Livros comentados

     Aqui listarei alguns livros de cunho teológico que li (ou reli) recentemente (a partir de 2015), bem como darei uma nota a eles (de 0 a 5 estrelas), citarei os principais temas abordados e deixarei minha opinião sobre os mesmos. Dividirei os livros em três grupos, de acordo com a orientação teológica que encontrei em cada um: Conservadores, Moderados e Liberais/Seculares.

Alguns livros aqui listados podem ser encontrados nesta minha biblioteca virtual (clique no link abaixo):

Uma planilha com os livros que venho lendo nos últimos anos, com a avaliação que dei a cada um deles, pode ser vista no link:
https://docs.google.com/spreadsheets/d/1j96Bt9VUbTsjyy1YqcWFKMJRG_8E4YGXYZmdCWq9Yp0/edit#gid=0

Livros teologicamente mais CONSERVADORES:

Livro: CRISTIANISMO PURO E SIMPLES
Autor: C. S. Lewis

Avaliação:  

O livro "Cristianismo puro e simples", de C. S. Lewis é composto de quatro partes (livros I a IV), e foi montado após uma adaptação de uma série de conversas de rádio ocorridas na BBC entre 1941 e 1944, período da Segunda Guerra Mundial. O autor pretende compilar alguns pontos que julga essenciais e consensuais no cristianismo, evitando fazer apologia ou crítica a quaisquer de suas vertentes.

No livro I, o autor discute a “lei natural”, a noção de certo e errado do ser humano (independente da cultura), tentando mostrar que ela não é sinônimo de instinto ou de impulso do homem.  Algumas passagens do livro se tornaram argumentos populares e frequentemente citados a favor da existência de Deus. Por exemplo, C. S. Lewis defende que a noção humana instintiva de moralidade e ética sugere a existência de uma entidade externa que nos transmite esses conceitos. Logo, há algo fora de nós (Deus) e o cristianismo é a compreensão mais fiel desse Deus criador.

No livro II, o autor foca mais na visão cristã do divino, dizendo que ou acreditamos que Jesus é o Filho de Deus ou teremos que assumir que ele era um louco. Critica o panteísmo, faz uma reflexão sobre o “bem e o mal”, fala sobre a importância do arrependimento.

No livro III, o autor fala sobre a moralidade. Cita as 4 virtudes que são pilares para o homem: a Prudência, a Temperança, a Justiça e a Fortaleza. Destaca a importância da moralidade sexual, da fé, da humildade e da esperança.

No livro IV, o autor mostra que os ser humano é individual, tem sua personalidade, sendo diferentes mesmo quando analisados apenas os seguidores de Jesus. Mas todos devem estar abertos e desejosos pela transformação divina que Deus provocará em cada um.

Embora seja um livro que tem uma abordagem bem mais conservadora do que a minha, tenha argumentos filosóficos que hoje já são considerados “ultrapassados” por aqueles que se dedicam a um estudo aprofundado da filosofia e até da teologia, e mesmo contendo muitos pontos dos quais discordo, considero-o um dos livros que devem ser lidos por todos os cristãos e por todos aqueles que desejam ter um conhecimento básico da história teológica ocidental, visto que Lewis é um desses ícones cristãos do século XX.


Livro: NASCIDO ESCRAVO
Autor: Obra derivada de "A Escravidão da Vontade”, de Martinho Lutero

Avaliação: 


"Nascido Escravo" é uma obra derivada de "A Escravidão da Vontade”, de Martinho Lutero. Não é um livro direto dele e sim, uma edição posterior, feita a partir de debates entre Lutero e seu contemporâneo Erasmo. É fruto das respostas dadas por Lutero a Erasmo, concernentes a inúmeras questões, como a salvação).

O livro foca principalmente no tema "livre arbítrio", em que Lutero refuta a ideia que o homem tem esse livre arbítrio, apontando supostas falhas argumentativas de Erasmo.
Vale dizer que "livre arbítrio" aqui não significa que o homem não tem responsabilidades ou que não faz escolhas livres em sua vida e sim, que o homem não é o responsável último por sua salvação e suas consequências (como santificação...). Ele defende que, apesar de todo o esforço e ação humanas, nada disso teria nenhum efeito ou valor se não fosse a iniciativa/prerrogativa/Graça divina e, se é assim, não podemos associar nenhum livre arbítrio à salvação. Ela vem exclusivamente de Deus. Ele demonstra que não há mesclas a se fazer. Ou a salvação vem do homem ou vem de Deus. E argumenta que ela vem 100% de Deus. Nós apenas somos vítimas e nossas ações mudariam apenas nossa relação com essa salvação, mas não seriam as responsáveis por nos dar a salvação propriamente dita.

Infelizmente os calvinistas expandem a real intenção de Lutero no livro, a fim de que pareça que ele disse mais do que ele realmente disse sobre a eleição e o livre arbítrio. Lutero rejeita sim qualquer insinuação de liberdade humana na salvação, mas ele claramente não pretendeu zerar a possibilidade de escolha humana em outros aspectos, como alguns insinuam.

E um ponto que acho válido destacar: Se essa compilação foi realmente fiel à obra original de Lutero, ele era, na época de produção desses discursos, bem mais "biblicista" ("conservador") do que quando chamou de "epístola de palha" a carta de Tiago, negando sua inspiração (coisa que realmente ele fez). Afinal alguns argumentos de Erasmo poderiam ser mais facilmente refutados, por exemplo, negando a inspiração dos textos bíblicos usados pelo seu oponente pra defender seu ponto de vista. Não precisaria de muito malabarismo teológico ou filosófico para refutá-lo.

Enfim, é uma obra que por seu papel dentro da história e da teologia cristã, não pode deixar de ser lida.


Livros teologicamente mais MODERADOS:

Livro: O AMOR VENCE
Autor: Rob Bell

Avaliação:  

Um livro relativamente curto (pouco mais de 150 páginas, em letras/orações espaçadas), de leitura agradável. O autor tem uma forma clara e simples de escrita, fazendo com que a leitura flua muito bem, além de cativar o leitor na forma leve como desenvolve seus raciocínios.

Em relação ao assunto do livro, o autor dedica um capítulo específico para falar sobre o céu, outro para o inferno e outros para falar de temas como salvação, Reino e Palavra de Deus, Evangelho, Cruz, ressurreição, eternidade... Será que o céu e o inferno são espaços geográficos distantes ou são experiências? Será que alguns viverão para sempre no paraíso e uma enormidade de pessoas queimarão eternamente no fogo eterno? Como fica a salvação dos não cristãos?

São perguntas que o autor responde, ou pelo menos encaminha um raciocínio e abre um debate, que permite ao leitor buscar uma resposta. Ele toca em "feridas" que no meio cristão atual poucos tem coragem de questionar.

O livro, quando lançado em 2011, gerou muita polêmica no meio cristão conservador. Foi inclusive chamado de herege por muitos dessa ala religiosa. Os motivos? As respostas que ele dá a essas questões não são nada conservadoras (a nível de Brasil, embora ingênuos são os que o caracterizam como liberal, pois não se enquadra no liberalismo teológico) e não são muito "ortodoxas", como entendem a maioria que seja ortodoxia. Muitos o acusam (tolamente, na minha opinião) de "universalista", embora isso tenha sido negado pelo próprio autor (e embora haja muitos universalismos), que alegou que simplesmente apresenta uma visão não conservadora (mas tão "cristã" quanto as demais) desses assuntos.

O impacto foi tão grande que muita gente na época escreveu comentários, artigos, fez declarações condenando o livro de Rob Bell. Até livros com a intenção de "refutá-lo" foram escritos.

Enfim, é um livro excelente e recomendadíssimo, principalmente para o público leigo. Independentemente de concordar ou não com tudo o que o autor expõe, com certeza será no mínimo importante para você confrontar o que defende. E para aqueles que vivem culpados, com medo de Deus ou que não conseguem crer nesse "deus" que boa parte dos cristãos pregam, é uma das melhores sugestões de leitura. Mas se tiver medo de confrontar seus paradigmas, nem comece, pois você será desafiado a refletir.




Livro: O EVANGELHO MALTRAPILHO
Autor: Brennan Manning

Avaliação: 
"O Evangelho Maltrapilho" faz parte dos livros que deveriam ser leitura "obrigatória" a todo Cristão, pois retrata em linguagem simples e clara a grandeza da Graça e do amor de Deus por nós. Como o próprio autor, Brennan Manning, diz:

"O evangelho maltrapilho foi escrito para pessoas aniquiladas, derrotadas e exauridas. Pessoas que se acham indignas de receber o amor de Deus. Quem sabe, ignoradas pela comunidade de cristãos por não se encaixarem no perfil de super-homem ou de super-mulher que lhes é constantemente exigido. Pessoas cansadas da espiritualidade superficial e consumista. Pessoas que travam inúmeras batalhas interiores por não se sentirem parte de uma comunidade afetiva e acolhedora. É um livro que escrevi para mim mesmo e para quem quer que tenha ficado cansado e desencorajado ao longo do Caminho, confessa o autor." 

É um livro que fala praticamente do início ao fim, trazendo experiências pessoais interessantíssimas, do quanto Deus nos ama mesmo nós sendo pessoas pecadoras, imperfeitas e distantes daquilo que deveríamos ser. Se você é um cristão que vive culpado ou com medo, eis uma oportunidade de, ao fazer a leitura, entender que Deus o ama como você é, mesmo não sendo o que deveria ser. E Deus o ama tanto, que o transformará e um dia você será aquilo que foi criado para ser. 



Livro: ACIMA DE TUDO
Autor: Brennan Manning

Avaliação:
O livro "Acima de tudo", de Brennan Manning mostra com sensibilidade o poderoso amor de Deus por Seus filhos.


“Acima de tudo, crucificado e deitado no sepulcro, viveste para morrer rejeitado e sozinho, como uma rosa esmagada no chão. Assumiste a culpa e pensaste em mim. Acima de tudo.”

Ganhadora do prêmio Dove-Awards, a música "Above All" (de Michael W. Smith) revela o tema central da fé: a encarnação. Esta canção serviu de inspiração para Brennan Manning criar esta obra.

Um livro bem curto e com linguagem simples. A leitura flui muito bem e em poucas horas (para não dizer minutos) é possível lê-lo tranquilamente.

O autor usa como base essa famosa canção e faz uma reflexão em cima de algumas afirmações feitas na música. O foco é a encarnação e a ressurreição de Cristo. Ele não se prende em detalhes teológicos, mas coloca tudo em termos práticos (inclusive dando seu testemunho de vida - um ex alcoolista), mostrando como Jesus é a essência da espiritualidade cristã.

Vale a pena a leitura, pois é um incentivo para aqueles que não se acham amados por Deus, que vivem com medos e culpas, pensarem bem e notarem que certamente estão equivocados e sofrendo por ainda não terem tido um conhecimento do Deus revelado em Cristo.



Livro: DEUS O AMA DO JEITO QUE VOCÊ É
Autor: Brennan Manning

Avaliação: 
O livro "Deus o ama do jeito que você é" é um tipo de autobiografia do autor, em que ele conta toda sua trajetória, desde a infância, até seus últimos dias (já que o livro foi publicado cerca de 2 anos antes de seu falecimento). Muitas experiências são relatadas, como o relacionamento difícil com seus pais, sua vida dedicada ao sacerdócio, seu casamento que tornou-se conturbado, sua vida prejudicada pelo alcoolismo e os relacionamentos desenvolvidos em seu processo de tentativa de reabilitação da dependência química. 

O livro pode ser um pouco cansativo em sua maior parte para todos que esperam ouvir mais do que uma descrição de acontecimentos interessantes e inusitados, mas vale a pena ser lido, principalmente pelo seu final, em que o leitor dedica um capítulo para um excelente sermão sobre a graça de Deus, que muitos a ironizam, chamando-a de "graça barata" e que o autor discorda e prefere a expressão genial: "graça vulgar". 

Ao final do livro, inclusive observando o testemunho de inúmeras pessoas impactadas e transformadas através das mensagens de Brennan, chegamos à conclusão que a vida do autor é uma tremenda evidência de que realmente "Deus nos ama do jeito que somos e não do jeito que deveríamos ser, pois nunca seremos do jeito que deveríamos ser".




Livro: QUEM É DEUS, AFINAL?
Autor: Rob Bell

Avaliação: 

Neste livro (cerca de 190 páginas) o autor (Rob Bell) argumenta, com base na teologia, nas escrituras, na filosofia e na física quântica como é Deus. Confronta conceitos e paradigmas religiosos de forma corajosa, como é de praxe, e traz uma visão muito mais profunda e consistente da divindade. A ciência é usada por ele não em oposição à fé, como fazem os anti-intelectuais, e sim, em consonância, de forma que a ciência demonstra estar intimamente ligada à fé e pode nos dar uma experiência muito mais profunda em nossa espiritualidade.

A parte inicial do livro é uma longa descrição de fenômenos químicos, físicos e astronômicos, que algumas pessoas, por ignorância (desconhecimento) ou por desinteresse, acabam não entendendo ou achando entediante. Porém vale a pena ter paciência, pois além de encontrarmos muitas curiosidades interessantíssimas, deixa ainda mais claro para nós que algo maior está por trás disso tudo.
A estrutura do livro é mantida em 3 pilares: “Conosco”, “Por nós” e “Adiante de nós”.

Conosco: Defende que Deus é a fonte de tudo e que está conosco o tempo todo.

Por nós: Defende que “Deus deseja que cada um de nós floresça para que possamos nos tornar o melhor que podemos ser.” E ainda se propõe a refutar a ideia de um Deus mal-humorado e vingativo.

Adiante de nós: Defende que Deus não é um ser ultrapassado e que tenta nos arrastar de volta para uma era primitiva. Deus “não se opõe à razão, à liberdade nem ao progresso – ao contrário, está convidando toda a humanidade para ir em frente, em direção a experiências cada vez mais plenas de paz, amor, justiça, empatia, honestidade, compaixão e alegria.” Nessa sessão o autor tenta demonstrar, inclusive com exemplos nas escrituras que Deus sempre impulsionava a humanidade para frente, para o progresso, para a abertura da consciência. 

É um livro no mínimo interessante e vale a pena a leitura, principalmente por fazer você pensar em vários pontos que provavelmente nunca pensou à respeito de Deus.




Livros teologicamente mais LIBERAIS/SECULARES:

Livro: UM NOVO CRISTIANISMO PARA UM NOVO MUNDO
Autor: John Shelby Spong

Avaliação:  

Se você não entende as orientações teológicas e gosta de classificar todo menos conservador que você como sendo "liberal", precisa ler este livro para entender o que é realmente essa orientação. O autor, John Shelby Spong, reflete uma visão bem liberal (embora ele mesmo não goste de se enquadrar como tal) da fé cristã. Ele defende que o cristianismo tem sido utilizado como instrumento de poder da Igreja e dos homens, seja para vencer seus medos, para justificar os absurdos da vida ou mesmo para subjugar aqueles que são, de alguma maneira, diferentes - na cor da pele, nas crenças ou nas preferências sexuais. Tudo isso baseado em dogmas, credos e tradições baseadas na literalidade dos textos bíblicos.

Spong prega uma nova Igreja, onde haja amor, justiça e respeito pelas diferenças, pois se essa igreja não mudar, ela morrerá (desaparecerá), pois não resistirá à sociedade secular do século XXI. Ele defende uma fé além do teísmo, mas não além de Deus. Explica que a crença em um Deus pessoal é mero fruto de uma crise de autoconsciência surgida nos primórdios da humanidade. Nega ainda que seja panteísta e ateísta, como alguns cristãos conservadores o rotulam. Spong explica o que teria ocasionado o início da religião e a origem dessa visão teísta de Deus. Para o autor, o teísmo morreu e era apenas uma descrição de uma experiência humana de Deus e não, a descrição de quem ou o que Deus é de fato. Deus não é uma pessoa e sim a fonte do poder que nutre uma personificação; Deus é a existência, ou mais do que isso, é a base da existência, a fonte da qual nutre todo ser. Também conclui que, se Deus não é um Ser, Jesus não pode ser a encarnação desse ser. E se Deus não é um ser, nenhuma hierarquia humana (eclesiástica) pode se dizer representante de Deus. Não há religião certa. Cristo não é o único caminho a Deus; ele é o único caminho dos cristãos a Deus, pois esses estão no contexto do cristianismo e encontraram Deus nele.

Se a base da existência é sagrada, o que vai contra a vida e a existência é "pecado". O feminismo favorece o existir; o patriarcalismo, não. Os plenos direitos aos negros e homossexuais favorecem o existir; o racismo e a homofobia, não, pois oprimem o existir. As pretensões religiosas de ser detentora da verdade oprimem o existir, não são verdade, logo, são pecaminosas. A tentativa de convencer os outros que nossa religião é o único caminho é egoísmo, ignorância e não favorece o existir. Achar que a divindade está em Jesus, mas não em outras pessoas de outras religiões, também não, logo, é uma ideia que deve ser rejeitada.

A partir disso Spong ressignifica a oração e a Eclésia (igreja). Ele defende que é crente (crê na realidade de Deus), cristão (Jesus é para ele a porta de acesso para a realidade de Deus, que está além da capacidade humana de entender), de oração (contemplar o significado de Deus como vida, amor e existência e agir de acordo com isso), ético (agente desse amor de Deus para com os outros)... A adoração, para ele, é a celebração do poder de Deus presente na vida. Ele proclama Deus além dos credos e Cristo além da encarnação.

É um livro bem interessante e muito diferente da literatura cristã tradicional. Não entro nos méritos se o autor está ou não correto em sua compreensão do divino, mas é uma leitura profunda, que mostra um outro lado, um cristianismo de fronteira com o secularismo. Como defendo que as pessoas conheçam algo antes de defender ou de criticar, penso que é uma leitura importante para todos aqueles que desejam uma compreensão das variadas orientações teológicas cristãs. Nada melhor do que entender o liberalismo teológico lendo algo vindo diretamente de um genuíno teólogo liberal.



Livro: QUEM ESCREVEU A BÍBLIA?
Autor: Bart D. Ehrman

Avaliação:  

Neste livro, o autor aborda, de forma profunda (para o público leigo), muitas questões que os cristãos, principalmente em um país teologicamente extremamente conservador como o Brasil, nunca pararam para pensar. Partimos da bíblia para a construção do nosso conjunto de crenças, mas por que a bíblia? O que ela nos trás? Quem foram os responsáveis pela produção de seu conteúdo? Podemos confiar nos livros que ela contém? Há interesses por trás dessas produções? Bart Ehrman aborda, neste livro, apenas o Novo Testamento e alguns livros apócrifos (que não foram selecionados para entrar na bíblia).

O autor defende (apresentando argumentos frutos de pesquisas) que boa parte dos livros neotestamentários não foram escritos pelos autores que tradicionalmente acreditamos. Será que todas as cartas atribuídas a Paulo foram escritas por ele? E os evangelhos, são mesmo de quem acreditamos? E a famosa carta aos hebreus? Bart mostra que no mundo antigo eram muito comuns as falsificações, falsas atribuições e plágios, sendo que é possível praticamente garantir que muitos textos que consideramos canônicos são frutos dessas ações que hoje repudiaríamos. E por que isso ocorreria? Por muitas razões, entre elas, para defender uma teologia (ou mesmo a igreja nascente) de ataques considerados heréticos. Sendo assim, muitos cristãos escreveram livros em nome de apóstolos como intuito de serem lidos, de receberem credibilidade e assim a "fé cristã genuína" seria protegida.

Bart D. Ehrman é uma das maiores referências mundiais em Novo Testamento e cristianismo primitivo. Ex-cristão fundamentalista, considera-se atualmente "agnóstico", o que julgo ser um fator muito positivo no que diz respeito à pesquisa bíblica, afinal, não sendo mais um cristão conservador nem um "ateu" militante (além do fato de, por ter iniciado sua jornada com uma fé fundamentalista, mostrar que não começou já com uma predisposição em provar o que hoje defende), tende a ser mais imparcial em seus trabalhos, já que não parte do desejo de provar a veracidade ou a falsidade de determinados textos. Esse conflito de interesses é um problema sério no meio acadêmico e a maior parte dos livros que temos fácil acesso tem isso escancarado. Vale destacar ainda a capacidade didática do autor, que escreve de forma simples e periodicamente resume e situa novamente o leitor no que está sendo discutido. Portanto, é um livro que todo cristão deveria ler com atenção para que no mínimo tenha noção de como surgiram os livros que toma como base de fé e como fundamento doutrinário. Assim, é possível saber que nem todos os textos bíblicos (assim como qualquer texto antigo) tem o mesmo peso e a mesma confiabilidade histórica. A obra nos faz pensar nos fatores que levaram à escolha final de que livros entrariam na Bíblia, quais entre eles são falsos, os motivos que levariam alguém a se passar por Pedro, Mateus ou Paulo, e o impacto que tudo isso teve no cristianismo como conhecemos hoje.




Livro: JESUS EXISTIU OU NÃO?
Autor: Bart D. Ehrman

Avaliação: 

Geralmente os livros de Bart Ehrman enfurecem os cristãos mais conservadores, porém, este, no geral, agrada. Apesar do autor seguir uma linha bem liberal, rebate com sucesso os principais argumentos dos chamado "miticistas" (que defendem, no geral, que Jesus nunca existiu).

O autor (lembrando que é uma autoridade respeitadíssima nas principais universidades do mundo) refuta, apresentando documentos, evidências históricas, arqueológicas (ao contrário do que costumam fazer os miticistas) os argumentos dos críticos, que salvo exceções, não apresentam formação acadêmica na área e tampouco lecionam nas principais universidades. Bart defende que Nazaré era real, que Jesus não só existiu, como tinha irmãos. Contra-argumenta diante das ideias infundadas de que Jesus é um mero mito copiado de religiões pagãs, sendo semelhante à Mitra, Hórus, Dionísio e Krishna. Refuta a ideia de que não há inúmeras fontes que atestam a historicidade de Jesus, bem como as associações com as chamadas "religiões de mistérios".

É um livro que todo cristão (e mesmo os não cristãos que estão interessados em saber que pontos do cristianismo são históricos) deveria ler, a fim de não ficar confuso diante de alegações supostamente coerentes, mas que não subsistem a uma análise mais aprofundada. Vale a pena destacar que o autor, além de ser uma autoridade reconhecida internacionalmente na área, não é cristão (é agnóstico), o que torna o livro imparcial e sem viés de querer concluir algo que sustenta sua crença. E Ehrman conclui e mostra evidências de que, querendo ou não, Jesus existiu (embora ele deixe claro que o "Jesus histórico" pouco tem a ver com a visão do Jesus religioso "tradicional").





Livro: COMO JESUS SE TORNOU DEUS?
Autor: Bart D. Ehrman

Avaliação: 


Neste livro, Bart D. Ehrman (uma das maiores autoridades mundiais no Novo Testamento) descreve suas conclusões, frutos de seus trabalhos de pesquisa, em relação à divindade de Jesus. O historiador defende que Jesus era um judeu dos confins da Galileia, que pregava uma mensagem apocalíptica sobre a iminência do fim do mundo e da chegada do reino de Deus. Sua pregação, que começava a atrair ouvintes e discípulos o levou à condenação à morte infame por crucificação em Jerusalém. Porém, esse homem Jesus acabou aclamado como Deus pelos cristãos. Bart então faz toda uma viagem para traçar o provável caminho histórico que levou a esse desfecho.

Será que Jesus se considerava (ou afirmava que era) Deus ou, pelo menos, o Messias judeu? Seus discípulos viam-no como tal? O que os primeiros cristãos pensavam dele?

Ehrman relata em detalhes como a compreensão da divindade, inclusive no contexto judaico dos dias de Jesus, era diferente da de hoje. Portanto, quando era dito que algo ou alguém era Deus, não necessariamente estariam afirmando que aquela pessoa ou algo era equivalente ao Deus supremo, criador, soberano (como entendemos hoje dentro do cristianismo). Então ele faz a defesa da tese de que no Novo Testamento há várias cristologias (de baixas a extremamente elevadas), diferenciando as várias percepções dos escritores dos evangelhos, bem com a de Paulo, que provavelmente também era diferenciada. Além disso, busca destacar trechos no Novo Testamento que representariam tradições pré-literárias (as visões prováveis dos discípulos, logo após a morte de Jesus).

Por fim, o autor, após argumentar sobre a historicidade ou não da ressurreição, começa a retratar as discussões em alguns "pais da Igreja" e entre cristãos que posteriormente foram considerados "hereges" pela visão dominante ("ortodoxa"), que geraram concílios no século IV e que foram determinantes para o famoso debate sobre a Trindade e para a consolidação do credo cristão que permanece até hoje.

Obviamente o livro é escandaloso para a ala fundamentalista cristã, mas para conservadores menos extremistas é uma ótima leitura, pois mesmo discordando de alguns pontos cruciais de Bart, certamente aprenderá muito, em cada página. Uma riqueza de informação que pode ser transformada em conhecimento sólido, se lido não de forma superficial e preconceituosa e sim, de forma imparcial e atenta, com o intuito de entender o ponto de vista do autor e de julgar cada afirmação com fundamentação consistente.




Livro: O PROBLEMA COM DEUS
Autor: Bart D. Ehrman

Avaliação: 

Neste livro, Bart D. Ehrman, um dos maiores historiadores mundiais especialistas em Novo Testamento, apresenta um conflito que há tanto tempo é discutido no mundo, inclusive entre cristãos: a questão do sofrimento no mundo. O autor, que já foi pastor protestante fundamentalista, relata um pouco de sua história e promove uma reflexão sobre essa questão, que foi determinante, segundo ele, para que abandonasse a fé (atualmente se considera um agnóstico).

Bart diz ter ficado tão incomodado com essa questão que por muitos anos pesquisou, refletiu, comparou explicações bíblicas e de teólogos cristãos e elas não apenas não o convenceram, como também não são nada uniformes. E é com base nessa falta de harmonia para explicar o sofrimento que ele escreve o livro.

Ehrman procura fazer uma análise bíblica aprofundada para encontrar algumas explicações principais para o sofrimento. Conclui que a visão dos profetas diverge de outras visões, como a de Eclesiastes, como as encontradas no livro de Jó e até mesmo da visão neotestamentária. O que ele afirma é: não há uma explicação bíblica para o sofrimento no mundo. O que há é diferentes visões que tentam resolver o problema, mas que nenhuma o faz definitivamente.

O autor cita exemplos de um passado recente e até mesmo do nosso dia a dia para ilustrar a seriedade do tema. As Guerras, a fome, o holocausto, as doenças típicas de países miseráveis, os desastres naturais... Analisa ainda algumas explicações populares para esses problemas, como a famosa ideia do "livre arbítrio", concluindo que elas não são satisfatórias.

É um livro desafiador, que faz pensar. Ele apresenta o tema e argumenta porque esse assunto o levou a perder a fé, mas não faz nenhuma apologia ao seu modo de pensar. Ele não tenta convencer ninguém de que a fé é falsa, mas procura mostrar que (e porque) as explicações dadas pelos meios que focam na fé não lhe convencem. Vale muito a pena ser lido, tanto pelo estilo agradável, simples e didático do autor, quanto pela riqueza de informações que a todo momento nos é dada. Alguns trechos e livros bíblicos (como trechos de Isaías, Eclesiastes, Jó...) também são explicados de forma sucinta e, ao mesmo tempo, profundas para todo leitor leigo.




Livro: A VERDADE E A FICÇÃO EM 'O CÓDIGO DA VINCI'
Autor: Bart D. Ehrman

Avaliação: 

Neste livro ("A Verdade e a ficção em O CÓDIGO DA VINCI"), o autor Bart D. Ehrman (uma das maiores autoridades mundiais em cristianismo primitivo e novo testamento da bíblia) comenta, com base em evidências históricas, muitas alegações feitas no famoso livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown.

Bart argumenta que, embora o livro de Brown seja uma obra prima de ficção, é péssimo em termos de apresentar fatos históricos. Por exemplo, Ehrman refuta alegações supostamente factuais, de que Constantino seria o "Pai do Cristianismo" (ou que tenha sido ele o responsável pela formação da bíblia ou pela institucionalização da fé cristã como religião oficial do império romano). Quem realmente foi Constantino? Qual seu papel no cristianismo? E Maria Madalena? Seria ela esposa de Jesus ou teria tido um caso com ele? E por falar em Jesus, quem realmente ele deve ter sido, segundo evidências históricas e arqueológicas? E o que dizer de textos apócrifos, que retratam direta ou indiretamente o contexto dos dias de Jesus? E o processo de formação do Cânon bíblico e as disputas teológicas antigas? São questões que o autor discute de forma simples, clara e não superficial.

Um livro extraordinário, como costumam ser as obras de Bart. Mais do que recomendado a todo cristão (e não cristão) que deseja conhecer um pouco mais do que a história tem a dizer sobre Jesus e sobre o cristianismo.