30 de jan de 2016

Ritmos musicais que nos fazem "sentir Deus"


     Quem nunca ouviu alguém defender a ideia de que uma mesma música pode agradar a Deus (ou servir para adorá-lo) ou desagradá-lo, dependendo do ritmo que é cantada ou tocada? O argumento é que alguns ritmos "de Deus" (calmos) nos fazem chorar, atraem a presença de Deus e sobem aos céus como aroma suave, enquanto um ritmo associado ao "mundanismo" (leia-se rock, funk, mpb, bossa nova, hip hop...) é ignorado ou condenado por Deus e a evidência é que as pessoas no máximo mexem o corpo, mas a alma continua a mesma. Talvez uma olhada superficial nesse tipo de argumento, para o público leigo, possa parecer coerente, mas é algo totalmente equivocado. Repare que essa explicação compara diferentes ritmos, apelando para a emoção sentida pela plateia (membros da "igreja"). Já tive a oportunidade de realizar um trabalho sobre musicoterapia no primeiro período da faculdade de Medicina, quando estava em Ouro Preto, que foi motivado por eu ser músico desde os 8 anos de idade. O que concluí (e que não é nenhuma novidade - sabemos disso há séculos) e que depois pude comprovar na prática: a música tem efeitos no nosso organismo e esses efeitos variam de acordo com o nosso contexto e, principalmente, com o ritmo da música. A melodia e harmonia são importantes? Claro que sim, mas o ritmo (claro que associado aos anteriores) é quem tem o papel principal.
     A música mexe com nossas emoções e esse resultado está condicionado ao perfil de cada um, aos gostos musicais, mas via de regra, se você está estressado, cansado, basta ouvir músicas consideradas relaxantes. Essas músicas serão lentas, com uso de instrumentos de sons mais suaves (flauta, violino, Cello...). Você ficará calmo, relaxado e até pegará no sono depois de um tempo; se você deseja uma música que traga uma sensação de romantismo para um jantar coma pessoa amada, um saxofone tocando uma música mais calma, com um timbre mais "leve", terá esse efeito; se está desanimado e quer uma força extra para realizar as atividades do dia a dia, não colocará essas músicas relaxantes e sim, algo com um ritmo mais acelerado, com batidas mais acentuadas. E aí não faltarão opções musicais, dependendo de seu gosto; se vai estudar ou se deseja melhorar a concentração enquanto lê um livro, pode colocar, em volume baixo, algumas músicas clássicas, instrumentais...
     Mas fico até constrangido ao ver esses argumentos infundados que citei lá no início, como se aquelas músicas que lhe deixa "sensível", que toca suas emoções, diminuindo seu limiar de choro, deixando-o mais emotivo, fosse sinônimo de "ligação do homem com Deus". O problema todo é essa espiritualidade cristã rasa (e predominante atualmente), em que as pessoas confundem "emoção" com "agir de Deus" ou com "o Espírito de Deus falando". As pessoas vão a um culto ao domingo, por exemplo, e lá, durante uma música calma, um começa a chorar aqui, outro ali e pelo ambiente estar propício (um sugestionamento mental facilmente explicável psicologicamente, mas que para a maioria que desconhece é sinal de "sobrenaturalidade" - lembrando que há alguns séculos até um raio que caía era interpretado como a fúria divina), logo o culto é interrompido diante de uma emoção (quando não vira "histeria") coletiva. E o que dizem? "Deus está aqui passeando entre nós". Mas continuando: Então o pastor começa a pregar ou uma pessoa resolve dar um testemunho de um milagre que recebeu. Em pouco tempo todos estão emocionados, chorando e talvez pulando/gritando. A emoção coletiva aflorada é vista como "Deus recebeu o testemunho/pregação e agiu na igreja toda".
     Quando a emoção é usada para validar essa suposta ação divina, geramos todo tipo de confusão. As pessoas deveriam ser menos antropocêntricas, diferenciando a "emoção" da "razão". Sem essa de "sentir Deus", pois seu sentir tem a ver com seu estado psicológico e não, com Deus. Sua fé deveria ser assim: "Se Deus está comigo, se o Espírito dEle habita em mim, eu sentindo ou não, estou pacificado pois Ele está comigo". Do contrário, quando se sentir triste, sozinho, achará que está abandonado por Ele, vai facilitar o surgimento de uma depressão e sua "fé" terá sido um gatilho para uma doença. Poxa, não é a bíblia que você lê nos cultos? Então deveria entender que o "sentir" (as emoções humanas) não deveria ser o que valida a presença ou ausência divina, pois o profeta (que você tanto cita) disse: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas" (Jeremias 17).
     Mas voltando ao assunto inicial:
     Uma mesma música pode ser recebida de forma diferente pelo público, de acordo com a forma que é executada. Isso não tem a ver com Deus; tem a ver com o homem, com a capacidade daquela música naquele "estilo" gerar determinado efeito no cérebro humano. Quando você liga em algum lugar em que terá que ficar longo tempo na espera, ouvirá propagandas ou uma música calma, relaxante. Nenhuma empresa colocará um rock pesado, pois esse ritmo não é relaxante e o deixará mais estressado para falar com o atendente. O mesmo vale para a espera em um consultório médico. Lá você ouvirá uma orquestra sinfônica, Beethoven, Mozart, Kenny G e não, algum Mc (cantor de funk) ou um rock de Black Sabbath.
     Fico pensando: se a questão é ficar emotivo, relaxado, tendo predisposição para fechar os olhos e imaginar com calma sua conexão com Deus durante a música, como ficam as músicas tradicionais de igrejas pentecostais, que são muito baseadas em marchas (quem nunca ouviu uma banda tocando o tradicional "Os guerreiros se preparam para a grande luta"?). Então também não são músicas de "adoração" (nome que você usa para "emoção"), nesse seu raciocínio, certo? E quem nunca viu a famosa música Adagio in C minor, de Yanni, como fundo de alguma mensagem em um culto? A música nem cristã é, mas ela é um exemplo típico de arranjo que toca as emoções do ouvinte, tornando-o mais receptivo e sugestionado ao que será falado. A mensagem do "pregador" pode ser até ruim, mas se tiver o Yanni de fundo, difícil é não chorar e depois interpretar o choro como ação do Espírito. Não é a toa que tantos animadores de púlpitos a usam. E os forrós usados para começar um "reteté"? Ah, mas aí você diz que pode...
     Enquanto essa espiritualidade baseada em emoção existir e enquanto as pessoas acharem que adoração é cantar musiquinhas com as mãos pro alto aos domingos (em vez de ser uma vida de gratidão e de busca incessante de ser como Jesus), teremos essas visões deturpadas e infantis.

Autor: Wésley de Sousa Câmara 
30/01/2016

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