1 de ago de 2010

Qual a melhor tradução da bíblia?

     Este tema foi colocado em pauta através de comentários de um querido irmão e leitor deste blog, em uma de minhas postagens, o que me levou a escrever sobre o assunto, expondo a minha opinião. Darei inicialmente a resposta e a explicação virá em seguida.
     Digo que a melhor tradução, para o português, da bíblia é: nenhuma e, ao mesmo tempo, todas! Explicarei o por quê.
     Antes de tudo, devemos ter em mente os conceitos de "melhor" e de "pior". São expressões relativas, variáveis e dependem de um contexto. A pergunta a ser feita é: Qual é melhor (ou pior) tradução para a minha abordagem? O motivo é simples: depende da razão que o leva à leitura. Para uma recitação em público, por exemplo, determinada bíblia pode ser ótima, mas, para um estudo bíblico, horrível!
     Uma vez definida a finalidade a que a bíblia será destinada, tem início a parte mais complicada: escolher uma entre as inúmeras traduções disponíveis no mercado.
     A diferença mais profunda entre elas, porém a menos visível para os leitores, está nos manuscritos utilizados para a tradução. Duas origens serão destacadas: o Textus Receptus e o Texto Crítico.
     O Textus Receptus (TR) ou Bizantino foi organizado inicialmente pelo filósofo e humanista holandês Erasmo de Rotterdam, em 1516. Foi criado a partir de seis manuscritos, que não continham a totalidade do Novo Testamento e feito às pressas para se antecipar à "Biblia Poliglota Complutense", que estava prestes a ser lançada na Espanha. Tamanha era a impaciência, que inúmeros erros de impressão foram cometidos (porém foram corrigidos nas edições posteriores). Rotterdam teve que traduzir textos da Vulgata para completar o Apocalipse de João, pois seus manuscritos não tinham o texto completo. Alterou também vários pontos do texto grego para que fosse correspondente à Vulgata ou às citações dos Pais da Igreja. Vale considerar também que os seis manuscritos usados no Textus Receptus datam do sec XII ou são, ainda, posteriores. Boa parte dos estudiosos considera o texto de Erasmo de qualidade duvidosa. Porém, é dele que se originam a maior parte das traduções disponíveis no Brasil.
     O Texto Crítico (TC) ou Alexandrino foi organizado por Westcott e Hort no século XIX e apresenta inúmeras omissões de palavras e expressões em relação ao TR. Isso acontece porque partem da premissa que o texto mais antigo (portanto, mais confiável) é aquele mais curto. Já o TR considera o número de cópias como indicativo de confiabilidade (quanto mais cópias, maior a aceitação). Além disso, o TC tem um número menor de manuscritos que o corroboram, porém deixa claro em suas traduções (coloca entre colchetes) os trechos duvidosos, como aqueles de difícil tradução, devido à degradação pelo tempo.
     Portanto, diante dos vários problemas enfrentados pelas duas linhagens, qual seria a mais confiável?
     Novamente é impossível responder categoricamente. Como partem de premissas diferentes, jamais se chegará a um consenso. É unicamente uma questão de ponto de vista e de opinião, pois ambos possuem argumentos a seu favor. Para justificar o TR, pode-se dizer que o fato de os manuscritos existentes serem mais recentes significa que tiveram de ser reescritos, pois pereceram pelo uso, ou seja, a Igreja Primitiva dava preferência a seus textos. Além disso, as escrituras Bizantinas são mais enfáticas nas suas doutrinas. Apoiando o TC, tem-se o fato de que, embora a sua organização tenha ocorrido há menos tempo, seus textos (os conteúdos) são mais antigos (segundo a premissa de Westcott e Hort), portanto, mais próximos dos originais.
     Superada essa discussão infindável, surge o próximo problema: as bíblias podem ter uma tradução de equivalência formal (literal), dinâmica ou mista (formal e dinâmica ao mesmo tempo).
     A versão formal é indicada para estudos bíblicos, pois possui uma tradução literal, fiel, de palavra por palavra, mas que dificulta a leitura de alguns textos. Há também a impossibilidade de traduzir para o português muitas palavras e expressões da língua original, que não existem na nossa cultura. Exemplo dessa versão: Almeida Corrigida Fiel.
     A versão dinâmica não fica excessivamente presa ao texto original, sendo mais fácil de ser lida, já que os tradutores estão mais livres para traduzir as palavras para o português atual. A ênfase é dada na tradução das idéias, ou seja, no que o autor pretendia dizer e não, na palavra utilizada. Porém, deve-se tomar cuidado com as possíveis influências do tradutor nas idéias teológicas. É indicada para leitura cotidiana e para exclarecimentos de dúvidas sobre outras versões. Exemplo: Bíblia de Jerusalém.
     A versão mista busca um equilíbrio entre as duas versões anteriores. Tem a vantagem de tentar mesclar os pontos positivos de ambas, porém a desvantagem de acumular os problemas das demais. Exemplo: Nova Versão Internacional.
     Vale citar também outras opções, que não são meras traduções, mas, paráfrases. Apresentam uma linguagem informal, de facílimo entendimento. São indicadas para crianças, jovens ou pessoas que possuem dificuldade de interpretação de textos. São úteis também para estimular a leitura de indivíduos que não costumam ler a bíblia. Um bom exemplo é a "Bíblia A Mensagem".
     Particularmente, adoto (como base) três bíblias, tanto para leitura quanto para estudo. São as que considero mais fiéis (dentro do que propõem suas linhagens): a Almeida Corrigida (e Revisada) Fiel (baseada no Textus Receptus, com tradução de equivalência formal), a Bíblia de Jerusalém (tradução de equivalência dinâmica), que, embora seja baseada no Texto Crítico, apresenta a maior parte das omissões propostas por Westcott e Hort. Essas "omissões originais" são colocadas entre colchetes, com uma posterior observação ou são inseridas normalmente nos livros, com uma nota de rodapé na página.  A Bíblia de Jerusalém, por ser ecumênica, apresenta os livros considerados apócrifos pelos protestantes e, além disso, as notas presentes nos rodapés de todas as páginas são atuais, baseadas em estudos recentes. A terceira é uma tradução que conheci depois dessas duas e que também me agradou muito: a versão "King James".
     Entendo que todas as versões tem sua importância e devemos ler sempre mais de uma, comparando-as e analisando as divergências que possam surgir. Muitas pessoas já foram resgatadas desse mundo através de traduções que muitos julgam ser satânicas ou, no mínimo, deturpadas. Não defendo os erros existentes, porém, como vimos, não é possível afirmar categoricamente que uma linhagem é a perfeita e outra é demoníaca ou não inspirada por Deus. Devemos ter uma mente ampla e aberta para examinar tudo e reter o que é bom.
     Alguns contam uma história sobre o evangelista protestante Billy Graham. Não posso garantir que tenha ocorrido, mas é interessante. De acordo com esse relato, certa vez lhe perguntaram: "Qual é a melhor Bíblia?" Ele respondeu: "é a que você lê".
     Terminarei deixando um trecho da bíblia para meditação. Para todos os efeitos, vale destacar que é da tradução Almeida Corrigida e Revisada Fiel: “Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade; uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda”. (Filipenses 1:15-18).

Autor: Wésley de Sousa Câmara

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