31 de jul de 2015

A primeira coisa que todo cristão deveria aprender


     A primeira coisa que todo cristão deveria aprender (mas infelizmente isso raramente nos é ensinado, eu sei) é: "qual o critério absoluto que devemos adotar para saber o que devemos fazer ou como devemos ser?" Se perguntar isso aos que se dizem cristãos, acredito que nem 10% dará a resposta que considero correta. Muitos dirão: "tenho que seguir o que a bíblia diz" OU "tenho que seguir o que a doutrina da minha igreja diz" OU "tenho que seguir o que meu líder diz" OU "tenho que seguir o que minha consciência diz"... Mas não pode ser nada disso!
     O primeiro motivo é que o que eu chamo de "minha consciência" pode ser nada mais do que meu "coração" (meus desejos e preferências...) e o profeta Jeremias certa vez sabiamente disse: "enganoso é o nosso coração". Nosso coração não é perfeito, logo, não pode ser o parâmetro absoluto para nada.
     O segundo, é que meu líder é um homem como eu e como todos os demais, falho e pecador. Sendo assim, está sujeito a erros (não pode ser um parâmetro perfeito).
A doutrina da "igreja" nada mais é do que um conjunto de crenças e de princípios, feita por homens, baseada naquilo que acreditam que seja a melhor abordagem cristã, mas por ser uma visão humana, sempre será imperfeita e relativa.
     Sobrou a bíblia. Mas aí que entra algo óbvio quando entendemos o que é a bíblia: ela não é um livro e sim, uma coletânea de livros (é uma "biblioteca"), de diferentes autores, de diferentes épocas e contextos, com diferentes objetivos, englobando diferentes tradições judaicas. Por isso às vezes lemos algo em um livro e outra coisa que parece "meio diferente" em outro livro. Como é uma coletânea de escritos muito variados, não faz sentido usar a expressão "a bíblia diz", assim como não tem lógica dizer: "a biblioteca diz", afinal, pela abundância de contextos e objetivos, ela pode dizer coisas diferentes sobre um mesmo assunto. Isso é óbvio e natural. Estranho seria se ela dissesse sempre o mesmo (poderia ser um sinal de manipulação). Mas como a maioria tem uma orientação tão "cegamente conservadora" (espero que ninguém me julgue tolamente de "liberal", um termo incabível dentro do que creio), tenta fazer (forçando interpretações) com que tudo nela pareça uniforme, harmônico, sem contradições. Mas a bíblia nunca foi feita com esse fim. A bíblia é a junção em um só volume, feita no quarto século pela Igreja católica, de livros e escrituras antigas, após muita discussão, brigas e debates, que "canonizou" (oficializou) um conjunto de textos que seriam usados a partir daí pela comunidade cristã. Até então, diferentes grupos isolados usavam determinados livros, mas embora muitos deles fossem quase unânimes, outros eram aceitos só por alguns. A igreja de então determinou critérios para seleção e oficializou vários deles como "canônicos".
     A bíblia é maravilhosa e por conter escrituras divinamente inspiradas (como creio) é um INSTRUMENTO divino para nós. Repare que destaquei o termo "instrumento", pois é isso que ela é. A bíblia não é o fim em si mesma. Ela é um meio (registro histórico, escrito) que nos aponta um caminho, um objetivo (que é Cristo). Ela funciona como placas de trânsito que nos facilitam chegar a um destino. Não importam os detalhes da placa, pois ela não foi feita para ser o foco. Simples assim.
     Por que eu disse tudo isso? Pois é impossível dizer que vamos seguir o que "a bíblia diz", afinal, como ela tem vários objetivos e contextos, não tem como seguirmos ela toda. Se acha minha afirmação (que para mim é mais do que óbvia) absurda, tente seguir Levítico + Deuteronômio e, amo mesmo tempo, seguir os evangelhos e Paulo. IMPOSSÍVEL! Já tentou conciliar algumas instruções de Moisés com as de Jesus? Fica nítida a diferença de objetivos e de contextos. Moisés ensinava na base do "olho por olho, dente por dente" (esse era o conceito de justiça na época e mesmo sendo absurdo para nós hoje, já foi uma evolução nesse período da história humana) e Jesus ensinava perdão incondicional, fazer o bem a quem nos faz o mal...
     Como exemplo, uma mulher que era tomada para si por um homem: Se esse homem visse que ela não era mais virgem, ele a denunciaria e ela seria apedrejada (em Deuteronômio isso é descrito em detalhes). E em Jesus, o que vemos? Uma adúltera prestes a ser apedrejada sendo salva, perdoada. E Jesus iguala o pecado dela ao dos demais, dizendo: "quem nunca pecou (não importa o ato) atire a primeira pedra". Jesus denuncia a hipocrisia do julgamento do pecado alheio, pois estamos todos na mesma situação ("pecadores carentes da Graça divina", como Paulo cansou de ensinar). Ou seja: através da bíblia podemos olhar para Jesus, pois Ele (e apenas Ele) é nosso parâmetro absoluto para avaliar tudo e todos, inclusive qualquer relato bíblico. Ele é o Verbo (Palavra) que se fez carne (João 1) e não, papel e tinta; nEle estão os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2); Ele é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1). E como sabemos disso? Pelo instrumento maravilhoso que temos em mãos, chamado "bíblia". Portanto, se desejamos saber o que Deus deseja que façamos, olhemos para Jesus, que nos garantiu: "Quem vê a mim, vê ao Pai" (João 14). E com essa consciência podemos analisar a "Bíblia a fundo".

Autor: Wesley de Sousa Câmara

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