8 de set de 2016

Porque não é fácil participar de um grupo religioso


     Considero muito importante, como cristão, participar de uma comunidade de forma fixa e oficial (na impossibilidade disso, é bom se reunir com alguém, nem que seja com o marido/esposa e/ou alguns amigos em casa), porém, para isso, tenho que ter uma identificação grande com o que nela é defendido. Não que ela deva ser perfeita (nenhum grupo o é e tampouco é perfeita a minha definição de perfeição, já que eu sou imperfeito). 
     Não me rotulo como "desigrejado" e tampouco tenho rejeição a qualquer institucionalização de uma comunidade (acho essa questão tola e infantil, mas é assunto pra outro momento). Mas essa comunidade precisa ter uma orientação teológica semelhante a que defendo para que eu possa dela fazer parte. É complicado eu defender uma crença teologicamente "moderada" e participar de uma comunidade liberal (que nega totalmente a ortodoxia cristã, qualquer tipo de milagre de Jesus ou sua ressurreição). E pior ainda (aí considero impossível): eu participar de uma comunidade fundamentalista, ou de um conservadorismo teológico extremo, como é a maioria dos grupos no Brasil, que defendem que uma visão (sempre a deles) pode sim ser absoluta, fruto de pura revelação do Espírito e quem discorda é porque não está discernindo espiritualmente a Palavra.
     Também é extremamente difícil participar oficialmente de um grupo cuja tradição teológica, mesmo que séria, tem divergência comigo já nos paradigmas, na concepção de Deus. Considero meus irmãos católicos, arminianos e calvinistas como cristãos que seguem tradições sérias e consistentes, mas não tenho afinidade por essas teologias. Não as considero as melhores abordagens cristãs. Tenho uma afinidade pelas premissas protestantes e possuo mais identificação com a tradição luterana. Então como posso ser hipócrita ou falso de participar ativamente de um grupo, sendo que discordo de algumas premissas que partem? Como posso estar em um meio e criticando duramente o que defendem? Da mesma forma, como posso ser honesto comigo e, em prol de uma boa convivência religiosa, censurar o que penso e abrir mão de expor publicamente o que sinto? Não consigo ser desonesto, nem hipócrita a esse ponto.
     Também não acho possível participar oficialmente de uma instituição ou comunidade que fecha os olhos para a realidade e para as evidências, a fim de manter dogmas e tradições insustentáveis diante do conhecimento científico atual. Ter fé não significa negar a ciência e tampouco ser alienado. Ter fé não é sinônimo de viver num fideísmo cego e tolo. 
     Não consigo ainda participar ou defender um grupo que não prioriza os reais problemas das pessoas. Um grupo que dá excessiva importância a questões sexuais, em detrimento das sociais; que "disciplina" o jovem que faz sexo antes do casamento, mas que consagra como "obreiro" alguém por ser amigo ou parente do líder; um grupo que pouca importância dá ao pobre, mas que se aproxima do rico e do diplomado; que não visita a aposentada doente, mas que não deixa de se reunir com o empresário e com o político influente; um grupo que fecha os olhos para os problemas do mundo e se fundamenta conservadoramente em questões como o controle de natalidade, o uso de preservativos e vacinas, manutenção de casamentos infelizes e pressão para ocorrência de casamentos de jovens que se relacionaram sexualmente; um grupo que condena algumas vestimentas, cigarro e bebida, mas que não se manifesta diante da epidemia de obesidade devido à maus hábitos alimentares e falta de atividade física; um grupo que condena a discussão de gênero nas escolas, mas que nada diz dos programas televisivos repletos de violência e de atrocidades que seus filhos assistem; um grupo que deseja impor sua fé e defender seus interesses através de leis e de representantes na política, em vez de defender um estado laico, que defenda os interesses da maioria e dos que mais necessitam.
     Além disso tudo, como eu participaria de um grupo que enfatiza a emoção e o "sentir", em detrimento da reflexão e da razão? Uma comunidade que não entende que o que sentimos não tem a ver com Deus e sim, com nossa emoção de momento; que sentindo ou não, Deus está comigo, até quando sinto que Ele me abandonou. Não se foca nas promessas de Deus em Cristo e sim, nas percepções humanas. Como participar de um grupo que acha que o culto é um momento de "oferecer algo" a Deus ao invés de receber de Deus Sua Palavra proclamada e a renovação de suas promessas, por exemplo, nos sacramentos? (Devem se esquecer que, como disse o profeta, até nossas obras de justiça não passam de trapos de imundície para Deus, afinal, o que seres pecadores e imperfeitos podem oferecer ao Deus soberano?). Como pertencer a um grupo que confunde "presença de Deus" com barulho, "batismo no Espírito Santo" com "línguas estranhas", "unção" com rodopios e quedas no chão? Um grupo que chama de "casa de Deus" o prédio em que se reúne, mesmo sabendo que o Deus não habita em templos feitos por homens e sim, o coração do ser humano? Como fazer parte de uma comunidade que acha que Pecado é meramente uma conduta imoral, em vez de ser o estado de imperfeição de todo ser humano? Como pactuar com um grupo que acha que o maravilhoso processo de salvação nos dado por Graça é algo que conquistamos por méritos (e que perdemos se não seguirmos uma cartilha) ou que meramente significa "ir pro céu um dia"?
     Enfim, como fazer parte de um grupo que condena aqueles a quem Jesus incluiu? Jesus, sabendo que Judas era ladrão e traidor, sentou com ele à mesa. Já a massacrante maioria das comunidades cristãs apontam o dedo, condenam o pecado do outro por ser diferente do pecado deles e excluem dessa comunhão esses pecadores... Quanta diferença entre Cristo e a maioria dos que se dizem cristãos...
     Não é que sou chato e exigente e sim, que não consigo ser cego, surdo e mudo diante dessa hipocrisia que se tornou o cristianismo brasileiro (com exceção de poucas comunidades sérias e honestas). Não sou melhor do que ninguém, mas se não há afinidade entre um grupo e eu, essa relação que eu mantiver com ele será um "adultério espiritual". E disso, estou fora!

Autor: Wésley de Sousa Câmara 
08/09/2016

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