27 de out de 2015

3º passo: A relação entre Lei X Evangelho/Graça (Estudo completo)


     Esse tema é mais complexo do que a maioria imagina. A todo o momento vejo essa relação sendo encarada de forma rasa, superficial e, no meu modo de entender, errônea, o que me motivou a refletir com você, de forma clara e aprofundada, o assunto. Lembro que é uma abordagem cristã não fundamentalista, tomando como base conceitos da tradição luterana, que é teologia, na minha opinião, que gera uma compreensão mais consistente e mais frutífera.
     Quem nunca ouviu as expressões “Tempo da lei" e "Tempo da graça”? Ou então a afirmação: “Lei é o Velho Testamento e Graça é o Novo Testamento da bíblia”? Ou ainda: “Lei é o que vem de Moisés e Graça é o que vem a partir de Jesus, 2000 anos atrás”? Ou quem sabe: “Evangelho é tudo o que se parece com Jesus e Lei é tudo o que se parece com Moisés”? Enfim, discorrerei de forma detalhada sobre esses pontos, explicando porque não concordo com nada disso.
     Não tem como responder questões como: “A Lei ainda está em vigor?”, “Devo seguir a Lei?” ou “Devo obedecer os 10 mandamentos?” sem entender esses três conceitos: Lei, Evangelho e Graça. E uma dica que lhe dou é que sempre faça isso: antes de falar teologicamente sobre um assunto, deixe claro os seus conceitos, pois são tantas as visões e orientações teológicas que a maioria usa os mesmos termos, mas muitas vezes com significados completamente diferentes. Aqui deixarei claro os conceitos que adoto e, a partir deles, tentarei expor o assunto.

     Quando falamos nesse tema, muitos criam a diferenciação “Lei x Graça” (que é uma distinção muito usada no meio reformado/calvinista, sendo que respeito quem segue essa tradição teológica, mas particularmente discordo desse ponto, por não ver coerência nessa dicotomia, afinal, sem a Graça não há revelação da Lei e sem a Lei, não há necessidade de Graça para salvação). E de forma mais geral, a Lei está dentro do conceito da Graça. Tudo o que existe e que se manifesta só ocorre por Graça. Atualmente prefiro a dualidade “Lei x Evangelho” (adotada, por exemplo, por outro reformador, Martinho Lutero). Minha preferência por essa última é derivada justamente dos conceitos de cada um desses termos, como veremos adiante.
     Outra questão que surge é a ideia negativa que as pessoas possuem da Lei. Acham que ela é má, que é ultrapassada, que é antagônica à Graça, que depende de Moisés e que Jesus veio para exterminá-la na Cruz. Mas veja bem: A Lei é perfeita e maravilhosa. Nós é que somos maus, pecadores, imperfeitos, então ela nos condena por sermos contra a sua perfeição. Mas a culpa não é dela; é nossa! Aí é que entra o Evangelho. Mas vamos por partes.

1 – Afinal, o que é a “Lei”?
     Para responder essa questão devemos, antes de tudo, adotar um critério: quem é a autoridade suprema para definir um conceito? (E quem leu o estudo anterior desta sequência - 2º passo: Definindo um parâmetro ético e interpretativo - saberá responder com facilidade). Alguém responderá: “É a bíblia”. Mas como vimos nesse estudo anterior, é uma afirmação sem sentido. A bíblia nunca fecha algo sobre um tema, quem faz isso é a nossa interpretação dela. Por exemplo, não posso dizer que a bíblia diz algo; quem diz é minha interpretação acerca dela, tanto é que diferentes visões teológicas são baseadas na mesma bíblia. Porém considero que a forma mais adequada, dentro da abordagem cristã, de se chegar a uma definição precisa é olhando para Jesus Cristo! Pelas escrituras, a grosso modo contidas na compilação moderna chamada bíblia, busque informações sobre Ele, sobre Seus ensinos, sobre Sua forma de lidar com cada situação na vida e então poderá conceituar tudo. E por que olhar para Jesus e não para Paulo, para João, para Davi, para Abraão, para Moisés ou para qualquer outro personagem ou texto da escritura? Porque o cristianismo assume que Cristo é o Verbo/Palavra de Deus encarnado (João 1), sendo que essa Palavra já estava no coração de Abraão, por exemplo, muito antes de haver qualquer escritura; nEle estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2:3); Ele é a revelação plena de Deus aos homens (João 12:45); Jesus disse que as escrituras testificam dEle (João 5:39), ou seja, Ele é o alvo, enquanto a escritura é a "sinalização" (como uma placa de trânsito) que aponta para esse alvo; Ele é o fundamento, a pedra angular (Efésios 2:20)... Resta alguma dúvida de que, se quiser um parâmetro segundo a vontade de Deus para julgar todas as coisas, essa referência deve ser obrigatoriamente Cristo? Jesus é, portanto, quem atribui significado a tudo!

     Não posso aceitar uma abordagem cristã que torne qualquer outra pessoa absoluta para definir o que seja Lei (nem mesmo um apóstolo, pois caso Jesus diga algo e um apóstolo dê a entender algo diferente, obviamente deve ficar ao lado de quem? Jesus, é claro!); não aceito também que um magistério humano seja infalível, pois todos somos humanos e imperfeitos. Até mesmo em uma ação de Deus através do homem, o ser humano continua sendo um instrumento falho e relativo nas mãos de um Deus perfeito e absoluto. Portanto, em uma abordagem cristocêntrica, não pode aceitar que homens (ou religiões, ou instituições, ou tradições) tenham autoridade para definir o que é Lei (ou qualquer outra questão); não deve também achar, ingenuamente, que quando desejar entender um conceito bíblico deverá buscar em um dicionário, afinal, desde quando um autor ocidental, do século XX/XXI, tem autoridade para ser seu ponto de referência? Portanto, “Lei” só pode ser o que Jesus Cristo interpretou como sendo Lei, independentemente do que qualquer outra pessoa ou grupo diga. Então vejamos:

     Dois textos bíblicos que precisam ser analisados são Mateus 5 e Mateus 22. Poderíamos aqui ficar falando dos 10 mandamentos, dos mais de 600 preceitos da lei de Moisés, mas seria perda de tempo, pois a resposta a essa questão está em Jesus:

"Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra.” (Mateus 5:17-18)

      Nesse trecho vemos que o próprio Jesus afirmou que Ele cumpria a Lei de forma perfeita. Além disso, os apóstolos deixaram claro que nEle não há pecado e portanto, não há transgressão dessa Lei de Deus por parte de Jesus (I João 3:5; II Coríntios 5:21). Mas o que seria então a Lei? Seria um código moral? Uma lista de 10 mandamentos? Uma interpretação específica judaica dos mandamentos? Seria os mais de 600 preceitos judaicos? Não! Repare que Jesus relativiza a Lei e a tira do campo moral e objetivo (como enxergavam os judeus), levando-a para a subjetividade. Para os que a colocam como algo fixo e restrito (como uma cartilha de regras), reparem que Ele relativiza o mandamento do sábado, ao afirmar que o sábado foi criado para o homem e não, o homem para o sábado. Os judeus viam a Lei dessa forma exterior apenas, tanto que havia discussões entre eles sobre o que seria permitido realizar no “dia do Senhor” e o que não seria. Uns diziam que poderia caminhar com sacolas; outros, que só poderia caminhar sem sacolas; e ainda havia os que diziam que nem se poderia caminhar nesse dia. Era uma discussão totalmente supérflua, rasa, que não levava em conta a subjetividade, o significado e o objetivo da Lei. Eles estavam nitidamente colocando o homem a serviço do sábado e não, o sábado a serviço do homem. Jesus, ao contrário de todos, curou no sábado, fez o bem no sábado, permitiu que seus discípulos colhessem espigas no sábado para se alimentarem (algo não aceito pela maioria dos judeus).
      Quer outros exemplos de aparentes “quebras da Lei” e de tradições praticadas por Jesus? Ele não ensinava Seus discípulos a lavarem as mãos (Marcos 7); uma mulher com sangramento vaginal tocou nas vestes de Jesus (Lucas 8) e Ele não Se considerou impuro por isso, como criam os judeus (Levítico 15); tocou em um leproso (algo inadmissível naqueles dias) e o curou (Mateus 8); impediu o apedrejamento de uma mulher pega em adultério (João 8), como ordenava aquilo que os judeus consideravam que seria a lei...
     Mas e aí? Se acharmos que “Lei de Deus” é essa cartilha de mandamentos ou de centenas de preceitos, teremos problemas para explicar essas questões (embora eu saiba que existam várias interpretações que as pessoas dão a isso), afinal, Deus não muda (um Deus mutável não é absoluto e, portanto, não é Deus). Como Ele ensinaria algo e depois se revelaria plenamente em Cristo de forma diferente? Não considero nada coerente essa ideia, pois Deus não é Deus de confusão e nem é “bipolar”. Ele é e sempre foi Amor. O que muda é a percepção dos homens em relação a Ele.
     Jesus, o Filho de Deus, foi homem perfeito e obviamente, sem pecado, logo, não transgrediu em momento algum a Lei. Nenhum detalhe da Lei foi transgredido por Ele (não importa se é o que você chama de “lei moral” ou de “lei cerimonial”, pois Jesus ainda estava vivendo para cumprir a Lei em sua totalidade, já que a "Nova Aliança" só começaria após a Sua morte, certo?), afinal, transgredir um só ponto, segundo Tiago, é tão fatal quanto transgredi-la toda:

“Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente.” (Tiago 2:10)

     Se Jesus tivesse transgredido a Lei, seria um atestado de que Ele era mais um pecador, mais um condenado por ela e portanto, não faria sentido algum o Seu sacrifício da Cruz para livrar o homem do Pecado. Um pecador se oferecer por outros pecadores? Sem chance...

“Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.” (I João 3:4)

     Como explicar então? Simples! Jesus mostra em Sua vida a essência da Lei, o que ela realmente é. Ele deixa claro que seguir a Lei não é seguir uma cartilha, um código moral, uma lista de mandamentos, algo apenas exterior e sim, viver toda a subjetividade dela, compreendendo e assimilando sua essência. E qual é essa essência? A resposta Ele dá em Mateus 22:36-40:

"‘Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?’ Respondeu Jesus:  ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas’".

     Pronto! Jesus mostrou que a Lei não é meramente dez mandamentos dados a Moisés (eles são um resumo e aplicativo objetivo, moral, exterior, contextual, da verdadeira Lei de Deus) e tampouco a Lei divina é determinada por centenas de preceitos judaicos. Ela é muito mais profunda. A Lei é o amor pleno e perfeito a Deus e ao próximo; é o ideal divino para a vida humana. Todos os mandamentos estão sobre essa estrutura: o Amor. Não é ao acaso que Paulo diz:

"Toda a lei se resume num só mandamento: 'Ame o seu próximo como a si mesmo' ". (Gálatas 5:14)

E ainda:

“O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei.” (Romanos 13:10).


     Quer mais uma evidência da “relativização” e “ressignificação” dos mandamentos feita por Jesus?

"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.” (Mateus 5:27-28)

     Jesus deixa claro aí que aqueles que se julgam perfeitos e não pecadores por cumprirem os mandamentos, estão enganados, pois quando cumprem na objetividade (exterioridade), descumprem na subjetividade (interioridade). O que Ele está fazendo aí não é substituir os dez mandamentos por dois. Não! Ele está dizendo que os 10 mandamentos são na verdade no máximo uma forma didática, no contexto judaico, de colocar na mentalidade de um homem mau, pecador a noção mínima do ideal divino, da vontade de Deus para Sua Criação. Não é a toa que Ele diz que não veio abolir essa "lei", mas cumprir, aprofundar o entendimento dela e mostrar o quão transgressores dela somos. Deus é amor (I João 4), logo, deseja que Sua criação viva como? Obviamente em amor! E como Deus é perfeito, para termos comunhão com Ele, devemos amar perfeitamente (a Deus e ao próximo). Não é um amorzinho mais ou menos; não é amar um dia e no outro, não mais. É amar sempre e em plenitude!
     Então, de forma clara: O que é a Lei? A Lei é a santa e perfeita vontade de Deus para Sua criação; é o ideal divino para vivermos, que é o que? Amor total e perfeito a Deus e ao próximo. E como vimos, se quisermos saber o que é a Lei devemos olhar não para os 10 mandamentos, nem para a “lei cerimonial” de Moisés e sim, para Cristo, que encarnou, que viveu e que ensinou a profundidade e a perfeição da Lei de Deus. O que precede Jesus era no máximo “sombra” dessa revelação plena de Deus ao homem, realizada em Cristo. Então, dentro de uma abordagem cristocêntrica, em cada situação da sua vida, se quiser saber o que a Lei (vontade de Deus) diz para fazer, pense: "como Jesus lidaria com essa situação"?

2 – É possível cumprir a Lei? Qual o objetivo da Lei?

     Vamos com calma. Vimos que a Lei é o que Cristo encarnou e disse que era, ou seja, Lei é amor total e perfeito a Deus e ao próximo. Também concluímos que a Lei representa a perfeita vontade de Deus para Sua criação (ou seja, o ideal divino para nós é que amemos a Deus acima de tudo e que amemos nosso próximo como a nós mesmos). Sendo assim, com esse conceito de Lei em mente (e não mais o conceito raso de que lei é “antigo testamento”, “10 mandamentos” ou “normas dadas a/por Moisés”), não faz sentido achar que a Lei é ruim, ultrapassada e muito menos “torcer o nariz” quando se fala nela. A Lei é perfeita, nós é que somos imperfeitos (pecadores e maus).
     Acredito que muitos estão se perguntando: “então devo cumprir a Lei?” Pare um pouco e pense, leitor, como essa pergunta não faz sentido. Se sabemos agora que a Lei é a vontade de Deus na Terra, pergunto: “você deve cumpri-la ou não?” A resposta depende de você, se quer andar a favor do fluxo da vida (afinal a Lei, a vontade de Deus visa sempre gerar vida) ou não. Se quer, essa pergunta nem será feita, pois obviamente você almejará cumpri-la (não por obrigação, mas por consciência). Você não se diz cristão ou discípulo de Jesus? Então, um discípulo deseja ser como seu mestre, certo? Sabendo que Jesus viveu a Lei de forma perfeita, o que você deseja fazer? Entendeu agora? Não estou dizendo que um cristão desejará cumprir a Lei para ingenuamente tentar conquistar sua salvação (em outro estudo falaremos sobre isso) e sim, que é natural que, por seguir a Cristo, haja na pessoa o desejo de ser como Ele, que cumpriu a vontade (Lei) de Deus. É questão de desejar por amor, por consciência, por compreender que a Lei é maravilhosa e que só gera o bem. Se eu sei que ela é perfeita, desejarei não cumpri-la? É questão de bom senso, antes de tudo. Claro que desejarei viver essa Lei. Mas repito: Lei não é cartilha de mandamentos dados a Moisés!
     Não confunda “Lei” com a “aplicação da Lei”. A Lei é o ideal de Deus para o homem viver, sendo que essa vontade foi contextualizada ao longo do tempo. Na história de Israel isso ficou bem claro com a chamada “lei de Moisés”. Conforme lemos em Êxodo, Deus teria revelado Sua Lei a Moisés, obviamente não de forma plena (pois isso só aconteceu em Cristo), mas de forma parcial, relativa, nos 10 mandamentos. Portanto, quando lemos boa parte de textos bíblicos sobre “lei”, como várias citações de Paulo, o autor claramente se refere a essa lei aplicada no conceito judaico, por meio dos mandamentos, os quais os judeus procuravam seguir (a famosa “Torah”). Porém o significado profundo e completo da Lei foi dado por Cristo, como já vimos.
     Desejar viver a Lei não é ficar pensando em cumprir esse ou aquele mandamento e sim, desejar fazer a vontade do Pai, que é Amor e assim, automaticamente os mandamentos serão, ou melhor, seriam cumpridos. Se eu não mato apenas por me lembrar que um mandamento manda não matar, significa que ainda não entendi nada. Se penso nos mandamentos para viver, sou um mero religioso hipócrita que está seguindo uma cartilha de regras (mandamentos), que só mudam meu exterior, mas que não tem poder algum contra minha carne e que não mudam minha mente (não geram arrependimento, expansão de consciência). O que eu faço (meus atos) não é o real problema (por isso tentar seguir a Lei como sendo apenas mandamentos é tolice); o problema é o que eu sou, é a minha interioridade, é a minha essência (que é pecaminosa). O que eu faço é apenas consequência de um desejo que brota no meu interior. Meus atos são reflexos do que eu sou. Seguir mandamentos apenas é como tratar uma tuberculose tomando xarope pra suprimir a tosse. Não adianta! Tem que tratar a causa do problema e não, os sintomas.
     Uma vez entendido isso, podemos dizer então que é fácil cumprir a Lei, afinal, é só amar, certo? Errado! Jesus não facilitou as coisas. Pelo contrário, Ele, além de cumprir, aprofundou a Lei e mostrou o seu real significado. Ele deixou claro que não importa se uma pessoa segue à risca a lei revelada a Moisés, esse indivíduo não cumpre a Lei, pois a subjetividade é tão importante quando a exterioridade. Não basta vivê-la exteriormente; tem que ter um sincero desejo de vivê-la interiormente, a todo o momento. O fato de uma pessoa não se relacionar sexualmente com ninguém além de seu cônjuge não significa que não adultera, pois basta cobiçar a mulher  do próximo para atestar que já é um adúltero. Moisés era bem menos exigente que Jesus, pois o foco sempre era o exterior: “faça isso ou não faça aquilo e cumprirá a Lei de Deus”. Nem assim as pessoas conseguiam e ainda chega Jesus acabando com qualquer ideia ingênua de alguém que porventura se achasse digno e perfeito perante a lei. Se você tolamente se acha  um “cumpridor pleno da Lei”, terá que admitir que precisa, para começo de conversa, se esforçar muito para isso. Ou seja, algo dentro de você pende muitas vezes para fazer o que não deveria. Paulo fala sobre isso, dizendo: “O bem que desejo, não faço; o mal que não desejo, faço” (Romanos 7). Esse conflito afeta todos os homens. Às vezes sabemos que devemos agir de tal forma, mas não agimos ou então agimos da forma como deveríamos, mas dentro de nós sentimos que havia um desejo de não fazer essa escolha correta. Todos nós temos essa natureza pecaminosa e vivemos nesse conflito “Carne VS Espírito”. Essa é uma prova que não somos perfeitos. Somos pecadores (e em outro texto falaremos sobre o Pecado). Mas afinal, é possível ou não cumprir totalmente a Lei (amar a Deus e ao próximo de forma perfeita), já que cumprir parcialmente e nada é a mesma coisa?
     Há algumas pessoas, ainda hoje, que são adeptas do mais que refutado “Pelagianismo”. O que é isso? É uma visão teológica que surgiu no quarto século e que, de forma mais que resumida, afirma que o ser humano nasce puro, imaculado, sem nenhuma consequência do famoso “pecado original”. Ou seja: o famoso pecado de Adão não interfere em nossa natureza. Diz que o homem não é pecador, nasce com uma natureza boa, sem pecado e, portanto, ele é capaz de escolher entre ser puro ou pecar. Sendo assim, os que seguem essa visão (que é contrária a praticamente todas as demais visões teológicas, sejam protestantes, católica ou qualquer outra), dirão que é sim possível cumprir plenamente a Lei se a pessoa assim desejar. Não irei aqui aprofundar nessa refutação, mas Paulo em Romanos 3:9-12 deixa claro que não há sequer um homem que não seja pecador ou que por si mesmo faça o bem. Em Romanos 5 Paulo novamente deixa claro que em Adão todos pecaram. Dessa forma, ninguém de nós, por sermos pecadores e imperfeitos, é capaz de cumprir a Lei, que é perfeita, eterna e absoluta.
     Nós não amamos o próximo como deveríamos (ou alguém de nós sacrificaria sua vida para salvar a vida de qualquer um dos seus vizinhos, parentes ou colegas de trabalho? É leitor, no máximo daríamos a vida por aqueles de casa - Pai, cônjuge, mãe e filhos - e olha lá! Sejamos sinceros!). Além disso, você vendeu tudo o que tem para alimentar os famintos (distribuir aos pobres)? Claro que não, uma prova é que está usando neste momento um computador/smartphone/tablet para ler este texto, enquanto há milhões de pessoas sem um pão pra comer. Ninguém de nós ama a Deus sobre todas as coisas (quantas vezes diversos desejos, eventos ou pessoas tornam-se o foco de nossa vida? Quantas vezes pecamos, erramos e depois corremos para pedir perdão? Se amássemos a Deus sobre todas as coisas, jamais faríamos nada que não fosse a vontade de Deus).  Nem aqueles que dedicam a vida em prol de outros conseguem ser perfeitos. A mínima falha, erro, equívoco, é imperfeição e a Lei é clara: "qualquer um que tropeça em um ponto dela, é culpado dela toda" (Tiago 2). Justamente porque fazer a vontade de Deus significa ser perfeito. Por isso a única forma de agradar a Deus é descansar em Cristo; é desistir de nossos méritos (que não temos) e mergulhar de cabeça no Evangelho, na perfeição de Cristo. A justiça dEle é contada em nosso favor. Entende por que nossa salvação é somente por Cristo? Pois somente Ele conseguiu ser perfeito. Crer nEle é descansar que Ele fez por nós o que jamais poderíamos fazer.
     Leia Mateus 5 e verá o quão distante o homem está do cumprimento da Lei: Não adianta não matar, pois caso fique irado contra alguém, já será um assassino; não adianta não fazer sexo e desejar tomar a mulher do próximo, pois será adúltero; não deve ficar jurando, ao contrário, sua palavra deve ser sempre verdadeira (se falou, deve acontecer); não deve jamais revidar uma afronta; jamais deve “pagar com a mesma moeda”; se alguém lhe maltrata, faça o bem a ele; se uma pessoa lhe obriga a fazer algo que não está disposto, faça o dobro do que ele exige; perdoe a todos quantas vezes for necessário; ame incondicionalmente seus inimigos. E no último versículo desse capítulo, Jesus mostra quem realmente somos e “joga em nossa cara”:

“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês".

     Aqui é que as pessoas se complicam. Muitos acham que, por Jesus ter dito para sermos perfeitos, significa que conseguiremos, pois se não fosse possível Ele não ensinaria. Não, leitor! É o contrário! Ele nos diz para sermos perfeitos (como Deus é perfeito) justamente para “cair nossa ficha”, para entendermos que, para ter comunhão com o Pai Eterno, para cumprir a Lei (afinal Ele é a revelação plena da Lei, lembra?) é preciso ser perfeito como Ele é. Mas homem nenhum é perfeito. Somos meras criaturas dependentes do Deus perfeito. É isso que Ele está nos mostrando com esses ensinos: “Vocês são incapazes de ser perfeitos como exige a Lei de Deus. Vocês não podem agradar a Deus por vocês mesmos.” Jesus, ao que parece, pretendia causar um “choque” de realidade no ouvinte. Não é a toa que diz: “se sua mão lhe faz pecar, arranque-a!” É para entendermos a gravidade da nossa situação, do nosso pecado, e não para arrancar a mão literalmente. 
     A função da Lei de Deus (vontade de Deus) é resumida por teólogos em um tripé: Freio, espelho e norma. Explico: A aplicação dessa Lei de Deus ao homem tem a função de frear o instinto perverso humano. Quando se diz, por exemplo: “Não matarás”, é uma forma de frear as consequências de nossa maldade, ou seja, o assassinato; tem a função também de espelho, ou seja, de fazer o homem enxergar que ele é mau, pecador e carente da Graça divina (quando ele percebe sua incapacidade de ser perfeito como exige a Lei). Veja que Paulo confirma isso:

“A lei foi introduzida para que a transgressão fosse ressaltada. Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça.” (Romanos 5:20)

 “Que diremos então? A lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: 'Não cobiçarás' ". (Romanos 7:7)

     A Lei tem ainda a função de normatizar a vontade divina, ou seja, ela mostra ao homem que o Pai deseja que vivamos em amor, como já vimos.
     Mas uma vez que a Lei nos mostra o quão afastados estamos de Deus pelo Pecado, ela é condenação a nós, afinal, ninguém consegue se justificar por ela. Ninguém consegue viver da forma como Deus nos criou para que vivêssemos. Quando isso entra em nossa mente, percebemos: “sou um nada, minhas obras são trapos de imundície perante Deus, não posso fazer nada para me salvar. Mereço a condenação”. Perfeito! Quando entendemos isso e declaramos essa nossa incapacidade e nossa falência total perante a perfeição divina, estamos prontos para experimentar o Evangelho. Isso mesmo! Diante dessa condenação pela Lei é que entra o Evangelho. E aí a coisa muda totalmente de figura. Como assim?

     Até aqui vimos que é bem mais coerente fazer um dualismo entre “Lei e Evangelho” do que entre “Lei e Graça”, afinal, Graça é o favor imerecido de Deus pela Criação. A própria criação é um ato de suprema Graça; a relação dEle conosco é e sempre foi Graça; a salvação é Graça; a manutenção da existência, apesar do pecado, é Graça; o amor de Deus por nós é Graça. Tudo o que há é fruto da Graça de Deus. Aprendemos que a Lei é a Vontade de Deus, o ideal divino para Sua Criação, certo? Portanto, a Lei também é Graça! Ambas caminham sempre juntas.
     Em seguida concluímos que, como a Lei (explicitada a nós de forma plena em Jesus) é perfeita e exige de nós que sejamos perfeitos (assim como é Deus), ela nos condena, pois não conseguimos alcançar esse status por causa do nosso Pecado. A Lei nos mostra quem somos (é um espelho). Porém, para resolver o problema dessa inevitável condenação, chega o Evangelho, o ápice da Graça divina!

3 - Mas afinal, o que é o Evangelho?

     Evangelho significa “boa nova” ou “boa notícia”. Alguns defendem teologias que dizem: "O Evangelho é salvação só pra alguns (eleitos), mas para os outros é uma sentença de morte". Mas vamos pensar: onde há "boa notícia" em uma sentença de morte? Quando se fala em fé, sentença de morte não é boa para ninguém. Não é boa para o sentenciado, nem pro sentenciador, afinal, o cristianismo defende o Deus que "não deseja que ninguém se perca" (II Pedro 3:9). E se Deus desejasse que alguns se perdessem, não seria amor, como João O classificou. Não sendo boa notícia, não pode ser evangelho. É até questão de lógica, bom senso e coerência! Quanto às consequências de viver na alienação da Lei divina (poderia-se questionar sobre o fato dela dar uma sentença de morte - e é isso que ela faz, embora o Evangelho dê uma sentença de vida) é assunto que dá margem a discussões infindáveis, mas no mínimo devemos assumir que uma eventual sentença de morte não seria evangelho e sim, a rejeição dele, a escolha deliberada em nadar contra o fluxo de salvação/vida trazido pelo evangelho. Evangelho é notícia de vida, sempre! A única morte no contexto do Evangelho é a de Cristo e mesmo assim vem acompanhada pela ressurreição.
     Há inúmeros evangelhos (por exemplo, quando Roma dominava um território, ela levava o seu evangelho, a sua “boa” notícia), sendo que o evangelho aqui defendido é o que julgo ser o de Jesus Cristo. O apóstolo Paulo o chamava de “o meu Evangelho” e ainda de “O Evangelho de Deus”, que nada mais era do que a percepção do apóstolo do que fosse esse evangelho. Portanto, evangelho é o anúncio em Cristo (a boa notícia) de que, apesar de estarmos condenados pela Lei, Ele se entrega em nosso favor, para a nossa salvação. Evangelho é a boa notícia que Cristo assumiu o nosso lugar, cumprindo a Lei (não apenas no sentido de vivê-la integralmente, mas também encarando as consequências da transgressão dela praticada por nós). Jesus foi o representante do homem perante Deus. Como assim? Lembra que todos transgredimos a Lei e que, portanto, somos pecadores (I João 3:4)? Então, e Jesus, mesmo sem ter pecado, morreu em nosso lugar. Mas por que isso? Pois "o salário do pecado é a morte" (Romanos 6:23). Ele morreu para que nós, por esse ato de Graça, tivéssemos vida (eterna e em abundância) e fôssemos religados a Deus (pois tínhamos sido separados dEle pelo Pecado).

“Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não lançando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.” (II Coríntios 5:19)

     Mas veja bem: a morte é consequência do pecado e como Jesus não tinha pecado, a morte não poderia retê-lo e então, ao terceiro dia, ressuscitou.
     Em outras Palavras, Jesus é a revelação perfeita da Lei (como o homem deve ser, como deve se relacionar com Deus e com o seu próximo) e ao mesmo tempo é a revelação perfeita do Evangelho (o anúncio de que, embora o homem não seja como deveria, Deus, por Graça, o reconcilia conSigo). Entendeu agora? A Lei sem Evangelho é condenação! O Evangelho sem a Lei não tem sentido, pois anunciaria a salvação de que? Só sei que sou pecador e carente da Graça de Deus quando sou confrontado pela Lei, pelo modelo que não consigo seguir perfeitamente. Esse conjunto Lei + Evangelho é o que chamo de “Palavra de Deus”. Não é a toa que em João 1 lemos que o Verbo/a razão da criação/a Palavra de Deus se fez carne (ou seja, a Palavra de Deus entrou na história, no tempo e no espaço) em Cristo. Portanto, Jesus é a Palavra perfeita de Deus revelada ao homem, Palavra esta que é Lei + Evangelho. Lei para nos mostrar quem somos e para nos deixar o modelo, o ideal, o alvo; Evangelho para nos mostrar que Deus nos salvou apesar de nossa imperfeição.

     Cito aqui um comentário bem antigo do amigo filósofo Joel Costa:

“A Lei fica como mira, mas jamais nessa vida será concretizada. E este é justamente o escândalo do Evangelho: Você não irá, nem por um só dia, adequar-se às demandas da Lei. Você não será outra coisa senão pecador/rebelde por um só minuto de sua vida (nem antes e nem depois de crente). Agora pare de olhar para si e olhe para Jesus, de quem vem o perdão, a reconciliação e a promessa de transformação eterna."

     Não sei se ficou claro, mas o Evangelho não é (segundo essa interpretação que estou apresentando) o anúncio que você agora é capaz de cumprir a Lei e que, a partir disso, pode conquistar a sua salvação (assim seria uma salvação consequente ao seu esforço e ao seu mérito, mesmo que essa capacidade lhe tenha sido dada por Graça). Não! Evangelho é o anúncio que, apesar de você ser pecador e incapaz de cumprir a Lei, Cristo veio e cumpriu a Lei divina por você. Foi um sacrifício vicário (em seu lugar). Se ficar preocupado se está fazendo por merecer a sua salvação (se está cumprindo a Lei ou a vontade de Deus), estará agindo como os judeus dos dias de Paulo, que estavam “caindo da Graça”.
     Você não tem débitos com Deus, pois Cristo pagou tudo por você; também não tem crédito algum, pois tudo o que recebe é sem merecer (por Graça). Você não tem que viver a Lei para ser religado a Deus; você foi religado a Deus e o chamado de Cristo é para crer nisso, arrepender-se (expandir sua consciência para essa nova realidade) e assim, olhar para Jesus como um discípulo olha para seu mestre, desejando imitá-lo, ou seja, almejando viver, dentro da sua limitação, a Lei (vontade) de Deus. Ou seja: Você não deve procurar fazer a vontade de Deus PARA... (ser reconciliado, ser salvo, ser justificado...). Você deve procurar fazer a vontade de Deus PORQUE... (foi reconciliado, foi salvo, foi justificado). Enquanto não tirar o foco de você (assumindo sua incapacidade) e não olhar exclusivamente para Cristo, será uma mera criatura ingênua e prepotente, que se acha o foco de tudo. Não! O foco é a Cruz. Você é apenas vítima dela.
     Quem é “quebrado pela Lei” (entendendo que é pecador) e entende o abraço de Deus no Evangelho (nos tornando justos perante Ele), fica liberto de toda culpa por “pecar”, de todo medo de perder a salvação (como se fosse algo que dependesse do indivíduo) e do interesse por qualquer coisa neste mundo. Deus nos deu a vida eterna, o perdão, a reconciliação. Você continua sendo humano, limitado e pecador. Porém agora é um humano justificado em Cristo; é um humano que crê em Sua obra redentora. É justo e é pecador ao mesmo tempo (a famosa expressão teológica “simul justus et peccator”). Se você se considera meramente pecador, está vivendo na condenação, sem entender a salvação; caso se considere apenas justo, estará olhando sempre para você (afinal um justo jamais “peca”), para suas obras e não, para a Obra de Cristo na Cruz por você. O foco está errado!

      Resumindo: a Lei, por ser perfeita, quando exposta a nós (imperfeitos), evidencia nossa transgressão, nosso distanciamento dela e de Deus (o Pecado). Sendo assim, como não somos o que deveríamos, ela é condenação a nós. Porém, na Cruz, esse problema foi definitivamente resolvido. Como? Fazendo-nos capazes de cumprir a Lei (veja que essa noção coloca o foco em nós)? De forma alguma! Quem assim pensa, deve ainda ser confrontado muito mais pela Lei, para ver o quão distante continua dela, por mais que se julgue convertido e transformado pelo Espírito Santo. A Cruz resolve o problema reconciliando-nos com Deus, sem que isso dependa de nosso sucesso no cumprimento da Lei. Como diz Paulo em Romanos 5:8 e 10:

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.”

“Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.”

     Nossa reconciliação com o Pai vem do sacrifício de Cristo. Isso acontece quando deixamos de ser pecadores? Não! A reconciliação não depende do homem; depende de Deus. Por isso é Graça! Não é uma notícia maravilhosa? Por isso é Evangelho! E pensar que essa mensagem soa como escandalosa e "liberal" para muitos que se dizem cristãos. É só tirar o foco do homem e colocar totalmente em Cristo que começa o incômodo (alguns até chamam de "Graça barata"), afinal, se não temos participação, como manter as pessoas sob controle, no "cabresto"? O pensamento da maioria é: “Ah, se assumirmos que é assim, que não temos papel algum em nossa salvação e pregarmos isso, o povo descamba”...
     A Lei não pode lhe salvar, sabe por quê? Porque você não pode cumpri-la! Ela não foi revelada para que alguém a cumprisse e, por consequência, fosse salvo. Ela foi revelada para mostrar ao homem sua incapacidade de ser “imagem e semelhança de Deus” como deveria, e portanto, colocar na consciência desse homem que ele depende totalmente de Cristo. A Lei é a “placa” que aponta para a Cruz.
     A Lei de Deus não diz: "Seja uma boa pessoa"; Ela diz: "Seja perfeito!" Porém o Evangelho diz: "Você sequer consegue ser sempre uma boa pessoa, então claro que não conseguirá ser perfeito. Mas mesmo na sua sincera imperfeição Deus ama, reconcilia, salva e justifica você. Agora viva nessa consciência, como deve viver quem participa do Reino de Deus, onde só usufrui da vida eterna e em abundância quem se arrepende (quem muda de mentalidade e expande a consciência), quem entrega-se a essa realidade."

     Quer cumprir a Lei? Só tem um jeito: descansando nos méritos de Cristo. Crendo que Cristo a cumpriu por você. E só isso? Não! Creia também no significado da ressurreição. Temos a promessa de que um dia seremos transformados plenamente à imagem de Cristo (Romanos 8) e a Lei será vivida por nós de forma natural, pois ela estará gravada em nosso coração. Enquanto isso, descanse no que foi feito por Graça. Por amor e por gratidão procure viver o mais perto que pode do ideal de Deus, revelado em Jesus, sem medo ou culpa, e sempre pacificado e com fé que um dia será completamente transformado, a ponto de Jesus ser chamado de "o primogênito entre muitos irmãos", tamanha nossa semelhança com Ele. 
     Você não deve viver pecaminosamente (deliberadamente na imoralidade) e sim, procurar viver a vontade, o ideal, a Lei de Deus (lembrando que não falo meramente da lei revelada a Moisés...), mas por quê? Não é pelo fato da reconciliação de Deus com você depender de seus méritos, mas porque aquele que toma consciência de que foi reconciliado em Cristo não consegue viver de forma oposta ao ideal de Deus (Lei divina). O amor de Deus nos constrange a todo o momento. É como o filho pródigo, que após ser acolhido depois de tantos erros, constrangido diante do amor imerecido do pai, jamais teria disposição para viver novamente de forma que o desagrade.
     Esqueça de uma vez essa ideia de que a Lei de Deus é uma cartilha de regras morais ou uma lista de mandamentos. A Lei de Deus é santa, pura, é a vontade de Deus para nós, é um caminho “ético” que gera vida. E esse caminho de vida foi sendo aplicado progressivamente pelo homem na história de diversas formas, sendo que temos informações claras (nas escrituras) do contexto de Israel, que foi o povo que concentrou essa consciência explícita (Cristo) da revelação de Deus ao homem (embora a revelação de Deus se dê a todos, como Paulo deixa claro em Romanos 2). Dessa forma, vemos a Lei de Deus sendo aplicada ao longo do tempo pelos mandamentos de Moisés, pelos ensinos dos profetas... Até que um dia essa revelação se tornou plena e perfeita na história, quando foi encarnada em Cristo. Ou seja, uma pessoa que deseja colocar a Lei de Deus como alvo de vida deve olhar para onde? Para Moisés? Para os profetas? Para os 10 mandamentos? Ou deve olhar para Cristo, que viveu, ensinou e aprofundou toda essa consciência da Lei? Obviamente deve olhar para Jesus. Em cada situação de sua vida, coloque Jesus. Imagine como Ele lidaria com cada situação (de pensamentos a ações). Isso lhe mostrará qual é o aplicativo da Lei de Deus em cada momento de sua vida. Em outras palavras: a Lei de Deus não é uma regra fixa em todos os contextos. A Lei de Deus é amor perfeito a Deus e ao próximo, de forma que pode ter um aplicativo em uma dada situação e outro aplicativo em outra situação. Cada escolha e cada atitude deve ter como meta o amor. Ou você acha que devemos aplicar os mais de 600 preceitos da lei de Moisés em nossa vida? Claro que não! Inclusive alguns são para nós absurdos, porém faziam parte do que na mentalidade judaica era demonstração de amor a Deus. Não quer dizer que Deus aprovava o apedrejamento, por exemplo, e sim, que na compreensão daquele povo, exterminar o pecador iria ter algum efeito contra o pecado, logo, seria uma forma de viver “em amor a Deus”. Em Cristo é que recebemos um parâmetro humano concreto do que realmente é demonstração de amor (inclusive vendo que esse apedrejamento é absurdo) tanto a Deus, quanto ao próximo. E pelo fato de a Lei de Deus ser uma essência (amor) e não uma cartilha é que aprendemos com os apóstolos a não questionar se algo “é pecado ou não” e sim, se convém, se edifica, se gera amor ou não...
     E agora segue uma dica: sempre que estiver lendo as escrituras, faça um exercício. Identifique em cada trecho (não importa onde esteja escrito, se é em um livro do Antigo ou do Novo Testamento) o que ali é Lei e o que ali é Evangelho. Como fazer isso? Simples: sempre que tiver uma instrução para que o homem faça algo, é Lei; sempre que houver o relato de algo que Cristo fez por nós, é Evangelho. Exemplo:

"Portanto recebei-vos uns aos outros (é uma instrução para o homem fazer, logo, é Lei), como também Cristo nos recebeu para glória de Deus (Cristo fez por nós, logo, é Evangelho)". (Romanos 15:7)
Viu como em uma mesma frase podemos encontrar tanto Lei, quanto Evangelho? Ficou claro?

     Como sei que algumas pessoas citam alguns textos bíblicos e alguns argumentos na tentativa de alegar que essa abordagem que apresentei não é válida, vou adiantar a análise de vários deles. Vamos lá:

- “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10:4)
     A palavra “fim” aí não significa "término" e sim, “finalidade”, "objetivo". Ou seja: A função/finalidade da Lei é levar-nos a Cristo, para que nEle sejamos justificados.

- “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.” (Mateus 24:12).
     O que é argumentado é que “iniquidade” significa “negação da Lei”, sendo assim, deveríamos adotar a lei de Moisés (pelo menos a chamada “lei moral”, que seriam os 10 mandamentos). Mas leitor, você se lembra da nossa definição de Lei? É a vontade/ideal de Deus para vivermos, é amor pleno a Deus e ao próximo (que gera automaticamente coerência com os 10 mandamentos). Então é óbvio que negar a Lei, que em essência é amor, gera esfriamento desse amor, como diz o versículo bíblico.

- “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.” (João 15:10)
     Claro que Jesus guardava os mandamentos de Deus (que é amar em plenitude e agir apenas de forma coerente com o amor – por isso Ele permanecia no Amor do Pai, já que os mandamentos são 100% amor) e mesmo assim religiosos judeus o acusavam de não guardar plenamente a lei de Moisés, seja em preceitos diversos ou na guarda do sábado (quando curou, quando permitiu que seus discípulos colhessem espigas...). Ou seja: claramente os mandamentos de Deus vão muito além da interpretação judaica de mandamentos ou simplesmente da exterioridade dos 10 mandamentos revelados em Moisés. E cuidado para não interpretar esse trecho como se aí estivesse colocando uma condição (obedecer aos mandamentos) para que a pessoa seja amada por Cristo e por Deus. 

- “E, voltando elas, prepararam especiarias e unguentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento.” (Lucas 23:56)
     Texto usado para dizer que a lei de Moisés (guarda do sábado) continuou sendo seguida após a morte de Jesus, logo, a lei (mosaica) continua válida. Gente, novamente tenho que dizer o conceito que adotamos de Lei? Não é meramente 10 mandamentos; Lei é a vontade de Deus, que é amor perfeito. Eles eram judeus e obviamente continuaram seguindo os 10 mandamentos como sendo exterioridade, embora Jesus tenha dito que viver os mandamentos não significasse meramente seguir essa cartilha. Não adiantaria não matar, se o coração fosse irado, por exemplo. 
     Da mesma forma, Ele deixou claro que o sábado foi criado para o homem (fazer o bem, demonstrar amor) e não para que o homem se tornasse escravo de um dia da semana. Não há problema nenhum em tentar seguir a exterioridade da lei, desde que tenhamos essa consciência (que não conseguiremos de forma perfeita, isso que nem falo da interioridade dela, e que ela não é capaz de nos justificar). Seguir essa exterioridade da lei apenas porque é sadio e gera vida, sem problemas. Mas se há qualquer tentativa de autojustificação e de autossantificação nisso, é lamentável.

- “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei.” (Romanos 3:31) e  “... assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom.” (Romanos 7. 12)
     Claro que nada anula a Lei, pois a Lei é a vontade de Deus, logo é santa, boa, eterna e imutável. O que Paulo está dizendo no contexto (do primeiro versículo) é que não somos justificados pelas obras da Lei, ou seja, a Lei nos manda ser perfeitos, certo? Mas não seremos justificados pela nossa tentativa de ser perfeitos e sim, por Cristo. Aí ele conclui: então porque temos fé em Cristo a Lei deixa de valer? Não! Ela continua sendo o alvo, porém nós não seremos justificados por ela (até porque nem conseguimos cumpri-la na íntegra).

- “Se queres, porém, entrar na vida eterna, guarda os mandamentos de Deus.” (Mateus 19:17)
     Primeiramente devemos ler todo o contexto deste trecho (pelo menos do versículo 16 ao 26). O jovem rico pergunta a Jesus o que deve fazer para herdar a vida eterna. Então Jesus lhe dá essa resposta, sendo que ainda a completa, citando vários mandamentos do decálogo (“10 mandamentos”).      O jovem, ouvindo Jesus citando mandamentos, responde: “Eu já guardo esses mandamentos todos” (na ingênua prepotência de achar que os mandamentos são meramente regras de exterioridades. Ou seja, o jovem provavelmente não os guardava, mas assim como muitos dos fariseus, achava ou dizia que guardava). Jesus então aperta o rapaz, acabando com toda essa arrogância: “Então já que faz isso tudo, já que é tão bom como diz, venda toda sua riqueza e dê aos pobres. Assim será perfeito e para que você conquiste a vida eterna - pois você perguntou o que precisa fazer de bom para isso - tem que ser perfeito!”. Pronto, o rapaz então viu que nem mesmo um suposto cumprimento da exterioridade dos mandamentos o tornava digno de ter vida eterna. E no versículo 26 Jesus explica: “É impossível o homem conquistar sua salvação, a vida eterna e entrar no Reino de Deus. Essa é uma prerrogativa divina. Deus é quem salva e quem concede a vida eterna. Não é por mérito humano, pois até mesmo aqueles que se acham perfeitos, são falhos e limitados!”.       Viu como não é tentando guardar mandamentos que você é salvo?

- “Porque Abraão me obedeceu e guardou meus preceitos, meus mandamentos, meus decretos e minhas leis”. (Gênesis 26:5 ).
     Isso só comprova o que tenho dito: a Lei de Deus está muito acima das leis de Moisés. Abraão viveu antes dessa revelação histórica da lei em Moisés e mesmo assim vivia para obedecer a Lei (vontade de Deus).

- “Se não há mais lei, não há pecado, pois Pecado é a transgressão da lei”, como diz I João 3:4.
     Realmente, mas qual lei? A Lei de Deus (eterna) e não meramente a lei mosaica! Tanto é que o pecado existe muito antes da lei ser dada a Moisés, o que evidencia que a Lei divina não é simplesmente a revelação dos 10 mandamentos. A Lei é a Vontade perfeita de Deus, certo? O pecado é esse afastamento do homem em relação de Deus, ou seja, a distância entre o que somos e o que deveríamos ser (perfeitos). A revelação da Lei de Deus na história não fez SURGIR o pecado; ela apenas o EVIDENCIOU o pecado (mostrou ao homem que ele é pecador).

- “Ninguém é salvo por guardar a lei, mas quem é salvo guarda a lei, ou seja, tem prazer na lei de Deus”.
     Não concordo, no que diz respeito ao tema deste estudo, pelo seguinte: ninguém guarda a Lei e foi exatamente isso que Jesus deixou claro a nós (quando achamos que cumprimos na exterioridade, a interioridade nos denuncia). No máximo nós procuramos viver a Lei (Vontade de Deus). Isso sim é que deve ser nosso objetivo, mas sabendo que neste mundo jamais teremos êxito, pois cumpri-la significaria SER PERFEITO. Ela é o alvo ao qual nunca alcançaremos, mas do qual nunca desistiremos.

- “Se Jesus tivesse mudado ou abolido a lei, não haveria necessidade dEle morrer, pois ela não nos condenaria.”
     Jesus não mudou nem aboliu a Lei, pois a Lei é eterna (lembra qual é a definição de “lei” que desenvolvemos até aqui?). A Lei é o ideal de Deus para nós. A lei de Moisés é que é o aplicativo contextualizado, histórico, dessa lei divina na consciência de Israel. A Lei de Deus, que exige perfeição, é imutável e por isso ela nos condena. E é nesse contexto que entra o Evangelho: Jesus sendo nosso representante perante Deus, cumprindo a Lei, sendo perfeito, nos livrando da consequência da condenação da Lei.

- “A lei de Moisés é apenas arquétipo, simbolização, sombra de Cristo, mas a Lei de Deus é eterna. Sendo assim os 10 mandamentos valem para todos os povos em todas as épocas.”
     Volto a repetir: Lei de Deus não é o conjunto dos 10 mandamentos. Os mandamentos refletem a essência da Lei de Deus, que é amor PERFEITO a Deus e ao próximo. Obviamente que, se não matar e não roubar refletem a Lei de Deus (amor), não devo desejar matar e roubar. Porém isso não é meramente pelo fato de estar nos 10 mandamentos e sim, pelo fato de estar incluído no "Ame a Deus e ao próximo" (a essência da lei) ensinado por Jesus.

- “A lei reflete o caráter de Deus, logo se ela muda, significa que Deus muda?”
     O que reflete o caráter de Deus é a Lei de Deus, que é amor perfeito a Deus e ao próximo, sendo esta a vontade de Deus para nossa vida. Ela não muda. É eterna. O que muda é a compreensão e a forma de aplicação de cada povo acerca dessa Lei, sendo que a compreensão perfeita nos foi revelada em Cristo. Quer conhecer o caráter de Deus? Olhe para Cristo, pois Ele é a encarnação perfeita da Lei divina.

- "Jesus não ensinou a não guardar o sábado e sim, a guardá-lo corretamente".
     Já comentei um pouco sobre o sábado em vários locais deste estudo até aqui. Mas continuando: Jesus guardava os mandamentos de Deus (que é amar em plenitude e agir apenas de forma coerente com o amor) e mesmo assim religiosos judeus o acusavam de não guardar plenamente a lei de Moisés, seja em preceitos diversos ou na guarda do sábado (pois curou nesse dia e permitiu que seus discípulos colhessem espigas, por exemplo). Mas poderia Jesus, sendo perfeito, transgredir a Lei de Deus? Jamais! Ou seja: claramente os mandamentos de Deus vão muito além da interpretação judaica de mandamentos ou simplesmente da exterioridade dos 10 mandamentos revelados em Moisés. Jesus deixou claro que o sábado foi criado para o homem (fazer o bem, demonstrar amor) e não, para que o homem se tornasse escravo de um dia da semana. Não há problema nenhum em tentar seguir a exterioridade da lei (por exemplo, elegendo o sábado na semana como um dia específico para uma reflexão, para uma dedicação maior de tempo em meditação na Palavra de Deus, já que nos outros dias trabalhamos, estudamos...), desde que tenhamos essa consciência (que não conseguiremos de forma perfeita cumprir essa lei - isso que nem falo da interioridade dela - e desde que tenhamos na mente que ela não é capaz de nos justificar). Seguir essa exterioridade da lei apenas porque é sadio e porque gera vida, sem problemas. Mas se há qualquer tentativa de autojustificação, de autossantificação nisso ou se acha que sua salvação está condicionada à Lei, é lamentável.
     Alguns atualmente são sabatistas mas usam isso mais como uma "disciplina espiritual". Para quem acha isso útil (é individual), ok. Pra mim, por exemplo, não é. A questão que vejo é a mesma do jejum de alimentos ou de intermináveis períodos de oração. Para alguns serve como uma disciplina espiritual e a pessoa passa a deixar de olhar para si para mergulhar nessa consciência de fé. Para outros, o efeito é o contrário: fica arrogante, prepotente, se julga mais santo ou com mais unção do que aquele que não age da mesma forma... Ou seja: infla o Ego e ao invés de deixar de olhar para si e passar a olhar apenas para a Cruz, aí é que olha para si mesmo. Acaba prejudicando. Enfim, essa "consagração" do sábado, segundo muitos estudiosos, precede a cultura judaica. Achar que fazer algo de diferente no sábado nos torna mais apresentáveis perante Deus, pra mim, é incoerente com o todo da Palavra revelada em Cristo. Se vamos separar um dia da semana para fazer algo a mais do que nos outros dias, é prova que estamos sendo negligentes nos 6 dias restantes, pois deveríamos dar tudo de nós em todo o tempo. O sábado da lei dada a Moisés tem muito mais a ver, na minha compreensão, com a consciência de que tudo vem de Deus, sendo que o foco de nossa vida deve ser Ele. É como uma exterioridade do que Jesus revelou: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça...” (Mateus 6:33).
    Mas enfim, guardo ou não o sábado? Claro que sim! Da mesma forma que deve guardar todos os demais dias. Achou que Jesus facilitou? De forma alguma! Ele aprofunda todos os 10 mandamentos. Se em Moisés é visto para guardar um dia, em Jesus aprendemos a guardar todos os dias, afinal, aquilo que você deseja no sábado, aquela entrega e comunhão que tem no sábado, deve ser a sua essência, o seu desejo interior. Logo, é impossível ter uma essência de desejo por Deus no sábado e uma essência bem mais “light” nos demais dias. Devemos guardar o dia todo, todo dia. Não de forma hipócrita e improdutiva como faziam muitos fariseus (com supressão de atividades rotineiras), mas como Jesus ensinou: fazendo sempre o bem, priorizando o próximo e derramando sobre ele o amor. Agora se vai ou não realizar algo em especial no sábado, é escolha de cada um...

- "Todo aquele que pecar sem a lei, sem a lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a lei, pela lei será julgado." (Romanos 2:12).
     Se pecado é a transgressão da Lei e Paulo aí está falando sobre pecado de quem não está sob a lei, significa que a Lei genuína não é meramente a lei mosaica. Além disso, em Romanos 5:13-15 observamos Paulo dizendo que o pecado vem antes da lei de Moisés, ou seja, não é ela quem define o pecado; ela apenas mostra ao homem que ele é pecador. O que define o pecado é a não adequação à Lei de Deus, que é amor. Somos pecadores pois não amamos com perfeição.

- “Porque não são os que ouvem a lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à lei, estes serão declarados justos.” (Romanos 2:13)
     O que Paulo está ensinando neste contexto? Que não são os que tiveram a revelação histórica explícita da lei (ou seja, os judeus) que são justos e sim, os que colocam a lei como alvo de vida. Não é questão de conhecer e sim, de viver! Tanto é que no próximo versículo ele fala daqueles (não judeus) que não tinham essa informação histórica da lei de Moisés, mas que viviam no sentido de aplicar a Lei de Deus em suas vidas.
     Então basta eu viver a Lei e serei justificado? Sim e não. "Sim", porque você seria justificado caso fosse capaz de cumprir a Lei (lembrando que significa “ser perfeito”); "Não", porque como ninguém cumpre a Lei (que exige perfeição), ninguém é justificado por ela. A nossa impossibilidade de cumpri-la denuncia nosso estado de pecado e só podemos ser justificados mediante a perfeição e sacrifício de Cristo. Por isso concordo com Martinho Lutero quando diz que somos justos e pecadores ao mesmo tempo (“simul justus et peccator”). Nossa essência é pecadora, mas em Cristo somos feitos justos. O sacrifício dEle conta em nosso favor.

- “Se diz que por mais que tentemos, neste mundo nunca seremos perfeitos, quem desejará tentar? É como querer que um funcionário se dedique, sabendo que nunca será promovido."
     Esse argumento reflete a motivação de um indivíduo que diz servir a Cristo. Não é por gratidão e por adoração que essa pessoa é “cristã” e sim, por interesse. É a mesma mentalidade judaica: “faço algo para Deus e EM TROCA Deus me dá benefícios”. Neste caso, mesmo não sendo necessariamente um benefício “palpável”, é um interesse (prepotente e ao mesmo tempo, ingênuo) de alcançar a perfeição neste mundo, por esforço próprio. Seremos perfeitos um dia, quando em um corpo transformado, estivermos gozando a eternidade nos braços do Pai. Neste mundo, não. Acertamos, erramos, caímos, levantamos, pecamos, confessamos, nos arrependemos, tomamos posse do perdão e prosseguimos no caminho. Essa é a vida cristã.

- "Jesus aboliu a lei de Moisés, mas aboliu apenas as centenas de preceitos da lei cerimonial e não a lei moral (10 mandamentos)"
     Não é que Jesus aboliu parte da lei de Moisés. Ele não aboliu. Ele cumpriu a Lei de Deus e consequentemente tudo o que na lei de Moisés era coerente com a Lei de Deus. A lei de Moisés nada mais é do que a aplicação contextualizada/circunstancial da Lei de Deus, que é Amor pleno a Deus e ao próximo. Para entendermos os 10 mandamentos e os mais de 600 preceitos da lei mosaica, devemos entender o que os judeus consideravam, naquela época, "amar a Deus e ao próximo". Para eles era o que? Era defender o monoteísmo e defender seus critérios de justiça a todo custo, mesmo que fosse necessário derramar sangue. Jesus evidenciou a essência da Lei (amor) e aprofundou esse aplicativo judaico. Jesus não facilitou; Jesus dificultou, pois mostrou que a Lei não é apenas exterior, mas também interior. (Tão "pecado" quanto tomar a mulher do vizinho é ter esse desejo... Tão "pecado" quanto não guardar o sábado é não guardar todos os outros dias, ou seja, deixar de fazer o bem a todo o momento, a todas as pessoas, como na parábola do bom samaritano... e assim por diante)...
     O que era amar ao próximo para um judeu? Era respeitar o direito dele, não matando, não roubando, não tomando a mulher dele, respeitar pai e mãe... E o que era demonstração de amor a Deus na mente de um judeu? Era lutar pelo monoteísmo (não ter outros deuses), não adorar imagens de esculturas (deveriam ser diferentes do paganismo), separar um dia exclusivo para dedicar-se integralmente a Deus... Por isso quando a Lei de Deus (que é amor), foi revelada aos judeus, foi aplicada dessa forma nos mandamentos. Ou seja, os 10 mandamentos não são a Lei de Deus em si; são a aplicação da Lei de Deus no contexto judaico. Deus deu esses 10 mandamentos a Moisés, pois era isso que traria a eles essa consciência. Se Deus fosse dar 10 mandamentos ao Brasil hoje, como seria? Talvez fosse: "não darás mais atenção a aparatos tecnológicos do que à sua família; não se envolva em corrupção; preserve o meio ambiente; não aceite um evangelho de barganhas; não fure fila; sirva a Deus através da vida do seu próximo; ajude os mendigos..." Tudo tem um contexto. A Lei de Deus é imutável (e ela é amor a Deus e ao próximo), mas a revelação dela é contextualizada. Da mesma forma são os mais de 600 preceitos da lei mosaica. Todos tinham um significado claro para eles.
     Outro exemplo: Se eu sei que sou diabético e sei que não resisto a um bolo recheado e acabo comendo e parando no hospital, qual é a Lei de Deus pra mim? "Mantenha-se longe de docerias", afinal, se isso vai me prejudicar e prejudicar as pessoas que me cercam, não é coerente com a Vontade de Deus (amor), logo, é contra a Lei de Deus. Se eu sei que redes sociais me prendem o dia todo e atrapalham meu relacionamento, qual é a lei de Deus pra mim? "Afaste-se delas e preserve seu relacionamento..."
     A Lei divina sempre visa gerar amor. Na lei de Moisés observamos muita coisa que para nós não tem sentido (como cuidados com a barba e com modelos de roupas), mas que para eles, naquele momento, fazia sentido e demonstrava de alguma forma que Eles adoravam a Deus. Agora obviamente algumas coisas (apedrejar um pecador, por exemplo) ferem esse amor revelado em Cristo, de forma que mesmo que fosse, na mente de um hebreu, coerente com o "ame a Deus", não é (e nunca foi) coerente com Cristo, que é a revelação perfeita da Lei de Deus ao homem.
     O que concluímos? Que embora os hebreus tivessem considerado isso (apedrejamento, queimar cidades idólatras...) como uma demonstração de zelo e de amor a Deus, foi um ato absurdo. Não se justifica matar alguém que tem um pecado que consideramos mais grave que o nosso. Não tem coerência com Jesus e como Deus (revelado em Cristo) não muda, obviamente isso nunca foi correto, mesmo que fosse válido na mentalidade judaica. Lembre-se que Jesus deixou claro que muita coisa que os judeus pensavam não era coerente com Deus e essa questão é só mais uma delas. Várias outras coisas eram coerentes com Deus, pois eram como "vultos"que apontavam para uma realidade, surgida em Jesus. Somos discípulos de Jesus e não, de Moisés. O que estiver na lei mosaica que for coerente com Jesus, faremos e não é pelo fato de estar na "lista de regras" e sim, por gerar e demonstrar amor. Da mesma forma abrirei mão de muita coisa que não está na lei e em nenhum outro texto da escritura, pois entendi a mensagem de Cristo e desenvolvi essa consciência (mente de Cristo) de que Deus é amor e é em amor que Ele deseja que eu viva. 

Autor: Wesley de Sousa Câmara
(Escrito em 14/10/2014 e atualizado em 27/10¹2015)

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