24 de nov de 2015

4º passo: Salvação e refutação a algumas teologias (Estudo completo)


1. INTRODUÇÃO
     Um dos pilares da fé cristã é justamente essa questão: a salvação. Infelizmente é um conceito que poucos cristãos compreendem com profundidade, o que gera uma espiritualidade muitas vezes incoerente com o que se diz crer que Deus fez e faz pela criação. Na tentativa de simplificar o termo, quase sempre exageros são cometidos e cai-se em um simplismo, tornando algo tão profundo sinônimo de coisas tão pequenas. O objetivo deste estudo é apresentar a abordagem cristã que julgo mais consistente e mais “frutífera” em relação a esse tema, dentro de uma orientação não excessivamente conservadora. Abordarei questões como: "O que é salvação? Como ser salvo? Como sei que sou salvo? O que o céu, a vida eterna e o Reino de Deus têm a ver com a salvação? Ela depende de que, da fé ou das obras? Qual é a melhor teologia da salvação? Como é o inferno?”.
     Provavelmente apresentarei a você outro paradigma, que o confrontará e caberá a você analisar se o que defende subsiste a uma análise mais aprofundada e se o que lhe apresento é ou não consistente. O que lerá aqui será (pelo menos acredito que sim) diferente do que aprendeu até hoje, pois embora seja uma visão cristã que considero valiosa, não é majoritária e tampouco é compatível com a religião popular, que domina o cenário cristão evangélico brasileiro. Também não tem nenhuma semelhança com a lógica religiosa de que o homem conquista sua salvação, cumprindo determinados pré-requisitos. Defenderei aqui uma salvação pela Graça, apropriada por meio da fé, conforme se pode ler em Efésios 2. Então, se não estiver preparado para confrontar seus paradigmas, nem comece a leitura, mas se você quiser entender o tema ou se desejar colocar à prova se o que você defende suporta um confronto sincero, vamos lá! Ah, o estudo está bem longo, mas não queira pular trechos ou ler apenas as partes que parecem lhe interessar, pois no decorrer do texto vou apresentando conceitos e paradigmas, que se não forem entendidos, nada fará sentido. Leia tudo ou nada.
     No 3º passo dessa sequência estudamos o tema: “Lei e Evangelho/Graça”. Se ainda não leu, recomendo que pare aqui e leia (clique aqui), pois é praticamente um pré-requisito para que este estudo faça sentido, afinal, uma compreensão sólida não é algo linear, que se pode estudar por pedacinhos. É enquadrada em uma “rede de significados” e deve a todo o momento ser vista dentro de um todo, de forma que para tratarmos de um conceito precisaremos ter em mente vários outros. Então lembro você que “Lei de Deus” não é sinônimo de 10 mandamentos, nem de pouco mais de seiscentos preceitos judaicos; não é sinônimo de “lei de Moisés”. Lei de Deus é o que Jesus revelou como sendo Lei, ou seja, é amor perfeito a Deus e ao próximo. Como ninguém de nós ama perfeitamente, todos transgredimos a Lei (por isso somos pecadores, ou seja, essa transgressão evidencia nosso pecado e como o salário do pecado é a morte, é essa condenação que todos teríamos de enfrentar). É nesse contexto que chega o “Evangelho”, que é o anúncio (a boa notícia) de salvação. É a revelação que Deus estava em Cristo nos reconciliando com a divindade. Essa é a conclusão que chegamos no estudo anterior (3º passo). Então continuando desse ponto...

2. TEOLOGIAS DA SALVAÇÃO
     Quando se fala em salvação, surgem alguns grandes grupos interpretativos (e dentro de cada um há uma enormidade de variações), sendo que cada visão teológica abraça ou tende a um deles:

A – “Todos os homens nascem condenados, pois todos descendem de Adão (que pecou e condenou a todos). Porém, Deus elegeu/predestinou alguns desses condenados para a salvação (e obviamente, direta ou indiretamente, predestinou os não eleitos para condenação), que são evidenciados pelo fato de ouvirem o Evangelho, de crerem, de se arrependerem, de serem regenerados, justificados, dando os frutos do Espírito. Em outras palavras: Deus criou alguns para salvação e outros para a condenação, sendo tudo isso ‘para Sua Glória’. Quem foi eleito por Deus foi efetivamente salvo na Cruz e quem não foi, é condenado. Não há nada que o homem possa fazer para mudar essa realidade e, na verdade, quando um homem se inclina na direção de buscar a Deus é um sinal de que essa pessoa é uma eleita. O foco é a soberania divina na salvação.” Uma tradição típica com essa abordagem é a calvinista (derivada do reformador João Calvino).

B – “Todos os homens nascem condenados, pois todos descendem de Adão (que pecou e condenou a todos). Porém, todos os que ouvem e que aceitam o Evangelho, são salvos. Os que não creem (os que rejeitam a mensagem ou os que não a ouvem) são condenados." Veja que aqui a Cruz não salva de fato e sim, abre uma possibilidade (dando a todo homem a chamada “graça preveniente” que permite que cada um tenha condições de crer e assim, alcançar a salvação. A eleição/predestinação divina é vista geralmente como a presciência de Deus, que elegeu aqueles que Ele sabia que creriam. Consequentemente, todas as pessoas que não ouvem a pregação sobre Cristo não tem como crer, logo, são condenadas. O foco é o arbítrio (possibilidade de escolha) do homem na salvação, embora algumas teologias reconheçam que essa graça é a motivadora, sem a qual o homem não consegue fazer essa decisão. Aqui temos como principal representante a tradição arminiana (derivada do teólogo Jacobus Arminius). 

C – “Todos os homens nascem salvos, pois Deus elegeu e salvou de fato toda a humanidade em Cristo.” A partir dessa premissa surge uma variação enorme de interpretações, como a divergência se seria ou não possível o homem perder essa salvação. Aqui se enquadra o famoso “universalismo”, bem como outras visões não universalistas (pelo menos no sentido popular do termo), que divergem em relação à condenação e até mesmo em relação à profundidade dada ao conceito de salvação. O que une todas elas é a interpretação de que o sacrifício de Cristo foi por todos e não apenas para "abrir uma oportunidade", mas para reconciliar de fato. As consequências disso é que geram um leque de tradições.

     Mas qual delas seria a melhor abordagem? Vamos analisá-las: 

2.1 CALVINISMO (A):
     Qual o problema dessa tradição? Se Deus é amor (I João 4), todo poderoso e soberano (Apocalipse 16; 19; 21) e deseja que todos sejam salvos, porque não os salva? Se Ele quisesse e não pudesse, seria fraco; se pudesse e não fizesse (quisesse), seria maldoso. Quem pode fazer algo e não faz, se não há um critério maior definido, é omisso. E se há um critério, qual é? O amor? A justiça? 
     Os defensores desse tipo de teologia (os “reformados” ou calvinistas, e como exemplos contemporâneos conhecidos no Brasil cito Augustus Nicodemus, Paul Washer, Paulo Júnior, Renato Vargens, entre muitos outros) apresentam uma série de argumentos para dizer que quando alguns textos bíblicos falam “todos” ou “mundo” (“Deus amou o mundo de tal maneira...” ou “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida...” ou “[Deus] que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade." - João 3:16, Romanos 5:18 e I Timóteo 2:4, respectivamente), na verdade não estão incluindo todas as pessoas e sim, “pessoas de todo lugar”, de todas as classes e coisas semelhantes. Porém, mesmo grandes representantes calvinistas (como Charles Spurgeon) parecem discordar dessa restrição, principalmente em relação à carta a Timóteo. Aparentemente, nem mesmo Calvino defendeu abertamente uma expiação limitada, ou seja, uma cruz só para alguns eleitos. Seus sucessores “calvinistas” sim, o fizeram. Apesar disso, muitos desses sucessores insistem que Calvino evidencia em vários comentários que ele cria que o apóstolo não falava de indivíduos, quando escrevia “todos” e sim, que fazia referência a classes de indivíduos. Porém veja a incoerência: quando afirmam que Adão fez “todos” ou o “mundo” cair em pecado, aí aceitam que esses termos valem para todas as pessoas (e não apenas para alguns representantes humanos espalhados pelo planeta), o que reflete a parcialidade extrema desse argumento.
     O texto de I Coríntios 15:22 é entendido de forma tão parcial por alguns que chega a dar náuseas: "Pois como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados." Embora em ambos os casos a palavra usada para "todos" seja a mesma, alguns dizem que o "todos" usado para Adão tem a ver com os que nascem dele, ou seja toda a espécie humana; já o "todos" aplicado a Jesus tem a ver com os que nascem dEle, que são apenas os eleitos. É um argumento fraquíssimo, na minha opinião, e escandalosamente tendencioso. É até cômico notar que essa associação é baseada em uma premissa que já é fruto da teologia previamente adotada (calvinismo). Mesmo a palavra sendo a mesma, cria-se dois sentidos de acordo com a interpretação reformada de que todos caem em Adão e de que só alguns são eleitos em Cristo. Um pelagiano, um arminiano e um calvinista discordarão na interpretação dessa mesma frase por partirem de pressupostos diferentes em relação à queda de Adão e à abrangência da cruz. Essa explicação que citei só serve pra quem previamente adota a teologia calvinista, pois esses é que partem do pressuposto de que a cruz é só por alguns. E note que, no final, "todos" (mesma palavra) acaba sendo aquilo que o leitor deseja que seja. É a parcialidade e relatividade humana em nossas teologias.
     Ainda mais infantil o argumento usado para dizer que em João 3:16 não é Deus amando cada ser humano e sim, alguns eleitos apenas, visto que a palavra traduzida por “mundo” é “kosmos” e o termo pode possuir uma série de significados, desde o universo até apenas os crentes. E o que fazem então já que o termo é supostamente amplo? Escolhem o significado que lhes convém para aplicar nesse texto e o que convém é dizer que “mundo” aí é só alguns. Geralmente dizem que só descobriremos o significado comparando o texto com passagens paralelas e com muita oração, o que é uma boa fuga e um bom argumento apenas para quem abre mão da razão, pois as “passagens paralelas” nada mais são do que textos que eles decidem e que supostamente dão margem a uma interpretação mais restritiva, além de que a “oração” só será considerada válida quando culminar com uma interpretação que eles julgam correta. Experimente dizer: “Irmão, orei, estudei e concluí que aí fala de todos os sere humanos”. Eles não aceitarão, obviamente. Dirão que você falhou em algum ponto...

"Porque Deus amou O MUNDO de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, PARA QUE todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16)

     Alguns dizem que Deus deu Seu filho só por alguns (eleitos) e esse alguns são os que creem. Não é isso que o texto parece dizer. A expressão "para que" denota CONSEQUÊNCIA (de algo já feito - Cristo se entregando em amor). É por causa dessa entrega universal que os que creem tem "vida eterna". E no decorrer do texto entenderá que, mesmo eu não sendo universalista dogmático, não vejo sentido no questionamento irônico: “então o sacrifício de Cristo é fraco, pois não salva todo mundo”.
     E já que estamos falando de uma tradição protestante, que tal citarmos ícones da reforma, como Martinho Lutero e Philip Melanchthon? Ambos defendiam um perdão universal na Cruz. Encontramos em "Sermões no Evangelho de São João, "Obras de Lutero, Vol. 22 [Saint Louis: Concordia Publishing House, 1957], trecho entre pp.161-64: 

“(...) Sim, Ele assume não só meus pecados, mas também os de todo o mundo, desde Adão até o último mortal. Esses pecados Ele toma sobre si; para estes, Ele está disposto a sofrer e morrer por nossos pecados (...)”

     São João Crisóstomo e São Ambrósio de Milão também defendiam que Jesus morreu por TODOS os homens e não apenas por alguns eleitos. Johann Gerhard e Andreas Norborg pensavam, nesse ponto, de forma semelhante. Poderia ainda citar outros teólogos conhecidos, como J.N.D. Kelly, I. Howard Marshall, Roy B. Zuck e o grande Karl Barth...  Mas continuemos:
     Quer dizer que Deus cria uma enormidade de pessoas que serão condenadas, torturadas eternamente, “para Sua glória”? (Expressão que os nossos irmãos calvinistas adoram – “tudo é para a glória de Deus”). Mas pense um pouco: segundo o apóstolo Paulo, “o amor não busca seus próprios interesses” (I Coríntios 13), então se Deus é amor, como dizer que Deus cria ou faz algo almejando Sua glória? Que deus narcisista é esse? E voltando à interpretação de que Deus só deseja salvar alguns ou que só se entrega por “meia dúzia” de eleitos, é por isso que muitos dizem que Deus odeia boa parte da humanidade (Eles afirmam: “Deus odeia não só o pecado, mas também o pecador” – afinal Ele não deseja que todos os pecadores sejam salvos, como dizem, pois como também focam na soberania e na onipotência divina, teriam que explicar dentro dessas premissas como Deus ama alguém e não o salva), assim torna-se mais aceitável, para eles, a criação de alguns para a condenação (mesmo que seja uma “predestinação indireta”) e a eleição de outros IGUALMENTE pecadores para a salvação. Ou seja: Se Deus só ama os eleitos, como pensam, logo o amor não é a essência divina, sendo no máximo mais um de seus atributos, relativos e parciais. O próprio Deus, em Cristo, me ensina a perdoar a todos e a amar meus inimigos, mas Ele mesmo só ama aqueles que o amam (os eleitos)? Se Ele não ama os inimigos dele (ímpios), porque eu tenho que amar os meus se o objetivo é ser “imagem e semelhança” dEle? Difícil é confiar em um “deus” assim, sem um critério absoluto para agir. Mas se Jesus é a imagem do Deus invisível, se é a revelação plena de Deus ao homem, qual a semelhança desse “deus vingativo, irado e sádico” com Cristo, que se revela em AMOR? Qual a semelhança desse Deus narcisista, que adora uma “glória”, se Jesus nos revela um Deus que abre mão de ser Senhor para servir, que abre mão de glória para ser o menor? E mais: para defender essa explicação temos que assumir que Adão teve um poder que Cristo não teve, ou seja, no Éden esse homem fez toda a espécie humana ser condenada, mas o Verbo encarnado (Jesus) não conseguiu (ou não quis, o que seria ainda pior) resgatar a todos (morreu só pelos eleitos)? Adão tem mais poder do que Cristo, já que Jesus sequer conseguiu consertar o dano gerado por esse “primeiro homem”? Sem contar que boa parte dos que seguem essa teologia apostam em um grande determinismo divino (transformando em pilar dessa doutrina Atos 4:27-28 e Atos 13:48). Porém quando isso é feito, negam automaticamente a responsabilidade humana, pois são incompatíveis. Se Deus determina o que o homem irá fazer, inclusive se terá fé ou não, como poderá no futuro haver um grande “juízo final que selará a condenação/salvação de cada homem”, como a maioria dos seguidores dessa tradição também defende? Também são ideias incompatíveis. E ainda sobre o determinismo: Imagine que eu seja um engenheiro. Crio um robô para fazer o que de antemão programei para que ele fizesse. Então ele faz o que eu decidi por ele e a responsabilidade será dele? Como assim? Eu o julgo pelo que eu o fiz realizar? Impossível... E imagine um acidente aéreo, em que cai um avião com centenas de passageiros. Se Deus determina tudo, ele é assassino? Se ele interfere em tudo, porque não impediu o desastre? E uma criancinha estuprada e assassinada? Deus determinou que o estuprador fizesse isso? E ainda vamos defender que isso tudo foi “para a glória de Deus”? É complicado crer em um “deus” com uma ética dessas (ou sem ética alguma). Será que esse “deus” está mais com cara de Deus ou de diabo? Será que vale a pena apostar em uma visão totalmente ilógica/absurda assim em vez de questionar dura e racionalmente cada teologia? 
     Outro ponto que questiono, além do problema dessa relativização do amor divino (depois me acusam de relativizar as coisas): se todos estavam igualmente mortos pelo pecado (um ponto que essas interpretações sempre frisam), porque ressuscitar apenas alguns desses "defuntos" (espiritualmente) quando se poderia ressuscitar a todos? Que Glória há na condenação, ao invés da salvação? Seria como se eu fosse "o ser supremo de amor perfeito", soberano e tivesse todo o dinheiro do mundo. Então eu chegaria diante de centenas de moradores de rua que estão morrendo de fome e, mesmo podendo tirar todos eles do sofrimento (pois eu seria todo poderoso, onipotente e dono da prata e do ouro) eu escolhesse só alguns deles e deixaria o resto morrer "para minha glória". Eu seria um amoroso ou um maldoso? Ah, mas quando isso é atribuído a Deus, aí muda de parâmetro?
     Esse Deus parece ou não parece sádico e omisso? Afinal, Ele tem todo poder e só depende dEle para salvar quem Ele quiser, mas misteriosamente Ele não quer... Que ética doentia e perversa dessas teologias... Pior é ver muitos olhando para isso e achando que é louvável, que é compatível com Jesus e com o Deus amoroso. O que algumas espiritualidades fazem com a pessoa. Transformam alguém que certamente era menos sádico quando "não convertido" em um cristão que defende perversidades divinas sem escrúpulos. E ainda acusa quem critica tamanha maldade. Não é incomum após tecer essa crítica, ter que ouvir dos adeptos: "A bíblia é quem diz isso... Pessoas como você não suportam a verdade bíblica... Querem moldar a bíblia de acordo com a vontade do mundo".... A bíblia coisa nenhuma, irmão. É a sua leitura da bíblia que conclui isso. Quem quiser lançar as pedras, fique à vontade, mas um deus com um fetiche doentio desse tem não a cara Jesus e sim, do diabo.
     Diante de tanta falta de lógica, alguns defensores argumentam: “Deus não é lógico para o homem, justamente por Ele ser Deus”. Uma boa fuga. Estamos diante de um argumento aparentemente irrefutável (afinal, só depende de "fé" – isso se decidirmos que essa fé é válida mesmo diante de todas as evidências contrárias a ela, mesmo a realidade não sendo condizente com essa visão). Porém esse argumento acaba sendo, além de ilógico, não consistente e sem evidências. Segundo essa ideia, qualquer coisa poderia ser interpretada como Deus, o que O transformaria em um ser sem ética, sem parâmetro, não confiável, sem um perfil definido... Deus agindo e o "diabo" agindo, em termos modo de ação, seriam idênticos. Não teríamos como diferenciar um do outro. Além disso, não faria sentido crer em uma futura "transformação à imagem de Cristo" (como defendem as epístolas neotestamentárias – Romanos 8), pois Cristo seria a imagem de Deus (como está em Colossenses 1 e como o próprio Jesus disse: "Quem vê a mim vê ao Pai"- João 14:9), mas, segundo essa ótica, esse Deus não tem uma imagem definida (uma hora Ele morre pelas suas criaturas; outra hora mata suas criaturas. Em dado momento Ele diz pra exterminar tudo e todos; depois manda, em Cristo, amar e perdoar os inimigos. Algumas vezes salva pessoas de catástrofes e na mesma hora mata os demais ou se omite diante da tragédia. Para algumas famílias Ele providencia fartura de pão; para outras, nada faz diante da fome). No fundo, seguindo essa teologia, sequer faria sentido crer que Jesus é a revelação de Deus ao homem, pois olhando para Jesus é possível traçar um perfil de pensamento, de fé e de ação (e se Jesus é a imagem do Deus invisível, o Verbo encarnado, podemos ver como Deus é – sempre amor, misericórdia, compaixão...). Mas o Deus que essa visão prega não tem uma lógica, como Jesus tinha. Logo, segundo a “lógica” dessa tradição, Jesus não pode ter revelado Deus ao homem. Enfim, cada ponto, quando observado a fundo, gera uma bola de neve de absurdos. Pra mim, é uma visão que se auto-refuta. É insustentável para quem não abre mão do uso da razão e ela só pode ser mantida na mente de pessoas ultraconservadoras, que abrem mão de exigir evidências e aplicabilidade no mundo real, e que se contentam com algumas referências bíblicas isoladas, que são usadas como árbitros de outras passagens, ou seja, recebem um peso maior no momento de confrontá-las com outros textos que dizem o contrário. E seja sincero: alguém já conheceu algum calvinista que se considerava um “não eleito” ou um “não predestinado”? Percebe que cada um segue uma teologia que jamais o exclui ou que sempre o beneficia? É algo natural do ser humano essa estratégia, esse desejo de se sentir escolhido, amado, aceito, aprovado por Deus. Agora se corresponde à realidade é outra história...
     Mas o que precisamos entender é que a bíblia não é um livro e sim, uma coletânea de livros (é uma "biblioteca"), de diferentes autores, de diferentes épocas e contextos, com diferentes objetivos, englobando diferentes tradições judaicas e crenças. Por isso às vezes lemos algo em um livro e outra coisa que parece "meio diferente" em outro livro. Ela é um agrupamento de várias compreensões, de várias “cristologias” e o que acabamos fazendo geralmente é a adoção de uma delas, gerando um “malabarismo exegético e hermenêutico” a fim de rejeitarmos os demais textos. Todos somos parciais, tendenciosos... E os que não assumem isso, possuem, além dessas características, a da ingenuidade ou a da manipulação descarada. Não tem como fugir. Ela não caiu pronta do céu, escrita com a caneta divina. A bíblia é a junção em um só volume, feita no quarto século pela Igreja católica, de livros e escrituras antigas, após muitas discussões, brigas e debates, que "canonizou" (oficializou) um conjunto de textos que seriam usados a partir daí pela comunidade cristã. Até então, diferentes grupos isolados usavam determinados livros, mas embora muitos deles fossem quase unânimes, outros eram aceitos só por alguns. A igreja de então determinou critérios para seleção e oficializou vários deles como "canônicos".
     A bíblia é maravilhosa e pode ser encarada como um INSTRUMENTO divino para nós (claro que para aqueles que consideram que ela contém escrituras divinamente inspiradas – mas inspiração é no sentido de ter um objetivo maior e não, de ser ditada palavra por palavra ou não ter influência teológica). Repare que destaquei o termo "instrumento", pois é isso que ela é. A bíblia não é o fim em si mesmo. Ela é um meio (registro histórico, escrito) que nos aponta um caminho, um objetivo (que é Cristo). Ela funciona como placas de trânsito que nos facilitam chegar a um destino. Não importam os detalhes da placa, pois ela não foi feita para ser o foco e sim, um auxílio.
     Por que eu disse tudo isso? Pois não faz sentido criar uma mera teologia de versículos, abrindo mão da razão. Se a bíblia não é uniforme, se apresenta muitas teologias, visões de mundo e do próprio Deus, como você pode achar que criando uma teologia que pinça textos que apresentam diversas visões, fará de sua interpretação uma “visão bíblia” sobre algo? Os conservadores propriamente ditos adoram fazer um malabarismo interpretativo para conciliar totalmente Tiago com Paulo ou para resolver conflitos entre “predestinação” e “responsabilidade humana”, por exemplo. Na maioria das vezes isso é tolice, se me permitem o vocábulo mais agressivo. Geralmente é nítida a diferença de pensamento entre diferentes autores “bíblicos”, mas como partem da premissa que a bíblia é harmônica e uniforme (algo não condizente com o estudo sério e imparcial de seu processo de formação), precisam dar um jeito de criar uma síntese onde não há. O que proponho? Primeiramente, que aceite os paradoxos, as diferenças teológicas (nem os apóstolos escapavam disso, pois somos todos humanos, por mais “santos” que sejamos). Depois, que entenda que TODA tradição teológica é relativa, parcial, e imperfeita. Quando critico uma teologia e exponho algumas contradições que penso existir, não significa que considero a minha visão perfeita. De jeito nenhum. Porém julgo que a teologia que sigo é honesta. Ela aceita paradoxos, não tenta harmonizar o impossível e reconhece que ela é no máximo um recorte da realidade. Ela não tenta ser o que jamais poderia ser. Ela assume que não responde tudo, mas pra mim, responde mais do que outras e responde melhor, dentro de uma proposta teológica. É por isso que a adoto.
     Não é a toa que arminianos e calvinistas, que são tradições bem divergentes, usam a mesma bíblia para alegar que estão com a razão. A diferença é que cada teologia prioriza alguns textos e atribui a eles maior peso, usando-os como parâmetro para interpretar os demais. O que faço aqui é adotar Jesus (o Verbo/Palavra que se fez carne) como único parâmetro absoluto e mostrar que, mesmo para os fundamentalistas, é possível defender a abordagem que apresento, pois ela tem uma base sustentada pelas escrituras e tem uma continuidade com o cristianismo histórico.
     Não estou dizendo que estou certo e que os que seguem o calvinismo estão errados. Não posso garantir isso e não sou “fundamentalista” para fazer essa afirmação. Mas estou alegando que ele não é a melhor alternativa, na minha compreensão. Embora TODAS as nossas interpretações sejam falhas, parciais, relativas, não acho que essa seja a percepção mais consistente dentro da ótica cristã, nem a mais frutífera (afinal, salvo poucas exceções, as pessoas que conheço que seguem essa teologia são arrogantes, prepotentes – afinal, se dizem as eleitas por Deus – e muitas vezes forçam frutos na vida, visto que esses frutos são entendidos como evidências de salvação), porém cada um siga a que deseja, conforme os critérios que adota para aceitar ou rejeitar uma tradição.

2.2 ARMINIANISMO (B):
     Aqui é importante destacar que me refiro ao arminianismo clássico e não, do “popular”. Pois a maioria das pessoas sequer faz ideia do que Jacobus Arminius defendia e julga a tradição arminiana pelo que alguns de seus sucessores defenderam. Muitos ainda confundem essa tradição com o chamado “semi-pelagianismo”, que olhando superficialmente é até parecido, mas tem importantes diferenças. Por exemplo, para a teologia semi-pelagiana a pessoa pode perder a salvação, logo, ela fica naquela “gangorra”: “estou condenado, aceitei a Jesus, estou salvo, pequei, estou condenado, me arrependi, estou salvo, pequei novamente, estou condenado, pedi perdão a Deus, recuperei minha salvação, pequei, morri, já era, pois minha última ação foi um pecado.” É um tormento, uma fábrica de pessoas angustiadas, desesperadas, culpadas, amedrontadas. Ao invés de paz, torna a vida da pessoa um inferno. Porém quero aqui falar da teologia arminiana, que é mais estruturada, é séria e está em contínuo diálogo com a tradição calvinista (não é a toa que no Brasil praticamente só se vê discussão entre as duas, como se não existissem outras).
     O arminianismo clássico, resumidamente, em termos de salvação, assume que o homem é pecador por natureza, sendo assim, impossibilitado de desejar o bem e a salvação (até aqui, como o calvinismo). Porém agora começam as diferenças: Deus então, em Cristo, fornece a chamada “graça preveniente” a todo ser humano, ou seja, a Cruz é para todos os homens. Essa graça é que permite aos homens dar um passo em direção a Cristo, para crer e, assim, conquistar a salvação. Repare que Deus dá o que o homem precisa (graça) a fim de que ele possa ter a capacidade de usar seu arbítrio para escolher a salvação (pela fé) ou para rejeitá-la. No momento em que esse homem ouve o evangelho e crê, é salvo. É como se na Cruz Deus abrisse os braços a todo homem para que todos aqueles que viessem até Ele, fossem perdoados, reconciliados e salvos. Arminius não afirmava explicitamente que o homem poderia perder essa salvação.
     O que isso significa, a grosso modo? Que, como todos nascem condenados, quem não ouve a Palavra de Deus não crê, logo, é condenado, “vai para o inferno”.
     Eu discordo da graça preveniente, mas concordo que a Cruz é para toda a humanidade; também discordo que na Cruz Deus apenas dá uma oportunidade de salvação ao homem, já que defendo que lá Deus salvou de fato o ser humano (e rejeito o rótulo de “universalista”, pelos motivos que deixarei claro ao longo do texto); creio que o homem tem sim uma participação, mas não no sentido de alcançar essa salvação que não foi dada efetivamente na Cruz e sim, de se alinhar em fé a ela (explicarei em breve). Mas de forma geral, considero o arminianismo clássico não muito distante da abordagem que darei neste estudo e detalharei cada ponto.

2.3 RESUMO DAS TEOLOGIAS DA SALVAÇÃO:
     Antes de explicar a teologia que sigo, resumo algumas das principais tradições teológicas (as visões clássicas, pois dentro delas há um leque de variações), no que diz respeito à salvação:

CALVINISMO: O homem é pecador por natureza e não pode salvar a si mesmo. Deus predestina alguns (os eleitos) e os salva de fato na Cruz, por Graça. O homem não tem participação na salvação (é uma teologia chamada "monergista"). Sua vida (inclusive a fé e o arrependimento) só evidencia se ele é ou não salvo.

PELAGIANISMO: O homem não nasce pecador, logo pode escolher o caminho de Deus, fazendo obras dignas, e assim alcançar sua salvação num julgamento futuro.

SEMIPELAGIANISMO: O homem é pecador por natureza e não pode salvar a si mesmo. Mas uma vez ouvindo a Palavra e crendo (aceitando a Jesus como salvador), será salvo, desde que permaneça fiel à vontade divina, para que não perca essa salvação. Se perdê-la precisará confessar seu pecado, arrepender-se e poderá recuperá-la até que volte a pecar.

CATOLICISMO: O homem é pecador por natureza e não pode salvar a si mesmo. Deus dá graça através de sua participação (batismo, eucaristia, confissão/absolvição e missas) na Igreja para que ele pratique boas obras, pelas quais será julgado e salvo.

ARMINIANISMO: O homem é pecador por natureza e não pode salvar a si mesmo. Deus, por Graça, oferece Cristo como representante de toda a humanidade a fim de ali dar a todo homem a "graça preveniente" que é a possibilidade que todo homem terá de crer, desde que ouça a proclamação da Palavra. Se ele crer, será salvo. Como a salvação aqui depende de Deus (ao permitir que o homem possa desejá-lo) e do homem (que é quem realmente decide se desejará ser salvo), é uma teologia "sinergista".

LUTERANISMO: O homem é pecador por natureza e não pode salvar a si mesmo. Deus, por Graça, julga o Cristo perfeito como representante da humanidade e nEle, reconcilia e adota o ser humano como filho. O homem toma posse dessa realidade já consumada através da fé na Palavra (Lei + Evangelho) pregada e proclamada nos Sacramentos (batismo e eucaristia).

     E o que acho delas? Pessoalmente prefiro a tradição luterana (que infelizmente não é muito conhecida no Brasil), por ser mais apropriada pra responder o maior número de questões, sem forçar interpretações e conciliações onde não parece haver e por ser mais frutífera na vida de seus adeptos. Não significa que adoto o pacote completo, uma caixa fechada de doutrinas ou que concordo com tudo. É apenas um conjunto de conceitos e de abordagens, de pontos de partida para um diálogo maior, que hoje julgo mais válido dentro da ótica cristã.

3 – O QUE NÃO DÁ PARA ACEITAR?
     Primeiramente as abordagens que colocam a prerrogativa da salvação nas mãos do homem, pois é algo que se choca não apenas com uma enormidade de textos das escrituras, mas também entra em conflito com o contexto geral do Evangelho. Embora Deus, em algumas dessas visões teológicas, seja aparentemente semelhante a Cristo, pois deseja a salvação de todos; não é determinista como o calvinista, por exemplo (que escolhe alguns para salvação e deixando os demais perecerem, mesmo podendo salvar a todos, caso quisesse...), também acaba sendo contraditório (para não dizer perverso). Penso que não dá, por exemplo, para ter uma visão teológica semelhante à de Paulo e ao mesmo tempo defender que a prerrogativa de salvação é humana, por dois óbvios motivos: O primeiro é que Paulo deixa claro, escrevendo aos romanos (capítulo 5), que a nossa eleição em Cristo, a nossa reconciliação precede até mesmo o nosso nascimento, quanto mais a nossa tomada de consciência, a nossa fé e o nosso arrependimento. Ele explicita também que em Adão toda a humanidade pecou e em Cristo, toda a humanidade foi reconciliada (embora alguns tentem ignorar que Paulo está falando do ser humano no contexto do capítulo e forcem a interpretação para que a palavra “conosco” – “Deus prova seu amor para CONOSCO” – em Romanos 5:8, refira-se apenas aos “eleitos” e não, ao homem, à criação). Mas o que o autor parece dizer claramente é que são duas naturezas presentes na realidade humana ao mesmo tempo (o famoso “simul justus et peccator”, tão ensinado pelo reformador Martinho Lutero, ou seja, o fato de sermos justos e pecadores ao mesmo tempo). A prerrogativa é claramente divina. O que acontece com o homem é consequência e não, causa da sua reconciliação com Deus. O segundo motivo é o que Paulo também deixa explícito na mesma carta: “vivemos em um constante conflito. O bem que desejamos não fazemos, o mal que não desejamos, fazemos.” Então como seres assim, caídos, rebeldes, alienados de Deus (pecadores), incapazes de escolher o bem, poderão fazer a decisão por Cristo, pelo bem, usando nosso “livre arbítrio”? Seria como pedir para uma criança em idade pré-escolar cuidar da alimentação de leões em um zoológico. Dificilmente alguma delas teria sucesso nessa missão. Deus deixando na mão do homem a salvação seria como condená-lo automaticamente. 
     Alguns consideram que cabe ao homem escolher ou não essa salvação, porém independentemente da escolha, dizem que Deus já sabia de antemão. E esses que escolhem são os eleitos de Deus. Essa alternativa é na verdade uma tentativa de conciliar o calvinismo com o arminianismo, mas na prática ela é mais semelhante a esta última ou ao semi-pelagianismo. Qual sua base? Uma afirmação de Paulo (Romanos 8), de que Deus teria eleito aqueles que de antemão conheceu para que fossem imagem de Cristo. Depois explicarei como podemos tentar resolver esses conflitos, mas se reparar, Paulo é usado como argumento por todos os grupos interpretativos, embora obviamente seja impossível que Paulo defendesse todos eles. No máximo, Paulo cria de forma semelhante a uma dessas teologias. O que fica claro? Que nossas leituras são todas parciais, relativas e imperfeitas. Se formos construir uma teologia meramente de versículos, ou seja, buscando textos aqui e ali que apoiam nossa compreensão, apenas geraremos confusão. Nunca encontraremos uma solução. Não é a toa que calvinismo e arminianismo, por exemplo, duelam há séculos e não se chega (nem se chegará) a um acordo. Há vários textos para justificar ambas as explicações. O que muda é a preferência de cada um na escolha de quais textos serão os parâmetros absolutos para serem a referência interpretativa dos demais. Portanto temos que ter um critério mais amplo e olharmos para o todo. Devemos olhar, por exemplo, não para um texto de Paulo e sim, para toda a carta de Paulo e para toda a visão dele. Devemos olhar para o sentido da vida, do caráter de Deus, dos ensinos de Jesus e então compreendermos as escrituras dentro desse contexto. “Teologia de versículos” não funciona, pois podemos sistematizar textos a fim de provar qualquer ideia, as mais diversas possíveis. E infelizmente é isso que o meio mais conservador/fundamentalista faz.
     Mas a partir de agora ficarei na teologia que defendo:

 4 – O QUE É “SALVAÇÃO”?
     Essa deve ser a primeira pergunta a ser feita para estudar o assunto, pois como podemos discutir um conceito que sequer deixamos claro? Muitas vezes uma mesma palavra tem um significado quase oposto para diferentes pessoas. Se você é daqueles que acreditam que: “salvação é ir para o céu quando morrer ou quando Jesus voltar”, adianto: no meu entender, esse conceito está completamente equivocado! Atribuir esse significado raso ao termo “salvação” é absurdo. 
     Para chegarmos a uma conclusão sobre o que é “salvação”, teremos que analisar não apenas textos bíblicos isolados, mas também, e principalmente, todo o contexto da Palavra de Deus (que, como deixei claro no texto “3º passo: Lei x Evangelho/Graça”, é o que Jesus viveu e ensinou como sendo o ideal divino). E porque temos que ter todo esse trabalho? Pois as escrituras em momento algum definem com precisão e explicitamente o significado desse termo. E até por isso, surgem várias linhas teológicas que divergem muito sobre o assunto. Obviamente todas elas (inclusive a que apresentarei aqui) são interpretações relativas, humanas, acerca de uma verdade absoluta que é divina. O que nós fazemos é, a partir da revelação feita em Cristo, buscar a compreensão que seja mais consistente e que nos faça não apenas entender o que nos é possível, mas também viver com consciência, em amor e em gratidão pelo que Deus fez por nós. 
     O termo “salvação” é muito profundo e é por isso que encontrar uma definição em um texto bíblico é praticamente impossível. Só é possível quando olhamos para o todo, afinal, a salvação não é um mero evento, como a maioria acredita. Grande parte das pessoas defende a ideia que “ser salvo” significa “ser levado ao céu” (não importa onde seja esse céu) quando morrer ou quando Jesus voltar. É uma visão extremamente rasa, mas infelizmente predominante. Veja bem: como aqui defenderei, salvação não é meramente um evento futuro e tampouco apenas um evento passado. Salvação é o nome que damos ao processo de restauração da criação ao “projeto inicial”, que era viver em plena comunhão com Deus e com o próximo. E porque essa restauração se tornou necessária? Pois o Pecado surgiu, afastando o homem de Deus, tirando dele essa relação de perfeita comunhão. Então Jesus Cristo é justamente essa ação divina, essa decisão unilateral de Deus, de reconciliar consigo mesmo o mundo, lidando com a criação a partir da Graça e não, do Pecado. 

“Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não lançando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.” (II Coríntios 5:19)

     Repare que o texto evidencia que Deus nos reconciliou de fato e não apenas gerou uma possibilidade para que, com algo vindo de nós, alcançássemos a reconciliação. Depende exclusivamente dEle. Estamos reconciliados e ponto final! E qual a consequência disso? É que agora, uma vez que Cristo morreu por nós, fomos feitos justos diante de Deus. Somos chamados a crer no Evangelho, ou seja, crer nessa Obra feita por Cristo e assim, crendo, passaremos por uma mudança de mentalidade e por uma expansão de consciência, que na bíblia é chamada de “Arrependimento”. Dessa forma, seremos dia a dia transformados pelo Espírito Santo (II Coríntios 3:18) até que um dia essa transformação será plena, e seremos glorificados em um corpo imortal, onde alcançaremos a perfeição, ou seja, seremos a imagem perfeita de Cristo, que é o que deixa claro Romanos 8. Portanto, salvação engloba isso tudo; é essa restauração do relacionamento do homem com Deus, somada a toda a consequência dessa reconciliação incondicional feita em Cristo (que é nossa reconciliação com nosso próximo e conosco mesmos). Repito: somos reconciliados com Deus na Cruz (primeira fase da salvação), gerando todo um processo de transformação (segunda fase), que culminará com a perfeição um dia e então gozaremos a eternidade em comunhão perfeita com Deus (terceira fase), sendo um reflexo perfeito dEle (pois nesta vida somos reflexos imperfeitos, como vultos). Tudo isso forma o que chamamos de salvação. Viu como o conceito é bem mais profundo do que meramente “ir para o céu”?
     Então, de forma didática, podemos dizer que a salvação pode ser dividida em duas etapas, uma “nesta realidade” da vida e outra no futuro, após a glorificação do homem em um corpo incorruptível. Essa primeira etapa pode ser dividida ainda em dois aspectos (polos), um consumado e um em andamento. Em outras palavras, podemos dizer que JÁ SOMOS SALVOS e que ESTAMOS SENDO SALVOS. Não há contradição nenhuma nessas afirmações!
     Veja uma esquematização dessa compreensão (repare que não há duas salvações e sim, uma única salvação dividida em duas partes, sendo que a parte terrena é dividida em dois aspectos/polos):


     Todos precisam entender que o polo objetivo da salvação (representado pela Cruz) é a escolha unilateral de Deus em reconciliar o ser humano com Ele. Não depende em nada do homem (foi feita antes ou sem que ele soubesse ou quisesse, percebeu?) e nada do que esse homem faça interfere nessa reconciliação. E nesse contexto está você: na Cruz Deus lhe amou, lhe perdoou, lhe reconciliou, lhe acolheu, lhe salvou, afinal, o que significa a Cruz de Cristo? Não gosto da interpretação comum, principalmente no meio reformado, de que “Deus teria nos condenado na Cruz, mas teria aplicado em Jesus a pena, jogando sobre Ele a consequência do nosso pecado” (ou seja, Jesus teria decidido assumir nossa culpa, recebendo a pena por ela em nosso lugar e assim Deus teria um meio de perdoar nosso Pecado, pois Sua justiça estaria satisfeita). Primeiro, pela questão ética (Deus precisando literalmente oferecer um sacrifício humano para aplacar Sua própria ira e justiça? – isso é semelhante a uma consciência bem antiga da divindade e muitos absolutizam essa visão primitiva como se fosse a descrição perfeita de Deus. Não é uma consciência tão diferente de tribos que consideram deuses os vulcões e assim jogam dentro dele criancinhas para aplacar a ira dessas divindades). Segundo, que desde os primeiros séculos da era cristã, muitos já rejeitavam essa visão. Prefiro (por questão de consistência com o todo da fé cristã e de coerência com uma ética que julgo compatível com Jesus) a interpretação de que Jesus era, aos olhos de Deus, a raça humana vivendo. Era não meramente um ser perfeito que sofreu em seu corpo a punição pelo nosso pecado. Ele (o Verbo encarnado, o Logos, a razão da criação), entrou na nossa realidade de forma a fazer com que desfrutássemos nEle uma perfeita comunhão com Deus. Deus estava em Cristo? Sim. Porém mais do que isso: toda a raça humana estava em Cristo e assim, nEle (em quem e para quem tudo foi criado) ocorreu a harmonia perfeita entre Criador e criação (foi a forma de comunhão perfeita executada por Deus, já que “não daria” pra Deus nos fazer deuses a fim de desfrutarmos essa comunhão). Então não é que Jesus foi um ser à parte, perfeito, que sofreu em nosso lugar. Jesus perante Deus era o próprio homem vivendo em perfeição, sem pecado, puro, santo e que mesmo assim foi morto por pecadores como nós. A vida pura de Cristo já nos fez puros diante do Pai. Isso mesmo, não é que só a morte de Jesus foi vicária. A vida também foi. Ele cumpriu a Lei (vontade divina, o ideal de Deus) e estávamos nEle (aos olhos de Deus) também a cumprindo. “Este [Jesus] é meu filho amado em quem tenho prazer” Mateus 3:17 (e como a humanidade estava toda nEle, também estamos incluídos neste “meu filho amado em quem tenho prazer”). Portanto, NA VIDA (e não só na morte ou na ressurreição) de Cristo (e só em Cristo) agradamos a Deus e Sua justiça foi satisfeita. E se agradamos a Deus na vida de Cristo, nenhuma condenação há para nós (Romanos 8) e nos apropriamos dessa realidade pela fé. A morte foi consequência de nossa aversão ao amor divino (e não, Deus matando um inocente pra nos salvar). Deus por amor nos criou, nos adotou em Cristo para que tivéssemos plena comunhão com Ele. Entenda: Deus não olha nossa imperfeição para se relacionar conosco. Quando Deus olha para nós, Ele olha para Cristo e por isso (por estarmos em Cristo) nós estamos já assentados em lugares celestiais (Efésios 2:6). E sem essa de “Cristo morreu em nosso lugar”. Não! Nós vivemos em morremos com/em Cristo. Esse é o significado da Cruz.
          Deixo uma metáfora para sedimentar a compreensão: Salvação é como se depositassem vários milhões de dólares em nossa conta bancária. A partir disso cada um de nós tem duas opções:

A - perceber que o dinheiro está lá e sacar o “presente”.

B - viver na miséria, como se não tivesse nem um centavo no banco, embora tenha vários milhões na própria conta.

     Isso que Jesus fez: depositou salvação (perdão, reconciliação, vida eterna) em nossa vida. Agora Ele nos chama para compreendermos isso, para tirarmos um extrato (crer, passar por arrependimento, ou seja, mudar de mentalidade) e usufruirmos (vivermos alinhados à vontade de Deus revelada em Cristo) do prêmio nos dado por Graça (um favor imerecido).

5 – ARREPENDIMENTO:
     Corro o risco de ser prolixo, mas preciso insistir nisso, pois tem que ficar entendido para que nunca mais esqueça. Preste atenção nesta outra metáfora sobre a salvação e arrependimento:
     Imagine um país com escravidão, sendo que o governo assina a lei de abolição da escravatura. Ou seja, todos os escravos são agora livres. O problema entre governo e escravos não existe mais! Não "devem" mais nada. Porém, mudará algo na vida desses escravos se eles não ficarem sabendo, se não mudarem de mentalidade, passando agora a agir como livres? Não! Portanto, eles só receberão esse "perdão" (liberdade) quando entenderem isso e mudarem de mentalidade (arrependerem-se). Compreendeu? O arrependimento não é a causa, não muda o fato em si, que já foi consumado, mas muda a nossa experiência em relação à salvação nos dada na Cruz. A salvação (liberdade, dívida "apagada") desses escravos se deu quando o governo assinou (Cruz), mas na prática, a dívida foi apagada para os escravos quando começaram a agir como pessoas livres (quando houve fé + arrependimento). A condenação delas à escravidão não é culpa do governante e sim, delas por não usufruírem de sua liberdade.
     Nosso arrependimento interfere no que foi consumado na Cruz? Não! Cristo nos salvou (reconciliou) quando ainda sequer tínhamos nascido. E é por termos sido salvos lá que o Espírito Santo atua em nós, gerando arrependimento. Por termos sido salvos na Cruz nós cremos (temos fé), passamos por arrependimento (mudança de mente). Quando o arrependimento acontece, nossa experiência com essa salvação em Cristo segue o mesmo fluxo, entramos (considerando nossa relatividade e limitação) dentro da vontade de Deus para nós, que é sermos transformados à imagem e semelhança de Cristo, sendo que essa transformação em nós será completa quando um dia formos glorificados.
     Mas o que é “arrependimento”? Nas escrituras esse termo vem da palavra "Metanoia", que é "mudança de mentalidade" e "expansão de consciência". Nos nossos dias usamos "arrependimento" para falar de culpa ou de remorso, mas não é essa a ideia.
     O arrependimento, portanto, não nos traz a salvação propriamente dita, mas esse arrependimento faz com que experimentemos esse aspecto subjetivo (que é tão importante quanto o outro) da salvação nos dada objetivamente em Cristo. Em outras palavras, nosso perdão e salvação não são proclamados apenas quando cremos e nos arrependemos (eles já nos foram dados em Cristo), mas eles se tornam frutíferos em nós quando nossa consciência muda. Não faço Deus me perdoar quando me arrependo; arrependo-me por ter tomado consciência de que Deus me perdoou na Cruz. Mas como poderia um ser mau, como eu, me arrepender? Se estou contaminado pelo pecado, só posso me arrepender por ação do Espírito Santo e para o Espírito habitar em mim, antes, Jesus teve que se entregar por mim. Ele é quem me dá o Espírito Santo. Portanto, arrependimento não é CAUSA de perdão ou de salvação e sim, CONSEQUÊNCIA! E não se arrepender é viver na alienação do Pecado e como esse não é o ideal de Deus para nós, é condenação. Só podemos ter a vida eterna por causa de Cristo, mas só entramos nela ou tomamos posse dela quando temos fé e passamos por arrependimento, pois ela é justamente esse aspecto subjetivo da salvação:

“Esta é a vida eterna: que te conheçam [FÉ, ARREPENDIMENTO], o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (João 17:3)

6 - UNIVERSALISMO?
"Pois a graça de Deus se manifestou trazendo salvação a todos os homens". (Tito 2:11)

     Nesse sentido, de uma Cruz para todos os homens, sim, há um “universalismo”, ou seja, uma decisão divina universal, que não fez diferenciação entre seres humanos, afinal, para Deus não há judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher... Porém rejeito o rótulo raso e pejorativo (pelo menos assim entendem a maioria dos cristãos) de “universalista” (até porque há inúmeros universalismos e a visão que apresento inclui “condenação”, logo, não posso aceitar essa rotulação).
     Defendo que Cristo reconciliou toda a humanidade na Cruz, então, nesse sentido (objetivamente), todos são e estão salvos. Mas não creio que todos alcancem o outro aspecto da salvação terrena, que é esse polo subjetivo, ou seja, essa percepção em relação ao que foi feito na Cruz. Portanto, embora um satanista, por exemplo, tenha sido objetivamente salvo na Cruz (sim, ele também foi reconciliado com Deus) ele está rejeitando em vida essa realidade; está nadando contra o fluxo da salvação, do perdão, da reconciliação e da vida que lhe foi dada. É como se Deus desse a ele um presente e ele se recusasse a abrir ou como se Deus destrancasse as celas que o prendiam e ele continuasse lá, sem sair para a liberdade. O problema não é entre Deus e ele (isso foi resolvido na Cruz); o problema está nessa pessoa, que insiste em negar uma realidade, ou seja, ela “não está sendo salva”. E o oposto de salvação o que é? Condenação! Significa que Deus está condenando essa pessoa? Não! Significa que essa pessoa está condenando a si mesma!

     "O Senhor não tarda a cumprir sua promessa, como pensam alguns. Entendendo que há demora; o que ele está, é usando de paciência convosco, porque não quer que ninguém se perca, mas que todos venham ao conhecimento da verdade” (II Pedro 3:9)

     Esse texto é interpretado por muitos arminianos como se fizesse referência à salvação futura/glorificação. Embora eu concorde que Deus deseja a salvação (em todos os aspectos) de todo ser humano, o assunto desse texto é a volta de Jesus. O que o contexto nos mostra é que Pedro está advertindo as pessoas e alertando-as sobre os ensinos que estavam se difundindo, de que essa volta era uma ilusão. Quando é dito que “ninguém se perca” sequer é primariamente no sentido de “condenação eterna” e sim, no sentido de dar ouvidos a esses ensinos. Portanto, esse texto, como entendo, não é argumento para negar a ideia calvinista e muito menos para apoiá-la (afinal o sentido da palavra “todos” não influencia em nada, neste caso). É outro assunto.
     Enfatizo: Não estou aqui dizendo que então tanto faz o que você crê ou faz; não estou dizendo que todos os caminhos levam a Deus (e sim, expondo uma abordagem que afirma que Jesus é o único Caminho e que graças a esse Caminho, Deus chega a todo homem); não estou defendendo uma teologia cristã que diz que no fim nada importa, que não faz a mínima diferença como você vive na Terra. Dentro do que estou aqui expondo, claro que faz. Quem sabe a nossa experiência em vida diante dessa realidade divina nos ajude de alguma forma a termos uma experiência ainda mais positiva do Reino de Deus quando ele estiver consumado... Alguns textos bíblicos me dão a impressão que os primeiros cristãos já tinham uma visão de que algumas pessoas resistiriam a esse acolhimento divino, e isso é explicitado em passagens como a da blasfêmia contra o Espírito Santo (que falei com detalhes em outro texto – clique aqui para lê-lo), como os vários relatos sobre “condenação”, sobre “inferno”, sobre não ter a “vida eterna”, sobre “lago de fogo”. Por algum motivo parece (sim, me reservo ao direito de estar completamente equivocado e seria bom pensar que toda a criação poderá usufruir dessa “vida futura”, mas me faltam argumentos para defender essa esperança) que alguns desejarão esse afastamento definitivo do Pai. E tudo isso tem a ver com o segundo polo da salvação, o subjetivo, que é quando o homem toma posse dessa salvação que ele já tem; quando ele crê (se entrega em fé) e muda de mentalidade, expande sua consciência (o chamado “arrependimento”) para essa realidade que, querendo ele ou não, foi instituída por Deus na Cruz. A pessoa, então, toma posse pela fé dessa obra divina (anunciada pela Palavra, que é, como já vimos, Lei e Evangelho). Só assim ela passa a caminhar no sentido do fluxo da vida proposto por Jesus, a participar já neste mundo do “Reino de Deus”, a ser parte da Igreja (que é uma “amostra grátis” desse Reino divino). Repare que a Igreja (cristãos) representa são os salvos que tomaram consciência histórica dessa salvação, que tiveram fé, que expandiram suas mentalidades (passaram por arrependimento), ao contrário de um assassino satanista (sim, dei um exemplo bem extremo), que é um objetivamente salvo, mas que continua na alienação do pecado, longe do ideal divino, sem ser quebrado pela Lei e sem ser tomar posse dos frutos do Evangelho.

     Não posso dizer como seria uma vida pós-morte de alguém que rejeita o amor de Deus (e quando digo isso não me refiro a alguém que rejeita determinada religião, nem àqueles que rejeitam o cristianismo e tampouco aos que nunca ouviram falar dessa fé. Estou me referindo às pessoas que, independentemente da crença, nadam contra o fluxo da vida, entregando-se à maldade, a tudo aquilo que não é o ideal divino para a vida humana). Será que quando alguém nessa situação for confrontado com Deus, frente a frente com o divino, resistirá a esse amor supremo? Espero que não. Mas resistindo, como seria? Porventura essa pessoa será aniquilada (por um ato de misericórdia divina), a fim de não enfrentar um sofrimento sem fim? (Seria isso o “lago de fogo”, como defendido por teólogos, como John Stott? Talvez....) Será que Deus esmagará essa incredulidade e maldade com Seu infinito amor, transformando essa pessoa em alguém também glorificado? (Com esse “fogo” divino consumindo o mal definitivamente? Talvez...). Mas e o inferno?

7 – INFERNO:
     Falou em inferno, falou em polêmica, e não posso aprofundar, pois este estudo ficaria interminável. Alguns entendem que o inferno é um lugar, um espaço geográfico, físico, sendo que os relatos bíblicos sobre o “fogo que nunca se apaga”, o “ranger de dentes” e o “castigo eterno” são literais. Precisamos admitir que, no mínimo, a maior parte da compreensão popular atual sobre o inferno resulta do famoso “Inferno de Dante”, fruto da obra “Divina Comédia", de Dante Alighieri. Segundo ela, o inferno seria um lugar de punição interminável, de tortura, composto por várias camadas em que cada pecador seria enviado de acordo com seus pecados cometidos em vida (após a morte, nenhuma escolha ou arrependimento poderia ocorrer). Quanto pior o pecado, pior a punição, que envolveria fogo que não se apaga, ventos, “lama” e gelo. Há vários textos bíblicos que usam expressões fortes para falar desse tal “inferno”, porém quando analisamos historicamente, criticamente, muita coisa fica facilmente explicável. Segundo especialistas, o conceito de “inferno” surgiu entre os judeus após o século VI a.C.. Isso mesmo, personagens judeus como Abraão (considerado o “pai da fé”), Moisés e Davi sequer criam em inferno, pois isso ainda não fazia parte da crença judaica. A ideia de um inferno só surgiu após uma interação dos judeus com os persas (que tinham essa crença), no século VI ou V a.C. Também devemos ter em mente que várias expressões diferentes, com significados variados, são traduzidas em nossas bíblias como “inferno”, o que é um grande erro. Por exemplo, as escrituras hebraicas usam o termo “Sheol” para fazer referência à morte e à sepultura, sem que houvesse uma preocupação tão grande dos judeus de como isso seria. Na morte o homem iria para o Sheol, viveria lá de alguma forma e pronto. Sem preocupações com isso. Alguns ainda defendiam que na morte haveria uma aniquilação total do ser. No Novo Testamento vemos várias referências ao inferno, principalmente nas falas de Jesus. Ele usou o termo “Gehenna”, que em nossas bíblias geralmente aparece indistintamente como “inferno”. Segundo antigas descrições, Geena, ou vale de Hinom, era uma região de Jerusalém que seria usada como depósito de lixo. No local haveria fogo constantemente queimando o lixo, além de insetos e vermes consumindo a matéria orgânica. Outros animais maiores também disputariam os restos de comida, gerando rangidos. Esse seria um local assombroso, conhecido pelos ouvintes da época e perfeito para ser usado por Jesus como ilustração e como metáfora, a fim de gerar um impacto maior. Raras vezes vemos ainda outras palavras, como “Tártaro” e “Hades” sendo traduzidas como “inferno”, oriundas da mitologia grega, com a qual escritores bíblicos tiveram contato. Enfim, já disse mais do que gostaria em relação a isso, mas estou cada vez mais convencido de que o inferno deve ser entendido na compreensão cristã como algo experiencial, ao invés de algo físico e literal. Acreditar que no centro da Terra tem um diabinho vermelho com um tridente, ao som de um funk, espetando o bumbum dos homens maus não lhe faz mais ou menos cristão do que alguém que defende que o inferno é apenas uma metáfora para um estado de alienação. Mas penso que mais sensato e coerente com os ensinos de Jesus (amor, perdão, compaixão...) é não entender esses textos literalmente. E mais ainda: não achar que esse inferno (experiencial) será eterno, (no sentido de “para sempre”). Esse último ponto é, na minha opinião, inadmissível. Se você crê em um inferno cheio de tortura e de fogo, pelo menos não diga que será eterno, pois isso é um sadismo ainda bem maior. Na pior das hipóteses aceite que, como está escrito em Apocalipse 20:14, “a morte e o inferno serão lançados no lago de fogo”, como um ato de compaixão divina, colocando fim à existência de um ser maldoso e que rejeitou o amor de Deus. Seria como um homem extremamente mal, insistindo em rejeitar o acolhimento divino. Chegaria uma hora que Deus deixaria de se opor a essa insistência e então diria: “fora de mim não há existência, então se você insiste em resistir ao meu amor, seja feita a sua vontade”. E então cessaria a existência desse indivíduo. Mas vejo hoje que é mais adequado entender o inferno como sendo um estado do ser, uma experiência de afastamento de Deus, uma percepção de ausência do divino. Deus reconciliou o homem e o adotou em Cristo, mas quando o homem rejeita esse abraço de Deus experimenta a condenação, o inferno. É consumido, torturado pela alienação do pecado, da ilusão e da angústia. Enquanto a eternidade com Deus é um paraíso, sem Deus é um “tormento infernal”. E não confunda: quando ler a palavra “eterno” na bíblia, não significa que ali há uma referência a um tempo sem fim. A palavra grega é “aion”, algumas vezes traduzida como “era”. É um período de tempo com começo e com um fim. E pode ainda ter um significado mais complexo, que seria uma experiência de intensidade indescritível.  Aion é como aquele momento que passa ao lado da pessoa amada, podendo ser apenas 5 minutos, mas que é tão intenso e completo como se fosse uma “eternidade”. Ou o contrário, aqueles 30 segundos que são intermináveis durante uma experiência desesperadora, como uma vítima de um desastre aéreo deve sentir logo antes do acidente. Então uma “condenação eterna”, um “tormento eterno” não significa algo que não acaba e sim, uma experiência plena. Eterno, nesse sentido, é algo que transcende o tempo, da mesma forma que a “vida eterna” que Jesus prega não é necessariamente uma vida “para sempre”, que começa após a morte. É uma vida intensa, desde já, nessa realidade, no presente (e no futuro). É eterna não no sentido temporal (afinal, como cogitar haver tempo após a morte, se o tempo faz parte de nossa realidade, de nossas “dimensões”?) e sim, no sentido experiencial. E se ainda não se convenceu, leia Judas 1:7, onde é dito que Sodoma e Gomorra sofreram o fogo eterno. Se alguém passar por lá, grave um vídeo, já que se “eterno” significa “para sempre”, elas devem ainda hoje estar em chamas. Uma interpretação ilógica, claro...
     Fico assustado quando vejo a ideia que a maioria dos cristãos tem do inferno. Imaginam realmente um lugar com muito fogo, em que os pecadores (só os que tem pecados diferentes dos dele e os que não tem a mesma crença que ele, claro) são torturados para sempre. Pessoas agonizando, implorando pelo fim desse sofrimento, mas Deus determinando que essas pessoas sofram mais e mais, totalmente conscientes, não deixando que elas deixem de existir a fim de torturá-las sadicamente. Pois é. Um deus pior que um diabo! Um deus que teria se revelado em Cristo como amor, mas que é um terror, um maníaco, um psicopata todo poderoso; um deus hipócrita, ensinando a perdoar sempre (70 x 7), mas ele mesmo não perdoa nessas circunstâncias; um deus que ensinou o homem a amar os inimigos e a dar a outra face quando agredido, mas ele mesmo castiga severamente quem não faz sua vontade; um deus que ensina fazer o bem a todos, agindo na vida do próximo como desejamos que ajam em nossa vida, mas ele mesmo quer é vingança. Uma punição sem nenhuma intenção redentora, sendo apenas vingativa. Deus, ao invés de acabar com o mal, o tornaria eterno. E alguns ainda bradam: “Essa é a justiça divina, feita para Sua glória”. Um ser que se gloria no sofrimento não serve pra ser um deus nem de um aglomerado de cupins. Toda essa atrocidade, essa ética doentia, sanguinária é defendida por pessoas até boas, mas que quando se fala em crença, sofrem essa transformação como um lobisomem em dia de lua cheia. De um deus assim quero distância. Mas a maioria prefere abrir mão de qualquer princípio ético/ moral, de usar a coerência com Jesus (afinal se dizem cristãos) para defender essas interpretações monstruosas da bíblia. É incrível como no século XXI milhões de pessoas ainda continuam crendo nessas mensagens “gibilescas” que visam manipular as pessoas pelo medo e pela culpa. E o mais assustador é ver que muitos cristãos escolhem deturpar o caráter de Deus, defendendo que ele não é amor coisa nenhuma, que é sádico, vingativo, melindroso, pequeno... em vez de rever a interpretação literal que possuem de alguns textos bíblicos. Então não adianta querer citar a “parábola do rico e Lázaro” (pois é, vai interpretar literalmente os símbolos de uma parábola? Não pode ser que Jesus tenha pretendido mostrar os valores do Reino de Deus e condenar o egoísmo e a avareza do rico?), textos paulinos, de Apocalipse ou qualquer outro relato bíblico sobre “inferno”, supondo que nunca os li. Sim, eu os li. A questão não é a existência desses textos e sim, a interpretação dada a eles. Como já disse, não irei neste artigo explicá-los (não é o tema do estudo), mas todos foram considerados (claro que dentro de seus contextos, inclusive e principalmente históricos).
     Porém, em relação à “eternidade”, penso que mais adequado por essa ótica cristã que estou apresentando é imaginar que toda a criação terá um mesmo destino (em relação a “lugar”, embora a percepção de cada uma é que definirá se ela estará no “céu” ou no “inferno”. É como se a eternidade fosse um grande banquete em que seria servido apenas alimentos feitos com brócolis. Quem gostar de brócolis terá um refeição maravilhosa, paradisíaca. Porém quem odiar brócolis terá uma refeição horrível, um jantar infernal. Repare que todos serão servidos com os mesmos alimentos (no caso, todos serão servidos com o amor divino, com Sua presença, Sua paz...). Porém a experiência de cada um será algo totalmente diferente, individual. Para uma pessoa maldosa, que odeia Deus, a presença da luz divina é inferno (para ela, o paraíso seria onde houvesse trevas, violência, ódio, maldade); para uma pessoa transformada, que se entregou ao amor, aos frutos do evangelho, a luz de Deus será algo indescritível, de tão maravilhoso. E isso não é universalismo puro? Embora o termo seja amplo, como já disse, digo que não! Até poderia ser caso eu dissesse que todos se renderiam ao amor divino e teriam uma experiência de paraíso, de céu... Mas continuo vendo mais motivos para defender que algumas pessoas “endiabradamente” resistirão ao abraço do Pai. Por isso a necessidade de pregar uma mudança de mentalidade (arrependimento), uma apropriação da salvação pela fé, pois a rejeição humana a essa realidade, condena. Repare que não é Deus jogando o homem em um inferno (independentemente de como o interprete) e sim, o homem condenando a si mesmo ao decidir se afastar de Deus.
     O que você preferiria: ser um rico infeliz ou um pobre feliz? Acredito que quase todos escolheriam a última opção. E penso que seja bem mais adequado pensar em céu e inferno não como essencialmente lugares (geografias) e sim, como experiências. Ou seja, "ir para o céu" não significa ser abduzido dessa forma "gibilesca" que a maioria crê, para outro mundo, lá em cima. "Ir para o inferno" não significa ser lançado em um caldeirão de fogo e enxofre, no centro da Terra, como muitos infantilmente acreditam. Assim como um milionário pode ter um inferno em seu coração, o mendigo pode ter em seu interior um paraíso de alegria e de contentamento. Então, pense assim: “céu” é gozar de uma vida plena, eterna, em abundância, com alegria, amor e paz, independentemente de como ou onde isso ocorreria após a morte. “Inferno” é viver alienado a tudo isso, em desilusão, tristeza, lamento e dor, independentemente de como ou onde isso seria após essa existência. Cristo nos revela uma vida de paz, amor, sabedoria, acolhimento, serviço, aprendizado... Onde há abundância de amor ali é e será o céu. Onde há ódio, rancor, intolerância, mágoa, alienação da realidade ali é e sempre será o inferno.
     E nesse contexto vale registrar uma citação de Rob Bell (do livro “O amor vence”):

“(...) é preciso uma palavra densa, complexa, pesada e contundente para descrever as reais consequências que uma pessoa experimenta quando rejeita a vida que Deus lhe oferece. É necessário que essa palavra faça referência ao grande, extenso e terrível mal que advém dos segredos escondidos no coração e que provoca o caos social quando um ser humano escolhe não viver segundo a Palavra de Deus. E, para isso, a palavra ‘inferno’ se aplica muito bem.”


     Deixo ainda a célebre frase de Martinho Lutero: "Uma masmorra com Cristo é um trono, e um trono sem Cristo é um inferno." Ou seja, a questão não é o lugar e sim, a experiência, independentemente de onde isso ocorra.

8 - DÚVIDAS COMUNS:
     Diante de tudo que foi exposto, talvez surjam algumas objeções ou questionamentos, que cito e explico em seguida:

8.1 - “Essa soteriologia (teologia da salvação) é invenção da sua cabeça. Não é séria e se o cristianismo não reconheceu até hoje, é porque não é válida.”
     Se alguém pensa assim, precisa olhar com atenção para a história do cristianismo. Nada disso é invenção minha e anos atrás, quando fui confrontado com essa abordagem, pelo amigo filósofo/teólogo Joel Costa Jr, também fiquei “sem chão” diante de algo tão diferente e que quebrava meus paradigmas. Mas pude perceber que os pilares desta abordagem são tão antigos quanto Lutero (aliás, boa parte dela foi defendida por esse reformador) e mais: tem porções derivadas da era patrística, como já mencionei. Em “Lectures on Hebreus, Obras de Lutero, Vol. 29 [Saint Louis: Concordia Publishing House, 1968]., Pp 112-13)” observamos:  “(...) antes de nós nos arrependermos, os nossos pecados já foram perdoados. (...)" Ou seja, nossa parte é apenas a apropriação (em fé, com arrependimento) desse perdão que já possuímos incondicionalmente. No século XIX, autores como C. F. W. Walther e F. A. Schmidt já falavam em um aspecto objetivo e subjetivo da justificação. Outros defensores desses polos são John Quistorp e Nicolaus Hunnius. Mas enfim, aqui está sendo defendida uma soteriologia que pode ser vista, pelo menos por partes, em diferentes autores, de diferentes épocas. E essa abordagem está sendo realizada em diálogo aberto com a ótica luterana, que considero a tradição mais adequada e menos problemática, como um todo.

8.2 – “Somos salvos de quê ou de quem?”
     Será que somos salvos do diabo, do pecado, do inferno, de nós mesmos ou do próprio Deus? Podemos dizer que Deus nos salva de nós mesmos, da alienação do pecado, desse inferno que é uma vida oposta ao idal de Deus para o homem (uma vida de comunhão perfeita com Deus e consequentemente com nosso próximo e com nosso interior). Somos salvos dessa nossa aversão natural ao ideal divino. Então, se a salvação é a restauração da comunhão perfeita entre nós e o Criador (bem como com toda a criação), somos salvos disso tudo, exceto “de Deus”.
     Digo isso, pois algumas teologias absurdamente afirmam: “somos salvos da ira de Deus, pois todos são pecadores e merecem castigo. Mas Deus sacia sua ira sacrificando Jesus”. Imagine, é como se Jesus chegasse e dissesse: “creiam e arrependam-se, para que sejam salvos do que eu farei com vocês se vocês não me obedecerem”. Ou ainda: “Destilei minha ira sobre todos vocês antes mesmo de nascerem, mas como sou puro amor, salvarei alguns para me darem glória”. Não percebe a semelhança entre essa percepção de Deus e aquela visão tribal da divindade, em que a erupção de um vulcão seria aquele deus irado e para saciar sua fúria o homem teria que oferecer sacrifícios, como jogar crianças na lava? Seja honesto, sincero e não abra mão da razão: faz sentido? Se deixar sua teologia e sua crença de lado um pouquinho só e pensar como um ser racional, você não percebe que até um ser humano consegue ser melhor do que esse Deus?
     Não precisamos de salvação da ira de Deus, pois essa “ira” foi satisfeita na Cruz. Deus derramou sobre Si mesmo Sua ira (não como punição a Jesus, mas como uma ira contra o Pecado. Uma ira que é fruto de ver sua criação se fastando dEle para a morte então essa ira é resolvida em amor na Cruz, assumindo nossa culpa, adotando-nos em Cristo, em sua vida perfeita). Se sobrou alguma ira divina para ser aplicada sobre o homem, é apenas no sentido de deixar que aqueles homens que insistem em praticar à maldade, que resistem ao seu chamado de amor, façam o que desejam. Ou seja, se quero conscientemente me afastar desse amor, dessa Graça, dessa reconciliação, então a ira divina cai sobre mim, não como castigo por Ele ser um Deus melindroso, nem me pegando com suas mãos raivosas para me condenar com seu poder, mas fazendo o que Paulo citou em Romanos 1: "entregando-me aos desejos do meu coração". É como se Deus me dissesse: "já que insiste, tente viver por si mesmo e verá no que dá. Você está perdoado e estou reconciliado com você, mas se você não quer se reconciliar comigo e quer viver segundo o seu enganoso coração, vá em frente". Não há "condenação" pior do que essa: sermos entregues a nós mesmos.
     A ira de Deus não é derramada sobre o homem e nem mesmo sobre Jesus. Deus não pune Jesus para satisfazer Sua ira e Sua justiça. A ira de Deus é contra o pecado, contra a tendência de afastamento humano dEle. E Deus em Cristo assume as consequências do pecado humano para “resolver esse problema”. Jesus morreu não por ter sido assassinado por Deus para saciar Sua ira, Sua sede de sangue. Jesus se entregou, assumindo, como representante humano, a consequência do nosso pecado. Por isso Ele sentiu o que sentimos, um desamparo e solidão existencial (“Pai, porque me abandonaste?” – Mateus 27:46), e sofreu a morte por causa de nossa maldade, sendo assassinado numa cruz. Deus não pune o pecador com a morte. “O salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23) não porque é Deus quem aplica essa pena e sim, porque é uma consequência natural do Pecado, desse afastamento do homem em relação a Deus. É o homem que “se mata”. Deus faz tudo convergir em Cristo (Efésios 1:10), inclusive a consequência do pecado. Por isso, contra quem está nEle (e todos estamos, nos restando apenas tomar posse existencialmente dessa realidade pela fé) não há nenhuma condenação (Romanos 8:1).
     Ou seja, quando Deus se irou contra o afastamento humano dEle, não exigiu sangue para satisfazer sua sádica ira e sim, derramou amor sobre o homem na Cruz. Em outras palavras, quando se fala em Deus, até ira é amor.

8.3 - “Posso perder a salvação” ou “uma vez salvo, salvo para sempre”?
     Tendo tudo isso em mente, para considerarmos uma pessoa plenamente salva o que deve ocorrer? Os dois polos da salvação terrena estarem alinhados, ou seja, uma vez que a Cruz foi para todos os homens, onde a humanidade toda foi reconciliada e salva, a pessoa deve almejar existencialmente uma vida coerente com essa dádiva divina. Pois como já disse: o que adianta Deus salvá-la objetivamente se a pessoa não toma posse desse presente em sua subjetividade?
     Como eu estava/estou em Cristo, a relação de Deus comigo não é baseada em meu pecado e sim, em Sua Graça. Foi por estar em Jesus que recebi a salvação, ou seja, mesmo minha vida hoje me condenando perante a Lei divina, Jesus a cumpriu em meu lugar e me salvou. Não tenho participação alguma nesse processo. Fui salvo na Cruz e ponto final! A prerrogativa de me salvar é divina! Depende de minha fé, de minhas obras, de meu arrependimento ou de minha obediência? Não! Pois isso se deu quando eu ainda nem era nascido. A minha salvação foi definida antes mesmo da criação. Isso mesmo, antes da fundação do mundo, “o Cordeiro de Deus foi imolado” para que fôssemos reconciliados com Deus. Poderia dizer que na eternidade fui salvo, tive meu nome escrito no “livro da vida” e como isso jamais seria compreensível a nós, humanos, Deus revelou essa realidade na história, de forma plena, há 2000 anos, na pessoa de Jesus. Ou seja: Cristo mostrou em nosso contexto, no tempo e no espaço, uma realidade eterna, que está além de nossa compreensão. A Cruz é essa nossa adoção em Cristo, sendo que a dramatização (revelação) disso na história, para que compreendêssemos, se deu em Jesus Cristo homem.
     Como já disse, se eu “virar um satanista” agora anularei a Cruz ou deixarei de ser reconciliado? Não! Deus é Deus e não, eu, logo, não tenho o poder de anular algo consumado por Ele. Não são meus acertos teológicos que me salvam e nem meus equívocos que me condenam, objetivamente. Eu apenas respondo ou não ao amor divino derramado sobre mim.
     Abaixo um comentário do já citado amigo filósofo/teólogo Joel Costa Jr (ao qual devo creditar a maior parte deste estudo, pois foi graças ao fato dele ter me apresentado, anos atrás, o entendimento que possuía, é que pude apresentar aqui esta abordagem):

“Toda instrução ou doutrina que vêm subsequente à isso [do que Deus fez em Jesus Cristo] é apenas uma forma de incentivar o indivíduo a viver conforme quem já é em Jesus Cristo, mas se vem acompanhada de um senso de que a salvação está em jogo ou de que a pessoa pode ajudar Deus ‘um pouquinho’, ou que "temos que fazer a nossa parte também", o evangelho é negado e Cristo é anátema. Não, não temos parte nenhuma para fazer em termos da nossa salvação — ela nunca nos pertenceu e nunca nos pertencerá. Nossa única parte é darmos lugar ao fruto do Espírito (as boas obras), não porque nossa salvação depende disso, mas porque o próximo precisa e porque isso é consequência natural de quem está no Evangelho. Nossa motivação para imitarmos à Jesus não é achar que realmente vamos conseguir (nunca!), ou que vamos, assim, ‘agradar à Deus’ ou garantir a nossa salvação — Deus se agrada de Jesus e eu estou em Jesus. E ponto. Minha motivação para imitar a Jesus, sabendo que sempre falharei, é a minha gratidão e meu amor imperfeito pelo mestre da Vida; é minha devoção precária à realidade suprema, ao Deus que se revelou em Cristo.” 

    A questão “uma vez salvo, salvo para sempre?”, para quem entendeu esse conceito de salvação que apresentei, não tem o mínimo sentido. Essa questão faz parte do diálogo Calvinista-Arminiano, que não cabe nesta compreensão. Se salvação, em seu aspecto objetivo, foi Jesus sendo o representante humano perante Deus, como assim “uma vez salvo”? Isso parece supor que em algum momento alguém não era salvo. Mas todos estão objetivamente (embora não subjetivamente) salvos desde sempre. E essa salvação não depende do homem, está consumada! Logo, claro que “é para sempre”. Porém no sentido subjetivo (experiencial), não. Alguém pode por algum motivo “desalinhar” sua consciência, sua mentalidade dos frutos da salvação (amor, paz, bondade...)? Pode. Então subjetivamente isso depende de cada momento, de cada um. Mas isso não é determinante para uma “salvação futura”.

     Então temos todos essa certeza da salvação objetiva e por quê? Pois Deus não mente! E se cremos que “Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo”, se nos entregamos a essa mudança de mentalidade (arrependimento), sabemos que estamos livres para acertar e errar, cair e levantar, mas buscaremos sempre fazer o melhor que podemos, por consciência (e não, por interesse), por termos entendido que os ensinos de Jesus visam trazer vida, em todos os aspectos.

8.4 – “Evangelho é anúncio de salvação só para os que creem; para os demais é sentença de morte?”
     Como já expliquei, defendo aqui que assim como TODOS pecaram em Adão, TODOS foram reconciliados em Cristo. A obra de Jesus jamais poderia ser menor (em qualquer sentido) do que a danação de Adão. Paulo diz em Romanos 5 que em Adão, toda a humanidade pecou; mas em Cristo toda a humanidade foi reconciliada. Só entendendo isso é que poderemos entender todo o contexto da carta, principalmente os primeiros capítulos, que mostram esse conflito humano do “faço o bem, mas desejo o mal; faço o mal, mas desejo o bem”. Somos justos e pecadores ao mesmo tempo. E lembre-se que quando lemos a bíblia estamos lendo um conteúdo judaico ou, pelo menos, com forte influência judaica. Esse povo, no geral, tinha uma noção de "coletividade" muito mais intensa do que a nossa. Tanto é que quando lemos o Antigo Testamento, observamos nos relatos que muitas vezes o povo "paga o preço" por causa de alguns, bem como em outras vezes o povo é recompensado por causa de meia dúzia. O Novo Testamento não muda muito nesse sentido e isso fica nítido nesse texto de Romanos 5. Segundo Paulo (um judeu convertido ao cristianismo), em Adão a HUMANIDADE TODA pecou. A nossa ideia individualista eles não tinham. Se um pecou, pecou todo mundo; se um fez o bem, fez o bem todo mundo. É "um por todos e todos por um". Não é por acaso que quando lê os capítulos 9, 10 e 11 da mesma carta (sempre devem ser lidos juntos, pois formam um único bloco, uma sequência de raciocínio, concluindo sobre tudo que foi dito até então nessa carta, sendo que no capítulo 11 o autor explica praticamente tudo o que fala no capítulo 9), perceberá que Paulo fala de alguns escolhidos (capítulo 9), e no final ele conclui: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia.” Mas alguns gostam de citar que há vasos de honra (que seriam os salvos) e vasos de desonra (que seriam os condenados ao inferno eterno). Mas discordo dessa interpretação forçada. O que o autor parece transmitir (e se compararmos com todo o contexto e abordagem que apresentamos) é que nós somos vasos nas mãos do oleiro e somos vasos de honra. E veja bem: vaso de honra é aquele que não apenas “crê”, mas que serve, que tem serventia ao Reino. Vaso de desonra também é vaso, porém sem serventia a esse Reino. Não quer dizer que esses vasos, “destinados à ira”, são condenados eternamente. Eles são os que não manifestam esse serviço (idólatras, incrédulos e os que simplesmente não estão ativamente nesse contexto de revelação da salvação...), porém o que Paulo defende é que a misericórdia de Deus veio não apenas para os vasos de honra, mas para todos (Capítulo 11 e versículo 32). Esses vasos de desonra poderiam então, de forma mais aceitável, serem entendidos como aqueles que Deus “elegeu” para na história cumprirem o propósito da salvação (Paulo deu vários exemplos, como o de Faraó, Esaú...). É uma questão mais funcional (de aspecto subjetivo de salvação, por exemplo), mas não algo que está definindo o destino pós-morte de alguém. E pensar que alguns gostam de usar essa carta para pregar privilégio de salvação futura para alguns poucos eleitos...
     Quando Jesus vem e cumpre a Lei de Deus com perfeição, Ele faz isso de forma vicária (no lugar de outros) POR TODOS. Deus reconciliou TODOS consigo em Cristo, o que não significa que TODOS vivem de forma reconciliada com Deus. É como se Deus tivesse destrancado a sela que nos prendia, porém nós, cegamente continuássemos presos nela, não tomando consciência dessa liberdade. Aí é que entra a questão da fé, do arrependimento... Mas o que foi feito, está consumado. Você não tem o poder de mudar isso. No máximo alinha sua consciência a isso (sendo subjetivamente salvo), em fé.
     Evangelho significa “boa notícia”. E que boa notícia é essa? A salvação! Agora pergunto: “condenação” é boa ou má notícia? É péssima notícia! Logo, não pode ser Evangelho. Portanto, não tenho como concordar com os que afirmam que Evangelho é salvação para uns e condenação para outros. De forma alguma. Evangelho é salvação dada a todos, porém rejeitada durante a vida terrena por alguns. Em outras palavras: condenação é a negação existencial da realidade do Evangelho.
     Se você entendeu até aqui, já está claro em sua cabeça que o destino da salvação não é um lugar (levar para o céu) e sim, uma pessoa (nos transformar à imagem de Cristo). Essa nossa transformação será parcial neste mundo, pois enfrentamos as sequelas do Pecado neste corpo mortal, mas um dia seremos plenamente transformados, em um corpo incorruptível (I Coríntios 15). Essa é a esperança Cristã “ortodoxa” e isso também está incluído no processo de salvação. Viu então como salvação é, na nossa perspectiva, um evento passado (Cruz), um processo presente (nossa contínua transformação) e também um evento e vida futura (nossa glorificação, uma transformação perfeita e o gozo de toda a eternidade nos braços do Pai)?

8.5 - “E como ficam todas as dezenas de textos dizendo que se deve crer, passar por arrependimento e perseverar para ser salvo?”. 
     Vamos analisar uma dessas passagens (Atos 3:19):

"Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, E VENHAM ASSIM OS TEMPOS DO REFRIGÉRIO PELA PRESENÇA DO SENHOR". 

     Destaquei o final do versículo propositalmente e já verão o motivo. O que dissemos até agora? Que na Cruz Deus nos concede o perdão de nosso Pecado. É lá a origem do perdão. O meu arrependimento é posterior, vem depois do perdão ser concedido. Quando me arrependo eu TOMO POSSE DO PERDÃO QUE SEMPRE TIVE! Você se lembra que a salvação é também essa realidade subjetiva? Então, o que adianta Deus me perdoar na Cruz se eu não tomo consciência disso através do arrependimento? O problema entre Deus e mim está resolvido na Cruz, mas e o meu interior, minha experiência? Tanto é assim que o final do versículo evidencia isso: qual a consequência desse apagamento de pecados aqui no contexto? É a religação com Deus? A nossa salvação objetiva? Não! Isso já ocorreu na Cruz. É a nossa pacificação (refrigério)! Na conversão, na regeneração, no arrependimento o Espírito Santo trabalha em nós de tal forma que experimentamos em nossa vida os frutos desse perdão que sempre foi nosso. Lembre-se da parábola do Filho pródigo. Em algum momento o pai deixou de perdoar o filho rebelde? Não! Ele sempre amou o filho e sempre o aguardou, tendo dentro de si, já perdoado o rapaz. Porém, o filho só tomou posse (consciência) desse perdão, só usufruiu dos benefícios, quando se arrependeu, quando voltou para o Pai.
     Da mesma forma podemos pensar (e isso dentro de uma abordagem apocaliptica “futurista”, que encara esse texto como se referindo ao “fim dos dos dias”, que é a interpretação mais comum no nosso meio – embora eu não a adote) em Mateus 24:13:

“Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo”.

     Se a salvação neste mundo é justamente a nossa relação subjetiva com o que recebemos na Cruz, então claro, salvo é aquele que tem uma vida alinhada aos ensinos de Jesus. Logo, quando olhamos para o futuro, que é o que “chega salvo” lá na frente? Aquele que perseverou nessa consciência, nessa fé, nessa mentalidade. Esses são os salvos nesta vida.

     O mesmo vale para tantos outros textos, como: "E todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo" (Atos 2:21). 

     Claro. Embora todos tenham sido objetivamente salvos na cruz, só tem essa salvação subjetiva (percepção e apropriação da salvação) os que possuem fé e passam por arrependimento (os que “invocam o nome do Senhor”).  E aproveito para citar uma frase que irmãos calvinistas adoram: “Se Jesus tivesse morrido por todos, todos seriam salvos. Subordinar o sacrifício de Cristo à vontade humana é desvalorizá-lo”. Pois é, por isso afirmo: Jesus morreu (na verdade mais do que isso, ele também viveu) por todos os homens e todos os homens, sem exceção, foram objetivamente salvos na Cruz. Está consumado! Porém nem todos os homens se entregam a essa realidade, a esse “fato”, e então vivem na alienação do pecado, na ilusão, sem fé e sem arrependimento, e esse não alinhamento à vontade divina é condenação, inferno. Logo, esta abordagem que apresento não desvaloriza Jesus, pelo contrário. Penso que desvaloriza o Cristo quem limita seu amor, seu perdão e seu poder; aqueles que consideram a Cruz menos ampla e poderosa do que “um fruto do jardim do Éden”, que danou toda a humanidade.

“Serão salvos tu e tua casa” (Atos 16:31) 
     Será que o assunto é o destino “eterno” da pessoa? O fato de alguém se converter aqui na Terra garante não só a ele, mas também a família toda, uma poltrona vip no céu? Claro que não. Lembra da salvação subjetiva, quando o indivíduo crê, muda de mentalidade e consequentemente isso reflete em suas ações? Salvação é estar alinhado à vontade divina, de forma que um lar em que alguém tem essa visão, essa vida, tem  uma fonte de paz,amor, perdão, esperança, serviço, bondade. Esses são os frutos da salvação, que alcançarão não só a pessoa, mas todos que com ela convivem.

“Hoje a salvação chegou nesta casa” (Lucas 19:9)
     Novamente fala desse polo subjetivo da salvação, que ocorre quando a pessoa muda de mentalidade (arrependimento), ou seja, ocorreu essa salvação na vida de Zaqueu quando sua consciência assimilou que deveria restituir todos os danos causados às pessoas, bem como a amá-las e ajudá-las.
     A qualquer outro texto com essa aparente relação poderá ser aplicado o mesmo raciocínio.

"Caso seu irmão lhe arrependa, perdoa-lhe" (Lucas 17:3)
     Este texto levanta dúvidas pois, como poderia Deus me perdoar antes que eu me arrependa, mas Jesus me ensinar a perdoar apenas quem se arrepende, certo? Mas lembre-se que o perdão não é um mero sentimento; é uma atitude. Uma coisa é você perdoar no coração (não guardar mágoa ou rancor, desejar o bem até dos seus inimigos...), pois isso todos devemos sempre fazer. Outra, é liberar esse perdão na vida de quem lhe ofendeu e isso só é possível quando essa pessoa reconhece, "se arrepende", percebe o erro e se abre para ser perdoada. Não tenho como derramar esse perdão sobre alguém que foge de mim. Percebe que o versículo 4 fala exatamente da pessoa lhe procurando para reconhecer o erro? É assim: na essência, de forma objetiva, ela deve ser perdoada por você desde quando lhe ofende, mas ela só poderá receber esse perdão em sua vida e em sua subjetividade quando ela reconhecer e aceitar esse seu perdão.

"Arrepende-te, pois, dessa tua iniquidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado..." (Atos 8:22)
      Este trecho é a aplicação direta dessa questão de objetividade e subjetividade do perdão e da salvação. Só pode receber (na prática) o perdão divino quem se arrepende, quem toma consciência que precisa de perdão. O texto não está dizendo que é para pessoa se arrepender e clamar, para quem sabe ter a sorte (ou convencer Deus) de ser perdoado. Deus sempre a perdoou, mas ela só tomará posse do perdão se esse arrependimento e reconhecimento de necessidade do perdão divino for profundo. O sentido do "quem sabe/porventura Deus te perdoe" seria: "se for genuíno esse seu clamor por perdão, você o receberá".

8.6 - “Só quem tem uma vida conforme a vontade divina entra no Reino de Deus”
     Jesus, em Mateus 25, está evidenciando como é o "Reino de Deus" (o ambiente em que impera a Vontade do Pai, sendo que esse Reino chegou com Cristo). Neste mundo o Reino é parcial, como um vulto, mas um dia será pleno e perfeito, quando formos transformados e em estado de perfeição estivermos usufruindo a vida eterna nos braços do Pai.
     No Reino de Deus as pessoas se amam e se ajudam. Quem não muda de mentalidade e não expande sua consciência (arrependimento) e não compreende essa realidade (pela fé) não está apto a participar do Reino, pois nele só há a vontade de Deus sendo executada. E é a vontade dEle que cuidemos dos nossos irmãos, do nosso próximo, que pratiquemos obras, que amemos...
     Imagine o Reino de Deus como sendo os benefícios advindos da energia elétrica. Um sitiante passa a vida toda isolado, conservando os alimentos na gordura, iluminando a casa com um lampião... Até que um dia lá na porteira colocam cabos com energia elétrica. Mudará alguma coisa para esse sitiante logo de cara? Não! Só mudará no dia em que ele mudar a mentalidade e expandir sua consciência para essa nova realidade. Essa mudança gerará ações como a de "puxar cabos" para dentro de sua casa (arrependimento gera "frutos") e então passará a fazer parte dessa nova realidade (Reino de Deus). O Reino não depende dele, mas para esse homem fazer parte do Reino, deve mudar de mentalidade. Por isso lemos tantas vezes que para entrarmos no Reino de Deus temos que procurar fazer a vontade de Deus. "Reino" é essa nova realidade de vida. É caminhar de acordo com a realidade.
     Aplique o mesmo raciocínio a qualquer outro texto que faça essa associação, como Gálatas 5:21 ou I Coríntios 6:9-10.

8.7 – “Somos salvos pela Graça, pela fé ou pelas obras?”
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”. (Efésios 2:8)

     Alguns leem este texto e dizem que o dom de Deus é a fé; outros, que é a Graça. Defendo que o dom de Deus é “a salvação que recebemos pela graça (favor imerecido), por meio da fé”. Repare que nossa salvação não tem como causa as obras, embora nossas obras sejam direcionadas ao nosso próximo (não é Deus quem precisa delas) e sejam consequência de estarmos com a consciência alinhada à nossa salvação.
     Entenda: a Graça é o favor imerecido de Deus derramado sobre nós, escolhendo nos perdoar, amar, salvar incondicionalmente. Ela é que nos dá salvação. Então não é pela fé que somos salvos? Até é. Mas não por nossa fé insignificante e falha. É pela fé do Verbo, do Logos, de Jesus Cristo. A fé dEle (que é Graça) é contada em nosso favor, pois é uma fé perfeita, vicária. A nossa fé é algo ínfimo e cuja função é “apenas”alinhar nossa consciência à fé salvífica de Cristo. Em outras palavras: a fé do Cristo nos salva objetivamente (é a Cruz) e a nossa fé nos permite apropriar-nos (alinhar-nos) dessa salvação que já temos.

8.8 – “Qual a função então do ‘juízo final’?”
     Se a salvação não é pelas obras e sim, um ato de Graça (Cruz), da qual tomamos posse pela fé, como entender um julgamento final? Não há aí uma contradição?

“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo.” (Hebreus 9:27)

“Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; O qual recompensará cada um segundo as suas obras.” (Romanos 2:5,6)

     Primeiramente tem que entender que esse “juízo final” não é, a princípio, para julgar as pessoas em termos de salvação e de condenação (céu ou inferno). Esse julgamento já ocorreu na Cruz. Em Cristo fomos salvos e também fomos chamados a crer e a passar por arrependimento para usufruirmos dessa salvação. A cruz é suficiente, é total, é perfeita e não precisa de complemento. Se fosse pra julgar o homem novamente, a cruz seria incompleta. E se entendermos que esse texto aos romanos refere-se a esse juízo final, como entendê-lo?
     Penso que podemos encará-lo da seguinte maneira: após a morte esse juízo será um momento em que os “ímpios” (os que não alinharam sua mente à salvação da Cruz, os homens que se entregaram à maldade) serão expostos às suas obras más, ficarão profundamente envergonhados e então terão uma última oportunidade de crer ou não no juízo de Cristo realizado na Cruz. O “julgamento” é estar descoberto perante Deus. Ali suas mentes serão ilumidadas diante do Deus que é pura luz (essa iluminação de consciência é que pode ser o real sentido do termo “juízo”) e terão que possuir um nível de endiabramento imenso para, mesmo diante de Deus, resistirem a esse “julgamento” de amor feito na Cruz (e resistindo, vem a questão do “inferno” ou do “lago de fogo” que já foram discutidas neste texto). A ”ira” de Deus será lançada sobre essa impiedade, exterminando-a de alguma forma. Veja: os que já se alinharam à salvação nesta vida, desfrutam desde já dos frutos; os que não se alinham (não tem fé e arrependimento), vivem em um inferno existencial, até que naquele dia serão expostos, “desmascarados” e então crerão ou não no Deus que estará diante de seus olhos. E aí, talvez, uma pessoa tão adaptada e acostumada com a maldade, interpretará o amor de Deus como uma tortura, como um sofrimento indescritível, como um fogo que os consome e assim, esse pode ser o inferno a que ela será submetida, como já comentado.
     Infelizmente alguns distorcem o texto aos hebreus para dizerem que o juízo é a própria morte e assim, afirmam que após partir deste mundo, não pode haver outra oportunidade. Não, o juízo (iluminação de consciência) é justamente APÓS a morte.

8.9 – “Como entender: ‘Quem que crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado’?” (Marcos 16:16)
     Não entrarei aqui no mérito dos manuscritos antigos (os versículos 9 ao 20 desse capítulo quase certamente representam um um acréscimo, um trecho escrito por redatores dos primeiros séculos da nossa era  - e não, pelo mesmo autor do restante do evangelho). Irei aqui supor que é autêntico, original, “inspirado” e condizente com o todo.
     Novamente apenas repetirei: a salvação aí em questão (e será assim sempre que for algo relacionado a uma ação humana) é o polo subjetivo da salvação terrena. Claro, é quem crê e quem muda de mentalidade que alinha sua consciência e vida a Jesus (isso é salvação). E por que quem não crê será ou “já está” condenado? Pois a condenação é justamente essa: rejeitar a Jesus por aversão ao seu amor, à sua verdade e à sua luz, já que como a pessoa ama as obras más, a luz de Cristo tornaria explícita toda essa maldade. Ser condenado é continuar nessa vida alienada, levada pelo pecado, pelo engano, pelo mal. Não é uma mera consequência futura de ser uma pessoa má; é o próprio fato agora de ser dominada pela maldade. É exatamente isso que vemos em João 3:19-20:

"E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas."

     Já quem crê alinha pela fé o seu ser à salvação que recebeu (assim como as demais pessoas receberam) na Cruz:

“Porque Deus amou O MUNDO (e por isso a salvação objetiva foi dada a todos) de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê (esses tomam posse da salvação que receberam) não pereça, mas tenha a vida eterna (e essa vida é justamente essa consciência alinhada à vontade divina).” (João 3:16)

     O que mais concluímos? Que a salvação objetiva (Cruz) é coletiva, universal. Já a salvação subjetiva é individual.

8.10 - E os não cristãos e os que nunca ouviram explicitamente a Palavra de Deus? 
     Precisamos diferenciar “salvo” de “cristão”. Em um aspecto objetivo, toda humanidade é salva, mas como geralmente falamos da salvação em um polo subjetivo, salvo é todo aquele que tem uma percepção dessa salvação recebida na Cruz e que alinha sua mentalidade (arrependimento) a esse fato. Ou seja, em termos objetivos, nem todo salvo é cristão, embora todo cristãos seja objetivamente salvo. E teoricamente, a grosso modo, todo cristão é salvo também subjetivamente, pois além de ter sido salvo na Cruz, como todos os demais, recebeu a informação histórica dela e alinhou sua consciência a isso. Mas quer dizer que todos os que não são cristãos não são subjetivamente salvos? Não é bem assim. Digo que há sim, muitos que nunca ouviram falar historicamente sobre Jesus, mas que de alguma forma intuíram a Sua realidade, a Sua ética, os Seus ensinos. Como posso dizer que uma senhorinha lá do outro lado do mundo, de uma tribo isolada, não é salva subjetivamente só por ela não professar explicitamente uma crença em Jesus? Será que a fé é algo meramente confessional ou a confissão é apenas consequência da verdadeira fé que muda nosso ser, nossa percepção? Como alguém pode dizer que uma mulher que nunca ouviu falar em cruz, mas que dedica a vida ao cuidado dos necessitados, que reparte tudo o que tem com os pobres, que ama e perdoa até os que dela não gostam, que faz o bem a todos, sem esperar nada em troca (ou seja, que busca fazer tudo aquilo que Jesus ensinou) não é salva subjetivamente também? Seria uma tolice imensa de minha parte. Mas infelizmente muitos acreditam nisso e é essa ideia que os estimula a fazer “missões” (na verdade é “fazer prosélitos” pra sua religião). Pensam: “se eu não for, o sangue de inocentes cairá sobre minha cabeça”. Transformam a salvação (terrena e futura) em uma loteria, em algo de sorte. Se eu tiver a sorte de ouvir a Palavra (e crer), serei salvo; se eu tiver o azar de nascer em um lugar isolado de um país não cristão, queimarei no inferno. É uma ideia ridícula, mas predominante, infelizmente. Creem em um deus bairrista e tribal.
     Algo que gera muita divergência aqui é o papel da conversão, do batismo, da eucaristia e a relação dessas coisas com a “regeneração”. Mas é algo secundário, penso eu, que não irei comentar aqui.

8.11 - Para que pregar se já sou salvo? 
     Quem assim pergunta não entendeu absolutamente nada e é apenas um religioso hipócrita. Quer dizer que você faz as coisas por interesse? Quer dizer que se receber seu salário adiantado, não aparecerá mais no serviço e dará o golpe no patrão? Alguém assim precisa de uma boa dose de Lei de Deus (para se enxergar) e de evangelho (para entender a grandeza da obra de Cristo). Só com essa consciência é que fará tudo por gratidão, por amor e não, por medo de inferno ou por interesse pelo paraíso. Pense: se essa compreensão que tem da Cruz lhe traz imensa paz, gratidão, convicção, não desejará compartilhar isso com outras pessoas? Não desejará que outras, entendendo o que você deveria ter entendido, tenham uma vida mais alinhada à vontade divina, espalhando o amor e a bondade? Deus salvou você e agora lhe chama para viver como alguém que foi salvo, como um sinal do Reino de Deus neste mundo.

9 - CONCLUSÃO: 
     Como já falei (escrevi) demais, concluo com dois comentários de Joel Costa Jr, que sintetizam muito bem tudo o que foi apresentado:

     “Salvação é um relacionamento plenamente restaurado com Deus (e, portanto, com o próximo, consigo mesmo, com a criação, etc...). Salvação tem dois polos - um objetivo e um subjetivo. Ou seja, um interior e um exterior. O exterior é o seguinte: todos já estão reconciliados com Deus em Cristo; Jesus viveu, morreu e ressuscitou por cada um de nós, e a cada um de nós foi imputada a obediência dEle. A salvação, a reconciliação com Deus, já é nossa de fato, embora alguns saibam disso e outros, não. O polo interior ou subjetivo da salvação é apenas a tomada de consciência sobre a sua salvação, que te permite desfrutar os seus frutos. Você fica sabendo da sua inclusão e adoção em Jesus Cristo e crê neste fato, recebe interiormente esta dádiva imerecida. E você passa a ser um imitador imperfeito de Cristo, jamais pensando que a sua obediência é uma conquista ou um mérito, mas sabendo que ao longo da jornada, caindo e levantando, você nunca vai ser condenado ou rejeitado pelo Pai que já o abraçou na pessoa de Jesus. Não porque você é bom, mas porque Ele é bom. A sua salvação não tem a ver com você, tem a ver com quem Deus é. Ele te salvou apesar de você. Aceitar o abraço do Pai é afirmar a sua salvação, é dizer SIM ao que já é fato.”

   “Quanto mais você fica tentando se salvar, mais você despreza o sacrifício de Cristo. Faça tudo por amor e gratidão, nunca como tentativa de se salvar. Toda vez que você faz algo como justiça própria, você está rejeitando a obra vicária de Jesus e dizendo, essencialmente: ‘eu me garanto’. 
     Eu sei que demora para cair a ficha. Eu sei porque demorou para mim também. Demora porque não estamos desafiando a ordem de algumas coisas; estamos desafiando as próprias estruturas da sua fé. Estamos afirmando que a própria ‘lente’ precisa ser trocada. E quando troca a lente, fica um momento sem ter chão, fica tudo meio estranho, meio confuso... É como no Matrix: a realidade inicialmente causa náusea... Não é que você está tonto - é que pela primeira vez não está, mas já estava acostumado com a tontura. Parece exagero, mas não é - a mudança de paradigma necessária é assim. Estou insistindo aqui: o que te ensinaram de cosmovisão religiosa é, no máximo, um verniz do Evangelho. Queime tudo e reconstrua do zero. Jesus não tem nada a ver com isso. Não fundou isso aí, não vindica isso aí, não está nisso aí. 
     As pessoas não entendem quando a gente afirma: ACABOU. Sua salvação já foi, já era. Você foi reprovado. Você não passou. Você já está condenado. E Deus decidiu encarnar e assumir tudo por você. E o acolheu e o adotou e o perdoou e promete transformá-lo à Sua imagem e semelhança. Já era;  c'est finis. Nada a acrescentar. Fazer o bem, ir para a Igreja, ser amoroso, etc. Nada, nada, nada disso contribui qualquer coisa que seja ao fato concluído - já foi feito e acabou. Tudo isso é, no máximo, fruto e consequência.”

Autor: Wésley de Sousa Câmara
24/11/2015

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