5 de nov de 2010

Abra a sua carteira para “deus”!


     Em outro texto (“Lei do dízimo. Isso mesmo: Lei!”) discutimos várias questões acerca do dízimo, mostrando que não é um mandamento atual. Porém uma dúvida ainda persiste: e as ofertas nas igrejas? É correto pedir? Temos que dar? Há um valor estabelecido? Quanto mais entregar, mais receberei (lei da semeadura)? Enfim, são inúmeras as perguntas que surgem em relação a esses assuntos financeiros. Então, vamos analisar o tema.
     Em Êxodo 35:29 e Esdras 2:68 observamos a presença de ofertas voluntárias. Algumas palavras de Cristo, sobre o dinheiro, também chamam a atenção:
- Jesus diz ao jovem rico (Marcos 10:29,30) que todo aquele que deixar tudo (dinheiro, casa, família) por amor ao Evangelho, receberá cem vezes mais nesta vida, além da vida eterna. Observe que não é deixar tudo com o intuito de receber algo maior em troca. É por amor!
- Jesus observou as pessoas trazendo dinheiro à arca do tesouro (pois a Lei ainda estava em vigor, sendo encerrada apenas com a morte de Cristo). Elogiou ainda a pobre viúva, que deu até o que não poderia dar (Marcos 12:41-44). Mas qual o motivo do elogio? Simples: todas as vezes que vemos o incentivo bíblico às ofertas, as razões são explícitas: a caridade com os pobres ou o amor ao Evangelho. Não importa o valor. As poucas moedinhas que ela deu, eram importantes em sua vida. Foi uma doação em que reconheceu que outras pessoas precisavam tanto quanto ela. Observe também que ninguém pediu, foi um ato de amor, sem esperar nada em troca.
- Jesus disse aos 70 (ou 72) discípulos que digno é o obreiro do seu salário (Lucas 10:7). Porém veja o contexto: o salário não era dinheiro, era o alimento e a pousada que as pessoas dariam a eles. Ou seja, o viver do Evangelho, que Paulo também defendia (I Coríntios 9:14; II Coríntios 11:8) não previa mansões, carros importados (ou carruagens) e altos salários. Será que as igrejas atuais estão de acordo com esses ensinos? Com as facilidades da nossa época, trabalhar na obra de Deus tornou-se uma rentável
profissão, infelizmente.
     Paulo considerava muito importante a ajuda mútua entre os irmãos de diferentes locais, pois, além de exercitarem a caridade, mostravam a unidade da Igreja. Exemplos podem ser vistos em Atos 11:29; 24:17 e Romanos 15:26, em que os irmãos em dificuldades financeiras eram ajudados por outros cristãos. Ou seja, a idéia sempre foi amar o próximo e ajudar o pobre.
     Os defensores do “entregue seu dinheiro para ‘deus’” se apegam principalmente aos seguintes textos, que são os pilares da famosa lei da semeadura (que não é o tema deste texto): Gálatas 6:2-10; II Coríntios 9:7; Lucas 6:38. Mas vejam que o contexto dos dois primeiros textos são auto-explicativos. Colhemos o que plantamos e essa plantação é a caridade com todos, principalmente com os nossos irmãos de fé (exatamente as mesmas idéias descritas no parágrafo anterior). Deus não é bolsa de valores para se investir. Cada um luta para conquistar o que almeja e aqueles que obtém sucesso devem ajudar o pobre, a viúva e o necessitado (essa é a verdadeira semeadura financeira). Quando ajudamos o pobre, estamos dando a Deus (Provérbios 19:17). A salvação para os nossos problemas econômicos está no nosso suor. Deus nos dá a salvação da alma. Precisa mais do que isso? 

“Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” (II Coríntios 8:9)

     Qual foi a riqueza que recebemos? Bens materiais? Não! Foi o perdão de Deus e a vida eterna. Não estou dizendo que não podemos ter dinheiro, mas isso depende do nosso esforço. Deus não fará colher quem não plantar, ou seja, ele “ajuda quem cedo madruga”. Ele nos dando capacidade física e intelectual para estudarmos e trabalharmos não seria a oportunidade de conseguirmos o “famoso 100 vezes mais”? Além disso, o amor ao dinheiro é condenável. Muitos ignoram a Deus e só se lembram dEle quando estão no “fundo do poço”. É só observar o número de pessoas nas igrejas, que cresce acentuadamente em momentos de crise econômica.

“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.” (I Timóteo 6:10,11).

     Deus não é Robin Hood, pra tomar do rico e dar ao pobre. Se assim fosse, não haveria cristão necessitado. A nossa herança é espiritual, no céu. As ações materiais cabem a nós, dando água a quem tem sede, pão a quem tem fome, hospedando o estrangeiro, vestindo o carente e visitando o doente (Mateus 25:34-40). Jesus nos mostra, através da oração do “Pai Nosso”, o que precisamos pedir: “o pão nosso de cada dia nos dá hoje”. O que for além disso, materialmente, é supérfluo e puramente humano.
     Sempre que a bíblia fala em Igreja, refere-se ao grupo de cristãos que adoravam e serviam a Deus. Não se tratava de nenhuma instituição organizada e hierarquizada. Todas as igrejas (Corínto, Éfeso...) eram a mesma Igreja, apenas com cristãos reunidos em lugares diferentes. Assim, as contribuições (voluntárias e de acordo com os bens de cada um – II Coríntios 9:7) eram para o auxílio na divulgação do Evangelho (II Coríntios 11:8) e para ajudar os próprios irmãos necessitados, não importando a cidade em que moravam, já que todos pertenciam ao mesmo corpo, sem divisões. Não existia a igreja de Pedro, nem a de Paulo; não tinham luxuosos carros e templos para darem gastos desnecessários; não havia uma igreja em cada esquina; era inexistente o orgulho de querer ter um programa em um canal com boa audiência, em horários nobres, para mostrar que tem mais poder do que a igreja “concorrente”. Talvez esse seja o motivo de atualmente “sugarem” o salário daqueles que lutam o ano todo para sustentar sua família.
     Nossa missão na Terra é servir a Deus e ganhar almas para o Reino. O objetivo do cristão não é construir grandes catedrais (já que Deus não habita em templos feitos por mãos de homens). Não devemos competir com a igreja X, para mostrar que temos mais membros ou mais influência na sociedade. Se estivéssemos todos na direção de Deus, sequer existiriam denominações. Seríamos um só povo (assim como somos um só corpo), professando uma só fé. Não haveria gastos estratosféricos com construções de igrejas, com contas de água e de energia elétrica. Os recursos que fossem necessários (para a manutenção dos locais de reuniões, para o auxílio aos necessitados e para aqueles que trabalham exclusivamente na propagação do evangelho) viriam dos verdadeiros cristãos, que ajudariam por amor, sem carnês e envelopes nomeados (Mateus 6:3), sem falsas promessas e ameaças, pois todos saberiam que o foco de tudo seria as almas e não, as disputas (mesmo que não assumidas) entre as diferentes denominações.
     Porém, como existe essa infinidade de igrejas e seria impossível acabar com toda essa confusão (pelo menos enquanto os cristãos não compreendessem o verdadeiro significado de “Igreja”), devemos manter uma comunhão com os irmãos, seja na igreja X, Y ou em reuniões independentes. Se estivermos servindo a Deus de coração, não negaremos ajuda a essa instituição, pois reconheceremos que para manter um templo (mesmo não sendo nos padrões que deveria) existem gastos. Mas o que não podemos aceitar são as inúmeras ofertas pedidas (sem falar nos dízimos). São contribuições para tudo quanto é assunto. Até mesmo o pobrezinho, que mal consegue sobreviver com seu salário mínimo, é incentivado (para não dizer forçado) a deixar dinheiro na igreja. Justamente aquele que deveria ser ajudado está deixando de pagar as suas contas, causando escândalos aos incrédulos, por causa de distorções bíblicas.
          O Novo Testamento não promete conforto, nem riquezas (Joao 16:33); Jesus não era rico materialmente (Lucas 9:58); Pedro era um pescador (Mateus 4:18) que não tinha dinheiro, mas tinha o poder de Deus (Atos 3:6). Os discípulos passaram fome (I Coríntios 4:11,12). Contribuir na esperança de receber muito mais em troca (como prega a lei da semeadura) é um erro grotesco. É impossível aplicar o “golpe do baú” em Deus. Ele conhece os nossos corações. A nossa oferta deve ser voluntária e com alegria.  Quem tiver o amor de Deus no coração irá contribuir (desde que tenha condições financeiras) para facilitar a divulgação da mensagem cristã, para ajudar os necessitados e para manter aqueles que “vivem do Evangelho”. Se o Senhor quiser nos recompensar com algo, amém. Se não, amém também. Salomão recebeu riquezas de Deus, mas nunca pediu. O que queria era sabedoria. Isso nos mostra que o Senhor pode nos dar muito mais do que pedimos ou merecemos. Na graça, não pagamos para receber e sim, recebemos sem merecer.

Autor: Wésley de Sousa Câmara


Referências:
Bíblia Almeida Corrigida e Revisada Fiel
Bíblia de Jerusalém 

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