15 de abr de 2015

Tatuagens e piercings: uma análise sobre vários aspectos


     É possível ser um cristão genuíno e, ao mesmo tempo, colocar piercing e/ou fazer uso de tatuagem? Adotá-los fere a essência da fé cristã? É algo que convém ou não? São questões às vezes discutidas, porém quase sempre as discussões giram em torno de dogmas, de um fundamentalismo cego ou de apologias diversas. Então, convido você a analisar esse assunto, juntamente comigo, levando em consideração a bíblia, o bom senso e as diversas culturas, em diferentes épocas. Vamos fazer também uma análise e ilustração dos principais usos de cada um deles.    
     Quem me conhece sabe que não defendo (e nem suporto) essa espiritualidade baseada em cartilha de regras e em listinhas de "pode e não pode". Tampouco vejo com bons olhos as tradicionais perguntas: "é pecado isso?". A questão do cristão não é se algo é ou não pecado (pois Pecado é o que somos, é nossa tendência para o mal, nossa inclinação para longe de Deus, nossa alienação em relação ao divino e não meramente o que praticamos, afinal, tudo que vem de nós é consequência, sintoma, desse Pecado que está em nossas entranhas, apesar de sermos justificados em Cristo) - sobre esse tema, recomendo: "5º passo: Pecado - estudo completo" (clique aqui para ler); a questão do cristão deveria ser: "Convém ou não fazer isso?" (lembra do "Tudo [inclusive piercing e tatuagem] ME é permitido, mas nem tudo ME convém"? - I Coríntios 6:12 - e repare que é dito "ME convém", sendo que esse pronome na primeira pessoa do singular mostra que essa análise deve ser individual, ou seja, não tenho o direito de impor ao outro o que convém ou não a mim). Então começaremos tecendo um breve histórico (tentando fazer o mínimo de juízo de valores e evitando ao máximo as distorções) sobre as tatuagens e, em seguida, sobre os piercings.

Tatuagens:
     Existem há milhares de anos, possuindo, dependendo da época e do povo em questão, diferentes significados. Muitas vezes foram cultuadas e admiradas, enquanto outras, mal vistas e banidas de certos povos ou grupos. Porém, como se sabe, nem sempre existiu tecnologia para a tatuagem elétrica. Inicialmente, era feita com ossos pontiagudos e martelos de madeira.
     Nos hieróglifos egípcios existem evidências da existência de tatuagens, que são confirmadas quando se observa múmias de mulheres egípcias, como a Amunet (datada de 2160 a.C a 1994 a.C), já que possuem traços e inscrições na região do abdome. Também foram encontradas múmias nas montanhas de Altais, na Sibéria (com mais de 2400 anos), que apresentam ombros tatuados com animais, reais e imaginários.
     Entre 509 e 27 a.C., os imperadores romanos determinaram que fossem tatuados os prisioneiros e  os escravos; no século VIII, o papa Adriano I proibiu o uso de tatuagens, alegando que eram demoníacas.
     Conforme se expandiram as viagens marítimas, a tatuagem voltou a se popularizar na Europa, já que vários povos tinham esse costume. Evidências disso são os registros de Charles Darwin (datados de 1831 a 1836), feitos durante a viagem a bordo do navio “Beagle”. O famoso naturalista observa que a maioria dos povos do planeta conhecia ou utilizava algum tipo de tatuagem. E o uso dessa técnica continuou... Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os nazistas tatuavam um número no corpo dos judeus para identificá-los nos campos de concentração.
     Em 1961, após um surto de hepatite B, a Secretaria da Saúde de Nova York tomou uma medida drástica: proibiu a realização de tatuagens na cidade.

Piercings:
     O Body Piercing é uma forma de perfurar o corpo que, embora pareça moderno, tem uma origem milenar, começando nas primeiras tribos e clãs da espécie humana.
     No Antigo Egito, as escravas mais bonitas tinham jóias não muito brilhantes no umbigo e as mulheres ricas colocavam jóias de ouro. Era uma forma de classificar a beleza e o nível social da mulher.
     Na antiguidade clássica, precisamente em Roma, os gladiadores sustentavam suas armaduras nos mamilos perfurados, para demonstrar força e respeito; na Índia, durante a noite de núpcias, o noivo perfurava o nariz da esposa, como símbolo de fidelidade; muitos indígenas utilizavam piercings como uma forma de diferenciar as tribos e de mostrar a hierarquia dentro de seu grupo. Posteriormente, o uso de piercings espalhou-se pela classe média e pela aristocracia dos séculos XVIII e XIX, mas foi quase inexistente na Europa do século XX. Apenas na década de 1970 é que começou a se destacar novamente, até que, na década de 1990, houve um “boom” mundial do "Body-piercing", tornando moderno o que era primitivo.
     O piercing mais comum em toda a história é aquele colocado no lóbulo da orelha. Inicialmente, servia para distinguir uma pessoa rica de uma pobre, mas, atualmente, é a forma mais popular de usar jóias (brincos).
     Marinheiros colocavam piercings, pois acreditavam que estes lhes davam uma visão melhor; os romanos associavam esse acessório na orelha à riqueza e à luxúria; tribos sul americanas e africanas alargavam os furos, pois quanto maior o tamanho deles, maior era o status social.
     O nostril (colocado na aba do nariz) originou-se no oriente médio (há 4000 anos) e se espalhou para Índia no século XVI, sendo adotado pelos nobres. Cada tipo de joia distinguia a casta e a posição social. Esse piercing foi introduzido no ocidente pela cultura hippie, nos anos 1960 e 1970, sendo também adotado pelos "Punks" e outras tribos urbanas, nas décadas de 1970, 1980 e 1990.
     O uso desses objetos nos mamilos era considerado um símbolo de força e virilidade. Os nativos da América Central, por exemplo, usavam como uma marca de transição da masculinidade.
     As castas mais altas dos Maias e dos Astecas adornavam seus lábios com jóias de ouro, já que essa região é uma parte sensual e erógena do corpo; as mulheres da tribo Makolo (África) colocam pratos nos lábios superiores para atrair homens; tribos indígenas da América Central e do Sul fazem piercings nos lábios inferiores e alargam os furos para colocar pratos de madeira; nos templos Astecas e Maias, os sacerdotes faziam piercings em suas línguas como parte de um ritual de comunicação com os deuses.

Discussão Social:
     Após esse breve histórico, percebe-se que o uso de piercings e de tatuagens, embora possa parecer um costume moderno e um ato de rebeldia, existe há milhares de anos em muitos povos do mundo. Porém, algo mudou na maioria dos casos: os motivos para a adoção dessas práticas.
     Inicialmente, esse costume tinha um caráter religioso (usado em rituais ou como amuletos), era um indicador social (marcação de escravos ou diferenciação de classes sociais) ou, ainda, indicava poder. Atualmente, o uso dos piercings e tatuagens, exceto em casos excepcionais, não tem essas motivações. Na maior parte das vezes, o desejo das pessoas em aderirem a essas práticas é sustentado pelo modismo (questões estéticas) e pelo gosto por arte corporal. Pode, ainda, representar uma forma de autoafirmação ou de busca da identidade pessoal. Assim, a pele torna-se um painel de declarações de sexualidade, frustração, tristeza, alegria ou raiva.
     Não se pode ignorar o tolo preconceito em torno dos piercings e, principalmente, das tatuagens. Embora, aos poucos, os rótulos de “coisa do demônio” e “coisa de bandido” estejam sendo desassociados dessas “manifestações”, a sociedade ocidental, inclusive a brasileira, não as aceita com total naturalidade. Muitas pessoas ainda fazem juízo de valores, baseando-se nas aparências. Exemplos típicos são muitas empresas, que se negam a contratar pessoas com tatuagens ou piercings visíveis. O mesmo vale para serviços militares, que tendem a preferir os não tatuados. 
     Uma quantidade considerável de pessoas que fazem uma tatuagem na adolescência ou na juventude arrepende-se após os 40 anos de idade. Nossa mente passa por inúmeras transformações ao longo dos anos e, aquilo que era considerado “maneiro”, “radical” ou “fofo” passa a ser um incômodo na vida adulta madura e na terceira idade. Há ainda, muitas vezes, um arrependimento futuro, provocado por frases românticas ou pelo nome do companheiro (a) inscrito no corpo. Pior ainda são os casos de pessoas que tatuam símbolos desconhecidos ou expressões em outros idiomas, sem saber o seu verdadeiro significado.
     Mas vejamos, a título de curiosidade, uma série de tipos (e motivações) de piercings e de tatuagens que observamos em nosso meio:

Tatuagem como arte corporal: Muitas pessoas gostam de fazer do corpo um painel para que nele seja feito uma bela obra de arte.








Tatuagem pra chocar e chamar a atenção paro o "bizarro": Algumas pessoas são adeptas disso e pra elas, quanto mais "chocante", melhor.













Tatuagem sexy: Muitos gostam de tatuagens sensuais, a fim de estimularem visualmente seus parceiros. São feitas na nuca, pescoço, abdome, costas, glúteos, coxas, virilha, pés...











Tatuagem de cunho sexual: Algumas tatuagens tem se tornado símbolos de determinados comportamentos sexuais. Abaixo, dois exemplos: A tatuagem chamada de "Dama de Espadas" (Símbolo de baralho com a letra Q) e a "Sexy Wife" (Uma mistura das letras S e W), que possuem a conotação de "esposa que assumidamente mantém relações sexuais extraconjugais". São feitas nos seios, virilha, pernas, pés, costas... Às vezes são tatuagens definitivas e às vezes temporárias (como aquelas tatuagens de Henna que fazem em muitas praias).














Tatuagem religiosa: Alguns que não gostam de tatuagem as aceitam apenas nessa condição; outros, ao contrário, consideram essa associação uma blasfêmia. Mas enfim, muita gente tatua imagens de Jesus, versículos bíblicos inteiros, uma Cruz... E há até quem tente colocar símbolos "anti-religiosos"...






















Tatuagem com nome da pessoa amada: Essa é uma das mais comuns e muitos são os que tatuam nome dos pais, filhos ou do cônjuge no corpo. Aqui o cuidado deve ser redobrado, pois muitos tatuam o nome da (o) esposa (o) e em um eventual divórcio o nome fica, já que a remoção não é perfeita, é cara e não é todo tipo de tatuagem que gera um resultado satisfatório.




Tatuagem para melhora da auto-estima em casos de deficiências ou doenças: Esse uso da tatuagem, na minha opinião (ainda mais por ser médico) é o mais belo e louvável de todos, pois visa dar alegria a uma pessoa que sofre com um trauma ou com uma baixa-estima. Seja para cobrir cicatrizes, para simular um mamilo retirado em cirurgias de tumores, para encarar com bom humor uma deficiência de um membro... Não importa. Merecem aplausos os que dedicam esforço a isso.
































     Como já foi dito, os piercings são utilizados há milênios e o significado do uso em cada parte do corpo varia muito de acordo com a cultura. Em nosso contexto são usados geralmente como meros adornos, embora usos com fins ritualísticos e de distinção social ainda existam (raramente). Portanto, quando falamos em significado de um piercing colocado em alguma parte do corpo, estamos falando de uma abordagem religiosa, ritualística, embora a maioria das pessoas que o colocam sequer tem essa noção ou intenção. O que ocorre é que muitos criam uma série de alegações espirituais a fim de propagar superstições. Dessa forma, dizem que o piercing colocado em cada lugar específico representa um tipo de domínio espiritual (aprisionamento da mente, canalização de demônios, prostituição, luxúria...). Porém o significado existe apenas para quem atribui ao piercing esse papel. Para quem não defende esses significados, não faz sentido. É como um gato preto, que pra mim é só um lindo animalzinho, mas que para alguns é sinal de má sorte; é como uma travessa de farofa, que para mim é um mero alimento, mas que para alguns é objeto de rituais em encruzilhadas. Repare que algo só ganha significado quando quem o possui crê que há esse significado. Até a vida é assim, já que cada um de nós, de acordo com a cultura e a crença que possui, atribui a ela um significado e até mesmo a ideia de que ela tem um significado objetivo intrínseco é fruto de uma visão individual (e não estou aqui defendendo um ou outro lado da discussão).
     Em nossa cultura geralmente o piercing é usado como adorno, como modismo ou como sinal característico de uma "tribo urbana", por exemplo. Poucas vezes quem o usa atribui a ele um papel "mágico". E os usos mais comuns são na orelha, na sobrancelha, no nariz, nos lábios, na língua e no umbigo. Há ainda quem os use nos mamilos e na genitália (masculina ou feminina). Outros, ainda mais incomuns, são colocados na úvula ("garganta"), na gengiva e nos dentes. Vale ainda citar os casos mais atípicos, em que a pessoa por algum motivo (necessidade de auto-afirmação, de atrair atenção ou de rejeição à sua aparência original ou qualquer outro motivo que não cabe a mim julgar) enche o corpo, inclusive o rosto, de piercings (bem como de tatuagens).

Diferentes usos dos piercings:























 




























Discussão Médica:
     Há uma crença muito difundida de que a região ao redor de uma perfuração no corpo torna-se mais sensível. Sendo assim, a colocação de piercings em zonas erógenas (como na língua, nos mamilos e nos órgãos genitais) faria com que a pessoa sentisse mais prazer numa relação sexual. Porém, cientificamente falando, não faz tanto sentido. A sensibilidade (ou, mais corretamente, a percepção de sensações) depende dos receptores nervosos presentes em cada local do corpo e da integração desses receptores com o Sistema Nervoso Central. A região pode tornar-se mais “sensível” durante uma inflamação, mas em condições normais, o piercing não altera a capacidade sensorial. O que pode ocorrer é que quando o piercing é movimentado (deslocado pra lá e pra cá), gera um estímulo mais forte no local, mas não muda a sensibilidade da pessoa. O fator psicológico também pode influenciar nessa “sensibilidade”, mas isso é mais uma questão de fetiche.
     O piercing não traz conseqüências clínicas sérias, desde que feito por pessoas qualificadas e tomando todos os cuidados necessários (esterilização do material utilizado, higienização do local, e uso de acessórios feitos em aço cirúrgico). Porém, mesmo com essas medidas tomadas, podem ocorrer pequenas lesões, que são comuns em qualquer perfuração, tais como: formação de queloide em pessoas predispostas, risco de traumas na pele (como rasgamento, caso enrosque em algo) e uma inflamação mais acentuada.

     Em relação às tatuagens, também devem ser tomados alguns cuidados:
- O tatuador deve ser profissional, pois qualquer erro pode causar um dano irreparável (seja estético ou clínico).
- Os materiais utilizados devem ser cuidadosamente esterilizados, pois há o risco de transmissão de inúmeras doenças (assim como na colocação de piercings), entre elas, a hepatite C e a AIDS.
- As tintas usadas devem ser especiais. Muitos tatuadores amadores utilizam (às vezes, sem saber) tintas derivadas de materiais orgânicos queimados e até tinta de caneta, o que é muito perigoso à saúde.

     A tintura da tatuagem fica armazenada, após a aplicação, principalmente em algumas células da derme, os fibroblastos. Essas células, além de não sofrerem com a descamação da epiderme, possuem uma vida longa, podendo resistir até à morte do indivíduo (o que explica o fato de ser definitiva).
     Os casos de dermatites alérgicas não são comuns e raríssimos são os casos de reações sistêmicas, devido à tinta. Porém, quando ocorrem, as cores envolvidas geralmente são o vermelho (à base de mercúrio) e o amarelo (à base de cádmio). São essas cores também que costumam “desaparecer” espontaneamente de uma tatuagem.
     Uma coisa importantíssima é que geralmente as tatuagens são critérios de contra-indicação de ressonância magnética, principalmente alguns tipos de pigmentos, e quanto maior o tamanho da tatuagem, maior é o perigo. Portanto, pense bem: após colocar alguns tipos de tatuagem, é provável que nunca mais poderá realizar este exame, especialmente se estiver próximo à área que deve ser examinada.
     Segundo as premissas da acupuntura (medicina chinesa e não, um tratamento espiritual  como alegam alguns leigos), não há, realmente, problemas na colocação de um ou dois piercings no corpo. Porém, como a visão acupunturista trabalha com pontos de comunicação energética no organismo, a realização de várias perfurações pode provocar, a longo prazo, uma disfunção de energia, que poderá ocasionar alguns problemas físicos e até doenças, como dores e depressão. É complexo...


Discussão Bíblica:
     Vejamos algumas passagens bíblicas usadas por alguns no intuito de condenar ou de defender o uso de piercings e de tatuagens:

Levítico 19:28 = “Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o SENHOR.”
     Os ritos de luto (considerados marcas do "paganismo") eram comuns nessa época, embora fossem condenados, como vemos nesse versículo. Porém, como todos sabem, o Pentateuco (os 5 primeiros livros da bíblia) não é nosso parâmetro, nem nossa base de fé. Nosso fundamento é Cristo, seguimos a tradição apostólica e o critério absoluto para avaliar tudo e todos é Jesus Cristo (ou o que sabemos sobre Ele com base nos evangelhos).
     Se alguém desejar seguir as leis hebraicas, não pode esquecer-se dessas:
- Não danificar a ponta da barba e não cortar o cabelo arredondado (v. 28); pena de morte para quem cometer adultério ou se relacionar sexualmente com animais (Lev 20:10,16); usar um manto com franjas nas pontas (Deut 22:12); se tiver duas mulheres (isso mesmo!), seguir as regras de herança (Deut 21 15-17)...
     Viu como só tiramos do contexto os textos que nos convém? Além disso o texto está se referindo à fazer marcas na carne em referência a mortos apenas. Sejamos sinceros...

Gênesis 24:47 = “Então lhe perguntei, e disse: De quem és filha? E ela disse: Filha de Betuel, filho de Naor, que lhe deu Milca. Então eu pus o pendente no seu rosto, e as pulseiras sobre as suas mãos”
     Observa-se aqui que o servo de Abraão colocou um pendente no rosto (nariz) de Rebeca, como sinal que ela tinha sido escolhida para ser a mulher de Isaque. Esse fato é um exemplo do uso desses acessórios (piercings) por essa cultura, os quais tinham um determinado significado. Porém, não somos hebreus, portanto não há lógica em usar esta passagem bíblica para defendê-los. Apenas estamos diante de um retrato do costume desse povo nessa época. 

Êxodo 21:6 = “Então seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre.”
Deuteronômio 15:17 = “Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva.”
     Segundo o escritor William Coleman (no livro "Manual dos tempos e costumes bíblicos"), além dessa perfuração feita com sovela de carpinteiro, havia outras maneiras de marcação de escravos. “Faziam-se tatuagens nas mãos e outros tipos de marcas na testa (Ez 9:4). Quinhentos anos antes de Cristo, os escravos do povo de Israel eram marcados com o nome de seu senhor gravado no punho.”
     São exemplos do uso de piercings e de tatuagens por essas pessoas. Porém, como vimos, não somos israelitas. Nossa cultura é diferente (por exemplo, não temos mais escravos, felizmente ). Sendo assim, usar esse tipo de texto como argumento para defender (ou condenar) biblicamente o uso desses itens chega a ser absurdo.

I Coríntios 3:17 = “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.”
     No versículo 16, lemos: “Não sabeis que sois o templo de Deus...” Paulo considera a comunidade cristã como "Corpo de Cristo" e o como "Templo de Deus". Portanto, aqui, sequer está sendo dito que cada indivíduo é um templo, então como alguém associa essa "destruição do templo" com algo feito para modificar a aparência? A destruição do corpo não se refere, portanto, a ferir ou prejudicar uma parte do corpo humano, mas a não cuidar corretamente da comunidade de cristãos.

I Coríntios 6:19, 20 = 
“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.”
     Aqui (ensino sobre a fornicação) o contexto é diferente do capítulo 3. No versículo 15 constatamos que somos membros do Corpo de Cristo (que é a cabeça). No versículo 19 há a afirmação que “o vosso corpo” (agora sim, pode até ser entendido como o corpo humano de cada um de nós) “é o templo do Espírito Santo”, pois, se juntos somos o templo, individualmente somos parte (membros - tijolos) desse mesmo templo. De qualquer forma, o ensino é contra um tipo de pecado sexual e não há menção sobre aparência. Porém, mesmo que houvesse relação com a aparência, o que representaria a colocação de um piercing ou de uma tatuagem? Pichação e colocação de badulaques no templo de Deus ou um enfeite na parede desse templo (semelhante ao caso de fazer um furo e pendurar um quadro)? A resposta depende da opinião de cada um, mas perceba que coisas opostas podem ser defendidas usando o mesmo texto. 

Gálatas 6:17 = “Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.”
     O apóstolo ensinava que não era a circuncisão ou a incircuncisão que importava. Paulo foi torturado (II Coríntios 11:23-28), assim como Jesus, e essa perseguição causou-lhe feridas e cicatrizes. Para ele, essas marcas que trazia no corpo (que representavam a luta para a disseminação do Evangelho) eram muito mais importantes do que o fato de ser ou não circuncidado. Paulo não se refere às tatuagens, nem aos piercings, muito menos afirma que as marcas que ele carrega são necessárias a todos os cristãos (embora sejam vistas como sinal de trabalho para Deus) ou que são os únicos sinais que podemos ter no corpo. Então, o que podemos extrair da essência do que o apóstolo quis transmitir? Que não importam as marcas referentes aos costumes de um povo (como o uso ou não de piercings e tatuagens), o importante são as marcas de uma vida de entrega a Deus.

Romanos 14:21 = “Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça.”
I Coríntios 8:13 = “Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize.”
     Paulo defende que devemos agir sempre de acordo com a nossa consciência, desde que esteja segura (Romanos 14:22). Porém, tão importante quanto isso é não escandalizar os fracos na fé (novos cristãos que ainda não tem muita convicção para agir com a consciência limpa), tendo caridade para com eles, abrindo mão de algumas coisas para que não venham a tropeçar.  Portanto, se usar piercing ou tatuagem fizer com que meus irmãos novinhos na fé se escandalizem, é bom evitar, pelo menos até que entendam que a Palavra de Deus é tão grande que essas coisas são insignificantes. Mas não sejamos hipócritas, pois será que abriríamos mão de usar a internet se um irmãozinho desses se escandalizasse? E mais: os que se escandalizam geralmente são os novos na fé ou justamente os que se julgam mais santos, espirituais, sábios e experientes por serem mais velhos na fé?

I Coríntios 6:12 = “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.”
     Esse trecho é um resumo de todo o ensino de Paulo. Não se trata de ser ou não ser pecado, mas de analisar se favorece ou prejudica nossa espiritualidade. Essa é a análise a ser feita: o piercing e a tatuagem acrescentarão algo de bom, não terão nenhuma influência ou prejudicarão a sua vida? Caso haja prejuízo, devem ser rejeitados, assim como qualquer outra coisa (televisão, computador, internet, skate, chiclete, camisa colorida...). Mas repare que Paulo usa o pronome "ME" (1ª pessoa do singular), evidenciando que essa análise de consciência é individual. Portanto, cada um analise a si mesmo e não queira impor os limites de sua consciência a outros. Algo ruim pra mim pode ser normal para meu irmão ou algo inofensivo para mim pode ser um mal a ele. 

I João 3:20 = “Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas.”
     Novamente é preciso entender o contexto. Deve-se ler desde o versículo 18. O amor e a busca pela vivência da vontade de Deus são importantes, mas, se mesmo assim o nosso coração (consciência) vier a nos condenar, Deus é muito maior e mais perdoador que o nosso coração. Algumas pessoas interpretam o versículo de forma totalmente oposta. Entendem que se nossa consciência nos condena (por exemplo, se ela fica culpada ou com medo pela colocação de uma tatuagem ou um piercing), Deus nos condenará ainda mais. Um deturpação ingênua ou maldosa! Espero que seja ingenuidade apenas.

     Além dos trechos bíblicos citados, muitos outros argumentos são usados para condenar o uso dos piercings e das tatuagens. Reafirmo que não tenho a intenção de defendê-los nem de condená-los e sim, de analisar o assunto da forma menos tendenciosa possível.
    Alguns alegam que não devem ser usados por haver riscos à saúde. Porém, se tudo o que for arriscado também for "pecado", teremos de incluir várias outras coisas que muitos de nós fazemos, tais como: jejuns prolongados ou frequentes, frequentar uma igreja que faz muito barulho, dietas, uso de qualquer medicamento (pois praticamente todos tem efeitos colaterais), malhar excessivamente, praticar esportes radicais, viajar (risco de acidentes), comer doces, almoçar no Mac Donald's, tomar Coca-Cola... Concordo que não são todas essas coisas que um médico incentivaria, porém, dizer que tudo isso é "pecado" por fazer mal à saúde é totalmente ilógico.

Conclusão
     Embora eu não use piercings ou tatuagens e não tenha a intenção de usá-los, não posso condená-los com argumentos sociais, médicos ou bíblicos. Colocar um piercing é como colocar um brinco em um lugar diferente. Pode-se usar um enfeite no cabelo ou uma correntinha no pescoço, mas é errado usar um piercing? É permitido usar uma estampa na camisa, mas, se tiver no próprio corpo é uma ofensa?
     Não é pelo fato de algumas tribos usarem piercing ou tatuagens em alguns rituais, que todos que colocarem estarão fazendo o mesmo. Uma galinha, por exemplo, pode ser usada num almoço ou na magia negra; uma faca pra mim é um instrumento para preparar alimentos, mas para um assassino é uma arma. Esses objetos são amorais (nem bons, nem ruins). O que determina se serão úteis ou prejudiciais são as intenções de quem faz uso dos mesmos.
     Precisamos muito mais de bom senso e de boa conduta do que de regras. Como registrou o escritor da carta aos Colossenses (capítulo 2), submeter-se a regras proibitivas, como "Não pegues, não toques e não manuseies" tem só aparência de sabedoria, mas não tem poder nenhum contra a carne. As tatuagens e os piercings em si não tem poder de interferir numa relação com Deus que é ditada por Cristo. Não tem nada a ver com a salvação de alguém (querer anular a Obra de Cristo, a Graça de Deus, por uma mera marca na pele é o cúmulo do absurdo). Tem a ver, no máximo, com o que você aparenta ser neste mundo. Se o motivo de alguém fazer uso delas é estético ou para homenagear alguém amado, por exemplo, não vejo problema algum. Contudo, vale o bom senso. A diferença entre remédio e veneno é a dose. Encher o corpo dessas coisas, convenhamos, não acho legal. Mas um discreto “enfeite” desses, desde que não seja uma manifestação de rebeldia, não deveria ser motivo de escândalo. Discordo quando são adotados exageradamente ou quando são usados com intenções não coerentes com o espírito de Jesus (ou seja, quando não visa a paz, o amor, a comunhão...). Mas perdermos tempo com esse tipo de questionamento, com medo de ser ou não algo que afasta alguém de Deus, chega a ser risível, pois a Palavra de Deus é tão grande, tão profunda, que esses assuntos sequer deveriam ser assuntos. Porém infelizmente, como a maioria vive uma espiritualidade de aparências, de dogmas e de tradições acaba sendo necessário abordar esses temas para quem sabe esclarecer a alguns e ajudar aqueles que vivem angustiados por medo e por culpa. 

Autor: Wesley de Sousa Câmara
Atualizado em 26/03/2016

Referências:
Bíblia de Jerusalém
COLEMAN, William L.. Manual dos tempos e costumes bíblicos. Editora Betânia. 1ª edição. 1991.
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI132738-17770,00-CONHECA+A+HISTORIA+DA+TATUAGEM.html
http://www.anjossonhadores.hpg.com.br/
http://www.blueanimal.com.br/historiapiercing.asp
http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/13072
http://www.jvanguarda.com.br/2006/06/23/historia-do-piercing/
Imagens encontradas livremente na internet

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