17 de mar de 2016

Jesus ou pena de morte: escolha um. Os dois, não dá.


     "Matou tem que morrer": uma das expressões mais contraditórias que já ouvi (assim como a famosa "Bandido bom é bandido morto" e a “Está com dó? Leva pra casa”). Qualquer pessoa que tenha “mais de dois neurônios em funcionamento” ou que não está se expressando após presenciar (ou ficar sabendo de) um crime bárbaro, percebe o quão tola é essa ideia. Mas tentarei explicar em detalhes, quase “desenhando”, para quem tem dificuldades de compreensão. Desafio você a se abrir intelectualmente, a tomar disposição para mudar de ideia caso os argumentos apresentados sejam mais sólidos que os seus e só então prosseguir a leitura com calma e honestidade.

1 - Quem mata é assassino, correto? E pela lógica da pena de morte, quem mata tem que morrer (já que é um crime hediondo, grave).

2 - Porém quem executa o assassino também cometeu homicídio (e premeditado! E “pena capital” é apenas um nome politicamente correto para o “assassinato de alguém que algum grupo julgou merecedor de morte”). Sendo assim, também tem que morrer. Dessa forma, para seguir a linha de raciocínio desse clichê adorado pela extrema direita política, teríamos que matar uns aos outros (pois cada um que mata terá que ser morto por outro e assim sucessivamente) e o último que sobrasse deveria, por honestidade e fidelidade à proposta, tirar sua própria vida. Isso mesmo. Não sobraria ninguém.

3 - A única escapatória seria quebrar hipocritamente esse ciclo, punindo alguém por um crime que é o mesmo da pena a ser aplicada. Ou seja, punindo quem mata, matando. Não vê o paradoxo? Para sair dessa, usam a falácia (explícita ou de forma indireta, não assumida): “Bandido não é uma vida”, logo, temos pleno direito de tirá-la. Porém, com isso, cairemos em um problema ainda pior: teríamos que reformular o conceito de vida e absolutizar essa conclusão que alguns chegam (pois nunca teria consenso e essa posição teria que se sobressair perante outras). Teríamos ainda que parar com a hipocrisia de defender a pena de morte e, ao mesmo tempo, condenar o aborto, pois, com os argumentos tradicionais, defender as duas coisas é paradoxal, é incoerente. São posicionamentos mutuamente excludentes. Se defender um, terá que obrigatoriamente rejeitar o outro. Como assim? Qual o principal argumento usado para condenar o aborto? "O feto, o embrião e até mesmo uma meia dúzia de células que surgem após a fecundação já é uma vida, logo, não temos o direito de tirá-la, pois seria assassinato e só Deus tem autoridade para dar ou para tirar uma vida". Porém, quando essa mesma vida intra-uterina nasce, cresce e vira um bandido, absurdamente os mesmos que a defenderam agora querem ceifá-la com a pena de morte, ou seja, uma pessoa, ao cometer um crime hediondo, deixa magicamente de ser uma vida para esses ultraconservadores. Na visão desse grupo, podemos ceifar a existência de alguém com base em nossas leis e regras sociais. É uma tolice tão grande, que a maioria das pessoas se mete a discutir uma tema complexo como esse, sem antes sequer conceituar as coisas e analisar a coerência de seus fundamentos. Leem um artigo aqui, assistem outro vídeo ali, acompanham uma publicação de um blog ou página do Facebook acolá e se acham intelectualmente preparados pra argumentar profundamente. Quero aqui mostrar que o problema da violência não é de resolução simples e se pena de morte resolvesse, os países que adotam tal medida seriam um paraíso na Terra. Se pena de morte coibisse violência, ela só seria aplicada uma vez, pois ninguém que soubesse que ela existe cometeria algum crime. Mas quando você olha pra vida real, vê isso? Você realmente não está disposto a mudar de opinião mesmo diante de todas as evidências? Então não sei porque continua a leitura, se não é intelectualmente honesto para aceitar o que tem mais evidências de ser real. É perda de tempo. Mas continuando para quem quer refletir com sinceridade:
     Alguns alegam que a pena de morte não se compara ao aborto, pois um embrião ou um feto nunca matou ou estuprou, logo, não tem nada a ver com criminosos. Pois bem. Então, se adota essa postura, seja coerente e a mantenha em outras questões. Se pensa assim, então você assume que o seu conceito de “vida” não tem a ver com a biologia (“quando a vida começa”, se na fecundação/concepção, se na implantação uterina, se no surgimento de algumas estruturas ou órgãos...); sua noção de vida tem a ver exclusivamente com aspectos morais (e isso já o exclui de qualquer discussão/debate sobre origem da vida de cada ser). Ou seja, vida, pra você, é aquele ser que, no mínimo, ainda não promoveu imoralidades (como violência). Percebe que, se é assim, você teria que mudar seu argumento base em relação ao aborto? Pois se você alega que uma pessoa não pode tirar a vida de outra, não importando a situação, não pode criar situações em que o fato de alguém ser uma vida torna-se menos importante do que algo que ele pratica. Quer dizer que quando se fala em pena de morte você esquece o argumento de “defesa da vida” e usa tendenciosamente “outro peso e outra medida”, apelando pra moralidade do indivíduo para determinar se ele merece ou não viver? E quem disse que nosso ranking de crimes, nossa hierarquia de violência é perfeita? Quem disse que podemos traçar um limiar exato para dizer: “até esse crime, punimos com prisão; a partir desse, com a morte”? Se o que determina o merecimento de continuar existindo é a moralidade, mudemos o foco também da discussão do aborto. E para quem tem dificuldades interpretativas, não estou aqui defendendo ou condenando o aborto (que não é assunto deste artigo); apenas estou pedindo para sermos coerentes e usarmos o mesmo critério nos dois temas.

     Mas o que “a bíblia diz” sobre a pena de morte?
     Primeiramente, vamos esclarecer o equívoco inerente à pergunta. A bíblia não diz nada, nem se posiciona, nem dá uma solução para esse tema (e nem para nenhum outro). É óbvio para qualquer um que entende o que a bíblia é. Pense um pouquinho e ficará óbvio: a bíblia não é um livro mágico que caiu do céu, com capa e tudo, escrita por Deus, a fim de que qualquer conflito existencial nosso pudesse ter uma solução quando olhássemos em suas páginas. Temos alguma evidência de que é assim? Não, pelo contrário! E que evidências temos? As que sabemos pela história. A bíblia sequer é um livro. Ela é uma compilação de textos judaico-cristãos antigos, realizada no quarto século da nossa era pela visão religiosa então dominante, que decidiu, com base em alguns critérios, entre uma infinidade de textos existentes, quais deveriam fazer parte do “Cânon Sagrado”(“bíblia”) e quais ficariam de fora dessa compilação. E os livros e cartas usadas nessa compilação também tem uma história, uma origem, um processo longo de produção e edição. Nesses textos que encontramos na bíblia vemos uma enormidade de opiniões, de posicionamentos, de visões de mundo e até de compreensões diferentes em relação a Deus. São várias tradições que participaram da escrita desses textos, em várias épocas e contextos socioculturais/religiosos, com vários objetivos, de forma que se você escolher um tema qualquer e buscar na bíblia tudo o que pode ser encaixado no assunto, visando gerar uma “conclusão/visão bíblica”, só conseguirá fazer uma “salada” de ideias e posicionamentos. A bíblia, por esses motivos óbvios, não é harmônica ou uniforme, podendo inclusive apresentar diferentes respostas a uma mesma pergunta (por exemplo, veja as diferentes explicações para a existência do sofrimento, para a questão se Deus se arrepende ou não, para o momento de Sua vida em que Jesus passa a ser “divino”... Há mais de uma resposta para essas questões e todas podem ser encontradas na mesma bíblia! – mas não vem ao caso aqui). Quem tenta unificá-la e torná-la totalmente harmônica são nossas teologias, mas nenhuma teologia que adotamos será “a visão bíblica”, por questão conceitual e lógica. Quando dizemos “a bíblia diz” ou “base bíblica”, no máximo estamos ingenuamente querendo dizer: “minha interpretação e conclusão baseada na bíblia diz que...”. Entende? Agora que perdemos a ilusão de que a bíblia nos dará uma resposta definitiva sobre o tema, precisamos entender outro ponto básico:
     Não podemos confundir "Deus" com a "percepção de um homem em relação a Deus". Deus é, por definição, algo além da capacidade descritiva ou compreensiva humana, logo, toda descrição dEle será parcial, relativa. O máximo reflexo dEle é, dentro da fé cristã, Jesus (e não, as tradições diversas que participaram da composição da bíblia). Sendo assim, não acho correto ler um texto de Gênesis e afirmar: "Aqui Deus disse que" ou "Aqui Deus fez...". Deveríamos entender assim: "Aqui, esse autor/tradição compreendeu que Deus desejasse que..." ou "Aqui, esse autor entendeu que esse acontecimento foi uma ação divina que...". Por que digo isso? Pois tendo essa compreensão, quando lermos que “Deus matou” ou que “Deus mandou exterminar”, saberemos que o relato nos revela algo pela “lente” do escritor, ou seja, mostra não necessariamente a realidade (que é o fato, independentemente do observador) e sim, a percepção que aquela tradição antiga tinha de Deus (mas como vimos, nenhuma descrição humana de Deus pode encapsular Deus ou retratá-lo de forma perfeita). 
     Sabemos que os povos antigos (e até alguns em pleno século XXI) cometiam atrocidades a fim de conquistar terras, poder e recursos financeiros. Para justificar suas ações, usavam suas divindades (se diziam guiados por elas ou afirmavam que elas é que estavam exterminando os adversários para proteger e recompensar “seu povo”). Sejamos sinceros: será que os hebreus/judeus/israelitas seriam as exceções históricas dessa mentalidade? Será que essa ideia nunca esteve presente entre eles? Será que Deus (Aquele que em Jesus ensina a amar o inimigo, a perdoar, a oferecer a outra face diante de uma agressão, a não pagar mal com mal, a fazer ao outro o que desejamos a nós, a servir, a não fazer diferença de outras etnias...) realmente mandou exterminar tribos inteiras, inclusive mulheres e crianças, passando por cima de qualquer ética, moralidade e empatia? Você prefere não relativizar a relato judaico e crer em um deus que age assim, a aceitar a influência do contexto humano presente em todo texto já produzido pela humanidade (ou seja, a notar que essa é a concepção primitiva que tinham do divino)? Você prefere absolutizar o texto e relativizar Jesus, mesmo se dizendo cristão? Prefere distorcer o caráter divino a aceitar a relatividade de uma narrativa? Que idolatria inconsistente e que nega evidências é essa? Prefere seguir um deus nada confiável, sem caráter, sem ética, sem empatia, violento, vingativo, que passa por cima de tudo e todos para recompensar seus preferidos? (Depois eu é quem sou o herege?) Mas se aceitar essa noção, como pode dizer crer em um Deus absoluto e imutável e, ao mesmo tempo, aceitar que Jesus é a revelação de Deus ao homem? Pois Jesus nos mostra um Deus muito diferente (logo, Deus muda?), um Deus que é amor, um Deus que ao invés de matar uma criatura, se entrega por ela. Mas se você assume que Deus não muda e diz que os relatos sanguinários antigos representam realmente o que Deus é (já que o autor disse isso e você assume que tudo o que foi compilado no século IV, por convenção religiosa, é texto divino, perfeito, inerrante...), então você terá que assumir que Jesus é uma farsa! Viu como é incoerente essa compreensão? Pois como pode Jesus ensinar a perdoar sempre (70 x 7) até os inimigos, mas esse deus mata (e ainda queima eternamente nas chamas do inferno) todo aquele que não crê nele e não faz o que ele manda? Jesus nos ensina a oferecer a outra face diante de uma agressão, mas esse deus promove vingança contra quem não o teme? Jesus ensina a fazer aos outros o que desejamos que nos façam (pagar o mal com o bem), mas esse deus faz o oposto, castigando, torturando e derramando sua “ira e justiça” (na verdade é só vingança) contra quem age assim com ele? Que deus hipócrita e bipolar é esse? Como confiar num deus assim, se sequer dá pra diferenciá-lo (já que ele não tem critérios, princípios e ética) do tão criticado “satanás”? É um deus-diabo (ora age como Deus, ora como o diabo)? Se Jesus nos dá parâmetros para avaliarmos tudo na vida (se aprendemos a julgar tudo pelos frutos...), como podemos fazer isso se esse deus mostra que não há parâmetros? Afinal, algo que parece não ter nada a ver com o Deus revelado em Jesus, segundo essa ideia que critico, pode ser ação divina... Que confusão! 
     Todos somos parciais e relativos, por isso proponho, dentro da orientação teológica sugerida neste site, estabelecer Jesus (o que temos de relatos confiáveis dEle) como único parâmetro absoluto, já que partimos do ponto que Ele é a “PALAVRA (verbo) de Deus encarnada”, a “imagem do Deus invisível” (a ponto de “quem vê a Ele vê ao Pai”). Ele é o nosso modelo de humanidade perfeita, portanto tudo deve ser comparado a Ele (claro que considerando também seu contexto sociocultural). Se queremos saber como devemos lidar com outros homens, olhemos para Jesus. E sendo assim, não consigo imaginar Jesus apoiando NENHUM, repito, NENHUM tipo ou ocasião para a pena de morte. Não tenho como defender um Deus que é amor, um Deus que ensinou em Cristo a "perdoar e amar até os inimigos", a "não pagar o mal com o mal e sim, com o bem", a "fazer ao outro o que queria que nos fizessem", a “dar a outra face”... e depois aceitar que Deus instituiu ou apoiou a pena de morte. Incoerência total! Ou defendemos Jesus ou esse “deus”, pois são mutuamente excludentes. São opostos. E antes que alguém diga ingenuamente (ou na tentativa de ser distorcer maldosamente), não defendo o "marcionismo" (assunto para outra hora, mas que de forma extremamente simplista, alega que o Deus do Antigo Testamento não é o mesmo do Deus de Jesus). Só estou dizendo que relatos não nos mostram Deus propriamente dito e sim, uma percepção humana dEle. E a percepção predominante em relatos antigos era desse Deus vingativo e bairrista. Mas vamos aos textos:

A – "Deus instituiu a pena de morte no jardim do Éden" = Os defensores da pena de morte alegam, com base em Gênesis 2:16-17 (“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás), que foi o próprio Deus quem instituiu a pena de morte. Como quase sempre possuem um orientação teológica extremamente conservadora e até fundamentalista, é compreensível que interpretem dessa forma literal o Gênesis. Ignoram o tipo de linguagem do livro, as tradições que participaram de sua composição e se enquadram na crítica que fiz mais acima neste texto, confundindo uma percepção antiga humana (hebraica) de Deus com o próprio Deus. Rejeitam o fato que ali há presença de aspectos literários/linguísticos e reflexos de cosmovisões da época dos autores. Respeito o direito de uma pessoa abordar o livro dessa forma, mas não é preciso muita dedicação no estudo para ver o quão inconsistente e infantil é essa abordagem. É válido entender a linguagem do texto, compreendendo que o poema da criação nos traz uma realidade muito profunda (em linguagem mítica - assim como existem muitas linguagens na literatura judaica, como a apocalíptica) que é o surgimento no homem desse desejo de afastamento de Deus (Pecado), essa decisão do ser humano de viver de forma egoísta, de se considerar auto-suficiente e de dizer: "em mim mando eu, faço o que quiser e arco com as consequências". Dessa forma, os pormenores do relato tornam-se irrelevantes, assim como é irrelevante falar de detalhes de uma parábola, cujo intuito é trazer uma verdade através de uma linguagem que sempre será atual. Então uma coisa é a intenção de demonstrar as consequências danosas do homem escolher esse caminho, outra é achar que realmente Deus ameaçou e aplicou uma “pena de morte”, matando a humanidade por ter desobedecido e comido um fruto de uma árvore. Querer entender de forma totalmente literal é até contraditória, pois o texto é claro: NO DIA EM QUE DELA COMERES, certamente morrerão". Sabemos que o restante da história mostra que comeram, foram expulsos do jardim, tiveram filhos... “Ah, mas a morte era espiritual”... “Ah, a morte era algo pra anos depois e um destino final de todos seus descendentes”. Ok, não estou dizendo que é ou que não é, mas assuma que isso não está no texto e que é fruto de uma abordagem teológica sua, de uma compreensão posterior que atribui ao texto esse significado. Então nem você interpreta literalmente o livro, pois alegoriza sempre que lhe convém (é só um esclarecimento antes que critique a minha abordagem). 

B – "A Lei de Deus sanciona a pena de morte" = Já realizei aqui no site um estudo completo sobre “Lei e Evangelho/Graça” (clique aqui para lê-lo). Mas só para pontuar: não podemos confundir “Lei de Deus” com os 10 mandamentos de Moisés e nem com os mais de seiscentos preceitos judaicos da lei. Se a fé cristã ortodoxa parte do princípio que Jesus é a Palavra de Deus encarnada, a revelação plena de Deus ao homem, então Lei é o que Jesus ensinou e encarnou como sendo Lei, que é: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. A Lei de Deus nada mais é do que a vontade divina para a criação. Mas o que essas pessoas querem dizer é que entre as centenas de preceitos judaicos da lei encontramos apoio à pena de morte. Porém, os textos a que esses ultraconservadores se referem ordenam a pena de morte em caso de assassinatos premeditados (Êxodo 21 – já que um assassinato “acidental”, em legítima defesa ou por razões de momento era vista na época como “vontade divina que acontecesse”), sequestro (Deuteronômio 24), adultério (Deuteronômio 22), incesto e bestialidade (Levítico 20), desrespeito aos pais (Deuteronômio 17 e 21), amaldiçoar ou machucar os pais (Êxodo 22), profecias falsas (Deuteronômio 13), blasfêmia (Levítico 16 e 24), profanação do sábado (Êxodo 35; Números 15) e sacrifícios a outros deuses (Êxodo 22). Já que alguém quer usar a lei mosaica como argumento (querendo tornar absoluta a percepção hebraica de Deus), dizendo que ela não é uma percepção e sim, a pura e divina revelação), que adote não apenas o que convém. Querem pena de morte apenas para apenas algumas dessas condutas? Onde fica a coragem e o suposto “temor a Deus” para assumir todas perante a sociedade do século XXI? Por que não exige publicamente a morte dos gays, dos adúlteros, dos primos que casam entre si, dos filhos desobedientes, dos “falsos profetas” e de quem não guarda o sábado? Terá que corta na “própria carne”, certo? Mas não quer colocar também a Lei de Moisés como parâmetro? Seja honesto e corajoso! Mas fica nessa parcialidade que chega a ser cômica. Oras, se era a “Lei de Deus” e se Deus, bem como Sua Lei, é imutável, por que você vai pegar apenas parte dela (lembrando que em Tiago lemos que “aquele que transgredir apenas um ponto da lei é culpado dela toda”)? Deus não é imutável? Se sim, e se essa concepção (lei mosaica) era realmente a Lei (vontade) de Deus, então você a está transgredindo intencionalmente, conscientemente, hipocritamente. Logo, você também é réu tanto quanto os que você condena. Mas se disser que Deus muda, então Ele não é absoluto. É relativo como nós, e isso evidenciaria que esse deus é uma imagem e semelhança nossa, nitidamente criado por nós, de acordo com nossa concepção ou desejo. Percebe que essa posição se auto-refuta de tão contraditória? Não tem saída para ela, de um lado ou de outro. Então o que proponho? Claro que Deus não deixou de ser amor, a questão é o que sempre repito (e é óbvia): "a bíblia é a compilação de textos antigos, de vários autores e tradições, que refletem muitas visões diferentes da vida e de Deus. Não é uniforme (nós é que criamos teologias próprias extra-bíblicas para tentar harmonizar uma infinidade de teologias bíblicas diferentes, nem sempre conciliáveis). Não tem um só contexto. Não tem um só objetivo. É tão ampla quanto uma biblioteca. Por isso não podemos dizer que 'a bíblia diz algo sobre tal assunto', da mesma forma que não faz sentido dizer que 'a biblioteca diz tal coisa sobre tal tema'". Desculpem-me, sei que estou sendo até prolixo, pois já disse isso tudo com outras palavras, mas preciso repetir, já que quem me lê geralmente não tem isso claro na mente e sem essa compreensão as coisas não farão sentido. 
     Enfim, cremos que Deus é amor, porque somos cristãos e tomamos Jesus como parâmetro. Em uma das epístolas de “João” lemos também essa confirmação de que Deus é amor. Mas será que a concepção das tradições hebraicas antigas era também de um Deus amoroso ou era de um deus severo e vingativo? Certamente a segunda opção. A concepção do divino muda com o tempo. Eles até criam que Deus era amoroso, que amava (mas o amor era apenas um atributo, assim como tinha muitos outros). Nós cremos (teoricamente) que amor não é mero atributo e sim, a essência de Deus. Logo, tudo que fere esse amor, tudo que o amor não faz, não pode vir de Deus, por definição. Portanto, não tem "mas" pra Deus (como "Deus é amor MAS também é justiça”). Deus é amor e ponto. Justiça só é divina se for pautada nesse amor. 

C – "Os profetas também defendiam a pena de morte" = Um exemplo é Ezequiel 18:4. Mais uma vez, escolhendo vários parâmetros para seguir? Quer colocar os profetas como modelo? Então assuma toda a visão profética judaica (e quem sabe, se inspire em Eliseu, exigindo que animais ferozes devorem as pessoas que fazem piadas com sua aparência). Só deveria se lembrar de um ponto básico: os profetas representam o judaísmo (e estavam, ao contrário de nós, nesse contexto de seguir a lei mosaica). Se eram considerados por alguns também "fundamentos" da fé cristã é no sentido de representarem Israel, como berço histórico do cristianismo. Jesus, os evangelistas, apóstolos e outros escritores neotestamentários são os fundamentos da fé cristã. Não estou dizendo para rejeitar tudo que um profeta disse e sim, que eles não deveriam ser o parâmetro de alguém que se diz cristão. Os próprios profetas, no geral, tinham compreensões bem diferentes das vistas no Novo Testamento. Por exemplo, o sofrimento era entendido pelos profetas, a grosso modo, como uma consequência da infidelidade a Deus, uma explicação que não é predominante de Jesus em diante (mas também é outro longo assunto). 

D – "Mesmo que não seja Deus que tenha ordenado a pena de morte, o fato dela existir entre o povo governado por Ele é a prova que Ele não a rejeita e que a pena capital não é incompatível com o Deus que é amor (mas que também é justiça)" = Vejo vários problemas e contradições nessa afirmação. Pense: há sofrimento no mundo (e isso desde "sempre"), há estupros, assassinatos, torturas e muitas outras coisas horríveis. Logo, terá que supor (já que insinuou que se o Deus de amor fosse contra a pena de morte, Ele deveria ter proibido uma nação de aplicar essa pena) que Deus ama ou apoia o sofrimento, pois não acaba com ele e não proíbe que as pessoas cometam atrocidades. E mais: Deus foi supremo governante de uma nação (Israel)? Ou os povos que governavam uma nação atribuíam esse governo a Deus  (teocracia)? Se Deus era o supremo governante, como poderiam esses governantes humanos cometerem tantas falhas? Teocracia não é o governo de Deus e sim, em nome dEle. Até porque, se fosse governo divino, uma teocracia não cristã teria que ser também aceita como divina, logo, o politeísmo deveria ser reconhecido por todos. Mas se confundimos Deus com qualquer descrição ou revelação humana acerca dEle, realmente seguiremos um deus pequeno, relativo, com a nossa cara. Deus, por definição, tem que estar além de qualquer criatura. E se Deus deveria ter proibido a pena de morte por ser contra ela (segundo o raciocínio que critico), Ele deveria ter proibido também a poligamia, não? E vemos isso por toda a parte entre os hebreus/judeus. Salomão (o mesmo que construiu o primeiro tempo judaico “para Deus”) tinha muitas mulheres. Personagens bíblicos, que hoje “adoramos” contar suas histórias nos púlpitos, tinham condutas que hoje discordamos ou repudiamos e não vemos nos relatos bíblicos Deus os impedindo de realizar tais ações. Então será que por “Deus discordar”, Ele vai interferir diretamente, impedindo o que é errado? Se assim fosse, o mundo seria um paraíso. Então dizer que “Deus permite a pena de morte", só se for no sentido de "Ele não impede que o homem a pratique", assim como Ele não impede assassinatos, roubos, estupros e sofrimento. E será que, condenando abertamente a pena de morte, estou pretendendo criar um "padrão mais alto de bondade do que o de Deus"? Não, pois o padrão não é necessariamente meu (embora todo ser humano com empatia, ética e que respeita a dignidade humana tenderá a pensar não muito diferente disso). Mas estou, a princípio, colocando como padrão os relatos bíblicos que me apresentam Jesus, ou seja, Ele é esse "padrão divino". É com Ele que posso olhar para o mundo e identificar o que é de Deus e o que não é, o que é bom e o que é ruim, o que convém ou não, o que edifica e o que traz destruição. Não é Gênesis, Moisés, Abraão ou Davi o padrão. É Jesus. Essa é a radicalidade da fé cristã. Ele é o parâmetro que um cristão ortodoxo deveria acatar, sempre.  

E – "A pena de morte não existia só no tempo da Lei. Na dispensação da Graça ela também está presente, o que prova sua validade" = Recomendo a leitura do estudo completo (que já coloquei o link parágrafos acima) sobre Lei e Evangelho/Graça. Lá explico porque não vejo sentido nessa divisão dispensacionalista da história em “tempo da lei e tempo da graça”. De qualquer forma, realmente vemos referências à pena de morte no novo testamento, assim como vemos apoio à escravidão (mesmo que “branda”, “respeitosa”...), ao machismo e à total submissão feminina (mesmo que “em amor”) e até mesmo a visões diferentes da divindade de Cristo. Ou seja, não é porque está no novo testamento, que devamos seguir. Vejamos os contextos, motivações e objetivos de cada caso.

F – "Se um país estabelece a pena de morte, devemos aceitar, pois Paulo ensinou a não desrespeitar as autoridades" (Romanos 13) = Os que adotam esse argumento alegam que Paulo deixou claro que todas as autoridades vieram de Deus (a ponto de dizer que quem se revolta contra elas, se revolta contra Deus, atraindo condenação para si mesmo). Em seguida, o apóstolo diz que só devem temê-las os que praticam o mal e que os impostos devem ser pagos, pois os governos são “servidores de Deus”.  
     Há divergências interpretativas aqui. Alguns dizem que Paulo dizia não para obedecermos todas as autoridades em termos individuais ou todas as regras de forma específica. Se assume o poder um homem mau, que faz leis absurdas, não devemos obedecer e não significa que ele está ali porque Deus o colocou. Paulo estaria falando em termos gerais, que a autoridade, a estratégia de estabelecer um governo sobre cada nação é divino, embora um ou outro governante possa ser mau. Porém, caso essa interpretação esteja correta, então o texto não pode ser usado como argumento de apoio à pena de morte, pelo fato de alguns governos a instituírem. Quem garante que esse governo específico ou essa pena tem apoio divino? Vamos escolher o que nos convém em cada governo para dizer que “é de Deus”
     Outros, menos conservadores, alegam que pode ser que Paulo realmente pensasse assim, que devemos ser submissos (mesmo sendo contemporâneo a ao imperador romano Nero). Mas tentando não seguir uma mentalidade fundamentalista e bibliólatra (de idolatria à bíblia, sem analisar contextos e produção), reflita: Será que Paulo manteria essa opinião se tivesse escrito essa carta um pouco mais tarde, após Nero incentivar uma perseguição aos cristãos? Será que Paulo continuaria com esse discurso caso conhecesse Hitler e Saddam Hussein? Foram eles instituídos por Deus? E o que Paulo diria dos brasileiros protestando contra o ex-presidente Fernando Collor ou nas manifestações recentes contra o PT (Dilma)? Lembra que está escrito que “quem se revolta contra a autoridade, se opõe a Deus”? E mais: como os que defendem esse pseudoargumento de “pelo menos respeitar a pena de morte nos países que a adotam” são geralmente ultraconservadores, faço a eles uma pergunta bem desconfortável: caso esses mesmos países (ou o nosso) legalize a maconha, o aborto e o casamento homoafetivo, vocês continuarão com esse argumento de “não se rebelar contra as autoridades” ou mudarão drasticamente e hipocritamente de opinião? Governo legítimo para vocês é apenas aquele que defende seus pontos de vista e aquilo que lhes convém? Bem cômodo... E por que em países em que o islamismo é a religião oficial, com proibição a outras crenças, quando há um extermínio de cristãos (o que é lamentável) que insistem em fazer “missões” clandestinamente, vocês exaltam a coragem desses “mártires cristãos”? Não estão desobedecendo as autoridades? Quer dizer que esse ensino só vale quando a “teocracia” é cristã? Só quando convém a nós? Pense um pouquinho e note a parcialidade desse argumento. 
     Há ainda quem cite Atos 25, em que Paulo aceitaria passivamente uma eventual condenação à morte, como se essa ideia validasse esse tipo de pena. Só devo lembrar também a essas pessoas que o mesmo apóstolo não discordou em momento nenhum do machismo que imperava em sua época e tampouco condenou a escravidão (e hoje a abominamos). Ele apenas defendeu uma “escravidão menos maldosa” (como se existisse) e que os homens respeitassem de certa a forma as mulher. Diremos então que, como ele não condenou a escravidão propriamente dita, ela é válida? Usemos um mesmo critério, sempre, por questão de honestidade intelectual.
     Outro ponto que a maioria vai discordar (pelo fato de nosso país ser extremamente conservador), mas que é mais do que óbvio: Lemos que Jesus certa vez repreendeu Pedro (o mesmo que negou Jesus por 3 vezes), chamando-o de “satanás”; repreendeu Tiago e João, dizendo que eles nem sabiam de que “espírito” eram; Paulo discutiu e censurou Pedro... Diante disso, pergunto: os apóstolos são perfeitos? Ou, como cristãos, assumimos como único parâmetro perfeito, Jesus? Os apóstolos não erram? Se temos essas evidências de falhas humanas (da parte deles), que evidências temos de que todos os escritos deles são perfeitos? Será que as falas de Paulo em momento nenhum tinham influência de seus contexto sociocultural e não tinha nenhum componente que representava sua visão política? Seriam eles as exceções entre a humanidade, que escreveram sem expressar suas compreensões, sendo meros fantoches para escrever, palavra por palavra, o que Deus ditava? Não há nenhuma evidência para pensar que não havia componente humano em suas falas. Só há suposições teológicas conservadoras ingênuas “modernas”. Por que digo isso? Pois não pode aí ser uma mera opinião política de Paulo, que deve ser entendida dentro de seu contexto? Mas se quiser absolutizar também esse discurso de Paulo, como sendo divino, ok. Porém essa ideia não parece ser correspondente à realidade quando olhamos as inúmeras evidências à nossa volta. Aí você escolhe: se nada, nem as evidências explícitas que o cercam, pode lhe convencer que essa abordagem teológica não se sustenta, então seu compromisso não é com a realidade e sim, com uma opinião pré-concebida. Aí não tem porque dialogar. 

G – "Ananias e Safira sofreram pena de morte" = Em Atos 5 vemos um relato do casal Ananias e Safira, que caíram mortos aos pés de Pedro após venderem sua propriedade e mentirem à comunidade sobre o valor da venda, entregando só parte desse dinheiro aos apóstolos. É um texto polêmico, que merece uma discussão mais ampla em texto próprio. Aqui só quero adiantar que, se quiser ser bem conservador, o texto não garante que foi Deus quem matou o casal; ainda na mesma linha, poderia dizer que morreram por terem "blasfemado contra o Espírito Santo" (outra interpretação que considero equivocada, mas escrevi sobre a blasfêmia em outro texto - clique aqui para lê-lo). Mas se quiser ser mais realista, como eu, basta saber que esse trecho de Atos 5 é um acréscimo posterior, não sendo original, ou seja, não foi o autor do restante do livro (e do evangelho de Lucas) quem escreveu. Isso mesmo, alguém, posteriormente, encontrou um trecho perdido de algum texto antigo e encaixou nesse capítulo de Atos. Mas é longo assunto e tema para outro artigo. Enfim, penso que usar essa passagem bíblica como argumento de base para a pena de morte é pura ingenuidade.

H – "A Lei de Deus manda pagar com a mesma moeda" = Na lei mosaica (não confunda com “Lei de Deus”, como já expliquei) percebemos muitas vezes (nem sempre, como já vimos pena de morte para atos que hoje consideramos banais) a lei de talião sendo aplicada, ou seja, a ideia de punição retaliativa, proporcional ao crime. É o famoso “olho por olho e dente por dente” (Êxodo 21). Ou seja, se feriu, será ferido; será se matou, morrerá. É a mesma ideia defendida hoje em relação à pena de morte para crimes hediondos. Porém o próprio Jesus criticou essa ideia: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.” (Mateus 5:38-39). Sabemos que violência gera violência e vale aqui citar Mahatma Gandhi, que, neste ponto, discordava de Moisés e concordava com Jesus: “Olho por olho, e o mundo acabará cego”.

I – "O livro de Apocalipse ensina que quem mata deve ser morto" = O trecho em questão traz: "Quem tem ouvidos, ouça: Se alguém está destinado à prisão, irá para a prisão; se alguém deve morrer pela espada, pela espada terá que morrer. Nisto se firma a perseverança e a fé dos santos" (13:9-10). Sem contar que alguns chegam ao ponto de tornar absoluta e literal (pois é, ignorando totalmente a linguagem apocalíptica) uma interpretação do capítulo 14 (lembrando que há várias abordagens muito diferentes do livro, desde uma visão futurista, até uma visão preterista, que alega que o livro fala não do nosso futuro e sim, do futuro dos cristãos dos dias do escritor, ou seja, do nosso passado). Esses tais alegam que “Cristo virá pisar o lagar”, logo, muitos morrerão durante esse processo. Uma doutrina, no mínimo, com um fundamento bem fraco...
     Eu poderia aqui começar a discutir a canonicidade do livro do Apocalipse (para o escândalo dos irmãos fundamentalistas), dizendo que muitos dos ícones da história cristã (inclusive Martinho Lutero) não gostavam do livro. Poderia explicar que muitos desses homens defendiam que não deveria estar na bíblia, por não ter nada de inspiração divina. Poderia dizer que essa disputa foi árdua e por pouco, mas muito pouco, realmente não ficou de fora (entrou “por um triz”), só entrando por ter a sorte de os cristãos que possuíam maior influência terem “bancado” sua entrada. Poderia falar sobre a questão praticamente certa, de que o autor nada tem a ver com o apóstolo João e tampouco com o autor das epístolas ou evangelho de João.  
     Porém, mantendo os pés no chão do conservadorismo, para ser mais útil para a maioria dos leitores (que tem essa orientação): Esse trecho (capítulo 13) é muito polêmico e altamente discutível. Não tem uma interpretação simples, por dar margem a diferentes compreensões. Porém, ao que parece (e aí usei a tradução da Bíblia de Jerusalém, uma das melhores, senão a melhor, na minha opinião), significa que a igreja deve se manter firme diante dos perseguidores, aceitando a morte, se for o caso. E mesmo que esteja falando da morte dos perseguidores, a morte não seria gerada por uma guerra com os cristãos ou por penas dos nossos sistemas de governo. Então querer usar esse texto como base doutrinária e ainda de forma descontextualizada, é imprudente.

J - "Cristo não revogou a pena de morte do ladrão da cruz, embora o tenha salvado" = Que falácia infeliz. Claro que Jesus não o livrou da pena de morte, pois o próprio Cristo estava sendo vítima da pena de morte. Quem aplicou a pena foram os romanos e não, Jesus. Logo, concordando ou discordando, não seria Ele que, ali na cruz, libertaria o ladrão ou o conduziria a uma prisão. Lembre-se da parábola do filho pródigo, que após sair de casa, gastar toda sua herança com supérfluos, retorna miserável à casa do Pai, que o acolhe antes que ele peça perdão e confesse um arrependimento. Será que esse filho, diante de tanto amor e perdão, teria coragem de cair novamente na gandaia? Ou será que, constrangido diante de tanto amor, seria o mais fiel que pudesse a seu pai? Claro que ele jamais teria coragem de repetir o erro. E seguindo o mesmo raciocínio, pense no ladrão que se converteu na cruz, ao lado de Jesus. Será que, se a pena de morte fosse ali revogada, após essa consciência desenvolvida diante de Jesus, voltaria ao mundo do crime ou, como o filho pródigo, seria constrangido diante do amor e perdão, a viver de forma digna, seguindo a Jesus? 

K - "O salário do pecado é a morte..." (Romanos 6:23) = Certo, porém faltou citar o restante do trecho: “... mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna...”. Ou seja, descontextualiza de forma explícita, pinçando apenas o que é conveniente. O salário do pecado é a morte, mas não tem absolutamente nada a ver com o contexto de pena aplicada por um sistema de governo a algum crime. E mais: só o pecado do outro leva à morte? O meu, não? Eu, pecador, julgarei o outro pecador como digno de morte? Quanta hipocrisia. O famoso “ver o cisco no olho do outro quando tenho uma trave no meu”. Engraçado é que quando dizemos que Jesus veio trazer vida, esses ultraconservadores retruca: “Mas é vida eterna e não, vida terrena”. Porém na hora de pegarem a primeira parte do versículo que fala de vida eterna, tolamente (ou maldosamente) deixam esse argumento de lado, colocando a “morte” como terrena e como pena jurídica. Chega a ser cômico o nível intelectual do debate. 

L – Jesus e a mulher adúltera = Em João 8 encontramos o único relato mais direto sobre essa questão da pena de morte, envolvendo Jesus. Alguns negam-se a aceitar esse texto pelo motivo de ser, quase certamente, um acréscimo posterior (já que não consta em manuscritos mais antigos). Ou seja, esse relato belíssimo (um dos que mais gosto, por sinal) não teria sido escrito pelo escritor do Evangelho de João, tendo sido adicionado por algum escriba (mas é assunto para outro momento). Porém, mesmo não sendo um evento que podemos adotar com alta probabilidade de ter ocorrido, precisamos reconhecer que nos traz uma lição que é bem compatível com todo o contexto de vida que temos de Jesus. Ele pregava o amor, o perdão, a misericórdia, o socorro aos oprimidos e marginalizados, logo, diante de uma situação como essa não é de se estranhar que tenha tido a atitude de salvar a mulher do apedrejamento (e embora não fosse um crime hediondo, era digno de morte, segundo a Lei), deixando claro que todos ali eram pecadores (inclusive o homem que estaria com ela, que o relato não o menciona, “misteriosamente”, já que ambos deveriam ser apedrejados) e estavam agindo com parcialidade e hipocrisia. Temos aqui uma visão anti-morte, até porque o próprio Jesus disse que não veio para condenar, mas para salvar. 

M – “Não matarás” (Êxodo 20; Deuteronômio 5) = Esse texto é muito citado por pessoas que, como eu, são contrárias à pena de morte. Alegam que: como pode Deus ser favorável à pena de morte se Ele mesmo dá um mandamento para não matar. Porém devemos reconhecer um ponto: a palavra usada para “matar” aí, tem sentido mais de “assassinar”. Assim, alegam os defensores da pena capital, se aplica a assassinatos criminosos, à vingança pessoal e não, à formas de punição e de justiça. Entretanto vejo incoerência também aí, pois os mesmos que dizem que Deus mandou não assassinar, defendem que Deus matava pessoas a todo momento (como os garotos que caçoaram da careca de Eliseu), mandava os hebreus exterminarem povos rivais... Matar tribos inteiras, inclusive mulheres e crianças (“limpeza étnica”) não é assassinato? Que crime cometeram? O de terem o “azar” de não terem nascido hebreus e de não saberem que o Deus verdadeiro queria que eles saíssem do caminho do “povo de Deus”? Seja “não matarás” ou “não assassinarás”, continua sendo incoerente com uma série de relatos posteriores.  

N – Outros argumentos (bíblicos ou não) = Há outros argumentos usados pelos “justiceiros bíblicos”, mas são tão infantis que nem mereceriam citação. Porém farei isso de forma bem sucinta:

- Usam Mateus 5:25-26 para dizer que a pessoa deve “pagar até o último centavo”. Sinceramente não sei o que essa parábola tem a ver com pena de morte, se o próprio versículo diz que a pessoa não sairá da prisão ATÉ QUE pague tudo. Oras, se fosse para defender a prisão, ok, mas fico pensando como uma pessoa morta poderia sair da prisão com a dívida quitada.

- Um argumento ainda pior é quando Mateus 5:22 é usado: “Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito ao tribunal. Também qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’ [cretino, cabeça vazia], será levado ao Grande Sinédrio [de Jerusalém]. E qualquer que o chamar de renegado [insensato, idiota] estará sujeito ao fogo do inferno.” Aqui vemos Jesus justamente relativizando (aprofundando) a lei de Moisés (que apenas dizia “Não matarás”), pois ela defendia que apenas quem tirasse uma vida responderia no tribunal. Mas Jesus cita alguns tipos de ofensas (nenhuma de tirar a vida de alguém), mostrando que um coração com ódio e desejo de vingança já é muito pior do que um assassinato, como Moisés ensinava. E aqui temos mais uma evidência de que os 10 mandamentos não são “a lei eterna e imutável de Deus” (como eu expliquei em detalhes no texto “Lei e Evangelho”, cujo link já disponibilizei anteriormente neste texto), pois Jesus citou um mandamento e complementou com: “Isso é o que foi dito aos antigos, porém eu vos digo...” (e aprofundou a consciência dos ouvintes). Será que teria como aprofundar um mandamento divino, perfeito e imutável?

- Citam Marcos 9: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe prendessem ao pescoço a mó que os jumentos movem e o atirassem ao mar.” Novamente, não vejo nenhuma insinuação à pena de morte. O que está sendo dito é que escandalizar os pequeninos é algo que ninguém deve fazer, jamais. Nem como última opção na vida. Escandalizá-los é mais danoso e grave do que se a pessoa fosse atirada ao mar. Vemos aí uma comparação de gravidade de condutas e não, uma punição/pena (ser atirado ao mar) por ter escandalizado. Simples interpretação de texto. 

- “Deus apoia tirar a vida do criminoso, pois ele tirou de alguém a maior dádiva divina à criação: a vida” – citam alguns. Bem poético, mas desprovido de sentido. Primeiramente é contraditório com o restante dos argumentos dessas pessoas, pois defendem a lei mosaica, que previa pena de morte não apenas em casos de assassinatos (lembra dessa pena aplicada aos que amaldiçoam os pais ou que adulteram?). Logo, esse argumento não serve de base para dizer que Deus apoia a pena capital. Segundo que, se isso fosse verdade, seria como se Deus dissesse ao criminoso: “Você cometeu um assassinato, que é algo que eu abomino. Então vou punir você! E sabe como? Assassinando (ou autorizando alguém a assassinar em meu nome) você, ou seja, cometerei contra você o que eu mesmo abomino, a fim de que você aprenda a não fazer o que eu também vou fazer”. Uma ideia infantil (e que mostra um deus contraditório e hipócrita), que nem merece mais comentários. Só quero dizer que, caso pena de morte trouxesse a vítima de volta, eu poderia até pensar na possibilidade de apoiá-la. Porém ela não resolve problema algum. É apenas uma punição maldosa e definitiva contra um criminoso e que não permite uma correção de nosso julgamento, caso cometamos algum equívoco. Para impor a pena de morte, temos que estabelecer parâmetros, ou seja, escolher quais crimes são passíveis dessa punição e quais não são. Ou seja, com base em nossos critérios imperfeitos, relativos, parciais, vamos determinar quem merece ou não viver (justamente o que criticamos nos casos de aborto, certo?). O que vejo nesse clamor pela pena de morte é um desespero diante da violência que se alastra; é um atestado de incompetência nossa, que ao não conseguir (na verdade nem tentar) resolver o problema, queremos agir depois do crime já cometido, a fim de dar uma ilusão de justiça. Isso tudo na verdade é apenas um desejo de vingança, em que nossos “instintos” animais mais primitivos superam a razão e assim, exterminando quem nos ameaça, nos sentimos mais seguros (mesmo que as estatísticas nos mostrem que estamos equivocados).

- “Mataremos um bandido para ele não matar inocentes” = Esse argumento é mais do que “furado”. Se a justificativa para a pena de morte é que isso impediria o bandido de causar outra morte, porque a prisão não é suficiente? Estando preso, matará quem? Não adianta disfarçar: o desejo é de ver sangue derramado como vingança; é o prazer de ver a morte do nosso inimigo, daquele que nos prejudica. Isso nos faz sentir parcialmente realizados. Um sadismo com uma capa de justiça. Não é a toa que os que defendem esse tipo de coisa são os mais radicias em termos de crer em um deus vingativo, que está todo eufórico para punir eternamente (de preferência em tachos de fogo, com espetadas de garfo nas nádegas) quem não faz exatamente o que ele deseja. E pensar que Jesus ensinava justamente contra essa mentalidade. Nos mostrava o poder do perdão e do amor, inclusive aplicado a nossos inimigos... 

- “Pena de morte não reduz criminalidade, mas nenhum que teve essa pena matou mais alguém” = Essa é a típica fala bonita, que deixa excitada uma plateia ingênua, mas que novamente, é vazia e demonstra apenas ódio e ignorância. Novamente, se é para não matar mais ninguém, basta uma reclusão (prisão), que não apenas isola o presidiário, como também pode promover uma tentativa de ressocialização e o desenvolvimento de trabalhos por ele, não gerando custos ao Estado e ainda gerando um lucro para a família do criminoso ou para ele mesmo, quando eventualmente cumprir a pena e for tentar recomeçar a vida. Mas repito: essa frase só mostra que quem a defende até “saliva” de desejo de vingança. É uma mentalidade pré-histórica, de “brucutus”, de animais quase que totalmente irracionais, com todo respeito a quem a cita. 

- "Dizer que Deus é contra a pena de morte é dizer algo que não está na bíblia" = Oras, “Deus é a favor da pena de morte” também não está na bíblia. O que as pessoas fazem é supor, descontextualizando registros bíblicos, que Deus é a favor de tal pena. Mas basta bom senso: quase tudo o que fazemos ou pensamos não está na bíblia. E com base em que podemos afirmar que tudo o que pensamos ou defendemos tem que estar na bíblia? Ela própria nunca atribui a ela mesma esse papel. Isso é uma premissa cristã fundamentalista absurda. Quer dizer que antes do século IV, quando não havia ainda bíblia, ninguém tinha um parâmetro para viver? Abraão é chamado de "pai da fé" e viveu antes de qualquer escritura. E mais: que Deus não é favorável à pena de morte não está de forma explícita na bíblia (assim como não estão a maioria das alegações conservadoras cristãs que vejo atualmente), mas de forma indireta está muito clara em Jesus. Por exemplo, não está na bíblia uma condenação ao aborto, mas nesse caso os mesmos que me criticam aqui não tem dificuldades em condená-lo, usando a bíblia, com a alegação de defesa da vida, entre outras coisas. Porém quando essa mesma vida embrionária se torna adulta e criminosa, aí é permitida uma pena de morte a ela, pois esse bandido deixou de ser uma vida? Como assim?

- “É a lei da semeadura: plantou, tem que colher” = Outro argumento facilmente refutável. Usando a própria bíblia, de onde as pessoas tiram essa citação: no relato do Gênesis, Caim mata seu irmão e Deus o pune com a morte? Não! Ao contrário, diz que o protegeria dos que tentassem matá-lo (aplicando uma “pena de morte”). É uma enorme lição aos que gostam de colocar Gênesis como parâmetro de vida. Ou o livro só serve, neste assunto, para dizer que Deus instituiu a pena capital, que que isso lhe convém? Davi planeja a morte de um dos seus, a fim de ficar com sua mulher e Deus o mata? Não. Ainda é chamado de “homem segundo o coração de Deus”. Paulo (Saulo) persegue muitos cristãos e é morto por isso? Não! Vira o principal responsável pela disseminação do cristianismo e autor de vários livros de nossa bíblia. E você ainda quer usar a mesma bíblia para defender o contrário? E além desses exemplos, olhe para sua volta e seja sincero: todas as pessoas colhem o que plantam? Não conhece ninguém que sempre foi boa pessoa e hoje está sofrendo? Não conhece ninguém que sempre foi má pessoa e hoje está com uma vida boa? o que semeou uma criancinha que nasce com graves problemas físicos ou mentais? O que semeou aquela pessoa gente boa que dentro de casa é atingida por um raio? O que semeou aquele pai de família honesto e trabalhador que, dormindo, tem a sua casa invadida por um bandido que rouba, estupra o filho dele em sua frente, depois estrangula a criança e a esposa e ainda espanca esse pai?  A "lei da semeadura" explica muito, mas não explica tudo. E mesmo que todo mundo colhesse o que plantasse, não deveria ser você o responsável pela colheita, afinal, lembra-se do famoso texto bíblico em que Jesus diz que não devemos arrancar o joio que está entre o trigo? 

     Outro ponto que me incomoda nessa questão é que boa parte dos defensores da pena de morte são cristãos conservadores, sendo assim, pregam todo domingo que Deus cura, liberta e transforma vidas. Isso é bem contraditório, pois se há uma crença em transformação divina do ser e em milagres, por que os mesmos argumentam que para quem comete crimes hediondos não há solução? Que “fé” é essa? Se Deus pode transformar um bandido da pior espécie em um grande “homem de Deus”, por que tirar a vida de alguém que poderia ser um desses milagres? 

     Outras razões que me impedem de aceitar a pena de morte:
1 – Muitos inocentes são mortos. Nenhum sistema judiciário no mundo, por melhor que seja, é perfeito. Sendo assim, inocentes são mortos em todo lugar e na maioria desses casos, nunca ficaremos sabendo que eram inocentes. Vez ou outra, casos de condenações injustas são mostrados na mídia, mas as condenações indevidas que nunca serão provadas são certamente em número muito maior. E se a prisão de um inocente já é muito danosa, imagine uma pena de morte. A prisão, pelo menos, tem possibilidade de ser revista e a vítima indenizada. Mas e a pena de morte? Como voltar atrás?
     Triste é ver a maldade de alguns ao afirmar: “Inocentes são condenados em menor número do que morrem as vítimas dos verdadeiros criminosos, então no geral é benéfico à sociedade”. Uma pessoa que defende isso, pra mim, não é digna de respeito algum. É uma escória da sociedade. Perceba a incoerência: estamos falando DE INOCENTES que morreriam por causa da imperfeição do nosso aparato judiciário e os ultra-conservadores os comparam a BANDIDOS que matam inocentes. Como assim? O que estão dizendo é: "vale a pena alguns inocentes morrerem por engano, desde que muitos culpados sejam extintos, o que salvará muitos inocentes". Desculpem-me, mas minha consciência não me permite matar nenhum ser humano de forma premeditada. É, pra mim uma questão de caráter, de amor ao próximo, de empatia. Mas para os tais vale o risco, ou melhor, as mortes injustas que certamente ocorrerão? Quer dizer que pra você, defensor dessa pena, vidas humanas são apenas números? E se, com a pena de morte, morresse apenas um inocente e milhares de vidas fossem salvas, porém essa única morte envolvesse você ou sua mãe ou um de seus filhos? Seja honesto e sincero: continuaria com essa opinião? Aí certamente clamarão por justiça. É a hipocrisia humana... Lembre-se: uma coisa é um assassino matar alguém sem que você consiga evitar, outra é você assumir o risco de matar. Isso não é “pena capital”, é homicídio doloso (com intenção de matar; crime premeditado)!
     E um “detalhe”: já pensou que você está no Brasil? Um país em que a justiça (se é que existe) é mais do que falha e injusta? Raramente um rico e poderoso vai para a cadeia, não importanto o crime, mas uma mãe desempregada e desesperada, que rouba um pacote de macarrão pra alimentar os filhos, não escapa de ficar bom tempo atrás das grades. Já pensou que a pena de morte só seria aplicada a bandidos pobres? Os ricos, com seus maravilhosos advogados, adiariam por décadas seus julgamentos. Que direito de igualdade à vida seria esse? Vale lembrar que no Brasil há pena de morte prevista na Constituição, mas é algo muito específico e restrito a crimes militares durante eventuais guerras. Sem contar a “pena de morte indireta”, imposta a pessoas que dependem de saneamento básico deficiente e de um sistema de saúde que em muitos locais está falido, condenando-as à morte sem oportunidade de um tratamento médico adequado.
     "Realmente no Brasil pode não funcionar bem, mas duvido que na indonésia entre algum brasileiro novamente com drogas na mala, já que há um tempo um traficante brasileiro foi morto" – dirão alguns. Será? Se isso fosse verdade, a fila de criminosos para execução não existiria. Certamente quase todos os que cometem crimes em países que possuem pena de morte conhecem as leis do país. Seria ingenuidade nossa pensar assim, além de total ignorância da história e das evidências. Analise os índices de criminalidade dos países com pena de morte e veja se esse é o caminho que está apresentando os melhores resultados.

2 – Somos hipócritas e praticamos o que condenamos =  O nosso cristianismo já matou “hereges”, cientistas e “bruxas”. Lembra da famosa Inquisição? E das Cruzadas? E da Reforma protestante (quem nem sempre era pacífica como seria esperado de um “movimento inspirado por Deus”)? Da mesma forma, o judaísmo matou muitos “pagãos” (e muitas dessas mortes são testemunhadas pela bíblia). O islamismo fez e faz o mesmo. É um fenômeno humano (psicologicamente compreensível) a censura e a violência contra quem ameaça ou impede a expansão de nossos projetos de poder. E repare nas mortes provocadas pelas três grandes religiões monoteístas: tudo era (ou é) feito em nome da “defesa da fé”, “em nome de Deus”. Todos temos um “telhado de vidro”.
     Defendemos a pena de morte até que nós estejamos ameaçados por ela. Condenamos a pena de morte quando um grupo muçulmano mata um cristão. Achamo absurdo. Protestamos nas redes sociais, colocamos fotos (muitas delas falsificadas, referentes a casos que nada tem a ver com o fato), exigimos justiça... Porém eles tem as justificativas deles e usam interpretações do Alcorão para tal (assim como você usa sua interpretação bíblica para condenar à morte alguns tipos de criminosos). Mas, hipocritamente, nos damos ao direito de condenamos quem achamos que merece e criticamos os que fazem os mesmos com seus “livros sagrados”? Pense: se você tivesse nascido em um país islâmico, provavelmente faria o mesmo que eles estão fazendo. A mentalidade é a mesma, apenas muda o lado do debate. 

Conclusão
     Praticamente todas as nações desenvolvidas já aboliram essa pena, sendo que os melhores países para se viver (inclusive em termos de segurança) são os que focam seus esforços na educação e não, na punição. Oferecer condições, desde antes do nascimento, a uma pessoa de ter uma vida saudável, com acesso a todos os serviços essenciais, a uma família estruturada, a uma educação de qualidade, aprendendo desde pequena a desenvolver suas capacidades humanas mais nobres, deveria ser o que determina nossa direção. Porém essa luta é algo que só dá frutos a longo prazo, sendo que nossa geração dificilmente colherá esses frutos. E com uma mentalidade humana egoísta, em que as pessoas não pensam nos filhos, netos e futuras gerações, difícil é montar um governo com esse objetivo. Não é algo que aparece na mídia, a população não se surpreende, logo, não rede votos nas eleições. Melhor é, ao invés de dedicar esforço e recursos para essas questões, mostrar à população que algo que a beneficiará a curto prazo está sendo feito. Atacar a “doença”, a fonte do problema não é viável dentro dessa mentalidade. Melhor, para eles, é combater os “sintomas”, que nada resolvem, mas que dão uma ilusão de que o mal está sendo combatido e vencido; uma sensação de segurança e de justiça. Preferem ganhar batalhas (curto prazo), em vez de vencer a guerra. 
     Alguns dirão: “A maioria das pessoas que vivem às margens da sociedade não são criminosas". É verdade, mas não falo aqui de consequência certa; falo de aumento de probabilidade. Escrevi sobre isso nesta curta reflexão: "A vida é feita de escolhas. Será?" (clique para lê-la).
     Precisamos entender que esse nosso desejo de justiça não passa de uma manifestação de um “instinto” primitivo: desejo de vingança. Basta ver os linchamentos promovidos quando um criminoso é flagrado. Nosso lado “animal irracional” aflora nos momentos de ira e de trauma. Não é a toa que aprendemos o famoso ensino bíblico: “Irai-vos, mas não pequeis” (Efésios 4). Auto-controle, disciplina, equilíbrio não são coisas simples. Não é a toa que são destacados como “frutos do Espírito”. Por isso a importância de julgar com “a cabeça fria”, usando a razão ao invés da emoção. É quase certo que o mais pacifista ficará no mínimo confuso diante de um assassinato brutal de alguém de sua família, pois ali nossa emoção, sentimentos e instinto de sobrevivência ficarão abalados. Quem hesitaria em tirar a vida de um bandido se percebesse que em alguns segundos ele tiraria a vida de um filho nosso? Ninguém, certamente. Não serei hipócrita para dizer o oposto. Não condenaria um pai de família (ou um policial, durante o trabalho) que agisse em legítima defesa. Porém aqui me refiro a análise racional, imparcial, fria, a fim de estabelecer uma conduta geral para a humanidade. Premeditar algo (como pena de morte)? Jamais!
     Não estou dizendo que, seguindo o caminho que defendo (de educação e de acesso pleno de todo ser humano a tudo que uma vida digna requer), não teremos mais violência ou crimes hediondos. Teremos sim, mas em número drasticamente inferior, com uma redução muito superior a qualquer ação no tipo ou idade de aplicação de penas. Essas atrocidades não ocorreriam nos casos que são motivadas por questões econômicas/sociais. Não teríamos mais o garotinho escolhendo entrar pro crime por ter uma capacidade fraca de juízo (por ter uma péssima educação, quando tem) e vendo os pais passando fome e o traficante cheio de dinheiro, com muitos carros e mulheres. Os crimes hediondos seriam, a grosso modo, apenas oriundos daqueles doentes mentais, como os que tem transtornos de personalidade (ex: psicopatas). Porém, com uma educação de qualidade e amplo acesso ao sistema de saúde, esses transtornos já seriam diagnosticados na infância, permitindo medidas que reduziriam a probabilidade de cometerem um crime grave. Percebe que uma coisa leva à outra e quando atacamos o problema na origem é possível, teoricamente, controlá-lo? Não gosto de tornar a discussão rasa, dizendo que “sou contra a pena de morte porque defendo a vida”. Essa é uma alegação vaga, com pouco ou nenhum sentido. São várias questões que, somadas, me impedem de defender essa pena.     
     Mas, nessa minha proposta, como fica a situação da violência enquanto novas gerações de crianças não são formadas? Simples. Sempre deverá existir um sistema para remediar os crimes que ocorrem. Nunca chegaremos a zero de criminalidade. Porém defendo uma estrutura carcerária não meramente punitiva, mas que busca realizar, com eficiência, uma tentativa de ressocialização de cada presidiário. Não é prender para isolar e sim, para tentar recuperar. Todos conhecemos casos de pessoas que cometeram erros na vida, foram presos e depois continuaram com suas vidas de forma digna. Já imaginou quantos outros teríamos se nosso sistema fosse realmente eficaz? Claro que não tenho a ilusão de que 100% dos condenados seriam recuperados. Alguns são, como os psicopatas, a meu ver, sem recuperação. E a esses, devidamente julgados e diagnosticados, ficariam em reclusão, até mesmo de forma “perpétua”. Porém, todos os presidiários teriam atividades que ocupassem suas mentes e que desenvolvessem suas habilidades. Eles se sentiriam úteis para a sociedade, pois produziriam mercadorias diversas, que seriam consumidas por eles, vendidas e o lucro não apenas cobriria os gastos que geram, como também poderia ser enviada parte para a família ou até mesmo seria depositada para que, ao final da pena, quando saíssem tivessem um dinheiro para recomeçar a vida. Isso é estímulo e tentativa de recuperação e não, meramente isolá-los, fazendo dos presídios meras escolas de criminalidade.  
     E quanto ao aspecto religioso: não vejo um Deus que é amor, ensinando em Jesus a empatia (o se colocar no lugar do outro) e o perdão, defendendo pena de morte. E vale destacar que esses princípios éticos, bem como o respeito à vida e à dignidade humana, precedem qualquer tradição ou religião – tanto que,se assim não fosse, os “ateus" seriam uns “diabos” de gente, todos psicopatas. Respeito o direito de cada um querer tornar absoluto qualquer parâmetro humano ou religioso, mas enquanto os parâmetros ferirem esses princípios básicos, inerente a toda consciência que tem empatia, lutarei contra eles. E acha que eu não deveria lutar contra um governo que comete algo que considero anti-ético ou que desrespeita meus princípios? Então porque os que me criticam, geralmente cristãos conservadores, lutam contra o governo quando acham que ele está defendendo causas LGBT , pró-aborto e a favor de liberação de drogas ilícitas? Só vocês podem? Desculpem-me, mas nossos direitos são iguais.
     Então, digo aos da fé: se você é cristão, por definição seu parâmetro deve ser Cristo. E a única pena de morte que podemos ver em Jesus é a que Ele mesmo sofreu (pelo método tradicional dos romanos – a crucificação) e não, a que Ele causou ou defendeu. Quando se referia a outros, nos é apresentado um Jesus que dizia em alta voz: “Não vim para julgar/condenar o mundo e sim, para salvá-lo” (João 3:17; 12:47). Até no momento da morte, conta-nos o evangelista que ele repreendeu um dos seus, que pegou uma espada para defendê-lo (Mateus 26).
     Porém, se você deseja continuar defendendo a pena de morte mesmo diante de tantas evidências que nos levam a outros caminhos, está atestando que seu compromisso não é com a realidade e tampouco com a melhora do mundo em que vive. Se não está disposto a se abrir para ser convencido por argumentos mais consistentes, realmente não haverá possibilidade de acordo e nem de diálogo. Vote, nas eleições, em candidatos que defendem essa pena e torça para ninguém que você ama ser uma vítima do que você mesmo ajudou a provocar. Só não lamente depois que o leite, ou melhor, o sangue, for derramado. 

     “Apoiemos a pena de morte e seja o executor aquele que não possuir nenhum pecado” (paráfrase minha, a partir da história bíblica de João 8, envolvendo Jesus e a mulher adúltera). 

Autor: Wésley de Sousa Câmara
17/03/2016

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