29 de mar de 2016

Todos relativizamos a bíblia. Quais são os seus critérios?


     Inicio este texto afirmando categoricamente: “Toda pessoa relativiza a bíblia; o que varia é o conjunto de critérios adotado por cada um”. E quando digo algo óbvio assim, imediatamente os cristãos fundamentalistas dão um pulo da cadeira me xingando de “mentiroso” e de “herege”, afinal, eles tem a ingênua ilusão de que seguem a genuína Palavra de Deus (ou o “evangelho puro e simples”), revelada diretamente a eles pelo Espírito Santo. Pois bem, vejamos então porque isso faz sentido e o que me leva à convicção de que é impossível não relativizar a bíblia:

1 – A própria origem da bíblia já é fruto da relativização de textos antigos, inclusive todos aqueles tidos como “escrituras”. Entenda  seguinte: a bíblia surgiu no quarto século da nossa era (cerca de 300 anos após a morte de Jesus e uns 200 anos após o último livro que nela encontramos ter sido escrito). Os segmentos dominantes (ortodoxos) da época eram os que representavam a posição oficial da Igreja e graças a eles (por questão de preferência, conveniência e interesses diversos), após muita briga foram escolhidos quais livros fariam parte da bíblia e quais ficariam de fora. Essa decisão nunca foi unânime (livros como o Apocalipse de João entrou “por um triz” na bíblia e o Apocalipse de Pedro por pouco não entrou) e até reformadores como João Calvino e Martinho Lutero, 1200 anos depois, ainda discordavam de alguns livros considerados parte do “Canon Sagrado” (por exemplo, Lutero chamava a epístola de Tiago de “carta de palha”). Então a seleção do que era “inspirado” ou merecedor de fazer parte da bíblia foi uma escolha contextual e se outros grupos cristãos tivessem vencido o debate (ou se a compilação dos livros na bíblia tivesse ocorrido um século antes ou depois), certamente hoje nossa bíblia não teria alguns livros que conhecemos e teria outros que consideramos “não canônicos”. Percebe então que o próprio processo de formação bíblica já é fruto de relativizar muitos textos que grupos cristãos antigos consideravam sagrados? Relativizaram uns e absolutizaram outros. E nem entrarei na questão das diferentes tradições envolvidas na escrita de alguns livros e que posteriormente foram compiladas, mescladas e selecionadas por alguns autores, dando o aspecto final, semelhante ao que conhecemos. Mas é assunto mais complexo, para outro momento.

2 – Ninguém aceita a bíblia de forma 100% absoluta ou totalmente literal. E isso evidencia que todos a relativizamos em maior ou menor grau e de diferentes formas. E para evidenciar, darei alguns óbvios exemplos:

- Mateus 18:08 = “E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno". Você já viu alguém amputando ou extraindo uma parte do corpo por esse membro o “fazer pecar”? Eu também não.
- Marcos 10:21 = "Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me". Não vejo praticamente nenhum cristão fazendo isso, quanto mais seus líderes. “Ah, não era literal...” “Não significa que devemos também seguir esse ensino dado ao jovem rico...” – são as relativizações que os que criticam os que assumem que relativizam, promovem.
- Poderia ainda citar os cristãos relatados no livro dos Atos (que nós adoramos idolatrar como sendo “exemplares”), que colocavam tudo o que tinham “aos pés dos apóstolos” (Atos 4). Ou quem sabe a recomendação de tomar vinho diante de problemas estomacais (o mesmo vinho que era recomendado não consumir em excesso, a fim de não gerar embriaguez, ou seja, alcoólico) – I Timóteo 5.
     Ou seja, quando convém a nós, determinado texto passa a ter sentido figurado, enquanto outros tem que ser literais. Bem cômodo e desonesto de nossa parte.

3 – O que nos faz achar que o Velho Testamento está repleto de arquétipos, alegorias, simbolizações, referências e profecias apontando para Jesus, senão uma releitura dele feita pela ótica cristã/neotestamentária? Isso mesmo. Quando olhamos para o Antigo Testamento (por exemplo: para uma palavra de um profeta) e vemos ali referência a Jesus estamos fazendo uma relativização do texto, da intenção do autor, afirmando que ali ele queria dizer o que nós pensamos ou desejamos que seja. Não estou entrando nos méritos se isso é historicamente correto ou não, mas que é uma relativização, isso é.

4 – Se você ignora totalmente a linguagem apocalíptica e acha que o livro descreve de forma literal (inclusive com os monstros assustadores) acontecimentos futuros, está relativizando uma tradição judaica antiga a fim de tirar o significado original dessa linguagem para atribuir um que você entende hoje como correto. Se você entende o livro como uma referência a acontecimentos passados (como a abordagem preterista), está relativizando o livro, encaixando-o exclusivamente nessa abordagem. Se você o enxerga de forma futurista, como essa abordagem teológica recente, mas que se tornou predominante no meio protestante, achando que ele descreve os eventos que ocorrerão nos últimos dias, está relativizando  igualmente com sua abordagem. Não tem como fugir.

5 – Se você tenta conciliar pontos até opostos nas escrituras, dizendo que são complementares, ou fazendo um malabarismo exegético/hermenêutico (interpretativo) para que não soe contraditória, estará relativizando a ideia original do autor e da tradição envolvida. Se tentar conciliar os ensinos de Moisés com os de Jesus, estará fazendo uma enorme relativização. O mesmo ocorrerá se rejeitar qualquer preceito da lei judaica (como pena de morte aos filhos desobedientes, aos adúlteros e aos homossexuais; ou ainda rejeitar se aproximar da sua “impura esposa” nos dias de sua menstruação). Quando convém damos um jeitinho de relativizar hipocritamente alguns trechos, não é verdade?

6 – Quando você tenta fazer com que divergências de relatos (de compreensões de diferentes autores bíblicos) não existam, você estará relativizando o que lá está sendo dito com base em uma suposição sua. Por exemplo, quando os quatro evangelhos descrevem diferentes seres (em número ou em essência) no túmulo de Jesus (seriam anjos? Homens? Quantos?), para você tentar fazer com que os quatro relatos sejam harmônicos, terá que criar uma quinta possibilidade/hipótese (que nem está na bíblia) a fim de não haver nenhuma contradição. Pura relativização dos evangelhos...

     Entenda: Qualquer parâmetro adotado para interpretar a bíblia é relativizá-la. Dizer que o Espírito Santo revela a correta interpretação da bíblia é relativizá-la com base nessa suposição humana. Aplicá-la a um contexto nosso é relativizá-la. Dizer que algo dela não se aplica a nós é relativizá-la. Interpretar tudo dela literalmente é relativizar a exposição dos autores, restringindo qualquer possibilidade de intenção alegórica, figuras de linguagem ou linguagens típicas desses povos (como a linguagem mítica ou apocalíptica).
     A própria adoção da bíblia é uma relativização, pois estará restringindo o “Cânon Sagrado” ao que a Igreja determinou a alguns séculos. Ou seja, você está absolutizando a escolha da Igreja, assumindo que ela foi perfeita na relativização dos textos antigos, determinando o que era “escritura inspirada” e o que não era. E aceitando as descrições da forma como a bíblia nos traz estará relativizando os fatos pela descrição do autor (que muitas vezes nem estava presente).
     Se não reparou o óbvio, resumo a você: não importa sua abordagem, não tem como escapar de relativizar a bíblia.
     Uma parte do preconceito quanto ao termo “relativo” ou “relativizar” é que as pessoas confundem com “relativismo”, que à grosso modo, pode ser dito que é a ideia de que não há uma realidade ou verdade objetiva. Uma ideia que nos lembra muito a abordagem pós-modernista de que “não há fatos; há apenas interpretação de fatos”, ou seja, a ideia de que algo pode ser verdade se a pessoa em questão o tem como verdade. Eu, ao contrário, defendo que a realidade está lá e é imutável, independentemente do que pensamos. A verdade existe e é objetiva e, embora nunca cheguemos à compreensão total dessa realidade objetiva, podemos chegar na verdade em muitos aspectos ou questões pontuais. E no que diz respeito à teologia, defendo no dia a dia uma abordagem “moderada” que coloca como parâmetro o que nos é apresentado, em linhas gerais, sobre a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, tomo ele como modelo, como referência de “verdade” (assumo a fala dEle: “Eu sou o caminho, a VERDADE e a vida...”). Assim, procuro relativizar toda a escritura e a teologia nos princípios gerais que vejo nEle. Portanto, não venha me rotular de “relativista”.
     Se você afirma que “a bíblia é a Palavra de Deus,absoluta  inspirada, infalível, harmônica, inerrante e suficiente” está promovendo uma relativização dela com base nesses princípios teológicos “recentes”. Ou seja, cria algumas premissas e faz a bíblia se encaixar neles (relativizando inclusive todo o complexo processo histórico de produção e formação da bíblia). Relativiza toda influência humana, as particularidades de várias tradições e autores, a fim de que tudo ela seja o que você gostaria que fosse (embora nela mesma nunca haja sequer uma afirmação de que ela tem essas características ou essa função). Entende agora que até mesmo o mais fundamentalista cristão relativiza a bíblia? A única diferença entre cada um de nós é que cada um segue critérios diferentes para promover essa relativização. Então pare de criticar alguém apenas por ele relativizar a bíblia de forma diferente que você. Tire a trave do seu olho antes de falar do cisco no olho do seu próximo.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
29/03/2016

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