8 de set de 2015

Magistérios infalíveis e absolutos? Não!


     Creio que apenas Deus (e mais nada ou ninguém) é absoluto; nego a infalibilidade de magistérios e de tradições; busco coerência, consistência, honestidade e transposição da teoria para a prática, ciente de minha limitação.
     Uma vez que creio dessa forma, parto do princípio que a revelação plena e perfeita de Deus ao homem, ocorrida em Cristo, também é absoluta. Dessa forma, quando olho para Cristo, estou olhando para a revelação plena de Deus. Estou olhando para “Deus feito homem”, ou seja, para um homem PERFEITO, que não tem pecado (ou seja, que cumpre integralmente, em essência e em todas as dimensões, a Vontade/Lei divina). Jesus é, portanto, a imagem do Deus invisível (“Quem vê a mim, vê o Pai”), de forma que Ele foi o único ser humano absoluto. Todos os demais homens e mulheres, por melhores e mais sinceros que tenham sido, foram e são pecadores, falhos, sujeitos a falhas. Sendo assim, toda vez que olhar para os ensinos e atitudes de alguém, preciso comparar com Jesus e, em caso de nítida incoerência, não importa quem seja a pessoa, seguirei a Cristo. Essa é a radicalidade de ser “discípulo de Jesus”.
     Isso implica em afirmar que homem nenhum, além de Jesus, está isento de equívocos interpretativos, seja Abraão, Davi, os profetas, os apóstolos, as lideranças religiosas ao longo da história, eu, você... Portanto, digo: NÃO CREIO EM NENHUM MAGISTÉRIO OU TRADIÇÃO INFALÍVEL, não importa se esse “magistério” é o oficial da sua religião, se é a visão do seu pastor ou de um líder da Reforma, se é uma determinada visão teológica ou se é a sua própria interpretação das escrituras (que você apelida ingenuamente ou arrogantemente de “evangelho puro e simples”, como se ao longo de 2000 anos de história da Igreja ninguém tenha entendido como você e como se agora, do nada, o Espírito Santo resolvesse soprar sobre você a interpretação absoluta da Palavra). Ou seja: Rejeito o “fundamentalismo”! E também implica afirmar que o conhecimento científico, cultural e filosófico atual também não são absolutos. Tudo isso pode e deve ser considerado, porém como entes relativos dentro de uma compreensão, a fim de que o todo seja coerente e frutífero. Em outras palavras: Rejeito o “liberalismo”. Entre esses dois polos, prefiro ficar no centro (chamaria isso de “moderado”), afinal, como uma vez ouvi, de forma bem humorada, do grande amigo Joel Costa Jr: “Jesus não quer radicalismo; Ele morreu na Cruz do meio”. É uma posição nada confortável, pois além de não ser (e provavelmente jamais será) majoritária, sofre ataques de ambos os lados. Os fundamentalistas dizem que isso é liberalismo; os liberais dizem que é fundamentalismo conservador. Isso quando não recebe críticas de “relativismo”, apenas por dizer que a criação é relativa e absoluto é apenas o Criador. É... Colocar a mim mesmo (ou colocar uma instituição, tradição, teologia ou magistério) como absoluto, realmente nunca farei, porém chamar essa óbvia relatividade humana de “relativismo” (como se não houvesse uma Verdade Absoluta, que reafirmo ser Deus revelado em Cristo) é absurdo. O que muitos não entendem é o óbvio (dentro do que creio, na fé cristã): Deus é absoluto e a Verdade Absoluta é a revelação feita em Cristo, porém quando olho para Cristo (através das “escrituras”) o que assimilo é o que julgo que seja essa verdade absoluta (e não ela propriamente dita). Essa minha compreensão sofre influência de meus conhecimentos, de minhas preferências, de minha parcialidade. Isso tudo porque sou humano, limitado (incapaz de englobar toda a verdade absoluta), relativo. Eis aí o principal motivo de tantas pessoas sinceras, honestas, que procuram viver e defender a Palavra de Deus, discordarem tanto. Todas possuem interpretações limitadas (algumas mais coerentes do que outras) acerca do absoluto. A questão é que Deus não muda de acordo com nossa opinião sobre Ele e tampouco se relaciona conosco com base em nossos méritos (acertos ou equívocos teológicos). Se assim fosse, todos estaríamos perdidos. Por isso assumo minha “falência” e declaro total dependência de Cristo, da Graça. Não sou nada sem Deus e sem Sua misericórdia.
     Deus trabalha em nós sem tirar nossa humanidade. Continuamos humanos e imperfeitos, antes e depois da nossa conversão. Homem nenhum, por melhor e mais “de Deus” que seja, deixa de ser homem, limitado e relativo, portanto, sempre está sujeito a equívocos, a tendências (preferências), a parcialidades... E por sermos todos humanos, é impossível que uma tradição, um magistério, um concílio, um corpo de mestres, seja absoluto. É mais cômodo e dá mais “segurança” defender que é possível haver uma tradição, doutrina, teologia ou magistério infalível, né? Assim “nos garantimos” ao seguir suas interpretações pré-determinadas, não corremos riscos... Mas uma vez que rejeitamos essa possibilidade, assumimos responsabilidades. Assumimos nosso papel de refletir, questionar, criticar, ponderar, julgar... E isso só é possível se cremos que nossa salvação e nossa relação com Deus não depende de nós, de nossos acertos ou equívocos e sim, que depende exclusivamente de Cristo. Porém se colocamos o foco em nós, na intensidade de nossa fé ou na força de nossas obras, realmente é muito mais lógico tentar seguir algo supostamente infalível, pois impedirá que nossos erros nos “afastem de Deus”.
     O que defendo em relação a isso então? Que todos, querendo ou não, sabendo ou não, adotamos uma tradição e seguimos, de certa forma, um magistério... O problema não é adotar e sim, absolutizar. O que cada um crê acaba se assemelhando em maior ou menor grau a uma tradição que surgiu ao longo de tantos séculos. Então abrace a que acha mais coerente (tanto em termos de harmonização de textos bíblicos, quanto em termos de encaixar todos os assuntos, tendo em mente que o centro deve ser Jesus - ou seja, toda a escritura, todas as pessoas, toda a vida deve ser relativizada perante o único absoluto, que é Cristo. Devemos comparar tudo com Ele e se for incoerente, rejeitemos), a que gera mais frutos (amor), a que é mais consistente, a que já resistiu há muito tempo de críticas e indagações, a que é eficaz para resolver conflitos existenciais (ou seja, aquela que não é interessante apenas na teoria, mas principalmente aquela que se encaixa na vida)... Aceite críticas, compare a sua compreensão com outras, veja se seus argumentos são realmente legítimos. Se após tudo isso você tem certeza que sua visão é a que parece mais realista, mais sólida e com maior probabilidade de se assemelhar à realidade, siga-a. Porém jamais ache que essa sua compreensão é perfeita ou absoluta; ela é apenas uma explicação que deve apontar para Cristo. Nada mais! Não condene nas pessoas com base em sua compreensão. Aceite a possibilidade de você estar equivocado, porém se realmente acredita que sua compreensão é a mais plausível, defenda-a, sempre tendo em mente que visão alguma deve ser “fechada”. Esteja aberto a considerações, a correções e a mudanças. Lembre-se: Nunca saberemos tudo e o que sabemos jamais pode ser colocado como algo absoluto, pois não somos “Deus”.

Termino com esta citação:
   “Todo mundo acha que segue o evangelho puro e sem misturas; todo mundo acha que os outros estão errados, mas eles são a exceção. Prefiro quem admite: ‘sigo o que, pessoalmente, julgo ser a essência da mensagem cristã, e julgo assim por tais e tais motivos - mas, claro, posso estar errado’.” (Joel Costa Jr)

Autor: Wésley de Sousa Câmara
Texto escrito em 07/10/2014

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