28 de dez de 2010

A $emeadura financeira


     A lei da semeadura é um tema polêmico, ou nem tanto, visto que, atualmente, a massacrante maioria das pessoas concorda em um ponto: é uma semeadura financeira! Porém, não me incluo nesse grupo majoritário e sempre digo que a verdadeira semente não é o dinheiro! Acredito, sim, que Deus abençoa espiritualmente e, ocasionalmente, até concede bênçãos materiais, mas esse não é o foco da real semeadura. No texto “Abra a sua carteira para ‘deus’!” já comentamos um pouco sobre o assunto, mas neste, falaremos um pouco mais.
     Sabemos que os textos-base dessa doutrina estão em Gálatas 6:2-10; Lucas 6:38 e II Coríntios 9:6. Mas vejam que o contexto do texto citado, da epístola aos gálatas, explica a semeadura: nós colhemos o que plantamos e essa plantação é a caridade com todos, principalmente com os nossos irmãos de fé, ou seja, Paulo está incentivando a “boa ação” e não, colocando Deus como uma bolsa de valores para se investir. Em Lucas, observamos um ensino sobre a misericórdia (versículo 36). O mesmo acontece no trecho citado da segunda epístola aos coríntios. No versículo 9 percebemos onde deve ser feita essa semeadura financeira: na vida do pobre! Surge, então, a pergunta: Quem são os pobres? Seriam aquelas pessoas carentes (que trabalham o ano todo em troca de um salário baixíssimo)? As vítimas de catástrofes naturais (que perdem tudo o que tem)? Os aposentados (que ganham um salário mínimo)? As viúvas, os órfãos e os mendigos? Ou seriam os pobres templos religiosos, que não possuem recursos, necessitando do dinheiro desses indivíduos para que sejam construídas catedrais e réplicas do Templo de Salomão, para manter o mísero salário de obreiros que se contentam apenas com o necessário para sobreviver, para comprar simples aviões ou ainda para pagar as pequenas despesas com shows, com programas de TV e com a contratação de cantores e pregadores? Após toda a ironia usada, torna-se desnecessária uma resposta, certo?
     Atualmente, os templos evangélicos tornaram-se escravos do dinheiro. Para quem discorda, basta observar que é a única coisa que não pode faltar. Se o pastor, o porteiro, os músicos ou boa parte dos fiéis não aparecerem, o culto acontece de uma forma ou de outra. Agora, sem grana, não tem culto. E as contas para pagar? E os salários dos líderes? Não há templo que resista sem
o seu pilar, que não é Deus, mas o dinheiro.
     Não estou sendo radical a ponto de criticar todo tipo de oferta. Pelo contrário, embora "Igreja" não seja sinônimo de templo, como geralmente pregam, as pessoas que tem boas condições e que tem o amor de Deus em seus corações, contribuirão com uma oferta voluntária para manter o templo e para ajudar os necessitados (sem a intenção de receber nada em troca). O que não pode acontecer é o que vemos por aí, uma “lavagem cerebral” no povo, fazendo com que boa parte dos fiéis deixe na igreja o dinheiro que pagariam suas contas. Em vez de ensinarem os irmãos a honrarem os seus compromissos (afinal, Paulo sempre ensinou que jamais poderíamos ser motivo de escândalo), estimulam as pessoas a dar o que não podem como um sinal de fé. Porém, o “engraçado” é que esses líderes não vivem pela fé e sim, na certeza de que muitas pessoas entregarão seus bens para a igreja. Embora não seja justificativa para o excesso de ofertas, se pelo menos realizassem alguma obra social, seria uma forma de exercitar o amor e a caridade... 
     Mas como seria a verdadeira semeadura? A resposta está em Mateus 13. Após falar a parábola do semeador, Jesus a explica nos versículos 18 ao 23: a verdadeira semente é a Palavra de Deus e o solo é o coração do homem. As riquezas, em vez de semente, são consideradas espinheiros. Dessa forma, o semear e o colher que devemos buscar são no campo espiritual. Os frutos do Espírito (Gálatas 5:22), que não incluem riquezas, devem ser o nosso alvo.

“O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro no Líbano. Os que estão plantados na casa do SENHOR florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e vigorosos, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha rocha e nele não há injustiça.” (Salmo 92:12-15).

     As nossas ações nesta vida, principalmente para os pobres, terão uma conseqüência sim (boa ou ruim), mas não as ofertas para as igrejas que viraram negócios, que pedem dinheiro para usar como uma demonstração de poder ou ainda “sabe lá Deus para que”:

“O que semear a perversidade segará males; e com a vara da sua própria indignação será extinto” (Provérbios 22:8).

“Segundo eu tenho visto, os que lavram iniqüidade, e semeiam mal, segam o mesmo” (Jó 4:8).

     A bíblia nunca ensinou a plantar dinheiro, pelo contrário, até o critica em vários momentos:

“Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso, contentes. Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.” (I Timóteo 6:7-11).

“Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isto é vaidade” (Eclesiastes 5:10).

“Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; mantém-me do pão da minha porção de costume; para que, porventura, estando farto não te negue, e venha a dizer: Quem é o SENHOR? ou que, empobrecendo, não venha a furtar, e tome o nome de Deus em vão” (Provérbios 30:8,9).

     Os defensores dessa pseudo-semeadura, não se contentando em pregar essa idéia, tentam ensinar a Deus, estipulando até um prazo para a colheita. Pude presenciar esses dias uma faixa em uma das maiores igrejas da minha cidade natal dizendo mais ou menos o seguinte: “2010 foi o ano da semeadura; 2011 será o ano da colheita”. Nem preciso dizer que o ano da semeadura foi uma imensa petição de dinheiro, né?
     Se a lei fosse tão simples assim, teríamos descoberto uma forma certa de enriquecer. É só chegar a uma igreja, atender ao pedido do pastor e doar a carteira, o relógio, o carro, a casa e em pouco tempo seríamos todos ricos. Porém, o máximo que vemos é o enriquecimento desses pregadores, enquanto os fiéis continuam em precárias condições. Infelizmente, em muitos templos, o Evangelho (aquele que manda amar a Deus acima de tudo, independente da situação) não é pregado, mas essas “histórias da carochinha” (de determinar a bênção) são cada vez mais comuns.
     Deus conhece o nosso coração e sabe os motivos pelo qual estamos ou não contribuindo. Ele pode nos abençoar materialmente, caso seja sua vontade, quando estamos impossibilitados de lutar por melhores condições financeiras, não com o intuito de ostentarmos riquezas, mas de fazer o bem aos necessitados. É essa caridade que é pregada nos Evangelhos.
     Outro problema muito grande é que pedem até o que as pessoas não tem, mas quando um desses fiéis precisa de uma “cesta básica” ou de dinheiro para pagar a conta de água, a ajuda  muitas vezes é negada. Que investimento (já que é assim que ensinam) é esse, que a pessoa tira do bolso, mas quando mais precisa, não recebe de volta?
     Jesus poderia ter todas as riquezas do mundo em suas mãos, quando foi tentado pelo diabo, mas rejeitou. Em vez disso, ensinou-nos a plantar as sementes do amor (quando morreu na cruz), do perdão (“Pai, perdoa-os, pois não sabem o que fazem”), da caridade (“Aquele que der um copo de água a esses pequenos receberá seu galardão”), da fé (“Quem crer em mim, viverá”), da pureza (“Aquele que não se tornar uma criança...”), da humildade (entrou em Jerusalém montado em um jumentinho)... Quando faltou pão, Jesus multiplicou e deu sustento a todos e não, vida boa. Para finalizar, na “oração do Pai Nosso”, ensinou-nos a pedir o que precisamos: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mateus 6:11).
     Quando ajudamos o pobre, estamos emprestando a Deus (Provérbios 19:17) e essa ajuda é ensinada em Atos 11:29; 24:17 e em Romanos 15:26, como uma demonstração de amor e não, esperando algo em troca. Cada um deve lutar para conquistar o que almeja e aqueles que obtém sucesso devem ajudar o pobre, a viúva e o necessitado (essa é a verdadeira semeadura financeira) e Deus dará a recompensa por isso (não necessariamente com bens materiais). Note que o Senhor concedeu bênçãos materiais a Salomão quando este pediu sabedoria. A salvação para os nossos problemas econômicos está no nosso suor; Deus nos dá a salvação da alma. Precisa mais do que isso? Ele concedeu a todos as sementes, ou seja, vida, a inteligência, a força e a capacidade para lutarmos para sobreviver. Se quisermos dinheiro, devemos estudar e trabalhar para isso e não, querer barganhar com Deus. Não O tenha como um trocador de favores e sim, como um Pai que nos concedeu a maior de todas as riquezas: uma morada no céu!

“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Coríntios 9:7).

Autor: Wésley de Sousa Câmara

Referências:
Bíblia Almeida Corrigida e Revisada Fiel
Bíblia de Jerusalém

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