22 de jun de 2015

"Não importa a sua interpretação; importa o que a bíblia diz". Será?


     Primeiramente, precisa entender que a bíblia não é um livro e sim, uma coletânea (coleção) de livros, nos mais diversos contextos e objetivos, de diversas épocas, de diversos autores e tradições judaicas, com diferentes concepções da vida e a respeito de Deus... Portanto, em um dado assunto, nem sempre poderá dizer "o que a bíblia diz sobre aquilo", pois a bíblia, em si, como um ente harmônico e uniforme, não existe. O que existem são livros específicos que há alguns séculos foram compilados em um único volume, recebendo o nome de "bíblia". A bíblia, como compilação, pode apresentar pontos de vista diversos sobre vários assuntos, por isso precisa ter uma interpretação coerente, uma visão abrangente, em que o todo faça sentido e que continue sem óbvias contradições quando esmiuçar em partes menores. Não dá para escolher um assunto, anotar todos os versículos que parecem fazer referência a esse tema e tentar juntar tudo para que os textos se complementem. Geralmente isso vira uma bagunça, uma "salada" de visões diferentes e qualquer harmonização será pura "forçação de barra" do intérprete (no caso, você e eu). A expressão "a bíblia diz" é tão absurda quanto a afirmação "a biblioteca diz". Afinal, a bíblia é mais uma biblioteca do que um livro e quando vamos a uma biblioteca encontramos exatamente isso: muitos livros, de muitos autores, de muitas épocas, com muitos objetivos e com muitos pontos de vista.
      Outro ponto que os adeptos da expressão "a bíblia diz" precisam pensar: Quer dizer que quando lê a bíblia você está isento de interpretação? Os textos, contextos (social, linguístico, religioso...), objetivos dos autores, encaixe em uma compreensão geral da Palavra e das escrituras e todas essas coisas entram em você automaticamente, como se Deus tivesse escolhido você a dedo para que, no meio de milhões de cristãos e de milhares de compreensões, o seu entendimento fosse a "divina revelação do Espírito Santo"?
     Quando olhamos para o texto bíblico, por sermos seres relativos, estamos "contaminados" com nosso pré-conhecimento, com a teologia que seguimos, com nossos pré-conceitos e com nossas preferências. Ninguém é isento e tampouco absoluto a ponto de ler um texto e enxergá-lo como  ele realmente é, sem interpretações. O que precisamos é de humildade e bom senso pra reconhecer esse óbvio fato. Carecemos ainda de critérios para chegarmos a uma compreensão mais ampla (abrangente), mais provável, mais coerente e mais frutífera possível.
     O critério maior (a base de tudo) que adoto é: "sabendo que Jesus é a imagem do Deus invisível, a fonte dos tesouros do conhecimento, a Palavra encarnada... terei Ele - e apenas Ele, observando o que Ele ensinou e como lidou com cada situação - como único parâmetro absoluto. A partir dEle, julgo tudo e todos (inclusive a escritura, os profetas, os apóstolos, as tradições, os teólogos atuais e minhas ideias/interpretações...)." Mesmo assim, nunca será perfeita (absoluta) essa minha compreensão (pois quando olho pra Jesus não vejo exatamente o que Ele é e sim, o que meus olhos imperfeitos e "contaminados"  me permitem enxergar acerca dEle), mas é o que considero possível fazer para chegar o mais próximo disso. Absoluto é Deus (conforme revelado em Cristo, o Verbo, a Palavra), mas quando olhamos para o absoluto só cabe em nós um vulto, uma imagem imperfeita (relativa) desse absoluto. A "interpretação correta", portanto, é apenas a "interpretação divina" (um dia, na Glória, provavelmente ela estará em nós); as interpretações humanas podem ser melhores ou piores, mas nunca perfeitas. Entenda isso!
     É importante reconhecermos a importância de buscarmos estudar a história da Igreja, pois ela reflete o diálogo profundo que ocorreu entre dezenas de gerações discutindo um tema. Querermos começar do zero, desprezar todo esse diálogo, achando que vamos chegar mais próximo do ideal com uma suposta revelação do Espírito (outra ilusão, ainda mais quando vemos cristãos com teologias opostas "batendo o pé" que possuem uma compreensão dada pelo Espírito), com Deus escolhendo a dedo nossa pessoa pra receber o privilégio de conhecer os segredos divinos, é uma escolha tola (e reconheço que por um bom tempo achei que desprezar isso tudo, com o raso argumento que são  meros "ensinos de homens", seria uma opção sábia). E mais: mesmo quando ignora isso tudo, vive isolado de todos, buscando uma compreensão própria e mesmo se achar que está recebendo uma revelação de Deus, tenha certeza: muitos certamente já debateram essa sua compreensão há muito tempo, mesmo você não sabendo disso. E talvez ela até já tenha sido refutada por outra bem mais consistente, mas essa decisão de viver na alienação não nos permitirá descobrir esse fato.
     Concluindo, você crê não no que a bíblia diz e sim, no que a sua compreensão dela lhe diz. Seja humilde ou pelo menos realista. Ninguém de nós é absoluto pra dizer que segue o "Evangelho puro e simples". Seguimos o que acreditamos que isso seja, mas como somos relativos, parciais, imperfeitos, certamente a pureza e simplicidade da Palavra só entrará em nossa mente quando formos transformados em um corpo perfeito e incorruptível. Enquanto isso, temos apenas interpretações bíblicas (e da Palavra, da vida...) boas e ruins, mas todas parciais e imperfeitas. Que possamos seguir a melhor possível. Almejar mais do que isso nesta vida é ingenuidade ou tola prepotência.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

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