22 de out de 2015

2º passo: Definindo um parâmetro ético e interpretativo (estudo completo)


     Como relatei no 1º passo desta série de estudos (clique aqui para lê-lo), o conservadorismo teológico é uma orientação que acho impossível seguir quando se deseja analisar as coisas com profundidade, com real compromisso com a verdade e, ao mesmo tempo, com sinceridade e honestidade. Claro que há pessoas sérias que são conservadoras; claro que há muita gente com ótimo conhecimento que tem essa orientação, mas para mim é algo que não tem como ser adotado (e digo como alguém que já foi conservador “até o talo”).
     Como já disse em outros textos, quando se escolhe uma abordagem ou quando se constrói uma compreensão, essa interpretação e decisão passam por inúmeros fatores, como nossa pré-disposição a aceitar ou rejeitar algo, nosso contexto, nossa história de vida, nossa cultura, nossa tendência política/religiosa, nossas preferências, nossos privilégios que desejamos manter ou conquistar, nossos interesses e nosso compromisso. O que? Como assim, “compromisso”?
     A primeira coisa que precisamos fazer é definir o que desejamos para nossa vida: “o que estou buscando? Estou disposto a colocar tudo o que penso, creio e almejo à prova? Estou disposto a lutar pela verdade, independentemente de como ela seja ou de onde ela esteja? Tenho coragem para assumir um compromisso com a realidade, fazendo de tudo para compreender as coisas de forma mais condizente com ela? Estou aberto a ouvir e a aprender de variadas fontes, analisando tudo sem preconceitos e comparando os diferentes discursos a fim de defender o mais plausível?” Se estiver disposto a viver nessa jornada sincera e honesta consigo mesmo, ótimo; se estiver preocupado apenas em conseguir mais argumentos para defender o que já crê, sua abordagem e teologia, sinto muito, mas será sempre alguém sem um fundamento sólido, sem profundidade e sem consciência profunda do que acredita e do porque assim crê. Tudo o que pensar estará “viciado”, condicionado a chegar a uma conclusão que você já espera.
     Porém, uma vez disposto a buscar a verdade e a viver da forma mais adequada possível, passará a questionar as coisas, a não viver cegamente pela fé ou por uma crença que já possui. Uma fé desprovida de crítica e da razão é apenas uma forma de alienação e de manipulação. Até a fé deve ser pareada, comparada e aliada à razão. Sendo consistente, ela se manterá firme e forte. E sem essa de fugir do confronto, da análise e da crítica com a máxima: “o justo viverá pela fé”. Primeiro que nem você, nem eu somos justos. Brincadeira, esse argumento foi para descontrair, embora não seja uma mentira total, né? “Viver pela fé” não significa acreditar em qualquer coisa. Se assim fosse eu poderia dizer que Deus me disse para que você me fizesse uma grande doação em dinheiro, usaria um texto bíblico para justificar minha ideia e você acreditaria por ter fé? De forma alguma. Você usaria corretamente a razão pra diagnosticar que sou um louco ou um estelionatário. Critique o que lhe é apresentado como fruto ou objeto de fé. Não aceite passivamente, pois se não for crítico, será enganado por todo vento de crença e de doutrina.
     Você já parou para pensar o que cristãos, muçulmanos e budistas, por exemplo, tem em comum? Uma fé que dita um conjunto de crenças e “verdades”. São comprovadas ou claramente evidenciadas? Não, mas os fiéis de cada uma dessas religiões entregam-se existencialmente a isso e vivem nessa fé. Mas quem é relativista ou quem acha que a fé jamais deve ser questionada jamais poderá dizer que uma religião é mais válida do que a outra. Olha o paradoxo: muitos cristãos acham absurdo usar a razão para questionar a fé, pois dizem que a fé é algo que não depende de evidências ou provas. Mas se é assim, o que faz com que esses mesmos cristãos se julguem no direito de convencer um muçulmano ou um budista, que também se entregou a uma fé, a mudarem de fé? Se a fé não pode ser questionada, porque tenta convencer alguém de que a fé cristã é superior ou mais adequada que as demais? Entende, então, que quando você “prega o evangelho” está justamente discordando e confrontando a fé do outro (com a sua fé)? Da mesma forma que um cristão tem a fé de que Deus estava em Cristo e que deve pregar o Evangelho, um muçulmano acha que Deus é Alá e que a verdade está no Alcorão. Então não Daca com que sua fé feche sua mente. Da mesma forma que você lamenta quando alguém de outra religião sequer considera o que você tem a dizer, ele lamenta quando você se fecha. Não tenha medo de questionar sua fé, de comparar com outras e muito menos de comparar com a razão. Se a sua fé tem fundamento sólido ela não será abalada, certo?
     Mas como o objetivo aqui é mostrar uma abordagem cristã consistente (e não, uma abordagem para além do cristianismo – como discutindo conceitos filosóficos diversos - e tampouco para tentar converter alguém ao cristianismo), partiremos diretamente para a parte que nos convém, ou seja, supondo que você, leitor, seja uma pessoa que já segue a fé cristã, o que fazer para definir um critério, um parâmetro, uma referência para a sua vida? Oferecerei uma proposta que considero frutífera, bem fundamentada e coerente com o cristianismo: colocar Jesus Cristo como modelo, sempre.
     A ala conservadora cristã é quase unânime em colocar a bíblia (e não, Jesus) como parâmetro absoluto para avaliar tudo e todos. Porém essa decisão é ingênua, para não dizer, tola. Isso mesmo, pois embora eu ame e respeite os conservadores, não amo, não respeito, não adoto e não acho lógicas as suas premissas. Expressões como “a bíblia diz”, “sigo a bíblia”, “a bíblia é a verdade”, “sou cristão bíblico”, “a bíblia é minha única regra de fé e prática”, “segundo a bíblia...”, “sigo as doutrinas bíblicas”, “base bíblica”... não fazem sentido algum. Após esse escândalo e tremenda heresia que eu disse (na opinião dos fundamentalistas), explicarei em detalhes:

A bíblia: humana ou divina?
     A primeira coisa que precisa fazer é entender o que é a bíblia. Infelizmente no meio protestante ela é muito idolatrada, mas poucos realmente a conhecem e a estudam. A maioria que cita quase todos os seus relatos de forma até decorada sequer parou alguma vez para estudá-la a fundo em termos de origens, de composição, de tradução e de compilação. As pessoas usam-na como se ela tivesse caído pronta do céu, com capa e tudo mais que tenha direito. Ou seja, é uma enorme contradição, pois, ao mesmo tempo em que a classificam como "sagrada", como "genuína Palavra de Deus", como "manual de fé e prática", não a consideram como deveriam, não a estudam por diferentes óticas, não a levam a sério. Pergunte aos cristãos, no geral: “como é que surgiu essa bíblia que você lê?” Uma parcela quase insignificante deles saberá responder. Como cada livro foi escrito, por quem, como foram parar ali, quando, em que circunstâncias e por quais motivos? Quais os métodos possíveis para estudar a bíblia? Como saber se estou fazendo uma leitura correta para entendê-la? Infelizmente esses assuntos não são abordados nas “escolas dominicais”...
     Primeiramente, entenda: a bíblia não é um livro e sim, uma coletânea de livros (é uma "mini biblioteca"), que por sua vez são cópias de cópias de cópias (...) de manuscritos antigos, os quais muitos deles eram genericamente chamados de “escrituras”. Ou seja: lá na antiguidade, judeus diversos (e no caso do novo testamento, judeus convertidos à fé cristã), representantes de diferentes tradições judaicas, em momentos históricos variados, produziram manuscritos, que com o passar do tempo, por serem escritos em materiais perecíveis, foram sendo transcritos por copistas na medida em que certo registro de uma determinada tradição era interessante para ser usado pelos grupos judaicos/cristãos dominantes. Muitas dessas cópias (que obviamente já não eram totalmente idênticas às originais, sejam por terem sofrido acréscimos, omissões ou alterações, propositais ou não, chegaram ao quarto século da nossa era, quando então foram compiladas em um único volume pela Igreja Católica (após muita discussão e debate, com muitas discordâncias) para que fosse usado pelos cristãos. Esse volume único que continha uma ampla variedades de livros judaicos e cristãos é o que conhecemos como “bíblia”. A partir daí ela foi sendo traduzida e nunca foi um consenso, afinal até hoje diferentes vertentes cristãs tem bíblias com conteúdos diferentes (exemplo: bíblia católica e protestante), sejam nos livros que dela fazem parte, seja em trechos que existem somente em algumas delas, já que os manuscritos antigos divergem entre si. Sequer podemos dizer que nossas bíblias atuais são iguais (em termos de Antigo Testamento, obviamente) à bíblia que os discípulos de Jesus usavam. Enoque, por exemplo, era um dos livros que quase certamente constava como uma das "escrituras inspiradas" nos dias de Jesus e hoje isso não ocorre no meio cristão.
     Os livros bíblicos foram escritos por diferentes autores, de diferentes épocas e contextos, com diferentes objetivos e linguagens, englobando diferentes tradições judaicas, com variadas concepções da vida e à respeito de Deus. É por isso que vemos tantos textos que nitidamente entram em conflito com outros. E aqui vem o maior ponto de divergência meu com os mais conservadores. Quando entendemos esse histórico da bíblia, que ela não é um livro apenas, que não é uniforme, que não é harmônica, que não pode ser lida sempre da mesma forma, que precisa de métodos variados para se chegar à provável intenção do autor, não nos preocupamos com conflitos e supostas contradições. Se os escritores tinham concepções diferentes sobre Deus e sobre a fé, que foram evoluindo com o passar dos anos, com as influências que sofreram de outros povos que com eles mantiveram contato, é óbvio que olhando para a bíblia, veremos um leque de percepções em relação à vida e ao divino. Porém os teologicamente mais conservadores ignoram essas evidências, rejeitam qualquer tipo de abordagem bíblica que não seja “religiosa confessional”, classificam como quase demoníaca as abordagens “histórico-críticas”. Eles partem do pressuposto que a bíblia não é um livro humano e sim, divino. Deus teria “ditado” a bíblia aos autores (esse é o conceito de “inspiração divina” de muitos deles), sendo que cada palavra, letra, figura de linguagem e vírgula foram “determinadas” por Deus. Sendo assim, a bíblia é a Palavra de Deus propriamente dita e por isso, é inerrante, infalível e suficiente. E porque discordo? Ora, quando deixamos o medo de questionar de lado e mergulhamos de cabeça no estudo da bíblia, vemos muita humanidade nela. Mas tudo dependerá de nossa intenção ao lê-la, afinal se você, por exemplo, deseja fazer a leitura para fins religiosos, para "pregar nas igrejas", terá que apenas interpretá-la sob a ótica confessional, terá que alegorizar textos que convém, terá que submeter livros judaicos de linguagens específicas a uma leitura cristã moderna, que deturpará completamente a intenção do autor, mas que será a única forma de repetir o que as lideranças eclesiásticas pregam. Porém, se você deseja lê-la para entendê-la como ela realmente é, ou seja, para buscar conhecer o que o autor do texto pretendeu dizer ao escrever, não tem outra forma a não ser buscar uma abordagem "histórico-crítica" da bíblia (que analisa as fontes dos manuscritos, as formas, linguagens, compara com a o contexto sócio-cultural da época, faz um paralelo com outros documentos do mesmo período, não ignora evidências e descobertas científicas...). E isso não significa que uma pessoa que adota esse método não tem fé, embora os conservadores repudiem qualquer abordagem que não seja religiosa/confessional da escritura (até por elas derrubarem algumas premissas que os fundamentalistas adotam).
     Quando a lemos analisando a cultura e o contexto judaico da época, veremos as características das diferentes tradições nela presentes. Observamos que esses pilares conservadores (como o da "inerrância") são relativamente novos, visto que os pais da Igreja tinham muito mais facilidade em abordar alegoricamente muita coisa que os conservadores atuais defendem que obrigatoriamente devem ser entendidos de forma literal. Notamos ainda que são insustentáveis quando nos abrimos a uma crítica honesta e sincera. Há sites dedicados apenas a apontar supostas contradições bíblicas e elas existem realmente justamente pelo que já expliquei: ela é uma coletânea de diferentes percepções e tradições. Mas como um conservador típico baseia sua fé em uma interpretação praticamente toda literal do livro (se bem que transforma em alegoria tudo o que lhe convém), ele se ofende com isso. Sua fé se abala, pois se a bíblia é a Palavra de Deus e ela contém erros, a Palavra de Deus é imperfeita, então não tem porque nela crer. Entende porque escrevem livros, apostilas e textos que fazem enormes malabarismos exegéticos para tentar conciliar trechos bíblicos que nunca pretenderam ser harmônicos? Já para os menos conservadores, que não baseiam sua fé no livro propriamente dito (e logo explicarei como fazem), isso não muda absolutamente nada. Tanto faz se Jesus curou um ou dois cegos; se foi Deus ou o diabo que certa vez desejou que fosse feito um censo do povo... Quando entendemos que pessoas com diferentes compreensões compuseram os manuscritos antigos, fica claro porque vemos dois relatos diferentes da criação no Gênesis, porque há textos duplicados, porque às vezes parece que Deus não se arrepende e em outros momentos é dito que Ele se arrependeu... São normais essas divergências e não deveriam ser motivos para abalar uma fé com um mínimo de fundamento.
     Ao invés de querer transformar os trechos que lhe convém em alegorias ou metáforas, abra os olhos para o óbvio. Veja as evidências, em vez de querer forçar um texto para que saia da provável intenção do autor e se encaixe totalmente na sua leitura. E assim verá que argumentos como a inerrância e infalibilidade são tolos e infantis. A bíblia não precisa ser inerrante e infalível para ser usada como livro base da fé cristã. Ela precisa sim, ser inerrante e infalível no sentido de apresentar o centro da fé cristã, que é Jesus. Ou seja, Jesus precisa ser, no mínimo, semelhante ao que ela apresenta nos evangelhos. Cristo precisa ser real, ser o filho de Deus e a revelação plena de Deus ao homem, precisa ser amor e ter ensinado que a vontade divina é que amemos Deus e o próximo. Se isso é verdadeiro, o restante não fará muita diferença.
     "Ah, mas relativizando assim a bíblia, aceitando que ela possa conter erros ou contradições, quem garante que o que ela diz sobre Jesus é inerrante?" Ninguém garante. No fim acabaremos em uma aposta existencial, no quesito "fé". Temos que assumir que Deus decidiu se comunicar com o homem e como se revelou plenamente em Cristo, inspirou homens a deixarem registros escritos sobre Ele, que facilitasse nosso conhecimento (já que as testemunhas oculares morreram) histórico de Jesus. Assim, uma fé cristã sadia toma como verdade os evangelhos e a tradição cristã, a história da Igreja, que desde o início defendeu a confiabilidade desses relatos. Mas o que não podemos fazer é ir contra todas as evidências, dizendo que a bíblia é toda inerrante e perfeita (sendo que tem todas as evidências de ser mera conveniência histórica e podemos tomar como infalível apenas as informações que Deus desejou que chegassem até nós - as informações básicas sobre Jesus Cristo) quando temos um "caminhão" de erros que podemos apontar. Como negá-los se estão diante de nossos olhos (como disse, há inúmeros sites dedicados só a isso)? "Ah, mas ela é inerrante nos originais", dizem os conservadores. Colega, como pode dizer isso se não existe sequer um texto original da bíblia, já que os materiais usados na época eram perecíveis? É um mero "chute" que parece improvável quando olhamos para as evidências. Se esse argumento for válido, poderei inventar qualquer coisa, dizer que nos dias de Jesus era assim e ninguém poderá provar que minha alegação é falsa. Mas a questão é: há evidências de que o que eu defendo é verdade? Por exemplo, Marcos 16,  a partir do versículo 9 é quase certamente um acréscimo feito por copistas. Não é de autoria do mesmo evangelista. E como fica? Seria esse texto tão válido quando os originalmente escritos? Se sim, então assume que pessoas que viveram posteriormente aos escritores bíblicos eram tão inspirados quanto eles para acrescentar algo à bíblia, ok? Se não eram autores inspirados, assume que vários trechos da bíblia (que eles modificaram) não são inspirados, correto? Viu como as coisas são mais complexas do que parecem?
     Outro ponto: para dizer que não podemos relativizar a bíblia, temos que assumir que ela é absoluta, o que pra mim já é incoerente por definição (como algo histórico, dependente de idiomas humanos e da escrita pode ser absoluto como o Deus eterno?), mas prossigamos. Precisaríamos assumir que há magistérios infalíveis (e só o catolicismo assume isso. O protestantismo já surgiu rejeitando essa ideia), pois teríamos que partir do ponto que a compilação de textos na bíblia, feita no quarto século, foi perfeita. Não deixaram nada inspirado de fora da bíblia e tampouco nada entrou a mais. Defender essa hipótese é difícil, ainda mais sabendo que não foi consensual a escolha dos livros bíblicos. Depois de muita briga e discussão é que se chegou a um acordo, ou melhor, “quem podia mais, mandava; quem não podia, obedecia manda, quem não pode obedecia”. Lutero, por exemplo, criticava abertamente alguns livros escolhidos como "canônicos". Ester, Tiago (que ele chamava de "epístola de palha") e Apocalipse de João são alguns exemplos.
     Por que então os conservadores tem tanta aversão à crítica textual? Pois ela evidencia todos esses problemas. Pra quem defende que o livro é inerrante, usar uma abordagem que não usa premissas improváveis bagunçaria tudo. Mas honestamente, não consigo olhar pra tantas evidências e me fazer de cego e de surdo. Tenho um desejo de viver a realidade e não, uma ilusão. Se algo está diante de mim com todas as características de um inseto, não irei defender que ele é um mamífero, indo contra tantas evidências, somente porque me convém.
     Então quando fica entendida essa variedade de abordagens na bíblia, perdem o sentido expressões como “base bíblica” ou "a bíblia diz" ou "a visão bíblica sobre..." ou "crente bíblico". Não, meu irmão, não existe "visão bíblica sobre algo", pois ela é heterogênea. Dizer isso é tão ilógico quando dizer: "a biblioteca diz que...", afinal, pela abundância de contextos e objetivos, ela pode dizer coisas diferentes sobre um mesmo assunto. Isso é óbvio e natural. Mas a maioria dos cristãos no Brasil tenta fazer (forçando interpretações) com que tudo nela pareça uniforme, harmônico, sem contradições, embora a bíblia não tenha sido feita para isso. Não existe "a bíblia diz"; o que existe é: "minha leitura e compreensão da bíblia diz". Não estou dizendo com isso que é impossível resgatar o que um autor pretendeu dizer (é possível sim, usando critérios honestos, concluir, por exemplo, que "Paulo, em dado momento, afirmou que...", embora essa nossa percepção sempre possa estar equivocada). O que não dá é pra conciliar Paulo, João Batista, Isaías, Davi e Moisés, por exemplo, pois a compreensão de cada um sobre tudo (inclusive sobre Deus) era muito, mas muito diferente. Então no máximo poderá dizer, ao invés de "a bíblia diz que", o seguinte: "neste livro e capítulo ao autor X disse que...". 
     Apenas mais duas observações importantes em relação a dois textos bíblicos que muita gente distorce a fim de defender o conservadorismo:

"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça;" (II Timóteo 3:16)

     Com esse texto o que dizem? Que a bíblia toda é divinamente inspirada (e como vimos, acham que inspirada significa inerrante em todos os aspectos). Porém o termo usado aí é "escritura" e não, "bíblia" (não são sinônimos, como já expliquei). Até porque a bíblia, por definição, surgiu com a compilação que ocorreu quase 300 anos depois desse texto ter sido escrito. Então, obviamente, o versículo não pode estar falando da bíblia. O que era escritura para o autor não é o que chamamos hoje de escritura no meio cristão. Para ele, certamente era o antigo testamento, com alguns livros que nós não consideramos e sem alguns que consideramos. Outra questão é que especialistas no hebraico e grego bíblicos garantem que a tradução mais correta para o texto é:

"Toda a Escritura QUE É divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça;"

     Percebe a diferença? Nesta última tradução fica claro que nem mesmo aquilo que certamente é considerada escritura é divinamente inspirada. Algumas são; outras, não. Sem contar que este trecho específico é uma "escritura inspirada"? Se ele é, teremos como observações somente as duas anteriores. Se não é, aí nem preciso comentar. Mas vamos assumir que seja. De qualquer forma, não se refere à bíblia como um todo.
     Outro texto ainda mais óbvio, mas que alguns ingenuamente distorcem para dizer que não podemos relativizar a bíblia é:

"E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro." (Apocalipse 22:19)

     Mais uma vez: este texto não pode estar se referindo à bíblia porque ela surgiu quase 300 anos após este texto ter sido escrito. O livro de Apocalipse foi escrito por "João". O Apocalipse em si é um livro. Então quando ele diz "deste livro" está se referindo ao Apocalipse e não, à bíblia, que viria a surgir séculos depois. 
     A bíblia não é o fim em si mesma. Ela é um meio (registro histórico, escrito) que visa apontar um caminho, um objetivo (que é Cristo). Ela funciona como placas de trânsito que nos facilitam chegar a um destino. Não importam os detalhes da placa, se ela é perfeita ou se está desbotada ou cheia de buracos de bala, pois ela não foi feita para ser o foco. Basta ela exercer seu papel de facilitar a viagem. Simples assim.
     Quando não temos medo do confronto, quando temos curiosidade ou segurança do que defendemos, não fugirmos das evidências. Porém quando nossa base é fraca, quando nossa fé está meramente no livro propriamente dito e não, em uma compreensão profunda, realmente é mais cômodo e seguro tampar os ouvidos, fechar os olhos para a realidade e fingir que isso tudo não existe, sendo apenas uma invenção de teólogos liberais usados pelo diabo.

Jesus, o único parâmetro absoluto
     Dentro da fé cristã só vejo uma forma, portanto, de estabelecer uma “regra de fé e conduta”: Jesus! Ele (e não, a bíblia) deve ser colocado como modelo ético. É impossível usar a bíblia para esse fim, como já vimos.
     Imagine alguém dizendo: “Só sigo o que a bíblia diz. Ela é meu manual, meu exemplo ético.” Aí essa pessoa abre o a bíblia e lê:

"De Jericó Eliseu foi para Betel. No caminho, alguns meninos que vinham da cidade começaram a caçoar dele, gritando: "Suma daqui, careca! " Voltando-se, olhou para eles e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois meninos." (II Reis 2:23,24)

      Olha em que situação fica essa pessoa. Alguém (Eliseu) fica revoltado por ter sido ofendido por sua “calvície” e lança uma maldição EM NOME DE DEUS e então o Senhor manda feras para devorar os ofensores? (Alguns alegarão que os rapazes queriam matar o profeta, o que é pura especulação, sem base nenhuma. Mas é a mania conservadora de querer forçar o contexto e a intenção do autor para não desmoronar o seu sistema interpretativo. Porém mesmo que fosse assim, não seria o ideal morrer em paz, sem revide, pois foi o que Jesus ensinou?).
     A bíblia toda, sem critérios pra lê-la, é exemplo ético para alguém? Moisés e tradições judaicas antigas seguiam a ideia do “olho por olho e dente por dente”, mas Jesus chegou ensinando o oposto: "perdoar os inimigos sempre e oferecer a outra face diante de uma agressão", não é verdade? Vai dizer que também não tem contradição entre Moisés e Jesus? Claro que há. Nitidamente a consciência hebraica antiga ia de encontro com a revelação de Deus em Cristo. Diante desse dilema, vai ficar do lado de quem? Ora, um cristão fica ao lado de seu Mestre: Cristo. Moisés e as tradições hebraicas antigas (ou seja, boa parte da bíblia) serão relativizados em Jesus. Isso mesmo: olhando para o que a bíblia nos apresenta sobre Jesus teremos um parâmetro absoluto para avaliar tudo e todos (inclusive a própria bíblia). Então o que eu ler nela que não for coerente com Jesus não tenho que tentar forçar desonestamente o contexto para que pareça ser coerente e sim, deixar de lado e ficar com Jesus. É tudo muito simples, gente! Pior que coisas óbvias como essa soam como “heresia” para os fundamentalistas. E o que eu faço diante disso? Nada! Ignoro, pois quando a pessoa se nega a olhar para as evidências, nada a convencerá. Ela se dirá a espiritual e iluminada pelo Espírito Santo, enquanto quem dela discorda será o carnal e o "liberal que vive na letra". Essa pessoa sempre achará que está certa. Então que assim seja. É melhor concentrar as energias e o tempo com aqueles que querem realmente usar a razão e viver com consciência e não, na alienação.
     Mas por que digo que Jesus é o único parâmetro absoluto? Pois um cristão é aquele que baseia sua fé em Cristo, ou seja, é alguém que crê que Ele é o Verbo (Palavra de Deus) que se fez carne (João 1). Repare que a Palavra (Verbo), segundo o Evangelho de João, se fez manuscrito, pergaminho ou papel e tinta? Não! Ela se fez homem! Paulo chega a dizer que nEle estão os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 2) e que Ele é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1). E como lemos em João 14, o próprio Jesus garantiu: "Quem vê a mim, vê ao Pai". O mesmo Jesus deixou claro que o papel da escritura, que a grosso modo está contida na bíblia, é ser testemunha dEle (João 5:39). Logo, por usarmos a bíblia como esse instrumento que aponta para Cristo, podemos defini-lo como nosso parâmetro, já que olhando para Ele estaremos vendo a vontade de Deus revelada para a vida humana.
     Na prática, como funciona? Cito como exemplo uma mulher que era tomada para si por um homem na cultura hebraica antiga: Se esse homem visse que ela não era mais virgem, ele a denunciaria e ela seria apedrejada (em Deuteronômio isso é descrito em detalhes). E em Jesus, o que vemos? Uma adúltera prestes a ser apedrejada sendo salva, perdoada. E Jesus iguala o pecado dela ao dos demais, dizendo: "quem nunca pecou (não importa o ato) que atire a primeira pedra". Jesus denuncia a hipocrisia do julgamento do pecado alheio, pois os homens estariam todos na mesma situação ("pecadores carentes da Graça divina", como Paulo cansou de ensinar). Ou seja: através da bíblia pode-se olhar para Jesus.
     E Paulo (ou qualquer outro apóstolo) é parâmetro absoluto? Não! Ele foi um dos mais importantes no processo de evangelização e deixou grandes legados escritos para nosso uso, mas ele era homem, limitado, falho, como ele mesmo assumia:

“Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos... “ (I Coríntios 13:9)

“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?” (Romanos 11:33,34)

     Pois é. Até o próprio Paulo se relativizou e hoje cristãos o idolatram como se fosse absoluto, um "vice-Cristo." 
     Paulo, assim como os demais apóstolos, fez aplicações contextuais, de acordo com as percepções que teve do evangelho, em sua época. Pegou o que ele conhecia sobre Jesus, a Palavra de Deus, e fez aplicativos práticos disso na vida, na sua cultura e contexto. Ele é absoluto? Devemos pegar a forma como fez esses aplicativos como modelos absolutos? De forma alguma. Absoluto é a essência do que ele seguia, pois a essência era Jesus. Mas a percepção paulina de Jesus não pode ser absolutizada "idolatricamente" como fazem os conservadores.
     Diante de tudo isso sempre aparece alguém com o tolo argumento: “Você é um herege liberal relativista”. Para um fundamentalista, todo não fundamentalista é liberal. Complicado... Recomendo a esses lerem o primeiro texto dessa série: “1º passo: Orientações teológicas e teologias”, para entenderem o que estão falando. E a segunda falácia sem sentido é o uso do termo “relativista”. Não entendem sequer que todos quem leem a bíblia a relativizam, sendo que cada um usa um critério. Isso mesmo, até o mais conservador dos homens relativiza textos quando convém. Por exemplo, ele relativiza ao dizer que um texto é literal e outro, não. Quando Jesus diz: "se a mão de alguém o faz pecar, corte-a fora; se os olhos faz pecar, arranque-o". Alguém já viu um cristão cortar suas mãos ou tirar os próprios olhos? Não! Pois embora Jesus não diga explicitamente que era uma “força de expressão”, essas pessoas usam critérios para relativizar o texto como metafórico. Já o Gênesis, por exemplo, rejeitam qualquer tipo de abordagem que não seja a literal. Enfim, cada um relativiza as escrituras de acordo com critérios que pré-estabelece. Isso é o que chamamos de relativização, entender que o homem, por ser imperfeito, parcial, é relativo. Porém nada tem a ver com relativismo, que é a ideologia de que não há uma verdade absoluta (eu digo apenas que um modelo cristão saudável é assumir que Deus é o único absoluto, sendo que se revelou plenamente em Jesus). Não digo que não há verdade absoluta e sim, que a compreensão de qualquer ser humano em relação a essa verdade será relativa. Se eu fosse relativista, teria que assumir que não existe “certo e errado”, pois tudo depende da ótica de cada um. Porém, como diz Olavo de Carvalho (e você que não gosta da pessoa dele, avalie apenas a citação, sem partir para o lado pessoal, usando o velho ad hominem): “Quem diz que não existe o certo nem o errado está dizendo que é errado dizer que algo é certo ou errado.” Realmente não faria sentido. Cito como exemplo de relativismo o famoso Friedrich Nietzsche, que pode ser tomado como relativista (embora alguns rejeitem essa classificação, dizendo que era apenas um “perspectivista” – mas essas discussões filosóficas não interferirão onde quero chegar), que afirmava: “Não existem fatos, apenas interpretações de fatos”. Claro que isso é absurdo, afinal se não existem fatos, essa constatação não é um fato, logo, não passa de uma interpretação dele. E a vida não é um fato? E a morte? Quer um fato mais óbvio do que este? Irônico é que o mesmo que dizia não haver fatos foi vítima deste fato (fim da vida) que ninguém escapa, independentemente da interpretação que cada um tenha. Então pense bem antes de chamar alguém de relativista.
     Conclusão: use o que os evangelhos apresentam sobre Jesus como parâmetro e assim terá uma referência confiável e ética saudável, baseada no amor ao próximo. Assim, teremos menos arrogância, injustiças, preconceitos e mais acolhimento, abraço e respeito.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
(22/10/2015)

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