14 de abr de 2014

Jesus foi mesmo casado?


     Nos últimos dias passaram a circular reportagens e comentários em relação a um suposto fragmento de manuscrito antigo (encontrado em 2012) que diria que Jesus era casado. Não pretendo aqui "declarar guerra" contra essa descoberta e tampouco defendê-la. Apenas quero expor alguns argumentos, pois sinceramente, não vejo motivo algum para preocupação e seja esse “Evangelho da esposa de Jesus” falso ou verdadeiro, não mudará absolutamente em nada a minha fé. 
     As reportagens focam sempre nos mesmos pontos: o fragmento seria proveniente do Egito Antigo, e conteria a expressão “minha esposa...” e ainda “Ela poderá ser minha discípula...”. A possibilidade de essas expressões serem reais despertou a fúria em muitos religiosos, bem como a preocupação com o risco de muitos terem a fé abalada, visto que sempre foi consenso no cristianismo a defesa do fato de que Jesus era solteiro. Quando esse papiro foi descoberto, logo a igreja católica (assim como outros pesquisadores) declarou que se tratava apenas de mais uma entre tantas farsas. Estudiosos da Universidade de Harvard estudaram o documento e agora, em 2014, chegaram à conclusão (publicada na "Harvard Theological Review") que há evidências (após análises físicas e químicas) de ter sido escrito entre os séculos VI e IX, havendo ainda a possibilidade de ter sido produzido até mesmo no século II, ou seja, não seria uma falsificação moderna.
     Pois bem. Diante disso, surgem vários questionamentos e argumentações. Em primeiro lugar, devemos questionar: em que é estruturada nossa fé? Se ela for em Cristo, nosso fundamento e pedra angular, teremos consciência que ele é o eterno Cordeiro de Deus, que entrou na história há pouco mais de 2 mil anos, a fim de trazer a revelação plena da Cruz, de Deus aos homens. Portanto, nenhuma questão social, cultural, familiar ou moral interfere em nada na Cruz eterna e no sacrifício que ocorreu antes da fundação do mundo. Porém, caso nossa fé seja apenas uma crença baseada em tradições, em dogmas, meramente no livro (bíblia) ou em qualquer outra interpretação humana, corremos um sério risco de sermos abalados.
    
     Pessoalmente não acredito que seja verdadeira a informação de que Jesus era casado, pois há várias evidências que apontam para o fato dEle ser solteiro. Os principais argumentos que defendem que Jesus seria casado (além deste manuscrito encontrado recentemente) são:
- Maria Madalena viajava com Jesus e como viajar com homens não era comum na cultura judaica, supõe-se que ela era sua esposa. Porém, o texto base para tal afirmação é Lucas 8:1-3 e repare que três mulheres tem seus nomes citados, além de ser dito que existiam várias outras. De quem seriam esposas? Todas de Jesus com certeza não eram. Ou seja, essa suposição não tem fundamento sólido.
- Textos mostrariam uma relação diferente entre Jesus e Maria Madalena. Mas quais textos seriam? Alguns evangelhos considerados apócrifos e gnósticos (como os evangelhos de Filipe e de Maria Madalena), que serviram de base para o famoso livro “O Código da Vinci”. Neles é dito que Maria era companheira de alguém, provavelmente de Jesus, além do tão citado fato de que Jesus teria a beijado (porém não é dito em que local do corpo foi o beijo e nem o contexto em que teria sido dado). Esses textos são discutíveis primeiramente em termos de confiabilidade (fidelidade histórica) e mesmo se fossem 100% confiáveis, em momento algum afirmam que Jesus era casado.
- Um argumento que talvez nem merecesse ser mencionado, por tão infundado que é, está baseado em Lucas 7:36-50. Alguns argumentam que a mulher, que seria Maria Madalena, poderia ser esposa de Jesus e então, o ato da “consagração” realizada por ela não seria tão escandaloso. Porém, em primeiro lugar, essa mulher não deve ser confundida com a Maria de Lucas 8. Em segundo lugar, o próprio contexto do capítulo 7 diz que o ato foi considerado um escândalo e os judeus afirmavam que Jesus não  permitiria se soubesse quem ela era. Ou seja, como ele não conheceria sua própria esposa?
- Muitos alegam que Jesus, por ser um rabino judeu, deveria ser casado (tradição judaica). Aí surgem algumas questões. Jesus não era um rabino oficial. Quando é assim chamado, é no sentido de “mestre”, de “professor”, pois ele atuava muitas vezes como tal. Portanto, ele não tinha a obrigação de se casar. Além disso, muitos judeus optavam pelo celibato como sinal de devoção a Deus (como exemplo o que ocorria em Qumran - ou Comunidade dos Manuscritos do Mar Morto - um território judeu separatista, onde pessoas viviam juntas por motivos religiosos, sem se casarem).

     E quanto ao fato de Jesus ser solteiro, há muitas evidências? Primeiramente devemos ter em mente que exceto por este fragmento de manuscrito, nenhum outro (canônico ou apócrifo) indica que Jesus tinha esposa. Toda vez que a família de Jesus é citada, é uma clara referência a seus irmãos e à sua mãe. Também não há referência explícita ao fato de Jesus ser solteiro. O que temos a fazer então é analisar evidências e “colocar tudo em uma balança”, o que em minha opinião a faz pender para o NÃO casamento do Messias.
- Quando mulheres são citadas nos evangelhos, geralmente vem associada ao nome delas uma referência. Essa referência é sempre o nome de algum homem mais conhecido. (Ex: “Maria, mãe de Tiago”, “mãe dos filhos de Zebedeu”...). Porém, Maria Madalena não é citada relacionada com nenhum homem (se fosse esposa de Jesus seria fácil em algum momento essa referência surgir), assim como Jesus não é ligado ao nome de nenhuma outra mulher.
- Não há motivos para achar que no primeiro século (época em que os evangelhos foram escritos) haveria algum interesse dos apóstolos em esconder essa informação, caso fosse real.
- Em I Coríntios 9 Paulo cita o direito que ele e outros apóstolos tinham de levar com eles suas esposas. Seria uma oportunidade maravilhosa de fortalecer seu argumento, citando Jesus levando sua esposa em sua missão. Mas não fez, pois provavelmente isso não ocorreu. Aí você perguntará: “Se não citar Jesus como casado for evidência que não se casou, então no capítulo 7, como não citou Jesus como solteiro ao defender o ‘permanecer sem se casar’ é uma evidência que Jesus não era solteiro”. É um bom contra-argumento, mas não parece ser tão válido, pois no capítulo 7 é apenas um conselho de Paulo, que considerava útil manter-se solteiro. Citar aí o exemplo de Jesus seria desproporcional. Já no capítulo 9 ele defende o direito claro que todos teriam de levar suas esposas. É quase uma exigência, ao contrário do capítulo 7 em que é apenas uma sugestão e colocar o exemplo de Jesus nesse contexto seria como se estivesse dizendo que seria errado se casar. De qualquer forma, não acho que esse seja o principal ponto.
- Na crucificação seria o momento chave em que a esposa de Jesus deveria estar presente (além da última Páscoa, em que ela estaria certamente entre eles) e a principal oportunidade dos escritores dos evangelhos se referirem a ela, correto? Mas isso não aconteceu. Jesus mostrou preocupação com sua mãe, pedindo que João cuidasse dela, mas não citou uma suposta esposa.

     E para consolidar a minha opinião de que Ele era solteiro, cito Mateus 19:10-12, pois Jesus daria tal ensino se ele próprio não o seguisse? Ter que cuidar de uma família (mesmo que fosse apenas esposa) implicaria em um tempo que Ele não tinha. Sua jornada seria curta na Terra. Não havia tempo a "perder". Se Paulo ficou sem esposa (e até incentivou quem pudesse não se casar – I Coríntios 7), para Jesus seria ainda menos complicado, não acha? É até mais coerente, nesse trecho que citei, a interpretação de que Jesus não tenha se casado.
     Porém digamos que Ele tenha sido casado. Que problema teria? Choca-se com a tradição religiosa do celibato? Se choca, essa é uma questão que quem criou essa tradição deve responder. Outros alegam que Jesus, por não ter pecado, não poderia se envolver em relações sexuais, o que não faz sentido, pois o sexo em si não é nenhum pecado, tanto que em termos históricos ele precede o pecado (a ordem para crescer e multiplicar precede a origem do pecado, relatada como o "consumo do fruto proibido"). O que é pecado não é o sexo ou o casamento e sim, o mau uso e a perversão deles. Da mesma forma que Jesus teve amigos sem pecar, bebeu sem pecar, irou-se sem pecar, poderia casar-se e ter relações sexuais (embora eu não acredite nisso) sem pecar. E se o casamento e o sexo fossem pecados, seria contraditório serem permitidos na vida de um convertido/salvo, uma vez que o propósito da salvação é tornar-nos cada vez mais semelhantes a Cristo, certo? De qualquer forma, continuo achando indiferente e acredito que o manuscrito seja mais um entre tantos que foram produzidos a fim de defender o ponto de vista (como tantos existem para defender ideias do gnosticismo, por exemplo) de algum grupo.
     Concluindo, tenho mais argumentos para acreditar que Jesus foi solteiro do que casado, porém, mesmo se tivesse uma esposa, isso não anularia sua "divindade". Se essa questão abalasse a encarnação de Deus nEle, muito pior seria o fato dEle comer e beber (era até chamado de beberrão e amigo de pecadores), de morrer, de sentir fome, dor ou tristeza... Jesus foi a encarnação perfeita de Deus, em um perfeito ser humano. O diferencial de Jesus é o que Ele era em sua origem, a Sua relação perfeita com Deus e Sua ressurreição. Não tem nada a ver com ter ou não uma família. Portanto, um casamento apenas evidenciaria a humanidade do Deus que se esvaziou e entrou na história, seguindo os princípios e condições que Ele mesmo estabeleceu para a vida no início de tudo.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Referências: 
- Darrell L. Bock, Ph.D., Quebrando o Código Da Vinci, Ed. Novo Século, 2004.
-http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2014/04/analises-apontam-que-papiro-que-fala-da-esposa-de-jesus-nao-e-falso.html
(acessado em 14/04/2014).

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