15 de nov de 2015

Terrorismo em nome de "deus"


     Não vejo como crer num Deus que morre (Jesus) e ao mesmo tempo, em um Deus que mata (como diversas descrições bíblicas, principalmente na hebraica, quando Deus teria matado ou mandado exterminar povos rivais). Quem mata é o ser humano e depois tenta justificar suas atrocidades (como colocando a culpa em Deus ou dizendo que fez em nome dEle). Repare a semelhança com os terroristas do mundo atual... É o mesmo fundamentalismo religioso (seja judaico, cristão, islâmico...).
     O Deus que mata não é coerente com Jesus. Ou Jesus é um enganador (ou, no mínimo, só mais um ser humano como todos os outros) ou é a revelação plena de Deus ao homem, a imagem do Deus invisível ("Quem vê a mim, vê ao Pai"). Infelizmente algumas das compreensões (maioria no nosso contexto cristão brasileiro) nos fazem abrir mão do bom senso, do amor e da ética. O que desprezamos no dia a dia (como atos terroristas de fundamentalistas muçulmanos), o que repudiamos nas redes sociais, nós hipocritamente aceitamos quando fazemos uma leitura bíblica "fundamentalista" (por exemplo: dizemos que o nosso Deus mandou exterminar tribos rivais dos judeus, não poupando nem mulheres e crianças). Vamos abrir mão de entender quem escreveu os livros bíblicos, como, quando, por quê, em que contexto? Vamos rejeitar a informação de como cada texto foi parar na bíblia e porquê? Vamos ignorar a crítica textual, histórica e nos ater a uma interpretação puramente religiosa, que foi definida em algum concílio e imposta a nós, como se fosse inquestionável e absoluta? Então qualquer absurdo feito em nome de Deus (ou atribuído a Ele) é válido? Foi por essa mentalidade que tivemos as famosas Cruzadas, a Inquisição e o apoio ao derramamento de sangue até mesmo na Reforma. Sem contar no apoio da Igreja à escravidão e ao desprezo da mulher, que era tratada como uma posse do homem. Achamos que questionar é pecado, que temos que aceitar uma interpretação que nos foi imposta. Olha que estratégia eficaz usaram quando nos fizeram adotar isso como premissa e como "vontade divina que assim fosse". Ai de quem questionar ou criticar. É herege, contencioso, apóstata...
     É um fundamentalismo tremendo, o mesmo espírito do fundamentalismo islâmico que condenamos. O que alguns judeus atribuíram a Deus tem a ver com a crença deles e não, com Deus propriamente dito. Como bem disse John Shelby Spong: "Sugerir que Deus é igual a qualquer percepção que se tenha dele é parar de crescer, é morrer para a busca da verdade". Quer dizer que Deus não tem um padrão? Ora salva do apedrejamento, hora extermina sem piedade? Então desafio você a diferenciá-lo do "diabo", pois o que hoje você diz que é obra do diabo, quando lê trechos do velho testamento aceita que foi obra divina. Como pode? Deus é mutável? Se for, não pode ser absoluto, nem confiável, pois revelou outra coisa em Jesus. E Sua ética depende do status da mentalidade do homem? Quer dizer que Deus tratava o homem com "barbaridade" na antiguidade porque o homem era bárbaro? Se assim for, realmente faz sentido as concepções seculares da divindade, que Deus seria mera criação humana, como imagem e semelhança do próprio homem. Afinal, se Deus age conforme o homem, Ele é um refém do nível mental e social humano. Não vejo possibilidade de coerência de nenhum tipo de fé cristã com essa visão de um deus sanguinário, mutável ou sem um padrão definido que podemos assimilar (não a totalidade, mas pelo menos a essência). Sem chance...
     Alguns dirão: "Você está usando sua ética humana, moderna, ocidental para avaliar Deus". E você queria o que, meu irmão? Nessas horas você não cita o versículo que diz: "avalie se todo espírito provém de Deus" (I João 4), né? E se temos que avaliar, precisamos ter um parâmetro concreto. Se Deus age cada hora de uma forma, de maneiras até opostas, como poderemos discerni-lo? Se Ele age como quer, sem um padrão, porque Deus se revelou objetivamente em Cristo, nos dando um parâmetro, gerando nossas "cristologias"? Se Ele não tem um padrão, isso não serviria para nada, pois meia hora depois Deus poderia agir de forma oposta ao "dar a outra face, amar e perdoar até os inimigos, não pagar mal com mal, fazer o bem a todos, servir em vez de desejar glória para si"...
     Se Deus faz o que quer, sem uma ética clara não podemos sequer usar Jesus para avaliar o passado. Quer dizer que os judeus eram exceção da humanidade, visto que praticamente todos os povos antigos cometiam atrocidades e justificavam suas ações atribuindo à vontade ou ação divina? Acho que abrir mão das evidências (razão) não é um caminho sério pra quem busca a verdade, sem medo, independentemente de como ela seja. Se nossos parâmetros (aliás estou só me baseando no que Jesus explicitou nos evangelhos, nem estou fugindo disso pra não dizer que é filosofia vã) não podem avaliar nada, porque aprendemos a julgar (discernir), por que aprendemos o que são frutos do Espírito e o que são frutos da carne? Não poderemos nem avaliar nada a partir disso mesmo... Olhe para esse deus sanguinário e procure frutos do Espírito nele. Tem algum? Não! É só um deus melindroso, narcisista, que quer sua própria glória (enquanto isso, incoerentemente o defendemos, ao mesmo tempo em que dizemos crer num Deus que é amor, sendo que Paulo disse que o amor não busca seus próprios interesses - logo, não Deus não pode ser amor e ao mesmo tempo desejar Glória, glória e mais glória).
     Mas não estou aqui defendo a ladainha (perdoe-me pelo juízo de valor) do marcionismo, que vê o Deus do Antigo Testamento como um Deus e o do Novo Testamento, como outro. Só estou dizendo que a percepção antiga judaica de Deus é, em muitos pontos, escandalosamente anti-ética (e para dizer isso só pegando a ética explicitada por Jesus). Não tenho como ter "Jesus como chave hermenêutica", assumir que Ele é o "Verbo encarnado" (Palavra de Deus que se fez carne) e, ao mesmo tempo, aceitar que Deus despedaça garotos que dão risada da careca de um profeta ou que Ele manda dizimar tribos inteiras, inclusive mulheres e crianças. Alguns, por idolatria à bíblia (que por sinal é algo que esses idólatras sequer conhecem a fundo, em termos de produção, formação, composição, compilação,  objetivos e contexto) preferem crer em um deus sádico, vingativo, "bipolar", esquizofrênico, maldoso, mesquinho, intolerante e narcisista a relativizar um relato e entendê-lo não como a descrição do Deus em si, mas como  apercepção contextual de um povo em relação a esse Deus. Preferem distorcer o caráter da divindade que creem, a relativizar um escritor. Uma ética religiosa assim é uma desgraça pra humanidade. E depois criticamos o estado islâmico por cometer atrocidades semelhantes às que nós mesmos defendemos, que foram cometidas na história dos hebreus (quando não por Deus, à mando dEle). Haja incoerência, hipocrisia e maldade.
     Assumamos nossa parcialidade, relatividade e incapacidade de englobar em nossa percepção um Deus que dizemos ser absoluto.
     Mas enfim, muitos homens criam muitos deuses... Cada um creia no que lhe convém. Só tire as traves do seus olhos antes de olhar para o cisco no olho dos fundamentalistas de outras religiões. No fundo, são todos iguais. Só mudam as alegações para as ações.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
15/11/2015

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