13 de mar de 2017

Sexo e casamento: uma dupla inseparável?


     Se tem uma assunto que gera polêmica no cristianismo é o sexo. Falou em questões sexuais, mexeu em uma colmeia cheia de abelhas. Porém, o mais interessante é que a grande maioria dos cristãos crava com toda convicção: “Sexo antes do casamento é pecado; é inaceitável!” Será? Vamos então analisar algumas questões, como: É pecado o sexo fora do casamento? Se sim, é diferente de qualquer outro pecado? E o que é casamento: uma cerimônia religiosa, uma assinatura em um papel timbrado ou nenhuma das duas coisas?
     Acho importante começar o assunto revisando o conceito de “pecado” (para uma compreensão profunda e detalhada recomendo a leitura do estudo: 5º passo: Pecado - estudo completo): “Pecado” não é meramente o que faço; pecado é o que sou (é minha natureza, minha tendência). O que faço é um sintoma (consequência) que denuncia minha doença (o que sou). Durante toda minha vida serei um pecador, antes ou depois da conversão (minha natureza é pecaminosa e tende a se afastar de Deus), mas sou contado como justo (justificado) em Cristo e os frutos do Espírito crescem em mim. Aliás, só peco por ser um pecador (e não, o contrário). Então, como tenho essa natureza, essa "doença" (que teve sua cura decretada na Cruz, com a promessa que um dia ela será completamente removida de mim) até quando faço o bem, analisando a fundo, é um pecado meu, pois o bem que parte de alguém mau como eu, é mal. O profeta disse que nossa justiça não passa de trapo de imundície (Isaías 64). E claro: não pecar significa ser perfeito, mas a perfeição humana (aos nossos olhos) é nada perante Deus. E essa distância entre o que somos e o que deveríamos ser (perfeita imagem e semelhança de Deus) é o que nos afasta (na verdade, "afastava") de Deus, é o pecado, e foi isso que Jesus resolveu na Cruz. Não significa que por causa da cruz deixamos de ser pecadores, mas Ele nos religou a Deus por Graça, a fim de que Deus não se relacionasse conosco com base em nossa imperfeição (pecado) e sim, com base no Seu amor. Nunca não estou em pecado... O que aprendemos é a não nos entregarmos ao pecado, a não sermos dominados por ele, a não viver pecaminosamente, ou seja, a não mergulharmos deliberadamente na imoralidade, pois, como somos pecadores, a tendência é que predominantemente façamos o mal. Mas Jesus nos ensina a lutar contra isso, a resistir, a não viver assim, pois essa entrega é destruição total do nosso ser. É Jesus nos dizendo o tempo todo: "Está perdoado, vá e não peques mais" (lembra da mulher que seria apedrejada por adultério?), ou seja, "vá e não continue nessa vida tola e de engano, criatura, senão lhe acontecerá muitas coisas ruins"... Sendo assim, podemos dizer: o sexo (ou qualquer outra atitude nossa) sempre é pecado, seja dentro ou fora do casamento. Mas seria o sexo fora do casamento um “ato imoral” (que muitos chamam de “pecado”)? Aí é outra longa e polêmica discussão, que se eu me atrevesse a discutir aqui, este texto se tornaria um livro. Então, para ser mais objetivo, vou me ater aqui ao sexo no casamento.

O que é "casamento" para Deus?
     Será que o que no dia a dia chamamos de “casamento” (uma cerimônia religiosa ou em cartório) é o mesmo que Deus aceita como casamento? Vamos exercitar o cérebro: cite um personagem bíblico que se casou com no cartório ou com cerimônia religiosa tal como conhecemos hoje no meio cristão. Não há. Então será que, até que surgisse esse nosso modelo de casamento religioso ou no civil, não existia casamento? “Ah, mas a cultura nos dias bíblicos era diferente, sendo diferentes suas cerimônias e acordos para casamento” - argumentam, ingenuamente, alguns. A esses eu respondo: se isso é justificativa, então terá que escolher uma das duas alternativas:

1 - Casamento não depende de cerimônia religiosa, nem de cartório.

2 - Deus é refém de culturas e de tradições humanas, mudando seus conceitos de acordo com as sociedades.

     Parece absurda esta última alternativa, né? E realmente é. Mas é exatamente isso que assumem tolamente os que dizem que antigamente o casamento era diferente.
     É simples: Deus, por ser Deus, é absoluto, eterno e imutável, correto? Logo, seus conceitos também o são, embora os homens, em diferentes épocas mudem seus consensos. Ou seja: o conceito de casamento para Deus é o mesmo do primeiro ao último dia da existência humana. Cabe a nós, então, tentar nos aproximar desse conceito.
     O que proponho é: “Deus é amor” (I João 4:8) e o casamento é uma dádiva, um ideal divino para o homem. Sendo assim, o casamento deve ter íntima relação com o amor. Não ficarei aqui citando uma enormidade de versículos bíblicos, pois quem me acompanha sabe que sou contra essa didática, que além de improdutiva, não valida o que está sendo dito. Qualquer um pode descontextualizar textos para defender o que deseja. Então vamos olhar de forma mais abrangente, mais honesta e mais correspondente à realidade:

     O que é casamento? É um compromisso assumido entre pessoas com um ideal comum, uma aliança entre pessoas que se amam, que se aceitam como são, que prometem ao companheiro fidelidade, amor, carinho e respeito. Que se comprometem a viver juntos, ajudando um ao outro nas alegrias, nas tristezas, nos momentos de saúde e de doença, na fartura e na necessidade. Ou seja: onde há amor e esse real compromisso de compartilhar a vida juntos, há casamento. Vamos citar exemplos: digamos que isso tudo exista entre um casal, porém, não importam os motivos, esse casal não tem um papel assinado no cartório que reconheça essa união e nunca tiveram uma cerimônia na igreja, com a bênção do líder religioso. Será que deixariam de estar casados devido a essa burocracia que foi criada pelos homens há pouco tempo na história? Então imagine outro caso: um casal que teve cerimônia religiosa, festa e um casamento reconhecido por um juiz em cartório. Porém esse casal vive em guerra, com marido espancando esposa e esposa desviando dinheiro que o marido traz para pagar as contas. Um dorme na cama e outro no sofá, pois não se suportam, mas dizem que é "pecado "divorciarem-se e ainda "mais pecado" será se arrumarem outro casamento. Pergunto: estão casados diante de Deus ou é um mero casamento de fachada para enganar homens? Penso que não preciso responder nenhuma dessas questões, pois elas respondem a si mesmas. São mais do que óbvias.
     Alguns dizem: “O que é reconhecido na Terra, pela lei dos homens, é reconhecido no céu.” É uma afirmação absurda e desonesta. Absurda, pois coloca Deus como refém das leis e regras humanas; é desonesta, pois quando essas mesmas leis humanas aprovam o casamento gay, por exemplo, essas pessoas não citam esse argumento e dizem que Deus não aceita, embora alguns homens aceitem. Percebe a infantilidade e trapaça argumentativa?

     É por não entender o que é o sexo que as questões sexuais se transformaram no tema preferido dos religiosos. Repare que os piores pecados considerados pelos cristãos envolvem o sexo (nem o suicídio pode ser colocado no mesmo nível). “Adultério, sexo antes do casamento, homossexualidade...” Se você roubar, mentir, ser inadimplente, falso, não ajudar o carente... dá pra aceitar. Mas se fizer sexo fora dos padrões que a “religião” (que se julga representante de Deus na Terra) estabeleceu como correto, estará perdido.
     Em primeiro lugar devemos saber que o sexo é natural no ser humano. O prazer sexual não é do diabo, nem anormal. Foi Deus quem nos deu, para que usufruíssemos da melhor forma. Deveria ser algo tão normal quanto se alimentar ou urinar. O sexo é a satisfação de uma necessidade fisiológica, com o diferencial que essa necessidade nos dá o maior nível possível de prazer (muito maior do que qualquer chocolate, do que dormir, do que aquele suco geladinho...). Porém, desde a época dos “pais da Igreja”, muitos líderes cristãos viam o sexo com péssimos olhos. Tinham a visão que o sexo era pecaminoso, sujo, havendo até grupos que se abstinham totalmente dessa “impureza”. Não é incomum vermos argumentos, por parte desses radicais, que Adão e Eva só fizeram sexo depois da queda (pecado original), mostrando que o sexo é impuro (mas não dizem que também só deixaram de viver nus após a queda... Ou seja, citam o que lhes convém apenas); que Maria não poderia ter feito sexo (que seria algo pecaminoso)  com José depois de nascer, sendo ela foi uma eterna virgem, imaculada...  O sexo foi, ao longo da história do cristianismo, sendo visto cada vez de forma mais pessimista. Até dentro do casamento era visto com maus olhos (por isso a ideia de muitos de que sexo é só para reprodução. O prazer muitas vezes era demonizado. Alguns faziam apenas um buraco na roupa para introduzir o pênis na vagina da esposa, sem outras intimidades... Os sacerdotes cristãos muitas vezes eram privados de se casarem...). Percebe como fomos alimentando esse tabu?
     A civilização ocidental é fortemente influenciada pelo que se convencionou como “cristianismo tradicional”, que por sua vez, tem influências de algumas sociedades pagãs da época em que nasceu. No processo de formação de nossa cultura foi convencionado que algumas coisas são éticas e outras são “vergonhosas” ou imorais. A questão é: nosso universo de valores, nosso padrão moral, é fruto disso tudo e não, de um conceito absoluto dado por Deus. Isso é ruim? Não necessariamente. Regras são necessárias para a boa convivência em grupo. Uma “anarquia” dificilmente daria certo em um mundo cheio de seres maus e pecadores como o nosso. Mas uma vez que entendemos isso, podemos agir sem culpa ou medo de acordo com nossa consciência, que deve ter um parâmetro absoluto apenas: Jesus, pois Ele é o Verbo (Palavra) que se fez homem, é a imagem do Deus invisível, a ponto de “quem vê Ele, vê o Pai” (João 14). Então, vamos ver o que disse nossa referência absoluta sobre a sexo ou o adultério:

"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração." (Mateus 5:27,28)

      Reparem aí que "pecado" para Jesus não era o ato (sexo), e nem mesmo o desejo de realizar o ato (pulsão sexual) e sim, algo que precede isso tudo e que leva ao desejo. Jesus diz que QUANDO UMA PESSOA OLHA COBIÇANDO uma mulher, essa pessoa comete adultério? Não! Ele diz que quando olha, essa pessoa JÁ COMETEU adultério no coração. Em outras palavras: o ato de "levá-la pra cama" é a consequência final do pecado. E o desejo também não é o pecado em si. O desejo já é UMA EVIDÊNCIA de que o pecado está lá dentro da pessoa (também é consequência). O pecado não é sequer a motivação. O pecado é a capacidade da pessoa ter a motivação. Ou seja, pecado é nossa própria natureza. Quando Jesus dá esse ensino, não está ensinando a usarmos a repressão sexual a fim de não pecar e sim, jogando em nossa cara que ninguém de nós consegue evitar esse pecado. Todos somos pecadores e por isso precisamos da Graça divina.
     Dessa forma, faz sentido ensinar ao casal de namorados a não terem relações sexuais para evitarem esse pecado? Não! Pois o pecado precede o ato. E faz sentido dizer que esse casal de namorados não é casado por ainda não possuírem uma certidão de casamento ou por não terem realizado uma cerimônia religiosa? Já vimos que não. Então não podemos jamais apontar o dedo para um casal e dizer se estão certos ou errados em se relacionarem sexualmente. Devemos ensinar a todos o ideal divino, o significado do casamento e cabe a cada um analisar a si mesmo e reconhecer se está ou não em um genuíno casamento.

    O sexo uma dádiva divina para nós, para que possamos chegar ao clímax do prazer. Devemos usá-lo da melhor forma possível, com respeito ao nosso companheiro e com responsabilidade. Com amor, carinho e satisfação de ambos. Se alguém decide manter-se virgem até após realizar as cerimônias religiosas e civis, é direito dela. Se ela aceita que o casamento vai muito além dessas aparências e decide ter relação sexual em outro momento, também é direito dela. Deus não está preocupado em quando iniciamos nossa vida sexual e sim, se usamos o sexo de forma honrosa. Nós é que criamos regras e convenções, mas desde que busquemos sempre respeitar o próximo e transmitir frutos bons (de amor) em nossas relações, Deus tem prazer nisso. Nosso conceito de casamento depende exclusivamente de nossa cultura, mas Deus não é refém dela. Deus está acima e além de todos nossos conceitos morais. Se em um relacionamento há frutos de amor, aí há casamento.
     Estou dizendo então que ninguém deve se envolver com casamento religioso ou em cartório? De forma alguma. Apenas estou dizendo que o cartório é invenção humana recente e serve apenas para garantir certos direitos. E a cerimônia religiosa é uma invenção cristã (com muita influência “pagã”, em cada ato, desde as pétalas ou arroz lançados, até à forma com que o noivo segura a noiva pelo braço) e vale apenas para receber uma oração, um conselho... O que passa disso é apenas superstição e idolatria.
     Vou repetir, correndo o risco de ser prolixo: onde há amor, compromisso e cumplicidade, há casamento; onde essas condições não estão presentes, não há, mesmo que nas mãos desse suposto casal esteja um papel assinado em cartório e suas cabeças estejam ungidas e com a bênção do padre ou do pastor. Os homens vivem por aparências, mas diante de Deus, não existem máscaras, nem casamentos de fachadas.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
13/03/2017

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