5 de abr de 2016

Ninguém sabe o que é "Evangelho puro e simples"


     Engana-se quem acha que, por nascer a cada dia várias outras denominações cristãs, a cada dia que passa o cristianismo se torna mais divergente. Muitos acreditam que os cristãos estão cada vez mais com interpretações diferentes em relação à fé. Porém, pode somar todas as divergências entre cada vertente cristã do século XXI, de católicos a testemunhas de Jeová, de presbiterianos a pentecostais, de mórmons a luteranos... Essa divergência toda de pensamento ainda não é nada perto da divergência de fé que tinham os cristãos nos primeiros três ou quatro séculos da nossa era. 
     O que é a discordância em relação a "dons espirituais" diante da discussão se Jesus era somente homem, somente Deus ou tanto Deus quanto homem que os cristãos primitivos debatiam? O que é a questão de guardar ou não o sábado diante da disputa que havia no cristianismo se havia só um Deus, dois deuses, dezenas ou centenas de deuses? O que é a briga atual em relação a venerar ou não Maria, diante da "guerra" dos primeiros cristãos para saber se Jesus morreu para salvar o homem ou nem mesmo teria morrido? O que é nossa disputa sobre a interpretação do Apocalipse de João diante dos diálogos antigos se esse livro deveria ser levado a sério ou simplesmente jogado no lixo junto com vários outros apocalipses existentes? O que é nossa divergência em relação a frequentar ou não uma "igreja" diante da briga cristã que havia para decidir se todo o universo teria sido criado pelo Deus soberano, por um deus inferior ou mesmo por um espírito das trevas? 
     Ter essa mínima noção histórica já é suficiente para perder a ilusão de que estamos cada vez menos unidos ou de que devemos voltar ao "evangelho puro e simples". Entenda: ninguém, nem os escritores dos evangelhos entravam em um consenso em relação ao que seria essa pureza e simplicidade do evangelho, então deixe de ingenuidade de usar essa expressão, na ilusão de que você (que vive em outra época, em outro contexto, em outra cultura, dois mil anos depois...) pode se gabar de pregar o "Evangelho puro e simples". Isso não cola pra ninguém que para um minutinho pra refletir.  Pense um pouquinho: se há um evangelho puro e simples terá que ser aquele que saiu da boca e dos atos de Jesus (por definição da fé cristã). E quem nos provará o que foi exatamente isso? Sua interpretação? Por favor, né? Abaixe sua bola. Menos, bem menos...

Autor: Wésley de Sousa Câmara
05/04/2016

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