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Qual a importância do jejum?


     O jejum, ou seja, a privação de alimentos por um longo período de tempo é uma prática realizada há milênios por diversas religiões e grupos em todo o mundo. Vários significados são atribuídos a isso e no meio “cristão” não é diferente. Será que jejuar é um mandamento?  É importante? Ou não passa de uma tradição ou de casos isolados na bíblia?
     É impossível falarmos do jejum sem citar os fariseus. Essa classe se considerava protetora da Lei de Deus na Terra, portanto, fazia de tudo para que os judeus seguissem à risca os mandamentos divinos. Com receio de que as pessoas deixassem de cumprir a vontade de Deus, colocavam fardos cada vez mais pesados sobre os judeus e procuravam mostrar a todos que eles cumpriam integralmente a vontade do Pai. Uma demonstração disso é o jejum, que em Levítico 23:27-32 é dito como necessário uma vez ao ano, porém, com o tempo, os fariseus foram diminuindo esse intervalo e nos dias de Cristo já realizavam duas vezes na semana (Lucas 18:12). Ou seja, eles queriam não apenas cumprir as determinações do Velho Testamento, mas também, realizar ainda mais do que isso, aprimorando-a, achando que fazendo assim seria suficiente para agradar a Deus.
     Também não podemos falar em jejum, sem fazer um comentário do ponto de vista médico. Sabemos que nossa alimentação, além de balanceada em termos de nutrientes, deve ser bem distribuída ao longo do dia. Assim, não é aconselhado que alguém fique mais do que 3 ou 4 horas sem alimentação, exceto em casos excepcionais, com indicações médicas (como para realização de exames complementares), ou durante o sono. Durante o jejum, no nosso organismo ocorre uma série de adaptações fisiológicas. O cérebro e as células vermelhas do sangue, por exemplo, dependem quase exclusivamente de glicose para funcionar. Quando não nos alimentamos, o corpo usa o estoque que tem de um açúcar chamado glicogênio para fornecer esse alimento a eles. Porém, em poucas horas o estoque acaba e inicia no fígado a produção de glicose a partir das gorduras (principalmente) e das proteínas do corpo. Quando o jejum é prolongado (semanas), as mudanças são mais drásticas e há produção de compostos ácidos, que também são usados pelo cérebro e os rins devem trabalhar ainda mais para compensar essa “acidose” do sangue. E isso sem falar nas deficiências de nutrientes, como algumas vitaminas e minerais, que são essenciais para o nosso metabolismo. Resumindo: O jejum prolongado é muito prejudicial à saúde, podendo causar uma série de complicações em indivíduos com doenças crônicas ou facilitar o aparecimento de diversas doenças em pessoas saudáveis. Do ponto de vista médico, o jejum prolongado é contraindicado sempre e o jejum de poucas horas somente é contraindicado para algumas pessoas (principalmente gestantes, diabéticos e idosos) e quando feito pelos demais, deve-se ter cautela e ficar atento a possíveis efeitos colaterais (transtornos estomacais, hipoglicemia, perda de consciência, fraqueza muscular, lentidão de raciocínio, dores na cabeça, queda na pressão arterial...). O problema é que alguns defendem de forma irresponsável que o jejum pode e deve ser praticado por todos, sem considerar as particularidades de cada um. Já vi casos, aqui em Niterói-RJ, de pessoas que passaram muito mal devido a esse tipo de jejum. Portanto, prudência sempre! Principalmente da parte dos líderes religiosos que, ao tentarem supostamente fazer um bem, acabarão prejudicando a saúde e até a vida de algumas pessoas que os ouvem. E depois terão que orar para que Deus cure esses indivíduos. Um paradoxo, né?
     Mas voltando à bíblia, de forma simples e objetiva, o que podemos dizer?
    O jejum que tem valor para Deus não é a simples abstenção de alimentos, como forma de sacrifício, e sim, uma comunhão profunda com Deus, com abstinência de tudo o que desagrada a Ele. Esse jejum pode ser feito até se alimentando de seu prato preferido. Ou seja, nossa vida deve ser um constante jejum. Mas e o jejum de comida?
     O jejum, quando feito como ritual ou para se enquadrar no pedido ou ordem do líder de um grupo não tem nenhum valor. Por exemplo: um pastor marca uma data para que todos os membros daquela denominação jejuem. Esse jejum será apenas uma privação coletiva de alimentos ou uma dieta em grupo. Nada mais.
    Como vimos, havia na lei de Moisés um dia determinado para o jejum. Encontramos nas escrituras vários relatos de jejum (Zacarias 7:1-5; 8:18-19; Jeremias 36:6-9; Jonas 3:5; I Reis 21:9-12; entre outros), que eram usados pelo povo tanto na tentativa de descobrir o motivo de alguma desgraça que estivesse ocorrendo, quanto na comemoração de aniversários de luto ou ainda para implorar o perdão e misericórdia de Deus. No novo testamento continuamos observando o jejum. Jesus, como um típico judeu, jejuou! Porém perceba que Ele não fez uma “dieta”, continuando com Suas as atividades diárias. Ele se isolou e ficou em um estado de profunda comunhão com o Pai, desligando-se de tudo deste mundo (companhia, barulho, atividades e alimentos), entrando em um estado máximo de concentração, de meditação nas coisas do Alto e alimentando exclusivamente a alma. Jesus fazia isso sempre, indo para locais afastados e ficando apenas na presença do Pai.

MAS E EU? SOU OBRIGADO A JEJUAR?
     Ninguém é obrigado a nada. E o jejum não é um mandamento e não é algo que garante salvação a ninguém. O jejum de alimentos pode ser interpretado como uma "disciplina espiritual", e como toda disciplina, sua eficácia varia de acordo com o disciplinado. E como toda disciplina tem que gerar um aperfeiçoamento, após o jejum a pessoa deve se perguntar: "O que mudou em mim?" Se nada mudou ou se serviu para piora, a pessoa não deveria mais jejuar dessa forma. Alguns, por exemplo, saem do jejum se sentindo mais espirituais, com mais poder e unção... Isso é idolatria ao próprio Ego e é achar que Deus se manifesta em nós de acordo com nossos méritos. Mas se a pessoa jejua e percebe que sua consciência em relação à dependência exclusiva de Deus aumenta, essa forma de jejum é proveitosa.
     Não acredito em uma regra e tampouco nessas propostas de jejum coletivo (exemplo: pastor convocando os membros de sua denominação para jejuarem num dado dia). Algumas pessoas precisam desse jejum alimentício como estímulo para deixarem seu Ego de lado e assumirem que nada são sem Deus; outras, precisam justamente do oposto: assumir que é dependente através de ação, lidando com gente, fazendo o bem, realizar o que Deus quer que ela faça. Para essas, o jejum citado em Isaías 58:6-10 será muito mais proveitoso. Mas todo jejum, quando realizado, deve ter como motivação a consciência, o desejo sincero,  a gratidão, o quebrantamento e o anseio por comunhão com o Pai. Agora, se a pessoa tem um problema sério de saúde ou se tem alguma condição que a predisponha a problemas caso não se alimente adequadamente (como já foi citado anteriormente), não faça um jejum muito longo (caso se abstenha de alimento) ou alimente-se antes e faça seu jejum como é o “espírito” do jejum, que falarei abaixo. Se achar que o jejum é um sacrifício com poderes místicos ou que o torna mais santo, cairá em um profundo paganismo supersticioso.

E O QUE DIZER DE MATEUS 17:19-21 ?
     Antes de comentar o texto, tenho que fazer uma observação: o versículo 21 é objeto de discussão de estudiosos, pois muitos dos manuscritos mais antigos não possuem este trecho e uma explicação possível é que não tenha sido escrito por Mateus e sim, por copistas quando transcreviam essas escrituras. Um texto semelhante a esse versículo está em Marcos 9:29, porém também se  discute se no texto original haveria a palavra "jejum" ou "oração", apenas. De qualquer forma, como não temos certeza, iremos supor que o Jesus tenha realmente feito essa afirmação (que aquela espécie de demônios não sairia senão pela oração e pelo jejum).
     Jesus afirmou que os discípulos não conseguiram expulsar os espíritos do jovem porque não tinham o poder místico do jejum? Não! O Evangelho nos ensina que rito nenhum tem poder em si. Era por causa da fé dos discípulos! Aquela casta de demônios não sairia sem jejum e oração, não porque o jejum traria mais poderes e sim, porque é um ato que faz com que a pessoa se desligue de tudo que possa abalar a fé ou colocar dúvidas ou questionamentos na mente; é uma atitude que traz "disciplina espiritual"  e que quando feita com sinceridade e espontaneidade, representa um grau muito grande de comunhão com Deus, comunhão esta que aumenta a cada vez mais com essa relação de intimidade com o Eterno. Não pretendo aqui construir uma doutrina sobre o jejum e sim, tentar interpretar da forma mais simples o que foi dito por Jesus. Mas seja qual for a interpretação, o fato é que algumas castas, legiões não saem sem jejum e oração e os discípulos não questionaram a “base teológica” disso, como costumamos fazer. Apenas aprenderam a lição do Mestre.
     O jejum deve ser espontâneo e secreto. Jesus criticou os fariseus por jejuarem e mostrarem a todos que estavam fazendo isso (Mateus 6:16-18). Infelizmente essa é uma atitude muito comum atualmente, pois a maioria que jejua diz isso abertamente ou então fica a todo o momento dizendo para todos jejuarem (afirmando indiretamente que estão fazendo isso). Foi justamente esse exibicionismo que Cristo condenou. Portanto, cuidado!
     Além disso, o jejum de privação deve ser em um isolamento de tudo, trancado num quarto ou em um local afastado. Não diga a ninguém, a não ser quando necessário, como à (ao) esposa (o), por exemplo. Ficar sem comer e continuar com as atividades rotineiras, é apenas um “passar fome”, que não lhe trará nada mais do que mal-estar. Quando for se alimentar novamente, apenas irá pensar: “Que delícia de comida, ainda bem que o jejum acabou”. Isso é idolatria, é paganismo e Deus não se agrada disso. Portanto, se for fazer um jejum de comida, que seja acompanhado de tudo o que foi dito anteriormente. E que seja feito de forma sincera, secreta e espontânea. Se o jejum não for acompanhado de ligação total com Deus, não é jejum.
     Outra coisa que jamais pode existir é a tentativa de barganha com Deus. Muitos jejuam como forma de conseguir uma bênção. Jejuam para conquistar um emprego, uma promoção, uma casa, um cargo eclesiástico ou qualquer outra recompensa. Isso não existe! Jejum deve ser a busca por comunhão com Deus e uma forma de quebrantamento e de gratidão. É alimentar a alma sem se importar com todas as demais coisas. Se for fazer um jejum de comida, lembre-se que deve ser uma abstenção de tudo e esse é o único jejum que tem valor para Deus.

     Para encerrar, termino deixando dois trechos bíblicos:
   “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor.”  (Romanos 14:5-8)

   “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?  Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda. Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia.”
(Isaías 58:6-10)

Autor: Wésley de Sousa Câmara

Referências:

Bíblia Almeida Corrigida e Revisada Fiel
Bíblia de Jesusalém
CHAMPE, Pamela C.; Bioquímica Ilustrada; 4ª edição; 2009; Ed. Artmed.
COLEMAN, William L.. Manual dos tempos e costumes bíblicos. Editora Betânia. 1ª edição. 1991.

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