8 de abr de 2016

Mateus 24: Fim do mundo ou destruição de Jerusalém?


     Sobre Mateus 24:

     A maioria dos cristãos, em nosso contexto brasileiro, diz que é uma profecia de Jesus em relação ao fim do mundo, que ocorrerá um dia, no futuro. Outros dizem que era uma profecia sobre destruição de Jerusalém, ocorrida no ano 70 dC.
     O que acho? Que não era nem uma, nem outra. Se colocarmos Jesus dentro de seu contexto, chegaremos à conclusão que quase certamente Ele era um profeta apocalíptico (tal como era João Batista - mas em outro texto falarei em detalhes). Dessa forma, Jesus pregava que um evento cataclísmico daria início ao Reinado de Deus NA TERRA (repare que não era no céu. Era na Terra, com pessoas comendo, bebendo, vivendo e inclusive com seus 12 discípulos governando nesse Reino terreno - Mateus 19:28). Ele não profetizava uma simples queda de Jerusalém, com o mundo permanecendo da mesma forma. Tampouco, falava de algo que ocorreria milhares de anos depois. Um profeta apocalíptico pregava que Deus viria destruir as forças do mal que dominavam o mundo. Quando? Em breve! Era iminente. Não é a toa que a mensagem era: "Fiquem atentos! Não passará essa geração sem que tudo isso seja cumprido" (Mateus 24:34).
     Diante dessa última frase alguns (como eu também já fiz) calculam: "se uma geração tem 40 anos e Jesus disse isso por volta do ano 30, a destruição de Jerusalém no ano 70 dC estaria ainda dentro do limite de tempo dessa previsão, logo, como Jesus não pode errar, Ele falava da queda de Jerusalém e não, do fim do mundo que até hoje não aconteceu". Porém essa ideia desmorona quando verificamos que quase certamente o Evangelho de Mateus (que é anônimo) foi escrito entre os anos de 80 e 85 dC . Ou seja, esse evangelho foi escrito após o acontecimento, logo, como podemos garantir que foi uma profecia de Jesus por volta do ano 30 em vez de ser uma criação de pessoas que viram a queda de Jerusalém e "criaram" profecias que teriam sido ditas por Jesus? Percebe que a coisa complica? Então, se o evangelho de Mateus foi escrito 10 ou 15 anos após a queda de Jerusalém, no máximo seria um registro de um autor que escreveu após conhecer o desfecho, o que tiraria, em termos históricos, a confiabilidade em relação ao que realmente teria sido dito por Jesus em relação a essa destruição (pode ter sido exatamente assim? Pode, mas é tão confiável como os relatos de pessoas que, após presenciarem um acontecimento, dizem: "eu tinha sonhado, há alguns dias, que isso aconteceria". Oras. Então porque só disse depois que o fato ocorreu?
     Conclusão: Se tentarmos ser historicamente precisos e deixarmos nossas preferências teológicas de lado momentaneamente, em Mateus 24 aceitaremos que Jesus não estava prevendo meramente a queda de Jerusalém. Também não estava falando de uma volta de Jesus para mais de 2 mil anos depois. Ele falava dentro do contexto apocalíptico judaico, que previa um evento universal, cataclísmico, visível a todos, em que o "Filho do Homem" viria para estabelecer o Reino de Deus na Terra. Isso seria em breve, era iminente. Poderia ser em alguns dias, semanas ou meses. Era impensável para um judeu apocalíptico que ocorreria apenas no próximo século, quanto mais, depois de milênios (todo apocalíptico estava convencido que aqueles dias em que vivia eram os últimos. Repare que o apóstolo Paulo seguia a mesma linha. Quando eles diziam que seria "em breve", não era no "sentido figurado"). Aquela geração era considerada perversa demais e Deus colocaria ali um limite. Então as pessoas deveriam se arrepender, crer na mensagem do Reino e escapar da condenação.
     Por isso Jesus não se preocupava com bens materiais, casa e riqueza... Ao contrário, na visão apocalíptica quem "se dá bem na vida" é porque provavelmente está aliado com as forças do mal, que governam este mundo. Por isso "é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (Mateus 19). Os que são oprimidos neste mundo (pobres, injustiçados, marginalizados, perseguidos...) pelos que representam as forças das trevas são aqueles que Deus recompensará em Seu Reino e por isso são os "bem aventurados" (Mateus 5).
     Quando dizemos isso, muitos fundamentalistas protestam: "Que heresia! Que blasfêmia! Jesus não erraria em Sua previsão". Ora, simples. Não é questão de acertar ou de errar. Ele mesmo assumia que não sabia (Marcos 13:32) o dia e a hora em que isso ocorreria (porém que Ele acreditava que seria muito em breve, é óbvio). Então se Ele não sabia, qual o problema em assumir que Ele achava que seria em breve? Jesus também não sabia que comer sem lavar as mãos poderia sim contaminar o homem, transmitindo doenças (Mateus 15:11), já que os micróbios foram descobertos muito tempo depois, e nem por isso Ele merece menos crédito. É uma questão de contexto cultural, social, religioso e científico. Ah, e claro: de bom senso.

Autor: Wésley de Sousa Câmara  
08/04/2016

O que achou?