18 de dez de 2016

Deus agindo no voo da Chapecoense?


     Ontem fiquei muito feliz em ver o Alan Ruschel, sobrevivente do "voo da Chapecoense", dando entrevista. Cada vida que continua após um acidente tão grave nos enche de alegria. Porém quero registrar aqui meu desapontamento com a visão dele do ocorrido.
     Emocionado, Alan disse:

"No momento que caiu aquele avião, Deus me pegou no colo e falou que eu tinha mais missão aqui na terra, por isso ele não me levou. A única explicação, são dois milagres: eu estar vivo e o milagre de eu poder estar andando. Os médicos falaram que foi uma lesão grave que eu tive na coluna. Poder estar andando, é milagre de Deus."

     Diante disso penso: Se foi milagre divino a sobrevivência dele, por que o Deus todo poderoso não estendeu o milagre, impedindo a queda do avião, poupando mais 70 vidas? Será que os que morreram não tinham mais nenhuma "missão" aqui na terra? Será que o filho do Tiaguinho, por exemplo, que ainda nem nasceu, não seria uma boa missão para seu falecido pai ajudá-lo a crescer como uma pessoa amada e de bem? Será que o goleiro Follmann, outro sobrevivente da tragédia, que teve que amputar a perna, não foi digno de receber também um "milagre maior" para continuar andando? Qual seria o critério usado para definir quem receberá o "milagre maior", o "milagre menor" e a ausência de milagre? Se tenho fé? Claro. Mas não uma fé ingênua e cega para questões incoerentes e contraditórias.
     Alguns alegam que isso que o atleta relatou foi uma experiência pessoal e isso é incontestável. Porém conheço vários relatos de experiências pessoais absurdas, algumas contraditórias entre si e mutuamente excludentes, ou seja, se uma foi real, a outra não pode ser. Ah, mas todas as pessoas garantem que as tiveram. Contudo, o problema não para por aí. E se formos falar que em praticamente todas as religiões pessoas relatam ter experiências pessoais com suas divindades ou entidades? Pelo raciocínio dos que dizem ser incontestáveis, todas estão corretas. Então, deixem a hipocrisia de lado e assumam o politeísmo!
     É lamentável essa religião popular que impera em nosso meio, que gera uma espiritualidade baseada nos sentimentos e emoções. Os mesmos que adoram citar diversas passagens bíblicas de profetas que lhes convém, por exemplo, pulam a parte em que o profeta Jeremias derruba essa espiritualidade do "sentir/experiência pessoal", ao dizer que "enganoso é o nosso coração". O que uma pessoa sente ou não tem a ver com sua mente, com suas predisposições, crenças, estado emocional de momento. Imagine, por exemplo, a fragilidade emocional de um dos poucos sobreviventes de um avião que caiu. É compreensível que ele diga que sentiu (ou que sente) que Deus o pegou nos braços para livrá-lo da morte (sendo que essa pessoa, por estar abalada, não percebe que isso seria maldade divina contra os que morreram, pois Deus poderia salvá-los também e não o fez). Na verdade, seria compreensível até se esse sobrevivente dissesse que viu os Teletubbies lutando contra o Jaspion durante o acidente.
     Imagino alguém criando uma nova religião e dizendo: "senti e Deus me revelou que vocês devem me doar 100 mil reais pra eu fazer a obra dEle". Seja sincero: você dirá que isso é incontestável ou vai duvidar do "sentir" desse picareta? Outro exemplo: imagine eu estacionando o carro em frente a uma "boca de fumo" e quando volto o carro não está mais lá. Então digo que sinto que o carro foi arrebatado por anjos ou ETs ao céu. Você questionará racionalmente o que eu disse (dizendo que muito mais óbvio e coerente é entender isso como um roubo feito por bandidos) ou vai realmente acreditar no meu sentir? Todos usamos a racionalidade 24 horas por dia. E no caso do avião da Chapecoense, por exemplo, fica óbvio que os sobreviventes estavam naquela parte do avião que foi menos destruída e/ou que eram comissários de bordo que seguiram protocolos de segurança. Não é que Deus escolheu meia dúzia entre os mais de 70 pra salvar da morte. Não é que Deus escolheu alguns dessa meia dúzia pra saírem praticamente ilesos e outros pra ter uma amputação de perna ou lesões sérias na face. Porém, às vezes nossa espiritualidade cega nos faz abrir mão da razão pra defender coisas extremamente improváveis e sem sentido.
     Repeito cada pessoa que discorda da minha opinião (embora eu não respeite a opinião dessas pessoas). Não fico perdendo tempo debatendo contra "fundamentalistas", pois com eles a gente entra num debate já com a derrota garantida. Afinal, quem discorda do fundamentalista será visto por ele como alguém que "crê num Deus diferente do da bíblia". O fundamentalista sempre tem razão, pois ele não está sujeito à interpretações, à limitações que todo ser humano tem (ironia)... O que ele crê sempre será o "evangelho puro e simples" (novamente, ironia), afinal ele crê não em algo sujeito a contextos e sua capacidade de interpretação da bíblia, e sim, que Deus o escolheu a dedo para revelar a ele a bíblia e a realidade exatamente como ela é. Essa pessoa não assume, mas se considera um "deusinho" na Terra. Então, com ela não tem nem como pensar em discutir.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

O que achou?