21 de ago de 2014

Rótulos cristãos - Aceitá-los ou rejeitá-los?


     Muitos adoram rótulos teológicos e boa parte das vezes rotulam para menosprezar, para generalizar e para caracterizar todos os que pensam diferente como inferiores, como enganados, como hereges...Já passei por momentos na vida em que adorava rótulos; já passei também por momentos em que rejeitava veementemente qualquer tipo de rotulação. No máximo eu aceitava ser chamado de "cristão" e mesmo assim, via com maus olhos, pois cristão me faz lembrar mais o movimento religioso oficializado no século IV pelo imperador Constantino, chamado "cristianismo", do que a pessoa de Cristo. Porém atualmente reconheço que aceitando ou rejeitando rótulos, é impossível fugir deles.
     Sempre ouço pessoas dizerem: 
"O calvinismo (ou o catolicismo, ou arminianismo, ou luteranismo, ou 'o que eu prego' - como dizem alguns) é a expressão perfeita do Evangelho genuíno". 
     Meu Deus, quanta ignorância e idolatria concentradas em uma mesma mente. O dia em que uma teologia explicar com perfeição os desígnios divinos, esse "deus" explicado será um mero ídolo criado por homens.
     O outro extremo é a afirmação de alguns: 
"Não me identifico com a teologia católica, nem sou arminiano, pelagiano, calvinista ou luterano. sou apenas cristão, discípulo de Jesus, seguidor do evangelho puro e simples. Essas divisões são apenas invenções humanas e o que todos deveriam fazer é seguir o Evangelho e parar com essas teologias". 
     À primeira vista parece bonita essa afirmação, mas com uma análise um pouco menos superficial, ela se torna frágil e sem sentido. Por que digo isso? Pois todos os cristãos tem uma crença, tem um tipo de entendimento sobre o que é a fé cristã. E o que é essa compreensão? É uma teologia. É fruto de uma organização de interpretações que geram uma linha de pensamento. O que faz, por exemplo, um católico pensar diferente de um protestante? Ou um assembleiano de um presbiteriano? É que, embora todos tenham a fé cristã, cada um tem uma crença, cada um segue uma tradição interpretativa diferente (todas relativas) de uma mesma Verdade (Jesus Cristo, que é absoluto). E quem está correto? Ora, cada pessoa dirá que a interpretação dela é a correta, a melhor, a que corresponde ao "evangelho puro e simples". Óbvio! Ninguém em sã consciência achará que está equivocado, até porque, se achar, é lógico que deve mudar de teologia. Mas o problema está exatamente aí. Somos arrogantes, prepotentes e muitas vezes, fundamentalistas. Achamos que somos capazes de compreender e explicar com perfeição uma verdade perfeita, divina e absoluta. Se não reconhecermos nossa limitação, nossas falhas, nossa relatividade, jamais seremos cristãos, pois não conseguiremos olhar para o outro sem um "sentimento de superioridade". 
     Devemos reconhecer que seguimos o que acreditamos que seja mais coerente com o Evangelho de Jesus, porém toda nossa crença passa pela nossa prévia interpretação. O único Evangelho puro e simples é aquele encarnado e vivido por Jesus. Porém, quando olhamos para Cristo a fim de identificar esse evangelho puro e simples, já contaminamos esse entendimento com nossa imperfeição, com nossas preferências, com nossa parcialidade, com nossas tendências, com nosso pré-conhecimento, com nossas tradições, mesmo que não assumidas. Quando dizemos que "a bíblia diz" alguma coisa e não tem nada que interpretar o que ela disse, é outra manifestação de ingenuidade, pois a bíblia nunca diz nada sobre um determinado assunto (nós é que afirmamos com base no que lemos e no que compreendemos). Ela é o registro escrito, baseado na visão (interpretação) dos autores em relação a um fato ou acontecimento. Soma-se a essa interpretação do autor, registrada na bíblia, a nossa interpretação, pois quando a lemos e dizemos: "aqui diz tal coisa", na verdade estamos dizendo: "aqui interpreto que o autor tenha tido a intenção de dizer tal coisa". Não é a toa que pessoas que carregam diferentes rótulos usam a mesma bíblia para justificarem seus pensamentos. 
    Então sejamos humildes e vamos assumir: seguimos o que consideramos mais correto, mais coerente, mais fiel, porém reconhecemos que podemos estar sinceramente equivocados e provavelmente TODOS estamos equivocados, pelo menos em alguns pontos. Um dia, nos braços do Pai, teremos essa revelação absoluta internalizada em nosso ser e seremos perfeitos como Ele, gozando a vida eterna em comunhão na glória. Enquanto isso, sigamos a vida com amor e com humildade. Felizmente nossa relação com Ele não é baseada em nossos acertos teológicos (méritos humanos) Se fosse, todos estaríamos perdidos. 
     Entenda que quando dizemos que alguém é luterano (ou calvinista, ou arminiano...), por exemplo, significa que estamos diante não de um rótulo ou de uma ideia e sim, de uma pessoa! O rótulo nada mais é do que uma forma didática de dar uma noção do que essa pessoa acredita. Não é algo essencialmente ruim. Porém devemos ter em mente que estamos tratando apenas de um ser humano que tem afinidade por uma determinada linha de pensamento. Nada mais! E por ser um indivíduo como nós, devemos amá-lo, respeitá-lo, ajudá-lo, independentemente de suas convicções. 
     Se a sua "teologia" em vez de gerar em você amor, compreensão e respeito por todos, gera prepotência, arrogância e sentimento de superioridade, sinto lhe dizer: sua teologia não tem nada de cristã! É "teologia" de demônio ou, na melhor das hipóteses, de um ser humano egoísta! Sendo assim, convido-o para abrir os olhos e repensar as suas crenças e a compreensão que tem de Deus e do mundo.

Autor: Wesley de Sousa Câmara
21/08/2014

O que achou?