26 de jan de 2016

O desespero conservador para explicar contradições bíblicas


     Tem gente que reclama quando critico o conservadorismo teológico cristão, mas tem coisa mais tola do que essa vertente (com todo respeito às pessoas que ela seguem, mas sem respeito nenhum a essa ideia)? Primeiro os conservadores vem com a premissa (infundada, infantil, insustentável para qualquer pessoa que tem a mínima noção de formação do Canon bíblico e que é sincera, sem deturpação em prol da manutenção de uma "confissão de fé" denominacional) de que a bíblia é a Palavra de Deus e portanto, inerrante em todos os sentidos. Aí, diante de uma divergência nítida entre dois, três ou quatro autores bíblicos, fazem um malabarismo exegético/hermenêutico (uma manobra desonesta, sem compromisso histórico nenhum) a fim de conciliar o inconciliável. Não é incomum encontrarmos sites, artigos, apostilas e até livros de fundamentalistas tentando harmonizar textos que qualquer pessoa de bom senso sabe que são diferentes entre si por razões óbvias. Não tem como entender a bíblia, saber o que ela é, como se formou e honestamente e de forma racional defender a conciliação do inconciliável.
     Exemplos não faltam. Poderia falar de diferenças de relatos na bíblia hebraica (Antigo Testamento), mas que tal a nítida divergência entre os evangelhos quanto a morte de Judas? No evangelho de Mateus é dito que Judas jogou no templo as moedas que recebeu para denunciar Jesus e depois enforcou-se. Em Atos (cujo autor deve ser o mesmo escritor do Evangelho de Lucas) lemos que Judas comprou um terreno com o dinheiro arrecadado iniquamente e lá teve uma queda violenta, sendo seu corpo aberto. Não é mais simples reconhecer o óbvio? Que os dois autores divergiam quanto à morte de Judas, sendo que um achava que ele morreu enforcado e outro, que morreu em uma queda? Mas o que os conservadores fazem? Como partem do pressuposto de que a bíblia é uniforme (como se ela tivesse caído pronta do céu, sem contexto, sem processo complexo de formação e compilação, sem presença de elementos e divergências humanas nela...) e de que nela não pode haver nenhum conflito, dizem que Judas se enforcou no alto de um precipício e após morrer, seu corpo caiu e lá embaixo foi despedaçado. Tenho que reconhecer a criatividade...
     Outro conflito: quem estaria no túmulo de Jesus? Segundo o escritor do evangelho de Mateus, era um anjo; segundo o de Marcos, um homem. Segundo o de Lucas, dois homens; segundo o de João, dois anjos. Nitidamente pensavam diferente sobre o mesmo evento. O que muitos fazem? Tentam uma forma de conciliar tudo. Dizem que então João descreveu a essência, pois eram realmente dois anjos. Explicam que alguns, como Lucas, diziam que eram homens, pois estavam em forma humana e quando Marcos diz que tinha um homem, não quer dizer que não poderiam ter dois ali (ele só estaria focando em um). Realmente uma suposição que acaba com o conflito...
     E o relato da cura do cego Bartimeu? Marcos, o evangelho mais antigo, cita que Jesus curou um cego, cujo nome era Bartimeu; Mateus, o segundo evangelho a ser escrito, que aparentemente se baseou em Marcos em boa parte do livro, menciona dois cegos (anônimos); Lucas, que também tomou Marcos como base para boa parte do livro, diz que foi um cego apenas (anônimo). E para demonstrar ainda mais a diferença entre os relatos, Mateus e Marcos dizem que a cura foi feita por Jesus ao sair de Jericó, enquanto Lucas a descreve quando se aproximava de Jericó. Qualquer pessoa, usando a razão, dirá que Mateus (na questão do número de cegos) ou Lucas (na questão do local) discordava dos demais evangelistas, mas como os que adotam essas premissas conservadoras não podem assumir esse conflito, criam uma genial saída: Em relação ao número de cegos, eram dois, mas Marcos e Lucas citam só um porque ao dizer que curou um cego não quer dizer que não tenha curado dois. E em relação ao local da cura dizem que havia naqueles dias duas cidades de Jericó e Jesus pode ter curado os cegos enquanto saía de uma, e isso significava também que se aproximava da outra. Uma explicação que demonstra uma mente fértil, mas convenhamos, não muito provável... Pensei em falar ainda sobre a questão de ver ou não Deus face a face; da ida (ou não) dos discípulos para a Galileia após a morte de Jesus; das diferentes interpretações de autores bíblicos em relação ao sofrimento, mas este comentário ficaria muito extenso. Em outro texto aprofundamos na questão das contradições bíblicas e discutimos pontos como a "inerrância".
     O que o conservadorismo teológico faz? Sem nenhum escrúpulo e com nenhum compromisso com o fato histórico, cria um terceiro relato (sem base alguma) a fim de que dois relatos divergentes possam ser harmonizados. Ou seja: não aceita que algo ali na bíblia possa estar equivocado, mas não tem problema nenhum em inventar um relato extra (sem apoio em nenhum dos evangelhos) a fim de dizer que isso é o que a "bíblia diz" (sendo que ela nem insinua isso). Inventam um evangelho próprio, que é criação de uma história fictícia de conciliação entre os quatro evangelhos canônicos (somados a outros livros que possam ter relação com o assunto) para que esse "evangelho virtual" seja o retrato histórico dos eventos. Esse tipo de abordagem ilógica também não tem dificuldades em dar uma interpretação pouco provável para algo, a fim de parecer que todos os relatos são uniformes. Ignoram a probabilidade maior (por exemplo: dos escritores pensarem diferente por serem pessoas de diferentes regiões, que escreveram os evangelhos com diferentes motivações e em diferentes épocas, tomando como base diferentes tradições e escritos...) e adotam algo bem menos provável. O que fazem é semelhante a um marido que deixa seus óculos sobre a mesa da cozinha e quando vai pegá-lo repara que ele não está mais lá. O que é mais provável? Como só mora ele e a esposa na casa, a esposa deve ter guardado em outro local. Mas ele prefere achar que um anjo desceu do céu para esconder seus óculos a fim de que ele não leia algo que lhe fará mal. Pode ser essa última explicação a representação do ocorrido? Até pode. Quem sou eu pra dizer que algo é impossível. Mas é provável? Não! Alguma pessoa que usa a razão vai apostar nessa explicação? Não! Então por que quando se fala em um ou outro relato bíblico escolhemos deixar a razão e as evidências de lado e adotamos explicações como essas, bem menos prováveis que outras? Entende?
     Esses conservadores criam algumas premissas e depois precisam abrir mão da razão e do bom senso para sustentá-las. Tem certeza que acha isso válido? Eu acho, na melhor das hipóteses, ingênuo; na pior (ou na real), desonesto e manipulador. Mas você escolhe como irá pensar.

     Obs: se você tem dúvidas quanto ás orientações teológicas (fundamentalismo, conservadorismo, liberalismo), recomendo que leia este estudo:
1º passo: Orientações teológicas e teologias

Por: Wésley de Sousa Câmara
26/01/2016

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