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14 de nov de 2016

Pilatos: Para alguns, um santo; para outros, um diabo.


     É interessante notar que, ao longo do tempo, Pilatos (governador romano da judeia nos dias de Jesus) foi se tornando cada vez menos culpado pela morte de Jesus e essa culpa foi sendo imposta progressivamente sobre os judeus. Isso é nítido dentro da bíblia e fora dela.
     Olhe para o primeiro evangelho escrito, o de Marcos (65-70 dC): nele há uma nítida cumplicidade entre Pilatos e judeus na condenação de Jesus. Posteriormente foi escrito o evangelho de Mateus (80-85 dC) e de Lucas. No de Mateus, após ter sido avisado pela esposa que teve um sonho, Pilatos lava suas mãos, deixando claro que a condenação de Jesus seria culpa dos judeus, que assumem essa responsabilidade. No de Lucas, Pilatos declara Jesus inocente algumas vezes e só o condena por pressão dos judeus.
     Tempos depois foi escrito o evangelho de João (90-95 dC), que relata Pilatos declarando Jesus inocente algumas vezes e posteriormente entregando-o aos judeus para decidirem pela absolvição ou condenação.
     E o mais interessante é que uma falsificação posterior (séc II, provavelmente), conhecida como "o Evangelho de Pedro" (escrito por alguém que tentava se passar pelo apóstolo Pedro), descreve o evento da condenação de Jesus culpando mais explicitamente ainda o povo judeu e isentando Pilatos. É dito que Herodes (rei judeu) e os judeus negaram-se a isentar Jesus da culpa, condenando-o e depois assumem isso, dizendo: "que a desgraça caia sobre nós [judeus], por causa dos nossos pecados".
     Posteriormente foram surgindo outros relatos, como uma suposta carta de Pilatos ao imperador Tibério, em que o governador assumia a divindade de Jesus (e se tornara um cristão). Teria ele sido tão convincente que o imperador romano só não proclamou Jesus como um deus romano por causa da rejeição do Senado. Outras lendas posteriores diziam que Pilatos teria sido executado pelo imperador romano "por ter executado o filho de Deus", mas Pilatos declara tanto no julgamento quando no momento da morte que ele era inocente e que os judeus são os culpados. E então teria vindo uma voz dos céus, afirmando que ele era um "abençoado" e que "seria testemunha de Cristo na segunda vinda". Por fim, em alguns locais a igreja o considerou como um mártir cristão, elevando-o ao patamar de "santo".
     Então quem foi Pilatos? Olhando para a história, encontrará afirmações que variam de santo a diabo. Tire suas conclusões.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
(14/11/2016)

Referências: 
Ehrman, Bart. D; Evangelhos Perdidos. 2012, 3ª Ed, Editora Record.

8 de set de 2016

Porque não é fácil participar de um grupo religioso


     Considero muito importante, como cristão, participar de uma comunidade de forma fixa e oficial (na impossibilidade disso, é bom se reunir com alguém, nem que seja com o marido/esposa e/ou alguns amigos em casa), porém, para isso, tenho que ter uma identificação grande com o que nela é defendido. Não que ela deva ser perfeita (nenhum grupo o é e tampouco é perfeita a minha definição de perfeição, já que eu sou imperfeito). 
     Não me rotulo como "desigrejado" e tampouco tenho rejeição a qualquer institucionalização de uma comunidade (acho essa questão tola e infantil, mas é assunto pra outro momento). Mas essa comunidade precisa ter uma orientação teológica semelhante a que defendo para que eu possa dela fazer parte. É complicado eu defender uma crença teologicamente "moderada" e participar de uma comunidade liberal (que nega totalmente a ortodoxia cristã, qualquer tipo de milagre de Jesus ou sua ressurreição). E pior ainda (aí considero impossível): eu participar de uma comunidade fundamentalista, ou de um conservadorismo teológico extremo, como é a maioria dos grupos no Brasil, que defendem que uma visão (sempre a deles) pode sim ser absoluta, fruto de pura revelação do Espírito e quem discorda é porque não está discernindo espiritualmente a Palavra.
     Também é extremamente difícil participar oficialmente de um grupo cuja tradição teológica, mesmo que séria, tem divergência comigo já nos paradigmas, na concepção de Deus. Considero meus irmãos católicos, arminianos e calvinistas como cristãos que seguem tradições sérias e consistentes, mas não tenho afinidade por essas teologias. Não as considero as melhores abordagens cristãs. Tenho uma afinidade pelas premissas protestantes e possuo mais identificação com a tradição luterana. Então como posso ser hipócrita ou falso de participar ativamente de um grupo, sendo que discordo de algumas premissas que partem? Como posso estar em um meio e criticando duramente o que defendem? Da mesma forma, como posso ser honesto comigo e, em prol de uma boa convivência religiosa, censurar o que penso e abrir mão de expor publicamente o que sinto? Não consigo ser desonesto, nem hipócrita a esse ponto.
     Também não acho possível participar oficialmente de uma instituição ou comunidade que fecha os olhos para a realidade e para as evidências, a fim de manter dogmas e tradições insustentáveis diante do conhecimento científico atual. Ter fé não significa negar a ciência e tampouco ser alienado. Ter fé não é sinônimo de viver num fideísmo cego e tolo. 
     Não consigo ainda participar ou defender um grupo que não prioriza os reais problemas das pessoas. Um grupo que dá excessiva importância a questões sexuais, em detrimento das sociais; que "disciplina" o jovem que faz sexo antes do casamento, mas que consagra como "obreiro" alguém por ser amigo ou parente do líder; um grupo que pouca importância dá ao pobre, mas que se aproxima do rico e do diplomado; que não visita a aposentada doente, mas que não deixa de se reunir com o empresário e com o político influente; um grupo que fecha os olhos para os problemas do mundo e se fundamenta conservadoramente em questões como o controle de natalidade, o uso de preservativos e vacinas, manutenção de casamentos infelizes e pressão para ocorrência de casamentos de jovens que se relacionaram sexualmente; um grupo que condena algumas vestimentas, cigarro e bebida, mas que não se manifesta diante da epidemia de obesidade devido à maus hábitos alimentares e falta de atividade física; um grupo que condena a discussão de gênero nas escolas, mas que nada diz dos programas televisivos repletos de violência e de atrocidades que seus filhos assistem; um grupo que deseja impor sua fé e defender seus interesses através de leis e de representantes na política, em vez de defender um estado laico, que defenda os interesses da maioria e dos que mais necessitam.
     Além disso tudo, como eu participaria de um grupo que enfatiza a emoção e o "sentir", em detrimento da reflexão e da razão? Uma comunidade que não entende que o que sentimos não tem a ver com Deus e sim, com nossa emoção de momento; que sentindo ou não, Deus está comigo, até quando sinto que Ele me abandonou. Não se foca nas promessas de Deus em Cristo e sim, nas percepções humanas. Como participar de um grupo que acha que o culto é um momento de "oferecer algo" a Deus ao invés de receber de Deus Sua Palavra proclamada e a renovação de suas promessas, por exemplo, nos sacramentos? (Devem se esquecer que, como disse o profeta, até nossas obras de justiça não passam de trapos de imundície para Deus, afinal, o que seres pecadores e imperfeitos podem oferecer ao Deus soberano?). Como pertencer a um grupo que confunde "presença de Deus" com barulho, "batismo no Espírito Santo" com "línguas estranhas", "unção" com rodopios e quedas no chão? Um grupo que chama de "casa de Deus" o prédio em que se reúne, mesmo sabendo que o Deus não habita em templos feitos por homens e sim, o coração do ser humano? Como fazer parte de uma comunidade que acha que Pecado é meramente uma conduta imoral, em vez de ser o estado de imperfeição de todo ser humano? Como pactuar com um grupo que acha que o maravilhoso processo de salvação nos dado por Graça é algo que conquistamos por méritos (e que perdemos se não seguirmos uma cartilha) ou que meramente significa "ir pro céu um dia"?
     Enfim, como fazer parte de um grupo que condena aqueles a quem Jesus incluiu? Jesus, sabendo que Judas era ladrão e traidor, sentou com ele à mesa. Já a massacrante maioria das comunidades cristãs apontam o dedo, condenam o pecado do outro por ser diferente do pecado deles e excluem dessa comunhão esses pecadores... Quanta diferença entre Cristo e a maioria dos que se dizem cristãos...
     Não é que sou chato e exigente e sim, que não consigo ser cego, surdo e mudo diante dessa hipocrisia que se tornou o cristianismo brasileiro (com exceção de poucas comunidades sérias e honestas). Não sou melhor do que ninguém, mas se não há afinidade entre um grupo e eu, essa relação que eu mantiver com ele será um "adultério espiritual". E disso, estou fora!

Autor: Wésley de Sousa Câmara 
08/09/2016

7 de set de 2016

Deus não criou para Sua glória e nem para ser adorado


     Isso é óbvio e é um dos motivos pelo qual não adoto a teologia reformada/calvinista. Não tem como Deus ser amor e, ao mesmo tempo, criar "para Sua glória". Ou um, ou outro. Paulo, (I Coríntios 13) disse que "o amor não busca seu próprio interesse". E criar para ser adorado ou glorificado é interesse próprio. É narcisismo!
     Deus criou por amor. Criou pois quis compartilhar desse amor com suas criaturas. O amor não se contém. O amor reparte. O amor contagia, se expande.
     Sigo a linha de K. Bart que diz, a grosso modo, que Deus criou com um objetivo: Jesus Cristo. Ele é o foco, o centro e a razão/intenção da criação. Nós somos coparticipantes dessa história. Temos o privilégio, por graça, de dela fazer parte.
     Adoramos a Deus por consciência, por gratidão, por sermos constrangidos diante de tanto amor e não, por ser esse o desejo ou necessidade de Deus.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
07/09/2016

1 de set de 2016

A oração que faz bem e a oração que faz mal


     Muito se fala em oração, na importância de orar e de ter esse "diálogo com Deus". Porém, esse conceito raso de oração que a massacrante maioria dos cristãos possuem, é perigoso. É uma faca de dois gumes. E aqui quero alertar para os perigos da oração. Isso mesmo: se por um lado ela nos coloca em uma "conversa com Deus", por outro ela pode criar em nós uma tremenda ilusão:
     A oração pode gerar na mente de muitos a ideia de um Deus interesseiro e barganhador. Afinal, Ele só me abençoará ou atenderá o que desejo se eu pedir, ajoelhar, implorar, repetir... (sem contar as campanhas de oração e os jejuns). Mas tudo o que recebemos é por graça, é favor imerecido e independe de nosso pedido ou oração.
Por causa disso, alguns defendem que a oração deve ser apenas para agradecer. Mas aí corre-se o risco de criar na mente um deus narcisista, que precisa de agrado, de afago, de recompensa, como um cão adestrado que recebe petisco quando executa bem uma tarefa.
     Pensar na oração como mero momento de "dialogar com Deus", de fechar os olhos e se dirigir com palavras a Ele é algo muito infantil. Não que isso não seja oração, mas a oração vai muito além disso. "Orar sem cessar" não é ficar com olhos fechados, de joelhos e conversando diretamente com Deus 24 horas por dia (se você age assim procure urgentemente um psiquiatra, pois está mais para "esquizofrenia" do que para "intimidade com Deus"). A oração é um modo de vida, uma comunhão contínua com Deus, de forma que você estará "interagindo" com Deus não só com palavras, mas também com atitudes. Orar é buscar viver a "oração do Pai nosso": É ver Deus acima de todas as coisas; é desejar o Reino (vontade) de Deus em nosso meio; é estar satisfeito com o pão sobre a nossa mesa; é perdoar quem nos ofende; é buscar apoio nEle para fugirmos das ciladas do mal...
     Já a oração como momento de "falar com Deus" é um exercício para nós humanos, para colocarmos em nossa mente que temos essa comunhão com Deus, um relacionamento pessoal e íntimo com Ele. É para entendermos que com Ele podemos nos abrir a todo momento. Mas não devemos ter a ilusão de que nossa oração vai "mover as mãos de Deus" a nosso favor. Quando nossa oração coincidir com a vontade divina, será atendida. Mas não mudamos Deus quando oramos. Quando oramos nós é que somos mudados para ficarmos mais alinhados à vontade dEle.
     "Ah, mas em determinado trecho bíblico vemos fulano orando e Deus mudando de ideia para atender essa pessoa". Veja bem: em cada livro da bíblia observaremos a interpretação teológica de cada tradição/autor sobre determinado acontecimento. Por isso temos que estabelecer prontamente um parâmetro absoluto (proponho o que sabemos de Cristo - afinal, somos cristãos) e por esse parâmetro avaliamos todo o resto. E o que vemos em Jesus? Quando Ele tinha tudo para tentar "comover Deus e mudar Seus desígnios" (afinal, teria alguém com uma fé maior que a de Jesus?), Ele disse: "Pai, seja feita a Sua vontade e não a minha". Pois bem, aí vemos o objetivo da oração: alinhar nossa vontade à vontade de Deus e quando isso acontece, tudo quanto pedimos é atendido. Não porque convencemos Deus, mas porque a nossa consciência foi convencida pela vontade dEle.
     Entenda: A oração não é uma ação humana PARA DEUS. É um instrumento de Deus PARA O HOMEM. É um meio da Graça e temos o privilégio de usá-la.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
01/09/2016

15 de ago de 2016

Pecado é não ser perfeito


     Pecado é um estado, muito mais do que meros "atos imorais" (que são apenas sintomas/sinais visíveis humanamente da real "doença". Pecado é a distância entre a perfeição e a imperfeição; entre o que somos e o que deveríamos ser; entre nós e a humanidade perfeita e unida a Deus que foi revelada em Cristo.
     Pecado é a transgressão da Lei divina/ideal divino (que é perfeição em amor a Deus e ao próximo). Pecado é a transgressão da Vontade de Deus (Lei) que foi revelada parcialmente ao longo da história (inclusive em Moisés) e plenamente em Cristo.
     O fato de eu não amar perfeitamente denuncia meu distanciamento de Deus, ou seja, minha incapacidade de cumprir a Lei (que é perfeita, logo, para cumpri-la eu devo ser perfeito, pois descumprir um mínimo detalhe dela é como descumpri-la toda). É justamente por eu não ser capaz de cumprir essa perfeição que ela me desmascara, que ela evidencia meu pecado. Ou seja, meu pecado é minha incapacidade de cumpri-la (é um estado, um problema ontológico, de essência). Meu pecado é errar o alvo da perfeição. Pecado é não ser perfeito!
     E foi o Pecado (esse estado do ser humano) e não meros "pecados" (atos imorais) que Cristo resolveu na Cruz. Esse é o anúncio do Evangelho - "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo, não imputando ao homem suas transgressões..."), pois se o pecado me afasta de Deus, Jesus vence o pecado (e sua consequência: a morte - o afastamento do divino, o fim da existência).
     Cristo, ao reconciliar-nos com Deus define que Deus não se relaciona mais com o homem com base no Pecado (afastamento do divino) e sim, com base na Cruz (religação do homem a Deus).
     Mas Deus não tira nossa humanidade, que está tanto relacionada com Adão (que representa o homem pecador, imperfeito, relativo), quanto com Cristo (homem perfeito, puro, a expressão de Deus em forma humana). É nesse conflito que vivemos (entre o bem e o mal, o perfeito e o imperfeito...), como Paulo ensinou aos romanos.
     O que quero dizer? Que diante dos olhos de Deus, mesmo sendo pecadores, tornamo-nos justos. Deus olha pra mim e vê Jesus. Olha pro meu pecado e vê a justiça de Cristo. Esse é o significado da Cruz. Boa notícia? Ótima! Por isso é Evangelho. Eu mereço tanto amor? Não! Por isso é Graça!

Autor: Wésley de Sousa Câmara
15/08/2016

23 de jul de 2016

Bíblias nas escolas?


     Quem nunca ouviu ou leu a famosa citação abaixo?

"Bíblias não são mais lidas nas escolas, mas sua leitura é incentivada nos presídios. Se as crianças pudessem lê-las nas escolas, talvez não viessem a lê-las nos presídios!"      

     E o que dizer dela? Acho extremamente tola e explico os motivos:
     Na escola é para serem lidos livros didáticos, de acordo com as disciplinas curriculares nas áreas sociais, biológicas, exatas... Afinal, o objetivo da escola é a educação. Religião/fé não é papel da educação escolar. Não dá pra ser anti-ético ao extremo e querer ler a bíblia nas escolas, pois diversas outras religiões exigirão, com toda razão, que seus livros também sejam lidos. Duvido mantermos essa opinião religiosa quando chegar um pai dizendo: "ok, mas vamos também ler na escola o Alcorão". E ainda outro pai: "ok, mas vamos também fazê-los ler a bíblia satânica". Ah, aí você não vai gostar, né? Pimenta no "olho" dos outros é refresco...
     E as atrocidades cometidas durante a história por pessoas que usavam determinadas interpretações da bíblia como justificativa? Há os que usam até hoje as histórias de Moisés e Josué para se acharem mais amados por Deus ou detentores de determinados benefícios; há quem use outras histórias hebraicas para defender um Deus sádico, caprichoso e vingativo (bem diferente do que Cristo nos revela); há quem cite salmos para defender a soberba, o orgulho e a vingança; há quem use o livro do Apocalipse para defender um leque quase infinito de interpretações, de sóbrias a extremamente infantis. Enfim...
     Toda leitura (inclusive bíblica) requer interpretação e quem garante qual interpretação seria dada às crianças nas escolas? Para começar, em pouco tempo, você que defende a leitura/ensino da bíblia nas escolas provavelmente seria mais um contrário a tal medida, visto que o que seu filho aprenderia lá algo que dificilmente coincidiria com a interpretação que você tem da bíblia. Ou seja, lá ensinariam um interpretação da bíblia e na sua casa e na sua igreja, outra bem diferente.
     Então seja coerente, honesto, respeitoso e ético. Vamos defender um estado laico, com cada estrutura da sociedade fazendo apenas o seu papel.
     E se a simples leitura bíblica inibisse o crime, não seriam a maior parte dos criminosos filhos de cristãos, ex-frequentadores de escolas bíblicas dominicais ou com história de catecismo realizado. Não existiriam pastores corruptos, nem padres pedófilos. Na cadeia não haveria sequer um "desviado". Então reveja seus argumentos, pois na prática sua teoria já mostrou que não funciona. E se um discurso não parece ser aplicável à realidade, é apenas falácia.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

18 de jul de 2016

Não ofereço nada a Deus


     Não temos nada pra oferecer ao Deus soberano e Criador que, por definição, já não seja dele.

"Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam." (Isaías 64:6)

     Se tivéssemos algo a oferecer não precisaríamos da Graça, que por definição é "favor IMERECIDO". Não temos nada que Deus precise e mesmo assim ele nos ama, abraça, perdoa, acolhe, salva...
     Quem precisa de algo de nós não é Deus, é nosso próximo. Por isso Jesus fica o tempo todo ensinando a amar, a perdoar, a acolher, a ajudar, a compartilhar, a dar água, a alimentar, a cuidar...

Autor: Wésley de Sousa Câmara

6 de jul de 2016

Deus não é brasileiro


     Limites geográficos podem existir em nossos mapas, mas não devem estar presentes em nosso coração. Somos todos amados por Deus, sejamos brasileiros ou estrangeiros, israelenses ou palestinos, cristãos ou "pagãos".
     Deus não é brasileiro, estadunidense ou israelense. Deus é amor e (como defende a fé cristã tradicional), Ele se fez, acima de judeu, ser humano. Ensinou cada pessoa a olhar para todo homem, sem distinção de cor, etnia, religião ou classe social, como sendo o seu próximo, uma extensão de si mesmo.
     Não viva correndo atrás de sonhos proféticos ou visões sobrenaturais enquanto não consegue enxergar nem o necessitado ao seu lado. Quando vemos Deus no nosso semelhante, seja cristão, judeu ou ateu, já podemos dizer que Deus se revelou a nós.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
06/07/2016

5 de jul de 2016

Debates teológicos com foco distorcido


     A discussão Arminiana VS Calvinista VS Semi-pelagiana em relação a salvação (pré-ciência de Deus sobre quem perseveraria até o fim? Deus predestinando/elegendo aqueles que seriam salvos e que, como causa ou consequência, fossem fieis?) é completamente sem sentido.
     A Salvação é uma dádiva, é Graça (favor imerecido). Ela não vem pelo fato de você ser fiel, obediente ou cumpridor da Lei. A sua fidelidade e obediência, por mais perfeita que pareça aos seus olhos, sempre estará a uma distância infinita do que exige a Lei divina. Logo, o argumento "sou salvo porque sou fiel e perseverante na vontade divina" é tão sem sentido quanto o "sou salvo porque fui eleito e minha fidelidade e perseverança evidenciam isso".
     Amigo, nossas melhores virtudes não passam de "trapos de imundície". Elas não nos salvam e tampouco podem ser evidências inegáveis de algo divino (sem contar que muitos "frutos", "obras" e virtudes a gente pode forçar, quando nos convém, e enganar uma multidão). Percebe porque o foco desses debates sempre estão distorcidos?
     Deus nos salva porque Ele é amor e deseja que ninguém se perca. Ponto. O resto é prepotência nossa.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

2 de jul de 2016

A Lei precede a Graça?


"Não dá pra perguntar o que vem primeiro a Lei ou a Graça (Evangelho) porque os dois são sempre simultâneos. É justamente porque o Verbo pré-existe que a Lei é eterna. A Lei é amor absoluto - o amor entre Pai, Filho, Espírito e Criação. Essa é a Lei, desde sempre. Nunca não houve a Lei - a Vontade de Deus, o Amor de Deus. Mas a Lei para nós, a demanda, nunca é divorciada do Evangelho - da redenção, do perdão, da reconciliação."
[Joel Costa Jr]

     Não vejo sentido algum na diferenciação da maioria em nosso meio entre "Lei e Graça". "Tempo da Lei... Tempo da Graça... Isso é Lei... Isso é Graça". Na minha compreensão, nada mais equivocado e sem sentido. O comentário acima, não meu, que tomo liberdade de transcrever aqui ilustra bem o assunto e explica com maestria o que também compreendo.
     Em outras palavras: Lei é a vontade, o ideal de Deus para o homem; Evangelho é a garantia de que, mesmo estando sempre distantes de cumprir a Lei, somos amados, aceitos e acolhidos por Deus em Cristo.
     Mais resumidamente ainda:
Lei = "É assim que você deve ser".
Evangelho = "Você não é como deveria ser, mas Deus te ama, te aceita, te perdoa e te acolhe como você é, a fim de te transformar um dia no que você sempre deveria ter sido".
     E a Graça? É o favor imerecido de Deus que nos concede a Lei e o Evangelho.
   Esqueça essa ideia superficial e distorcida de que Lei é Antigo Testamento, é Moisés ou relacionada a mandamentos judaicos. Ou que Graça é Novo Testamento, Jesus, apóstolos... Jesus é pura Graça, é a encarnação perfeita da Lei e do Evangelho, simultaneamente. Não é a toa que a Graça vem por Ele, que o Evangelho é anunciado e incorporado nEle e que Ele deixa claro: vim cumprir a Lei. Claro, a vida de Jesus é o pleno cumprimento da Lei (ideal) de Deus.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

19 de abr de 2016

Breves e "bombásticas" curiosidades sobre os evangelhos canônicos:



     Primeiramente, o que é "canônico"? É algo que pertence à coleção de livros reconhecidos como pertencentes à bíblia, ou seja, evangelhos que os cristãos, no geral, reconhecem como autênticos.

- Na bíblia, os evangelhos são os livros (os quatro primeiros do Novo Testamento) que nos trazem relatos sobre a vida (incluindo a morte/ressurreição) de Jesus.

- Temos 4 evangelhos "canônicos", sendo Mateus, Marcos e Lucas chamados "evangelhos sinópticos" (que contam geralmente as mesmas histórias, usando muitas vezes os mesmos termos) e João, um evangelho bem diferente, com suas histórias e estilo particulares.

- Todos eles são formas de levar o Evangelho (a "boa notícia") às pessoas, cada um segundo a crença e perspectiva de seu autor, ressaltando alguns aspectos que esse autor julgava condizentes com Jesus. Não no sentido de "todos acharem que Jesus era tudo o que os 4 evangelhos dizem, mas cada um falando só de um 'aspecto'" e sim, de que "cada um realmente achava que Jesus era exatamente aquele aspecto que resolveu registrar por escrito." Ou seja, para "Marcos", Jesus era homem (pelo menos até o seu batismo). Para "João", Jesus sempre (mesmo antes de nascer) foi Deus.

     Por que coloquei o nome de Marcos e de João entre aspas? Pois os três evangelhos sinópticos são anônimos. Os autores nunca se identificaram e podemos dizer com praticamente plena certeza que não foram escritos por testemunhas oculares da morte de Jesus, ou seja, não foram escritos pelo "Mateus, Marcos, Lucas e João" que foram próximos a Jesus. A tradição da Igreja é que, posteriormente, resolveu atribuir a cada um deles essa autoria, porém, ao que tudo indica, o evangelho mais antigo (o de Marcos) foi escrito cerca de 40 anos após a morte de Jesus e o mais recente desses evangelhos (o de João) foi escrito cerca de 60 anos após a crucificação.
     E mais: nenhum dos evangelhos foi escrito de forma a representar uma "biografia fiel", tal como estamos habituados hoje em nossa literatura, com trabalhos de historiadores. Era outra época, outra cultura, outro contexto, outros tipos de linguagens e objetivos... Mas aqui foi quis colocar uma "pulga atrás da orelha" a fim de incentivar a pesquisa de quem interessar pelo tema. Os detalhes e explicações sobre cada uma dessas informações são objetivos de outros textos.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
19/04/2016

13 de abr de 2016

Constantino, Cristianismo e Concílio de Niceia: mitos e verdades


     Nos últimos anos, com o acesso crescente à informação (muito em função da expansão da internet), é cada vez mais comum ouvirmos ou lermos afirmações a respeito do processo histórico que levou ao cristianismo tal como conhecemos hoje. E um dos assuntos preferidos é a questão da influência do imperador romano Constantino, que teria sido o responsável pela escolha dos livros que estão na bíblia, pela institucionalização do cristianismo e pela sua proclamação como religião oficial do Império. Porém, infelizmente muitos se gabam de possuírem essas informações “privilegiadas”, mas as fontes que usam são meros vídeos e textos encontrados na internet (e sabemos que o mundo virtual aceita qualquer coisa, inclusive qualquer conteúdo que eu venha colocar neste artigo), em vez de pesquisadores sérios, de especialistas na área, reconhecidos internacionalmente.
     Mas vamos direto ao que interessa. O que de fato sabemos sobre Constantino e sua influência no cristianismo?

A RELIGIÃO NO IMPÉRIO ROMANO
     Os cristãos, desde a morte de Jesus até o quarto século (época do Imperador Constantino), eram a massacrante minoria dentro do império romano e em algumas épocas sofreram pesadas perseguições (seja por judeus, por grupos locais “pagãos” – refiro-me com este termo a qualquer não cristão, nem judeu – ou por incentivo/decreto governamental). Jesus já foi uma vítima de execução; alguns de seus discípulos possivelmente também foram. E por que essa perseguição acontecia? Os judeus acusavam o ainda pequeno grupo de cristãos de “blasfêmia” por considerarem Jesus como o Messias; a gerada por grupos locais era geralmente motivada pela questão teológica prática: os romanos adoravam vários deuses, como Júpiter, Vênus e Marte, além de deuses menores, que seriam os responsáveis pela fertilidade da terra, pela saúde e pela riqueza. Para os deuses beneficiarem as pessoas, teriam que estar felizes e para isso, tinham que ser adorados. Se isso não acontecesse, ficariam irados e poderiam gerar um caos na vida das pessoas. Então, quando ocorriam catástrofes naturais, fome ou epidemias o que pensavam? Que era culpa dos cristãos, pois eles não reconheciam os deuses com sacrifícios e oferendas, gerando fúria divina. Assim, passavam a ser alvos de violência (os judeus nem tanto, já que era uma religião bem antiga que convivia em relativa harmonia com os romanos), chegando ao ponto de algumas vezes, lideranças de Roma pressionarem cristãos (com tortura e morte) a negarem sua fé, a fim de acalmar os ânimos dos seus deuses. Essa perseguição atingiu seu ápice nos dias dos imperadores Diocleciano e Maximiano, quando (principalmente por iniciativa do primeiro) determinaram uma perseguição implacável contra os cerca de 7% de cristãos que havia nessa época (ano de 303 dC) no império, com a queima de livros, com a destruição das igrejas cristãs existentes e com a prisão de lideranças. No próximo ano houve um decreto que determinou sacrifícios gerais dos habitantes do império aos deuses romanos. Como os cristãos quase sempre não os realizavam, eram violentados e mortos, nessa “Grande Perseguição” que durou cerca de 9 anos.
     Constantino assume o poder no império e converte-se ao cristianismo no ano de 312 dC (e um ano depois determina o fim nessas perseguições). Mas será que essa conversão foi genuína ou teria sido uma mera manobra política de Constantino, como afirmam muitos atualmente?

CONSTANTINO TORNA-SE CRISTÃO
     De acordo com o autor cristão Eusébio (o “Pai da História da Igreja”, como é conhecido), na biografia que produziu de Constantino, o imperador teria lhe confessado como ocorreu sua conversão: Quando Dioclesiano abriu mão do poder em 305 dC, Constantino assumiu e teve que guerrear (e venceu) contra o outro imperador (Maximiano), que queria o poder do império para si. Porém, com a derrota de Maximiano, seu filho Maxêncio assumiu o poder que era do pai. Como Constantino desejava governar sozinho, partiu com seu exército para guerrear também contra o novo imperador. Quando essa batalha estava prestes a ocorrer, Constantino teria tido uma visão no céu de uma cruz com uma frase: “Com este símbolo vencerás” (segundo sua suposta declaração a Eusébio, que registrou na biografia). Em seguida teria sonhado que Jesus dizia a ele para usar o símbolo da visão, que fazendo assim venceria a batalha. Após realizar um grande objeto de ouro e pedras preciosas e ser aconselhado pelos seus conselheiros religiosos que deveria promover o culto ao Deus dos cristãos, entrou na batalha. E o que aconteceu? Venceu o duelo e tornou-se o imperador da parte ocidental do Império.
     Vale destacar que os romanos, na época de Constantino, tinham a ideia de que havia um Deus ainda maior que os grandes deuses e esse imperador adorava o deus “Sol Invictus” (“sol invisível”), antes e depois da conversão (moedas cunhadas após ter se tornado cristão evidencia que o “deus sol” ainda era desenhado nelas), quando parece ter acreditado que esse deus seria o mesmo Deus dos cristãos. É provável que ele tenha tido uma fé que promovia um sincretismo entre sua crença pagã e a nova crença cristã, tanto que esse pode ser um motivo para que determinasse que o culto cristão fosse realizado no domingo (“dia do sol”) e também que o “Natal” (nascimento de Jesus) fosse comemorado no período do solstício de inverno.
     Em 313 dC (um ano após sua conversão) Constantino entra em acordo com o General Licínio (que na época controlava a porção oriental do império) para que os cristãos deixassem de ser perseguidos. Foi então que surgiu o famoso “Édito de Milão” (Édito de Tolerância), que estabeleceu uma liberdade de escolha de religião e culto para todos os habitantes. E assim, praticamente cessou a violência promovida por pagãos contra os cristãos.
     Pode-se discutir as razões que motivaram a conversão de Constantino ao cristianismo (ou seu tardio batismo, prestes a morrer, no ano de 337 dC) e até mesmo pode-se afirmar que ele manteve por alguns anos uma posição sincrética de paganismo com fé cristã. Porém não vejo motivos para duvidar de que ele realmente cria no Deus cristão e a partir da década de 320 dC parece que ele assumiu mais explicitamente uma crença “genuinamente cristã”. Alguns insistem na hipótese de que sua conversão tenha ocorrido por pura conveniência, já que seria uma arma forte lutar pela união romana em torno de apenas um imperador, se o império tivesse apenas uma fé, com um só Deus. De qualquer forma, a conversão de Constantino fez com que o cristianismo deixasse de ser uma religião perseguida e passasse a ser uma religião beneficiada. E por ser a religião do imperador, começaram a ocorrer conversões em massa e a fé cristã passou de minoritária para majoritária já no fim do quarto século. E após Constantino, praticamente todos os imperadores foram cristãos, o que estimulava cada vez mais a ascensão da religião cristã.

O CONCÍLIO DE NICEIA
     É inegável que Constantino, embora pareça ter tido uma conversão verdadeira ao cristianismo, tinha também um interesse em unificar o império romano com a adoção dessa “nova” religião. Porém como poderia ocorrer um união se dentro do próprio cristianismo havia uma grande divergência e várias disputas em relação a pontos cruciais da fé? As teologias cristãs na época eram muitas, algumas tão diferentes entre si que no máximo tinham em comum a adoção de alguns termos. Como unificar o império em um pilar religioso desunido? Foi nesse contexto que Constantino convocou um conselho de mais de 200 bispos cristãos, a fim de resolver esses conflitos. Devido ao nome da cidade em que ocorreu, no ano de 325 dC, ficou conhecido como o “Concílio de Niceia”.
     Como dito, havia muitas discordâncias entre os cristãos, desde a morte de Jesus, em relação a muitos pontos da fé e alguns desses conflitos foram discutidos nesse concílio. O ponto chave debatido foi: “Em que sentido Jesus era divino”?
     O que os cristãos entendiam sobre esse assunto variou muito com o tempo. Quanto mais nos afastamos, temporalmente, da morte de Jesus, mais observamos uma tendência de ver Jesus como “mais divino” (observe que isso também se reflete nos quatro evangelhos que temos na bíblia, sendo que o mais antigo deles – Marcos – nos mostra um Jesus menos “divinizado” do que o último evangelho – o de João -, embora todos eles nos mostrem um Jesus tanto divino, quanto humano), de forma que nessa época (quarto século), praticamente todos os cristãos viam Jesus como divino (variando na intensidade dessa divindade). Então os conflitos agora eram apenas em relação a como conciliar isso com a humanidade de Jesus, ou seja, como Jesus poderia ser divino e humano ao mesmo tempo?

     Diferentes grupos de cristãos entendiam de diferentes formas esse ponto ao longo dos séculos:
- - Havia quem defendesse que Jesus era tão humano que não poderia ser divino (essa ideia era mais prevalente nas primeiras décadas após a morte de Jesus – antes mesmo de serem escritos os evangelhos ou, pelo menos, de serem reconhecidos como escrituras “inspiradas”). Alguns defensores dessa posição são os chamados “adocionistas”, que diziam que Jesus era um ser humano como todo os outros (inclusive sem a ideia de nascimento de uma virgem), sendo apenas mais santo, justo e puro que os demais. Por causa disso, Deus o adotou como “Filho amado” em seu batismo e a partir de então entrou na missão de morrer pelos pecados do mundo. E como recompensa por esse sacrifício, Deus o ressuscitou e o colocou à Sua direita, aguardando o dia em que retornará à Terra para estabelecer o juízo e Seu reino.

- - Havia quem dissesse que Jesus era tão divino que nEle não havia espaço para ser humano (essa visão é mais tardia, encontrada no segundo e terceiro séculos) e um exemplo de grupo cristão que se enquadra nessa perspectiva é o dos “docetistas”. Para eles, Jesus parecia ser um humano, mas não o era. Jesus era 100% Deus, com uma imagem que transparecia características e sentimentos humanos, mas que não eram reais.

- - A maioria dos cristãos, porém, negava as duas teologias acima e sustentavam que Jesus era humano e divino, ao mesmo tempo. Tanto, que ambas as abordagens citadas já no segundo século começaram a ser encaradas como “heresia” (ensino falso) pelo cristianismo. Lembrando que algo pode ser considerado um ensino correto (ortodoxo) em determinada época e tempos depois ser condenado como heresia. Quem decide isso são os segmentos dominantes e/ou majoritários. Ou seja, as duas posições acima foram perdendo o debate, diminuindo sua força e influência, embora não tenham desaparecido.

     Se observar bem, o problema é ainda mais profundo, pois em cada teologia há várias questões pendentes: Se Jesus é Deus e o “Deus Pai” também o é, então há dois deuses? Se o Deus Pai desceu do céu e se tornou Jesus (humano), quem ficou sendo Deus nesse tempo? Se Deus Pai continuou sendo Deus em Jesus, então Deus sofreu e morreu? Se Deus Pai era Jesus, então Jesus orava a si mesmo? Percebe que toda teologia que surgia a fim de responder uma questão era questionada e com o tempo passava de “ortodoxa” para “heresia”?
     Mas voltando ao ponto inicial, o que o Concílio de Niceia tem a ver com isso? É que no início do quarto século surgiu uma teologia chamada “arianismo”, que, em linhas gerias, dizia que no início havia apenas “Deus Pai”, que fez surgir depois Seu Filho (Cristo), que deu origem à criação e que tornou-se homem, nascendo de uma virgem, morrendo pelos pecados dos homens, ressuscitando e voltando para a destra de Deus. Após um “sucesso” inicial, levantaram cristãos (como Atanásio) com objeções a essa teologia, já que supunha que Cristo era submisso a Deus Pai e não estava em igualdade com Ele. Para esses opositores, Cristo era tão divino quanto o Pai e não teve nenhum instante em que não existisse. Era o desenvolvimento da “doutrina da trindade”. Então, no Concílio de Niceia a disputa era mais no sentido de como Jesus era divino? Era divino por ter surgido de Deus Pai ou por ser Deus desde sempre, tendo a mesma substância (e ausência de origem) que o Pai? E no concílio a doutrina de Ário foi derrotada pela massacrante maioria dos “votos” dos bispos.

     Conclusão: O Concílio de Niceia “oficializou” uma posição como ortodoxa (que por sinal se manteve, a grosso modo, ao logo do tempo após muitos debates) em relação à divindade de Cristo. Constantino não era um bom teólogo e não teve influência nessa decisão, a não ser na questão de ter organizado o concílio. O que ele desejava era que os cristãos decidissem ficar de um lado ou de outro e parassem com as disputas. Ele, nem esse concílio, decidiu nada em relação a quais livros entrariam no Novo Testamento (isso só foi consolidado mais tarde) e tampouco foram responsáveis pela institucionalização do cristianismo como religião oficial do império (isso só ocorreu em 385 dC, com o imperador Teodósio). Isso mesmo, o cristianismo não nasce em Constantino e tampouco ele a oficializa em Roma. Constantino converte-se à fé cristã (isso influencia muita gente a fazer o mesmo), cessa as perseguições e convoca esse concílio. Porém a escolha dos livros do Novo Testamento foi fruto de longo processo, que só foi “oficializado” décadas depois.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
13/04/2016

Bibliografia:
Ehrman, Bart D. A verdade e a ficção em 'O Código da Vinci'. 2005. Ed Record.

8 de abr de 2016

Mateus 24: Fim do mundo ou destruição de Jerusalém?


     Sobre Mateus 24:

     A maioria dos cristãos, em nosso contexto brasileiro, diz que é uma profecia de Jesus em relação ao fim do mundo, que ocorrerá um dia, no futuro. Outros dizem que era uma profecia sobre destruição de Jerusalém, ocorrida no ano 70 dC.
     O que acho? Que não era nem uma, nem outra. Se colocarmos Jesus dentro de seu contexto, chegaremos à conclusão que quase certamente Ele era um profeta apocalíptico (tal como era João Batista - mas em outro texto falarei em detalhes). Dessa forma, Jesus pregava que um evento cataclísmico daria início ao Reinado de Deus NA TERRA (repare que não era no céu. Era na Terra, com pessoas comendo, bebendo, vivendo e inclusive com seus 12 discípulos governando nesse Reino terreno - Mateus 19:28). Ele não profetizava uma simples queda de Jerusalém, com o mundo permanecendo da mesma forma. Tampouco, falava de algo que ocorreria milhares de anos depois. Um profeta apocalíptico pregava que Deus viria destruir as forças do mal que dominavam o mundo. Quando? Em breve! Era iminente. Não é a toa que a mensagem era: "Fiquem atentos! Não passará essa geração sem que tudo isso seja cumprido" (Mateus 24:34).
     Diante dessa última frase alguns (como eu também já fiz) calculam: "se uma geração tem 40 anos e Jesus disse isso por volta do ano 30, a destruição de Jerusalém no ano 70 dC estaria ainda dentro do limite de tempo dessa previsão, logo, como Jesus não pode errar, Ele falava da queda de Jerusalém e não, do fim do mundo que até hoje não aconteceu". Porém essa ideia desmorona quando verificamos que quase certamente o Evangelho de Mateus (que é anônimo) foi escrito entre os anos de 80 e 85 dC . Ou seja, esse evangelho foi escrito após o acontecimento, logo, como podemos garantir que foi uma profecia de Jesus por volta do ano 30 em vez de ser uma criação de pessoas que viram a queda de Jerusalém e "criaram" profecias que teriam sido ditas por Jesus? Percebe que a coisa complica? Então, se o evangelho de Mateus foi escrito 10 ou 15 anos após a queda de Jerusalém, no máximo seria um registro de um autor que escreveu após conhecer o desfecho, o que tiraria, em termos históricos, a confiabilidade em relação ao que realmente teria sido dito por Jesus em relação a essa destruição (pode ter sido exatamente assim? Pode, mas é tão confiável como os relatos de pessoas que, após presenciarem um acontecimento, dizem: "eu tinha sonhado, há alguns dias, que isso aconteceria". Oras. Então porque só disse depois que o fato ocorreu?
     Conclusão: Se tentarmos ser historicamente precisos e deixarmos nossas preferências teológicas de lado momentaneamente, em Mateus 24 aceitaremos que Jesus não estava prevendo meramente a queda de Jerusalém. Também não estava falando de uma volta de Jesus para mais de 2 mil anos depois. Ele falava dentro do contexto apocalíptico judaico, que previa um evento universal, cataclísmico, visível a todos, em que o "Filho do Homem" viria para estabelecer o Reino de Deus na Terra. Isso seria em breve, era iminente. Poderia ser em alguns dias, semanas ou meses. Era impensável para um judeu apocalíptico que ocorreria apenas no próximo século, quanto mais, depois de milênios (todo apocalíptico estava convencido que aqueles dias em que vivia eram os últimos. Repare que o apóstolo Paulo seguia a mesma linha. Quando eles diziam que seria "em breve", não era no "sentido figurado"). Aquela geração era considerada perversa demais e Deus colocaria ali um limite. Então as pessoas deveriam se arrepender, crer na mensagem do Reino e escapar da condenação.
     Por isso Jesus não se preocupava com bens materiais, casa e riqueza... Ao contrário, na visão apocalíptica quem "se dá bem na vida" é porque provavelmente está aliado com as forças do mal, que governam este mundo. Por isso "é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (Mateus 19). Os que são oprimidos neste mundo (pobres, injustiçados, marginalizados, perseguidos...) pelos que representam as forças das trevas são aqueles que Deus recompensará em Seu Reino e por isso são os "bem aventurados" (Mateus 5).
     Quando dizemos isso, muitos fundamentalistas protestam: "Que heresia! Que blasfêmia! Jesus não erraria em Sua previsão". Ora, simples. Não é questão de acertar ou de errar. Ele mesmo assumia que não sabia (Marcos 13:32) o dia e a hora em que isso ocorreria (porém que Ele acreditava que seria muito em breve, é óbvio). Então se Ele não sabia, qual o problema em assumir que Ele achava que seria em breve? Jesus também não sabia que comer sem lavar as mãos poderia sim contaminar o homem, transmitindo doenças (Mateus 15:11), já que os micróbios foram descobertos muito tempo depois, e nem por isso Ele merece menos crédito. É uma questão de contexto cultural, social, religioso e científico. Ah, e claro: de bom senso.

Autor: Wésley de Sousa Câmara  
08/04/2016

5 de abr de 2016

Ninguém sabe o que é "Evangelho puro e simples"


     Engana-se quem acha que, por nascer a cada dia várias outras denominações cristãs, a cada dia que passa o cristianismo se torna mais divergente. Muitos acreditam que os cristãos estão cada vez mais com interpretações diferentes em relação à fé. Porém, pode somar todas as divergências entre cada vertente cristã do século XXI, de católicos a testemunhas de Jeová, de presbiterianos a pentecostais, de mórmons a luteranos... Essa divergência toda de pensamento ainda não é nada perto da divergência de fé que tinham os cristãos nos primeiros três ou quatro séculos da nossa era. 
     O que é a discordância em relação a "dons espirituais" diante da discussão se Jesus era somente homem, somente Deus ou tanto Deus quanto homem que os cristãos primitivos debatiam? O que é a questão de guardar ou não o sábado diante da disputa que havia no cristianismo se havia só um Deus, dois deuses, dezenas ou centenas de deuses? O que é a briga atual em relação a venerar ou não Maria, diante da "guerra" dos primeiros cristãos para saber se Jesus morreu para salvar o homem ou nem mesmo teria morrido? O que é nossa disputa sobre a interpretação do Apocalipse de João diante dos diálogos antigos se esse livro deveria ser levado a sério ou simplesmente jogado no lixo junto com vários outros apocalipses existentes? O que é nossa divergência em relação a frequentar ou não uma "igreja" diante da briga cristã que havia para decidir se todo o universo teria sido criado pelo Deus soberano, por um deus inferior ou mesmo por um espírito das trevas? 
     Ter essa mínima noção histórica já é suficiente para perder a ilusão de que estamos cada vez menos unidos ou de que devemos voltar ao "evangelho puro e simples". Entenda: ninguém, nem os escritores dos evangelhos entravam em um consenso em relação ao que seria essa pureza e simplicidade do evangelho, então deixe de ingenuidade de usar essa expressão, na ilusão de que você (que vive em outra época, em outro contexto, em outra cultura, dois mil anos depois...) pode se gabar de pregar o "Evangelho puro e simples". Isso não cola pra ninguém que para um minutinho pra refletir.  Pense um pouquinho: se há um evangelho puro e simples terá que ser aquele que saiu da boca e dos atos de Jesus (por definição da fé cristã). E quem nos provará o que foi exatamente isso? Sua interpretação? Por favor, né? Abaixe sua bola. Menos, bem menos...

Autor: Wésley de Sousa Câmara
05/04/2016

2 de abr de 2016

Está na bíblia, logo, está provado?


     Muitos tem uma visão extremamente superficial das coisas quando o assunto é história cristã. Sabemos que a história (não apenas a cristã) é algo não baseado em provas (ao contrário da física ou da química, por exemplo, em que uma afirmação pode ser testada através de experimentação). A história analisa eventos que, uma vez ocorridos, não voltam atrás. Apenas falamos dela de forma retrospectiva, tentando reconstruir os acontecimentos através de evidências. E o que são evidências? Podem ser relatos, testemunhos, registros escritos, documentos, fotografias, filmagens...
     Por exemplo: alguém me diz que ontem tomou suco de maracujá no almoço. Tenho como provar? Não, pois não posso realizar um estudo científico comprovando tal afirmação. Mas posso decidir acreditar ou não de acordo com as evidências que tenho. E cada tipo de evidência oferece um “peso diferente”. Se essa pessoa chega com um laudo médico emitido após uma realização de análise bioquímica do conteúdo digestivo, bem como de substâncias no seu sangue, isso terá um peso muito grande; se ela me traz vídeos de câmeras independentes, que especialistas atestam sua autenticidade, mostrando que essa pessoa estava ingerindo suco aparentemente de maracujá, terá um peso enorme; se essa pessoa traz dez testemunhas que presenciaram o fato, terá um peso, porém menor do que os anteriores (afinal, elas podem ter um interesse por trás dessa confirmação ou quem sabe podem ter se confundido); se a pessoa traz apenas uma testemunha, o peso é ainda menos significativo. Se não há testemunhas e apenas a própria pessoa estava lá no momento em que supostamente ingeria o suco de maracujá, a evidência terá ainda menor peso (afinal, ela pode ter inventado essa história, pode ter tido um delírio, pode ter se confundido...). Percebe que não é tão simples reconstruir o passado? Não existem provas sequer de que Lula foi presidente do Brasil, mas temos tantas evidências, documentos, imagens e testemunhas que isso é considerado um “fato inegável” por qualquer pessoa informada e mentalmente sem deficiência. Porém conforme vamos nos afastando na linha do tempo, nos aprofundando no passado ou conforme mudamos o foco para acontecimentos menos relevantes, as evidências se tornam cada vez mais limitadas. Por exemplo, quando Jesus nasceu? Não sabemos, mas podemos saber com relativa certeza a data de nascimento de nossos pais. Temos documentos, testemunhas oculares vivas que nos dão relativa certeza dessas informações.
     Por que eu disse isso tudo? Pois muitos cristãos (a maioria) abre mão dessa visão crítica das coisas quando o assunto é fé ou bíblia. Elas partem de um pressuposto raso e acrítico: “se algo está na bíblia é verdadeiro e ponto final”. Ou seja, a “prova” para elas é estar na bíblia”. Porém, se questionamos sobre o processo que cada teto passou até chegar em nossa bíblia, raras pessoas, entre essas, responderão corretamente. Em outras palavras: fazem alegações sem ter uma fundamentação sólida. Elas não entendem sequer que, para alimentar essa premissa (de que “é verdade por estar na bíblia”), precisam distorcer as evidências, negando que na própria bíblia há informações divergentes sobre um mesmo evento. Pense comigo: se algo é verdadeiro simplesmente por estar na bíblia, quando ela nos dá duas possibilidades de enxergar um acontecimento, como entenderemos tal situação?
     Se prezarmos pela realidade e pelas evidências, diremos o seguinte: “Penso que algo aconteceu de tal forma por ter evidências que julgo suficiente de que foi assim, sendo tal trecho bíblico uma dessas evidências e sendo essa evidência confiável ou relevante por tais motivos”. Percebe a diferença? Por exemplo: Jesus existiu. Isso é inegável para qualquer pessoa que preze por evidências (não importando se ela tem fé ou não – e é um fato negado apenas por adeptos de teorias conspiratórias e pseudocríticos, como os chamados “miticistas”), já que as temos dentro e fora da bíblia. E quanto a dizer que “Judas era um discípulo traidor de Jesus que se suicidou por enforcamento”. Ora, essa é uma informação muito menos suportada por evidências (embora seja possível), tendo divergências de relatos até mesmo dentro da própria bíblia.
     Quando tentamos uniformizar tudo o que temos na bíblia, cometemos um erro infantil: ignoramos todo seu processo de formação (incluindo seu processo de escrita, de edição, de transcrição, de tradução e de compilação). Tornaremos absoluto o que está ali diante de nós, como se tudo tivesse caído pronto do céu. Um exemplo nos ajuda a evidenciar essa questão: quando a bíblia foi finalmente compilada, ou seja, quando os grupos dominantes da Igreja (ortodoxos) oficializaram quais livros entrariam no “Cânon Sagrado” e quais ficariam de fora, gerou descontentamentos. Alguns grupos de cristãos consideravam sagrados e divinamente inspirados outros livros que hoje chamamos de “apócrifos”. Outros consideravam apócrifos livros que estão em nossa bíblia. O Apocalipse de João era rejeitado por algumas igrejas; o Apocalipse de Pedro era aceito por outros cristãos. E aí, como fica? Se algo é tido como certamente verdadeiro por estar na bíblia, o que valida um relato não é se de fato ocorreu como descrito e sim, se foi aceito em determinado momento pelos segmentos dominantes da Igreja? O Apocalipse de João está na bíblia, então diremos que é verdadeiro. Mas ele entrou no cânon “por um triz”. E se tivesse ficado de fora? De 100% verdadeiro se tornaria 100% falso? O mesmo raciocínio vale para o Apocalipse de Pedro, que quase entrou na bíblia, mas o que define se ele é confiável ou não é baseado unicamente nessa escolha pelos cristãos dos primeiros séculos? Quer dizer que o rejeitamos hoje como “tolice”, mas se ele tivesse entrado na bíblia, o mesmo conteúdo seria magicamente considerado como “divinamente inspirado? E quem garante que a escolha feita pela Igreja, nos primeiros séculos de nossa era, foi perfeita e absoluta, se os próprios cristãos na época discordavam entre si? Alguns dizem: “Deus não é Deus de confusão, então ele também inspirou a escolha dos livros que fariam ou não parte da bíblia”. Interessante, mas incoerente. Então por que não inspirou uma unanimidade na escolha? Por que desde os primeiros anos após a morte de Jesus havia cristãos com pensamentos bem diferentes? Por que católicos, protestantes, coptas e ortodoxos adotam bíblias diferentes? Qual delas é o cânon divinamente inspirado? E sabemos que nossa bíblia atual não corresponde exatamente aos textos originais (que por sinal não mais existem), nem mesmo aos antigos, que circulavam nas primeiras décadas e séculos após a morte de Jesus (afinal era transcrita por copistas, sem nosso moderno sistema de cópias e impressão). Há trechos que foram nitidamente acrescentados, outros omitidos, outros alterados. Se há realmente essa preocupação divina com todos esses detalhes, por que foi permitida essa “confusão” ao longo dos séculos? Essas premissas são nitidamente fruto de um suposição, de uma hipótese infundada, do desejo de um grupo (mas pode ser verdade? Até pode, mas é provável ou há evidências de que seja?) 
     Conclusão: Eu disse isso tudo para tentar fazer você, leitor, entender que as coisas não são tão simples quanto parecem. Precisamos ter pelo menos um mínimo de criticidade. Vejo pessoas sem nenhuma noção desse complexo processo histórico querendo condenar os que interpretam de forma diferente deles. Vejo-os destilando tanta arrogância como se dominassem o assunto e como se Deus tivesse dito a eles que a interpretação que possuem é a perfeita, a exata. E realmente os fundamentalistas cravam com uma ingênua convicção: “O que defendo não é interpretação minha; é revelação do Espírito Santo, então é a verdade sim, que só discerne quem é Espiritual”. Verdade? E pensar que milhares de grupos fundamentalistas, que discordam radicalmente entre si, dizem o mesmo. Como explica? Como saber quais das milhares de interpretações diferentes que se dizem frutos de revelação divina é a verdadeira? Temos muitos “Espíritos Santos” revelando coisas diferentes a cada um ou essas pessoas é que estão fazendo confusão com seus imensos níveis de ingenuidade e ignorância histórica? Entendeu agora que “o buraco é bem mais embaixo”?

Autor: Wésley de Sousa Câmara
02/04/2016

29 de mar de 2016

Todos relativizamos a bíblia. Quais são os seus critérios?


     Inicio este texto afirmando categoricamente: “Toda pessoa relativiza a bíblia; o que varia é o conjunto de critérios adotado por cada um”. E quando digo algo óbvio assim, imediatamente os cristãos fundamentalistas dão um pulo da cadeira me xingando de “mentiroso” e de “herege”, afinal, eles tem a ingênua ilusão de que seguem a genuína Palavra de Deus (ou o “evangelho puro e simples”), revelada diretamente a eles pelo Espírito Santo. Pois bem, vejamos então porque isso faz sentido e o que me leva à convicção de que é impossível não relativizar a bíblia:

1 – A própria origem da bíblia já é fruto da relativização de textos antigos, inclusive todos aqueles tidos como “escrituras”. Entenda  seguinte: a bíblia surgiu no quarto século da nossa era (cerca de 300 anos após a morte de Jesus e uns 200 anos após o último livro que nela encontramos ter sido escrito). Os segmentos dominantes (ortodoxos) da época eram os que representavam a posição oficial da Igreja e graças a eles (por questão de preferência, conveniência e interesses diversos), após muita briga foram escolhidos quais livros fariam parte da bíblia e quais ficariam de fora. Essa decisão nunca foi unânime (livros como o Apocalipse de João entrou “por um triz” na bíblia e o Apocalipse de Pedro por pouco não entrou) e até reformadores como João Calvino e Martinho Lutero, 1200 anos depois, ainda discordavam de alguns livros considerados parte do “Canon Sagrado” (por exemplo, Lutero chamava a epístola de Tiago de “carta de palha”). Então a seleção do que era “inspirado” ou merecedor de fazer parte da bíblia foi uma escolha contextual e se outros grupos cristãos tivessem vencido o debate (ou se a compilação dos livros na bíblia tivesse ocorrido um século antes ou depois), certamente hoje nossa bíblia não teria alguns livros que conhecemos e teria outros que consideramos “não canônicos”. Percebe então que o próprio processo de formação bíblica já é fruto de relativizar muitos textos que grupos cristãos antigos consideravam sagrados? Relativizaram uns e absolutizaram outros. E nem entrarei na questão das diferentes tradições envolvidas na escrita de alguns livros e que posteriormente foram compiladas, mescladas e selecionadas por alguns autores, dando o aspecto final, semelhante ao que conhecemos. Mas é assunto mais complexo, para outro momento.

2 – Ninguém aceita a bíblia de forma 100% absoluta ou totalmente literal. E isso evidencia que todos a relativizamos em maior ou menor grau e de diferentes formas. E para evidenciar, darei alguns óbvios exemplos:

- Mateus 18:08 = “E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno". Você já viu alguém amputando ou extraindo uma parte do corpo por esse membro o “fazer pecar”? Eu também não.
- Marcos 10:21 = "Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me". Não vejo praticamente nenhum cristão fazendo isso, quanto mais seus líderes. “Ah, não era literal...” “Não significa que devemos também seguir esse ensino dado ao jovem rico...” – são as relativizações que os que criticam os que assumem que relativizam, promovem.
- Poderia ainda citar os cristãos relatados no livro dos Atos (que nós adoramos idolatrar como sendo “exemplares”), que colocavam tudo o que tinham “aos pés dos apóstolos” (Atos 4). Ou quem sabe a recomendação de tomar vinho diante de problemas estomacais (o mesmo vinho que era recomendado não consumir em excesso, a fim de não gerar embriaguez, ou seja, alcoólico) – I Timóteo 5.
     Ou seja, quando convém a nós, determinado texto passa a ter sentido figurado, enquanto outros tem que ser literais. Bem cômodo e desonesto de nossa parte.

3 – O que nos faz achar que o Velho Testamento está repleto de arquétipos, alegorias, simbolizações, referências e profecias apontando para Jesus, senão uma releitura dele feita pela ótica cristã/neotestamentária? Isso mesmo. Quando olhamos para o Antigo Testamento (por exemplo: para uma palavra de um profeta) e vemos ali referência a Jesus estamos fazendo uma relativização do texto, da intenção do autor, afirmando que ali ele queria dizer o que nós pensamos ou desejamos que seja. Não estou entrando nos méritos se isso é historicamente correto ou não, mas que é uma relativização, isso é.

4 – Se você ignora totalmente a linguagem apocalíptica e acha que o livro descreve de forma literal (inclusive com os monstros assustadores) acontecimentos futuros, está relativizando uma tradição judaica antiga a fim de tirar o significado original dessa linguagem para atribuir um que você entende hoje como correto. Se você entende o livro como uma referência a acontecimentos passados (como a abordagem preterista), está relativizando o livro, encaixando-o exclusivamente nessa abordagem. Se você o enxerga de forma futurista, como essa abordagem teológica recente, mas que se tornou predominante no meio protestante, achando que ele descreve os eventos que ocorrerão nos últimos dias, está relativizando  igualmente com sua abordagem. Não tem como fugir.

5 – Se você tenta conciliar pontos até opostos nas escrituras, dizendo que são complementares, ou fazendo um malabarismo exegético/hermenêutico (interpretativo) para que não soe contraditória, estará relativizando a ideia original do autor e da tradição envolvida. Se tentar conciliar os ensinos de Moisés com os de Jesus, estará fazendo uma enorme relativização. O mesmo ocorrerá se rejeitar qualquer preceito da lei judaica (como pena de morte aos filhos desobedientes, aos adúlteros e aos homossexuais; ou ainda rejeitar se aproximar da sua “impura esposa” nos dias de sua menstruação). Quando convém damos um jeitinho de relativizar hipocritamente alguns trechos, não é verdade?

6 – Quando você tenta fazer com que divergências de relatos (de compreensões de diferentes autores bíblicos) não existam, você estará relativizando o que lá está sendo dito com base em uma suposição sua. Por exemplo, quando os quatro evangelhos descrevem diferentes seres (em número ou em essência) no túmulo de Jesus (seriam anjos? Homens? Quantos?), para você tentar fazer com que os quatro relatos sejam harmônicos, terá que criar uma quinta possibilidade/hipótese (que nem está na bíblia) a fim de não haver nenhuma contradição. Pura relativização dos evangelhos...

     Entenda: Qualquer parâmetro adotado para interpretar a bíblia é relativizá-la. Dizer que o Espírito Santo revela a correta interpretação da bíblia é relativizá-la com base nessa suposição humana. Aplicá-la a um contexto nosso é relativizá-la. Dizer que algo dela não se aplica a nós é relativizá-la. Interpretar tudo dela literalmente é relativizar a exposição dos autores, restringindo qualquer possibilidade de intenção alegórica, figuras de linguagem ou linguagens típicas desses povos (como a linguagem mítica ou apocalíptica).
     A própria adoção da bíblia é uma relativização, pois estará restringindo o “Cânon Sagrado” ao que a Igreja determinou a alguns séculos. Ou seja, você está absolutizando a escolha da Igreja, assumindo que ela foi perfeita na relativização dos textos antigos, determinando o que era “escritura inspirada” e o que não era. E aceitando as descrições da forma como a bíblia nos traz estará relativizando os fatos pela descrição do autor (que muitas vezes nem estava presente).
     Se não reparou o óbvio, resumo a você: não importa sua abordagem, não tem como escapar de relativizar a bíblia.
     Uma parte do preconceito quanto ao termo “relativo” ou “relativizar” é que as pessoas confundem com “relativismo”, que à grosso modo, pode ser dito que é a ideia de que não há uma realidade ou verdade objetiva. Uma ideia que nos lembra muito a abordagem pós-modernista de que “não há fatos; há apenas interpretação de fatos”, ou seja, a ideia de que algo pode ser verdade se a pessoa em questão o tem como verdade. Eu, ao contrário, defendo que a realidade está lá e é imutável, independentemente do que pensamos. A verdade existe e é objetiva e, embora nunca cheguemos à compreensão total dessa realidade objetiva, podemos chegar na verdade em muitos aspectos ou questões pontuais. E no que diz respeito à teologia, defendo no dia a dia uma abordagem “moderada” que coloca como parâmetro o que nos é apresentado, em linhas gerais, sobre a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, tomo ele como modelo, como referência de “verdade” (assumo a fala dEle: “Eu sou o caminho, a VERDADE e a vida...”). Assim, procuro relativizar toda a escritura e a teologia nos princípios gerais que vejo nEle. Portanto, não venha me rotular de “relativista”.
     Se você afirma que “a bíblia é a Palavra de Deus,absoluta  inspirada, infalível, harmônica, inerrante e suficiente” está promovendo uma relativização dela com base nesses princípios teológicos “recentes”. Ou seja, cria algumas premissas e faz a bíblia se encaixar neles (relativizando inclusive todo o complexo processo histórico de produção e formação da bíblia). Relativiza toda influência humana, as particularidades de várias tradições e autores, a fim de que tudo ela seja o que você gostaria que fosse (embora nela mesma nunca haja sequer uma afirmação de que ela tem essas características ou essa função). Entende agora que até mesmo o mais fundamentalista cristão relativiza a bíblia? A única diferença entre cada um de nós é que cada um segue critérios diferentes para promover essa relativização. Então pare de criticar alguém apenas por ele relativizar a bíblia de forma diferente que você. Tire a trave do seu olho antes de falar do cisco no olho do seu próximo.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
29/03/2016

20 de mar de 2016

SOBRE O GOVERNO DO PT: na verdade somos todos corruptos!


     Antes de mais nada, não sou petista (e menos ainda "tucano") e não sou militante de esquerda ou de direita (aliás, tenho aversão ao extremismo dos dois polos políticos). 
     Sou favorável a toda apuração de responsabilidades e punição devida, imparcial, justa, fruto de julgamento por parâmetros estritamente profissionais/técnicos. Seja envolvendo Dilma, Lula, Aécio, Cunha, ministros ou os demais do alto escalão político. Todos devem ser valorizados pelo bem que realizam e cobrados pelos deslizes que cometem.
     Porém, o que vejo nos últimos dias é uma luta desesperada dos oposicionistas e da maior parte da sociedade de forma irracional. Os oposicionistas estão todos como urubus, gorando o "animal" antes ainda de morrer, a fim de ver quem fica com o maior pedaço de carne. A sociedade, levada pela mídia totalmente parcial, não tem capacidade crítica e é conduzida por velhos jargões e clichês. 
     Claro que toda manifestação e luta sem violência é legítima e defendo essas condutas, porém ver tanta hipocrisia nos discursos, seja em palanques ou em redes sociais, na boca do povo, chega a dar náuseas. 
     Penso que quase todos nós somos aquilo que condenamos nos outros. A diferença entre a maioria dos que manifestam por um Brasil melhor e o político corrupto é apenas a oportunidade que este teve de roubar mais do que a maioria de nós. "Ah, o PT é o partido mais corrupto da história". Claro que não. Se a maioria dos escândalos hoje envolvem o PT (repito, nem sou simpatizante do partido) não é porque ele é intrinsecamente corrupto e sim, porque está no poder há 14 anos e quem está por cima tem mais cargos, é quem realiza transações milionárias, é o que está no foco e sendo investigado por todos... Qualquer outro partido que estivesse nessa situação seria visto como o "mais corrupto". "Ah, não, defendo um partido cristão que não se envolve em escândalos". Colega, pense, todo partido cristão no Brasil, atualmente é quase insignificante, tendo pouquíssima representatividade em cargos importantes. Então claro que, estatisticamente, terá menos corruptos conhecidos. Mas é só ver a liderança religiosa no Brasil envolvida em escândalos e em estelionatos (que não são investigados e combatidos por terem uma proteção lamentável de um estado que se diz laico - basta ver os charlatões pedindo ofertas de mil reais na TV, pedindo senha de cartão, trazendo picaretas da fé norte-americanos para enganar nós, bobinhos...). 
     Nenhum partido, a princípio, é corrupto, pois partido político não é uma entidade viva, é uma forma de agrupar pessoas de mesma ideologia. Corrupto não é o PT e sim, muitos petistas; não é o PSDB e sim, muitos "tucanos"... E isso vale para todos os partidos. E exigir o fim de um partido por causa da corrupção de muitos lá é como exigir o fim de sua igreja caso os líderes dela se envolvam em imoralidades; é como exigir o fim do protestantismo por atrocidades cometidas ou incentivadas por Reformadores; é como exigir o fim do cristianismo pelo apoio dado à escravidão por muito tempo; é como pedir o fim da bíblia pelos conhecidos processos de alterações e conveniências usadas durante a compilação de seus livros lá no início da nossa era. Mas ver tantos clichês na boca de pessoas sem um mínimo conhecimento histórico e político, é triste. 
     Quer fazer um teste? Diga em uma manifestação da avenida Paulista (pode ser contrária ou de defesa do governo - fique à vontade para escolher qualquer uma): 

"Fiquem aqui apenas as pessoas honestas!"

     Todos ficarão, pois nesses momentos só temos olhos para o nosso próximo. "O pecado do outro é sempre pior que o nosso". 

     Mas comece a especificar: "Saiam daqui os que sonegam informações, por menores que sejam, no imposto de renda; saiam os que colam na prova; saiam os que não devolvem na padaria quando recebem troco a mais; saiam os que usam bilhete falsificado para pagar mais barato na catraca dos transportes coletivos; saiam os que furam fila; saiam os que usam assentos ou vagas de carro reservadas a deficientes e idosos; saiam os estelionatários da fé (líderes religiosos que defendem que se der dinheiro na igreja será recompensado por Deus de alguma forma); saiam os que compram celular sem nota; saiam os que usam Windows e programas piratas no computador e smartphone; saiam os que repassam provas antigas' para os alunos, escondido dos professores; saiam os que assinam o nome do amigo na lista de presença da faculdade; saiam os que dão cobertura para o amigo quando o patrão chega repentinamente; saiam os que ajudam a mentir para o marido da amiga, enquanto ela faz algo escondido..."

     Seja sincero: Os milhões de manifestantes do Brasil, depois dessa, poderiam ser contatos nos dedos. E de uma mão!
     Nós, generalizando, somos corruptos tanto quanto os políticos que queremos presos. A diferença é apenas que não tivemos a oportunidade que eles tiveram. Exatamente: a corrupção envolvida em desviar milhões da saúde é a mesma da que está presente em nosso download do programa pirata. Só muda o contexto. O que fazemos e que dizemos que "isso não se compara aos milhões do PT" só tem proporção diferente, pois o espírito de desonestidade é o mesmo. Portanto, antes de sair para protestar, olhe no espelho, passe um bom óleo de peroba e só então pegue a sua bandeira e vista sua camisa verde-amarela.
     E uma coisa que me assusta é que é perigosa essa euforia instalada nos brasileiros (vale dizer que durará não mais do que um mês, assim como foi nos protestos pelos "25 centavos" de anos atrás - é "fogo de palha", pois não somos um povo com consciência, somos manipulados e vamos pra onde o "vento" nos leva). Quando isso acontece, a tendência geral é de buscar uma solução do lado oposto. Ou seja, sendo o PT um governo de esquerda (embora esteja muito longe de ser uma extrema esquerda), as pessoas tenderão a querer um governo de direita (basta ver o apelo popular). Mas o problema não é esse. É que elas querem uma extrema direita. E aí vemos um clamor por pessoas com uma mentalidade retrógrada, autoritária e intolerante como alguns que vivem na mídia e adorados como "mito" pelo povo. Podemos perder algumas conquistas inegáveis (mesmo quem odeia o PT tem que assumir que algumas ocorreram) e retornar ao século XIX em termos de avanços sociais. Então pense antes de desejar um novo governante. Se há necessidade de mudança, procure alguém mais "moderado". Fuja dos extremismos, dos radicalismos, de um lado ou de outro. Lembre-se que entre direita e esquerda, melhor é ser como Jesus e ficar na cruz do meio. Rsrs
     E por falar em Jesus... e pensar que há 2 mil anos Ele falava de pessoas que reparavam no cisco do olho do outro, enquanto possuem uma tábua nos seus próprios olhos. Milênios passam, mas a realidade é a mesma. É... a história se repete em ciclos.

P.S: O que não significa que acho que devam prender quem não devolve 10 centavos de troco ao cobrador do ônibus... Claro que quem desvia 10 bilhões da saúde deve ser preso, pois embora o "espírito" de corrupção seja o mesmo, a pessoa está sendo presa não pela ética ou moralidade dela e sim, pela consequência (dano) que gerou a terceiros. Desviando milhões, ela mata pessoas sem leitos e medicamentos nos hospitais.
     Da mesma forma, não acho que uma senhora que rouba um pacote de macarrão para não deixar seus filhos morrerem de fome deva ir para a cadeia. A conduta (roubo) nunca é louvável, mas a motivação dela deve ser avaliada pelo bom senso, bem como a consequência (quase insignificante) que gerou a terceiros.

Autor: Wésley de Sousa Câmara 
20/03/2016

Ninguém escapa de interpretação. Repito: Ninguém!


     "A Palavra de Deus (que é Cristo) é absoluta, então não tem que relativizar nada e não pode ter divergências de compreensão" - brada de forma revoltada o fundamentalista (se bem que os fundamentalistas dificilmente consideram Jesus a Palavra; dizem que a bíblia é a Palavra eterna de Deus e Jesus é "só" faz parte do conteúdo dessa Palavra...)
     Porém ele não entende que, mesmo a Palavra sendo absoluta, a nossa percepção dela sempre será relativa. Lembrando que ninguém foge de uma interpretação, nem o apóstolo, nem você, nem eu, nem o papa, nem o ateu...
     Para compreender um texto qualquer (inclusive da bíblia) precisamos: conhecer a língua do texto que está diante de nós, juntar sílabas, formar palavras e frases, criar na mente um sentido daquilo que lemos e isso tudo forma a nossa interpretação. E ela está sujeita a nossa parcialidade, a nossas tendências, a nossas preferências, à nossa predisposição, à nossa educação, à nossa cultura, à nossa tradição teológica... Ninguém escapa de interpretação. Todos somos meros humanos. O que nos resta é ter humildade e respeito com quem pensa diferente de nós, sempre!
     Mas há quem confunda "o que entende daquilo que lê" com "revelação" ou com "a verdade é exatamente assim"... Mas se pensa dessa forma, então tá. Você é "o cara". Só posso ficar em pé aplaudir você, que é no mínimo um "vice-deus". Haja ignorância acompanhada de arrogância...

Autor: Wésley de Sousa Câmara
(20/03/2016)