23 de jan de 2016

Música secular VS música religiosa



     Se tem algo que muito me incomoda no meio cristão é a mentalidade predominante (no contexto conservador brasileiro) de que uma pessoa que professa a fé cristã deve apenas ouvir músicas explicitamente cristãs ou “gospel”. Cantar ou tocar então, nem se fala. Esse posicionamento extremamente absurdo é mais do que óbvio, mas as pessoas que abrem mão da razão, muitas vezes nem o óbvio enxergam. Então aqui irei rapidamente mostrar que essa posição é insustentável até mesmo para o maior cristão conservador.
     O problema todo surge por causa dessa obsoleta mentalidade de que há o divino e o profano, o sagrado e o comum. Se formos olhar para suas origens, teremos que viajar no tempo muitos milhares de anos, até encontrarmos aquele ser humano primitivo, pré-histórico, que começou a perceber que suas plantações somente se desenvolviam quando não dava sol demais, nem chuvas em excesso e tampouco, uma temperatura extremamente baixa. Ou seja, precisava ocorrer uma condição adequada para que tivessem alimentos disponíveis e essa condição fugia do controle desses homens. Perceberam que estavam reféns da sorte, impotentes diante da natureza. Então resolveram que deveriam fazer alguma coisa, nem que isso significasse apenas criar rituais para o possível deus sol, para o deus da chuva, para a mãe terra... Mas isso parecia muito vago, subjetivo, então melhor seria agradar ainda mais os deuses, criando para eles templos, locais em que pudessem ficar mais perto das pessoas, em que se sentissem acolhidos e onde pudessem ser adorados com sacrifícios. Então ali seria um lugar especial, a “casa do deus X”; os demais lugares seriam comuns. Ali era para fazer o rito certo, pronunciar as palavras certas, já que havia todo um medo de desagradar as divindades... Mas e se isso ainda for pouco? Quem sabe os deuses sejam mais exigentes? Então nada mais adequado do que criar uma classe de pessoas mais santas, sacerdotes separados para essa relação direta com os deuses... Pronto! Agora temos locais considerados sagrados (na verdade mais do que sagrados, são divinos), rituais e liturgias definidas (palavras certas, músicas exclusivas) e até mesmo pessoas diferenciadas (sacerdotes/clero) para tentar agradar os deuses. E assim o mundo é dividido nesses dois grupos: sagrado e comum, divino e cotidiano. Se essa mentalidade primitiva já representava uma divisão sem muito sentido, surgem grupos religiosos fundamentalistas, que dividem toda a vida em “coisas de Deus” (“coisas espirituais”, “obra de Deus”) e “coisas do mundo” (“coisas da carne”, “mundanismo”), que para eles são “coisas do diabo”.
     Infelizmente, em pleno século XXI, essa mentalidade primitiva permanece, especialmente no meio cristão. Continuamos vendo as pessoas achando que a “igreja” (“templo”) que vão aos domingos é um local diferenciado, mais santo, sagrado, como se fosse um portal de acesso ao divino (não enxergando que ali só é um prédio como outro qualquer, mas que serve para pessoas de mesma fé se reunirem, cantarem, orarem e meditarem juntos); continuam achando que alguém que dedica a vida ao cuidado das pessoas num contexto cristão (líder religioso) tem uma atividade mais privilegiada ou que agrada mais a Deus do que uma pessoa que tem uma profissão dita “secular”, como um médico, um advogado, um pedreiro ou um fachineiro; continuam achando que uma música cantada por um cantor que assume a fé cristã (música gospel) é aceita por Deus, enquanto uma música (mesmo que tenha uma letra muito mais condizente com a fé cristã) não religiosa e cantada por um cantor não cristão é “coisa do mundo”, “da carne” e desagrada a Deus.
     Porém considero muito difícil defender a “fé cristã” e e ignorar os ditos de Jesus e de Paulo (que na prática é o pai do cristianismo), tendo essa ideia judaica de "templo", de "igreja", de "mundano". Você não diz “seguir a bíblia”? Mas é nela mesmo que observamos autores neotestamentários, inclusive o principal apóstolo (Paulo) de Jesus, apropriarem-se de símbolos e textos “pagãos” para falar do que julgavam ser o evangelho de Jesus. Se você acha que a expressão “as más companhias corrompem os bons costumes” (I Coríntios 15:33) é de Paulo, está enganado, pois ele apenas o aproveitou o contexto em que estava inserido para citar Menandro (um filósofo grego); em Atos 17:28 vemos uma citação (“Porque dele também somos geração”) do poeta grego Arato, que teria sido citado por Paulo; em Tito 1.12, o sábio Epimênides é citado ("Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos"). Poderia ainda citar uma enormidade de evidências nas escrituras de que os escritores usaram conceitos de autores que não estão na bíblia, bem como visões de mundo de outros povos, que influenciaram os judeus e os cristãos primitivos. Por exemplo, as palavras “Tártaro” e “Hades” (traduzidas muitas vezes como “inferno” em nossas bíblias) são oriundas da mitologia grega, com a qual escritores bíblicos tiveram contato. Mas o que Jesus diria disso? Oras, a bíblia relata que o próprio Jesus usou uma versão da "regra de ouro" (Mateus 7:12) atribuída a Confúcio. E você vai continuar condenando toda música não cristã e até distorcendo textos bíblicos a fim de supostamente darem apoio à sua opinião? Isso é desonestidade!
     Mas continuemos falando da bíblia. Ela relata Jesus ensinando a uma mulher que a adoração a Deus não é definida por lugares sagrados (“nem no templo, nem no monte”) e sim, pela intenção do coração (“em espírito e em verdade”). Mas hoje as pessoas querem diferenciar músicas para serem cantadas nos “cultos” de músicas que até podem ser cantadas/ouvidas, mas só fora da “igreja”. Repare ainda no conteúdo das músicas entoadas nesses cultos, pois rejeitam qualquer música que não seja declaradamente sacra, mas cantam músicas religiosas repugnantes, egoístas e vingativas, como a famosa “Sabor de Mel”. Essas pessoas rejeitam uma música secular que fala de amor, perdão, bondade e gratidão, mas não tem nenhum problema ao lerem nesses cultos alguns textos bíblicos que falam de vingança, de extermínio praticado em nome de Deus e até de estraçalhar criancinhas nas pedras (como o salmo 137). Alguns alegam, ao defender esse tipo de absurdo: “Ah, mas essa era apenas a sincera expressão da alma do salmista e não vamos segui-lo nessa questão”. Certo, então porque você não aceita o mesmo argumento para as canções, assumindo que as músicas seculares também podem refletir a sincera alma do compositor (e geralmente nem chegam a esse nível de desejo vingativo)?
     Mas já que me propus a falar aqui especialmente para os extremamente conservadores, continuemos com argumentos bíblicos. Você fala tanto de Paulo, até o idolatra (embora não assuma), mas parece não ter entendido o ensino desse apóstolo registrado em Gálatas 1:8. Lá ele é claro: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.” O que isso quer dizer? Que não importa quem leve uma mensagem, não é para ninguém apoiá-la só por acreditar no mensageiro. É para as pessoas avaliarem o conteúdo, pois se esse conteúdo não for bom, não importa se o mensageiro é ele mesmo ou um anjo do céu, é para rejeitarem prontamente o que foi dito. Em outras palavras, Paulo diz: “julgue o conteúdo e não, o frasco”. E é exatamente o oposto do ensino paulino que muitas pessoas defendem, pois ao invés de julgarem o conteúdo de cada música, elas analisam se o autor é cristão ou não, se a música é gospel ou secular. E assim prosseguem, rejeitando músicas maravilhosas, de uma riqueza cultural e aceitando verdadeiros lixos vocais (sendo sincero) cantados em nome de Deus.
     Então deixe de bobagens, meus caros. Parem com essa mania de dividir as músicas de acordo com seu compositor ou com o meio em que é mais cantada. Deixe também de idolatrar o local em que se reúne com seus irmãos, pois todo o culto cristão, os templos e a liturgia surgiram séculos depois de Jesus. Não queira usar a bíblia de forma desonesta para defender essa mentalidade. Se for querer bíblia mesmo, nem apoio para as músicas instrumentais que você tanto gosta conseguirá no Novo Testamento. “Ah, mas eu prefiro as músicas antigas, dos hinários tradicionais”. Muito bem, cada um tem um gosto e há músicas muito belas neles realmente (assim como há algumas bem ruins). Mas saiba então que a maioria das melodias das músicas desse hinário que você diz ser “de Deus” foram tiradas de músicas não religiosas. Nunca reparou que as mesmas melodias que encontra no Cantor Cristão ou Harpa Cristã são hinos nacionais de alguns países? Por exemplo, compare, na Harpa Cristã: música 212 com hino nacional das ilhas Fiji; música 40 com o hino da Alemanha; música 185 ou 513 com o hino da Inglaterra. Vai dizer que nunca ouviu a música 123 do mesmo hinário em episódios do desenho do Pica-Pau? Entenda: boa parte das músicas dos nossos tradicionais hinários tiveram suas melodias criadas muito tempo antes de receberem essas letras religiosas, sem nenhuma intenção inicial de que fossem músicas sacras. Mas aí você apoia ingenuamente ou hipocritamente...

     E quanto aos ritmos?
     Outra coisa absurda que ocorre no meio cristão é a rejeição (demonização) de alguns ritmos musicais, principalmente o Rock (pois ficou marcado negativamente no meio cristão na época do "Sexo, drogas e Rock'n roll"), o samba (por sua associação com o carnaval) e o funk (por ser associado aos bailes "proibidões", que fazem apologia ao sexo irresponsável e às drogas). Mas o que o ritmo, em si, tem a ver com o mau uso dele? O ritmo nada mais é do que uma batida característica na marcação dos tempos de um compasso na música. Pense no ritmo (ou na música como um todo) como uma faca: pode ser usada para cortar um alimento ou para matar. O problema é a faca ou quem a usa? O mesmo vale para qualquer estilo musical. Em todo estilo há músicas com letras maravilhosas e com letras ruins (reconheço que alguns ritmos tem raríssimas boas letras, mas é só um compositor se propor a fazer uma letra boa que o problema se resolve). O ritmo é mera questão de gosto, sendo que cada um tem suas preferências. Eu gosto de alguns ritmos e não gosto de outros. Alguns estilos musicais me fazem tampar os ouvidos, mas porque me estressam, me irritam, não suporto ouvir muito. Porém não tenho a ideia de que são "do diabo", "do mundo" ou ruins em si. É como o repolho: alguns gostam, mas outros não suportam nem o cheiro.
     Já vi a tola alegação: "Se alguns desses ritmos fossem 'de Deus' não teria tanta gente saindo de igrejas que os adotam". Essas pessoas criticam a adoção de alguns ritmos nos "cultos", pois enquanto atraem algumas pessoas (como jovens), espantam outros (alguns dos mais idosos). Isso, para eles, é evidência de que Deus não aprova. Mas se isso for verdadeiro, precisamos reconhecer que devemos abandonar o cristianismo e começarmos todos adorar a Alá, pois ele é o Deus verdadeiro, já que o Islã cresce muito mais que o cristianismo e em 2050, seguindo essa tendência, serão maioria no mundo. Sem contar que esse pensamento (de que chegam tantas pessoas quanto saem nessas igrejas) desconsidera qualquer contexto sociocultural, assumindo que o que ocorre em uma igreja de periferia do interior de um estado pouco desenvolvido é o que ocorre em um bairro nobre de uma grande metrópole de um estado mais desenvolvido. Distorção ingênua ou maldosa.
     Podemos ter um rock com boas letras e com letras repugnantes; podemos ter funk com boas letras ou com letras nojentas. O mesmo vale para o samba, para o pagode, para o Country, para o rap ou para qualquer outro ritmo. A culpa é do ritmo ou da letra? Quer dizer que se eu pegar a mais bela canção cristã e usar um ritmo desses que o fundamentalismo cristão abomina, terei destruído a música? Será que não estamos confundindo nossos gostos pessoais com "aprovação divina"? Será que não enxergam a contradição em pensar assim e depois no domingo a noite cair no "reteté" ao ouvir uma "forrozinho gospel" na igreja? Vai dizer que não tinha se dado conta de que quase toda música usada nos meios pentecostais para esse fim tem esse ritmo? E qual a origem do forró? Adianto que não é a "igreja". E a música "Adagio in C minor" que muitos pregadores adoram usar como fundo para suas mensagens, pois tem um efeito incrível na emoção do ouvinte? O que ela tem de "gospel"?
     Deus não criou ritmo nenhum, obviamente. Essas variações musicais são criações humanas, amorais (nem boas, nem más, em essência) mas que podem ser usadas para o bem ou para o mal. Mas alguns insistem na tola ideia de que "Deus aprova só ritmos que 'nasceram dentro da igreja'"? Qual o fundamento disso? Então porque essas mesmas pessoas não condenam o uso de alianças, de calças jeans, de vários pontos das cerimônias de casamento e da presença de templos religiosos, se nada disso nasceu no cristianismo (e nem no judaísmo)? Tudo isso tem origem "pagã", mas aí, como convém, fazem vista grossa? 
     Vale a pena registrar essas duas citações de Hermes C. Fernandes:

“Não há música profana! O que há são músicas profanadas. Usar a música para estimular sentimentos perversos no coração humano é profanar uma das mais sagradas artes.”

“Em vez de ficar ouvindo discos de trás pra frente em busca de mensagens subliminares, deveríamos ouvi-los com o coração tomado de compaixão, buscando compreender o que de fato essas almas humanas tentam comunicar nas entrelinhas de sua arte.”

     Para concluir, constato o óbvio: esse conflito entre “música religiosa” e “música secular” não era nem para existir, pois é algo infantil e irracional. Deveríamos questionar não a origem da música, se ela foi composta por um cristão ou não, se surgiu com o intuito de ser cantada em um templo religioso ou não. Deveríamos avaliar seu conteúdo e analisar se ela é boa ou não; se exalta a paz, o amor, a bondade, ou não; se é a sincera expressão de uma alma humana, feliz, triste, angustiada, carente ou se é um egoísta desejo de vingança “em nome de Deus”. Assim, com esse critério, não seríamos fãs de muitas músicas ditas seculares, pois exaltam a traição, a mentira, o crime... Também rejeitaríamos muitas músicas ditas gospel ou cristãs, pois são totalmente incompatíveis com a essência da mensagem cristã. E o oposto também é verdadeiro, ouviríamos e cantaríamos muitas músicas que nunca tiveram o objetivo principal de ser cantada a Deus, mas que seu conteúdo é coerente com os ensinos de Jesus e também continuaríamos ouvindo e entoando muitas canções cristãs, que são realmente belíssimas. Em todo meio, “pagão” ou cristão, há coisas boas e ruins. Uma espiritualidade que é baseada em uma listinha de regras, com proibições e permissões, dividindo a existência em coisas de Deus e coisas do diabo, é algo doentio. Precisamos de maturidade, sair dessa infantilidade mental e desenvolver nossa consciência. Precisamos avaliar tudo e reter o que é bom. Se você vai cantar ou tocar uma música gospel ou secular, não faz diferença, desde que o conteúdo de ambas seja bom;  se vai cantar ou tocar essa música na sua casa, numa reunião de amigos ou na sua “igreja”, também não faz diferença, a menos que não tenha entendido ainda que se tem um altar a Deus não é o púlpito do templo religioso e sim, a sua vida. Deixem essa mentalidade legalista e supersticiosa, pessoal. E se tem ainda essa mentalidade moldada dessa forma irracional, não julgue aqueles que já entenderam o óbvio e que não pensam como você. Faça o que sua consciência lhe diz e não queira moldar a mente dos outros pela sua. Se conseguir entender pelo menos isso, já terá valido a pena ter escrito este texto.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
Atualizado em 26/01/2015

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