14 de mai de 2015

Ninguém pode herdar o Reino de Deus


     Algo que me espanta é a mentalidade predominante no meio cristão de que "pecado" é um mero ato imoral e que "pecador" é quem pratica esse ato. Nada mais raso e até mesmo, equivocado.
     Dizemos que somos discípulos de Cristo, mas não entendemos praticamente nada do que Ele ensinou. Se tivéssemos entendido saberíamos que nossas ações não determinam nosso Pecado e sim, que nosso Pecado determina nossas ações. Portanto, não é pelo fato de eu não ir pra cama com a vizinha, que eu deixo de ser adúltero; não é porque não dei um tiro ou uma facada em alguém que deixo de ser assassino. Todos somos isso tudo, no fundo, na "essência", adúlteros, assassinos, ladrões, embora nem todos transformamos isso que somos em atos objetivos na vida (e claro que não deveríamos mesmo).
     Então entenda: Nós somos pecadores não por pecarmos; nós pecamos pelo fato de sermos pecadores. Os nossos atos imorais, que chamamos de pecados, nada mais são do que consequências de nossa essência. São apenas sintomas de nossa doença (chamada "Pecado"). Portanto, pecado não é o que pratico; pecado é o que sou. Se tenho a capacidade de "pecar" (mesmo que eu ingenuamente ache que não peque) é porque sou pecador, afinal, um limoeiro não produz maçãs e vice versa. Produzimos frutos conforme a nossa espécie.
     Portanto, quando se diz que o injusto, o ladrão, o idólatra e o adúltero, por exemplo, não herdarão o reino de Deus (I Coríntios 6:9-10), não é motivo para comemorarmos o fato de não tirarmos a vida do patrão ou de não irmos pra cama com a vizinha. Afinal, como já disse, Jesus "jogou em nossa cara" que TODOS somos pecadores (adúlteros, assassinos, idólatras...), mesmo quando na exterioridade achamos que somos santos e puros. Ele disse: "adúltero não é o que vai pra cama com a mulher do outro e sim, quem olha pra mulher com um desejo impuro; assassino não é o que violenta contra a vida do próximo e sim, quem simplesmente se ira em algum momento contra ele" (Mateus 5). E isso devemos fazer com "todo tipo de pecado". Quando não pecamos objetivamente, pecamos subjetivamente. E Jesus deixou claro que diante de Deus não há diferença e que ninguém de nós escapa, embora hipocritamente (ou ingenuamente) vivamos gritando que "aquele que vive na prática de um pecado não herda o Reino de Deus" (o que é verdade).
     Consequência: todos "vivemos em pecado" (e também, em última análise, na prática dele), pois como somos pecadores, tudo o que sai de nós é, no fundo, pecado. Estamos "em pecado" o tempo todo. E é justamente por isso que precisamos do sacrifício de Cristo, da Graça de Deus para nos livrar da condenação do pecado (e também das consequências e dele propriamente dito, o que ocorrerá um dia). Não foi a toa que Paulo disse: "Dos pecadores sou o pior" (e ele não falava de seu passado e sim, do presente, pois reconhecia quem ele realmente era, chegando a afirmar: "O bem que desejo não faço e o mal que não desejo, pratico").
     Após entender isso (que é a Lei divina - que diz que todos somos pecadores e que pecadores merecem condenação), estaremos preparados para mergulhar no Evangelho de Cristo, que é o anúncio do que Deus fez por nós, em Cristo, por um ato de Amor e de Graça.
     Então quando eu ler: "Os injustos e os adúlteros não herdarão o Reino de Deus" não devo pensar que eu herdarei o Reino por eu não ser objetivamente um ladrão, um homicida e um adúltero. Devo entender assim: "Sou homicida, injusto, adúltero e muitas outras coisas ruins, pois o meu ser é assim, caído e pecaminoso, mesmo que eu não pratique esses atos por consciência, por repressão, por escolha ou por uma contínua mudança de mente, pois o que me faz esse pecador não é o que pratico; as coisas que pratico apenas são evidências concretas de que sou isso tudo. Ou seja, então não herdarei o Reino dos céus".
     Perfeito! É assim mesmo! Não tenho como herdar o Reino de acordo com o que sou (independentemente do que pratico); não alcanço o Reino com meus méritos, com minhas escolhas de não praticar algo mau. Somente tenho uma chance: ser contado como justo diante de Deus e isso não depende de mim, do que faço ou do que deixo de fazer; depende exclusivamente do que Cristo fez em meu lugar. Deus olha pra mim, pecador, e ao invés de um assassino e adúltero, vê um ser descansando nos méritos de Jesus. Ele olha pra mim e "não me vê"; Ele vê a Cruz, vê a perfeição de Jesus que me representou diante do Pai. Esse é o anúncio do Evangelho.
     E qual meu papel? Apenas crer (entregar-me em fé), o que gerará em mim uma mudança de mentalidade (que é o arrependimento provocado pelo Espírito Santo) e uma expansão de consciência para essa realidade que, querendo nós ou não, está consumada. A consequência disso é que desejarei viver o mais próximo que posso de Jesus, não me conformando e não me entregando ao Pecado (pois o pecado degrada nossa vida, corrói nossa alma, não é saudável e nem coerente com Jesus). Mas repito: tudo isso é fruto da Graça e da Misericórdia de Deus que me alcançou muito antes até mesmo de minha fé e de qualquer arrependimento se manifestar em mim. Somos vítimas da Graça divina e não, agentes dela.
     Pecado não é avaliado pela aparência, que é enganosa e sim, pela essência. Não deixe de ler Lucas 18:9-14. Isso quebra paradigmas, né? Pois é...

Autor: Wesley de Sousa Câmara

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