29 de dez de 2015

Como a bíblia se tornou "sagrada" no cristianismo?


     Bart D. Ehrman (um dos maiores, senão o maior, e mais respeitados especialistas do mundo no Novo Testamento e autor de alguns "best-sellers") explica nas primeiras páginas do livro "Quem escreveu a bíblia" (e que aqui resumo e explico com minhas palavras):
     Hoje os cristãos tem uma suposta obsessão pela verdade (na prática tem é aversão a ela, mas deixemos assim), porém as antigas religiões (politeístas, "pagãs") dificilmente se preocupavam com "crenças verdadeiras" ("verdade" era desejo de filósofos), ou seja, as religiões não tinham credos a serem recitados, crenças a serem afirmadas ou escrituras que precisassem ser vistas como as verdades divinas. Elas não exigiam que a pessoa acreditasse nas coisas certas, sendo indiferente em qual deus você acreditava, pois adorar Zeus não era "mais ou menos certo" do que adorar Atena, por exemplo (hoje defendemos que se o batista é certo, o católico é errado e vice versa). A religião antiga dizia respeito não a crenças e sim, a práticas adequadas: sacrifícios e orações definidas. Eles não eram exclusivistas como somos e assumiam que todas podiam estar certas. Além disso, as religiões antigas não eram muito preocupadas com a vida após a morte. Elas se interessavam pelo presente (como ter saúde, como vencer guerras, como ter a mulher desejada, como ter boa colheita...)
     Porém de certa forma o judaísmo, mas principalmente o cristianismo eram diferentes, pois davam importância naquilo que a pessoa acreditava (eram exclusivistas - pois o certo, a verdade, era o que elas levavam), sendo que crer nas coisas certas geraria recompensa com o paraíso e crer nas erradas, geraria punição no inferno. E essa verdade a ser crida, no cristianismo, era composta de algumas afirmações (as que venceram os debates antigos e se tornaram ortodoxas) sobre Cristo, salvação, vida eterna...
     E citei isso tudo pois é a base de algo que digo há tempos, desde que aprendi (e também uso aqui as afirmações do mesmo autor como base):
     Se há várias afirmações básicas que devem ser tomadas como premissas, se há interpretações que precisam ser corretas, tem que se criar meios de garantir que esses ensinos sejam mantidos ao longo do tempo. Então os cristãos primitivos decidiram que deveria ter algum parâmetro para estabelecer o que era verdade e o que era engano. A autoridade então foi definida: Deus, claro, o absoluto... Mas como as pessoas teriam acesso ao que Deus estabelece como verdadeiro? Não poderiam dizer que Deus revelaria a cada um, pois claro que logo teriam pessoas divergindo em algumas crenças e todas alegariam que Deus as revelara aquilo, mesmo sendo coisas diferentes. Então a maioria dos cristãos rejeitou essa revelação pessoal a indivíduos vivos. E estabeleceram: Deus revelou Sua verdade em uma época anterior, em Cristo e nos apóstolos. Certo. Esse problema estava resolvido.
     Nas primeiras décadas após a morte de Jesus tinham os apóstolos para ensinar essas verdades, mas e quando morreram? Muitos alegaram que a verdade estaria com os seus sucessores, aqueles que os apóstolos apoiaram na liderança das diversas igrejas. Ou seja, esses líderes teriam autoridade igual ao do próprio Deus. Porém, com o passar do tempo, não se tinha mais: Jesus, apóstolos, nem líderes apontados pelos apóstolos. Os líderes dessa época nem mesmo conheceram alguém que tinha visto pessoalmente um apóstolo. E agora? Como saber em quem confiar? Já havia muita divergência de ensino e todos diziam estar pregando os ensinos apostólicos. Então foi estabelecido um parâmetro: os apóstolos não estão mais aqui, nem seus sucessores diretos, mas esses homens deixaram escritos, que podem ser lidos e então os seus ensinos podem ser acessados. Portanto, a verdade poderia ser encontrada nas escrituras vindas desses homens.
     Porém o que parecia a solução definitiva, só gerou mais problemas. Embora nos primeiros séculos não considerassem tanto isso, hoje sabemos que os apóstolos eram geralmente analfabetos, logo, não poderiam escrever. No máximo, teriam que pedir que alguém escrevesse, o que impossibilitaria que eles mesmos conferissem os escritos. Teriam que confiar cegamente no escritor. Outro problema é que começaram a circular vários evangelhos que supostamente teriam sido escritos por discípulos de Jesus (Pedro, Filipe, Maria, Tomé, Tiago), mas muitos eram totalmente diferentes de outros. E agora? Surgiram cartas supostamente de Paulo, de Pedro e de Tiago, bem como diversos apocalipses e até escritos atribuídos a Jesus.
     A partir disso tudo, tiveram que estabelecer critérios. Livros que divergiam muito dos ensinos aceitos pela maioria dos cristãos seriam rejeitados, embora não houvesse como comprovar a autenticidade dos livros com autoria atribuída aos apóstolos. Vários concílios ocorreram e os livros que entrariam na bíblia foram escolhidos e os ensinos defendidos por grupos cristãos mais influentes foram adotados como "ortodoxos". Consenso? Nunca houve, mas como sempre: manda quem quer e obedece quem tem juízo.
     Então pense bem antes de idolatrar sua teologia, suas crenças ou até mesmo a bíblia, pois tudo o que está em sua mão e tudo o que você hoje defende, tem uma origem e uma história. Não foi Deus (nem Jesus) quem estabeleceu o que o cristianismo deveria defender e o que deveria rejeitar, tampouco foi Ele quem definiu quais livros seriam canônicos e quais deveriam ficar fora da bíblia. Isso tudo ocorreu após muita discussão e briga, em contextos e com motivações bem humanas.
     Defenda o que julga ser melhor ou verdadeiro, mas com humildade. Somos todos relativos, frutos de uma longa história. Deixe seu fundamentalismo cego e sem coerência histórica de lado.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

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