22 de out de 2015

Deus derrubou um avião ou salvou alguém de um desastre?


     Tem gente que atribui todos os acontecimentos a Deus ou ao diabo, sejam catástrofes naturais, acidentes ou crimes hediondos...
     Se um avião cai e um passageiro chega atrasado ao aeroporto, perdendo o voo, virará manchete de algum site gospel sensacionalista: "Deus salva homem de tragédia!"
     Ué, mas e os outros 300 passageiros? Deus salvou só esse homem (teria ele algo de especial? Os outros não mereciam também escapar ou eram tão insignificantes assim para a humanidade?)? Se é para Deus interferir na história dessa forma miraculosa, não seria mais lógico (por Ele ser soberano e todo poderoso) impedir o avião de cair?
     Não estou afirmando que não foi Deus (ninguém tem como provar isso), mas não me soa como a melhor explicação.
     Não seria mais provável e mais lógico dentro do bom senso e dos que vemos no dia a dia, que essa pessoa é apenas uma descuidada (como eu), que deixa tudo para a última hora (ou que teve uma eventualidade que a atrasou), o que a fez perder o voo? Porque essa necessidade de "sobrenaturalizar" tudo, inclusive o que tem todas as características de algo "natural"? Se um animal tem 3 pares de patas, 1 ou 2 pares de asas e 1 par de antenas você dirá que ele é um inseto ou um mamífero? Obviamente dirá que é um inseto, pois tem todas as características de inseto. Aviões infelizmente caem. Algumas vezes pessoas perdem o voo e em outras, não. Algumas vezes morrem muçulmanos e em outras, cristãos ou "ateus". Faz parte. A probabilidade funciona para todos.
     Quando você perde seus óculos, você pensa primeiramente que ele foi raptado por uma conspiração alienígena? Que o diabo mandou capetinhas para roubá-lo? Que Deus mandou anjinhos para que você não lesse algo que iria lhe prejudicar? Não! Você pensa o óbvio: estou distraído e não sei onde coloquei (ou ainda: meu filhinho deve pego, pois estava aqui). Então porque eventualmente tem esses surtos de abrir mão da razão? Porque achar que precisa ter uma causa sobrenatural para cada processo natural? Qualquer veículo ou equipamento humano pode falhar. Seu carro já quebrou? Então, não precisa achar que foi Deus ou o diabo quem fez isso. E se seu veículo fosse um jatinho, você não estaria lendo este texto.
     Imagino essas pessoas deterministas consolando uma mãe que teve sua filhinha de dois aninhos sendo sequestrada, estuprada e estrangulada (perdoem-me pelo exemplo extremo, mas precisei usá-lo para dar um choque de realidade em alguns). Vai dizer que Deus quis assim? Que foi a vontade de Deus? Torço pra algumas pessoas apenas terem o bom senso de ficarem caladas em momentos como esse...
     Dizer que Deus salvou o rapaz que perdeu o voo é fácil. Quero ver usar o mesmo raciocínio pela ótica dos familiares das vítimas. Se Deus atuou diretamente salvando esse homem, também atuou diretamente derrubando o avião? Mas aí seria assassinato, atentado terrorista. Deus poderia salvar todos, mas escolheu salvar só um? Não seria omissão? Pois Jesus disse (e Tiago concordou) que aquele é omisso diante da necessidade do próximo (não alimentando o faminto, não dando água ao sedento, não hospedando o desabrigado...) não participa do Reino de Deus. E como conciliar essa ação divina com Jesus, já que nos é dito que Jesus é a imagem do Deus invisível (“Quem vê a mim, vê ao Pai”)? Deus em Cristo revela um Deus que morre pelo homem, mas depois se mostra um Deus que mata o homem? Não é uma contradição?
     Que ética é essa supostamente divina? Não há uma ética? Deus não tem um critério e faz o que bem entende, matando ou salvando a vida, quando lhe convém? Como confiar num Deus assim? Como seremos imagem de Deus se Ele sequer tem uma imagem definida, pois é mutável? Como Deus em Cristo se revela como alguém que repudia a violência, mas depois Ele mesmo violenta? Como se manifesta como alguém que salva as vidas (como a da mulher que seria apedrejada), mas depois Deus se omite ou mata? Se essa abordagem que critico é verdadeira, Deus não seria hipócrita ("Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço")?  Deus agindo assim poderia ser Deus?
     Prezados, uma teologia que já começa assim tão incoerente e contraditória não fará sentido depois. Algo que começa errado não tem como terminar certo. Teologia que não corresponde à vida em quase nada, que não tem a ver com a realidade e com as evidências que saltam aos nossos olhos é quase uma prova irrefutável de que não corresponde ao mundo real. É uma “Matrix”, um mundo imaginário que alguns apelidam de fé. É como um mapa que não corresponde ao terreno. E se não tem relação com a vida, qual sua validade ou serventia? Uma coisa é “viver pela/com/na fé”; outra é se alienar da realidade, abrindo mão totalmente da razão.
     Não pretendi aqui dar respostas e sim, fazer perguntas para que você reflita e para que fique claro que algumas abordagens já são absurdas nas premissas. Perca o medo do confronto, pois se sua fé foge de perguntas ou não resiste a um questionamento mais profundo, ela não passa de uma tola crença, de uma alienação que não lhe permite entender a vida.
     "Não queira entender Deus", alguém dirá. Ok, se não quer entendê-lo e se não tenta discerni-lo, sequer saberá diferenciar Deus do diabo (e olha que algumas concepções do divino tem mais aparência disse diabo mesmo – um “deus” mau, vingativo, sem escrúpulos e sem ética alguma, passando muito longe do amor revelado em Cristo). Questionar não é "pecado", colega, relaxe. E se tem medo de questionar, é sinal que sua fé não tem fundamento sólido, o que evidencia a importância maior ainda de confrontá-la para que pelo menos brotem algumas raízes. Não construa sua casa na areia.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
22/10/2015

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