7 de fev de 2016

Carnaval faz mal ou é amoral?


     O Carnaval é uma festa que tem muito destaque no Brasil, mas que gera um incômodo muito grande para a maioria dos cristãos. Como muitos questionam se um cristão poderia aproveitar essa celebração de alguma forma, quero aqui tecer um breve comentário, não no intuito de convencer ninguém de nada, mas de refletir principalmente nos argumentos que ouço em relação a isso nessa época.
     Primeiramente vale contextualizar: o Carnaval parece ter origem grega, como uma festa de celebração à fertilidade e produção agrícola, tendo também relação com o deus grego Dionísio (deus do vinho), muito associado às festas, diversão e prazeres materiais. No final do século VI da nossa era a Igreja Católica adota a celebração, tornando-a uma festa de liberdade à diversão e à alegria. No século XVI é oficializado como uma festa popular, sendo posteriormente sua data relacionada à Páscoa. Devido ao processo de colonização europeia, claro que o Brasil também absorveu essa festa e ao que parece, no século XIX começaram as grandes celebrações de Carnaval em nosso país.
     É bom dizer que o Carnaval não é uma festa uniforme. Cada região, cada época, tem suas peculiaridades e formas de celebração. Há décadas, o que mais ocorriam eram festas de ruas, familiares, em que as pessoas se reuniam em blocos, desde crianças até idosos. Em alguns lugares, com o tempo, essa festa foi adquirindo outras características. Ultimamente, quando se fala em Carnaval, a maioria das pessoas pensa imediatamente em bebidas, mulheres seminuas e sexo fácil, embora nem sempre isso seja um retrato fiel da festa. Por exemplo: compare o Carnaval de Olinda, de Salvador, de Ouro Preto, do Rio de Janeiro e de uma cidade do interior. São completamente diferentes. Em alguns o que se vê é desfile de escolas de samba, com mulheres seminuas em destaque, retratando momentos ou personagens históricos do país; em outros, trios elétricos guiam multidões ao som de axé; há ainda os bailes de máscaras em salões, os blocos de rua com fantasias, os desfiles com marchinhas e bonecos...
     Com tanta diversidade fica difícil falar sobre o Carnaval como um todo. Há festas aparentemente inofensivas, saudáveis, com clima familiar; há outras em que só vemos imoralidades, pessoas embriagadas ou fora de si por consumo de outras drogas, desrespeitando as mulheres e promovendo violência. Então, penso que em vez de colocar o Carnaval em um mesmo pacote e julgar (e aqui uso no sentido equivocado popular de “condenar”) todo tipo de festa nessa época, use a racionalidade que Deus lhe deu. O problema é a velha e tola questão: “Isso é pecado”? Para quem não sabe ainda discernir o que é pecado e como isso interfere em sua vida,recomendo que leia este estudo completo: PECADO - estudo completo. A questão não é se é pecado ou não e sim, se convém ou não. E isso cabe somente a você responder, pois a consciência é algo individual. “Cada um analise a si mesmo”. Em vez de aceitar ou rejeitar o Carnaval como um todo, sugiro que sempre questione: “Que tipo de Carnaval? Essa festa envolve o que? Como é celebrada?” Afinal, como posso colocar no mesmo pacote, por exemplo, as duas festas abaixo:


1 - uma festa familiar, com as pessoas da família e amigos próximos fazendo um churrasco, usando máscaras ou algumas fantasias e adereços, conversando, rindo, brincando e se divertindo ao som de boas músicas.



2 – Uma festa aberta a todo tipo de droga, violência, abusos sexuais inclusive de menores, ao som de músicas que fazem apologia a crimes.


     Percebe a diferença? Ambas podem ser chamadas de festa de carnaval, mas não possuem nada em comum, além da data de realização. É aquilo que sempre digo: julgue o perfume e não, o frasco. Da mesma forma que deve avaliar uma mensagem, ao invés do mensageiro; a letra da música, ao invés de seu compositor; o conteúdo do livro, ao invés da capa e do autor...
     Se alguém me convidar para uma festa como a primeira citada, se eu estiver sem compromisso, irei com todo prazer; se alguém me convidar para a segunda, rejeitarei prontamente, pois não vejo nada lá que acrescente algo em minha vida, além dos nítidos riscos; se eu for convidado para alguma festa que ficaria entre esses dois polos, avaliaria se seria positivo ou não eu ir. Não tem a ver com fé, com religião, com pecado (repito, se tem dúvidas quanto a isso, leia o texto do link que sugeri acima), com salvação... Tem a ver com bom senso, com responsabilidade e com juízo. Infelizmente a maioria das pessoas segue uma lista de regras (de proibições) e rejeitam qualquer coisa que lembre ou que se relacione com o carnaval, por ser uma suposta “festa da carne”. Elas abre mão do uso da razão. Não entendem que um discípulo de Jesus deveria ser guiado não por regras exteriores, mas por consciência, por amor, por equilíbrio, por mansidão. É uma imaturidade mental que as impede de soltar as rédeas religiosas e a viverem por si mesmas, tendo um parâmetro, uma referência para seguir. Sentem-se inseguras, ficam sem chão quando deixam de seguir uma cartilha pronta, as ordens de um líder, que diz em detalhes tudo o que ela deve fazer ou rejeitar. É como uma criança que nunca larga a mamadeira e as fraldas. Ao invés de discernir em tudo na vida o que é bom e mau, o que traz vida e o que gera danos, o que convém ou não, ela quer uma garantia de que algo é “de Deus”ou “do diabo”. E assim faz julgamentos rasos, tolos. Tudo o que tem a ver com carnaval, para essa pessoa é demoníaco e tudo o que tem a ver com “igreja”, é obra de Deus, mesmo que o evento religioso seja recheado de absurdos, emocionalismos, manipulações e estelionatos.
     Eu poderia aqui ficar citando versículos bíblicos sem parar, mas luto contra essa mentalidade, pois citar um trecho da bíblia após cada afirmação não valida o que estou dizendo. No relato da tentação de Jesus no deserto, lembra que Satanás não parava de citar as escrituras? E nem por isso ele estava com a razão. O que quero é que você tenha maturidade e consciência para avaliar o que é dito e pensar, sem precisar de versículos para aceitar ou rejeitar algo.
     Voltando ao assunto, muitas pessoas, enquanto rejeitam o carnaval, tem a mente e o coração conduzidos pela “carne”. São avarentos, caloteiros, briguentos, mal educados, não dão carinho e amor à família, não estendem as mãos ao necessitado, condenam todos os que são diferentes deles... Mas os tais acham que são santos por estarem, durante o Carnaval, em um “retiro espiritual”. Veja o nível da incapacidade de uso da razão. Dão evidências a todo momento dos frutos da carne em suas relações cotidianas, mas “carne” para eles é qualquer celebração na época do carnaval.
     E já que falei em “retiros”, considero tolices como tudo o que criam na versão gospel. Explico: criam festas juninas gospel, Halloween gospel, shows gospel, carnaval gospel... Na verdade, querem a festa original, diversão com os amigos que chamam de “do mundo”, mas como são proibidos pela “igreja” ou como ficam com medo e culpados (“é pecado”, “Deus me castiga”, “perco a salvação”, “o pastor me pune”, “o pessoal da igreja me julga”...), criam os seus próprios eventos, na versão “santa”, só para cristãos. Outra vezes esses retiros são meras estratégias para tirar os jovens da exposição ao carnaval, como se isso resolvesse. Lembra de João 17? “Pai, não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal”. Essa é a ideia. Precisamos, em vez de afastar as pessoas de algo ruim, ensiná-las a viver diante de tudo isso. O mundo atual é repleto de coisas boas e coisas degradantes. Todos precisam de maturidade para saber lidar com cada situação e não é tirando a pessoa da realidade que ela aprenderá a se portar adequadamente. Você faz um retiro com os jovens, mas e quando ele retornar? Será que o mundo será uma mil maravilhas? Será que ele não será exposto em algum momento a ofertas libertinas? Isso é tampar o sol com uma peneira e alimentar uma imaturidade mental nas moças e rapazes. Ao invés de usar a consciência, o juízo, assumir responsabilidades, essas pessoas aprendem a se isolar do mundo, a não avaliar o que é bom, o que edifica. Elas recebem tudo pronto, de acordo com o que o seu líder julga conveniente. E assim elas permanecem, querendo um aval bíblico, religioso pra tudo. Não querem usar a razão, a mente, o bom senso e o discernimento. A alienação é tamanha que quando alguém diz coisas óbvias como essas, os tais se revoltam, acham absurdo não seguir a cartilha, as tradições, os clichês. Convidar a pessoa a usar a razão, para ela é uma afronta, uma blasfêmia, uma falta de fé, uma carnalidade. É a situação crítica e infantil do nosso cristianismo.
     Quem pensa assim não deve ter entendido a mensagem de Jesus, que frequentava festas, que comia de tudo e que andava com os pecadores. Ele não vivia em uma “bolha”, como os fundamentalistas cristãos querem que vivamos. Afinal, se fosse assim, como Jesus nos ensinaria a ser sal e luz? Se for pra viver e se alegrar apenas entre os meus “irmãos”, seremos sal no saleiro e um sal insípido. Pra que isso serviria? Essa alienação cristã só mostra que estamos sendo luzes embaixo da cama. Luz é para iluminar o mundo! Jesus nunca proibiu ninguém de participar de nenhuma festa. Também nunca criou nenhuma festa (nem pense em citar “Santa Ceia/Eucaristia”, pois o contexto não é esse – falamos aqui de lazer, diversão) restrita aos seus seguidores. Pelo contrário, Ele levava seus discípulos para as celebrações existentes. Deixe de criar segregação e de dividir as pessoas em "guetos".
     Há os que berram: “O carnaval é uma festa pagã, por isso deve ser rejeitada”. A esses eu respondo: muitas coisas que usamos ou fazemos atualmente tem origem pagã. Onde fica a imparcialidade? Se condenarmos tudo que tem essa origem, devemos abolir os templos religiosos (provável origem suméria), as alianças de casamento (origem hindu ou egípcia), as maquiagens (origem no Egito Antigo)... Sem falar nas celebrações de dia dos namorados, nas cerimônias de casamento, nos vestidos de noiva e no próprio cristianismo, que foi institucionalizado como religião romana apenas no quarto século, de forma que o sincretismo com outras religiões da época é evidente. Ou quem sabe deveríamos abandonar o nosso calendário (que é solar e que foi usado inicialmente pelos egípcios, depois alterado muitas vezes, inclusive pelos romanos. Você sabe que o mês de maio refere-se à deusa Maia? E que o mês de fevereiro refere-se ao deus Februarius, a quem os romanos ofereciam sacrifício pela expiação de seus pecados?). Rejeitar o Natal e aceitar o calendário gregoriano não me parece coerente. Poderia ainda citar a celebração de ano novo (Réveillon), que foi adotada por muitos povos antigos, sendo estabelecida em 1º de janeiro pelos romanos. Mas o fato de terem essa origem nos impede de adotarmos tais tradições? Não é porque um gato preto é sinal de má sorte para os supersticiosos que eu não possa ter um de estimação.
     A Páscoa, por exemplo, tem um significado para os cristãos, outro para os judeus e diversos outros para os demais povos. Algumas civilizações celebravam o fim do inverno e início da primavera no mesmo período (março). Mas o significado de cada evento depende da cultura em questão e, mais do que isso, da consciência de cada indivíduo. O dia 12 de outubro é dia de "Nossa Senhora Aparecida" para os católicos, mas para os evangélicos é apenas "Dia das Crianças". Percebe que a data tem a ver não com a origem e sim, com o significado que atribuem a ela em dado momento? Acho válido aqui deslocar de contexto uma frase do pastor batista Ed René Kivitz: "Na cultura religiosa o impuro contamina o puro. No ensino de Jesus o puro limpa o impuro." Realmente, os cristãos atuais tem uma espiritualidade ascética, baseada no “não toques, não pegues, não manuseies”, que é criticado na carta aos Colossenses.
     Há ainda quem diga: “No carnaval só vemos violência, drogas, gravidez indesejada e acidentes de trânsito, então a festa tem sim que ser condenada.” Se isso acontece (e algumas dessas coisas realmente ocorre bastante), será que a culpa é da festa em si ou das pessoas envolvidas? Veja: em todo aglomerado de pessoas, todo evento de grande porte, aumenta-se muito a o risco de violência, por fatores externos e psicológicos. Primeiramente, todo ajuntamento de gente que tem drogas (lícitas e ilícitas) sendo consumidas abundantemente, tem alto risco de terminar mal. O álcool, o êxtasy, a cocaína e outras drogas alteram a consciência e a capacidade de julgamento do indivíduo e isso é um facilitador para brigas e outros tipos de violência (física ou não). Também vale destacar os transtornos psicológicos, mentais (como transtornos de personalidade) que não são tão raros assim e que são evidenciados em ajuntamentos. Quem nunca viu pessoas que aparentemente são controladas, mas que quando estão no meio de uma “torcida organizada”, em um estádio de futebol, adoram se envolver em violências? É como um “instinto” primitivo, animal, que é aflorado quando está dentro de um “bando”. Por isso que vemos violência em quase todo aglomerado de pessoas.
     E os acidentes de trânsito? Em todo feriado prolongado temos um aumento significativo deles, não importando a época. Porque isso acontece? Pelo aumento do fluxo de veículos (quanto mais carros circulando, estatisticamente é óbvio que aumentarão os acidentes), pelos imprudentes que querem mostrar habilidades em alta velocidade, pelos irresponsáveis que dirigem embriagados, pelos menores que pegam no volante... É culpa da festa propriamente dita? O mesmo raciocínio aplica-se ao consumo de drogas, que aumenta quando pessoas se reúnem em dias de folga dos estudos ou do trabalho. Mas vale citar um possível mito, que é a velha história de que no carnaval há aumento das relações sexuais descompromissadas e desprotegidas, aumentando a incidência de doenças e de gravidez. Porém, um estudo brasileiro, realizado no Rio de Janeiro (uma dissertação de doutorado na Universidade Federal Fluminense - a qual conheço de perto, ou melhor, de dentro, e por isso confio), analisou se essa afirmação é verdadeira e aparentemente, é falsa. A pesquisa foi realizada de 1993 a 2005 no setor de doenças sexualmente transmissíveis (DST) da universidade, considerado uma referência nacional na área, analisando 3 doenças cujo desenvolvimento tem períodos bem definidos, em mais de 11 mil pacientes. A conclusão foi que o Carnaval não influencia no aumento das DST. Aliado a isso, foram analisados se os partos e abortamentos também aumentariam nesse período, o que não se confirmou. Aparentemente o mês em que mais mulheres engravidam é Agosto. O que estou dizendo aqui não é que no período de carnaval as pessoas fazem menos sexo e sim, que, mesmo que porventura façam mais, as campanhas de conscientização do sexo seguro podem estar sendo efetivas (apesar do esforço da maioria dos segmentos cristãos para combater essas ações).
     Pessoalmente não me sindo atraído pelo carnaval (confesso que o que mais me agrada nessa época são os feriados), mas não procuro argumentos “espirituais” ou descontextualizações bíblicas para condenar a festa. Não fico tentando convencer ninguém das minhas preferências. Claro que reconheço e repudio a imagem que muitas vezes é criada do Brasil no exterior, em relação a turismo sexual, que talvez seja ainda mais intenso nessa época; repudio os milhões de reais gastos (inclusive com financiamento público) nessas festas, enquanto pessoas morrem de fome e de sede; repudio os excessos cometidos em relação às drogas e ao sexo irresponsável... Porém não faço disso um pacote fechado para julgar superficialmente e tolamente, jogando tudo o que é relacionado a isso no lixo. Ao contrário, desejo que todos desenvolvam um senso crítico e usem a razão, a inteligência para separar o que é louvável do que é reprovável.
      O que cada pessoa (inclusive cristãos) deveria fazer, na minha opinião? Aproveitar o feriado, a data festiva. Passar agradáveis momentos com as pessoas amadas. Onde e como? Isso depende de cada um, da consciência e da preferência que possui. Como aprendemos com uma fé cristã sadia, as pessoas devem ter equilíbrio em tudo. Evitar festas repletas de excessos é prudente e se onde estiver ocorrer algo nada sadio, mantenha a moderação. Como em toda festa e época, encontrará coisas boas, diversão e expressão de criatividade e arte, mas também encontrará coisas ruins. Saiba avaliar tudo e só acatar o que é bom. Fuja do que é mau, não por medo de inferno ou por ser “pecado”, mas porque sua consciência é outra, seus desejos priorizam aquilo que traz vida, o que edifica, o que traz paz e alegria. Não coloque sua vida, família ou relacionamento em risco por causa de algumas horas de diversão irresponsável. Não é porque porventura ficará rodeado por pessoas sem escrúpulos que irá cometer excessos ou imoralidades. Seja adulto e maduro. Mas também acho válido dizer: não seja tolo de criar essas bobagens missionárias carnavalescas, dizendo que irá pra folia a fim de evangelizar. Ninguém está lá disposto a ouvir isso. Há momentos mais apropriados. As pessoas estão nos blocos ou qualquer tipo de festa para se divertirem e você ir lá “evangelizar” será visto como inconveniente, no máximo. O que vejo é que muitos usam essa desculpa para poderem participar indiretamente, mas com uma suposta “missão ou cobertura divina”. Não precisa disso, gente. Se a festa é “inofensiva” e deseja ir, assuma a responsabilidade e vá. Se é algo que faz mal à “alma” de qualquer pessoa, não vá. De qualquer forma, tenha uma consciência sólida e esteja sempre pronto para ajudar, ao invés de julgar, aqueles que por qualquer motivo precisem do seu auxílio nessa época. Seja sal; seja luz.

I Coríntios 6:12 = "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine."

Romanos 14:14 = “Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.”

Autor: Wésley de Sousa Câmara

Referência:
http://www.noticias.uff.br/noticias/2008/01/dst-carnaval.php
07/02/2016

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