10 de abr de 2014

Visitou o céu e o inferno. Será?




     Este vídeo (que retrata a visão de uma jovem evangélica chamada Angélica Zambrano) ficou famoso há alguns meses. Trata-se de um documentário de uma jovem evangélica equatoriana que teve uma experiência (visão?) do céu e do inferno. Alega ter visto pessoas conhecidas nesses locais e teria recebido algumas instruções divinas para repassar às pessoas na Terra.
   
     Sobre o documentário, NA MINHA OPINIÃO, há duas coisas fundidas: realidade e fantasia.
     Boa parte dos religiosos, assistindo isso, dirão de cara: “é tudo mentira”. Mas sinceramente (e sabendo que não devemos julgar por aparência), percebi uma sinceridade no relato dela e em sua mãe. Porém, tem muita coisa que “não bate” com o espírito do Evangelho. Sendo assim, só consigo acreditar que seja um fenômeno mental, talvez com a ação de Deus por trás realmente (por isso ela sabia previamente, assim como aquele irmão da igreja, que isso aconteceria). Se não está entendendo nada do que digo, assista ao documentário e só depois, prossiga a leitura.
     Há inúmeros fenômenos que ocorrem desde sempre na humanidade e há relatos há séculos de fenômenos diversos, que muitos, por ignorância, taxam de mentira, de loucura ou de demoníaco. Algumas pessoas tem uma hipersensibilidade “mental” e conseguem ter sensações e experiências inimagináveis pela maioria das pessoas. Por exemplo: muitos que tem sensações de “premonição”, tem na verdade (na minha opinião) uma capacidade superior de transcender à linha do tempo, por alguns instantes. O mesmo vale para outros fenômenos como “Experiência de quase morte” (quem achar interessante pode pesquisar sobre isso), sonhos, projeções psíquicas e até mesmo hipnose.
     Pois bem, quando uma pessoa tem uma experiência dessas, o significado que ela vai atribuir a isso dependerá de suas crenças. Quase todos que tem experiências como a garota teve, relatará algumas coisas semelhantes, como a forte luz. Porém, uma pessoa cristã, associará com Jesus, com anjos. A aparência de Jesus e dos anjos será aquela que essa pessoa tem na mente... Um ateu quando tem a mesma experiência, atribui um significado diferente ao que vê; um muçulmano, um indígena, também... E por aí vai. Isso é nítido quando observamos que ela é evangélica, de um país subdesenvolvido, com uma baixa condição socioeconômica e está em um contexto religioso legalista, ou seja, sujeita a uma série de dogmas, de tradições humanas (costumes de usar roupas longas e características, aversão a maquiagens e adornos e ainda cabelos crescidos). Isso faz com que em dado momento ela diga indiretamente que o Senhor teria avisado para as mulheres cuidarem bem do cabelo (seria o “não cortar”), que é o véu dado por Deus (em referência a uma tradição interpretativa da denominação dela, em relação a I Coríntios 11). E toda a interpretação da experiência dela foi religiosa evangélica característica de um contexto em que a disputa com o catolicismo era forte. É como era o Brasil há 30 ou 40 anos. Veja que a todo momento ela se refere à idolatria, ligada ao catolicismo, porém, como não está em um contexto em que a corrupção evangélica, por exemplo, seja muito nítida (como é no nosso caso), ela em momento nenhum cita um “pastor” que tira dinheiro dos pobres com falsas promessas, por exemplo. Entendem?
     Pessoas boas e ruins existem em todo meio, seja católico, evangélico ou não religioso, mas ela só vê coisas ruins no meio que ela, por questões religiosas, combate.
     Outra prova disso é o que ocorria aqui no Brasil também em meados do século passado, em que era ainda mais evidente no meio evangélico a ideia de que se eu não pregar, “o sangue dessa pessoa estará sobre minha cabeça”, ou seja, serei culpado por ele ter morrido sem conhecer o Evangelho. Isso não tem apoio bíblico nenhum, pois Jesus nos ensinou a pregar e nos mandou ir ao mundo, não como uma obrigação, nem com uma ameaça se não formos e sim, como um fruto de consciência, de amor. Paulo também ensina que temos o privilégio (o "ai de mim se não pregar" é uma "obrigação" no sentido de constrangimento, de não ter como não pregar e não, uma ameaça de que receberei um castigo pela condenação das pessoas a quem não preguei) de pregar e assim, somos coparticipantes do Reino de Deus. Mas as religiões tem alguns dogmas, como é o suicídio e a blasfêmia contra o espírito santo (veja que é padrão de boa parte dos evangélicos ter medo de ter blasfemado algum dia). Muitos se alimentam do medo e da culpa. Isso é porque tem o dogma que se a pessoa morreu sem o padrão dela, está no inferno. Mas não pode ser assim, uma que o padrão dessa pessoa não é parâmetro pra nada e outra que não temos como garantir que a morte necessariamente é o fim. Paulo diz que nem a morte e nem os anjos podem nos separar do amor de Deus. O que acontece entre a nossa morte e o "céu ou inferno", nunca saberemos, por isso não podemos fazer uma doutrina para explicar tais questões ou para dizer que alguém, por ter certa conduta neste mundo está com certeza condenado ou salvo. Tenho a tendência a acreditar que nossa oportunidade é em vida, porém o que acontece no creve momento de passagem da nossa vida terrena para o "estar com Deus" não sou capaz de saber, por isso, não afirmo categoricamente isso. Podemos ter visões teológicas diferentes, mas toda teologia, por ser humana, é relativa. Absoluto é só Deus.
     Ela também cita, no inferno, além daqueles indivíduos ligados ao catolicismo, pessoas que a religião dela condena veementemente, como os cantores seculares (e quanto mais fama, pior). A Selena é um exemplo de cantora latina, ou seja, que era bem conhecida no contexto dela... A criança no inferno foi, ao meu ver, uma forma de condenar os desenhos animados (alguns não são bons pra crianças realmente, mas dizer que são demônios, é demais) e a rebeldia das crianças.
     A aparência do inferno que descreve é a típica imagem fantasiosa de “conto de fadas”, que é comum nas pessoas, em que é um lugar sombrio, com muito fogo e o diabo com uma lança nas mãos espetando as pessoas... É uma coisa quase com aparência de gibi.
     Portanto acredito sim que ela teve uma experiência extraordinária, sendo talvez uma projeção psíquica (tanto que ela via o corpo dela, tentava tocá-lo e não conseguia) e provavelmente uma ação de Deus na vida dela, a fim de promover um crescimento de sua fé. A mãe via o corpo mas não via a projeção, exceto por aquela suposta camada de energia que cercava o corpo... Enfim, não sou especialista nisso, mas acredito que ela tenha tido uma experiência real, porém mesclada com algumas coisas da mente dela. Não é que ela esteja mentindo em algo, mas é praticamente impossível separar o que ela realmente viu do que ela imagina que ocorreu.
     Não duvido dessas experiências, pois há muitos relatos e alguns são bem convincentes. E mais: todas as pessoas que passam por isso mudam de vida. Nunca mais são as mesmas. Se eram pessoas boas, ficam melhores. Se eram más, ficam boas. Portanto acredito sim que Deus possa permitir essas experiências a fim de dar a alguém, por sua infinita graça e amor, a oportunidade de ser uma pessoa melhor, ter convicção de sua fé e até mesmo ajudar outras pessoas. Só não se pode fazer uma doutrina em cima disso ou achar que é uma revelação à humanidade. Afinal, porque Deus demoraria dois mil anos para revelar algo dessa forma e revelaria apenas a um ou outro? Como fica quem morreu antes da revelação ou que não ficou sabendo? Em termos de revelação coletiva de fé, creio que a bíblia nos é suficiente. Mas o Espírito Santo age como quer e pode atuar diretamente na vida de uma pessoa a fim de fortalecê-la (I Coríntios 2:9). Nisso eu creio. Deus agiu de uma forma inexplicável na vida do apóstolo Paulo (II Coríntios 12) e revelou a ele muita coisa. Porém essa revelação de pessoas conhecidas no inferno, não acredito que seja real, pois além de não produzir bons frutos, ainda gera nas pessoas uma prepotência de poder afirmar quem está no inferno e ainda provoca nelas a arrogância de julgar todas as pessoas que acham que estão na mesma situação (de forma comparativa).

     Repito: essa é minha opinião. Longe de mim achar que o meu pensamento é o correto. Não sou fundamentalista para tanto. Mas é o que eu acredito, olhando à distância, que tenha ocorrido.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

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