19 de mar de 2016

A confusão entre "Pedro e o galo"


     A resposta é quase unânime ("três!") quando perguntamos aos cristãos: "Quantas vezes Pedro negou que conhecia Jesus antes que o galo cantasse?" Porém essa resposta é, no mínimo, incompleta.
     A história é a seguinte: nos quatro evangelhos canônicos (bíblicos) encontramos relatos de que Pedro teria negado a Jesus e que, em seguida, um galo cantou. Porém os quatro evangelhos apresentam muitas divergências (discordâncias) em relação aos detalhes do acontecimento. Os evangelhos de Mateus (26) e de Lucas (22) descrevem a situação de forma bem semelhante: Pedro nega conhecer Jesus por três vezes e em seguida, um galo canta, comprovando a profecia de Jesus feita a Pedro. Já no evangelho de Marcos (14) vemos uma versão diferente, pois Pedro nega três vezes e então um galo canta pela segunda vez. Em João (13) é dito que Pedro negaria Jesus três vezes, sem que o galo chegasse a cantar. Já no capítulo 18, do mesmo evangelho, é dito que Pedro nega duas vezes e então, um galo canta.
     Talvez alguém esteja se perguntando: "Que importância ou interferência isso tem na essência da narrativas?" Nenhuma. Realmente são divergências que, no fim, não mudam em nada. Porém faço essa citação como um dos infindáveis exemplos de divergências entre autores bíblicos. E para quê? Para ajudar as pessoas a serem críticas e a entenderem o óbvio, que a bíblia não é um único livro, harmônico e uniforme. De forma alguma! Ela tem um processo longo e complexo de produção e compilação, sendo que o que chegou até nós é fruto de todo esse processo. Tem como resgatarmos, diante disso, o que realmente teria ocorrido com Pedro? Não! No máximo, em alguns casos, podemos estabelecer probabilidades maiores ou menores de algo ter ocorrido de determinada forma.
     Essas claras divergências em relação à negação de Pedro incomodam os fundamentalistas e conservadores, já que eles criaram algumas premissas "modernas" de que a bíblia tal qual a temos é fruto de pura ação divina, não sendo humana, mas uma revelação, palavra por palavra, de Deus. Não há humanidade influenciando em seu conteúdo, de forma que ela, por ser divina, não pode ter nenhum tipo de contradição, erro ou divergência de pensamento. Quando algum desses problemas torna-se inegável, atribuem a uma incapacidade nossa de compreensão (uma alegação sem evidências) ou, no máximo, que alguns copistas posteriores cometeram equívocos involuntários, falhando em um ou outro detalhe, embora "no original" certamente estava tudo perfeito (mais uma suposição sem fundamento, visto que não temos acesso a nenhum escrito bíblico original. Só temos cópias de cópias de cópias... que divergem muitas vezes entre si). Porém, para os não conservadores (não biblicistas, não idólatras do livro, que o tem apenas como uma testemunha de Jesus, por conter as chamadas "escrituras", como o próprio Jesus teria afirmado) esse problema é facilmente entendido (não precisando fazer malabarismos e "forçações de barra" para tentar conciliar o inconciliável) e, portanto, nada disso incomoda:
     Sabemos que há uma variedade enorme de tradições judaicas/cristãs que participaram da composição da bíblia, ao longo de séculos. No que diz respeito aos Evangelhos, o mais antigo é o de Marcos e mesmo assim foi escrito cerca de 35 a 40 anos após a morte de Jesus, por um autor desconhecido. Isso mesmo, esse evangelho, tal como é o de Mateus e de Lucas são anônimos, sendo posteriormente atribuídos, por lideranças da Igreja, a esses três personagens conhecidos (em outro texto explico com mais detalhes). Já o evangelho de João foi escrito quase certamente de 60 a 65 anos após a morte de Jesus. Ou seja, todos os evangelhos foram escritos muito tempo depois dos acontecimentos que relatavam. Pergunte a um idoso se ele consegue relatar os acontecimentos da vida de um amigo, lembrando de todos os detalhes, ocorridos 60 anos antes. Impossível! 
     Soma-se a isso a questão quase óbvia de que foram escritos não por testemunhas oculares dos fatos, mas por cristãos de várias épocas e regiões, que conheciam diferentes tradições orais que circulavam na época. Eles então registraram as versões que conheciam e claro, nenhuma história que é recontada por décadas continua fiel ao evento que descreve. Portanto, resgatar a origem é  praticamente impossível.
     O que podemos fazer, sem aprofundar muito? No máximo podemos dar um peso grande ao relato de Marcos, por ser mais antigo (portanto, mais próximo ao acontecimento, o que, historicamente, já recebe maior credibilidade). Então seguir a tradição de Marcos com esse argumento, é válido. Porém um peso também mais elevado acaba sendo dado aos relatos de Mateus e de Lucas, pois, uma vez que são independentes um do outro, descrevem um mesmo acontecimento de forma semelhante. E duas versões não colaborativas que contam a mesma história, também tem mais credibilidade. É uma forma de argumentar para preferir esses dois relatos. Porém pode simplesmente essa "coincidência" ter ocorrido pelo fato ambos seguirem uma mesma tradição oral, que, por sua vez, pode ou não ser mais próxima do acontecimento (comparada com a de Marcos). E, se assim for, não seriam duas atestações independentes e sim, dois autores que usaram uma mesma fonte (tradição).
     No meu entendimento, colocaria as duas descrições de João, por serem bem mais tardias) como improváveis e preferiria a versão de um dos outros três evangelhos (chamados "sinóticos"). De qualquer forma, as diferentes fontes parecem retratar que Pedro negou que conhecia Jesus, durante os momentos que precederam a morte de seu Mestre. E essa negação (quantas vezes não temos como saber) parece ter sido associada a um cantar de galo (também não temos como saber quantas vezes), talvez para demonstrar que o negou em pouco tempo (o que era óbvio, já que o julgamento de Jesus não deve ter durado mais do que algumas horas).
     Portanto, diante disso, saiba que quando ler algo divergente na bíblia, tem uma explicação simples, óbvia, pelo processo de formação das escrituras. Não tem necessidade (nem considero intelectualmente honesto ou consistente) querer idolatrar a bíblia, como fazem (sem assumir) os conservadores, atribuindo a ela ideias que lhes convém (como as premissas fundamentalistas de abordagem bíblica) e depois distorcer os textos, ignorando seu processo de formação, a fim de negar o óbvio, afirmando que ali não pode haver nenhum tipo de divergência. Claro que pode. E há. E o que importa? Pra quem não coloca a fé no livro, nada. Para quem coloca, é uma inevitável crise de fé. Não é a toa que os líderes que seguem essas orientações ultra-conservadoras fazem uma censura, denigrem a imagem dos autores menos conservadores (chamando-os tolamente de "liberais" - o que, além do fato de poucas vezes ser verdade, é uma palavra usada como se fosse algo "do demônio"). Se os seus fiéis começassem a questionar, a aprofundar, a criticar, a base desse sistema interpretativo frágil se abalaria e a queda seria inevitável. Então, por auto-defesa, mantém a famosa: "tem que ter o Espírito Santo para entender a bíblia" (e claro, ter o Espírito significa abordar a bíblia como eles fazem. Os demais, são "carnais"). E assim, a maioria interpreta a bíblia à sua maneira e todos dizem entender por "revelação do Espírito de Deus". Só não enxerga quem não quer.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
19/03/2016

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