1 de set de 2016

A oração que faz bem e a oração que faz mal


     Muito se fala em oração, na importância de orar e de ter esse "diálogo com Deus". Porém, esse conceito raso de oração que a massacrante maioria dos cristãos possuem, é perigoso. É uma faca de dois gumes. E aqui quero alertar para os perigos da oração. Isso mesmo: se por um lado ela nos coloca em uma "conversa com Deus", por outro ela pode criar em nós uma tremenda ilusão:
     A oração pode gerar na mente de muitos a ideia de um Deus interesseiro e barganhador. Afinal, Ele só me abençoará ou atenderá o que desejo se eu pedir, ajoelhar, implorar, repetir... (sem contar as campanhas de oração e os jejuns). Mas tudo o que recebemos é por graça, é favor imerecido e independe de nosso pedido ou oração.
Por causa disso, alguns defendem que a oração deve ser apenas para agradecer. Mas aí corre-se o risco de criar na mente um deus narcisista, que precisa de agrado, de afago, de recompensa, como um cão adestrado que recebe petisco quando executa bem uma tarefa.
     Pensar na oração como mero momento de "dialogar com Deus", de fechar os olhos e se dirigir com palavras a Ele é algo muito infantil. Não que isso não seja oração, mas a oração vai muito além disso. "Orar sem cessar" não é ficar com olhos fechados, de joelhos e conversando diretamente com Deus 24 horas por dia (se você age assim procure urgentemente um psiquiatra, pois está mais para "esquizofrenia" do que para "intimidade com Deus"). A oração é um modo de vida, uma comunhão contínua com Deus, de forma que você estará "interagindo" com Deus não só com palavras, mas também com atitudes. Orar é buscar viver a "oração do Pai nosso": É ver Deus acima de todas as coisas; é desejar o Reino (vontade) de Deus em nosso meio; é estar satisfeito com o pão sobre a nossa mesa; é perdoar quem nos ofende; é buscar apoio nEle para fugirmos das ciladas do mal...
     Já a oração como momento de "falar com Deus" é um exercício para nós humanos, para colocarmos em nossa mente que temos essa comunhão com Deus, um relacionamento pessoal e íntimo com Ele. É para entendermos que com Ele podemos nos abrir a todo momento. Mas não devemos ter a ilusão de que nossa oração vai "mover as mãos de Deus" a nosso favor. Quando nossa oração coincidir com a vontade divina, será atendida. Mas não mudamos Deus quando oramos. Quando oramos nós é que somos mudados para ficarmos mais alinhados à vontade dEle.
     "Ah, mas em determinado trecho bíblico vemos fulano orando e Deus mudando de ideia para atender essa pessoa". Veja bem: em cada livro da bíblia observaremos a interpretação teológica de cada tradição/autor sobre determinado acontecimento. Por isso temos que estabelecer prontamente um parâmetro absoluto (proponho o que sabemos de Cristo - afinal, somos cristãos) e por esse parâmetro avaliamos todo o resto. E o que vemos em Jesus? Quando Ele tinha tudo para tentar "comover Deus e mudar Seus desígnios" (afinal, teria alguém com uma fé maior que a de Jesus?), Ele disse: "Pai, seja feita a Sua vontade e não a minha". Pois bem, aí vemos o objetivo da oração: alinhar nossa vontade à vontade de Deus e quando isso acontece, tudo quanto pedimos é atendido. Não porque convencemos Deus, mas porque a nossa consciência foi convencida pela vontade dEle.
     Entenda: A oração não é uma ação humana PARA DEUS. É um instrumento de Deus PARA O HOMEM. É um meio da Graça e temos o privilégio de usá-la.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
01/09/2016

O que achou?