11 de out de 2015

Criando e montando o nosso "Jesus"


     Quando olhamos para algo não vemos a coisa em si; vemos o que nossa percepção nos permite enxergar ou vemos nossa própria projeção nela. Nossa capacidade de assimilar algo depende de nossa "lente" (nossos valores, princípios, preferências, conveniências...).
     Então, dentro da fé cristã, creio que só há uma forma de ter uma espiritualidade sadia e consistente: "Se quer saber o que é correto, o que deve ou não fazer, o que é ético, o que é conveniente, qual modelo de vida seguir... tem que ter um parâmetro absoluto."
     E esse parâmetro não pode ser a bíblia, por questão de lógica, pois ela não é harmônica ou uniforme (nossas compreensões é que tentam encaixar seus conteúdos). A bíblia é uma coletânea de livros, em diferentes contextos, com variados alvos, focos e objetivos. Logo, na mesma bíblia pode-se tomar várias visões diferentes e até opostas em relação a vários assuntos. Qualquer pessoa honesta, sincera consigo mesmo e com um conhecimento mínimo do processo de formação do "Canon Sagrado" tem isso como óbvio.
     Nossa referência absoluta também não pode ser um magistério e/ou tradição (seja esse magistério uma religião, uma denominação, um líder, uma teologia ou uma confissão de fé) humanos, pois eles não são Deus; O magistério é composto por homens, que são seres relativos, parciais e falhos.
     A um cristão, então, só resta uma opção: olhar para Jesus! Ele, como testemunham as escrituras, é o Verbo/Palavra/Razão da criação encarnado - João 1; é a fonte dos tesouros da sabedoria e do conhecimento - Colossenses 2:3; é a imagem do Deus invisível ("quem vê a mim, vê ao Pai") - Colossenses 1:15, João 14:9, João 12:45...
     Mas se é tão óbvio assim, porque continuamos com tantas divergências até mesmo quando concordamos com essa premissa? Pois é. O que seria a solução torna-se em um novo problema, afinal, todos os que com isso concordam continuam defendendo coisas diferentes, alegando que tem "base em Jesus" para isso. Uma ilustração é um trecho de um comentário do professor Osvaldo Luiz Ribeiro:

"Se eu sou socialista, Jesus é socialista.
Se eu sou da TFP*, Jesus é da TFP.
Se eu sou gay, Jesus é gay.
Se eu sou fascista, Jesus é fascista.
Se eu sou coxinha, Jesus é coxinha."

*Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade

     Ou seja, cada um constrói mentalmente um Jesus que acaba sendo não um modelo a ser seguido e sim, um reflexo da ideologia ou das preferências dessa pessoa. E a base para essa construção, mesmo quando são visões quase opostas, é a mesma escritura.
     Continuo mantendo a posição, dentro da ótica cristã, que o único parâmetro absoluto é Jesus, porém não tenho a ingênua ilusão de que o que compreendo, por exemplo, como sendo "semelhante a Jesus" seja absoluto, uma vez que minha capacidade de assimilação é contaminada por vários fatores pessoais.
     Concluo que a linha entre o "Deus revelado em Cristo" (o Deus criador) e "o 'deus' que crio em mim e projeto em Cristo" (um "deus" criado à minha imagem e semelhança) é muito tênue, para não dizer impossível de ser diferenciada. O que me resta é maturidade e honestidade, sem jamais assumir que posso impor a minha compreensão a alguém ou julgar qualquer pessoa que tem uma visão diferente da minha, afinal, por minha ótica elas estão equivocadas, mas na delas, eu é quem estou falando besteira.
     Então antes que me chame de "relativista", deixo claro: Não disse que não há uma verdade absoluta e sim, que a tendência humana é usar argumentos para mostrar que a "verdade" que essa pessoa defende é absoluta. E isso quase sempre acaba sendo uma estratégia, consciente ou não, de manipulação ou de imposição.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

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