19 de jan de 2015

Todos vemos Deus através de nossas "lentes"


     Quando olhamos para Deus, o que vemos sempre tem influência da nossa "lente" (perspectiva, ideia pré-formada, crença, visão teológica) ou da lente de quem faz a descrição dEle. Porém só há uma forma de ver Deus como Ele é: através de uma lente (perspectiva) chamada "Cruz de Cristo". Contudo, temos que lembrar: mesmo que olhemos diretamente para/por Ele, estamos olhando para a revelação absoluta de um Deus absoluto, mas como somos parciais, relativos, falhos, limitados, o que enxergaremos é uma visão relativa de um Deus absoluto, afinal, por definição, um Ser absoluto não cabe na mente de um ser relativo. Esse é um dos motivos que não temos autoridade para condenar alguém que pensa diferente de nós, pois somos tão falhos quanto essa pessoa. Ou seja, quando olho para Cristo, não consigo ver a totalidade do que Ele realmente é; vejo o que cabe em minha compreensão. Não é a toa que diferentes teologias (católica, luterana, calvinista, arminiana...) focam em diferentes aspectos e pontos da revelação divina. Cabe a nós buscar uma compreensão mais profunda, mais estruturada, mais consistente, mais coerente e mais "frutífera" possível e que responde satisfatoriamente um maior número de questões sem "forçar a barra". Em outras palavras, mesmo Jesus sendo a revelação da Verdade Absoluta, a minha percepção dessa verdade absoluta é sempre parcial. Fui prolixo propositalmente para tentar me fazer entender por todos.
     Quando olho para Deus pela lente de um hebreu antigo, vejo um Deus que é puro poder, que é pura ira e que é pura vingança, que está disposto a matar, se necessário, para que o "Seu povo" passe por cima de tudo e todos e que tenha tudo de bom. Claro que há outras características (como haverá em qualquer "lente"), mas essa é a primeira ideia de Deus que vem na mente; quando olho pela lente de um profeta israelita, vejo um Deus que é pura justiça, que faz tudo que for necessário para castigar pelos erros, para corrigir os problemas e para recompensar com bênçãos a obediência do povo. 
     Mas quando olho pela lente suprema, absoluta, perfeita da Cruz de Cristo (pois Jesus é a revelação plena de Deus ao homem; é a Palavra de Deus que se fez carne; é a imagem do Deus invisível;é a razão de todas as coisas e em quem estão todos os tesouros do conhecimento...), vejo Deus com Ele é (dentro da minha possibilidade de compreensão, como já disse): um Deus que não barganha e cuja essência é AMOR. Um Deus que tem um ideal de vida (Lei divina eterna e perfeita) revelado ao homem na pessoa de Jesus; um Deus que Se entrega pelo homem, na humanidade perfeita de Cristo (o Evangelho, a "boa nova"); um Deus que abre mão de extinguir o homem pelo seu pecado, para redimi-lo, reconciliá-lo, restaurá-lo à Sua imagem e semelhança, em um processo contínuo chamado "Salvação".
     Esse Deus revelado em Cristo é (conforme professa a fé cristã) o Deus Único, Verdadeiro, Eterno, Soberano, Supremo, Poderoso, Justo, que tem inúmeros atributos, mas que condiciona todos os Seus atributos à Sua essência, que é amor, manifestada ao homem em Graça (favor imerecido). É um Deus que pode fazer tudo o que deseja, mas que abre mão de fazer o que deseja para fazer apenas o que o amor faz, que é constranger sem oprimir; que é dar responsabilidade através da liberdade. É um Deus que ensina, mas que não manipula; é um Deus que Se revela e que acolhe todos aqueles que, como o filho pródigo, se rendem a esse Seu abraço incondicional. 
     Não mereço nada disso. Não parece justo, mas a Justiça de Deus só é realmente de Deus quando é feita em amor (ao contrário da humana, cuja "justiça" não passa de "vingança"). A Graça, por ser  um favor imerecido, parece injusta. E seguindo nosso conceito humano realmente é (embora Deus seja Justo segundo o Seu sentido de Justiça), pois a essência de Deus é Amor e amar inclui entregar-se inclusive àqueles que não merecem. E eu sou um desses, nada merecedor; dos pecadores, sou o pior (como bem disse Paulo); mas foi essa criaturinha que Deus elegeu na Cruz para redimir e fazer novamente Sua imagem e semelhança, em um processo que começou lá, que continua agora em minha vida e que um dia se consumará, quando em um corpo transformado Jesus for contado como o primogênito entre muitos irmãos.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

O que achou?