15 de out de 2015

1º passo: Orientações teológicas e teologias (estudo completo)


   Se tem um grupo de pessoas que mantenho distância, quando se fala de cristianismo, é o que chamamos genericamente de “fundamentalistas”. Posso até amar as pessoas que seguem essa orientação, mas rejeito e combato veementemente seus ensinos, conceitos e reuniões, pois não só não são produtivos, como são prejudiciais a qualquer mente e espiritualidade sadia.
     Mas o que chamo de "fundamentalismo"? É bom deixar claro, pois muitas pessoas usam esse termo para falar de coisas muito diferentes. A maioria o usa como sinônimo de "radicalismo" ou  de "fanatismo", mas aqui o uso com um conceito diferente. Antes de significar, precisamos entender algumas coisas:
     Quando se fala em "orientação teológica", estamos nos referindo, de forma bem simplista, a uma determinada tendência de abordagem das questões teológicas. Pois bem: essa orientação pode ser resumida em uma escala gradual, que vai do fundamentalismo ao liberalismo, sendo que não há consenso na definição e nem regras inquestionáveis para essa classificação. Se fôssemos dividir as orientações de forma mais detalhada, como fazem alguns, poderíamos colocar a seguinte gradação para se referir a um cristão (já que nosso foco é o cristianismo):

Fundamentalista > Conservador > "Moderado"> Progressista > Liberal

     Porém, na prática e de forma mais resumida, temos:

Conservadores (sendo que o extremo conservador seria o fundamentalismo) e Progressistas/Liberais (sendo que o extremo liberal seria o “ateísmo”, embora alguns prefiram usar o termo "liberal" apenas para aqueles que assumem uma fé).

     Precisamos entender que essa divisão é muito relativa e muitas vezes esses conceitos são usados para comparar duas orientações, tomando uma delas como referência. Exemplo: o pastor Ed René Kivitz é mais liberal do que o Rev. Augustus Nicodemus (embora Ed René não esteja nem perto de ser liberal). Caio Fábio é mais conservador do que Brian McLaren (embora eu não pense que Caio Fábio seja conservador). Percebe os termos sendo usados sempre para dizer que alguém é liberal/conservador em relação a outra pessoa que é tomada como parâmetro?
    Mas deixando um pouco de lado essa questão mais relativa e adotando uma definição mais “concreta”, apresentarei resumidamente a minha definição. E não significa que todo conservador ou que todo progressista/liberal é igual, por exemplo, pois alguém pode ser considerado conservador quase moderado, enquanto outro, um fundamentalista. Ou seja, há uma gradação, seja entre diferentes orientações ou dentro de cada orientação. Outra observação a ser feita é que essa classificação tem que ser individual e quando for aplicada a um grupo (ou denominação), tem que se basear no que a liderança desse grupo prega naquele meio, pois em uma igreja mais moderada, por exemplo, pode haver membros (e até obreiros) liberais ou conservadores.

CONSERVADORES 
     São fáceis de identificar pelas suas características gerais. Defendem que a bíblia é a infalível Palavra de Deus e, portanto, ela é suficiente e inerrante em todos os aspectos (e se não é em nossas traduções, a é no “original”). Partem do pressuposto de que Deus é o autor da bíblia, tendo Ele usado pessoas pra escrever cada palavra, cada vírgula nas escrituras, logo, ela não pode conter nenhum tipo de erro ou falhar em nenhum ponto. Quando há contradições de textos ou falhas aparentes, atribuem isso ao processo de cópia ao longo dos séculos ou à nossa incapacidade no momento de decifrar tais “enigmas”. Geralmente apostam na literalidade dos textos (por exemplo: a Criação realmente se deu como está no livro o Gênesis - Criacionismo, não aceitando teorias científicas; o que está escrito e da forma como está escrito é necessariamente verdadeiro e preciso).
     Aqui se enquadra a massacrante maioria dos pregadores e denominações evangélicas no Brasil, principalmente pentecostais e até neopentecostais. Até porque o Brasil é um dos países mais conservadores do mundo e os que não se enquadram nesse grupo são exceções. Poderia citar só como alguns exemplos conhecidos (em termos de lideranças maiores/sedes, embora uma ou outra instância menor/filial possa não se enquadrar): Congregação Cristã no Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Assembleia de Deus (pelo menos os ministérios mais conhecidos, como Madureira, Belém, Ipiranga), a maioria das Batistas e Presbiterianas tradicionais, Igreja Deus é amor... Ou seja: praticamente todas as igrejas evangélicas brasileiras. Pregadores ou "pensadores" como Augustus Nicodemus, Ciro Zibordi, Hernandes D. Lopes, Paulo Júnior, Cesino Bernardino, Olavo de Carvalho, Claudio Duarte, Silas Malafaia, Valdemiro Santiago, Edir Macedo, Marco Feliciano... todos são conservadores (mesmo defendendo variadas teologias).
     Repare que "conservadorismo" aqui tem a ver com a orientação/abordagem teológica e não, com a adoção ou rejeição dos “usos e costumes”. Ariovaldo Júnior, por exemplo, é um “cara descolado”, que prega de bermuda, de chinelo, usa piercing e tatuagens, fala gírias o tempo todo e até criou a paráfrase bíblica chamada “Bíblia Freestyle”, mas continua sendo conservador, pois se enquadra em muitos itens citados anteriormente.

FUNDAMENTALISTAS 
     São os conservadores extremistas (ou seja, todo fundamentalista é um conservador, embora nem todo conservador seja fundamentalista). É um polo que, a meu ver, deve sempre ser rejeitado e combatido. Não me refiro aqui necessariamente ao sentido histórico do termo “fundamentalista”, que referia-se a radicais ortodoxos do começo do século XX, que pregavam um retorno aos “fundamentos” cristãos, que segundo eles estavam sendo abandonados. Refiro-me a conservadores que possuem algumas características especiais.
     De forma prática podemos classificar como fundamentalista (além de reunirem todas as características gerais dos conservadores propriamente dito) todo indivíduo legalista. E o que seria um legalista? Aquele que é apegado à lei; aquele que acha que deve seguir uma cartilha de regras para agradar a Deus (e nisso surgem todos os níveis de apego aos "usos e costumes", que são tidos não como uma opção, mas como mandamentos ou como formas de agradar a Deus realmente). O legalista acha que sua salvação, justificação, perdão, depende do seu sucesso em fazer a vontade de Deus. Ele é, afinal, o responsável pelo amor divino.
     O fundamentalista se preocupa não apenas com sua “imagem de santidade”, mas também atua como um fiscal da “santidade” alheia. Geralmente defende que sua interpretação (sua teologia, sua tradição, suas doutrinas) é a única correta, a visão perfeita e representa a exata revelação do Espírito Santo. Quem crê de forma diferente, está na alienação, no pecado e não tem salvação. Muitas vezes também evita contato com outros cristãos que não pensam como ele. Não frequenta seus cultos e às vezes até restringe esse contato por parte de seus membros. Outros cristãos não são nem considerados como “irmãos” ou no máximo, são considerados com preconceito (diz que eles ainda "estão na ignorância").
     Defende ainda que a bíblia não é para ser interpretada. A pessoa deve orar e pedir a Deus que revele a Palavra quando ela faz a leitura, ou seja, o que essa pessoa compreende da bíblia ela entende que é a “revelação do Espírito Santo” dada a ela (acha ainda que esse é o papel do “Espírito”). Mas esse tolo argumento cai definitivamente quando observamos que há milhões de fundamentalistas no mundo, cada um crendo em uma coisa diferente e todos dizendo que foi esse mesmo Espírito Santo que revelou. Absurdo! No mínimo, tem que se supor que praticamente todos eles estão errados ou que há milhões de “espíritos santos”... Resultado? Todos os dias várias novas “igrejas” são abertas, pois todos “juram de pé junto” que o que pregam é a revelação divina ou "o evangelho puro e simples".
      Para eles, tudo na bíblia é literal e aplicável a nós. Tudo mesmo. E os mínimos detalhes de questões que leem na bíblia são motivos para transformarem em dogmas e em ”pré-requisitos para salvação”. Por exemplo: se alguém não crê na interpretação futurista deles do Apocalipse, é porque não é cristão de verdade e não é guiado por Deus. Defendem não apenas que tudo que está na bíblia é verdade, mas também que toda a verdade está na bíblia. Nada fora dela tem proveito. Adoram clichês como: “Onde está isso na bíblia?” e “Isso não tem base bíblica”. Qualquer ensino, por melhor que seja, que não venha da bíblia, é rejeitado. Quando estão conversando, adoram citar um versículo bíblico após cada frase. Quando são questionados, muitas vezes sequer respondem com suas palavras; apenas citam um texto bíblico (como se o questionador entendesse aquele texto como esse fundamentalista compreende e como se uma citação bíblica validasse automaticamente o argumento apresentado). Muitos fundamentalistas são pessoas de bem, sinceras, com boa intenção, mas totalmente alienadas da história da Igreja, da teologia, da profundidade da fé.  Acabam idolatrando sua interpretação, suas crenças e suas denominações. Acham que são mais santos e amados por Deus por serem assim.
     Aqui se enquadram muitos pregadores e denominações, principalmente pentecostais e até neopentecostais. Igrejas como Congregação Cristã no Brasil (tradicional), muitas Assembleia de Deus (sendo a “dos últimos dias” talvez a mais óbvia), várias denominações menores e recentes, são exemplos. Davi Miranda, Marcos Pereira e “irmão Rubens” (que pode ser considerado um fundamentalista “anti-religião”) são bons exemplos (na minha opinião) de pregadores claramente fundamentalistas.

"MODERADOS" 
     São os que não se enquadram nem no grupo dos conservadores, nem dos progressistas/liberais. São um “meio termo” entre conservadores e progressistas e por isso, podem ter uma tendência ao conservadorismo ou ao liberalismo. No geral são aqueles que tem a bíblia como instrumento inspirado por Deus para trazer Sua revelação (que se dá, como defendem, de forma plena em Cristo, o que os leva a relativizar toda a escritura em Cristo, ou seja, se tiver alguma contradição, que geralmente não negam que possa haver, ficarão com o que é parecido com Jesus), mas não apostam na literalidade obrigatória dos textos (exemplo: creem na Criação de Deus, mas não necessariamente no criacionismo, podendo aceitar teorias científicas que expliquem tal evento). Creem em milagres, ressurreição, encarnação e volta de Cristo... Aceitam a inspiração das escrituras (pelo menos em grande parte), mas muitas vezes não defendem princípios como a inerrância, pois consideram que essa premissa pós-iluminista vai contra milhares de evidências internas na bíblia e choca-se com o próprio conceito da bíblia e com o processo de formação do “livro”, afinal, dizem: “como podemos supor, como os conservadores, que os originais não tinham erros se não existe sequer um texto original atualmente”? (visto que, por serem escritos em materiais perecíveis, só temos hoje cópias de cópias de cópias...) A inspiração da escritura então, como defendem, não seria no sentido de não conter erros e sim, de ser um meio usado por Deus para facilitar ao homem conhecer o Cristo histórico, pois Ele sim seria a Palavra inerrante, infalível e suficiente. Ou seja: defendem que a bíblia contém a Palavra de Deus, que é Jesus. Mas claro que para se crer nesse Jesus histórico, precisa-se assumir que Deus atuou ou permitiu que relatos fidedignos sobre Jesus (Evangelhos) chegassem até nós. Os moderados interpretam muitos textos alegoricamente, sem que isso interfira na sua fé.
     Um exemplo, na minha opinião, é a Igreja Batista de Água Branca (embora tenha uma confissão mais para conservadora, seu líder principal - Ed René Kivitz – é bem moderado teologicamente) e a Igreja Reina (do bispo Hermes C. Fernandes). Líderes (embora não sejam oficialmente religiosos/protestantes, mesmo na prática sendo) como Caio Fábio D’Araujo Filho (líder do movimento “Caminho da Graça”), Carlos F.S.Moreira, Carlos Bregantim e o famoso autor Brennan Manning podem ser considerados, no meu conceito, também moderados.

PROGRESSISTAS/LIBERAIS 
     Não vejo motivos para tentar diferenciar esses dois termos (mas alguns colocam os progressistas como “menos liberais” ou “mais conservadores” do que os liberais propriamente dito), pois são usados na prática para descrever a mesma orientação (lembrando que dentro de uma orientação há uma gradação enorme, variando desde cristãos que defendem ferrenhamente sua fé até genuínos “ateus”, embora alguns não gostem de classificar quem não tem fé em Deus ou deuses como liberais, pois esses críticos supõem que pra ser liberal, precisa ter fé em uma divindade). Mas em relação aos "liberais de fé”, de forma geral: creem no progresso da história, da humanidade, das crenças e da própria fé. Um progresso sem fim, sendo que na bíblia encontraríamos representações desses estágios anteriores de progresso. Promovem uma relativização bem maior (em relação aos moderados) dos textos bíblicos. Alguns até acreditam em um eventual milagre, outros não, mas preferem sempre explicações científicas para eles. Abordam de forma muitas vezes “escandalosa” para cristãos mais conservadores temas como homossexualidade, aborto, divórcio e sexo. 
     Não confunda o liberalismo teológico com o que os leigos popularizaram como “liberal”, que seria aquele indivíduo que age ou que defende que se abra mão de alguns dogmas ou tradições locais do grupo. Por exemplo, em uma denominação que adota os chamados “usos e costumes”, uma pessoa que é contra essa adoção é chamada por muitos de “liberal”, o que nada tem a ver com o sentido teológico do termo. Liberalismo é o uso da “Palavra de Deus” apenas como elemento alegórico diante do conhecimento cultural/filosófico/científico vigente. Sempre que aquilo que conservadores e moderados chamam de “Palavra” e esses elementos “seculares” divergirem, a “Palavra” será colocada em segundo plano. É o uso da fé cristã moldada pela visão das evidências e do conhecimento. Geralmente usam temas considerados históricos pelos demais cristãos (como ressurreição, encarnação, volta de Cristo) como, no máximo, alegorias de realidades eternas, como o amor, a vida, a perseverança, a confiança, a bondade, o respeito... Porém cada vez mais essas questões históricas e discussões acadêmicas estão ficando menos evidentes, diante da forma com que encaram a espiritualidade, a fé e a vida. 
     “Eles não são orgulhosos de onde eles estão; eles estão animados em relação a onde eles estão indo.” Essa descrição de Brian McLaren (um progressista cristão) para descrever os liberais é adequada para entendê-los, pois mostra bem a ideia de progresso que seguem. Sofrem muito preconceito e rejeição no meio cristão, pois são minoria em um país extremamente conservador, como o Brasil. Como nossa tradição religiosa na maioria das vezes só conhece “um lado da moeda”, qualquer abordagem mais “aberta”, como as mais liberais, soam como heresia, apostasia e “coisa do diabo”. Muitas vezes são chamados de “frouxos”, de “acomodados”, de “defensores de um evangelho mamão com açúcar”, de pregadores de uma “Graça barata”, de “fracos de fé”, de “sem fervor e paixão pela Palavra", de “arrogantes e orgulhosos”... São acusados de não terem um fundamento, de serem confusos e inconsistentes, pois não se apegam demasiadamente a nenhum ponto bíblico. Ou seja, quando se somam todas essas características a eles atribuídas pela maioria, os conservadores prontamente concluem que o liberalismo teológico está fadado ao fracasso e à extinção, já que se não tem fervor e coragem, os liberais não pregarão, não farão discípulos e essa orientação tenderá a desaparecer.
     Porém os liberais rejeitam esse diagnóstico (embora poucas vezes se dão ao trabalho de responder críticas conservadoras com palavras, já que rejeitam as premissas dos críticos – o que faz com que toda discussão, para eles, seja perda de tempo, pois um consenso é obviamente impossível). Os progressistas garantem que esse estereótipo atribuído as abordagens mais liberais é falso e procuram demonstrar seu comprometimento com ações, estudando profundamente as escrituras, já que são acusados de não darem importância a ela; focando não em pontos doutrinários, “4 ou 5 solas”, e sim no amor (a Deus e ao próximo) ensinado por Jesus, buscando levar esse amor até às últimas consequências e expandindo-o a todos, sem exclusão ou preconceitos; levando menos a sério questões supostamente moralistas e mais a sério pontos que provadamente interferem na vida humana, como o cuidado do meio ambiente, a prevenção de doenças, a defesa dos direitos humanos e a luta por menos desigualdade social, inclusive muitas vezes com um maior engajamento político. A luta principal para os liberais (os da fé, claro) é aliar sua fé ao amor; é ter uma espiritualidade coerente com as circunstâncias da vida, com o conhecimento atual e com as evidências que encontram; é a busca pelo bem comum, lutando sempre pela harmonia e pela igualdade de direitos.
     Um exemplo de cristão progressista é Brian McLaren. Já liberais que já ficam no polo “secular”, “ateísta” são Bart D. Ehrman e Osvaldo Luiz Ribeiro (embora alguns deles possam rejeitar o rótulo, com bons argumentos filosóficos, mas que não vem ao caso na abordagem superficial deste texto).

     Eu, pessoalmente, cresci em um ambiente extremamente conservador, até mesmo fundamentalista. Com o passar do tempo, fui me tornando mais moderado teologicamente (e isso, para os que continuam no conservadorismo, foi um mergulho meu no extremo liberalismo, já que só enxergam a dicotomia conservador-liberal, sendo que para um típico conservador, “liberal” é todo aquele que demonstra ser menos conservador do que ele, que é o ponto de referência, claro).  Eu sempre mantive muito preconceito com os liberais propriamente dito e não os considerava como cristãos genuínos. A partir do momento em que busquei analisar mais a fundo, pesquisar, procurar entender o porque de muita coisa, as razões da fé, a história da Igreja, o processo de formação do “Canon Sagrado” pude perceber que eu jamais conseguira expandir meu conhecimento, conhecer a fundo todo esse contexto e ao mesmo tempo, manter esses pilares conservadores. Pelo menos não seria possível se eu quisesse ser honesto e sincero comigo mesmo. Em um país tão conservador como o nosso, sendo eu cercado por pessoas muito convencidas por essa orientação, rejeitar essa abordagem é doloroso. Sofro preconceitos, julgamentos, mas estou pacificado e tranquilo. Tento fugir de divergências com os tais, prefiro apenas ignorar, não opinar, já que não vejo sentido nas premissas que adotam. 
     Atualmente posso dizer que combato o fundamentalismo por ser fanatismo doentio, que rejeito o conservadorismo por não ver sentido, que aceito as orientações mais moderadas por serem frutíferas e saudáveis e que me abro ao progressismo, pois não dá para estudar e analisar tudo seriamente, imparcialmente, buscando usar não só a fé, mas também a razão, exigir evidências e coerência e ao mesmo tempo, ficar fechado a abordagens mais questionadoras, sem condicionamento a uma crença. Muitos se fecham no conservadorismo por medo, por não ter condições de responder algumas questões mais problemáticas, mas se uma pessoa deseja uma busca sincera por uma compreensão mais ampla e profunda, deve perder o medo. Se deseja que sua compreensão corresponda, da melhor forma possível, à realidade, precisa criar coragem. Afinal, quem não deve não teme. Quem teme é porque não tem convicção do que defende. E se não tem convicção, é mais um motivo para se aprofundar, sem preconceitos. Como diria o apóstolo Paulo (perdoem-me pela descontextualização proposital e conveniente a mim): “Analise tudo e retenha o que é bom”.
     Precisamos ser menos intolerantes e aprendermos a conviver com as diferenças. A essência da fé cristã defende que o chamado de Jesus é para o homem amar a Deus e ao próximo, para servir, para fazer o bem a todos, sem esperar nada em troca; é para promover a paz e a justiça; é para não pactuar com a opressão... Então os cristãos precisam apegar-se mais aos pontos que os unem e deixar de lado os pontos que divergem. Como encaram alguns relatos, se é literal ou mitológico, é menos importante do que a mensagem por trás desses relatos. A essência é mais importante do que a forma. Não tenha dúvidas de que os cristãos serão mais úteis a todos se demonstrarem amor em atitudes ao invés de manifestá-lo em doutrinas e dogmas.

E as tradições teológicas?

     Não tem como fugir: todos seguimos uma tradição teológica, seja o catolicismo, o arminianismo, o semi-pelagianismo, o calvinismo, o luteranismo ou qualquer outra. E isso vale até para aquelas pessoas que ingenuamente dizem: “Não sigo teologia nenhuma; sigo só Jesus, o Evangelho puro e simples”. Quanta incoerência... Você pode negar o rótulo, mas acha mesmo que a forma como você entende a vida, Deus, a bíblia e a fé é algo inédito, que nunca foi considerado por teólogos? Imagine que essa sua compreensão seja única e inédita. Mesmo assim ela é uma teologia (interpretação, compreensão) sua. Mas posso quase lhe garantir que o que você defende hoje e acha que foi pura “revelação do Espírito Santo” é algo que alguém, em algum momento desses dois mil anos de história do cristianismo, já pensou ou defendeu. Provavelmente sua teologia (que você insiste que não é teologia, já que demoniza esse termo) tem até um nome, mas como você se nega a ver o óbvio e a olhar para trás para estudar a história do que levou você a crer como crê, você desconhece esse "detalhe".
    O que quero dizer é que aquilo que enxergamos depende de nossa "lente". É impossível ser totalmente imparcial. Quando assimilamos um conjunto de ensinos extraídos da bíblia, por exemplo, isso passou previamente por nossa interpretação, que por sua vez está sujeita a uma série de fatores, que atuam no nosso campo psicológico. Nossas preferências, conhecimento, universo de sentido, ética, desejos, pré-disposição, preconceitos, contexto sociocultural, ambiente, nossa formação mental... Tudo isso interfere diretamente em nossa interpretação, em qualquer contexto da vida. Ninguém escapa dessa relatividade. Só nos resta reconhecer esse ponto óbvio, parar de julgar os outros e buscar uma compreensão e uma vida mais sincera (conosco mesmos) e coerente possível com a realidade.
      Não vou neste texto, que já estou encerrando, detalhar cada teologia dessas citadas. Apenas as cito para demonstrar que elas são diferentes lentes, diferentes abordagens, diferentes tradições que visam fornecer uma base conceitual e interpretativa para que facilitem um diálogo amplo dentro da teologia cristã. Mas porque os debates entre elas nunca tem fim e não poucas vezes ocorrem brigas entre seus representantes? Pois cada um está enxergando com sua “lente” e defendendo essa visão parcial muitas vezes por achar que ela é absoluta. Durante um debate, ambos os lados estão convencidos de que estão com a razão (sem disposição para mudar de ideia se for convencido de que a outra abordagem é melhor), logo, é impossível chegar a um acordo.
   Portanto, entenda que independentemente de qual tradição teológica cristã você siga, provavelmente seu irmãozinho que discorda de você está falando do mesmo Deus, porém a percepção de vocês é divergente por estarem olhando com diferentes “lentes”. O que você (e ele) crê não é algo sem motivo, não é "puro" e nem “simples” e tampouco poderá afirmar que é a verdade absoluta. Essa compreensão que tem é apenas a sua percepção da verdade, que na fé cristã assume-se que é Deus revelado em Cristo. Então siga com humildade na busca pela abordagem teológica mais adequada possível, sabendo que a teologia é uma tentativa de explicar, de dar sentido a uma realidade perfeita, exata e imutável. Mas nenhuma dessas significações é perfeita, absoluta. Siga a que acha mais condizente com a realidade, mais frutífera e mais benéfica, tendo sempre em mente que a nossa percepção não muda o que de fato é fato. Sua orientação e tradição teológica formam apenas uma "mapa" parcial e limitado da vida, do mundo, da existência, da realidade. O mapa jamais pode ter a presunção de alterar a realidade. Ao contrário, o mapa tem que estar sempre aberto a correções de acordo com o que se evidencia no mundo real. Do contrário, o indivíduo será um tolo fundamentalista, que se gaba de sua ortodoxia, mas que segue um mapa que nada tem a ver com o "terreno", que é o chão da vida. Pura alienação...
    Quanto a mim, já mudei bastante de pontos de vista, mas hoje não consigo mais defender o semi-pelagianismo, como muito já fiz; não consigo defender uma teologia que tem o “deus calvinista” (não que seja um Deus diferente, mas me refiro ao “Deus conforme apresentado pela teologia derivada de João Calvino”), pois não consigo imaginar um “Deus encarnado” que não consegue sequer desfazer a desgraça que Adão, uma criatura, causou (ou pior ainda: que até consegue, mas que não quer fazer), já que Adão dana todo mundo, mas o Deus que é amor só salva alguns eleitos; não consigo basear minha argumentação no “deus arminiano”, pois, embora ele pareça menos sádico e menos vingativo que o “deus calvinista”, parece-me também que sacaneia o ser humano ao deixar na mão do homem uma escolha que seria sempre tendenciosa ao mal por causa do pecado. Já o “deus católico” não consigo defender pelo fato de ser moldado a partir de uma tradição que absolutiza a si mesma, que defende um magistério infalível e que se coloca como a porta voz da divindade no mundo, não assumindo sua parcialidade e relatividade. Enfim, em outro momento poderei até aprofundar essas questões, mas principalmente a quem segue uma orientação mais moderada, recomendo pautar os conceitos básicos, o ponto de partida na tradição luterana (não digo para abraçar a tradição toda, como um pacote fechado, pois esse tradicionalismo apenas cega e apequena a discussão). Embora o luteranismo não seja muito comum no Brasil, é uma tradição, na minha compreensão, mais abrangente e menos problemática que as demais citadas.
     Mas independentemente da sua preferência teológica, rejeite a arrogância, a prepotência e entenda que a teologia é uma abordagem de um recorte da realidade e dentro dela, cada orientação e tradição tem suas limitações. A verdade é uma só, absoluta (não sou relativista), mas as formas de olhar para essa verdade são todas humanas, parciais e imperfeitas. Não queira atribuir à teologia um papel que ela nunca conseguirá desempenhar. Simples, ou nem tanto, assim.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
15/10/2015

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