14 de nov de 2016

Pilatos: Para alguns, um santo; para outros, um diabo.


     É interessante notar que, ao longo do tempo, Pilatos (governador romano da judeia nos dias de Jesus) foi se tornando cada vez menos culpado pela morte de Jesus e essa culpa foi sendo imposta progressivamente sobre os judeus. Isso é nítido dentro da bíblia e fora dela.
     Olhe para o primeiro evangelho escrito, o de Marcos (65-70 dC): nele há uma nítida cumplicidade entre Pilatos e judeus na condenação de Jesus. Posteriormente foi escrito o evangelho de Mateus (80-85 dC) e de Lucas. No de Mateus, após ter sido avisado pela esposa que teve um sonho, Pilatos lava suas mãos, deixando claro que a condenação de Jesus seria culpa dos judeus, que assumem essa responsabilidade. No de Lucas, Pilatos declara Jesus inocente algumas vezes e só o condena por pressão dos judeus.
     Tempos depois foi escrito o evangelho de João (90-95 dC), que relata Pilatos declarando Jesus inocente algumas vezes e posteriormente entregando-o aos judeus para decidirem pela absolvição ou condenação.
     E o mais interessante é que uma falsificação posterior (séc II, provavelmente), conhecida como "o Evangelho de Pedro" (escrito por alguém que tentava se passar pelo apóstolo Pedro), descreve o evento da condenação de Jesus culpando mais explicitamente ainda o povo judeu e isentando Pilatos. É dito que Herodes (rei judeu) e os judeus negaram-se a isentar Jesus da culpa, condenando-o e depois assumem isso, dizendo: "que a desgraça caia sobre nós [judeus], por causa dos nossos pecados".
     Posteriormente foram surgindo outros relatos, como uma suposta carta de Pilatos ao imperador Tibério, em que o governador assumia a divindade de Jesus (e se tornara um cristão). Teria ele sido tão convincente que o imperador romano só não proclamou Jesus como um deus romano por causa da rejeição do Senado. Outras lendas posteriores diziam que Pilatos teria sido executado pelo imperador romano "por ter executado o filho de Deus", mas Pilatos declara tanto no julgamento quando no momento da morte que ele era inocente e que os judeus são os culpados. E então teria vindo uma voz dos céus, afirmando que ele era um "abençoado" e que "seria testemunha de Cristo na segunda vinda". Por fim, em alguns locais a igreja o considerou como um mártir cristão, elevando-o ao patamar de "santo".
     Então quem foi Pilatos? Olhando para a história, encontrará afirmações que variam de santo a diabo. Tire suas conclusões.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
(14/11/2016)

Referências: 
Ehrman, Bart. D; Evangelhos Perdidos. 2012, 3ª Ed, Editora Record.

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