16 de jun de 2014

Pregando na Cracolândia


     Não agradará a massacrante maioria, mas é minha opinião, dada de maneira bem informal, conforme comentário (na verdade é uma compilação de comentários meus) feito na página do facebook. Respeito quem discorda, mas é assim que vejo.

     MINHA OPINIÃO SOBRE O VÍDEO (repito, é MINHA opinião, sendo que respeito a de todos vocês):

     Links (escolha um ou outro) para quem não assistiu:
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     Tenho duas observações opostas a fazer sobre o vídeo, sendo que uma delas é ELOGIO e a outra é uma CRÍTICA:

1 - Elogio a coragem e a disposição desses homens (não os conheço, mas possuem meu respeito) em irem até essas pessoas que poucos dão atenção (inclusive esse governo eleito, quem sabe, por você). Se todos tivessem um pouco dessa disposição o mundo estaria bem melhor. (Não vou entrar aqui em especulações sobre a motivação desse trabalho. Se foi para filmar, se foi para simplesmente fazer "convertidos à sua denominação" - afinal infelizmente "obras missionárias" atualmente QUASE sempre tem objetivo de fazer prosélitos - ou se foi um desejo sincero de fazer o bem a essas pessoas desamparadas). Não compete a mim fazer esse julgamento, pois não sondo corações.

2 - Agora a crítica: Não concordo com A FORMA com que isso foi feito, por vários motivos. O primeiro é que, com todo respeito a quem gosta desse tipo de mensagem cujo conteúdo importa menos do que o tom de voz elevado, uma mensagem tem que fazer o indivíduo entender e refletir. Se ficar apenas no campo da emoção, do "repete comigo", do falar rápido sem que a pessoa seja estimulada a pensar nos motivos de estar ali e no que deixou para trás (família e amigos), para pouco (ou nada) aproveita. Mensagens que mexem apenas com a emoção não ficam na memória, não curam feridas e não mudam vidas. Se na outra semana não voltarem lá para repetir essa "palavra positiva" a esses dependentes químicos, eles nem se lembrarão mais. (Principalmente se levar em consideração que o crack destrói neurônios e em poucos anos um indivíduo inteligente passa a ser uma "porta", mentalmente falando).
     O segundo problema é que o ser humano não é só espírito. Ele tem corpo também, de forma que quando se fala: "estou lutando por almas", você deve estar lutando por espírito + corpo. Ou seja, pregar o Evangelho com palavras (sem contar que Evangelho não é só o que Jesus pode fazer em mim, mas também O QUE ELE FEZ POR MIM NA CRUZ) é tão importante quando ajudar nas carências de uma pessoa. Se você acha que apenas o espírito é importante (o corpo físico não), recomendo lidar não com pessoas, mas com fantasmas (eles seriam "espíritos desencarnados". Rsrs).
     Uma bela frase atribuída a S. Francisco de Assis diz: "Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras.” As palavras seriam a última coisa no processo, na minha opinião.
     É fácil dizer que não precisa matar a fome do morador de rua quando temos a nossa geladeira cheia; é fácil dizer que o desabrigado precisa é de amparo espiritual quando temos um teto e um cobertor para nos protegerem da chuva e do frio; é fácil dizer que dependentes químicos são "safados" quando nosso filho ou nosso pai não é um deles; é fácil dizer que "estão plantando o que colheram" quando não dizemos o mesmo em nossos momentos de crise financeira (pois gastamos mal) ou de doença (lembra dos churrascos, das gorduras, da falta de fibras e do sedentarismo seu?). Não feche os olhos para a realidade! Vida em abundância inclui o corpo, de forma que a manifestação do Reino de Deus parte da noção de que quem faz parte desse reino faz o possível para que o seu próximo tenha uma vida digna.
     Sozinhos não resolveremos os problemas do mundo; sozinho eu posso pouco, mas meu pouco somado ao seu pouco será muito.
     Se creio em libertação divina? Claro que sim, mas isso não virá devido à repetição exaustiva de "chavões" e de "clichês". O Evangelho ensina muito mais do que vestir um terno, pegar uma bíblia e sair gritando em ruas e ônibus que "Jesus salva, cura, liberta, batiza e leva para o céu". Palavras sem vivência serão mero discurso vazio. E mais: pode virar hipocrisia. Lembre-se do final do capítulo 25 de Mateus... Lembre-se da parábola do bom samaritano... Jesus ensinou a cuidar das necessidades do corpo, afinal, ESPÍRITO-ALMA-CORPO são tão indissociáveis quanto PAI-FILHO-ESPÍRITO SANTO.
     Talvez alguém dirá: "Mas essa palavra dada por esses irmãos podem ter sido como uma semente no coração desses dependentes químicos". Mas aí temos que pensar: uma semente boa tem que ter conteúdo para germinar, não adianta ser apenas uma mensagem quase de auto ajuda, dizendo que Jesus liberta e pedindo para a pessoa repetir, como se um exercício mental mudasse algo. Até mesmo as "sementes" acredito que germinariam mais fácil se fossem semeadas na consciência e não apenas na emoção dessas pessoas, pedindo para repetirem frases feitas. Na minha opinião, se eles sentassem com esses moradores da cracolândia, ouvissem, tentassem entender o porque de entrarem no vício (quantas vezes ouvi pacientes falarem que o que mais queriam é que simplesmente alguém os ouvissem), falarem da família deles que estão sofrendo, explicar quem é Jesus, o que o homem significa sem Jesus (a consequência do pecado, do afastamento de Deus), o que Jesus fez, o que significa isso para nós... Se não for assim vira uma relação de interesse: "vou servir a Jesus pra ele me libertar, pra restaurar minha família..." Isso é barganha e não, Evangelho.
     Vamos olhar para Jesus que é a revelação perfeita da vontade de Deus:
Jesus curava quando estava diante de um doente, alimentava quando diante de famintos, criticava quando diante de fariseus hipócritas e acolhia quando diante de rejeitados. A questão é: o que essas pessoas estavam precisando naquele momento. Acho que o melhor seria pensar: Jesus passando ali agora, o que faria? Será que faria um discurso como fizeram ou atuaria de alguma forma no problema real deles naquele momento? Não tenho dúvidas que não seria discurso e sim, uma ação efetiva para tirá-los daquela vida (não foi a toa que citou o bom samaritano). Cristo é nosso modelo, nosso espelho...

     Repito: não estou condenando essas pessoas que foram à cracolândia, afinal pode ser que junto a isso ofereceram ajuda concreta a eles, como abrigos, comida, auxílio profissional visando abandonarem o crack. Apenas usei as imagens do vídeo para fazermos uma reflexão. A questão, o problema, não é a coragem desses religiosos e nem a motivação e sim, A FORMA de realização. É como chegar a um homem faminto e ao invés de pão, oferecer uma bíblia. Poxa, naquele momento ele precisa de pão, não de bíblia. De barriga vazia ninguém vai querer ouvir nada. A mesma coisa é com eles, que naquele momento deveriam sequer saber onde estavam, pois o crack é consumido em intervalo de minutos.

     Concorde ou discorde à vontade, mas por favor, não use os argumentos "Você faz melhor?" ou "Quantas almas já ganhou?", pois além de já sermos adultos para refletirmos com profundidade, o que cada um faz, salvo em casos excepcionais, deve ser em secreto (Mateus 6).

Autor: Wesley de Sousa Câmara

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