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19 de dez de 2017

O Natal e os seus símbolos



     Ao contrário do que o título possa sugerir a alguns, não farei uma descrição detalhada das origens dessa comemoração, nem de seus símbolos (embora cite algumas neste texto), por dois motivos: primeiro, devido à existência de explicações contradizentes para um mesmo fato (muitas delas, frutos de pura especulação); segundo, porque pretendo apenas colocar o meu ponto de vista e não, fazer um apanhado de informações históricas. Mas, afinal, devemos ou não comemorar essa data? O que o Natal realmente representa? Podemos trocar presentes e colocar uma árvore ou um presépio em nossa casa? E o que dizer do Papai Noel?
     Antes de tudo, devemos entender o que é o Natal. Se perguntarmos a qualquer pessoa, a reposta quase sempre será: “é a comemoração do nascimento de Jesus Cristo”. Mas, na verdade, é (em teoria) muito mais do que isso. O Natal representa o nascimento não apenas de Jesus Cristo encarnado, mas também de uma nova vida, que surge em cada um de nós, a partir do momento em que O reconhecemos como nosso Senhor. Porém, sabemos que na prática o que quase todas as pessoas celebram é um Natal apenas de exterioridades, ou seja, mais uma data de festa, mais um feriado.
   Para ser mais didático, analisarei alguns argumentos contrários a celebração do Natal, que ao meu ver são muito superficiais e inconsistentes. Em seguida, concluirei com minha opinião e farei algumas considerações importantes sobre o assunto.

1 - Jesus não nasceu em 25 de dezembro = Que diferença isso faz? Segundo estudiosos, uma data mais provável seria o mês de setembro, outros ainda apontam abril. Há quem defenda que é outubro e até mesmo há defensores do tradicional dezembro. Acho bobagem especular, pois nem o ano do nascimento de Jesus podemos saber com certeza (quanto mais o mês), embora quase certamente tenha ocorrido entre 6-4 a.C. Acho improvável que se consiga desenvolver uma boa explicação para essa data com base nos evangelhos (que são, até onde sabemos) as fontes mais detalhadas da vida de Jesus. Afinal, forma escritas quase certamente por testemunhas não oculares, sendo o mais antigo evangelho canônico escrito no mínimo 35 anos após a morte de Jesus (e o mais novo, uns 60 anos depois de sua morte). Portanto, é claro que as informações específicas quanto a isso não serão muito confiáveis, logo, é um assunto que não terá uma resposta boa, sendo então, quase irrelevante.
     De qualquer forma, um dia Ele nasceu e a gratidão pelo Seu “nascimento” precisa estar dentro de nós todos os dias do ano. A data escolhida para uma comemoração não importa. É como adiar a comemoração de nosso aniversário para fazer uma festa conjunta com um amigo que nasceu depois. A escolha de uma data, independente de qual seja, é útil para representar historicamente o fato, e (teoricamente) serve para as pessoas se reunirem para celebrar o maior dos nascimentos.

2 - A bíblia não manda celebrar Seu nascimento = É uma afirmação verdadeira. Realmente as Escrituras não possuem esse mandamento, assim como não ordenam as demais milhares de coisas que fazemos ou que comemoramos. Não há mandamento para o dia da bíblia, nem para festividades de grupos de jovens ou de senhoras nas igrejas, nem para celebrarmos dia das mães e sequer há mandamento para criarmos religiões e denominações religiosas. Quantas coisas você faz em seu dia que tem "ordem" bíblica? Quase nenhuma, com certeza. Enfim, celebramos o nascimento de tantos amigos e parentes, por que não podemos celebrar o nascimento de nosso Senhor? Muitos alegam que só devemos comemorar Sua morte, mas para alguém morrer, tem que nascer, certo? Jesus NASCEU, MORREU e RESSUSCITOU. São três momentos históricos na vida de Jesus Cristo homem e qual o problema em comemorar qualquer um desses acontecimentos? Alguns poderão ir ao outro extremo ao afirmarem que temos o dever de celebrar, pois os anjos celebraram o nascimento de Jesus (Lucas 2:13,14) e pelos magos/sábios do oriente terem ido até o menino Jesus com presentes, o que seria outro radicalismo. Devemos ter cuidado com esse “farisaísmo”, para não permitir o que Deus proibiu e para não proibir ou colocar como mandamento o que Deus considerou indiferente. O Evangelho não é uma lista de regras, de "pode e não pode". O Evangelho gera consciência e ação sempre em coerência com Jesus. Aí pergunto: comemorar ou deixar de comemorar essa data fere a forma de viver ensinada por Cristo?
     Como diria o querido bispo Hermes Fernandes: "Por que comemoro o Natal? Simples! Jesus nos ensinou a orar que a vontade de Deus fosse feita "assim na terra, como no céu". Logo, se o céu celebrou o natal com direito a coral de anjos e tudo, por que a terra não o comemoraria?"

3 - A festa centraliza a comida e a bebida, esquecendo o lado espiritual = Esse é um grande problema. O Natal tornou-se apenas um feriado, uma data em que se ganha presentes e uma ocasião para comer e beber à vontade. Poucos param para pensar no que deveria representar este momento. Porém, essa é uma questão pessoal e, se isso é um erro, está em cada um que pensa dessa forma e não, na celebração propriamente dita.

4 – Tornou-se uma oportunidade de comércio = Também é verdade e os comerciantes sabem muito bem disso. É um período de aumento estratosférico nas vendas, seja de utilidades para presentes, de roupas ou de alimentos. Devemos ter cuidado para não ficarmos reféns desse capitalismo cruel, que faz com que pessoas que mal tem o que comer deixem de pagar suas contas para comprar produtos típicos dessa ocasião. Se você tem boas condições financeiras e quer gastar com presentes e comidas, cada um faz o que bem entender com seus recursos. Se não tem, não se sinta pressionado a fazer o que os outros fazem. Mas sejamos sinceros: praticamente todos os trabalhadores se beneficiam financeiramente dessas épocas (seja em comércios, empresas no geral, fábricas, autônomos e até trabalhadores rurais). Será que você abre mão do aumento do lucro que tem nesse fim de ano? Dificilmente, né?

5 – O Natal está baseado em cultos a deuses pagãos = Não há um consenso sobre a origem do Natal, mas as evidências parecem apontar o início dessa comemoração no século IV, por instituição da Igreja Católica Romana. A data escolhida (25 de dezembro) talvez seja devido ao solstício de inverno, que marcava o início dessa estação no hemisfério norte. Os romanos usavam essa data para celebrar a Saturnália (homenagem ao deus Saturno) e adorar Mitra (deus da luz). Assim, embora as inúmeras evidências apontem para uma data distante de dezembro para o nascimento de Jesus, a Igreja  adotou esse período numa tentativa de “cristianizar” os pagãos.
     Aí alguns dirão: "Está vendo? É uma festa de origem pagã!" A esses eu respondo: muitas coisas que usamos ou fazemos atualmente tem origem pagã. Devemos lutar sempre pela imparcialidade. Se condenarmos tudo que tem essa origem, devemos abolir os templos religiosos (provável origem suméria), as alianças de casamento (origem hindu ou egípcia), as maquiagens (origem no Egito Antigo)... Sem falar nas celebrações de dia dos namorados, nas cerimônias de casamento, nos vestidos de noiva e no próprio cristianismo, que foi institucionalizado como religião romana no quarto século, de forma que o sincretismo com outras religiões da época é evidente. Ou quem sabe deveríamos abandonar o nosso calendário (que é solar e que foi usado inicialmente pelos egípcios, depois alterado muitas vezes, inclusive pelos romanos. Você sabe que o mês de maio refere-se à deusa Maia? E que o mês de fevereiro refere-se ao deus Februarius, a quem os romanos ofereciam sacrifício pela expiação de seus pecados?). Rejeitar o Natal e aceitar o calendário gregoriano não me parece coerente. Poderia ainda citar a celebração de ano novo (Reveillon), que foi adotada por muitos povos antigos, sendo estabelecida em 1º de janeiro pelos romanos. Mas o fato de terem essa origem nos impede de adotarmos tais "costumes"? Não é porque um gato preto é sinal de má sorte para os supersticiosos que eu não possa ter um de estimação.
     A Páscoa, por exemplo, tem um significado para os cristãos, outro para os judeus e diversos outros para os demais povos. Algumas civilizações celebravam o fim do inverno e início da primavera no mesmo período (março). Mas o significado de cada evento depende da cultura em questão e, mais do que isso, da consciência de cada indivíduo. O dia 12 de outubro é dia de "Nossa Senhora Aparecida" para os católicos, mas para os evangélicos é apenas "Dia das Crianças". Percebe que a data tem a ver não com a essência e sim, com o significado que atribuem a ela? Será que alguém comemora o Natal pensando no diabo? Pelo menos eu não conheço ninguém assim...
     E o mais triste é saber que nos dizemos cristãos, mas ao invés de seguirmos os ensinos de Cristo, vivemos como os fariseus de Seus dias, com uma ideia meramente religiosa. Aplico a esse contexto uma citação de Ed René Kivitz: "Na cultura religiosa o impuro contamina o puro. No ensino de Jesus o puro limpa o impuro."

6 - Os enfeites de Natal são verdadeiros altares de deuses da mitologia antiga = A origem desses adereços é extremamente controversa e podemos encontrar várias explicações para um mesmo objeto, ou seja, há muitas especulações que são tidas como verdades.
     A árvore de Natal pode ter se originado no século XVII, na França. Com relatos de que árvores floresceram no dia do nascimento de Jesus, muitos passaram a enfeitar pinheiros em referência a esse acontecimento. Outros povos adornavam árvores (em dias festivos), que tinham um significado de vida e de esperança. Uma fábula babilônica diz que o pinheiro simboliza Ninrode, um perverso homem que teria casado com sua mãe. Outras evidências apontam para uma origem na Alemanha, quando Martinho Lutero enfeitou árvores para ilustrar a crianças e a pessoas próximas a ele como seria o céu no dia do nascimento de Jesus Cristo ou ainda como teria sido uma paisagem que acabara de presenciar na floresta. Uma terceira explicação diz que ele pretendia mostrar com os enfeites da árvore, os frutos do Espírito que brotam naqueles que se entregam Cristo, sendo alimentados pela "seiva divina".
     Esses enfeites seriam de papéis coloridos e doces, sendo, com o tempo, substituídos por: bolas (representando os frutos e a fertilidade), estrelas (chegada de Jesus), anjos (anúncio do nascimento do Cristo), sinos (que anunciam grandes acontecimentos), velas (a “luz do mundo”), guirlanda (esperança de uma vida melhor), entre outros. 
     Adeptos de algumas seitas vêem nesses adereços um significado próprio, sendo que cada cor traria uma energia. A posição de cada objeto interferiria nas “forças” ocultas e até a sequência de montagem desses enfeites deveria ser de uma forma específica. Para mim, a árvore é apenas um belo adorno, da mesma forma que uma faca pra mim não é arma e sim, instrumento para cortar alimentos; do mesmo modo que um gato preto para mim é apenas um lindo animal; da mesma forma que uma vela pra mim é apenas um item útil em caso de falta de luz. 
     Outro ponto muito questionado é o Papai Noel. Provavelmente, tenha se originado em 280 d.C, data do nascimento do bispo Nicolau (posteriormente considerado "santo" pela Igreja Católica), na Turquia. Esse homem teria boas condições de vida e ajudaria pessoas carentes, dando-lhes presentes e dinheiro. Com o tempo, sua imagem foi associada ao Natal, sendo que a característica roupa vermelha (que até então era verde) surgiu apenas em 1886 e foi difundida por todo o mundo, principalmente a partir de 1931, quando a Coca-Cola utilizou a imagem do “bom velhinho” como propaganda. Hoje, em nossa cultura, é um dos principais símbolos do Natal, fazendo parte da imaginação das crianças e simbolizando a generosidade.

     Podemos adotar esses símbolos? O que podemos concluir a partir da bíblia?
     No livro de Daniel encontramos quatro judeus que foram levados pelos caldeus para servirem no Império Babilônico, sendo eles: Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Os eunucos do império trocaram esses nomes por termos babilônicos (Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abednego), que faziam referências às divindades daquele povo, e não observamos rejeição por parte desses judeus (e Deus não os abandonou por isso). Mas quando deveriam se prostrar diante de outros deuses, não o fizeram, por temor ao Senhor. É nítido que se o costume “pagão” não tem intuito de adoração e se não é "imoral", não faz diferença alguma. Deus nunca foi refém de culturas, de idiomas, de religiões ou de tradições.
     Na primeira epístola aos Coríntios, Paulo ensina sobre os alimentos sacrificados aos ídolos e o mesmo ensino pode ser aplicado ao Natal e à adoção de seus símbolos. O apóstolo ensina que se há um único Deus, não há sentido falar em coisas sacrificadas aos deuses, afinal são apenas ilusões e enganações. E, se cremos que existe apenas um Deus, por que nos preocupamos com entidades pagãs? Paulo dizia ainda que poderíamos comer de tudo, desde que não escandalizássemos os “fracos na fé”. Portanto, se tenho consciência disso, onde está o erro em ter uma árvore de natal em casa, por exemplo? Como não devemos causar escândalo para quem ainda está com uma “venda” nos olhos (não digo aqueles que já ouviram o Evangelho há anos e insistem em dar mais importância aos seus preconceitos e às suas visões religiosas do que à Palavra de Deus e sim, aqueles que estão começando agora a caminhada com Cristo), o que podemos fazer é ensinar o Evangelho a esses indivíduos e não colocá-los na sala de nossa casa enquanto esse enfeite estiver lá ou enquanto não entenderem a real mensagem de Jesus. Obviamente, então, na minha opinião, jamais deveríamos colocar uma árvore ou um presépio num local em que vários irmãos "imaturos na fé" e que ainda se alimentam de "leite espiritual" terão acesso (a menos que possamos explicar um a um o motivo da existência daquele enfeite ali). Embora não haja nenhum erro na adoção ou rejeição do enfeite, não podemos ser motivo de tropeço (já que, infelizmente, podem achar que estamos fazendo essas coisas como idolatria).

I Coríntios 8:6-9 = “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. Mas nem em todos há conhecimento; porque alguns até agora comem, no seu costume para com o ídolo, coisas sacrificadas ao ídolo; e a sua consciência, sendo fraca, fica contaminada. Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta. Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos.”

     Talvez você me pergunte: "mas o que está por trás do Natal, além de ser pagão, tinha a intenção original de adorar ídolos. Como vamos adotar algo que tinha claramente esse objetivo antes de ser modificado pelo cristianismo?"
     Então lhe respondo tentando seguir a  mesma lógica de Paulo: o que determina o sentido de um ato é a motivação de quem o pratica. Quando Paulo fala que "poderia comer qualquer alimento, mesmo os sacrificados aos ídolos, desde que a consciência não o acusasse e desde que não ferisse a consciência dos novos na fé", ele ensina pelo menos duas coisas:

1 - Paulo estava falando exatamente sobre alimentos que foram feitos COM O OBJETIVO DE ADORAR OUTROS DEUSES/ÍDOLOS. E parafraseando Paulo: "se você sabe que essas pessoas estão no engano e que os ídolos nada são, por que não comer? Se está convencido disso, se tiver vontade, coma. Mas se tem medo ou dúvidas, não coma, não porque os ídolos farão mal a você e sim, porque a sua consciência ainda fraca lhe acusará e será danoso."

2 - Mesmo se você crê que tudo é de Deus... que "todas as coisas são puras para os puros e que tudo é impuro apenas para os impuros"... que "o que contamina o homem é o que procede do coração e não algo exterior"... que em Cristo o puro é que purifica o impuro e o impuro jamais tem poder para contaminar o puro... Mesmo diante de tudo isso, cuidado para não escandalizar seu irmão, pois deve amá-lo como a ti mesmo. Então, por amor a ele, embora tudo lhe seja permitido, nem tudo lhe convém. Às vezes será prudente abrir mão de alguma coisa, até que seu irmão possa entender essa realidade que Cristo nos trouxe, que deixa toda essa questão religiosa praticamente sem valor algum. Então não imponha nada a seu irmãozinho, pois a consciência dele pode ainda não ser a sua. Não o escandalize. "A fé que tu tens, tenha para ti mesmo". É assim que eu resumiria todo o ensino de Cristo e de Paulo em relação a isso.
     E saiba: da mesma forma que algo que foi originalmente criado para ser positivo pode ser usado para o mal, algo criado com um objetivo não recomendável pode ser usado para o bem. Quem dá significado a cada coisa é o usuário. Por exemplo: o "Viagra" foi criado originalmente para tratamento de problemas cardíacos e depois passou a ser usado para impotência sexual; a faca foi criada para facilitar nossas atividades diárias, mas alguns a usam como arma branca para tirar a vida; medicamentos foram usados para aliviar/curar doenças, mas alguns usam para o suicídio... O objetivo da criação de cada evento ou objeto perde o significado quando quem a usa atribui a ele um outro objetivo. Da mesma forma que o cristianismo como religião surgiu como uma esperta manobra política de Constantino, alguns segmentos, mesmo estando sobre essa origem "pagã", mantém a sincera pregação da Palavra de Deus. Da mesma forma que galinha preta é, para alguns, item para um ritual de magia negra, para mim é uma ave como todas as demais galinhas. Da mesma forma que alguns batem palmas para chamar uma entidade espiritual, eu bato para reconhecer a bela apresentação de um artista. O significado de cada coisa quem dá somos nós. Se alguém faz a mesma coisa que eu com outros fins, essa pessoa é responsável por ela. Eu respondo pela minha motivação e significação.  
     Infelizmente o "Natal moderno" não representa com fidelidade o contexto histórico do nascimento de Jesus. Nessa celebração, o que fazemos são grandes festas, com grandes banquetes, vestimos as melhores roupas e criamos belíssimas decorações. A lembrança do real motivo do evento acontece apenas quando há um presépio e o nosso coração está quase sempre apenas envolvido com a troca de presentes. Ou seja, a simplicidade da manjedoura foi trocada pelo glamour de uma festa que valoriza apenas a exterioridade e, de forma inevitável, exclui os menos favorecidos economicamente, que nesse período do ano, precisam se contentar com as "esmolas", sobras ou presentinhos dados por aqueles que possuem mais dinheiro. Enquanto a criança rica não vê a hora de chegar o dia 25 de dezembro para ganhar um belo presente, a criança pobre chora porque o amiguinho a desprezou, já que seus pais não tem dinheiro para comprar o brinquedinho que ela sempre quis e a bela roupinha para usar nessa data. Percebe como nosso Natal não tem nada a ver com Jesus? Enquanto Cristo veio ao mundo pelos ricos e pelos pobres, a festa apenas valoriza os que possuem algum recurso financeiro; enquanto Jesus nasceu em uma manjedoura, em uma situação precária, o Natal nos traz uma aparência luxuosa...
     Uma vez que reconhecemos que essa festa está totalmente fora de contexto, podemos agora ter um posicionamento crítico. Seria fantasia imaginar que poderíamos mudar uma das celebrações mais tradicionais do mundo, pois já faz parte da cultura dos povos, porém podemos resgatar a essência do Natal, não por fora (na festa propriamente dita), mas no coração de cada um de nós.
     Como vimos anteriormente, os argumentos contrários à nossa participação nessa festa não parecem muito consistentes, portanto se nos reunimos com nossa família e amigos no Natal não significa que temos uma visão egoísta sobre essa data; o fato de trocarmos presentes não significa que não temos consciência do verdadeiro "presente" que recebemos (na história) há cerca de 2000 anos; ter um enfeite do Papai Noel em casa não significa que alguém o idolatra como um santo ou que o coloca como mais importante do que Jesus...
      Pactuando ou não com essa simbolização, o que determina se temos o verdadeiro Natal em nós é o nosso coração. Cada um tem a liberdade de comemorar esse Natal interior, que é o único que tem valor. O Natal do coração não requer nenhum dinheiro e não acontece apenas um dia no ano, e sim, todos os dias, através da Palavra refletida em nós. Dessa forma, não apenas comemoraremos, mas também viveremos esse Natal. Fazemos isso quando alimentamos o faminto e quando ajudamos o necessitado; quando damos um brinquedo àquela criancinha "de rua" que vemos todos os dias; quando ao invés de comprarmos um panetone, compramos dois e damos um para aquela família pobre ou para aquele mendigo que está jogado a 100 metros de nós... O Natal como festa, se for desacompanhado do "espírito natalino de amor e solidariedade" será hipócrita e gerará apenas maus frutos.
     Portanto, vamos aproveitar esse período de festas para fazer uma profunda reflexão sobre o amor incomparável de Deus, que encarnou (nasceu), viveu, morreu e ressuscitou por mim e por você. Vamos reconhecer isso com uma mudança nas nossas atitudes, na nossa forma de ser e de encarar o nosso próximo, procurando sempre viver como Ele nos ensinou. Pode montar sua árvore, construir um presépio, iluminar sua varanda, desejar "Feliz Natal", fazer uma ceia com a família, trocar presentes... Isso tudo é bom, pois estaremos reunidos em amor, em comunhão, com aquilo que é o foco do ensino de Cristo: o nosso próximo (sejam amigos, família ou desconhecidos). O que é contrário ao que Jesus ensinou é todo tipo de radicalismo legalista, fanatismo e "farisaísmo hipócrita", a ponto de satanizar tudo o que temos em nossa volta. Essa rejeição não tem poder contra a carne e não gera bons frutos, nem consciência. Porém, lembre-se que a única coisa que tem valor para Deus é o Natal que faz nascer em você uma nova criatura e que, todos os dias, o constrange em amor a viver como Jesus, ajudando sempre de alguma forma aqueles que mais necessitam de você. E se mesmo assim você desejar não comemorar esta data, fique à vontade. Da mesma forma que Deus nunca proibiu essa celebração, nunca a ensinou como indispensável a nenhum de nós. A festa não tem uma função espiritual, mas se bem aproveitada, pode ser uma ótima oportunidade de ensinar a todos o verdadeiro significado do nascimento de Cristo, além de estreitar amizades e de fazer nascer (ou recuperar) relacionamentos humanos. Não seria isso um ótimo Natal? Aja de acordo com sua consciência desenvolvida no Evangelho e não julgue seu irmão por aceitar ou por rejeitar o Natal, afinal, você e ele tem liberdade para assumirem responsabilidades e fazerem escolhas, sendo que no que diz respeito a esta data, não há nenhuma recomendação específica da parte de Deus. 

Romanos 14:14 = “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.”

Colossenses 2:16-17 = "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo."

Autor: Wésley de Sousa Câmara
Atualizado em 24/12/2017

6 de dez de 2017

Tudo depende do seu ponto de vista

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  Tudo na vida, os obstáculos, os problemas, as dificuldades, dependem do nosso olhar. É como aquela história do copo com a metade preenchido de água. O pessimista diz que está meio vazio; o otimista, que está meio cheio.

     Nós enxergamos a realidade de acordo com nossa lente. "Se nossos olhos forem bons, nosso corpo será plena luz..." (Mateus 6). "Tudo é puro para os puros..." (Tito 1).

     Quem nunca passou por uma situação ou ouviu alguém dizer?: se não tivesse levado umas palmadas quando criança (não quero aqui entrar na discussão se é certo ou errado dar palmadas) hoje não seria alguém de bem.
     A maioria de nós reclama, lamenta, amaldiçoa tudo e todos quando passa por uma situação difícil, por um luto, por uma tragédia, por uma injustiça ou quando é vítima de uma maldade ou de um "azar" na vida... Mas em vez de lamentar uma situação, viva e aja da melhor forma que puder perante ela. Não temos como saber, mas no fim da vida quem sabe poderemos dizer: aquela desgraça que aconteceu em minha vida causou sofrimento, mas se não fosse ela, hoje eu não saberia lidar com essa situação e poderia agora ser vítima de uma desgraça ainda maior. Não lamente; lute. Não conhecemos o futuro, então não vamos lamentar o passado e vamos plantar no presente sementes que no futuro aumentem a probabilidade de colhermos frutos bons. A vida nem sempre é justa, mas façamos nossa parte e basta a cada dia o seu mal.
     E pegando carona no discurso do menino Wendell Lira (vencedor do prêmio Puskás 2015 - homenagem ao jogador de futebol com o gol mais bonito do ano), feito na cerimônia de entrega do prêmio - embora a fala não seja originalmente dele (digo isso por já ter ouvido algumas variantes dela), transcrevo com minhas palavras:
     "Na história bíblica de Davi e Golias, podemos alegorizar para obter uma bela lição. Muitos olhavam para o gigante e diziam: 'Ele é muito grande, não tem como vencer', mas Davi, minutos antes de derrotar o enorme adversário, disse: 'Realmente ele é muito grande, mas exatamente por isso não tem como errar'.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

26 de nov de 2017

A sua percepção da verdade não é a verdade propriamente dita

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     Jesus disse: "Eu sou a Verdade". Então chegam seus seguidores, digamos que 10 deles... Cada um diz ter entendido qual seria essa verdade e apresenta a sua versão dessa Verdade revelada em Cristo.
     Resultado: 10 novas verdades (ou 10 versões de uma mesma verdade). E assim começam disputas, brigas e guerras, pois a verdade absoluta é sempre a "minha", claro.
     É tão difícil entender que nossa compreensão da Verdade Absoluta não corresponde à Verdade propriamente dita? É difícil aceitar que um ser imperfeito e relativo, por definição, não pode assimilar, explicar ou conter algo absoluto? Isso não é relativismo, é lógica simples, de nível infantil. E pensar que isso soa absurdo pra maioria...
     O que nos resta? Humildade, abaixar a bola, pois podemos ter boas ou más explicações, compreensões, teologias, tradições... Mas absoluta nenhuma é. Siga a que julga mais coerente e consistente e mantenha os pés no chão.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

20 de nov de 2017

Nosso canal no Youtube

   O canal "Bíblia a Fundo" acabou de ser criado. Segue abaixo do vídeo de apresentação. Por favor, deem um "like" lá no Youtube e não esqueçam de clicar em "inscrever-se", abaixo do vídeo por lá. Em breve teremos várias novidades... Fiquem todos na paz.

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22 de abr de 2017

Culto de milagres?

 

     Certamente que milagre com hora marcada (como cultos ou eventos com promessas de milagres) é armação descarada. Mas vou além: milagre, por definição, é algo excepcional, fora do esperado, sem possibilidade de uma explicação racional, plausível. Milagre vai muito além do improvável. Por exemplo, ganhar na mega-sena é improvável, mas plenamente possível e matematicamente/estatisticamente explicável. Logo, não é milagre. Agora vejo pessoas que ficam livre de uma doença (a maioria fez algum tratamento ou era uma doença com algum potencial de regressão espontânea - e não estou aqui negando curas miraculosas/divinas) e dizem ser milagre; vejo pessoas escaparem de um acidente de carro e dizem ser milagre (oras, a minoria dos acidentes geram danos fatais ou graves); vejo pessoas escaparem de um assalto ou sequestro e dizem ser por milagre; vejo pessoas terem um bebê após um diagnóstico momentâneo de esterilidade ou meramente de infertilidade e após algum tempo, nasce uma criança e pra elas é milagre).
     Milagres poderiam ser considerados se, em toda a história da humanidade, pudéssemos contá-los nos dedos. Mas hoje todo mundo diz ter presenciado ou recebido um milagre. Milagre banalizado e corriqueiro assim deixa de ser milagre. Não digo que seja armação como os líderes que prometem milagres em cultos ou eventos ou ritos, mas no mínimo é uma ingênua ilusão.
     Se seu carro for roubado agora de sua garagem você aceitará alguém dizendo que ele foi milagrosamente abduzido por demônios? Não! Procurará uma explicação racional, plausível, verossímil, como: "Algum ladrão o levou". Então porque quando lhe convém você abre mão das explicações possíveis e prováveis para adotar as "impossíveis" e improváveis? Cadê a honestidade e a coerência?

Autor: Wésley de Sousa Câmara
22/04/2017

13 de mar de 2017

Sexo e casamento: uma dupla inseparável?


     Se tem uma assunto que gera polêmica no cristianismo é o sexo. Falou em questões sexuais, mexeu em uma colmeia cheia de abelhas. Porém, o mais interessante é que a grande maioria dos cristãos crava com toda convicção: “Sexo antes do casamento é pecado; é inaceitável!” Será? Vamos então analisar algumas questões, como: É pecado o sexo fora do casamento? Se sim, é diferente de qualquer outro pecado? E o que é casamento: uma cerimônia religiosa, uma assinatura em um papel timbrado ou nenhuma das duas coisas?
     Acho importante começar o assunto revisando o conceito de “pecado” (para uma compreensão profunda e detalhada recomendo a leitura do estudo: 5º passo: Pecado - estudo completo): “Pecado” não é meramente o que faço; pecado é o que sou (é minha natureza, minha tendência). O que faço é um sintoma (consequência) que denuncia minha doença (o que sou). Durante toda minha vida serei um pecador, antes ou depois da conversão (minha natureza é pecaminosa e tende a se afastar de Deus), mas sou contado como justo (justificado) em Cristo e os frutos do Espírito crescem em mim. Aliás, só peco por ser um pecador (e não, o contrário). Então, como tenho essa natureza, essa "doença" (que teve sua cura decretada na Cruz, com a promessa que um dia ela será completamente removida de mim) até quando faço o bem, analisando a fundo, é um pecado meu, pois o bem que parte de alguém mau como eu, é mal. O profeta disse que nossa justiça não passa de trapo de imundície (Isaías 64). E claro: não pecar significa ser perfeito, mas a perfeição humana (aos nossos olhos) é nada perante Deus. E essa distância entre o que somos e o que deveríamos ser (perfeita imagem e semelhança de Deus) é o que nos afasta (na verdade, "afastava") de Deus, é o pecado, e foi isso que Jesus resolveu na Cruz. Não significa que por causa da cruz deixamos de ser pecadores, mas Ele nos religou a Deus por Graça, a fim de que Deus não se relacionasse conosco com base em nossa imperfeição (pecado) e sim, com base no Seu amor. Nunca não estou em pecado... O que aprendemos é a não nos entregarmos ao pecado, a não sermos dominados por ele, a não viver pecaminosamente, ou seja, a não mergulharmos deliberadamente na imoralidade, pois, como somos pecadores, a tendência é que predominantemente façamos o mal. Mas Jesus nos ensina a lutar contra isso, a resistir, a não viver assim, pois essa entrega é destruição total do nosso ser. É Jesus nos dizendo o tempo todo: "Está perdoado, vá e não peques mais" (lembra da mulher que seria apedrejada por adultério?), ou seja, "vá e não continue nessa vida tola e de engano, criatura, senão lhe acontecerá muitas coisas ruins"... Sendo assim, podemos dizer: o sexo (ou qualquer outra atitude nossa) sempre é pecado, seja dentro ou fora do casamento. Mas seria o sexo fora do casamento um “ato imoral” (que muitos chamam de “pecado”)? Aí é outra longa e polêmica discussão, que se eu me atrevesse a discutir aqui, este texto se tornaria um livro. Então, para ser mais objetivo, vou me ater aqui ao sexo no casamento.

O que é "casamento" para Deus?
     Será que o que no dia a dia chamamos de “casamento” (uma cerimônia religiosa ou em cartório) é o mesmo que Deus aceita como casamento? Vamos exercitar o cérebro: cite um personagem bíblico que se casou com no cartório ou com cerimônia religiosa tal como conhecemos hoje no meio cristão. Não há. Então será que, até que surgisse esse nosso modelo de casamento religioso ou no civil, não existia casamento? “Ah, mas a cultura nos dias bíblicos era diferente, sendo diferentes suas cerimônias e acordos para casamento” - argumentam, ingenuamente, alguns. A esses eu respondo: se isso é justificativa, então terá que escolher uma das duas alternativas:

1 - Casamento não depende de cerimônia religiosa, nem de cartório.

2 - Deus é refém de culturas e de tradições humanas, mudando seus conceitos de acordo com as sociedades.

     Parece absurda esta última alternativa, né? E realmente é. Mas é exatamente isso que assumem tolamente os que dizem que antigamente o casamento era diferente.
     É simples: Deus, por ser Deus, é absoluto, eterno e imutável, correto? Logo, seus conceitos também o são, embora os homens, em diferentes épocas mudem seus consensos. Ou seja: o conceito de casamento para Deus é o mesmo do primeiro ao último dia da existência humana. Cabe a nós, então, tentar nos aproximar desse conceito.
     O que proponho é: “Deus é amor” (I João 4:8) e o casamento é uma dádiva, um ideal divino para o homem. Sendo assim, o casamento deve ter íntima relação com o amor. Não ficarei aqui citando uma enormidade de versículos bíblicos, pois quem me acompanha sabe que sou contra essa didática, que além de improdutiva, não valida o que está sendo dito. Qualquer um pode descontextualizar textos para defender o que deseja. Então vamos olhar de forma mais abrangente, mais honesta e mais correspondente à realidade:

     O que é casamento? É um compromisso assumido entre pessoas com um ideal comum, uma aliança entre pessoas que se amam, que se aceitam como são, que prometem ao companheiro fidelidade, amor, carinho e respeito. Que se comprometem a viver juntos, ajudando um ao outro nas alegrias, nas tristezas, nos momentos de saúde e de doença, na fartura e na necessidade. Ou seja: onde há amor e esse real compromisso de compartilhar a vida juntos, há casamento. Vamos citar exemplos: digamos que isso tudo exista entre um casal, porém, não importam os motivos, esse casal não tem um papel assinado no cartório que reconheça essa união e nunca tiveram uma cerimônia na igreja, com a bênção do líder religioso. Será que deixariam de estar casados devido a essa burocracia que foi criada pelos homens há pouco tempo na história? Então imagine outro caso: um casal que teve cerimônia religiosa, festa e um casamento reconhecido por um juiz em cartório. Porém esse casal vive em guerra, com marido espancando esposa e esposa desviando dinheiro que o marido traz para pagar as contas. Um dorme na cama e outro no sofá, pois não se suportam, mas dizem que é "pecado "divorciarem-se e ainda "mais pecado" será se arrumarem outro casamento. Pergunto: estão casados diante de Deus ou é um mero casamento de fachada para enganar homens? Penso que não preciso responder nenhuma dessas questões, pois elas respondem a si mesmas. São mais do que óbvias.
     Alguns dizem: “O que é reconhecido na Terra, pela lei dos homens, é reconhecido no céu.” É uma afirmação absurda e desonesta. Absurda, pois coloca Deus como refém das leis e regras humanas; é desonesta, pois quando essas mesmas leis humanas aprovam o casamento gay, por exemplo, essas pessoas não citam esse argumento e dizem que Deus não aceita, embora alguns homens aceitem. Percebe a infantilidade e trapaça argumentativa?

     É por não entender o que é o sexo que as questões sexuais se transformaram no tema preferido dos religiosos. Repare que os piores pecados considerados pelos cristãos envolvem o sexo (nem o suicídio pode ser colocado no mesmo nível). “Adultério, sexo antes do casamento, homossexualidade...” Se você roubar, mentir, ser inadimplente, falso, não ajudar o carente... dá pra aceitar. Mas se fizer sexo fora dos padrões que a “religião” (que se julga representante de Deus na Terra) estabeleceu como correto, estará perdido.
     Em primeiro lugar devemos saber que o sexo é natural no ser humano. O prazer sexual não é do diabo, nem anormal. Foi Deus quem nos deu, para que usufruíssemos da melhor forma. Deveria ser algo tão normal quanto se alimentar ou urinar. O sexo é a satisfação de uma necessidade fisiológica, com o diferencial que essa necessidade nos dá o maior nível possível de prazer (muito maior do que qualquer chocolate, do que dormir, do que aquele suco geladinho...). Porém, desde a época dos “pais da Igreja”, muitos líderes cristãos viam o sexo com péssimos olhos. Tinham a visão que o sexo era pecaminoso, sujo, havendo até grupos que se abstinham totalmente dessa “impureza”. Não é incomum vermos argumentos, por parte desses radicais, que Adão e Eva só fizeram sexo depois da queda (pecado original), mostrando que o sexo é impuro (mas não dizem que também só deixaram de viver nus após a queda... Ou seja, citam o que lhes convém apenas); que Maria não poderia ter feito sexo (que seria algo pecaminoso)  com José depois de nascer, sendo ela foi uma eterna virgem, imaculada...  O sexo foi, ao longo da história do cristianismo, sendo visto cada vez de forma mais pessimista. Até dentro do casamento era visto com maus olhos (por isso a ideia de muitos de que sexo é só para reprodução. O prazer muitas vezes era demonizado. Alguns faziam apenas um buraco na roupa para introduzir o pênis na vagina da esposa, sem outras intimidades... Os sacerdotes cristãos muitas vezes eram privados de se casarem...). Percebe como fomos alimentando esse tabu?
     A civilização ocidental é fortemente influenciada pelo que se convencionou como “cristianismo tradicional”, que por sua vez, tem influências de algumas sociedades pagãs da época em que nasceu. No processo de formação de nossa cultura foi convencionado que algumas coisas são éticas e outras são “vergonhosas” ou imorais. A questão é: nosso universo de valores, nosso padrão moral, é fruto disso tudo e não, de um conceito absoluto dado por Deus. Isso é ruim? Não necessariamente. Regras são necessárias para a boa convivência em grupo. Uma “anarquia” dificilmente daria certo em um mundo cheio de seres maus e pecadores como o nosso. Mas uma vez que entendemos isso, podemos agir sem culpa ou medo de acordo com nossa consciência, que deve ter um parâmetro absoluto apenas: Jesus, pois Ele é o Verbo (Palavra) que se fez homem, é a imagem do Deus invisível, a ponto de “quem vê Ele, vê o Pai” (João 14). Então, vamos ver o que disse nossa referência absoluta sobre a sexo ou o adultério:

"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração." (Mateus 5:27,28)

      Reparem aí que "pecado" para Jesus não era o ato (sexo), e nem mesmo o desejo de realizar o ato (pulsão sexual) e sim, algo que precede isso tudo e que leva ao desejo. Jesus diz que QUANDO UMA PESSOA OLHA COBIÇANDO uma mulher, essa pessoa comete adultério? Não! Ele diz que quando olha, essa pessoa JÁ COMETEU adultério no coração. Em outras palavras: o ato de "levá-la pra cama" é a consequência final do pecado. E o desejo também não é o pecado em si. O desejo já é UMA EVIDÊNCIA de que o pecado está lá dentro da pessoa (também é consequência). O pecado não é sequer a motivação. O pecado é a capacidade da pessoa ter a motivação. Ou seja, pecado é nossa própria natureza. Quando Jesus dá esse ensino, não está ensinando a usarmos a repressão sexual a fim de não pecar e sim, jogando em nossa cara que ninguém de nós consegue evitar esse pecado. Todos somos pecadores e por isso precisamos da Graça divina.
     Dessa forma, faz sentido ensinar ao casal de namorados a não terem relações sexuais para evitarem esse pecado? Não! Pois o pecado precede o ato. E faz sentido dizer que esse casal de namorados não é casado por ainda não possuírem uma certidão de casamento ou por não terem realizado uma cerimônia religiosa? Já vimos que não. Então não podemos jamais apontar o dedo para um casal e dizer se estão certos ou errados em se relacionarem sexualmente. Devemos ensinar a todos o ideal divino, o significado do casamento e cabe a cada um analisar a si mesmo e reconhecer se está ou não em um genuíno casamento.

    O sexo uma dádiva divina para nós, para que possamos chegar ao clímax do prazer. Devemos usá-lo da melhor forma possível, com respeito ao nosso companheiro e com responsabilidade. Com amor, carinho e satisfação de ambos. Se alguém decide manter-se virgem até após realizar as cerimônias religiosas e civis, é direito dela. Se ela aceita que o casamento vai muito além dessas aparências e decide ter relação sexual em outro momento, também é direito dela. Deus não está preocupado em quando iniciamos nossa vida sexual e sim, se usamos o sexo de forma honrosa. Nós é que criamos regras e convenções, mas desde que busquemos sempre respeitar o próximo e transmitir frutos bons (de amor) em nossas relações, Deus tem prazer nisso. Nosso conceito de casamento depende exclusivamente de nossa cultura, mas Deus não é refém dela. Deus está acima e além de todos nossos conceitos morais. Se em um relacionamento há frutos de amor, aí há casamento.
     Estou dizendo então que ninguém deve se envolver com casamento religioso ou em cartório? De forma alguma. Apenas estou dizendo que o cartório é invenção humana recente e serve apenas para garantir certos direitos. E a cerimônia religiosa é uma invenção cristã (com muita influência “pagã”, em cada ato, desde as pétalas ou arroz lançados, até à forma com que o noivo segura a noiva pelo braço) e vale apenas para receber uma oração, um conselho... O que passa disso é apenas superstição e idolatria.
     Vou repetir, correndo o risco de ser prolixo: onde há amor, compromisso e cumplicidade, há casamento; onde essas condições não estão presentes, não há, mesmo que nas mãos desse suposto casal esteja um papel assinado em cartório e suas cabeças estejam ungidas e com a bênção do padre ou do pastor. Os homens vivem por aparências, mas diante de Deus, não existem máscaras, nem casamentos de fachadas.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
13/03/2017

4 de mar de 2017

Tolas saudações religiosas


     Quem, religioso ou não, nunca ouviu alguém cumprimentar outra pessoa com um sonoro: “A paz do Senhor”, “a paz de Deus”, “Graça e Paz” ou, simplesmente, “Paz”? São todas expressões que se tornaram jargões, clichês, no meio evangélico brasileiro. Em muitos desses meios, se um fiel cumprimentar outro fiel com um “bom dia” ou “Olá”, será motivo de escândalo e visto como um “crente carnal”, um “desviado”, um “mundano” ou alguém que se “envergonha do evangelho” (pois é, pasmem!). 
     Eu sou declaradamente contra o uso rotineiro dessas expressões ao cumprimentar alguém. Isso mesmo, por quê? Por dois motivos principais:

1 - São apenas clichês ditos de forma mecânica, desprovida de significado. 
     Muitos acham que cumprimentando assim os diferenciam, os faz mais crentes, mas a diferença não deve estar primariamente no que você veste ou diz (pois isso é da boca para fora, é aparência) e sim, no que você faz (isso sim mostra quem você é). Quantos gritam um “a paz do senhor” ao irmão, mas seu coração está cheio de mágoa, rancor e ira? Que paz é essa? E mesmo que esteja com o coração pacificado, salvo raras exceções, esse cumprimento será bem diferente dos encontrados em algumas cartas apostólicas, em que o autor (por exemplo, Paulo) pensava em cada palavra dita e provavelmente desejava aos leitores/ouvintes sinceros votos de paz. Hoje em dia isso se tornou apenas um jargão, sendo que raramente alguém os usará de forma pensada, espontânea e sincera. 

2 - Criam divisão, segregação, servindo apenas para identificar alguns “guetos”.
      Negar-se a usar esses cumprimentos não é questão de vergonha do evangelho, de Jesus e nem mesmo de pertencer a um grupo religioso, como alguns tolamente argumentam. É constrangimento por usar expressões já banalizadas, que servem apenas para diferenciar guetos, para criar segregação (pela expressão usada por uma pessoa já sabemos se ela frequenta a igreja “Assembleia de Deus” ou a “Congregação Cristã no Brasil”, por exemplo). Acredite: isso gera uma má impressão para quase todos que observam “de fora”. 
     Qual o problema em “ser normal”, em agir como todo mundo, dando “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” ou um “Olá”? Por que desejar “ser especial” e se diferenciar do seu próximo até na forma como cumprimenta seus “irmãos”? O que isso acrescenta? Será que dando um bom dia sincero você não transmitirá mais paz do que um “a paz do Senhor” mecânico? Será que as sílabas que usa ao cumprimentar alguém tem algum poder mágico? Vai viver nessa ingênua superstição?
      Em um mundo tão ruim como o nosso, devemos ser sal e luz; devemos fazer a diferença. E esse "ser diferente" nada tem a ver com a roupa que vamos vestir ou com o linguajar que vamos usar, pois isso é apenas aparência. Ser diferente é agir com amor, respeito e lealdade nas atitudes, buscando sempre realizar aquilo que traz o bem a nós e aos que nos rodeiam, pois isso é essência. 
     Se alguém usar essas expressões ao me cumprimentar, não acharei ruim e responderei com um “amém” e em seguida darei um bom dia/boa noite, mas não espere que partirá de mim qualquer um desses cumprimentos, pois como já disse, vejo muito mais motivos para rejeitá-los do que para adotá-los. Não importa quem seja, religioso ou não, jamais abrirei mão de tratar a todos sem distinção.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
04/03/2017

24 de fev de 2017

Carnaval faz mal ou é amoral?


     O Carnaval é uma festa que tem muito destaque no Brasil, mas que gera um incômodo muito grande para a maioria dos cristãos. Como muitos questionam se um cristão poderia aproveitar essa celebração de alguma forma, quero aqui tecer um breve comentário, não no intuito de convencer ninguém de nada, mas de refletir principalmente nos argumentos que ouço em relação a isso nessa época.
     Primeiramente vale contextualizar: o Carnaval parece ter origem grega, como uma festa de celebração à fertilidade e produção agrícola, tendo também relação com o deus grego Dionísio (deus do vinho), muito associado às festas, diversão e prazeres materiais. No final do século VI da nossa era a Igreja Católica adota a celebração, tornando-a uma festa de liberdade à diversão e à alegria. No século XVI é oficializado como uma festa popular, sendo posteriormente sua data relacionada à Páscoa. Devido ao processo de colonização europeia, claro que o Brasil também absorveu essa festa e ao que parece, no século XIX começaram as grandes celebrações de Carnaval em nosso país.
     É bom dizer que o Carnaval não é uma festa uniforme. Cada região, cada época, tem suas peculiaridades e formas de celebração. Há décadas, o que mais ocorriam eram festas de ruas, familiares, em que as pessoas se reuniam em blocos, desde crianças até idosos. Em alguns lugares, com o tempo, essa festa foi adquirindo outras características. Ultimamente, quando se fala em Carnaval, a maioria das pessoas pensa imediatamente em bebidas, mulheres seminuas e sexo fácil, embora nem sempre isso seja um retrato fiel da festa. Por exemplo: compare o Carnaval de Olinda, de Salvador, de Ouro Preto, do Rio de Janeiro e de uma cidade do interior. São completamente diferentes. Em alguns o que se vê é desfile de escolas de samba, com mulheres seminuas em destaque, retratando momentos ou personagens históricos do país; em outros, trios elétricos guiam multidões ao som de axé; há ainda os bailes de máscaras em salões, os blocos de rua com fantasias, os desfiles com marchinhas e bonecos...
     Com tanta diversidade fica difícil falar sobre o Carnaval como um todo. Há festas aparentemente inofensivas, saudáveis, com clima familiar; há outras em que só vemos imoralidades, pessoas embriagadas ou fora de si por consumo de outras drogas, desrespeitando as mulheres e promovendo violência. Então, penso que em vez de colocar o Carnaval em um mesmo pacote e julgar (e aqui uso no sentido equivocado popular de “condenar”) todo tipo de festa nessa época, use a racionalidade que Deus lhe deu. O problema é a velha e tola questão: “Isso é pecado”? Para quem não sabe ainda discernir o que é pecado e como isso interfere em sua vida,recomendo que leia este estudo completo: PECADO - estudo completo. A questão não é se é pecado ou não e sim, se convém ou não. E isso cabe somente a você responder, pois a consciência é algo individual. “Cada um analise a si mesmo”. Em vez de aceitar ou rejeitar o Carnaval como um todo, sugiro que sempre questione: “Que tipo de Carnaval? Essa festa envolve o que? Como é celebrada?” Afinal, como posso colocar no mesmo pacote, por exemplo, as duas festas abaixo:


1 - Uma festa familiar, com as pessoas da família e amigos próximos fazendo um churrasco, usando máscaras ou algumas fantasias e adereços, conversando, rindo, brincando e se divertindo ao som de boas músicas.



2 – Uma festa aberta a todo tipo de droga, violência, abusos sexuais inclusive de menores, ao som de músicas que fazem apologia a crimes.


     Percebe a diferença? Ambas podem ser chamadas de festa de carnaval, mas não possuem nada em comum, além da data de realização. É aquilo que sempre digo: julgue o perfume e não, o frasco. Da mesma forma que deve avaliar uma mensagem, ao invés do mensageiro; a letra da música, ao invés de seu compositor; o conteúdo do livro, ao invés da capa e do autor...
     Se alguém me convidar para uma festa como a primeira citada, se eu estiver sem compromisso, irei com todo prazer; se alguém me convidar para a segunda, rejeitarei prontamente, pois não vejo nada lá que acrescente algo em minha vida, além dos nítidos riscos; se eu for convidado para alguma festa que ficaria entre esses dois polos, avaliaria se seria positivo ou não eu ir. Não tem a ver com fé, com religião, com pecado (repito, se tem dúvidas quanto a isso, leia o texto do link que sugeri acima), com salvação... Tem a ver com bom senso, com responsabilidade e com juízo. Infelizmente a maioria das pessoas segue uma lista de regras (de proibições) e rejeitam qualquer coisa que lembre ou que se relacione com o carnaval, por ser uma suposta “festa da carne”. Elas abre mão do uso da razão. Não entendem que um discípulo de Jesus deveria ser guiado não por regras exteriores, mas por consciência, por amor, por equilíbrio, por mansidão. É uma imaturidade mental que as impede de soltar as rédeas religiosas e a viverem por si mesmas, tendo um parâmetro, uma referência para seguir. Sentem-se inseguras, ficam sem chão quando deixam de seguir uma cartilha pronta, as ordens de um líder, que diz em detalhes tudo o que ela deve fazer ou rejeitar. É como uma criança que nunca larga a mamadeira e as fraldas. Ao invés de discernir em tudo na vida o que é bom e mau, o que traz vida e o que gera danos, o que convém ou não, ela quer uma garantia de que algo é “de Deus”ou “do diabo”. E assim faz julgamentos rasos, tolos. Tudo o que tem a ver com carnaval, para essa pessoa é demoníaco e tudo o que tem a ver com “igreja”, é obra de Deus, mesmo que o evento religioso seja recheado de absurdos, emocionalismos, manipulações e estelionatos.
     Eu poderia aqui ficar citando versículos bíblicos sem parar, mas luto contra essa mentalidade, pois citar um trecho da bíblia após cada afirmação não valida o que estou dizendo. No relato da tentação de Jesus no deserto, lembra que Satanás não parava de citar as escrituras? E nem por isso ele estava com a razão. O que quero é que você tenha maturidade e consciência para avaliar o que é dito e pensar, sem precisar de versículos para aceitar ou rejeitar algo.
     Voltando ao assunto, muitas pessoas, enquanto rejeitam o carnaval, tem a mente e o coração conduzidos pela “carne”. São avarentos, caloteiros, briguentos, mal educados, não dão carinho e amor à família, não estendem as mãos ao necessitado, condenam todos os que são diferentes deles... Mas os tais acham que são santos por estarem, durante o Carnaval, em um “retiro espiritual”. Veja o nível da incapacidade de uso da razão. Dão evidências a todo momento dos frutos da carne em suas relações cotidianas, mas “carne” para eles é qualquer celebração na época do carnaval.
     E já que falei em “retiros”, considero tolices como tudo o que criam na versão gospel. Explico: criam festas juninas gospel, Halloween gospel, shows gospel, carnaval gospel... Na verdade, querem a festa original, diversão com os amigos que chamam de “do mundo”, mas como são proibidos pela “igreja” ou como ficam com medo e culpados (“é pecado”, “Deus me castiga”, “perco a salvação”, “o pastor me pune”, “o pessoal da igreja me julga”...), criam os seus próprios eventos, na versão “santa”, só para cristãos. Outra vezes esses retiros são meras estratégias para tirar os jovens da exposição ao carnaval, como se isso resolvesse. Lembra de João 17? “Pai, não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal”. Essa é a ideia. Precisamos, em vez de afastar as pessoas de algo ruim, ensiná-las a viver diante de tudo isso. O mundo atual é repleto de coisas boas e coisas degradantes. Todos precisam de maturidade para saber lidar com cada situação e não é tirando a pessoa da realidade que ela aprenderá a se portar adequadamente. Você faz um retiro com os jovens, mas e quando ele retornar? Será que o mundo será uma mil maravilhas? Será que ele não será exposto em algum momento a ofertas libertinas? Isso é tampar o sol com uma peneira e alimentar uma imaturidade mental nas moças e rapazes. Ao invés de usar a consciência, o juízo, assumir responsabilidades, essas pessoas aprendem a se isolar do mundo, a não avaliar o que é bom, o que edifica. Elas recebem tudo pronto, de acordo com o que o seu líder julga conveniente. E assim elas permanecem, querendo um aval bíblico, religioso pra tudo. Não querem usar a razão, a mente, o bom senso e o discernimento. A alienação é tamanha que quando alguém diz coisas óbvias como essas, os tais se revoltam, acham absurdo não seguir a cartilha, as tradições, os clichês. Convidar a pessoa a usar a razão, para ela é uma afronta, uma blasfêmia, uma falta de fé, uma carnalidade. É a situação crítica e infantil do nosso cristianismo.
     Quem pensa assim não deve ter entendido a mensagem de Jesus, que frequentava festas, que comia de tudo e que andava com os pecadores. Ele não vivia em uma “bolha”, como os fundamentalistas cristãos querem que vivamos. Afinal, se fosse assim, como Jesus nos ensinaria a ser sal e luz? Se for pra viver e se alegrar apenas entre os meus “irmãos”, seremos sal no saleiro e um sal insípido. Pra que isso serviria? Essa alienação cristã só mostra que estamos sendo luzes embaixo da cama. Luz é para iluminar o mundo! Jesus nunca proibiu ninguém de participar de nenhuma festa. Também nunca criou nenhuma festa (nem pense em citar “Santa Ceia/Eucaristia”, pois o contexto não é esse – falamos aqui de lazer, diversão) restrita aos seus seguidores. Pelo contrário, Ele levava seus discípulos para as celebrações existentes. Deixe de criar segregação e de dividir as pessoas em "guetos".
     Há os que berram: “O carnaval é uma festa pagã, por isso deve ser rejeitada”. A esses eu respondo: muitas coisas que usamos ou fazemos atualmente tem origem pagã. Onde fica a imparcialidade? Se condenarmos tudo que tem essa origem, devemos abolir os templos religiosos (provável origem suméria), as alianças de casamento (origem hindu ou egípcia), as maquiagens (origem no Egito Antigo)... Sem falar nas celebrações de dia dos namorados, nas cerimônias de casamento, nos vestidos de noiva e no próprio cristianismo, que foi institucionalizado como religião romana apenas no quarto século, de forma que o sincretismo com outras religiões da época é evidente. Ou quem sabe deveríamos abandonar o nosso calendário (que é solar e que foi usado inicialmente pelos egípcios, depois alterado muitas vezes, inclusive pelos romanos. Você sabe que o mês de maio refere-se à deusa Maia? E que o mês de fevereiro refere-se ao deus Februarius, a quem os romanos ofereciam sacrifício pela expiação de seus pecados?). Rejeitar o Natal e aceitar o calendário gregoriano não me parece coerente. Poderia ainda citar a celebração de ano novo (Réveillon), que foi adotada por muitos povos antigos, sendo estabelecida em 1º de janeiro pelos romanos. Mas o fato de terem essa origem nos impede de adotarmos tais tradições? Não é porque um gato preto é sinal de má sorte para os supersticiosos que eu não possa ter um de estimação.
     A Páscoa, por exemplo, tem um significado para os cristãos, outro para os judeus e diversos outros para os demais povos. Algumas civilizações celebravam o fim do inverno e início da primavera no mesmo período (março). Mas o significado de cada evento depende da cultura em questão e, mais do que isso, da consciência de cada indivíduo. O dia 12 de outubro é dia de "Nossa Senhora Aparecida" para os católicos, mas para os evangélicos é apenas "Dia das Crianças". Percebe que a data tem a ver não com a origem e sim, com o significado que atribuem a ela em dado momento? Acho válido aqui deslocar de contexto uma frase do pastor batista Ed René Kivitz: "Na cultura religiosa o impuro contamina o puro. No ensino de Jesus o puro limpa o impuro." Realmente, os cristãos atuais tem uma espiritualidade ascética, baseada no “não toques, não pegues, não manuseies”, que é criticado na carta aos Colossenses.
     Há ainda quem diga: “No carnaval só vemos violência, drogas, gravidez indesejada e acidentes de trânsito, então a festa tem sim que ser condenada.” Se isso acontece (e algumas dessas coisas realmente ocorre bastante), será que a culpa é da festa em si ou das pessoas envolvidas? Veja: em todo aglomerado de pessoas, todo evento de grande porte, aumenta-se muito a o risco de violência, por fatores externos e psicológicos. Primeiramente, todo ajuntamento de gente que tem drogas (lícitas e ilícitas) sendo consumidas abundantemente, tem alto risco de terminar mal. O álcool, o êxtasy, a cocaína e outras drogas alteram a consciência e a capacidade de julgamento do indivíduo e isso é um facilitador para brigas e outros tipos de violência (física ou não). Também vale destacar os transtornos psicológicos, mentais (como transtornos de personalidade) que não são tão raros assim e que são evidenciados em ajuntamentos. Quem nunca viu pessoas que aparentemente são controladas, mas que quando estão no meio de uma “torcida organizada”, em um estádio de futebol, adoram se envolver em violências? É como um “instinto” primitivo, animal, que é aflorado quando está dentro de um “bando”. Por isso que vemos violência em quase todo aglomerado de pessoas.
     E os acidentes de trânsito? Em todo feriado prolongado temos um aumento significativo deles, não importando a época. Porque isso acontece? Pelo aumento do fluxo de veículos (quanto mais carros circulando, estatisticamente é óbvio que aumentarão os acidentes), pelos imprudentes que querem mostrar habilidades em alta velocidade, pelos irresponsáveis que dirigem embriagados, pelos menores que pegam no volante... É culpa da festa propriamente dita? O mesmo raciocínio aplica-se ao consumo de drogas, que aumenta quando pessoas se reúnem em dias de folga dos estudos ou do trabalho. Mas vale citar um possível mito, que é a velha história de que no carnaval há aumento das relações sexuais descompromissadas e desprotegidas, aumentando a incidência de doenças e de gravidez. Porém, um estudo brasileiro, realizado no Rio de Janeiro (uma dissertação de doutorado na Universidade Federal Fluminense - a qual conheço de perto, ou melhor, de dentro, e por isso confio), analisou se essa afirmação é verdadeira e aparentemente, é falsa. A pesquisa foi realizada de 1993 a 2005 no setor de doenças sexualmente transmissíveis (DST) da universidade, considerado uma referência nacional na área, analisando 3 doenças cujo desenvolvimento tem períodos bem definidos, em mais de 11 mil pacientes. A conclusão foi que o Carnaval não influencia no aumento das DST. Aliado a isso, foram analisados se os partos e abortamentos também aumentariam nesse período, o que não se confirmou. Aparentemente o mês em que mais mulheres engravidam é Agosto. O que estou dizendo aqui não é que no período de carnaval as pessoas fazem menos sexo e sim, que, mesmo que porventura façam mais, as campanhas de conscientização do sexo seguro podem estar sendo efetivas (apesar do esforço da maioria dos segmentos cristãos para combater essas ações).
     Pessoalmente não me sindo atraído pelo carnaval (confesso que o que mais me agrada nessa época são os feriados), mas não procuro argumentos “espirituais” ou descontextualizações bíblicas para condenar a festa. Não fico tentando convencer ninguém das minhas preferências. Claro que reconheço e repudio a imagem que muitas vezes é criada do Brasil no exterior, em relação a turismo sexual, que talvez seja ainda mais intenso nessa época; repudio os milhões de reais gastos (inclusive com financiamento público) nessas festas, enquanto pessoas morrem de fome e de sede; repudio os excessos cometidos em relação às drogas e ao sexo irresponsável... Porém não faço disso um pacote fechado para julgar superficialmente e tolamente, jogando tudo o que é relacionado a isso no lixo. Ao contrário, desejo que todos desenvolvam um senso crítico e usem a razão, a inteligência para separar o que é louvável do que é reprovável.
      O que cada pessoa (inclusive cristãos) deveria fazer, na minha opinião? Aproveitar o feriado, a data festiva. Passar agradáveis momentos com as pessoas amadas. Onde e como? Isso depende de cada um, da consciência e da preferência que possui. Como aprendemos com uma fé cristã sadia, as pessoas devem ter equilíbrio em tudo. Evitar festas repletas de excessos é prudente e se onde estiver ocorrer algo nada sadio, mantenha a moderação. Como em toda festa e época, encontrará coisas boas, diversão e expressão de criatividade e arte, mas também encontrará coisas ruins. Saiba avaliar tudo e só acatar o que é bom. Fuja do que é mau, não por medo de inferno ou por ser “pecado”, mas porque sua consciência é outra, seus desejos priorizam aquilo que traz vida, o que edifica, o que traz paz e alegria. Não coloque sua vida, família ou relacionamento em risco por causa de algumas horas de diversão irresponsável. Não é porque porventura ficará rodeado por pessoas sem escrúpulos que irá cometer excessos ou imoralidades. Seja adulto e maduro. Mas também acho válido dizer: não seja tolo de criar essas bobagens missionárias carnavalescas, dizendo que irá pra folia a fim de evangelizar. Ninguém está lá disposto a ouvir isso. Há momentos mais apropriados. As pessoas estão nos blocos ou qualquer tipo de festa para se divertirem e você ir lá “evangelizar” será visto como inconveniente, no máximo. O que vejo é que muitos usam essa desculpa para poderem participar indiretamente, mas com uma suposta “missão ou cobertura divina”. Não precisa disso, gente. Se a festa é “inofensiva” e deseja ir, assuma a responsabilidade e vá. Se é algo que faz mal à “alma” de qualquer pessoa, não vá. De qualquer forma, tenha uma consciência sólida e esteja sempre pronto para ajudar, ao invés de julgar, aqueles que por qualquer motivo precisem do seu auxílio nessa época. Seja sal; seja luz.

I Coríntios 6:12 = "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine."

Romanos 14:14 = “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.”

Autor: Wésley de Sousa Câmara
(Fev 2016)

Referência:
http://www.noticias.uff.br/noticias/2008/01/dst-carnaval.php
07/02/2016

17 de fev de 2017

O cristão e o tabu da masturbação


     Posso me masturbar sendo cristão? Há alguma compatibilidade da fé cristã com essa conduta tão frequente em nosso meio? Teria algum trecho da bíblia algo a dizer sobre essa questão? É pecado?
     Pois bem. Algo que facilitaria muito a discussão desse tema seria se você, leitor, tivesse em mente exatamente a profundidade do conceito da palavra “Pecado”. Para isso, recomendo que leia com calma o seguinte estudo: "Pecado: estudo completo". O que lá é explicado é que “Pecado” não é meramente o que faço; pecado é o que sou (é minha natureza, minha tendência). O que faço é um sintoma (consequência) que denuncia minha doença (o que sou). Durante toda minha vida serei um pecador, antes ou depois da conversão (minha natureza é pecaminosa e tende a se afastar de Deus), mas sou contado como justo (justificado) em Cristo e os frutos do Espírito crescem em mim. Aliás, só peco por ser um pecador (e não, o contrário). Então, como tenho essa natureza, essa "doença" (que teve sua cura decretada na Cruz, com a promessa de que um dia ela será completamente removida de mim), até quando faço o bem, analisando a fundo, é um pecado meu, pois o bem que parte de alguém mau como eu, é mal. O profeta disse que nossa justiça não passa de "trapo de imundície". Entenda: "não pecar" significa ser perfeito, mas a perfeição humana (aos nossos olhos) é nada perante Deus. E essa distância entre o que somos e o que deveríamos ser (perfeita imagem e semelhança de Deus) é o que nos afasta (na verdade, "afastava") de Deus; é o pecado, e foi isso que Jesus resolveu na Cruz. Não significa que por causa da cruz deixamos de ser pecadores, mas Ele nos religou a Deus por Graça, a fim de que Deus não se relacionasse conosco com base em nossa imperfeição (pecado) e sim, com base no Seu amor. Nunca não estou em pecado... O que aprendemos é a não nos entregarmos ao pecado, a não sermos dominados por ele, a não viver pecaminosamente, ou seja, a não mergulharmos deliberadamente na imoralidade, pois, como somos pecadores, a tendência é que predominantemente façamos o mal. Mas Jesus nos ensina a lutar contra isso, a resistir, a não viver assim, pois essa entrega é destruição total do nosso ser. É Jesus nos dizendo o tempo todo: "Está perdoado, vá e não peques mais", ou seja, "vá e não continue nessa vida tola e de engano, criatura, senão lhe acontecerá muitas coisas ruins"...

    Em primeiro lugar devemos saber que o sexo é natural no ser humano. O prazer sexual não é do diabo, nem anormal. Foi Deus quem nos deu para que usufruíssemos da melhor forma. Deveria ser algo tão normal quanto se alimentar ou urinar. O sexo é a satisfação de uma necessidade fisiológica, com o diferencial que essa necessidade nos dá o maior nível possível de prazer (muito maior do que qualquer chocolate, do que dormir, do que aquele suco geladinho...).
     A religião costuma demonizar algumas atitudes, como a masturbação, como se fosse uma blasfêmia contra Deus. Isso tem uma origem lá nos primeiros séculos da era cristã, pois muitos líderes cristãos tratavam o desejo e os atos sexuais como coisas impuras. Nós herdamos essa ideia, infelizmente. Mas a questão é (para tudo na vida):
      Qual o parâmetro absoluto para avaliar tudo e todos? Como sei o que é certo e o que é errado? Como decido se devo ou não agir de uma determinada forma ou se devo ou não tomar determinada decisão? Para os genuínos cristãos só há uma resposta: Devo olhar para Jesus, que é o único parâmetro perfeito e absoluto. A cultura, a sociedade, os costumes, as tradições, as religiões, a ciência, os conceitos éticos e morais evoluem, mudam, logo, não podem ser absolutos.
     A fé cristã é baseada no princípio de que há um Deus Criador, Eterno e Soberano, que decidiu entrar na história, revelando-se ao homem na encarnação da pessoa de Jesus Cristo. Essa revelação, essa auto-comunicação de Deus com a Criação foi feita pela chamada “Palavra de Deus”, que é o “Verbo” ou o “Logos” divino. Esse Verbo é o que conhecemos como Jesus. Por isso, em João 1 lemos: “O Verbo/Palavra estava com Deus e esse Verbo era Deus... O Verbo se fez carne e habitou entre nós...”. Ou seja: Jesus é Deus vivendo como homem, por isso Ele é o parâmetro absoluto (já que só Deus é absoluto, por definição). Sendo assim, diante tudo o que você faz, pergunte: "isso é compatível com os ensinos e atitudes de Jesus"?
     Jesus baseou toda sua vida nos princípios: ame a Deus e ame ao próximo. Então pense: o fato de você se masturbar diminui sua fé em Jesus? É incompatível com Ele? Abala seu amor a Deus? Isso prejudica seu próximo? Se a resposta é "sim", você deve lutar para abandonar tal conduta, pois ela não é o ideal de Deus pra sua vida. Se a resposta é "não", fique em paz e seja feliz. Continue amando a Deus e seu próximo (mesmo na sua limitação), fazendo o bem... Porém, claro, a religião tem suas regras moralistas e se quer ficar bem perante ela, terá que abrir mão (literalmente - perdoe-me a piada) de muita coisa ou, pelo menos, não tornar público atitudes que ela condena.

     Esse assunto me faz lembrar um caso que minha esposa conta, de que há muitos anos, quando foi a um zoológico em São Paulo, deparou-se com um macaco que se masturbava bem tranquilo, enquanto a multidão ria da cena... Isso mostra que o desejo sexual que leva à masturbação não depende de pornografia, de estímulos visuais provocados pela mídia, por exemplo (como alguns alegam). Até os animais irracionais, por instinto, em certas situações, praticam a masturbação.
     A masturbação não representa nenhum problema sexual. Ela é natural em toda pessoa saudável. A questão é que nem todos sentem necessidade de praticá-la, embora a maioria das pessoas, principalmente quando privados de relações sexuais, tem essa carência. É natural em qualquer pessoa normal, que tem hormônios sexuais e uma mente adulta.
     Alguns parágrafos atrás eu afirmei que “não sou pecador porque peco; eu peco por ser um pecador.” Porém alguns que condenam a masturbação por parte de um jovem solteiro, tolamente dizem que a masturbação feita por alguém casado não é pecado, ou pelo menos não seria se essa pessoa estivesse pensando na esposa. Quanta ingenuidade. Por quê? Pois é totalmente incoerente o argumento de que "a masturbação é pecado, pois para praticar o ato pensamos em coisas impuras, como uma mulher/homem que não é nosso (a)". Oras, mas Jesus deixa claro que pecado (como eu disse acima) não é o ato e sim, o próprio desejo, a cobiça ("Se alguém cobiçar a mulher do outro já adulterou com ela"). Ou seja, se masturbação é pecado, já é pecado o desejo de praticá-la. Ter o desejo de se masturbar e, ao invés de praticá-la, “se segurar”, seria pecado da mesma forma, compreende? Em outras palavras, se tem um "pecado" (ato imoral) - e nem estou entrando no mérito se é ou não - não é a masturbação e sim, o pensamento impuro que leva ao desejo de se masturbar. Se vai se masturbar ou não, o pecado precede isso tudo e não será a execução ou a repressão desse desejo que mudará o fato. E lembra da historinha do macaco que contei há pouco? Será que o macaco estava alimentando esses desejos impuros? Mas ele não é irracional? E, se o macaco “não pecou” é uma evidência que o “pecado” (imoralidade) não é o ato em si. No máximo poderia ser sua motivação, certo?
     Há quem diga que a masturbação é pecado por danificar o corpo, que é templo do Espírito Santo, porém os mesmos, hipocritamente, não dizem isso quando comem no Mc Donalds, quando tomam Coca-Cola, quando comem doce ou churrasco, quando deixam de fazer atividade física regular. Ou seja, só distorcem esse texto de Paulo quando lhes é conveniente.

     E mais: Pesquisas mostram que a masturbação (provavelmente):

- Reduz incidência de câncer de próstata (pesquisador Graham Giles - Melbourne, 2003). Não é a masturbação que faria isso e sim o fato de ejacular cerca de 5 vezes por semana, ou seja, relações sexuais também teriam esse efeito.

- A masturbação, ao invés de problemas sexuais, promoveria o auto-conhecimento (do corpo), o que facilita a iniciação sexual. A masturbação não vicia e não traz problemas de ereção. É apenas um “quebra-galho” e qualquer pessoa que a pratica, em condições normais, não sentirá mais necessidade disso quando tiver uma parceira (o) regular. O problema começa quando a pessoa troca suas atividades diárias para ficar se masturbando, mas esse vício pode ocorrer com qualquer outra coisa (bebidas, internet, livros, TV...). E isso sim é doença e necessita de tratamento.

- Masturbação é uma atitude solitária e egoísta APENAS SE o marido deixar a esposa na sala, por exemplo, enquanto ele vai "brincar" no banheiro (ou vice-versa).

- Assim como a fome e a sede tem intensidade variada nas diferentes pessoas, o desejo sexual (que leva à masturbação também tem). Alguns não se masturbam e não sentem falta nenhuma disso. Outros, precisam "aliviar" periodicamente. O que determina essas coisas no homem são fatores psicológicos e bioquímicos, como o famoso hormônio testosterona!

     A menos que diga que precisa se masturbar várias vezes ao dia ou que prefere se masturbar a fazer sexo com seu esposo ou esposa, não há problema algum na masturbação. O fato de ficar excitado diante de um homem ou mulher bonita, com um corpo chamativo, mostra justamente que você é normal, que tem seus hormônios sexuais ativos. Não tem nada de imundo nisso. Como pode ser imundo o desejo e o prazer sexual que Deus mesmo criou lá no início, e como diz o Gênesis: "Deus criou e viu que era bom"? Imundo seria se você cometesse um "abuso sexual" contra essa pessoa, por exemplo.

     Levanto mais uma questão:
- A esposa ou marido sofre um acidente automobilístico e perde a sensibilidade nos órgãos sexuais para o resto da vida. O cônjuge, cristão e muito amoroso, fica ao lado dessa pessoa auxiliando e dando muito amor. Porém, a necessidade sexual existe em qualquer pessoa normal (não venha citar exceções a fim de criar uma regra). Assim, o que fazer? Viver angustiado, “subindo pelas paredes”, sem ter prazer sexual? Masturbar-se para aliviar e “quebrar o galho”? Arrumar outro companheiro e acabar com a dificuldade? Viu como não é simples? E se em qualquer contexto o ato for aceitável é a prova que o “pecado” não está no ato em si e sim, na sua motivação.

     O problema é que as questões sexuais são tabu no meio cristão. As pessoas fogem do assunto e adotam por comodidade uma posição supostamente moralista e não condizente com a realidade. Não questionam e apenas seguem a maioria. Porém esquecem que os discípulos e Jesus nunca foram maioria. O povo de Deus sempre andou às margens, então não é porque um grupo cristão (que tornaria dominante) definiu há séculos que essas questões sexuais são repugnantes, que realmente são. Vamos tratá-las com naturalidade e maturidade, como todo os demais assuntos.
     Vou destacar em outras palavras o que já afirmei: sua salvação nunca estará em jogo. Pecado não é o que você faz e sim, o que você é. Você é pecador até quando se acha o mais santo do mundo. Pecado é a distância que estamos da perfeição (que seria cumprir a Lei divina). O que fazemos de imoralidade são apenas evidências de que somos pecadores, de forma que ninguém de nós realmente merece salvação. Mas é justamente pra isso que há a Cruz, o Evangelho: é o anúncio de salvação por Graça (sem merecimento), apesar do que somos. Não ache que sua suposta abstinência em atos sexuais lhe salva. Isso é uma tola ilusão. Sua salvação está nos méritos de Cristo. E Jesus deixou claro que “adúlteros” somos todos nós. Ele diz que adultério não é o fato de ir pra cama com uma mulher e sim, algo dentro de nós que já se manifesta no nosso desejo. O mesmo vale para a masturbação. Se há um “pecado” não é o ato e sim, o desejo por trás do ato. Só quando entende que não importa o quanto tente, sempre será igualmente pecador, é que se dobrará aos pés da Cruz, reconhecendo que é um pecador carente da Graça de Deus.
     Enquanto isso não ficar claro, haverá em você uma imensa culpa e medo por ser quem e como você é. Muitos tem culpa por ser normal. Isso mesmo. O problema dos ensinos repressivos sem fundamento implantados em nossa mente é justamente esse: gera um sofrimento enorme, crescente , como uma bola de neve, que aumenta a cada dia. Quanto mais achar que o desejo sexual é impuro e pecaminoso, mais medo e culpa terá, além de que mais desejo reprimido haverá em você (gerando problemas psicológicos e até físicos, pois nosso corpo tem a capacidade de produzir doença orgânica através de conflitos não resolvidos, "somatizando" no corpo uma "doença da alma/mente").

     Conclusão: não tenho nada contra a masturbação, seja a masturbação feita pelo marido/esposa no cônjuge, seja a feita por uma mulher ou homem, sejam eles casados ou solteiros. Fico feliz em saber que um garoto ou garota de 16 anos está tendo vontade de se masturbar, pois isso evidencia que são saudáveis e sem traumas. Serei contra uma pessoa que deixa de ter relações sexuais com o parceiro para se masturbar. Isso sim não é normal e carece de ajuda profissional. E também não apoio uma masturbação exagerada (várias vezes ao dia), pois isso evidencia um transtorno que deve ser tratado por um profissional. Mas com equilíbrio e moderação, Deus nos deu nossos corpos e nosso desejo sexual para que possamos usufruir com naturalidade e responsabilidade. Sem culpas e sem medo.
     E se você tem muito desejo em se masturbar e tem uma companheira (o), fica uma dica: converse com seu cônjuge. Una o útil ao agradável. Se ama a pessoa, se gosta de fazer sexo com ela (e) e gosta de se masturbar, façam isso juntos. Se ela (e) gostar, masturbe-a e ela também fará o mesmo em você. Tudo o que é consentido e feito com respeito e amor ao próximo é "de Deus". E tudo que não envolve amor, carinho e respeito, mesmo sendo feito em um casamento aparentemente bonito ou com o apoio da religião, é "contra a vontade de Deus”.
     Deixe de querer procurar versículos bíblicos que dariam apoio ou condenariam a masturbação, pois isso seria desonestidade intelectual de sua parte. Seja honesto consigo mesmo. Respeite a bíblia. Não faça ela assumir uma posição ou papel que ela não tem. Olhe para Jesus, pense de forma ampla, contextualize tudo e avalie o que é bom, o que convém, o que traz bons frutos. E entenda que cada um deve analisar a si mesmo. Não queira impor aos outros a sua consciência, nem para defender, nem para proibir.
     E saiba: é melhor você ocupar suas mãos com a masturbação do que ocupá-las com pedras, que você costuma lançar no seu próximo toda vez que o julga e que o acusa. Jesus nunca falou nada sobre quem se masturba, mas censurou os que apedrejam. Então use suas mãos para algo menos prejudicial ao seu semelhante, que você deve procurar amar como ama a si mesmo. Masturbando-se, o único afetado será você. Deixando de estender as mãos a quem precisa do seu apoio ou atirando pedras, você estará afetando outros. Então, mais do que um suposto “pudor”, tenha amor.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
17/02/2017

5 de fev de 2017

Fontes não confiáveis na internet


     Nenhum cristão foge de uma tradição e de uma teologia, mesmo que na teoria ingenuamente rejeite esses termos. Isso mesmo! Todo mundo segue (querendo ou não, sabendo disso ou não) uma tradição teológica. Com um mínimo de esforço encontraremos que aquilo que defendemos e que chamamos de "evangelho puro e simples de Jesus" não tem nada de puro ou de simples e em algum momento nesses mais de 2 mil anos de história cristã o que cremos já foi defendido por alguém e quase sempre essa compreensão tem até um nome.
     Basta observar que há cristãos que defendem compreensões muito diferentes sobre esses pontos diversos e todos dizem seguir o "evangelho puro de Jesus". Oxi. Como assim? Então os que dizem "não seguir teologia nenhuma" deveriam concordar 100% entre si, já que defendem supostamente a "pureza e simplicidade de Jesus", certo?
     Infelizmente algumas teorias conspiratórias e alguns radicalismos tem se tornado moda nessa geração atual. A internet facilita encontrarmos muita coisa de qualidade, mas também nos submete a informações e ideias absurdas, tolas, infantis, falsas, que por sinal são maioria nas redes sociais, Youtube, blogs...
     Por isso insisto que devemos sempre analisar as fontes que usamos para ler e estudar, pois quase sempre, quando ouço alguns absurdos e pergunto de onde veio aquela ideia, as referências são pessoas que não são reconhecidas internacionalmente como autoridades no assunto. Aí fica difícil... Melhor ler e ver pouca coisa, mas de qualidade (e dificilmente achará isso vindo de autores brasileiros, pois somos teologicamente "bebês" perto de outros países), do que encher os olhos e ouvidos de bobagens.
     "Ah, mas quem é você pra dizer isso se você é um 'Zé Ruela'?" - dirão alguns. A esses respondo: "Sim, sou um Zé ruela, assumo, e justamente por esse motivo vou atrás de fontes respeitadas e confiáveis para aprender e não, atrás de fontes provenientes de outros Zé Ruelas como eu". Rsrs Sugiro que todos façam o mesmo. Fica a dica!

Autor: Wésley de Sousa Câmara
05/02/2017

18 de dez de 2016

Deus agindo no voo da Chapecoense?


     Ontem fiquei muito feliz em ver o Alan Ruschel, sobrevivente do "voo da Chapecoense", dando entrevista. Cada vida que continua após um acidente tão grave nos enche de alegria. Porém quero registrar aqui meu desapontamento com a visão dele do ocorrido.
     Emocionado, Alan disse:

"No momento que caiu aquele avião, Deus me pegou no colo e falou que eu tinha mais missão aqui na terra, por isso ele não me levou. A única explicação, são dois milagres: eu estar vivo e o milagre de eu poder estar andando. Os médicos falaram que foi uma lesão grave que eu tive na coluna. Poder estar andando, é milagre de Deus."

     Diante disso penso: Se foi milagre divino a sobrevivência dele, por que o Deus todo poderoso não estendeu o milagre, impedindo a queda do avião, poupando mais 70 vidas? Será que os que morreram não tinham mais nenhuma "missão" aqui na terra? Será que o filho do Tiaguinho, por exemplo, que ainda nem nasceu, não seria uma boa missão para seu falecido pai ajudá-lo a crescer como uma pessoa amada e de bem? Será que o goleiro Follmann, outro sobrevivente da tragédia, que teve que amputar a perna, não foi digno de receber também um "milagre maior" para continuar andando? Qual seria o critério usado para definir quem receberá o "milagre maior", o "milagre menor" e a ausência de milagre? Se tenho fé? Claro. Mas não uma fé ingênua e cega para questões incoerentes e contraditórias.
     Alguns alegam que isso que o atleta relatou foi uma experiência pessoal e isso é incontestável. Porém conheço vários relatos de experiências pessoais absurdas, algumas contraditórias entre si e mutuamente excludentes, ou seja, se uma foi real, a outra não pode ser. Ah, mas todas as pessoas garantem que as tiveram. Contudo, o problema não para por aí. E se formos falar que em praticamente todas as religiões pessoas relatam ter experiências pessoais com suas divindades ou entidades? Pelo raciocínio dos que dizem ser incontestáveis, todas estão corretas. Então, deixem a hipocrisia de lado e assumam o politeísmo!
     É lamentável essa religião popular que impera em nosso meio, que gera uma espiritualidade baseada nos sentimentos e emoções. Os mesmos que adoram citar diversas passagens bíblicas de profetas que lhes convém, por exemplo, pulam a parte em que o profeta Jeremias derruba essa espiritualidade do "sentir/experiência pessoal", ao dizer que "enganoso é o nosso coração". O que uma pessoa sente ou não tem a ver com sua mente, com suas predisposições, crenças, estado emocional de momento. Imagine, por exemplo, a fragilidade emocional de um dos poucos sobreviventes de um avião que caiu. É compreensível que ele diga que sentiu (ou que sente) que Deus o pegou nos braços para livrá-lo da morte (sendo que essa pessoa, por estar abalada, não percebe que isso seria maldade divina contra os que morreram, pois Deus poderia salvá-los também e não o fez). Na verdade, seria compreensível até se esse sobrevivente dissesse que viu os Teletubbies lutando contra o Jaspion durante o acidente.
     Imagino alguém criando uma nova religião e dizendo: "senti e Deus me revelou que vocês devem me doar 100 mil reais pra eu fazer a obra dEle". Seja sincero: você dirá que isso é incontestável ou vai duvidar do "sentir" desse picareta? Outro exemplo: imagine eu estacionando o carro em frente a uma "boca de fumo" e quando volto o carro não está mais lá. Então digo que sinto que o carro foi arrebatado por anjos ou ETs ao céu. Você questionará racionalmente o que eu disse (dizendo que muito mais óbvio e coerente é entender isso como um roubo feito por bandidos) ou vai realmente acreditar no meu sentir? Todos usamos a racionalidade 24 horas por dia. E no caso do avião da Chapecoense, por exemplo, fica óbvio que os sobreviventes estavam naquela parte do avião que foi menos destruída e/ou que eram comissários de bordo que seguiram protocolos de segurança. Não é que Deus escolheu meia dúzia entre os mais de 70 pra salvar da morte. Não é que Deus escolheu alguns dessa meia dúzia pra saírem praticamente ilesos e outros pra ter uma amputação de perna ou lesões sérias na face. Porém, às vezes nossa espiritualidade cega nos faz abrir mão da razão pra defender coisas extremamente improváveis e sem sentido.
     Repeito cada pessoa que discorda da minha opinião (embora eu não respeite a opinião dessas pessoas). Não fico perdendo tempo debatendo contra "fundamentalistas", pois com eles a gente entra num debate já com a derrota garantida. Afinal, quem discorda do fundamentalista será visto por ele como alguém que "crê num Deus diferente do da bíblia". O fundamentalista sempre tem razão, pois ele não está sujeito à interpretações, à limitações que todo ser humano tem (ironia)... O que ele crê sempre será o "evangelho puro e simples" (novamente, ironia), afinal ele crê não em algo sujeito a contextos e sua capacidade de interpretação da bíblia, e sim, que Deus o escolheu a dedo para revelar a ele a bíblia e a realidade exatamente como ela é. Essa pessoa não assume, mas se considera um "deusinho" na Terra. Então, com ela não tem nem como pensar em discutir.

Autor: Wésley de Sousa Câmara