3 de mar de 2016

Deus VS Medicina


     Esses dias um leitor aqui do site entrou em contato enviando um comentário sobre os clichês que existem atualmente no meio cristão, envolvendo o assunto “saúde e doença”. Como exemplos, temos: “Deus usa a medicina”, “Medicina é um instrumento de Deus”, “Deus quem deixou os médicos”... E isso me levou a uma rápida reflexão sobre o assunto, que quero compartilhar com você que me lê.
     Não gosto de ficar espiritualizando a vida demasiadamente e atualmente penso que precisamos diferenciar a dimensão “física” da “espiritual” (embora claro, ambas estejam interligadas, afinal uma espiritualidade doentia adoece inclusive nosso corpo), bem como distinguir a “fé” da “razão” (embora nunca devamos abrir mão da razão, nem mesmo ao adotar uma linha de fé, pois a fé sem uso da racionalidade será cega, tola, absurda ao extremo). Temos então que ser realistas e a realidade incontestável, que todos assumem (do fideísta ao "ateu") é que nossos sentidos captam eventos concretos, objetivos.  Quando falamos de fé ou de crença na divindade e/ou numa cura sobrenatural, estamos nos referindo a algo subjetivo, pois a pessoa tendo a saúde restabelecida é algo concreto, mas a atribuição dessa cura a algo sobrenatural, é fruto de uma interpretação, de fé. Ninguém, nem o “ateu”, pode negar o evento (cura), mas a explicação dada a ele dependerá das premissas que o observador adota. Alguns creem no sobrenatural, outros não. Até mesmo entre os teístas, cristãos e protestantes há aqueles que acreditam em curas divinas atualmente e os que as negam. Porém quando falamos da medicina, nos referimos a algo concreto. Ninguém a nega, pois todos a observam, podem comprovar sua ação direta, sua eficácia e suas limitações. Ou seja, quando falamos em cura pela ação médica, falamos de fruto de observação racional de uma cura; quando falamos de cura divina, falamos de interpretação espiritual dada a uma cura ocorrida.
     Feita essa diferenciação (que não visa provar nem negar a existência de curas divinas e sim, mostrar que a crença ou a negação dos eventos sobrenaturais dependem não de evidências, mas de crença), vamos ao lado prático: 
     Diante de uma doença, devo apostar na cura pela medicina ou pela fé? Bem, a princípio a resposta dependeria se a pessoa envolvida tem ou não fé. Se não tem, é óbvio que apostará na medicina; mas e se ela tem fé em Deus e crê que Ele realiza intervenções ocasionais na história, como curar alguém aqui e ali? A resposta é mais complicada, mas eu diria a essa pessoa, desde que ela não seja adepta da maioria dos segmentos neopentecostais (que defendem uma barganha com Deus, em que a pessoa faz algum tipo de “sacrifício por fé”, seja físico ou financeiro, em troca de um favor divino – ou seja, ela acha que com fé ela certamente será curada), que deveria apostar na medicina. Por quê? Simples: ela reconhece a possibilidade de cura por meio da fé, mas não acha que Deus tem a obrigação de curá-la, ou seja, ela sabe que não tem nenhuma garantia de cura divina. Essa pessoa se lembrará do "espinho na carne" de Paulo, que não sabemos exatamente o que era. Mas digamos que fosse uma doença. Ele não recebeu a cura divina. Quando ele clamou para que Deus o livrasse disso, relata que recebeu como resposta: “Minha graça te basta”. Tantos outros "homens de Deus" adoeceram. Mas se eles, naquela época, tivessem acesso à medicina atual, provavelmente muitos seriam curados por meio dela. Então, essa pessoa do nosso exemplo deve reconhecer que a busca incessante pela medicina é algo mais concreto (embora como médico afirme que nada que a envolve é previsível), pois saberá que dependendo da doença a cura é praticamente impossível, mas em contrapartida, em muitas outras, a cura é praticamente certa. Logo, se ela tem acesso à possibilidade de trilhar pelo caminho conhecido, comprovado que deverá funcionar, porque deveria se apegar a algo que pode ou não acontecer? Ou seja, se está com uma infecção urinária ou pulmonar, porque deveria fazer campanha de oração, ao invés de tomar o antibiótico que o médico prescreve? 
     Alguns provavelmente estão neste momento me criticando, me chamando de “cético”, de “incrédulo”, de “carnal” (e tantos outros termos desprovidos de significado que a cristandade brasileira adora). Mas continuo na luta para que as pessoas reflitam mais profundamente no que pensam e fazem. Então continuando...

     A fé lida com coisas não passíveis de verificação (é por isso que alguns apostam nela e outros, não); a medicina (pelo menos a tradicional), ao contrário, é erguida atualmente sobre pilares observáveis e reproduzíveis (realizam estudos com grande número de pessoas, randomizados, duplo cegos, placebo controlados...), ou seja, ela segue a ideia de se basear em “evidências concretas”. E usando a razão não tenho como abrir mão de buscar algo já conhecido (no nosso assunto, por exemplo, os remédios, as cirurgias...) para apostar numa cura sobrenatural que não temos garantia de que ocorrerá. Quem disse que Deus desejará realizar uma cura miraculosa? Por que Ele deveria? Será que eu mereço mais do que os que não recebem? Será que tenho mais fé do que eles? Poxa, mas o próprio apóstolo Paulo, que tanto uso como exemplo e como base doutrinária, não recebeu tudo o que queria, teria eu mais fé do que ele ou seria eu mais merecedor? Não estou dizendo que ninguém deve confiar em uma ação sobrenatural. Estou dizendo que não deveria abrir mão de um tratamento médico para apostar em uma cura divina. 
     Nos dias de Jesus, por exemplo, lemos nos evangelhos relatos de cura de "leprosos". Hoje sabemos que a hanseníase (“lepra”) tem cura. A medicina atual curaria (não instantaneamente, claro) também aqueles leprosos. Não vemos relatos de Jesus curando alguém de algo extremamente simples, que uma erva pudesse resolver. Ninguém admiraria a cura se fosse o caso. Os relatos de cura apresentam hemorragias incontroláveis, deficientes físicos e até mortos. O que penso então que podemos extrair de lição quando fazemos essa comparação? Que devemos parar de "incomodar Deus" (perdoem-me pela expressão infantil), de tentá-lo com pedidos banais. Se estou doente, tenho acesso (mesmo que precário muitas vezes) à medicina e é ela que devo procurar. Se não fizer assim, seria como se eu começasse a orar para Deus tirar minha sede, sendo que tenho uma torneira a alguns metros de mim. Então, se vamos apostar na cura divina, que seja naquilo que a medicina ainda não alcança. No mais, usemos nosso desenvolvimento científico para alcançar o que almejamos. 
     Também não sou simpatizante desse discurso de muitos, que afirmam que Deus os curou ou que Deus fez um milagre após alguém passarem dias internado ou terem feito uma cirurgia. Pense: se foi milagre, porque precisou do médico, das tecnologias, dos medicamento, dos hospitais e de vários dias? Acho isso um menosprezo ao trabalho médico. Melhor seria a pessoa dizer: "Durante esse tratamento médico Deus estava comigo, estava em mim, me ajudando, me dando força...". As pessoas no domingo pregam que Jesus curava instantaneamente, mas no dia a dia atribuem ao sobrenatural uma recuperação que leva tempo e que permite uma fácil explicação médica e/ou racional? 
     Permita-me ainda um exemplo extremo e forte: um homem sofre um acidente de carro e nesse evento morrem os outros 4 ocupantes do veículo (pai, mãe, esposa e filho). Esse homem ainda perde um dos braços, tem um olho perfurado (fica cego), sofre uma lesão cerebral (ficando com problemas auditivos e dificuldade na fala) e passa a viver na cadeira de rodas, por ser agora paraplégico. Imagine agora esse homem no culto de domingo indo ao microfone e dizendo: "Graças a Deus, Ele me livrou e poupou a minha vida para eu testemunhar que Ele é poderoso". Sou sincero: se Deus agiu dessa forma, Ele que me perdoe, mas eu seria um "deus" melhor. Teria Ele permitido tanta atrocidade, morte dos familiares e sequelas graves ao livrar a vida desse homem? Não seria então "mais divino" o livramento do acidente, com a família neste momento reunida e feliz? É como aquela história do copo com a metade preenchida de água. Para uns, ele está meio cheio; para outros, meio vazio. Porém acho que devemos ser, nesses casos, não otimistas, nem pessimistas. Devemos ser realistas. Será que ocorreu ação divina nesse acidente? Será que a constatação de que poderia ser ainda pior é evidência de intervenção sobrenatural? Não poderiam alegar alguns que "poderia ser melhor, logo é evidência de ausência do sobrenatural"? Percebe que ficará uma discussão tola? Não seria melhor interpretar como "livramento divino" pelo menos se todos estivessem saído ilesos? Ou Deus agiria de forma tão insignificante, pequena, permitindo diretamente tamanho sofrimento? É o mesmo contexto nas doenças, pois muitos chamam de “milagre de Deus” acontecimentos pouco positivos ou nada surpreendentes.  Alguns perdem partes imensas do corpo, ficam na cadeira de rodas com sequelas e dizem que Deus fez um milagre por deixá-las viver? Mas o milagre não deveria ser maior então? Já imaginou Jesus curando o paralítico para que ele passasse depois a andar “apenas mancando”? E algo que chamamos de “milagre” não deveria se restringir apenas àquilo que não há outra possibilidade de explicação pela razão? Se algo permite uma explicação racional, mesmo que seja improvável, por que eu apostaria que é um milagre, se por definição um milagre seria algo mais raro do que o improvável e sem possibilidade de explicação por meios naturais? Não estou afirmando que não existem milagres, porém justamente por ser milagre era para passar gerações sem que um milagre fosse identificado. Se o milagre se torna comum, corriqueiro, deixa de ser milagre. Mas o que vemos? Todo mundo hoje em dia diz que aconteceram milagres (no plural ainda) em sua vida. Nada mais contraditório e paradoxal.
     Mas voltando ao tema: penso que se formos comparar (ou rivalizar) a medicina com a ação divina nas curas, teremos problemas, pois, usando a razão, somente atribuiremos a uma cura sobrenatural aquilo que a medicina não explica melhor, aquilo que a ciência reconhece ser algo impossível de ter ocorrido por meios naturais. Porém, um dos pilares da medicina é a ideia de que ela não é uma ciência exata. Desde os primeiros dias de faculdade aprendemos que, quando se fala em organismo humano, não existem as palavras "certeza, sempre, nunca, jamais e impossível". Cada um reage de uma forma e muitos pacientes surpreendem os médicos nos tratamentos, positiva ou negativamente. Sendo assim, raramente (pra não dizer “nunca”) um médico desprovido de fé assumirá que um evento improvável ocorreu por ação divina. Dentro da medicina qual a explicação para isso? "Esse paciente reagiu de forma diferente ao habitual, respondendo bem ao tratamento ou mesmo tendo uma regressão espontânea da doença" (vale dizer que algumas doenças tem comprovadamente regressão ou cura espontânea). Ou seja, se formos querer comparar, Deus não terá espaço na medicina, de forma que não acho então um caminho pertinente para a fé querer isolar Deus da ciência médica (pois ela almejará ficar com tudo - seja sucesso ou fracasso). Acredito então que ter uma visão mais ampla de Deus, enxergando-O como aquela realidade acima da compreensão humana, que permeia toda a vida (não estou falando de panteísmo), que está em nós, conosco, antes de nós e além de nós seria uma melhor saída do que esse duelo. Assim, sempre buscaremos um tratamento médico. No sucesso, reconheceremos a ação da medicina, sem negar que Deus estava conosco o tempo todo. No fracasso da medicina, reconheceremos sua limitação.
     E podemos clamar a Deus por uma cura mais direta? Sim, mas não em um desespero, pois devemos ter consciência da finitude da vida, sabendo que se formos curados, pode ser uma regressão espontânea, uma ação direta divina, não importa, pois Deus está além dessa ideia de que é um ser gigante que nos observa lá de cima, colocando o dedo aqui e ali pra interferir em nossa vida. Deus está conosco, nos fortalecendo na cura ou no adoecimento, na recuperação ou na morte. Isso nos dá paz, tira de nós essa ideia de um Deus injusto, que me cura , enquanto meu vizinho sofre e morre; que me dá alimento, enquanto em algumas cidades crianças morrem de fome...
     Cuidado com algumas compreensões de Deus excessivamente infantis. E reflita nos pontos fortes e fracos de seus argumentos, sempre. 

Autor: Wésley de Sousa Câmara
03/03/2016

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