22 de jan de 2015

Quando o "livro" se torna a "Palavra"


     Uma coisa que chama a atenção na cristandade dos últimos anos é que boa parte dela é movida por chavões, por clichês e por mensagens que pouco, ou nada, se assemelham à espiritualidade proposta por Jesus e vivida pelos apóstolos. E qual o motivo dessa tendência estar cada vez mais forte? Diria que é o fato de a cada dia meditarmos menos nas escrituras.
     Somos uma geração que pouquíssimo lê a bíblia (quem tem uma idade mais avançada sabe do que estou falando). E quem é mais novo, como eu, tem a possibilidade de perguntar a seus pais ou avós se isso é ou não uma realidade. Quantas vezes criticamos um ensino de décadas atrás, pois para nós é nítido que foi fruto de uma má compreensão de um texto ou de uma “carência intelectual” da pessoa que aquilo ensinava. Classificamos isso tudo como mera “ignorância teológica” e nos gabamos de vivermos uma espiritualidade “mente aberta”, moderna... Porém algo salta à nossa vista e não damos atenção: muitos irmãos em Cristo podem sim ter cometido equívocos teológicos grotescos por falta de conhecimento cultural da época dos relatos bíblicos ou até mesmo por falta de domínio da língua portuguesa, porém eles tinham uma sinceridade, uma honestidade e um desejo de viver o mais próximo que podiam daquilo que julgavam ser o ideal de Deus para a vida humana. O acesso às escrituras era limitado (ao contrário de hoje, que temos dezenas de opções) e com muito custo conseguiam comprar uma tradução comum, como a tão conhecida “João Ferreira de Almeida”. Mas uma vez que a tinham em mãos, dificilmente um dia se passava sem que ela fosse aberta e lida, mesmo que pouca coisa fosse compreendida.
     Atualmente, sejamos sinceros: quantos de nós temos o hábito de ler a bíblia com frequência? Poucos, sem dúvidas. E quantos temos o hábito não apenas de ler, mas também de meditar no que lemos? Ah, menos ainda... Nossa geração é acomodada e tem tempo para tudo, menos para coisas importantes. Muitos até idolatram a bíblia, defendendo-a contra todo tipo de crítica e impedindo que ela sequer caia no chão ou que seja riscada por uma criança, porém, ao mesmo tempo, a negligenciam, pois ela sequer é estudada com a devida profundidade que essa noção deveria exigir.
     O que se vê, na maioria das vezes, são irmãos que colocam as mãos na bíblia apenas aos domingos (ou nos dias de culto que participa). E ela é aberta apenas quando o pastor anuncia a “leitura bíblica da noite”. O que é ensinado nos púlpitos raramente é conferido nas escrituras, dentro de seus devidos contextos, se é realmente daquela forma. As pessoas querem comodidade: “Ler para que, se o pregador lerá em casa, interpretará e explicará para mim no culto da noite?” Cada dia mais estão se alimentando de mensagens “mastigadas” por terceiros. Não há criticidade e não há aquela atitude dos irmãos de Bereia (Atos 17), que examinavam tudo o que ouviam dos apóstolos, para não serem enganados. O que o pregador fala é tido como verdade absoluta, pois “ai daquele que tocar no ungido do Senhor” (que também é fruto de várias descontextualizações, pois “tocar” nunca teve sentido de “conferir” ou de “questionar”).
     O tempo vai passando e a maturidade espiritual de quem assim vive nunca chega. Permanece muitas vezes alimentando-se de “leite espiritual”. E quando ouve algo que nem leite é, ou seja, que nem de “alimento” pode ser chamado, sequer consegue identificar que aquele ensino é totalmente anticristão. A pessoa é levada por todo vento de doutrina e vai para lá e para cá, como uma folha seca em meio às ondas do mar. Começa a seguir modismos e tendências, como essa espiritualidade rasa baseada em mensagens de prosperidade financeira, em ideias infundadas de que o que decretamos Deus obedece, satisfazendo nossos desejos egoístas (como se Deus fosse um “gênio da lâmpada”, que basta invocá-lo com uma ordem ou com um sacrifício financeiro que ele aparece). Passa a basear sua espiritualidade em rasos clichês que prometem bênçãos caso a pessoa diga que crê ou caso ela meramente grite “amém”. A bíblia passa a ser apenas um objeto mágico, pois ela somente será aberta em casa quando esse indivíduo estiver passando por uma situação complicada e quiser que, ao abrir aleatoriamente em uma página, Deus fale com ele em um versículo. A bíblia então se transforma de “testemunha histórica de Cristo” (pois assim Jesus classificava as Escrituras – João 5:39) em uma “caixinha de promessas”. E assim seguimos com a consciência anestesiada, dormente, sem compreender e sem viver uma espiritualidade sadia e fundamentada em Cristo.
     Então o que temos a fazer é começar a ler a bíblia diariamente, como um ritual? Claro que não. A leitura da bíblia deve despertar em nós o desejo de lê-la ainda mais, ao mesmo tempo em que a motivação para meditar nas escrituras deve ser esse desejo. Percebe que uma coisa leva à outra, formando um ciclo? Quando mais leio, mais compreendo e mais desejoso pela leitura vou ficando. Não é questão de ler como obrigação; não é ter como meta terminar o ano tendo lido ela toda; não é estipular um número de capítulos para ler em cada dia (embora algumas pessoas achem válido essas estratégias e para alguns realmente funcione). Procure sim criar um hábito de leitura bíblica, mas por prazer. Se estiver disposto a ler dez capítulos no dia, leia; se estiver disposto a ler apenas um, sem problemas. Porém não leia a bíblia como se lê um jornal. Ore a Deus, peça que o Espírito Santo lhe ilumine e lhe guie através das letras do livro, a fim de que internalize a Palavra. Medite em cada texto, compare aquilo que lê com Jesus, afinal nEle estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2); Ele é o Verbo, a Palavra de Deus que se fez carne (João 1).
      Tenha em mente que a escritura tem a função de apontar para Cristo, como já foi citado. Não perca o foco; não é porque você lê a bíblia que você entende a Palavra. Muitos teólogos são até ateus (pasmem!), ou seja, eles tem a escritura, mas não discernem a Palavra. E a bíblia só se tornará Palavra para você se você a internalizar como “Espírito e Vida” (João 6:63), ou melhor, se o Espírito Santo a internalizar em você. Do contrário, será apenas mais um livro, como o é para muitos que dominam o grego e o hebraico, que lecionam sobre exegese e hermenêutica, mas que seguem com seus corações endurecidos.
     O que fica claro? Que conhecer a escritura não significa conhecer a Deus. Conhecimento do Pai é algo relacional (e não, intelectual), porém o conhecimento da escritura é um ponto importante para que você tome consciência disso. É pela escritura que você vê historicamente Jesus, logo, percebe Deus se relacionando com o homem, afinal, Ele disse: “Quem vê a mim, vê o Pai” (João 14). Jesus é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1), portanto devemos ler as escrituras sabendo que Cristo nos revela não apenas a Obra divina realizada para nossa salvação (o Evangelho), mas também o ideal de Deus para que vivamos. Quando olhamos para Jesus vemos o modelo perfeito de ser humano e embora nunca alcancemos a perfeição neste mundo, até que sejamos uma dia glorificados em um corpo incorruptível devemos viver tendo o que Ele nos revelou (em ações e em palavras) como parâmetro. Jesus é o referencial para julgarmos (discernirmos) tudo e todos. O que é coerente com Jesus, é a Vontade de Deus para nossa vida.
      Não é a leitura da bíblia que lhe trará salvação, mas tornará você mais consciente dela; não é a leitura que lhe trará bênçãos, mas fará com que você se veja abençoado nos mínimos detalhes de sua vida; não é a leitura que lhe fará mais santo, mas revelará a você muita coisa dAquele que lhe santifica. Então medite nas escrituras, não como obrigação, mas como uma forma de gratidão. Muitos desejariam ter neste momento uma bíblia nas mãos, mas não podem. Não desperdice essa dádiva que chegou até você!

Autor: Wesley de Sousa Câmara

Obs: este texto foi escrito em 12/2014, data em que foi cedido para ser publicado no blog IEAD - Estiva Gerbi. 

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