4 de mar de 2017

Tolas saudações religiosas


     Quem, religioso ou não, nunca ouviu alguém cumprimentar outra pessoa com um sonoro: “A paz do Senhor”, “a paz de Deus”, “Graça e Paz” ou, simplesmente, “Paz”? São todas expressões que se tornaram jargões, clichês, no meio evangélico brasileiro. Em muitos desses meios, se um fiel cumprimentar outro fiel com um “bom dia” ou “Olá”, será motivo de escândalo e visto como um “crente carnal”, um “desviado”, um “mundano” ou alguém que se “envergonha do evangelho” (pois é, pasmem!). 
     Eu sou declaradamente contra o uso rotineiro dessas expressões ao cumprimentar alguém. Isso mesmo, por quê? Por dois motivos principais:

1 - São apenas clichês ditos de forma mecânica, desprovida de significado. 
     Muitos acham que cumprimentando assim os diferenciam, os faz mais crentes, mas a diferença não deve estar primariamente no que você veste ou diz (pois isso é da boca para fora, é aparência) e sim, no que você faz (isso sim mostra quem você é). Quantos gritam um “a paz do senhor” ao irmão, mas seu coração está cheio de mágoa, rancor e ira? Que paz é essa? E mesmo que esteja com o coração pacificado, salvo raras exceções, esse cumprimento será bem diferente dos encontrados em algumas cartas apostólicas, em que o autor (por exemplo, Paulo) pensava em cada palavra dita e provavelmente desejava aos leitores/ouvintes sinceros votos de paz. Hoje em dia isso se tornou apenas um jargão, sendo que raramente alguém os usará de forma pensada, espontânea e sincera. 

2 - Criam divisão, segregação, servindo apenas para identificar alguns “guetos”.
      Negar-se a usar esses cumprimentos não é questão de vergonha do evangelho, de Jesus e nem mesmo de pertencer a um grupo religioso, como alguns tolamente argumentam. É constrangimento por usar expressões já banalizadas, que servem apenas para diferenciar guetos, para criar segregação (pela expressão usada por uma pessoa já sabemos se ela frequenta a igreja “Assembleia de Deus” ou a “Congregação Cristã no Brasil”, por exemplo). Acredite: isso gera uma má impressão para quase todos que observam “de fora”. 
     Qual o problema em “ser normal”, em agir como todo mundo, dando “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” ou um “Olá”? Por que desejar “ser especial” e se diferenciar do seu próximo até na forma como cumprimenta seus “irmãos”? O que isso acrescenta? Será que dando um bom dia sincero você não transmitirá mais paz do que um “a paz do Senhor” mecânico? Será que as sílabas que usa ao cumprimentar alguém tem algum poder mágico? Vai viver nessa ingênua superstição?
      Em um mundo tão ruim como o nosso, devemos ser sal e luz; devemos fazer a diferença. E esse "ser diferente" nada tem a ver com a roupa que vamos vestir ou com o linguajar que vamos usar, pois isso é apenas aparência. Ser diferente é agir com amor, respeito e lealdade nas atitudes, buscando sempre realizar aquilo que traz o bem a nós e aos que nos rodeiam, pois isso é essência. 
     Se alguém usar essas expressões ao me cumprimentar, não acharei ruim e responderei com um “amém” e em seguida darei um bom dia/boa noite, mas não espere que partirá de mim qualquer um desses cumprimentos, pois como já disse, vejo muito mais motivos para rejeitá-los do que para adotá-los. Não importa quem seja, religioso ou não, jamais abrirei mão de tratar a todos sem distinção.

Autor: Wésley de Sousa Câmara
04/03/2017

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