11 de fev de 2016

Herege é todo aquele que discorda de mim


     O que os cristãos precisam é perder a ingênua ideia de que existe uma "teologia bíblica" ou a ilusão de que é possível criar/seguir uma teologia bíblica. "Base bíblica" é uma expressão tola, pois é impossível olhar para a bíblia e tirar dali uma visão teológica. Por quê? Pois a bíblia não é um livro e sim, uma coletânea de livros, com vários autores, com várias tradições judaico-cristãs, com muitos objetivos e com uma infinidade de compreensões (algumas até opostas entre si).
     Entenda uma coisa: a bíblia não é uniforme, nem harmônica. É questão de bom senso. Ela não caiu pronta do céu, tampouco foi escrita por Deus (apesar dos fundamentalistas insistirem em negar as evidências e a realidade, apegando-se em pontos irracionais, infantis, que chamam equivocadamente de "fé"). Ela é um aglomerado de cartas e livros (como uma mini-biblioteca) que foram selecionados por aqueles que num dado momento histórico possuíam o poder religioso. Os livros que deveriam entrar ou não na compilação chamada bíblia nunca foram um consenso. Mas é aquela história: manda quem pode e obedece quem tem juízo.
     E mesmo considerando os livros que lá estão, nunca foi unânime a interpretação dada a eles. Algumas interpretações, com o tempo, foram se fortalecendo (não necessariamente por serem melhores) e outras, perdendo espaço. As que se fortaleceram foram as dos que tinham mais influência e poder no cristianismo nascente e foram consideradas ortodoxas ("doutrina correta"); as que foram rejeitadas por esses ortodoxos, foram consideradas heterodoxas ou o termo mais conhecido por nós: heresias.
     Portanto, heresia não é, necessariamente algo absurdo, mas é algo que é considerado pelo cristianismo "ortodoxo" como interpretação errada. Alguém pode afirmar que sua interpretação é absoluta, perfeita ou correta, para que possa classificar outras como heresias? Não! Mas é isso que é feito. O que o cristianismo oficial define como padrão (há séculos foram realizados vários concílios para definir vários pontos básicos) é usado como referência pra condenar tudo o que diverge disso. Então, maninho, quando você julga algo como heresia está apenas querendo dizer que a visão criticada é diferente da que você assume como "ortodoxa". Não quer dizer que ela seja errada e a sua certa; quer dizer que ela é uma visão que está "às margens" das interpretações mais influentes. E outra coisa: na história vemos que uma interpretação considerada ortodoxa (correta) pelos cristãos "mais poderosos" em uma época, décadas depois já poderia ser considerada heresia. Muita coisa que hoje é considerada heresia, nos primórdios da Igreja era a visão "oficial". Então abaixe essa bola aí, pois a história mostra que nosso telhado é de vidro. Hoje você joga pedras no telhado do outro; amanhã, o seu provavelmente será estilhaçado. 
     Mas voltando ao ponto inicial, você precisa entender que até mesmo na própria bíblia há várias teologias. Os autores nem sempre concordam entre si. Nós é que, cerca de dois milênios depois, tentamos harmonizar tudo. Veja o que fazemos: nós criamos uma teologia diferente da de TODOS os autores bíblicos (ou seja seguimos uma teologia que não aparece em lugar nenhum da bíblia - e nos gabamos por ser "crentes bíblicos" ou por criticar o outro por defender coisas "que não estão na bíblia" - faz-me rir) a fim de que ela encaixe as inúmeras teologias bíblicas entre si, como se fossem complementares. Percebe? Nós negamos as teologias objetivas que estão na bíblia, pois se assumirmos uma delas, teremos que relativizar ou discordar de outras que lá estão, mas como inventamos o pressuposto que a bíblia é harmônica, perfeita, infalível e sem contradições, temos que criar uma teologia moderna, nova, extra-bíblica, a fim de uniformizar o que é heterogêneo (teologias diversas antigas). E o mais engraçado: chamamos esse nosso "malabarismo teológico moderno" de "visão bíblica" ou de "a bíblia diz". Será que é tão difícil enxergar isso?
     Por exemplo: os quatro evangelhos sinóticos, canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) não são uniformes. Apresentam visões diferentes sobre quem Jesus era, em que sentido era Filho de Deus e até mesmo em acontecimentos de Sua vida. O que fazemos (coloco sempre no plural, me incluindo, pois estou aqui retratando a visão conservadora, que é a dominante no cristianismo brasileiro, embora eu tenha muitas restrições a essa orientação)? Como partimos da ideia de que o autor da bíblia é Deus e Deus é só um, esse registro histórico é a Palavra de Deus, logo, é perfeito e qualquer divergência encontrada assumiremos como sendo limitação nossa na interpretação. Aí criamos a ideia de que os quatro "evangelistas" pensavam a mesma coisa, de que escreveram tudo o que foi "ditado por Deus", não tendo influência de crença ou teologia humana dos autores...
     Qual a "base bíblica" (já que o povo gosta dessa expressão) para essa abordagem? Nenhuma, até porque a bíblia foi compilada 300 anos após o último livro dela ter sido escrito, ou seja, a bíblia em momento algum fala dela mesma, por questão de lógica. Mas as pessoas tomam essa visão conservadora como "ortodoxa" e classificam como "heresia" toda abordagem menos conservadora que essa. Percebe que a história se repete (desde o primeiro século é assim), como disse anteriormente? O tempo passa, o contexto muda, mas essa classificação, aceitação e rejeição teológica continua a mesma. Basta não fechar os olhos para a realidade, para a história e veremos o quão parciais e relativos somos.
     Eu assumo abertamente uma visão teológica, uso a bíblia para sustentá-la, mas deixo claro que minha teologia (assim como qualquer outra) não é a "visão bíblica", ou a "visão correta", ou a "revelação divina". Assumo que é uma abordagem que tenta aproveitar o que recebemos (bíblia) da melhor forma possível, tentando harmonizar o que é possível, dentro de uma compreensão que seja consistente com um Deus de amor revelado em Jesus e que seja o mais frutífera possível. Claro que alguns textos bíblicos parecerão não ser muito compatíveis com minha teologia (que na verdade não é em nada criação minha), porém há textos bíblicos que também não são compatíveis com a sua teologia (embora você possivelmente não assuma isso e force todo texto e contexto, a fim de parecer que ali o autor está dizendo o que você deseja que ele diga). Enfim, o mínimo que deveríamos ter é humildade para reconhecer que somos relativos e tendenciosos. Mas queremos sempre colocar a nossa compreensão como referência para julgar os demais. E assim continuamos no processo interminável de segmentação (divisão) do cristianismo.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
Atualizado em 11/02/2016

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