20 de fev de 2016

A vida é feita de escolhas. Será?


     Mais ou menos. A questão maior não é a escolha, mas o que levou a ela e quais opções estavam disponíveis. Então vamos comparar as opções que tiveram na infância o garotinho sem pai que nasceu na favela da rocinha, cuja mãe ganhava 500 reais pra alimentar 5 crianças, tendo o menino que vender bala no semáforo para ajudar e algo. Ao lado dele há traficantes com vida fácil....
     Do outro lado da cidade havia um garotinho cujo pai é um famoso jogador de futebol, que tem tudo o que quer e o até que não quer, que estuda na melhor escola do país e que não tem contato direto com traficantes ou pessoas consideradas "más". Compare os dois cenários e seja sincero: continuará dizendo que todos têm as mesmas opções de escolha na vida? É fácil dizer isso quando estamos do lado de fora ou no lado "bom" da história.
     Salvo raríssimas exceções, nós não somos pessoas que na infância vivíamos nessas condições sub-humanas. Há algumas semanas vi uma reportagem na TV Record sobre crianças arriscando a vida para vender um pote de palmito por 2 reais. Alguns, diante disso, sem saber ler e escrever aos 14 anos apelam para pequenos furtos. Meninas de 7 ou 8 anos de idade, sem ter o que comer em casa, entram nos barcos oferecendo sexo a menos de 5 reais. Isso tudo é Brasil, no estado do Pará.
     Para cada um de nós falar "de fora" é bem mais fácil. É simples condenar quando já passamos dessa fase ou quando nunca fomos expostos a isso. Claro que a miséria não é determinante para alguém ir pro crime, mas não posso querer comparar a "tentação" que sofri para entrar nesse mundo com a tentação dessas crianças. Assim como é fácil pra eu condenar uma senhora que rouba um pacote de macarrão, já que meu estômago está cheio e não tenho um filho no meu colo morrendo de fome.
     E mais: nós partimos do pressuposto injusto de que as crianças de favela tem o mesmo nível de criticidade (pra decidir o que querem da vida) de uma criança de escola particular, de família estruturada. A educação é fundamental já para a escolha da criança (de seguir uma vida digna ou de entrar para o crime). A escolha não é a origem do problema e sim, consequência de um problema que antecede isso tudo. Nós estamos focando, no caso dos meninos de famílias miseráveis, justamente de quem tem, isso quando tem, acesso a uma educação de péssima qualidade.
     Meus pais já passaram fome (eu não, felizmente). Durante a gestação, em boa parte dela, minha mãe comia arroz com farinha de milho e pra engolir tomava água. Era o que tinha na época. Mas eu não cresci num ambiente de miséria (as coisas melhoraram um pouco depois); não cresci cercado por marginais que ficavam todos os dias me tentando a largar tudo e ir paro crime ganhar muito dinheiro para não sofrer como meus pais. Não fui forçado a sair da escola. Não tinha uma família desestabilizada. Meus amiguinhos não estavam caindo no mundo do crack. Sabemos que a infância e início da adolescência é um período crítico de formação de personalidade, de caráter, além do fator genético, é claro, que influencia no processo. Com 18 ou 20 anos todos somos homens/mulheres formados para fazer escolhas maduras, mas estamos aqui falando de menores infratores, certo? Falo de crianças de seus 10, 12 ou 14 anos. A questão não são meramente as escolhas corretas e sim, colocar na balança tudo o que nos ajuda ou nos atrapalha a fazer a escolha correta e quais escolhas temos em mãos. 
     Mas como disse anteriormente: não estou falando de um caso ou de exceções (alguém ser ou conhecer um caso de uma crianças que cresceu assim e se tornou "pessoa de bem" não valida o todo). Falo epidemiologicamente, estatisticamente e não vejo como honestamente negar que um "filhinho de papai" é muito menos tentado a entrar para o mundo do crime do que um garoto pobre, que por sua vez é menos tentado do que um miserável que vive em um centro urbano, vendo todo dia seus amigos mergulhados no crack, nos furtos e cuja única perspectiva (já que não tem educação de qualidade, lazer e boas condições de vida) de ser bem sucedido é começar como "laranja" no tráfico, cometer crimes para ganhar o respeito da região e um dia tornar-se um chefe do tráfico ou de quadrilha.
     E depois me perguntam porque rejeito veementemente essa ideia da direita brasileira (amigos "bolsonaretes", me desculpem) de querer ser raso na análise e propor soluções que tratam o sintoma, mas não a origem da doença. Mas vou parar de escrever por aqui? Sim. Isso foi só para você parar pra refletir nas premissas que usa para condenar as pessoas. Daqui pra frente, a reflexão é sua. 

Autor: Wésley de Sousa Câmara
20/02/2016

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