17 de fev de 2017

O cristão e o tabu da masturbação


     Posso me masturbar sendo cristão? Há alguma compatibilidade da fé cristã com essa conduta tão frequente em nosso meio? Teria algum trecho da bíblia algo a dizer sobre essa questão? É pecado?
     Pois bem. Algo que facilitaria muito a discussão desse tema seria se você, leitor, tivesse em mente exatamente a profundidade do conceito da palavra “Pecado”. Para isso, recomendo que leia com calma o seguinte estudo: "Pecado: estudo completo". O que lá é explicado é que “Pecado” não é meramente o que faço; pecado é o que sou (é minha natureza, minha tendência). O que faço é um sintoma (consequência) que denuncia minha doença (o que sou). Durante toda minha vida serei um pecador, antes ou depois da conversão (minha natureza é pecaminosa e tende a se afastar de Deus), mas sou contado como justo (justificado) em Cristo e os frutos do Espírito crescem em mim. Aliás, só peco por ser um pecador (e não, o contrário). Então, como tenho essa natureza, essa "doença" (que teve sua cura decretada na Cruz, com a promessa de que um dia ela será completamente removida de mim), até quando faço o bem, analisando a fundo, é um pecado meu, pois o bem que parte de alguém mau como eu, é mal. O profeta disse que nossa justiça não passa de "trapo de imundície". Entenda: "não pecar" significa ser perfeito, mas a perfeição humana (aos nossos olhos) é nada perante Deus. E essa distância entre o que somos e o que deveríamos ser (perfeita imagem e semelhança de Deus) é o que nos afasta (na verdade, "afastava") de Deus; é o pecado, e foi isso que Jesus resolveu na Cruz. Não significa que por causa da cruz deixamos de ser pecadores, mas Ele nos religou a Deus por Graça, a fim de que Deus não se relacionasse conosco com base em nossa imperfeição (pecado) e sim, com base no Seu amor. Nunca não estou em pecado... O que aprendemos é a não nos entregarmos ao pecado, a não sermos dominados por ele, a não viver pecaminosamente, ou seja, a não mergulharmos deliberadamente na imoralidade, pois, como somos pecadores, a tendência é que predominantemente façamos o mal. Mas Jesus nos ensina a lutar contra isso, a resistir, a não viver assim, pois essa entrega é destruição total do nosso ser. É Jesus nos dizendo o tempo todo: "Está perdoado, vá e não peques mais", ou seja, "vá e não continue nessa vida tola e de engano, criatura, senão lhe acontecerá muitas coisas ruins"...

    Em primeiro lugar devemos saber que o sexo é natural no ser humano. O prazer sexual não é do diabo, nem anormal. Foi Deus quem nos deu para que usufruíssemos da melhor forma. Deveria ser algo tão normal quanto se alimentar ou urinar. O sexo é a satisfação de uma necessidade fisiológica, com o diferencial que essa necessidade nos dá o maior nível possível de prazer (muito maior do que qualquer chocolate, do que dormir, do que aquele suco geladinho...).
     A religião costuma demonizar algumas atitudes, como a masturbação, como se fosse uma blasfêmia contra Deus. Isso tem uma origem lá nos primeiros séculos da era cristã, pois muitos líderes cristãos tratavam o desejo e os atos sexuais como coisas impuras. Nós herdamos essa ideia, infelizmente. Mas a questão é (para tudo na vida):
      Qual o parâmetro absoluto para avaliar tudo e todos? Como sei o que é certo e o que é errado? Como decido se devo ou não agir de uma determinada forma ou se devo ou não tomar determinada decisão? Para os genuínos cristãos só há uma resposta: Devo olhar para Jesus, que é o único parâmetro perfeito e absoluto. A cultura, a sociedade, os costumes, as tradições, as religiões, a ciência, os conceitos éticos e morais evoluem, mudam, logo, não podem ser absolutos.
     A fé cristã é baseada no princípio de que há um Deus Criador, Eterno e Soberano, que decidiu entrar na história, revelando-se ao homem na encarnação da pessoa de Jesus Cristo. Essa revelação, essa auto-comunicação de Deus com a Criação foi feita pela chamada “Palavra de Deus”, que é o “Verbo” ou o “Logos” divino. Esse Verbo é o que conhecemos como Jesus. Por isso, em João 1 lemos: “O Verbo/Palavra estava com Deus e esse Verbo era Deus... O Verbo se fez carne e habitou entre nós...”. Ou seja: Jesus é Deus vivendo como homem, por isso Ele é o parâmetro absoluto (já que só Deus é absoluto, por definição). Sendo assim, diante tudo o que você faz, pergunte: "isso é compatível com os ensinos e atitudes de Jesus"?
     Jesus baseou toda sua vida nos princípios: ame a Deus e ame ao próximo. Então pense: o fato de você se masturbar diminui sua fé em Jesus? É incompatível com Ele? Abala seu amor a Deus? Isso prejudica seu próximo? Se a resposta é "sim", você deve lutar para abandonar tal conduta, pois ela não é o ideal de Deus pra sua vida. Se a resposta é "não", fique em paz e seja feliz. Continue amando a Deus e seu próximo (mesmo na sua limitação), fazendo o bem... Porém, claro, a religião tem suas regras moralistas e se quer ficar bem perante ela, terá que abrir mão (literalmente - perdoe-me a piada) de muita coisa ou, pelo menos, não tornar público atitudes que ela condena.

     Esse assunto me faz lembrar um caso que minha esposa conta, de que há muitos anos, quando foi a um zoológico em São Paulo, deparou-se com um macaco que se masturbava bem tranquilo, enquanto a multidão ria da cena... Isso mostra que o desejo sexual que leva à masturbação não depende de pornografia, de estímulos visuais provocados pela mídia, por exemplo (como alguns alegam). Até os animais irracionais, por instinto, em certas situações, praticam a masturbação.
     A masturbação não representa nenhum problema sexual. Ela é natural em toda pessoa saudável. A questão é que nem todos sentem necessidade de praticá-la, embora a maioria das pessoas, principalmente quando privados de relações sexuais, tem essa carência. É natural em qualquer pessoa normal, que tem hormônios sexuais e uma mente adulta.
     Alguns parágrafos atrás eu afirmei que “não sou pecador porque peco; eu peco por ser um pecador.” Porém alguns que condenam a masturbação por parte de um jovem solteiro, tolamente dizem que a masturbação feita por alguém casado não é pecado, ou pelo menos não seria se essa pessoa estivesse pensando na esposa. Quanta ingenuidade. Por quê? Pois é totalmente incoerente o argumento de que "a masturbação é pecado, pois para praticar o ato pensamos em coisas impuras, como uma mulher/homem que não é nosso (a)". Oras, mas Jesus deixa claro que pecado (como eu disse acima) não é o ato e sim, o próprio desejo, a cobiça ("Se alguém cobiçar a mulher do outro já adulterou com ela"). Ou seja, se masturbação é pecado, já é pecado o desejo de praticá-la. Ter o desejo de se masturbar e, ao invés de praticá-la, “se segurar”, seria pecado da mesma forma, compreende? Em outras palavras, se tem um "pecado" (ato imoral) - e nem estou entrando no mérito se é ou não - não é a masturbação e sim, o pensamento impuro que leva ao desejo de se masturbar. Se vai se masturbar ou não, o pecado precede isso tudo e não será a execução ou a repressão desse desejo que mudará o fato. E lembra da historinha do macaco que contei há pouco? Será que o macaco estava alimentando esses desejos impuros? Mas ele não é irracional? E, se o macaco “não pecou” é uma evidência que o “pecado” (imoralidade) não é o ato em si. No máximo poderia ser sua motivação, certo?
     Há quem diga que a masturbação é pecado por danificar o corpo, que é templo do Espírito Santo, porém os mesmos, hipocritamente, não dizem isso quando comem no Mc Donalds, quando tomam Coca-Cola, quando comem doce ou churrasco, quando deixam de fazer atividade física regular. Ou seja, só distorcem esse texto de Paulo quando lhes é conveniente.

     E mais: Pesquisas mostram que a masturbação (provavelmente):

- Reduz incidência de câncer de próstata (pesquisador Graham Giles - Melbourne, 2003). Não é a masturbação que faria isso e sim o fato de ejacular cerca de 5 vezes por semana, ou seja, relações sexuais também teriam esse efeito.

- A masturbação, ao invés de problemas sexuais, promoveria o auto-conhecimento (do corpo), o que facilita a iniciação sexual. A masturbação não vicia e não traz problemas de ereção. É apenas um “quebra-galho” e qualquer pessoa que a pratica, em condições normais, não sentirá mais necessidade disso quando tiver uma parceira (o) regular. O problema começa quando a pessoa troca suas atividades diárias para ficar se masturbando, mas esse vício pode ocorrer com qualquer outra coisa (bebidas, internet, livros, TV...). E isso sim é doença e necessita de tratamento.

- Masturbação é uma atitude solitária e egoísta APENAS SE o marido deixar a esposa na sala, por exemplo, enquanto ele vai "brincar" no banheiro (ou vice-versa).

- Assim como a fome e a sede tem intensidade variada nas diferentes pessoas, o desejo sexual (que leva à masturbação também tem). Alguns não se masturbam e não sentem falta nenhuma disso. Outros, precisam "aliviar" periodicamente. O que determina essas coisas no homem são fatores psicológicos e bioquímicos, como o famoso hormônio testosterona!

     A menos que diga que precisa se masturbar várias vezes ao dia ou que prefere se masturbar a fazer sexo com seu esposo ou esposa, não há problema algum na masturbação. O fato de ficar excitado diante de um homem ou mulher bonita, com um corpo chamativo, mostra justamente que você é normal, que tem seus hormônios sexuais ativos. Não tem nada de imundo nisso. Como pode ser imundo o desejo e o prazer sexual que Deus mesmo criou lá no início, e como diz o Gênesis: "Deus criou e viu que era bom"? Imundo seria se você cometesse um "abuso sexual" contra essa pessoa, por exemplo.

     Levanto mais uma questão:
- A esposa ou marido sofre um acidente automobilístico e perde a sensibilidade nos órgãos sexuais para o resto da vida. O cônjuge, cristão e muito amoroso, fica ao lado dessa pessoa auxiliando e dando muito amor. Porém, a necessidade sexual existe em qualquer pessoa normal (não venha citar exceções a fim de criar uma regra). Assim, o que fazer? Viver angustiado, “subindo pelas paredes”, sem ter prazer sexual? Masturbar-se para aliviar e “quebrar o galho”? Arrumar outro companheiro e acabar com a dificuldade? Viu como não é simples? E se em qualquer contexto o ato for aceitável é a prova que o “pecado” não está no ato em si e sim, na sua motivação.

     O problema é que as questões sexuais são tabu no meio cristão. As pessoas fogem do assunto e adotam por comodidade uma posição supostamente moralista e não condizente com a realidade. Não questionam e apenas seguem a maioria. Porém esquecem que os discípulos e Jesus nunca foram maioria. O povo de Deus sempre andou às margens, então não é porque um grupo cristão (que tornaria dominante) definiu há séculos que essas questões sexuais são repugnantes, que realmente são. Vamos tratá-las com naturalidade e maturidade, como todo os demais assuntos.
     Vou destacar em outras palavras o que já afirmei: sua salvação nunca estará em jogo. Pecado não é o que você faz e sim, o que você é. Você é pecador até quando se acha o mais santo do mundo. Pecado é a distância que estamos da perfeição (que seria cumprir a Lei divina). O que fazemos de imoralidade são apenas evidências de que somos pecadores, de forma que ninguém de nós realmente merece salvação. Mas é justamente pra isso que há a Cruz, o Evangelho: é o anúncio de salvação por Graça (sem merecimento), apesar do que somos. Não ache que sua suposta abstinência em atos sexuais lhe salva. Isso é uma tola ilusão. Sua salvação está nos méritos de Cristo. E Jesus deixou claro que “adúlteros” somos todos nós. Ele diz que adultério não é o fato de ir pra cama com uma mulher e sim, algo dentro de nós que já se manifesta no nosso desejo. O mesmo vale para a masturbação. Se há um “pecado” não é o ato e sim, o desejo por trás do ato. Só quando entende que não importa o quanto tente, sempre será igualmente pecador, é que se dobrará aos pés da Cruz, reconhecendo que é um pecador carente da Graça de Deus.
     Enquanto isso não ficar claro, haverá em você uma imensa culpa e medo por ser quem e como você é. Muitos tem culpa por ser normal. Isso mesmo. O problema dos ensinos repressivos sem fundamento implantados em nossa mente é justamente esse: gera um sofrimento enorme, crescente , como uma bola de neve, que aumenta a cada dia. Quanto mais achar que o desejo sexual é impuro e pecaminoso, mais medo e culpa terá, além de que mais desejo reprimido haverá em você (gerando problemas psicológicos e até físicos, pois nosso corpo tem a capacidade de produzir doença orgânica através de conflitos não resolvidos, "somatizando" no corpo uma "doença da alma/mente").

     Conclusão: não tenho nada contra a masturbação, seja a masturbação feita pelo marido/esposa no cônjuge, seja a feita por uma mulher ou homem, sejam eles casados ou solteiros. Fico feliz em saber que um garoto ou garota de 16 anos está tendo vontade de se masturbar, pois isso evidencia que são saudáveis e sem traumas. Serei contra uma pessoa que deixa de ter relações sexuais com o parceiro para se masturbar. Isso sim não é normal e carece de ajuda profissional. E também não apoio uma masturbação exagerada (várias vezes ao dia), pois isso evidencia um transtorno que deve ser tratado por um profissional. Mas com equilíbrio e moderação, Deus nos deu nossos corpos e nosso desejo sexual para que possamos usufruir com naturalidade e responsabilidade. Sem culpas e sem medo.
     E se você tem muito desejo em se masturbar e tem uma companheira (o), fica uma dica: converse com seu cônjuge. Una o útil ao agradável. Se ama a pessoa, se gosta de fazer sexo com ela (e) e gosta de se masturbar, façam isso juntos. Se ela (e) gostar, masturbe-a e ela também fará o mesmo em você. Tudo o que é consentido e feito com respeito e amor ao próximo é "de Deus". E tudo que não envolve amor, carinho e respeito, mesmo sendo feito em um casamento aparentemente bonito ou com o apoio da religião, é "contra a vontade de Deus”.
     Deixe de querer procurar versículos bíblicos que dariam apoio ou condenariam a masturbação, pois isso seria desonestidade intelectual de sua parte. Seja honesto consigo mesmo. Respeite a bíblia. Não faça ela assumir uma posição ou papel que ela não tem. Olhe para Jesus, pense de forma ampla, contextualize tudo e avalie o que é bom, o que convém, o que traz bons frutos. E entenda que cada um deve analisar a si mesmo. Não queira impor aos outros a sua consciência, nem para defender, nem para proibir.
     E saiba: é melhor você ocupar suas mãos com a masturbação do que ocupá-las com pedras, que você costuma lançar no seu próximo toda vez que o julga e que o acusa. Jesus nunca falou nada sobre quem se masturba, mas censurou os que apedrejam. Então use suas mãos para algo menos prejudicial ao seu semelhante, que você deve procurar amar como ama a si mesmo. Masturbando-se, o único afetado será você. Deixando de estender as mãos a quem precisa do seu apoio ou atirando pedras, você estará afetando outros. Então, mais do que um suposto “pudor”, tenha amor.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
17/02/2017

O que achou?