugar físico ou "apenas" uma experiência de total ausência de Deus, sem que isso implique em um espaço físico diferente, terá sido porque Deus quis desse jeito. Se no inferno, seja como for, estiver "vazando gente pelo ladrão" ou se estiver mais vazio do que mercado no final do mês, amém, Deus quis dessa forma.
     É claro que há uma variação enorme de interpretações teológicas, umas mais coerentes e outras nem tanto, mas é tão difícil aceitar que TODAS as teologias são parciais, relativas, imperfeitas e que se Deus for levar em conta nossos equívocos doutrinários realmente ninguém se salva? É difícil colocar na cabeça que não existe "uma posição bíblica sobre algo" e sim, uma "interpretação bíblica com base em critérios e premissas pré-estabelecidas que, usando a bíblia como base, chega a uma certa conclusão"? Poxa, gente. Todos erramos e acertamos, mas cada um defende aquilo que lhe soa mais coerente e provável. Um dia, "na Glória", quem sabe saberemos quem de nós chegou mais perto do que realmente corresponde à realidade.
     Vamos amar mais, respeitar mais, tolerar mais e brigar menos. Chega de fanatismo e radicalismo. Se acha que sua compreensão é perfeita e a exata revelação detalhada do Espírito Santo, só lhe digo uma coisa: desse "deusinho" que cabe dentro de sua cabecinha humana limitada eu sou o mais fervoroso ateu. Creio no Deus eterno, soberano e absoluto, que revela o que Ele quer e como Ele quer e que aquilo que o homem pode compreender não é nem a sombra de Sua plena essência. Mais humildade e menos arrogância.
     Pronto, falei!

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Ao mesmo tempo, justo e pecador! (“Simul justus et peccator”)


     Não irei aqui realizar um tratado teológico e tampouco me prender demasiadamente à linguagem ou conceitos excessivamente “técnicos”, pois a ideia é passar de forma objetiva e clara aos leitores o que quero dizer quando adoto essa expressão e mostrar a todos que não é pelo fato de alguém ter passado (ou estar passando) pelo processo de conversão que deixou (ou deixará) de ser um “pecador”.
      A expressão latina “Simul justus et peccator” (que traduzido é “ao mesmo tempo, justo e pecador”) tornou-se muito conhecida no meio teológico devido a Martinho Lutero e claramente tem uma inspiração na “Omnis homo Adam, omnis homo Christus”, de Santo Agostinho, em que há uma série de interpretações, sendo que uma delas é que “todo homem é imagem de Adão (com uma natureza identificada com ele, com uma tendência à rejeição divina, com sua inclinação pecaminosa) e todo homem é imagem Cristo (pois na Cruz recebemos essa condição de sermos identificados com Ele), sendo a salvação esse processo de transformação do homem, tirando-o do estado de ‘imagem de Adão’ e colocando-o no estado de ‘imagem de Cristo’.” Ou seja, na conversão passamos a ser cada vez menos identificados com Adão e cada vez mais identificados com Cristo, sendo que essa transformação um dia será plena (II Coríntios 3:18; Romanos 8).
     Essa frase resume a justificação na teologia luterana e a considero esplêndida para resumir a nossa condição perante Deus e perante o mundo. Porém ela não é tão simples, já que o sentido dela depende muito do contexto em que é aplicada. Lutero a usou com diferentes significados e atualmente se interpreta essa questão também de forma diversa. Tentarei sem bem simples (mas terei que usar alguns termos “teológicos”), não aprofundando muito para não ser simplista:
     Primeiro precisamos diferenciar “justificação” de “santificação”. Cada uma delas aparece em um sentido. A justificação é mais ampla e tem dois aspectos: um chamado “forense” (total) e um chamado “efetivo” (parcial). Essa segunda também pode ser entendida como “santificação” ou “regeneração”, que são termos que cada linha teológica interpreta de uma forma, mas que aqui podemos usar como sinônimos. Como assim? Em termos de justificação (quando não for usado um complemento a essa palavra, entenda como sendo essa justificação forense/ total) em Cristo há duas possibilidades: ou somos totalmente justos ou somos totalmente pecadores. Uma coisa exclui a outra, afinal creio que o sacrifício de Cristo é eficaz e que justifica completamente o ser. Sendo assim, se eu sou justificado em Cristo, quando Deus olha pra mim, não verá um pecador; verá alguém 100% justo, pois a justiça de Jesus é contada em meu favor. Ou seja: estou coberto pela Graça de Deus. Caso, ao invés da Graça, sobre mim estivesse derramada a Ira divina, eu seria contado com um “pecador”. Repare que eu não disse que sou completamente justo e nada pecador; eu disse que Deus me considera justo (e não, pecador) por causa da Cruz. Ele imputa a justiça de Jesus sobre mim, sem que eu mereça. Ou seja, Ele lida comigo não com base no que sou e sim, com base no que Cristo é, visto que a entrega de Jesus foi em meu lugar (de forma vicária) – Romanos 5.
     A santificação (que pode ser entendida como um outro tipo de justificação – uma “justificação efetiva”), ao contrário da justificação forense, ou simplesmente justificação (que é algo relacionado a como Deus me vê), está relacionada a como eu realmente sou. Como já disse, também pode ser entendida como “regeneração” (não discutirei as diferentes interpretações disso), ou pelo menos como algo intimamente ligada a ela. Então quando usamos a expressão “Simul justus et peccator” no contexto da santificação, dizemos que tem um sentido “efetivo” (parcial). Explico: somos parcialmente justos (justiça efetiva) e parcialmente pecadores. Aqui uma coisa não anula a outra, ao contrário, por mais santo que alguém seja, continua sendo um pecador. A santificação é um processo contínuo em nossa vida, em que passamos a sair da semelhança de Adão e passamos a nos aproximar da semelhança de Cristo; isso nunca será pleno neste mundo, pois ser imagem perfeita de Jesus é não errar, não pecar, ser perfeito como Ele foi homem perfeito. Essa transformação é permanente, o que não significa que seja “linearmente ascendente” (em nossa caminhada cristã temos altos e baixos, caímos e levantamos, mas vamos prosseguindo, pacificados, sem culpa ou medo, crendo nas promessas de Deus e sabendo que Ele nos ama como somos, pois Ele nos aceita com base no que Cristo é).
     A santificação pode ser entendida como a “remoção do pecado em mim”, algo que começa nesse mundo, mas que só será consumado quando eu for transformado em um corpo imortal e incorruptível. Por isso somos instruídos a “lutar contra o pecado”. Ele habita em nós, está enraizado em nossa carne, mas essa luta é a justiça presente (ainda parcialmente, como um vulto) em nós. E por isso vivemos em uma constante tensão entre carne x espírito (entre pecado x justiça; entre velho e novo homem; entre natureza de Adão x natureza de Cristo...), como Paulo deixou claro no início de sua carta aos romanos.
     Então qual a conclusão disso? Estou dizendo que, já que somos todos pecadores, irei “cair na gandaia”, pois, por melhor que eu tente ser, não mudarei isso? Estou dizendo que como somos contados como justo por Deus, farei o mal por opção? Nada disso! O que foi dito é uma constatação de uma realidade (como creio) e não, um estímulo a deixar de buscar o que é bom, o que edifica, o que convém (isso é claro nas epístolas – I Coríntios 6; cap 10; Filipenses 4). Lembrando que pecado não é o que faço; é o que sou. Sou pecador (tenho essa natureza, embora seja contado como justo) não porque eu peco; eu peco porque sou pecador. Se eu tenho a capacidade de pecar é pelo óbvio fato de que sou pecador (uma árvore não produz frutos diferentes de sua natureza). Porém se tenho a capacidade de muitas vezes fazer o bem, é que algo de justiça também já está dentro de mim (Filipenses 1). Mas a questão é que o que faço (como não me entregar de forma deliberada ao pecado) não é causa de nada; é consequência! É fruto de fé e de arrependimento (mudança de mentalidade e expansão de consciência). A minha santificação (justificação efetiva) é apenas fruto da minha justificação forense (de Deus me considerar justo, apesar do que eu sou). Por isso a nossa conversão, regeneração, santificação e “luta contra o pecado” é diária. O tempo todo olhamos para o ideal de Deus revelado em Cristo e algo dentro de nós impulsiona nosso ser a desejá-lo (embora algo lá dentro também se oponha a esse desejo). Porém o segredo é que o Evangelho nos pacifica para buscarmos viver como Cristo, sabendo que é o Espírito quem nos guia para o bem e que mesmo quando tropeçamos e falhamos, não somos condenado por isso, visto que somos justos diante dos olhos de Deus. Estamos livres para tentar, sabendo que iremos acertar e errar. Quando olhamos para Cristo vemos a revelação plena da Lei (vontade, ideal) divina, mas também vemos a Boa Nova (Evangelho), que nos garante que somos aceito e abraçados por Ele na Cruz, incondicionalmente. Essa é a base da espiritualidade cristã.
     Resumindo: é pelo fato de Deus imputar sobre mim a justiça de Cristo que, pela ação do Espírito Santo que habita em meu ser, serei transformado e frutos dEle (Gálatas 5) surgirão em minha vida. Não tenho méritos em nenhum desses dois aspectos da justificação e não é pelo meu esforço que aparecerão frutos. Fruto genuíno só nasce quando abro mão de mim mesmo e descanso na Cruz, alimentando-me exclusivamente dessa “seiva divina”. Não há auto-justificação ou auto-santificação. Isso é apenas religiosidade com aparência de piedade, mas que não tem poder algum contra a carne (Colossenses 2). Tudo de bom em nós é dádiva de Deus; é Graça!

“Uma coisa é a remissão de todos os pecados e outra é sua completa eliminação.” (Martinho Lutero)

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Jesus não é o complemento da revelação divina; é a totalidade!


     Creio que Cristo é a revelação total (e não apenas "final" ou "complementar"). Jesus não é algo que, somado a todo o resto, chega ao clímax da revelação de Deus. Não! Creio que Jesus é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15), de forma que quem olha para Ele, vê o Pai, como Ele mesmo disse (João 14:9). Não é que Deus venha se revelando aos poucos e que quando chega Jesus, Deus acrescenta mais alguma coisa a essa revelação que vinha ocorrendo. Creio sim em uma revelação progressiva ao homem, porém que, em Cristo, não ocorre a revelação do que faltava e sim, que surge a revelação por completo (toda ela, do começo ao fim), de forma que se perdermos tudo o que temos de informação fora de Jesus, mas continuarmos com o que temos sobre Ele, ainda assim continuaremos com tudo (não perderemos "nada"), pois Ele é a revelação plena, perfeita e absoluta de Deus aos homens. Tudo o que veio antes dEle era sombra, era arquétipo, era simbolização, como diziam os apóstolos (Colossenses 2:17; Hebreus 8:5; 10:1); tudo o que vem depois de Cristo é reflexo e consequência da Cruz, mas toda a revelação converge em Jesus, a Palavra (Verbo) de Deus que se fez carne (João 1) e em quem estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2:3).
     Então sigo sempre o que é coerente com Jesus, seja algo revelado/ensinado antes ou depois dEle. E assim faço, como disse, não por achar que é algo que complementa a revelação em Cristo, mas sim, que, como é coerente com Ele, está nEle, explícita ou implicitamente. Em outras palavras: eu sigo exclusivamente a Cristo, logo, sigo tudo aquilo que outros homens, inspirados, ensinaram a mesma coisa. E o que não se assemelha a Cristo, não creio como sendo divino, mesmo que pessoas na história sempre tenham atribuído (e continuam assim agindo) muita coisa absurda a Deus.
     Essa é a radicalidade de crer em uma Palavra 100% cristocêntrica. É nisso que creio e é isso que defendo. Essa é a radicalidade da Cruz e disso não abro mão.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Jesus morreu para vencer o Pecado e não, para aniquilar os "pecados"


     De forma sucinta, Jesus não morreu meramente pra perdoar "pecados". Jesus morreu para resolver o problema do Pecado (repare a diferença entre o minúsculo no plural e o Maiúsculo no singular). Afinal, Pecado não é o que fazemos; Pecado é o que somos. Não são atitudes apenas; é um estado, é uma inclinação do ser, é nossa incapacidade de viver a Lei de Deus (que exige perfeição), é a distância que estamos do que deveríamos ser (perfeita imagem e semelhança de Deus).
     Os atos imorais que praticamos (chamados de "pecados") nada mais são do que sintomas (consequências) dessa doença (o Pecado) que teve a cura decretada na Cruz (embora vivamos ainda com sintomas dela). E foi plenamente curada? Ainda não, mas temos a promessa de que um dia essa doença (Pecado) será retirada totalmente de nós, sem deixar sequelas. Não deixamos de ser pecadores (se assim fosse, seria impossível pecarmos, ou seja, não teríamos a capacidade de errar, já que em uma árvore boa não nascem frutos ruins e uma laranjeira não produz limões, por exemplo). Se pecamos é porque obviamente somos pecadores.
     Mas o pecado foi vencido na Cruz como? Ora, com Jesus fazendo com que Deus não lidasse conosco de acordo com o nosso Pecado (ou mesmo, com os nossos pecados) e sim, com base em Seu amor e em Sua Graça.
     A partir dessa consciência aprendemos a fugir dos pecados, pois eles nos destroem, corroem nossa alma e nos afastam do ideal divino para que vivamos (conforme revelado em Jesus).
     "Viver deliberadamente no pecado" é viver de forma oposta a Cristo e isso é o oposto da salvação, pois o propósito dela é nos transformar de glória em glória à imagem de Cristo, sendo que essa transformação um dia será plena. Enquanto isso, neste mundo, viveremos nesse conflito entre carne x espírito. Deus nos faz santos (separados) em Cristo, mas "perfeitos" só seremos na ressurreição, em um corpo incorruptível. Enquanto isso, não fazemos tudo o que devemos, mas fazemos o que podemos. Não por barganha (pois, como disse antes, Deus lida conosco com base em Sua Graça e não, em nossos méritos). Então fugimos dos pecados por quê? Pois não é o ideal divino para o homem. Não é PARA SER salvo. É PORQUE FUI salvo na Cruz e porque essa salvação continua atuando em mim (estou sendo salvo), até que um dia essa salvação será plena (serei totalmente salvo). E essa minha "fuga dos pecados" (ou "luta contra o pecado"), então, é fruto de amor, de consciência e de gratidão. Achar que é de acordo com isso que minha salvação é decidida, é cair da Graça e pisar na Cruz. Minha obra não é causa; é consequência. 'Está consumado", lembra? A Cruz de Cristo tira o foco de mim e coloca 100% em Jesus.
     Teologicamente, essa questão toda engloba o famoso "simul justus et peccator" ("ao mesmo tempo, justo e pecador") e ainda o conflito entre "o já e o ainda não". São dois aspectos que tem muito material na internet sobre isso. Lutero explica muito bem essa questão e os textos baseados na compreensão dele geralmente são muito bons. Recomendo.

Autor: Wesley de Sousa Câmara 

Deus está em todo lugar


     Deus é onipresente, portanto Ele está em todo lugar, está em tudo e tudo está nEle. Toda a existência (que inclui a vida) só se sustenta em Deus, de forma que fora dEle, nada há (nem o diabo existe "fora" de Deus, pois ninguém tem a capacidade de gerar ou manter a vida por si mesmo). 
     Portanto, Deus está na parada Gay? Claro que sim! E em um jogo de futebol ou em um show de rock? Claro que está e está até nos "funks proibidões"! Também está na marcha para Jesus, num culto cristão (seja em um prédio religioso ou em uma casa), num culto afro, como em terreiros de candomblé, por exemplo. Está em uma sala de execuções de presos, está na roda de terroristas que estão decapitando pessoas... E por incrível que pareça, muitos dizem crer em um Deus Eterno, Soberano, Onipresente, mas se escandalizam quando dizemos coisas óbvias como essas. 
     Entenda: Qualquer pessoa que clama por Deus em qualquer um desses locais Ele a ouvirá. É claro que isso não tem nenhuma relação com o que é ali praticado; não quer dizer que Deus está aprovando o que está acontecendo em um ambiente. Se quisermos saber se Deus aprova aquilo ou não, devemo comparar aquilo com Jesus. Se ferir aquilo que Ele nos ensinou, Deus está "entristecido" com tudo aquilo, mas continua ali. Se Deus habita em você o tempo todo, que é o templo dEle, e não abandona você nem quando comete uma atrocidade, por que Deus não estaria em outros locais cheios de atrocidades? 
     A questão que estou dizendo é apenas de "presença". Deus se faz presente em tudo (pois tudo está nEle), embora a habitação dEle seja em corações quebrantados e contritos, como o meu e o seu. 
     Mas uma observação deve ser feita: Dizer que Deus está em tudo não significa que Ele seja tudo (isso seria "panteísmo", que afirma que o sol, a terra, o mar... tudo é Deus). E nisso, obviamente, não creio.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Quando o "livro" se torna a "Palavra"


     Uma coisa que chama a atenção na cristandade dos últimos anos é que boa parte dela é movida por chavões, por clichês e por mensagens que pouco, ou nada, se assemelham à espiritualidade proposta por Jesus e vivida pelos apóstolos. E qual o motivo dessa tendência estar cada vez mais forte? Diria que é o fato de a cada dia meditarmos menos nas escrituras.
     Somos uma geração que pouquíssimo lê a bíblia (quem tem uma idade mais avançada sabe do que estou falando). E quem é mais novo, como eu, tem a possibilidade de perguntar a seus pais ou avós se isso é ou não uma realidade. Quantas vezes criticamos um ensino de décadas atrás, pois para nós é nítido que foi fruto de uma má compreensão de um texto ou de uma “carência intelectual” da pessoa que aquilo ensinava. Classificamos isso tudo como mera “ignorância teológica” e nos gabamos de vivermos uma espiritualidade “mente aberta”, moderna... Porém algo salta à nossa vista e não damos atenção: muitos irmãos em Cristo podem sim ter cometido equívocos teológicos grotescos por falta de conhecimento cultural da época dos relatos bíblicos ou até mesmo por falta de domínio da língua portuguesa, porém eles tinham uma sinceridade, uma honestidade e um desejo de viver o mais próximo que podiam daquilo que julgavam ser o ideal de Deus para a vida humana. O acesso às escrituras era limitado (ao contrário de hoje, que temos dezenas de opções) e com muito custo conseguiam comprar uma tradução comum, como a tão conhecida “João Ferreira de Almeida”. Mas uma vez que a tinham em mãos, dificilmente um dia se passava sem que ela fosse aberta e lida, mesmo que pouca coisa fosse compreendida.
     Atualmente, sejamos sinceros: quantos de nós temos o hábito de ler a bíblia com frequência? Poucos, sem dúvidas. E quantos temos o hábito não apenas de ler, mas também de meditar no que lemos? Ah, menos ainda... Nossa geração é acomodada e tem tempo para tudo, menos para coisas importantes. Muitos até idolatram a bíblia, defendendo-a contra todo tipo de crítica e impedindo que ela sequer caia no chão ou que seja riscada por uma criança, porém, ao mesmo tempo, a negligenciam, pois ela sequer é estudada com a devida profundidade que essa noção deveria exigir.
     O que se vê, na maioria das vezes, são irmãos que colocam as mãos na bíblia apenas aos domingos (ou nos dias de culto que participa). E ela é aberta apenas quando o pastor anuncia a “leitura bíblica da noite”. O que é ensinado nos púlpitos raramente é conferido nas escrituras, dentro de seus devidos contextos, se é realmente daquela forma. As pessoas querem comodidade: “Ler para que, se o pregador lerá em casa, interpretará e explicará para mim no culto da noite?” Cada dia mais estão se alimentando de mensagens “mastigadas” por terceiros. Não há criticidade e não há aquela atitude dos irmãos de Bereia (Atos 17), que examinavam tudo o que ouviam dos apóstolos, para não serem enganados. O que o pregador fala é tido como verdade absoluta, pois “ai daquele que tocar no ungido do Senhor” (que também é fruto de várias descontextualizações, pois “tocar” nunca teve sentido de “conferir” ou de “questionar”).
     O tempo vai passando e a maturidade espiritual de quem assim vive nunca chega. Permanece muitas vezes alimentando-se de “leite espiritual”. E quando ouve algo que nem leite é, ou seja, que nem de “alimento” pode ser chamado, sequer consegue identificar que aquele ensino é totalmente anticristão. A pessoa é levada por todo vento de doutrina e vai para lá e para cá, como uma folha seca em meio às ondas do mar. Começa a seguir modismos e tendências, como essa espiritualidade rasa baseada em mensagens de prosperidade financeira, em ideias infundadas de que o que decretamos Deus obedece, satisfazendo nossos desejos egoístas (como se Deus fosse um “gênio da lâmpada”, que basta invocá-lo com uma ordem ou com um sacrifício financeiro que ele aparece). Passa a basear sua espiritualidade em rasos clichês que prometem bênçãos caso a pessoa diga que crê ou caso ela meramente grite “amém”. A bíblia passa a ser apenas um objeto mágico, pois ela somente será aberta em casa quando esse indivíduo estiver passando por uma situação complicada e quiser que, ao abrir aleatoriamente em uma página, Deus fale com ele em um versículo. A bíblia então se transforma de “testemunha histórica de Cristo” (pois assim Jesus classificava as Escrituras – João 5:39) em uma “caixinha de promessas”. E assim seguimos com a consciência anestesiada, dormente, sem compreender e sem viver uma espiritualidade sadia e fundamentada em Cristo.
     Então o que temos a fazer é começar a ler a bíblia diariamente, como um ritual? Claro que não. A leitura da bíblia deve despertar em nós o desejo de lê-la ainda mais, ao mesmo tempo em que a motivação para meditar nas escrituras deve ser esse desejo. Percebe que uma coisa leva à outra, formando um ciclo? Quando mais leio, mais compreendo e mais desejoso pela leitura vou ficando. Não é questão de ler como obrigação; não é ter como meta terminar o ano tendo lido ela toda; não é estipular um número de capítulos para ler em cada dia (embora algumas pessoas achem válido essas estratégias e para alguns realmente funcione). Procure sim criar um hábito de leitura bíblica, mas por prazer. Se estiver disposto a ler dez capítulos no dia, leia; se estiver disposto a ler apenas um, sem problemas. Porém não leia a bíblia como se lê um jornal. Ore a Deus, peça que o Espírito Santo lhe ilumine e lhe guie através das letras do livro, a fim de que internalize a Palavra. Medite em cada texto, compare aquilo que lê com Jesus, afinal nEle estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2); Ele é o Verbo, a Palavra de Deus que se fez carne (João 1).
      Tenha em mente que a escritura tem a função de apontar para Cristo, como já foi citado. Não perca o foco; não é porque você lê a bíblia que você entende a Palavra. Muitos teólogos são até ateus (pasmem!), ou seja, eles tem a escritura, mas não discernem a Palavra. E a bíblia só se tornará Palavra para você se você a internalizar como “Espírito e Vida” (João 6:63), ou melhor, se o Espírito Santo a internalizar em você. Do contrário, será apenas mais um livro, como o é para muitos que dominam o grego e o hebraico, que lecionam sobre exegese e hermenêutica, mas que seguem com seus corações endurecidos.
     O que fica claro? Que conhecer a escritura não significa conhecer a Deus. Conhecimento do Pai é algo relacional (e não, intelectual), porém o conhecimento da escritura é um ponto importante para que você tome consciência disso. É pela escritura que você vê historicamente Jesus, logo, percebe Deus se relacionando com o homem, afinal, Ele disse: “Quem vê a mim, vê o Pai” (João 14). Jesus é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1), portanto devemos ler as escrituras sabendo que Cristo nos revela não apenas a Obra divina realizada para nossa salvação (o Evangelho), mas também o ideal de Deus para que vivamos. Quando olhamos para Jesus vemos o modelo perfeito de ser humano e embora nunca alcancemos a perfeição neste mundo, até que sejamos uma dia glorificados em um corpo incorruptível devemos viver tendo o que Ele nos revelou (em ações e em palavras) como parâmetro. Jesus é o referencial para julgarmos (discernirmos) tudo e todos. O que é coerente com Jesus, é a Vontade de Deus para nossa vida.
      Não é a leitura da bíblia que lhe trará salvação, mas tornará você mais consciente dela; não é a leitura que lhe trará bênçãos, mas fará com que você se veja abençoado nos mínimos detalhes de sua vida; não é a leitura que lhe fará mais santo, mas revelará a você muita coisa dAquele que lhe santifica. Então medite nas escrituras, não como obrigação, mas como uma forma de gratidão. Muitos desejariam ter neste momento uma bíblia nas mãos, mas não podem. Não desperdice essa dádiva que chegou até você!

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Obs: este texto foi escrito em 12/2014, data em que foi cedido para ser publicado no blog IEAD - Estiva Gerbi. 

Todos vemos Deus através de nossas "lentes"


     Quando olhamos para Deus, o que vemos sempre tem influência da nossa "lente" (perspectiva, ideia pré-formada, crença, visão teológica) ou da lente de quem faz a descrição dEle. Porém só há uma forma de ver Deus como Ele é: através de uma lente (perspectiva) chamada "Cruz de Cristo". Contudo, temos que lembrar: mesmo que olhemos diretamente para/por Ele, estamos olhando para a revelação absoluta de um Deus absoluto, mas como somos parciais, relativos, falhos, limitados, o que enxergaremos é uma visão relativa de um Deus absoluto, afinal, por definição, um Ser absoluto não cabe na mente de um ser relativo. Esse é um dos motivos que não temos autoridade para condenar alguém que pensa diferente de nós, pois somos tão falhos quanto essa pessoa. Ou seja, quando olho para Cristo, não consigo ver a totalidade do que Ele realmente é; vejo o que cabe em minha compreensão. Não é a toa que diferentes teologias (católica, luterana, calvinista, arminiana...) focam em diferentes aspectos e pontos da revelação divina. Cabe a nós buscar uma compreensão mais profunda, mais estruturada, mais consistente, mais coerente e mais "frutífera" possível e que responde satisfatoriamente um maior número de questões sem "forçar a barra". Em outras palavras, mesmo Jesus sendo a revelação da Verdade Absoluta, a minha percepção dessa verdade absoluta é sempre parcial. Fui prolixo propositalmente para tentar me fazer entender por todos.
     Quando olho para Deus pela lente de um hebreu antigo, vejo um Deus que é puro poder, que é pura ira e que é pura vingança, que está disposto a matar, se necessário, para que o "Seu povo" passe por cima de tudo e todos e que tenha tudo de bom. Claro que há outras características (como haverá em qualquer "lente"), mas essa é a primeira ideia de Deus que vem na mente; quando olho pela lente de um profeta israelita, vejo um Deus que é pura justiça, que faz tudo que for necessário para castigar pelos erros, para corrigir os problemas e para recompensar com bênçãos a obediência do povo. 
     Mas quando olho pela lente suprema, absoluta, perfeita da Cruz de Cristo (pois Jesus é a revelação plena de Deus ao homem; é a Palavra de Deus que se fez carne; é a imagem do Deus invisível;é a razão de todas as coisas e em quem estão todos os tesouros do conhecimento...), vejo Deus com Ele é (dentro da minha possibilidade de compreensão, como já disse): um Deus que não barganha e cuja essência é AMOR. Um Deus que tem um ideal de vida (Lei divina eterna e perfeita) revelado ao homem na pessoa de Jesus; um Deus que Se entrega pelo homem, na humanidade perfeita de Cristo (o Evangelho, a "boa nova"); um Deus que abre mão de extinguir o homem pelo seu pecado, para redimi-lo, reconciliá-lo, restaurá-lo à Sua imagem e semelhança, em um processo contínuo chamado "Salvação".
     Esse Deus revelado em Cristo é (conforme professa a fé cristã) o Deus Único, Verdadeiro, Eterno, Soberano, Supremo, Poderoso, Justo, que tem inúmeros atributos, mas que condiciona todos os Seus atributos à Sua essência, que é amor, manifestada ao homem em Graça (favor imerecido). É um Deus que pode fazer tudo o que deseja, mas que abre mão de fazer o que deseja para fazer apenas o que o amor faz, que é constranger sem oprimir; que é dar responsabilidade através da liberdade. É um Deus que ensina, mas que não manipula; é um Deus que Se revela e que acolhe todos aqueles que, como o filho pródigo, se rendem a esse Seu abraço incondicional. 
     Não mereço nada disso. Não parece justo, mas a Justiça de Deus só é realmente de Deus quando é feita em amor (ao contrário da humana, cuja "justiça" não passa de "vingança"). A Graça, por ser  um favor imerecido, parece injusta. E seguindo nosso conceito humano realmente é (embora Deus seja Justo segundo o Seu sentido de Justiça), pois a essência de Deus é Amor e amar inclui entregar-se inclusive àqueles que não merecem. E eu sou um desses, nada merecedor; dos pecadores, sou o pior (como bem disse Paulo); mas foi essa criaturinha que Deus elegeu na Cruz para redimir e fazer novamente Sua imagem e semelhança, em um processo que começou lá, que continua agora em minha vida e que um dia se consumará, quando em um corpo transformado Jesus for contado como o primogênito entre muitos irmãos.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Posso usar e fazer isso e aquilo?


     Com frequência recebo perguntas do tipo: "É pecado fazer tal coisa? Posso, sendo cristão, usar tal roupa ou consumir isso ou aquilo?"
     Oras, quem deseja se divertir com os amigos e com a família ou cuidar da saúde de diversas formas, ótimo. Divirta-se e cuide da saúde mesmo, fazendo tudo com responsabilidade, com amor e procurando não viver de forma incoerente com o que Jesus ensinou. Vejo pessoas pregando um Deus que liberta, mas na prática ocorre o oposto. Esse "deus" que muitos pregam liberta o homem de que? Liberta, por exemplo, das drogas e da prostituição mas depois prende a pessoa em alguma "religiosidade moral distorcida"? Liberta do vício das drogas, mas a escraviza em atividades diárias da denominação? Liberta de uma vida de depravação, mas depois a coloca no outro extremo, numa vida de escravidão a dogmas, costumes e tradições? Liberta de uma alienação da vida, mas a priva de tudo o que é prazeroso e saudável?
     Os problemas dessa compreensão são sois, principalmente:

1 - Essa ideia de divisão das coisas em dois grupos: "sagrado e profano". 
     Assim, na mente de muitos, há coisas que são de Deus e coisas que são do diabo. O que está ligado com a religião, é de Deus, o que não está, é do diabo. Por exemplo, ler a bíblia com o filho "é de Deus"; jogar bola com o mesmo filho, "é do diabo" ou não faz parte do "Reino de Deus e de Sua justiça", logo, não é prioridade brincar com a criança. Então começa o dilema: Isso pode ou não pode? Isso é pecado ou não? Poxa, irmãos, o Evangelho é pra nos libertar também desse espírito "farisaico" baseado em aparências e em condutas, coisa que Paulo tanto criticou. É para nos libertar do medo, da culpa e dessa ideia tola de que temos débitos com Deus a pagar ou que dependendo do que façamos vamos acumulando créditos. Nada disso!
     A questão do cristão não é se "é pecado ou não" ou se "pode ou não". A questão é: Isso convém? Isso edifica? Isso gera frutos de amor? Isso escandaliza meu irmãozinho que está começando agora? (não digo "escandalizar" os implicantes, pois se assim for, nem na internet era para estarmos, pois tem gente que diz que TV e computador é do diabo). Então cada um analise a si mesmo, e a sua consciência moldada pelo Espírito ("mente de Cristo") e assim faça oque acha que deve. Não tem que seguir uma cartilha de regras e sim, ter uma mentalidade baseada na Palavra de Deus. Isso é fruto de arrependimento.

2 - Essa ideia de auto-justificação e de auto-santificação... 
     É uma crença num evangelho antropocêntrico, em que o homem é a causa de tudo. É a ingênua prepotência de achar que minhas obras me fazem aceito ou rejeitado por Deus. É a negação da Cruz. É a espiritualidade baseada no "faça isso em troca de algo divino". É uma espiritualidade baseada no ego, nas próprias obras, em si mesmo. Não é uma fé baseada na Cruz e sim, no "próprio eu", em que "santidade" é visto como "minha rejeição de tudo aquilo que é prazeroso para o homem", ao invés de ser uma transformação divina em mim.
     Mas é todo um paradigma, uma espiritualidade, uma fé, uma crença que precisa mudar. Não é simples como parece. Toda essa ideia e questões tem uma motivação bem profunda e mudar essa mentalidade é doloroso e nada fácil. Mas para Deus nada é impossível.

     E entenda de uma vez por todas, que liberdade é: 

"Tudo lhe é permitido, mas nem tudo lhe convém, então busque o que é bom, pois aquilo que plantar, você colherá. Liberdade sempre vem acompanhada de responsabilidade. Está livre para viver como deseja, mas pense bem no que vai fazer, pois a vontade de Deus para a vida humana foi revelada com Cristo. O ideal divino é que sejamos discípulos e imitadores de Jesus. Se quiser ser como o filho pródigo e jogar sua vida no lixo, está livre para isso, mas enfrentará consequências de sua escolha. Então, deixe o Espírito Santo guiar sua vida. Não resista a Ele e em você serão gerados frutos de amor, de paz e de alegria".

     Quando alguém me pergunta: "Wesley, você acha que eu, como cristã (ão), posso fazer/usar"... A resposta é imediata: "PODE, SIM, IRMÃ (ÃO)!" Então vem a surpresa da pessoa: "Mas eu ainda nem falei o que quero fazer e usar..." E a nova resposta é óbvia: "Não importa!"

     Entenda uma coisa: TUDO lhe é permitido, embora nem tudo seja conveniente. A questão não é se pode ou se é pecado... A questão é: convém fazer e usar isso? Trará edificação para a sua vida e para a vida de quem o cerca? Gerará frutos bons? Fará de você alguém realmente mais feliz? Isso só você pode responder (cada um analise a si mesmo) e se a resposta for "sim" para tudo isso, vá em frente, pois liberdade vem acompanhada de responsabilidade e viver de forma coerente com o amor revelado em Cristo é o ideal divino para nós.
     A questão, portanto, não é o que você faz e sim, o que você deseja. Se deseja só coisas ruins, é com essa motivação que deve se preocupar. Nossas atitudes apenas denunciam o nosso coração. Nós somos pecadores não porque pecamos; nós pecamos pelo fato de sermos pecadores. Antes de fazermos algo ruim, nós somos algo ruim e assim, pecado não é o que faço; pecado é aquilo que sou. Em vez de olhar apenas para as suas atitudes, olhe antes de mais nada para o seu coração, pois é ele que realmente importa e é nele que toda mudança começa.
     Essa é, em linhas gerais, a liberdade cristã. E aí, como usará a sua liberdade?

Autor: Wesley de Sousa Câmara

O que é e como fazer a "obra de Deus"?


     Poderia simplesmente responder: "não faço a obra de Deus, pois se é de Deus, não é minha, logo, quem faz é Ele." Porém isso é, na minha forma de entender, apenas parcialmente verdadeiro.
     Antes de mais nada, vamos deixar claro: "fazer a obra de Deus" nada tem a ver com cumprir uma agenda de atividades de uma denominação religiosa, pois muitos associam a "obra de Deus" a qualquer coisa que esteja relacionado a isso, sejam cultos, trabalhos de "evangelismo" ou de "missões". Não há base alguma para dividir todas as coisas em dois polos, sagrado e profano, e associar essas coisas atribuídas como "sagradas" a esse obra divina. Mas vamos ao que importa:
     Em João 6 observamos que quando perguntaram a Jesus como poderiam "fazer a obra de Deus", Ele lhes respondeu: "A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou". Em outras palavras, Jesus disse: "Aquele que crê em mim faz a obra de Deus"!
     Oxi, pera aí... Quer dizer então que é por isso que em João 14 Jesus diz: "Aquele que crê em mim fará também as obras que faço e fará coisas ainda maiores do que estas"? Isso mesmo! Quem crê faz a Obra de Deus, pois a Obra é justamente crer! Mas não ache que "crer" é meramente "acreditar", pois se assim fosse, até o diabo viveria fazendo a obra divina, pois os demônios creem e tremem (Tiago 2). Crer genuinamente é ter fé, é depositar confiança a ponto de entregar-se, de desistir de seus méritos e de assumir que é um miserável pecador que carece da Graça divina. E é essa fé que não só nos faz entregar, mas também nos pacifica pela certeza de que fomos abraçados na Cruz. 
     Mas não para por aí, pois pense um pouquinho: 
     Jesus é a revelação plena de Deus ao homem, é a Palavra de Deus que se fez carne, é a imagem do Deus invisível, é, portanto, a representação de uma humanidade perfeita, certo? Olhando para Ele vemos como deveríamos ser, pois Ele é nosso modelo, nosso Mestre. Então se é em Cristo que creio e é a Ele que sigo, percebo que é a imagem dEle que é o ideal de Deus para que eu seja. Sendo assim, se Cristo foi a vontade perfeita de Deus sendo executada na Terra por um homem (Jesus), fazer a obra de Deus neste mundo é nada mais, nada menos que procurar repetir aqui os feitos de Jesus. Ou seja: amar, perdoar, ajudar, acolher, não discriminar, abraçar, caminhar junto, ensinar, se alegrar com os que se alegram e participar da dor daqueles que choram, fazer o bem a todos, não pagar mal com mal, resistir à tentação... "Cristão" significa "pequeno Cristo", então mesmo que neste mundo sejamos ainda de forma imperfeita (pois estamos ainda em processo de transformação), é nesse objetivo que seguimos. O alvo é sempre Ele.
     Lembra que o Espírito Santo foi enviado para habitar em nós? Ou seja, Deus também está dentro de nós, de forma que a Obra dEle também é feita através de nós. Quando eu faço algo para o meu próximo, por exemplo, é Deus fazendo Sua obra através de mim. Ao mesmo tempo, sou eu fazendo algo a Deus, pois Deus também está habitando esse meu irmão. Por isso sirvo a Deus quando sirvo quem está ao meu lado. 
     Percebe como tudo está interligado? E mais: mesmo que eu entenda e faça o que Jesus me ensinou a fazer, continuarei sem ter mérito algum, pois, como lemos em Filipenses 2, até o nosso querer e o nosso realizar vem de Deus. Não sobra espaço para focar no homem. Jamais teremos créditos com Deus, pois mais que façamos a "Obra de Deus". Tudo é por Graça, por um favor imerecido. O que fazemos é apenas por amor, por fé, por gratidão e como adoração.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Como posso perdoar quem não merece?


     Como posso perdoar quem não merece? Como conseguirei liberar o meu perdão a alguém que vive cometendo os mesmos erros?
     Mas a essência do perdão é justamente essa: perdoar aquele e aquilo que não pode ser perdoado. Quando há uma justificativa para um erro, não é nem um perdão; é uma desculpa e se fosse assim, não seria nada difícil perdoar. Não precisaria Jesus ensinar tanto o perdão. Entenda: Perdoar é um ato de graça (favor imerecido) e foi o que Deus derramou sobre o homem. Não merecíamos perdão, mas recebemos. 
     Jesus ainda nos ensinou a orar: 

"Pai, perdoe nossas ofensas ASSIM COMO perdoamos aqueles que nos ofendem..." É a mesma natureza de perdão. 

     Mas isso é simples? Claro que não. É doloroso, difícil, mas deve ser o nosso alvo. Devemos sempre pedir ajuda a Deus para que nos ensine a amar, pois quem ama, perdoa... E assim como o amor genuíno é uma entrega sem esperar nada em troca do amado, o perdão é uma graça que dedicamos a alguém (assim como recebemos de Deus) independentemente dessa pessoa mudar (arrepender-se) ou de merecer o perdão. 
     Em Romanos 5 vemos que o perdão divino se deu ANTES de qualquer arrependimento nosso; a parábola do Filho pródigo mostra o Pai perdoando ANTES do filho provar mudança; no relato da mulher adúltera, o perdão foi dado a ela antes mesmo da instrução: "vá e não peques mais"... Mudança (arrependimento) é consequência do perdão e não, a causa dele. Perdoe! Se o perdoado irá mudar ou não é algo que não cabe a você julgar. 
     A falta de perdão gera ira, ódio, mágoa. E isso destrói a todos. Corrói, danifica, corrompe o caráter e mata! Porém esse dano é muito mais intenso naquele que não perdoa do que naquele que não é perdoado. Esses "sentimentos" quando não são extirpados, começam a criar raízes e frequentemente passam a ser parte do caráter e da personalidade do indivíduo. "Não perdoar" passa a ser, equivocadamente, natural e sinônimo de justiça e de hombridade para essa pessoa; e aquele que libera perdão é tido como "tolo", como injusto... Não perdoar gera cegueira para a vida. Não lhe permite enxergar os próprios erros, pois os olhos ficam focados apenas nos defeitos do outro. É alienante!
     Perdoar é amar, logo, é desejar o bem do outro sempre. Não é esquecer uma ofensa, mas é lembrar dela sem sofrer; não é confiar totalmente na pessoa que lhe ofendeu, mas é não guardar mágoa, rancor ou ódio independentemente do que ela fez ou do que ainda faça...
     Perdoar é uma manifestação de amor. E como diz o teólogo: "Amar não é gostar. Amar é querer bem; gostar é querer perto. Não preciso gostar de ninguém, só preciso amar". 
     Não é amando e perdoando que me fará receber o favor divino, mas é por ter recebido o favor divino sem merecer que devo viver na busca pelo amor e pelo perdão, pois esse é o ideal de Deus a mim.

     "Ah, isso é quase impossível!"

      Mas alguém disse que é fácil? Se fosse, Jesus não precisaria demonstrar tanto a importância do perdão. Fácil não é. É doloroso, mas é o alvo que devemos almejar. Quantas vezes? 70 x 7, ou seja: sempre!

Autor: Wesley de Sousa Câmara

A bíblia diz que...


     "A bíblia diz"? Será? O teólogo e amigo Joel Costa Jr diria mais ou menos o seguinte: "A bíblia não diz nada, irmão! Quem diz é a sua interpretação dela". E concordo plenamente, afinal, somos todos seres humanos falhos e relativos, buscando uma interpretação consistente e coerente (assim espero) dela.
     Para começar, a bíblia não é um livro; é uma coletânea de livros, cartas e textos (chamados, a grosso modo, de "Escrituras") escrita em mais de um milênio, por dezenas (estimando por baixo) de pessoas, por várias tradições até que aos poucos foi sendo editada, revisada, formada e finalmente compilada (após muita discussão e debate) em um único volume no quarto século. Esse volume único é o que chamamos de "bíblia".
     Ela tem diferentes objetivos e contextos, sendo que quem tenta harmonizar tudo e dar uma interpretação que faça sentido somos nós. Então não existe, por exemplo, uma "visão bíblica sobre um dado tema". Não tem sentido querer que a bíblia lhe dê um posicionamento sobre algo, pois ela pode registrar vários posicionamentos diferentes (afinal cada texto foi escrito por diferentes autores, em diferentes épocas e com diferentes objetivos e contextos). No máximo você verá que, por exemplo, "nos dias de Moisés o autor ou os judeus encaravam esse assunto dessa forma... Nos dias dos profetas, era assim... Jesus via dessa maneira... Os apóstolos aplicaram esse ensino dessa forma...". Agora sintetizar tudo de forma complementar e harmônica? Nem sempre é possível, pois muitas vezes o que lemos em um trecho é quase oposto ao que lemos em outro. E muitas vezes não é questão de erro nenhum ou de falta de confiabilidade da escritura. É meramente questão de entendermos o que é a bíblia e qual a sua função. Se atribuirmos a ela um papel que ela nunca se propôs a ter, obviamente gerará confusão.
     Estabeleça seus critérios. Você é discípulo de quem? De Jesus? Ótimo, então o que fará? Pela bíblia você verá o que Ele fazia, como Ele lidava em cada situação, como tratava as pessoas, o que ensinava... E assim você terá um modelo para seguir. Não seja ingênuo de dizer: "eu sigo a bíblia", pois ninguém a segue. É impossível, pois o que é seguir a bíblia? É seguir Moisés? Davi? Isaías? Jesus? Paulo? Não tem como seguir todos eles ao mesmo tempo. Diga assim: "eu sigo a Cristo e tomo conhecimento histórico dEle pela bíblia". Aí sim. Ela é um instrumento que visa apontar para Ele (que é o Verbo encarnado, a Palavra de Deus revelada em forma humana). 
     Então vamos ser mais humildes ao interpretá-la (lembrando que mesmo aqueles que acham que receberam a compreensão que possuem como uma revelação detalhada do Espírito Santo não escapam de interpretação). Nem mesmo os apóstolos escaparam de interpretação.
     Somos milhões, ou bilhões, de leitores da bíblia e há milhões de interpretações diferentes, nem que seja uma coisinha aqui e outra ali de divergência (e nem por isso o Espírito Santo revelou a Verdade a só uma dessas pessoas, pois não é papel dEle revelar detalhes ou abordagens teológicas. Ele nos revela Cristo, mas as particularidades e interpretações é por nossa conta). Vamos parar de achar que o que pensamos é a Verdade pura e simples e que quem discorda de nós é herege. Sejamos humildes! Sua interpretação é tão relativa quanto a minha. O que muda é que algumas interpretações são mais consistentes e coerentes do que outras. Então que estejamos sempre nessa busca.

Autor:Wesley de Sousa Câmara

Em que acreditar se cada um prega uma coisa diferente?


     Primeiramente precisa entender que todos somos humanos e limitados. O que resta a nós, mortais, relativos, parciais, falhos, é comparar esses "pontos de vista" e com toda honestidade e coragem, confrontarmos nossos paradigmas e mudarmos, sem orgulho ou vergonha, sempre que necessário. Acredite, ninguém foge de interpretação e quem acha que defende o "evangelho puro e simples", sem nenhuma influência humana, é apenas mais um fundamentalista (e essa visão também é uma interpretação da vida, das coisas e de si mesmo), sendo que com esses não tem como haver diálogo (pois toda discordância nossa será tida como "heresia", "mentira" e "filosofia humana"). Então, deixe pra lá, pois não há como discutir (dedique tempo a quem está aberto para refletir).
     Devemos (para não enganarmos a nós mesmos) seguir o que sinceramente julgamos que seja mais coerente (sendo que o critério final sempre deve ser A REVELAÇÃO ABSOLUTA DE DEUS EM CRISTO). Para isso, não viveremos na ilusão de esperar que tudo caia do céu, que o Espírito Santo resolva cair em nossa "preguiça" de ler, de estudar, de meditar e resolver do nada revelar a nós cada detalhe da compreensão da fé cristã. Não! O Espírito nos revela Cristo, nos direciona para olharmos para Ele. Agora a compreensão e a espiritualidade que vai desenvolver em torno disso é por sua conta (mesmo que veja o termo "teologia" quase como um palavrão. Só não entende que toda compreensão acerca de Deus, da vida e da relação entre ambos é uma teologia, "oficial" ou não. No fundo, até o ateísmo é uma teologia).
     Reconheça sua limitação, sua incapacidade, sua parcialidade e assim (além de não ficar condenando quem não pensa como você) não terá opções a não ser render-se ao Espírito e por gratidão (e não, achando que agradará a Deus ou que irá conquistar algo da parte dEle) desejará aprender mais, entender mais, procurar sentido nas coisas, amar mais e viver mais em conformidade com Sua vontade.
     O que essa página apresenta é apenas uma dessas interpretações relativas acerca da revelação absoluta que ocorreu em Cristo. O absoluto, por definição, não pode ser contido em seres relativos (como nós, humanos). Nossa compreensão sempre será parcial, imperfeita, porém obviamente, se a defendo, é porque, após comparar com algumas outras (pelo menos as principais), foi a que considerei mais provável e mais coerente. Não defenderia algo que eu acreditasse que estivesse errado, porém não me coloco como referência absoluta para definir essa questão. Ou seja, acredito que eu esteja certo sim, porém sou consciente que, por ser imperfeito, eu erro (e muito), logo, sempre poderei estar errado (inclusive no que digo neste exato momento, Rrs).
     Então busque com sinceridade e inteligência avaliar tudo, comparar, criticar, pensar e ver se faz sentido. Não aceite tudo que lhe ensinam. Outras páginas podem lhe ensinar inverdades. Essa página também. Por isso leia, medite, estude, corra atrás, analise e julgue. Não seja um cego guiado por outros cegos. E sempre confronte o que você defende. Veja se é coerente mesmo e se essa sua compreensão subsiste após comparar com outras abordagens.
     Não tenha medo. Não fique preso a algo apenas por ser conveniente, por vergonha, por medo de ser rejeitado ou mal interpretado pelos amigos ou quem sabe por receio de perder os benefícios e o status que tem perante o seu "grupo". Seja honesto com sua consciência!
     É o que posso sugerir. Do contrário, estará enganando a você mesmo, defendendo algo que no fundo não vê sentido ou algo que tem medo de confrontar e de descobrir que está equivocado. Seja corajoso e não tenha medo de mudar.
     Adianto que no início é doloroso, a gente se sente culpado, indignado, frustrado, injustiçado. Queremos negar, rejeitar, mas toda mudança é assim. Vem uma momentânea insegurança, ficamos meio perdidos como alguém que está em um quarto diferente e escuro. Aos poucos vamos compreendendo as coisas, as coisas vão clareando, fazendo sentido. Não é fácil trocar um "chip" implantado na mente. Mas depois que se livra dele, surge paz, alegria, gratidão e desejo por aprender mais e mais algo que lhe traz consciência e liberdade.

Autor: Wesley de Sousa Câmara 

O Natal e os seus símbolos


Atualizado em 10/12/2014
     Ao contrário do que o título sugere, não farei uma descrição detalhada das origens dessa comemoração, nem de seus símbolos (embora cite algumas neste texto). E tenho três motivos para isto: primeiro, devido à existência de explicações contradizentes para um mesmo fato (muitas delas, frutos de pura especulação); segundo, pois já existem centenas de páginas na internet dedicadas ao assunto; terceiro, porque pretendo apenas colocar o meu ponto de vista e não, fazer um apanhado de informações históricas. Mas, afinal, devemos ou não comemorar essa data? O que o Natal realmente representa? Podemos trocar presentes e colocar uma árvore ou um presépio em nossa casa? E o que dizer sobre o Papai Noel?
     Antes de tudo, devemos entender o que é o Natal. Se perguntarmos a qualquer pessoa, a reposta quase sempre será: “é a comemoração do nascimento de Jesus Cristo”. Mas, na verdade, é (em teoria) muito mais do que isso. O Natal representa o nascimento não apenas de Jesus Cristo encarnado, mas também de uma nova vida, que surge em cada um de nós, a partir do momento em que O reconhecemos como nosso Senhor. Porém, sabemos que na prática o que quase todas as pessoas celebram é um Natal apenas de exterioridades, ou seja, mais uma data de festa, mais um feriado.
   Para ser mais didático, analisarei alguns argumentos contrários a celebração do Natal, que ao meu ver são muito superficiais e inconsistentes. Em seguida, concluirei com minha opinião e farei algumas considerações importantes sobre o assunto.

1 - Jesus não nasceu em 25 de dezembro = Que diferença isso faz? Segundo estudiosos, uma data mais provável seria o mês de setembro, outros ainda apontam abril. De qualquer forma, a gratidão pelo “nascimento” de nosso Salvador precisa estar dentro de nós em todos os dias do ano. A data escolhida para uma comemoração não importa. É como adiar a comemoração de nosso aniversário para fazer uma festa conjunta com um amigo que nasceu depois. A escolha de uma data, independente de qual seja, é útil para representar historicamente o fato, e (teoricamente) serve para as pessoas se reunirem para celebrar o maior dos nascimentos. 

2 - A bíblia não manda celebrar Seu nascimento = É uma afirmação verdadeira. Realmente as Escrituras não possuem esse mandamento, assim como não ordenam as demais milhares de coisas que fazemos ou que comemoramos. Não há mandamento para o dia da bíblia, nem para festividades de grupos de jovens ou de senhoras nas igrejas, nem para celebrarmos dia das mães e sequer há mandamento para criarmos religiões e denominações religiosas. Quantas coisas você faz em seu dia que tem "ordem" bíblica? Quase nenhuma, com certeza. Enfim, celebramos o nascimento de tantos amigos e parentes, por que não podemos celebrar o nascimento de nosso Senhor? Muitos alegam que só devemos comemorar Sua morte, mas para alguém morrer, tem que nascer, certo? Jesus NASCEU, MORREU e RESSUSCITOU. São 3 momentos históricos na vida de Jesus Cristo homem e qual o problema em comemorar qualquer um desses acontecimentos? Alguns poderão ir ao outro extremo ao afirmarem que temos o dever de celebrar, pois os anjos celebraram o nascimento de Jesus (Lucas 2:13,14) e pelos magos/sábios do oriente terem ido até o menino Jesus com presentes, o que seria outro radicalismo. Devemos ter cuidado com esse “farisaísmo”, para não permitir o que Deus proibiu e para não proibir ou colocar como mandamento o que Deus considerou indiferente. O Evangelho não é uma lista de regras, de "pode e não pode". O Evangelho gera consciência e ação sempre em coerência com Jesus. Aí pergunto: comemorar ou deixar de comemorar essa data fere a forma de viver ensinada por Cristo?
     Como diria o irmão Hermes Fernandes: "Por que comemoro o Natal? Simples! Jesus nos ensinou a orar que a vontade de Deus fosse feita "assim na terra, como no céu". Logo, se o céu celebrou o natal com direito a coral de anjos e tudo, por que a terra não o comemoraria?"

3 - A festa centraliza a comida e a bebida, esquecendo o lado espiritual = Esse é um grande problema. O Natal tornou-se apenas um feriado, uma data em que se ganha presentes e uma ocasião para comer e beber à vontade. Poucos param para pensar no que deveria representar este momento. Porém, essa é uma questão pessoal e, se isso é um erro, está em cada um que pensa dessa forma e não, na celebração propriamente dita.

4 – Tornou-se uma oportunidade de comércio = Também é verdade e os comerciantes sabem muito bem disso. É um período de aumento estratosférico nas vendas, seja de utilidades para presentes, de roupas ou de alimentos. Devemos ter cuidado para não ficarmos reféns desse capitalismo cruel, que faz com que pessoas que mal tem o que comer deixem de pagar suas contas para comprar produtos típicos dessa ocasião. Se você tem boas condições financeiras e quer gastar com presentes e comidas, cada um faz o que bem entender com seus recursos. Se não tem, não se sinta pressionado a fazer o que os outros fazem. Mas sejamos sinceros: praticamente todos os trabalhadores se beneficiam financeiramente dessas épocas (seja em comércios, empresas no geral, fábricas, autônomos e até trabalhadores rurais). Será que você abre mão do aumento do lucro que tem nesse fim de ano? Dificilmente, né?

5 – O Natal está baseado em cultos a deuses pagãos = Não há um consenso sobre a origem do Natal, mas as evidências parecem apontar o início dessa comemoração no século IV, por instituição da Igreja Católica Romana. A data escolhida (25 de dezembro) talvez seja devido ao solstício de inverno, que marcava o início dessa estação no hemisfério norte. Os romanos usavam essa data para celebrar a Saturnália (homenagem ao deus Saturno) e adorar Mitra (deus da luz). Assim, embora as inúmeras evidências apontem para uma data distante de dezembro para o nascimento de Jesus, a Igreja  adotou esse período numa tentativa de “cristianizar” os pagãos.
     Aí alguns dirão: "Está vendo? É uma festa de origem pagã!" A esses eu respondo: muitas coisas que usamos ou fazemos atualmente tem origem pagã. Devemos lutar sempre pela imparcialidade. Se condenarmos tudo que tem essa origem, devemos abolir os templos religiosos (provável origem suméria), as alianças de casamento (origem hindu ou egípcia), as maquiagens (origem no Egito Antigo)... Sem falar nas celebrações de dia dos namorados, nas cerimônias de casamento, nos vestidos de noiva e no próprio cristianismo, que foi institucionalizado como religião romana no quarto século, de forma que o sincretismo com outras religiões da época é evidente. Ou quem sabe deveríamos abandonar o nosso calendário (que é solar e que foi usado inicialmente pelos egípcios, depois alterado muitas vezes, inclusive pelos romanos. Você sabe que o mês de maio refere-se à deusa Maia? E que o mês de fevereiro refere-se ao deus Februarius, a quem os romanos ofereciam sacrifício pela expiação de seus pecados?). Rejeitar o Natal e aceitar o calendário gregoriano não me parece coerente. Poderia ainda citar a celebração de ano novo (Reveillon), que foi adotada por muitos povos antigos, sendo estabelecida em 1º de janeiro pelos romanos. Mas o fato de terem essa origem nos impede de adotarmos tais "costumes"? Não é porque um gato preto é sinal de má sorte para os supersticiosos que eu não possa ter um de estimação.
     A Páscoa, por exemplo, tem um significado para os cristãos, outro para os judeus e diversos outros para os demais povos. Algumas civilizações celebravam o fim do inverno e início da primavera no mesmo período (março). Mas o significado de cada evento depende da cultura em questão e, mais do que isso, da consciência de cada indivíduo. O dia 12 de outubro é dia de "Nossa Senhora Aparecida" para os católicos, mas para os evangélicos é apenas "Dia das Crianças". Percebe que a data tem a ver não com a essência e sim, com o significado que atribuem a ela? Será que alguém comemora o Natal pensando no diabo? Pelo menos eu não conheço ninguém assim...
     E o mais triste é saber que nos dizemos cristãos, mas ao invés de seguirmos os ensinos de Cristo, vivemos como os fariseus de Seus dias, com uma ideia meramente religiosa. Aplico a esse contexto uma citação de Ed René Kivitz: "Na cultura religiosa o impuro contamina o puro. No ensino de Jesus o puro limpa o impuro."

6 - Os enfeites de Natal são verdadeiros altares de deuses da mitologia antiga = A origem desses adereços é extremamente controversa e podemos encontrar várias explicações para um mesmo objeto, ou seja, há muitas especulações que são tidas como verdades.
     A árvore de Natal pode ter se originado no século XVII, na França. Com relatos de que árvores floresceram no dia do nascimento de Jesus, muitos passaram a enfeitar pinheiros em referência a esse acontecimento. Outros povos adornavam árvores (em dias festivos), que tinham um significado de vida e de esperança. Uma fábula babilônica diz que o pinheiro simboliza Ninrode, um perverso homem que teria casado com sua mãe. Outras evidências apontam para uma origem na Alemanha, quando Martinho Lutero enfeitou árvores para ilustrar a crianças e a pessoas próximas a ele como seria o céu no dia do nascimento de Jesus Cristo ou ainda como teria sido uma paisagem que acabara de presenciar na floresta. Uma terceira explicação diz que ele pretendia mostrar com os enfeites da árvore, os frutos do Espírito que brotam naqueles que se entregam Cristo, sendo alimentados pela "seiva divina".
     Esses enfeites seriam de papéis coloridos e doces, sendo, com o tempo, substituídos por: bolas (representando os frutos e a fertilidade), estrelas (chegada de Jesus), anjos (anúncio do nascimento do Cristo), sinos (que anunciam grandes acontecimentos), velas (a “luz do mundo”), guirlanda (esperança de uma vida melhor), entre outros. 
     Adeptos de algumas seitas vêem nesses adereços um significado próprio, sendo que cada cor traria uma energia. A posição de cada objeto interferiria nas “forças” ocultas e até a sequência de montagem desses enfeites deveria ser de uma forma específica. Para mim, a árvore é apenas um belo adorno, da mesma forma que uma faca pra mim não é arma e sim, instrumento para cortar alimentos; do mesmo modo que um gato preto para mim é apenas um lindo animal; da mesma forma que uma vela pra mim é apenas um item útil em caso de falta de luz. 
     Outro ponto muito questionado é o Papai Noel. Provavelmente, tenha se originado em 280 d.C, data do nascimento do bispo Nicolau (posteriormente considerado "santo" pela Igreja Católica), na Turquia. Esse homem teria boas condições de vida e ajudaria pessoas carentes, dando-lhes presentes e dinheiro. Com o tempo, sua imagem foi associada ao Natal, sendo que a característica roupa vermelha (que até então era verde) surgiu apenas em 1886 e foi difundida por todo o mundo, principalmente a partir de 1931, quando a Coca-Cola utilizou a imagem do “bom velhinho” como propaganda. Hoje, em nossa cultura, é um dos principais símbolos do Natal, fazendo parte da imaginação das crianças e simbolizando a generosidade.

     Podemos adotar esses símbolos? O que podemos concluir a partir da bíblia?
     No livro de Daniel encontramos quatro judeus que foram levados pelos caldeus para servirem no Império Babilônico, sendo eles: Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Os eunucos do império trocaram esses nomes por termos babilônicos (Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abednego), que faziam referências às divindades daquele povo, e não observamos rejeição por parte desses judeus (e Deus não os abandonou por isso). Mas quando deveriam se prostrar diante de outros deuses, não o fizeram, por temor ao Senhor. É nítido que se o costume “pagão” não tem intuito de adoração e se não é "imoral", não faz diferença alguma. Deus nunca foi refém de culturas, de idiomas, de religiões ou de tradições.
     Na primeira epístola aos Coríntios, Paulo ensina sobre os alimentos sacrificados aos ídolos e o mesmo ensino pode ser aplicado ao Natal e à adoção de seus símbolos. O apóstolo ensina que se há um único Deus, não há sentido falar em coisas sacrificadas aos deuses, afinal são apenas ilusões e enganações. E, se cremos que existe apenas um Deus, por que nos preocupamos com entidades pagãs? Paulo dizia ainda que poderíamos comer de tudo, desde que não escandalizássemos os “fracos na fé”. Portanto, se tenho consciência disso, onde está o erro em ter uma árvore de natal em casa, por exemplo? Como não devemos causar escândalo para quem ainda está com uma “venda” nos olhos (não digo aqueles que já ouviram o Evangelho há anos e insistem em dar mais importância aos seus preconceitos e às suas visões religiosas do que à Palavra de Deus e sim, aqueles que estão começando agora a caminhada com Cristo), o que podemos fazer é ensinar o Evangelho a esses indivíduos e não colocá-los na sala de nossa casa enquanto esse enfeite estiver lá ou enquanto não entenderem a real mensagem de Jesus. Obviamente, então, na minha opinião, jamais deveríamos colocar uma árvore ou um presépio num local em que vários irmãos "imaturos na fé" e que ainda se alimentam de "leite espiritual" terão acesso (a menos que possamos explicar um a um o motivo da existência daquele enfeite ali). Embora não haja nenhum erro na adoção ou rejeição do enfeite, não podemos ser motivo de tropeço (já que, infelizmente, podem achar que estamos fazendo essas coisas como idolatria).

I Coríntios 8:6-9 = “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. Mas nem em todos há conhecimento; porque alguns até agora comem, no seu costume para com o ídolo, coisas sacrificadas ao ídolo; e a sua consciência, sendo fraca, fica contaminada. Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta. Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos.”

     Talvez você me pergunte: "mas o que está por trás do Natal, além de ser pagão, tinha a intenção original de adorar ídolos. Como vamos adotar algo que tinha claramente esse objetivo antes de ser modificado pelo cristianismo?"
     Então lhe respondo tentando seguir a  mesma lógica de Paulo: o que determina o sentido de um ato é a motivação de quem o pratica. Quando Paulo fala que "poderia comer qualquer alimento, mesmo os sacrificados aos ídolos, desde que a consciência não o acusasse e desde que não ferisse a consciência dos novos na fé", ele ensina pelo menos duas coisas:

1 - Paulo estava falando exatamente sobre alimentos que foram feitos COM O OBJETIVO DE ADORAR OUTROS DEUSES/ÍDOLOS. E parafraseando Paulo: "se você sabe que essas pessoas estão no engano e que os ídolos nada são, por que não comer? Se está convencido disso, se tiver vontade, coma. Mas se tem medo ou dúvidas, não coma, não porque os ídolos farão mal a você e sim, porque a sua consciência ainda fraca lhe acusará e será danoso."

2 - Mesmo se você crê que tudo é de Deus... que "todas as coisas são puras para os puros e que tudo é impuro apenas para os impuros"... que "o que contamina o homem é o que procede do coração e não algo exterior"... que em Cristo o puro é que purifica o impuro e o impuro jamais tem poder para contaminar o puro... Mesmo diante de tudo isso, cuidado para não escandalizar seu irmão, pois deve amá-lo como a ti mesmo. Então, por amor a ele, embora tudo lhe seja permitido, nem tudo lhe convém. Às vezes será prudente abrir mão de alguma coisa, até que seu irmão possa entender essa realidade que Cristo nos trouxe, que deixa toda essa questão religiosa praticamente sem valor algum. Então não imponha nada a seu irmãozinho, pois a consciência dele pode ainda não ser a sua. Não o escandalize. "A fé que tu tens, tenha para ti mesmo". É assim que eu resumiria todo o ensino de Cristo e de Paulo em relação a isso.

     E saiba: da mesma forma que algo que foi originalmente criado para ser positivo pode ser usado para o mal, algo criado com um objetivo não recomendável pode ser usado para o bem. Quem dá significado a cada coisa é o usuário. Por exemplo: o "Viagra" foi criado originalmente para tratamento de problemas cardíacos e depois passou a ser usado para impotência sexual; a faca foi criada para facilitar nossas atividades diárias, mas alguns a usam como arma branca para tirar a vida; medicamentos foram usados para aliviar/curar doenças, mas alguns usam para o suicídio... O objetivo da criação de cada evento ou objeto perde o significado quando quem a usa atribui a ele um outro objetivo. Da mesma forma que o cristianismo como religião surgiu como uma esperta manobra política de Constantino, alguns segmentos, mesmo estando sobre essa origem "pagã", mantém a sincera pregação da Palavra de Deus. Da mesma forma que galinha preta é, para alguns, item para um ritual de magia negra, para mim é uma ave como todas as demais galinhas. Da mesma forma que alguns batem palmas para chamar uma entidade espiritual, eu bato para reconhecer a bela apresentação de um artista. O significado de cada coisa quem dá somos nós. Se alguém faz a mesma coisa que eu com outros fins, essa pessoa é responsável por ela. Eu respondo pela minha motivação e significação.  

     Infelizmente o "Natal moderno" não representa com fidelidade o contexto histórico do nascimento de Jesus. Nessa celebração, o que fazemos são grandes festas, com grandes banquetes, vestimos as melhores roupas e criamos belíssimas decorações. A lembrança do real motivo do evento acontece apenas quando há um presépio e o nosso coração está quase sempre apenas envolvido com a troca de presentes. Ou seja, a simplicidade da manjedoura foi trocada pelo glamour de uma festa que valoriza apenas a exterioridade e, de forma inevitável, exclui os menos favorecidos economicamente, que nesse período do ano, precisam se contentar com as "esmolas", sobras ou presentinhos dados por aqueles que possuem mais dinheiro. Enquanto a criança rica não vê a hora de chegar o dia 25 de dezembro para ganhar um belo presente, a criança pobre chora porque o amiguinho a desprezou, já que seus pais não tem dinheiro para comprar o brinquedinho que ela sempre quis e a bela roupinha para usar nessa data. Percebe como nosso Natal não tem nada a ver com Jesus? Enquanto Cristo veio ao mundo pelos ricos e pelos pobres, a festa apenas valoriza os que possuem algum recurso financeiro; enquanto Jesus nasceu em uma manjedoura, em uma situação precária, o Natal nos traz uma aparência luxuosa...
     Uma vez que reconhecemos que essa festa está totalmente fora de contexto, podemos agora ter um posicionamento crítico. Seria fantasia imaginar que poderíamos mudar uma das celebrações mais tradicionais do mundo, pois já faz parte da cultura dos povos, porém podemos resgatar a essência do Natal, não por fora (na festa propriamente dita), mas no coração de cada um de nós.
     Como vimos anteriormente, os argumentos contrários à nossa participação nessa festa não parecem muito consistentes, portanto se nos reunimos com nossa família e amigos no Natal não significa que temos uma visão egoísta sobre essa data; o fato de trocarmos presentes não significa que não temos consciência do verdadeiro "presente" que recebemos (na história) há cerca de 2000 anos; ter um enfeite do Papai Noel em casa não significa que alguém o idolatra como um santo ou que o coloca como mais importante do que Jesus...
      Pactuando ou não com essa simbolização, o que determina se temos o verdadeiro Natal em nós é o nosso coração. Cada um tem a liberdade de comemorar esse Natal interior, que é o único que tem valor. O Natal do coração não requer nenhum dinheiro e não acontece apenas um dia no ano, e sim, todos os dias, através do Evangelho manifestado em nós. Dessa forma, não apenas comemoraremos, mas também viveremos esse Natal. Fazemos isso quando alimentamos o faminto e quando ajudamos o necessitado; quando damos um brinquedo àquela criancinha "de rua" que vemos todos os dias; quando ao invés de comprarmos um panetone, compramos dois e damos um para aquela família pobre ou para aquele mendigo que está jogado a 100 metros de nós... O Natal como festa, se for desacompanhado do "espírito natalino de amor e solidariedade" será hipócrita e gerará apenas maus frutos.
     Portanto, vamos aproveitar esse período de festas para fazer uma profunda reflexão sobre o amor incomparável de Deus, que encarnou (nasceu), viveu, morreu e ressuscitou por mim e por você. Vamos reconhecer isso com uma mudança nas nossas atitudes, na nossa forma de ser e de encarar o nosso próximo, procurando sempre viver como Ele nos ensinou. Pode montar sua árvore, construir um presépio, iluminar sua varanda, desejar "Feliz Natal", fazer uma ceia com a família, trocar presentes... Isso tudo é bom, pois estaremos reunidos em amor, em comunhão, com aquilo que é o foco do ensino de Cristo: o nosso próximo (sejam amigos, família ou desconhecidos). O que é contrário ao que Jesus ensinou é todo tipo de radicalismo legalista, fanatismo e "farisaísmo hipócrita", a ponto de satanizar tudo o que temos em nossa volta. Essa rejeição não tem poder contra a carne e não gera bons frutos, nem consciência. Porém, lembre-se que a única coisa que tem valor para Deus é o Natal que faz nascer em você uma nova criatura e que, todos os dias, o constrange em amor a viver como Jesus, ajudando sempre de alguma forma aqueles que mais necessitam de você. E se mesmo assim você desejar não comemorar esta data, fique à vontade. Da mesma forma que Deus nunca proibiu essa celebração, nunca a ensinou como indispensável a nenhum de nós. A festa não tem uma função espiritual, mas se bem aproveitada, pode ser uma ótima oportunidade de ensinar a todos o verdadeiro significado do nascimento de Cristo, além de estreitar amizades e de fazer nascer (ou recuperar) relacionamentos humanos. Não seria isso um ótimo Natal? Aja de acordo com sua consciência desenvolvida no Evangelho e não julgue seu irmão por aceitar ou por rejeitar o Natal, afinal, você e ele tem liberdade para assumirem responsabilidades e fazerem escolhas, sendo que no que diz respeito a esta data, não há nenhuma recomendação específica da parte de Deus. 

Romanos 14:14 = “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.”

Colossenses 2:16-17 = "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo."

Autor: Wesley de Sousa Câmara