12 de fev de 2015

Ao mesmo tempo, justo e pecador! (“Simul justus et peccator”)


     Não irei aqui realizar um tratado teológico e tampouco me prender demasiadamente à linguagem ou conceitos excessivamente “técnicos”, pois a ideia é passar de forma objetiva e clara aos leitores o que quero dizer quando adoto essa expressão e mostrar a todos que não é pelo fato de alguém ter passado (ou estar passando) pelo processo de conversão que deixou (ou deixará) de ser um “pecador”.
      A expressão latina “Simul justus et peccator” (que traduzido é “ao mesmo tempo, justo e pecador”) tornou-se muito conhecida no meio teológico devido a Martinho Lutero e claramente tem uma inspiração na “Omnis homo Adam, omnis homo Christus”, de Santo Agostinho, em que há uma série de interpretações, sendo que uma delas é que “todo homem é imagem de Adão (com uma natureza identificada com ele, com uma tendência à rejeição divina, com sua inclinação pecaminosa) e todo homem é imagem Cristo (pois na Cruz recebemos essa condição de sermos identificados com Ele), sendo a salvação esse processo de transformação do homem, tirando-o do estado de ‘imagem de Adão’ e colocando-o no estado de ‘imagem de Cristo’.” Ou seja, na conversão passamos a ser cada vez menos identificados com Adão e cada vez mais identificados com Cristo, sendo que essa transformação um dia será plena (II Coríntios 3:18; Romanos 8).
     Essa frase resume a justificação na teologia luterana e a considero esplêndida para resumir a nossa condição perante Deus e perante o mundo. Porém ela não é tão simples, já que o sentido dela depende muito do contexto em que é aplicada. Lutero a usou com diferentes significados e atualmente se interpreta essa questão também de forma diversa. Tentarei sem bem simples (mas terei que usar alguns termos “teológicos”), não aprofundando muito para não ser simplista:
     Primeiro precisamos diferenciar “justificação” de “santificação”. Cada uma delas aparece em um sentido. A justificação é mais ampla e tem dois aspectos: um chamado “forense” (total) e um chamado “efetivo” (parcial). Essa segunda também pode ser entendida como “santificação” ou “regeneração”, que são termos que cada linha teológica interpreta de uma forma, mas que aqui podemos usar como sinônimos. Como assim? Em termos de justificação (quando não for usado um complemento a essa palavra, entenda como sendo essa justificação forense/ total) em Cristo há duas possibilidades: ou somos totalmente justos ou somos totalmente pecadores. Uma coisa exclui a outra, afinal creio que o sacrifício de Cristo é eficaz e que justifica completamente o ser. Sendo assim, se eu sou justificado em Cristo, quando Deus olha pra mim, não verá um pecador; verá alguém 100% justo, pois a justiça de Jesus é contada em meu favor. Ou seja: estou coberto pela Graça de Deus. Caso, ao invés da Graça, sobre mim estivesse derramada a Ira divina, eu seria contado com um “pecador”. Repare que eu não disse que sou completamente justo e nada pecador; eu disse que Deus me considera justo (e não, pecador) por causa da Cruz. Ele imputa a justiça de Jesus sobre mim, sem que eu mereça. Ou seja, Ele lida comigo não com base no que sou e sim, com base no que Cristo é, visto que a entrega de Jesus foi em meu lugar (de forma vicária) – Romanos 5.
     A santificação (que pode ser entendida como um outro tipo de justificação – uma “justificação efetiva”), ao contrário da justificação forense, ou simplesmente justificação (que é algo relacionado a como Deus me vê), está relacionada a como eu realmente sou. Como já disse, também pode ser entendida como “regeneração” (não discutirei as diferentes interpretações disso), ou pelo menos como algo intimamente ligada a ela. Então quando usamos a expressão “Simul justus et peccator” no contexto da santificação, dizemos que tem um sentido “efetivo” (parcial). Explico: somos parcialmente justos (justiça efetiva) e parcialmente pecadores. Aqui uma coisa não anula a outra, ao contrário, por mais santo que alguém seja, continua sendo um pecador. A santificação é um processo contínuo em nossa vida, em que passamos a sair da semelhança de Adão e passamos a nos aproximar da semelhança de Cristo; isso nunca será pleno neste mundo, pois ser imagem perfeita de Jesus é não errar, não pecar, ser perfeito como Ele foi homem perfeito. Essa transformação é permanente, o que não significa que seja “linearmente ascendente” (em nossa caminhada cristã temos altos e baixos, caímos e levantamos, mas vamos prosseguindo, pacificados, sem culpa ou medo, crendo nas promessas de Deus e sabendo que Ele nos ama como somos, pois Ele nos aceita com base no que Cristo é).
     A santificação pode ser entendida como a “remoção do pecado em mim”, algo que começa nesse mundo, mas que só será consumado quando eu for transformado em um corpo imortal e incorruptível. Por isso somos instruídos a “lutar contra o pecado”. Ele habita em nós, está enraizado em nossa carne, mas essa luta é a justiça presente (ainda parcialmente, como um vulto) em nós. E por isso vivemos em uma constante tensão entre carne x espírito (entre pecado x justiça; entre velho e novo homem; entre natureza de Adão x natureza de Cristo...), como Paulo deixou claro no início de sua carta aos romanos.
     Então qual a conclusão disso? Estou dizendo que, já que somos todos pecadores, irei “cair na gandaia”, pois, por melhor que eu tente ser, não mudarei isso? Estou dizendo que como somos contados como justo por Deus, farei o mal por opção? Nada disso! O que foi dito é uma constatação de uma realidade (como creio) e não, um estímulo a deixar de buscar o que é bom, o que edifica, o que convém (isso é claro nas epístolas – I Coríntios 6; cap 10; Filipenses 4). Lembrando que pecado não é o que faço; é o que sou. Sou pecador (tenho essa natureza, embora seja contado como justo) não porque eu peco; eu peco porque sou pecador. Se eu tenho a capacidade de pecar é pelo óbvio fato de que sou pecador (uma árvore não produz frutos diferentes de sua natureza). Porém se tenho a capacidade de muitas vezes fazer o bem, é que algo de justiça também já está dentro de mim (Filipenses 1). Mas a questão é que o que faço (como não me entregar de forma deliberada ao pecado) não é causa de nada; é consequência! É fruto de fé e de arrependimento (mudança de mentalidade e expansão de consciência). A minha santificação (justificação efetiva) é apenas fruto da minha justificação forense (de Deus me considerar justo, apesar do que eu sou). Por isso a nossa conversão, regeneração, santificação e “luta contra o pecado” é diária. O tempo todo olhamos para o ideal de Deus revelado em Cristo e algo dentro de nós impulsiona nosso ser a desejá-lo (embora algo lá dentro também se oponha a esse desejo). Porém o segredo é que o Evangelho nos pacifica para buscarmos viver como Cristo, sabendo que é o Espírito quem nos guia para o bem e que mesmo quando tropeçamos e falhamos, não somos condenado por isso, visto que somos justos diante dos olhos de Deus. Estamos livres para tentar, sabendo que iremos acertar e errar. Quando olhamos para Cristo vemos a revelação plena da Lei (vontade, ideal) divina, mas também vemos a Boa Nova (Evangelho), que nos garante que somos aceito e abraçados por Ele na Cruz, incondicionalmente. Essa é a base da espiritualidade cristã.
     Resumindo: é pelo fato de Deus imputar sobre mim a justiça de Cristo que, pela ação do Espírito Santo que habita em meu ser, serei transformado e frutos dEle (Gálatas 5) surgirão em minha vida. Não tenho méritos em nenhum desses dois aspectos da justificação e não é pelo meu esforço que aparecerão frutos. Fruto genuíno só nasce quando abro mão de mim mesmo e descanso na Cruz, alimentando-me exclusivamente dessa “seiva divina”. Não há auto-justificação ou auto-santificação. Isso é apenas religiosidade com aparência de piedade, mas que não tem poder algum contra a carne (Colossenses 2). Tudo de bom em nós é dádiva de Deus; é Graça!

“Uma coisa é a remissão de todos os pecados e outra é sua completa eliminação.” (Martinho Lutero)

Autor: Wesley de Sousa Câmara

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