29 de ago de 2014

Cristãos ou judeus? Nem eles sabem...


     Uma das coisas que chamam a atenção no meio de inúmeros grupos que se dizem cristãos é a adoção de símbolos judaicos, principalmente em seus "cultos". Tocam shofar, colocam talit no pescoço, usam quipá na cabeça, estendem a bandeira de Israel no púlpito, exibem um candelabro no que chamam de "altar", entram com imitação da Arca da Aliança em suas reuniões e até constroem réplicas do Templo de Salomão. Se somarmos a isso o foco dos ensinos, que são 90% das vezes baseados em relatos do Antigo Testamento (mensagens apenas sobre personagens hebreus, sem realizar uma ligação clara, colocando o centro em Cristo), aí é que ficamos confusos. Não sabemos sequer se falamos de cristianismo ou de judaísmo. Mas qual é o motivo disso acontecer com tanta frequência?
     Há pelo menos dois fatores que se destacam: a ingenuidade/ignorância e a manipulação. Diria que sempre (correndo o risco de generalizar erroneamente) uma das duas estão presentes. O primeiro caso é o que ocorre em muitas denominações evangélicas pequenas, principalmente no interior dos estados e/ou em periferias. Os líderes desses grupos são, boa parte das vezes, desprovidos de muita instrução teológica e acabam reproduzindo uma noção que receberam décadas atrás de pessoas, muitas vezes sinceras e tementes a Deus, porém ainda mais sem conhecimento. Imagine uma pessoa que tem que lutar contra a própria falta de domínio do português para interpretar textos, inclusive bíblicos. Some a isso a falta de acesso à informações adicionais, a pesquisas, a informações extras, que dão uma contextualização das escrituras. O que gera? Uma compreensão superficial da bíblia, que mesmo quando é honesta, aparece repleta de equívocos por ingenuidade e por ignorância. Essas pessoas não conhecem a cultura hebraica e acabam superficializando o significado de muitos textos e, outras vezes, atribuem a eles um significado que nunca tiveram a pretensão de ter. Exemplos: será que muitos sinceros irmãos sabem por que Jesus curou um cego de nascença em vez de um surdo de nascença? Por que curou leprosos em vez de amputados? O entendimento dessas razões dá sentido a muita coisa nas escrituras. Essas duas curas citadas só eram possíveis, segundo a crença judaica, graças a ação do Messias, que eles esperavam. Portanto, Jesus realizou essas curas não para dar vida boa aos curados e sim, para que ficasse claro para os judeus que o Messias estava diante deles. E a questão do templo? Será que todos tem consciência de que Deus havia se revelado aos judeus de forma que fizessem um tabernáculo (um local móvel que representaria a ação de Deus, que circula e que não pode ser confinado a uma geografia?), e que a ideia de fazer um templo fixo foi não de Deus, mas de Davi? Por isso é dito tantas vezes que Deus não habita em templos feitos por homens. Deus não pode ser contido em um espaço fixo. Ele é um Deus vivo, que "circula" entre o Seu povo e que habita corações (por isso a "casa de Deus" não é um templo religioso e sim, templos vivos, como eu e você). Será que essas pessoas que reconstroem a Arca da Aliança sabem que os próprios judeus deixaram de dar importância a ela quando desapareceu? 
     Percebe que quando olhamos para a história de Israel e tentamos entender sua cultura, sua crença, seus símbolos, vemos que muita coisa era apenas simbolização de uma realidade revelada de forma perfeita na Cruz de Cristo? É como se Deus fosse preparando a mentalidade do povo eleito para trazer o Messias à história para que quando a revelação plena ocorresse em Cristo, eles fossem capazes de compreender e assim, de crer. Essas coisas, uma vez que temos a revelação em Jesus, tornaram-se ultrapassadas, sem sentido. Eram apenas "sombras" (como dizia Paulo). Não ache que uma pessoa, por ser sincera e serva de Deus é isenta de erros. "Ah, mas se isso não fosse correto ou bom, o Espírito Santo revelaria a esses homens de Deus". Olha, leitor, todo "homem de Deus" continua sendo homem, e portanto, sujeito a falhas. O Espírito não tem a função de revelar a cultura e a história de um povo e tampouco de revelar diferentes visões teológicas. Ele nos guia na direção de Cristo, que é o foco, mas essas questões terrenas, interpretativas, é de nossa responsabilidade. 
     Porém não falei do segundo grupo: os que usam essas questões para manipular o povo. Os primeiros são sinceros enganados; estes, são enganadores. É bem diferente. Os que usam essas tradições judaicas para manipular tem pleno conhecimento desse contexto, porém escondem e distorcem para não perderem o status de "representantes de Deus na Terra", para não perderem o poder e o dinheiro que arrecadam. Já pensou se eles assumissem que o templo que constroem não é a "casa de Deus", nem tem nada de sagrado e tampouco é um portal mágico onde Deus "desce" para falar com Seu povo, sendo, ao contrário, apenas um prédio que construíram para abrigar as pessoas enquanto se reúnem? Já pensou se dissessem que os homens não precisam deles, nem de instituição alguma para ter acesso a Deus, porém eles existem apenas como uma estratégia para agrupar pessoas de mesma fé? Seja sincero: o "império" cairia. Boa parte das pessoas quando entendem isso ficam iradas, magoadas e são transformadas em "militantes anti-religião". Elas ficam inconformadas de terem sido manipuladas por tanto tempo e partem para o outro extremo: o do ódio! É o que tem ocorrido atualmente com muitos, que ao descobrirem que homem nenhum está em um nível acima de outro e que todos tem acesso direto a Deus em Cristo, passam a combater a religião com esse mesmo "espírito religioso" (intolerante e que tenta convencer a todos "na marra"). Portanto, esse segundo grupo (maioria) de defensores dos costumes judaicos agem assim por conveniência. Não é financeiramente lucrativo pregar apenas a Palavra de Deus. Quando se mostra essa mentalidade judaica (o homem cumprindo obrigações, ritos, tradições em troca de bênçãos divinas), gera retorno, pois lotam os "templos", geram ofertas, dízimos, afinal, todos que assim são instruídos desejarão "barganhar com Deus".  
     O que podemos concluir? Que a adoção desses símbolos judaicos é uma estratégia, na maioria das vezes, para cultivar na mentalidade da cristandade essa noção judaica de fé, que é o homem fazendo algo para Deus, em troca de benefícios divinos, que vão desde a salvação até uma promoção no emprego. 
     Agora que sabe que essas tradições não tem relação alguma com a essência da mensagem de Cristo, se adotará esses símbolos ou não é escolha sua. Eu já fiz a minha: uma vez que tenho o que é Santo, Perfeito, Eterno e Pleno (Jesus Cristo), porque desejaria voltar às sombras e aos símbolos que meramente visavam apontar para Aquele que é, que encarnou e que tudo consumou na Cruz?

Autor: Wesley de Sousa Câmara

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