2 de abr de 2016

Está na bíblia, logo, está provado?


     Muitos tem uma visão extremamente superficial das coisas quando o assunto é história cristã. Sabemos que a história (não apenas a cristã) é algo não baseado em provas (ao contrário da física ou da química, por exemplo, em que uma afirmação pode ser testada através de experimentação). A história analisa eventos que, uma vez ocorridos, não voltam atrás. Apenas falamos dela de forma retrospectiva, tentando reconstruir os acontecimentos através de evidências. E o que são evidências? Podem ser relatos, testemunhos, registros escritos, documentos, fotografias, filmagens...
     Por exemplo: alguém me diz que ontem tomou suco de maracujá no almoço. Tenho como provar? Não, pois não posso realizar um estudo científico comprovando tal afirmação. Mas posso decidir acreditar ou não de acordo com as evidências que tenho. E cada tipo de evidência oferece um “peso diferente”. Se essa pessoa chega com um laudo médico emitido após uma realização de análise bioquímica do conteúdo digestivo, bem como de substâncias no seu sangue, isso terá um peso muito grande; se ela me traz vídeos de câmeras independentes, que especialistas atestam sua autenticidade, mostrando que essa pessoa estava ingerindo suco aparentemente de maracujá, terá um peso enorme; se essa pessoa traz dez testemunhas que presenciaram o fato, terá um peso, porém menor do que os anteriores (afinal, elas podem ter um interesse por trás dessa confirmação ou quem sabe podem ter se confundido); se a pessoa traz apenas uma testemunha, o peso é ainda menos significativo. Se não há testemunhas e apenas a própria pessoa estava lá no momento em que supostamente ingeria o suco de maracujá, a evidência terá ainda menor peso (afinal, ela pode ter inventado essa história, pode ter tido um delírio, pode ter se confundido...). Percebe que não é tão simples reconstruir o passado? Não existem provas sequer de que Lula foi presidente do Brasil, mas temos tantas evidências, documentos, imagens e testemunhas que isso é considerado um “fato inegável” por qualquer pessoa informada e mentalmente sem deficiência. Porém conforme vamos nos afastando na linha do tempo, nos aprofundando no passado ou conforme mudamos o foco para acontecimentos menos relevantes, as evidências se tornam cada vez mais limitadas. Por exemplo, quando Jesus nasceu? Não sabemos, mas podemos saber com relativa certeza a data de nascimento de nossos pais. Temos documentos, testemunhas oculares vivas que nos dão relativa certeza dessas informações.
     Por que eu disse isso tudo? Pois muitos cristãos (a maioria) abre mão dessa visão crítica das coisas quando o assunto é fé ou bíblia. Elas partem de um pressuposto raso e acrítico: “se algo está na bíblia é verdadeiro e ponto final”. Ou seja, a “prova” para elas é estar na bíblia”. Porém, se questionamos sobre o processo que cada teto passou até chegar em nossa bíblia, raras pessoas, entre essas, responderão corretamente. Em outras palavras: fazem alegações sem ter uma fundamentação sólida. Elas não entendem sequer que, para alimentar essa premissa (de que “é verdade por estar na bíblia”), precisam distorcer as evidências, negando que na própria bíblia há informações divergentes sobre um mesmo evento. Pense comigo: se algo é verdadeiro simplesmente por estar na bíblia, quando ela nos dá duas possibilidades de enxergar um acontecimento, como entenderemos tal situação?
     Se prezarmos pela realidade e pelas evidências, diremos o seguinte: “Penso que algo aconteceu de tal forma por ter evidências que julgo suficiente de que foi assim, sendo tal trecho bíblico uma dessas evidências e sendo essa evidência confiável ou relevante por tais motivos”. Percebe a diferença? Por exemplo: Jesus existiu. Isso é inegável para qualquer pessoa que preze por evidências (não importando se ela tem fé ou não – e é um fato negado apenas por adeptos de teorias conspiratórias e pseudocríticos, como os chamados “miticistas”), já que as temos dentro e fora da bíblia. E quanto a dizer que “Judas era um discípulo traidor de Jesus que se suicidou por enforcamento”. Ora, essa é uma informação muito menos suportada por evidências (embora seja possível), tendo divergências de relatos até mesmo dentro da própria bíblia.
     Quando tentamos uniformizar tudo o que temos na bíblia, cometemos um erro infantil: ignoramos todo seu processo de formação (incluindo seu processo de escrita, de edição, de transcrição, de tradução e de compilação). Tornaremos absoluto o que está ali diante de nós, como se tudo tivesse caído pronto do céu. Um exemplo nos ajuda a evidenciar essa questão: quando a bíblia foi finalmente compilada, ou seja, quando os grupos dominantes da Igreja (ortodoxos) oficializaram quais livros entrariam no “Cânon Sagrado” e quais ficariam de fora, gerou descontentamentos. Alguns grupos de cristãos consideravam sagrados e divinamente inspirados outros livros que hoje chamamos de “apócrifos”. Outros consideravam apócrifos livros que estão em nossa bíblia. O Apocalipse de João era rejeitado por algumas igrejas; o Apocalipse de Pedro era aceito por outros cristãos. E aí, como fica? Se algo é tido como certamente verdadeiro por estar na bíblia, o que valida um relato não é se de fato ocorreu como descrito e sim, se foi aceito em determinado momento pelos segmentos dominantes da Igreja? O Apocalipse de João está na bíblia, então diremos que é verdadeiro. Mas ele entrou no cânon “por um triz”. E se tivesse ficado de fora? De 100% verdadeiro se tornaria 100% falso? O mesmo raciocínio vale para o Apocalipse de Pedro, que quase entrou na bíblia, mas o que define se ele é confiável ou não é baseado unicamente nessa escolha pelos cristãos dos primeiros séculos? Quer dizer que o rejeitamos hoje como “tolice”, mas se ele tivesse entrado na bíblia, o mesmo conteúdo seria magicamente considerado como “divinamente inspirado? E quem garante que a escolha feita pela Igreja, nos primeiros séculos de nossa era, foi perfeita e absoluta, se os próprios cristãos na época discordavam entre si? Alguns dizem: “Deus não é Deus de confusão, então ele também inspirou a escolha dos livros que fariam ou não parte da bíblia”. Interessante, mas incoerente. Então por que não inspirou uma unanimidade na escolha? Por que desde os primeiros anos após a morte de Jesus havia cristãos com pensamentos bem diferentes? Por que católicos, protestantes, coptas e ortodoxos adotam bíblias diferentes? Qual delas é o cânon divinamente inspirado? E sabemos que nossa bíblia atual não corresponde exatamente aos textos originais (que por sinal não mais existem), nem mesmo aos antigos, que circulavam nas primeiras décadas e séculos após a morte de Jesus (afinal era transcrita por copistas, sem nosso moderno sistema de cópias e impressão). Há trechos que foram nitidamente acrescentados, outros omitidos, outros alterados. Se há realmente essa preocupação divina com todos esses detalhes, por que foi permitida essa “confusão” ao longo dos séculos? Essas premissas são nitidamente fruto de um suposição, de uma hipótese infundada, do desejo de um grupo (mas pode ser verdade? Até pode, mas é provável ou há evidências de que seja?) 
     Conclusão: Eu disse isso tudo para tentar fazer você, leitor, entender que as coisas não são tão simples quanto parecem. Precisamos ter pelo menos um mínimo de criticidade. Vejo pessoas sem nenhuma noção desse complexo processo histórico querendo condenar os que interpretam de forma diferente deles. Vejo-os destilando tanta arrogância como se dominassem o assunto e como se Deus tivesse dito a eles que a interpretação que possuem é a perfeita, a exata. E realmente os fundamentalistas cravam com uma ingênua convicção: “O que defendo não é interpretação minha; é revelação do Espírito Santo, então é a verdade sim, que só discerne quem é Espiritual”. Verdade? E pensar que milhares de grupos fundamentalistas, que discordam radicalmente entre si, dizem o mesmo. Como explica? Como saber quais das milhares de interpretações diferentes que se dizem frutos de revelação divina é a verdadeira? Temos muitos “Espíritos Santos” revelando coisas diferentes a cada um ou essas pessoas é que estão fazendo confusão com seus imensos níveis de ingenuidade e ignorância histórica? Entendeu agora que “o buraco é bem mais embaixo”?

Autor: Wésley de Sousa Câmara
02/04/2016

O que achou?